Projecto Faraday Textos de Apoio
Colisões 10º Ano de Escolaridade
Porto, Outubro de 2009
Ficha T´ ecnica
Projecto Faraday Projecto de interven¸ca˜o no ensino da F´ısica no secund´ ario.
Financiamento Funda¸ca˜o Calouste Gulbenkian.
Execu¸ c˜ ao Departamento de F´ısica, Faculdade de Ciˆencias da Universidade do Porto.
Escolas Participantes • ES Filipa de Vilhena • ES Fontes Pereira de Melo • ES Garcia de Orta • ES da Maia • ES de Santa Maria da Feira Coordena¸ c˜ ao • J. M. B. Lopes dos Santos • Manuel Joaquim Marques i
ii Portal URL: http://www.fc.up.pt/faraday
Texto do 10º Ano Redactor Principal J. M. B. Lopes dos Santos Colabora¸ c˜ ao e revis˜ ao • Elisa Arieiro • Carlos M. Carvalho • Manuel Joaquim Marques
Actividades Autores • Carlos M. Carvalho • Elisa Arieiro • J. M. B. Lopes dos Santos • Manuel Joaquim Marques • Nuno Alexandre Vaz • Nuno Nunes Colabora¸ c˜ ao • Joaquim Agostinho Moreira
iii
Parte I
ENERGIA E MOVIMENTO
1
Conte´ udo Ficha T´ecnica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
I
ENERGIA E MOVIMENTO
1
3 Colis˜ oes 3.1 3.2
7
Colis˜ oes em F´ısica . . . . . . . . . . . . . . . . . .
7
3.1.1
. . . . . . . . . . . .
8
Conserva¸ca˜o de energia em colis˜ oes . . . . . . . . .
10
Movimento da mol´ecula de O2 . . . . . . .
12
3.2.1.1
Centro de massa . . . . . . . . . .
12
Energia cin´etica de transla¸ca˜o e centro de massa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
14
3.2.3
O modelo de part´ıcula material . . . . . . .
14
3.2.4
Coeficiente de restitui¸ca˜o . . . . . . . . . .
15
3.2.4.1
Colis˜ ao com um objecto fixo . . .
17
Actividades, quest˜ oes e problemas . . . . . . . . .
18
3.3.1
Actividades . . . . . . . . . . . . . . . . . .
18
3.3.2
Problemas e quest˜ oes
19
3.2.1 3.2.2
3.3
i
O que ´e uma colis˜ ao?
3
. . . . . . . . . . . .
4
´ CONTEUDO
Lista de Figuras 3.1
3.2
3.3 3.4
3.5
Fotografia a´erea do CERN, junto ao lago Genebra. Est˜ ao marcados na foto alguns dos an´eis aceleradores deste laborat´ orio. O maior ocupa um t´ unel de 27 km de per´ımetro [1]. . . . . . . . . . . . . . . .
7
Exemplo de um evento registado no CERN. As traject´ orias das part´ıculas s˜ ao reconstru´ıdas por computadores a partir de sinais electr´ onicos nos detectores[1]. Os magnetos impedem os carros de se aproximarem demasiado. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
10
(a) Numa transla¸ca˜o, os dois a´tomos de oxig´enio tˆem o mesmo deslocamento e a mesma velocidade; (b)num movimento mais geral tˆem velocidades diferentes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
12
os a colis˜ ao, tem movimentos A mol´ecula de O2 , ap´ de rota¸ca˜o e de vibra¸ca˜o, sobrepostos ao de transla¸ca˜o. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
13
5
8
6
LISTA DE FIGURAS
Cap´ıtulo 3
Colis˜ oes 3.1
Colis˜ oes em F´ısica
Na fronteira entre a Fran¸ca e a Su´ı¸ca, junto ao Lago Genebra, existe um t´ unel de 27 km de comprimento. N˜ ao serve para apressados motoristas atravessarem complicadas passagens de montanha com mais rapidez. Se o percorremos integralmente, voltaremos ao lugar de partida: ´e um anel. Faz parte do maior laborat´ orio de F´ısica de part´ıculas do mundo, o CERN.
Figura 3.1: Fotografia a´erea do CERN, junto ao lago Genebra. Est˜ ao marcados na foto alguns dos an´eis aceleradores deste laborat´ orio. O maior ocupa um t´ unel de 27 km de per´ımetro [1].
O t´ unel est´ a repleto de material cient´ıfico, magnetos, cˆ amaras de radio-frequˆencia, detectores. No interior de um tubo de alto v´ acuo, 7
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
8
circularam1 os u ´ nicos viajantes deste t´ unel, electr˜ oes e positr˜ oes, guiados e aceleradas at´e velocidades pr´ oximas da luz, por uma combina¸ca˜o judiciosa de campos el´ectricos e magn´eticos. Para quˆe? Os electr˜ oes (carga negativa) e os positr˜ oes (carga positiva) eram acelerados no t´ unel em sentidos opostos. Em alturas determinadas, os dois feixes colidiam em zonas do anel equipadas com detectores de part´ıculas. As enormes quantidades de energia dos feixes materializavam-se em part´ıculas que emergiam da zona da colis˜ ao, para serem detectadas e medidas nos detectores. Foram conseguidas, por este processo, v´ arias descobertas muito importantes, sobre a constitui¸ca˜o mais fundamental da mat´eria. Figura 3.2: Exemplo de um evento registado no CERN. As traject´ orias das part´ıculas s˜ ao reconstru´ıdas por computadores a partir de sinais electr´onicos nos detectores[1].
O uso de colis˜ oes para estudar a constitui¸ca˜o da mat´eria e as interac¸co˜es entre os seus constituintes e´, contudo, muito anterior a` constru¸ca˜o de aceleradores de part´ıculas como os do CERN. Em 1911, Ernest Rutherford, um f´ısico neo-zelandˆes, a trabalhar em Inglaterra, descobriu a existˆencia do n´ ucleo at´ omico, estudando o modo como as part´ıculas α eram desviadas em colis˜ oes com a´tomos de uma folha de ouro. H´ a uma enorme quantidade de conceitos de f´ısica envolvidos na an´ alise das colis˜ oes do CERN, ou mesmo nas mais modestas colis˜ oes estudadas por Rutherford. Neste cap´ıtulo, far-se-´ a apenas uma muito breve introdu¸ca˜o a conceitos relacionados com a conserva¸ca˜o de energia em colis˜ oes.
3.1.1
O que ´ e uma colis˜ ao?
O que ´e uma colis˜ ao entre duas bolas de bilhar? As bolas aproximam-se uma da outra, cada uma movendo-se como se a outra n˜ ao existisse, at´e se tocarem. Depois afastam-se com velocidades modificadas. A interac¸ca˜o entre elas parece ser instantˆ anea, ou, pelo menos, ter uma dura¸ca˜o t˜ ao curta, que dela n˜ ao nos apercebemos. A colis˜ ao de uma bola de basquetebol com o solo ´e semelhante. Estes exemplos poderiam levar-nos a associar a no¸ca˜o de colis˜ ao a uma interac¸ca˜o de contacto muito breve. Mas, o conceito de “contacto” n˜ ao existe ao n´ıvel at´ omico. O tamanho de um a´tomo, ancerca de 1 ˚ A = 10−10 m, ´e essencialmente determinado pela distˆ cia a que os electr˜ oes se movem em torno do n´ ucleo; o a´tomo ´e, 1 Neste momento n˜ ao correm experiˆ encias, porque este t´ unel est´ a a ser modificado para instalar um novo acelerador de part´ıculas, o LHC, Large Hadron Collider, previsto para entrar em funcionamento em 2007.
˜ 3.1. COLISOES EM F´ISICA Equa¸ c˜ ao de Einstein Al´em do princ´ıpio de conserva¸c˜ao de energia, que temos discutido, existe um outro, descoberto h´ a mais tempo, que ´e a lei de conserva¸c˜ao de massa, de Lavoisier. Se as part´ıculas que constituem a mat´eria (electr˜ ao, prot˜ ao, neutr˜ ao, etc) existissem para sempre, a lei de conserva¸c˜ao de massa seria uma consequˆencia de o n´ umero destas part´ıculas ser constante. Sabemos, hoje, que ´e poss´ıvel criar e destruir part´ıculas, transform´ a-las em outras part´ıculas ou em radia¸c˜ao. Einstein descobriu que n˜ ao havia duas leis de conserva¸c˜ao separadas, massa e energia, mas apenas uma. Aos termos de energia que j´ a conhecemos, associados a movimento, ou interac¸c˜oes, juntou um termo, para cada part´ıcula de massa m, chamado a energia em repouso e dada pela mais c´elebre f´ ormula da F´ısica: E = mc2 , em que c ´e a velocidade da luz. A massa n˜ao ´e conservada (as part´ıculas podem ser destru´ıdas e criadas) mas a energia total ´e, se incluirmos os termos de energia em repouso. Nas colis˜ oes electr˜ ao-positr˜ ao dos aceleradores do CERN, as energias cin´eticas do electr˜ ao e do positr˜ ao s˜ao t˜ ao elevadas (velocidades pr´ oximas da luz), que ´e poss´ıvel criar um grande n´ umero de part´ıculas, de massa muito mais elevada que as do electr˜ ao ou do positr˜ ao. Se a massa total das part´ıculas emergentes da colis˜ ao for M , a conserva¸c˜ao de energia implica que 2me c2 + Ec = M c2 + Ec! , em que Ec ´e a energia cin´etica total do electr˜ ao e positr˜ ao que colidem e Ec! ´e a energia cin´etica total das part´ıculas que resultam da colis˜ao, mais a energia da radia¸c˜ao. Como explicar, ent˜ ao, a lei de Lavoisier? As part´ıculas mais leves que se conhecem s˜ao os electr˜ oes e positr˜ oes. Para criar um par (n˜ ao ´e poss´ıvel criar um electr˜ ao sem criar um positr˜ ao), ´e necess´ ario dispor de uma energia de: 2me c2 = 2 × 9, 1 × 10−31 × (3 × 108 )2 = 1, 6 × 10−13 J = 106 eV. Nas reac¸c˜oes qu´ımicas entre duas mol´eculas s˜ao libertadas energias da ordem de 1 eV. Nunca h´ a energia suficiente para criar, sequer, a part´ıcula mais leve. Da´ı que a massa seja conservada. Mas se a energia for suficientemente elevada, ou se juntarmos uma part´ıcula com a sua anti-part´ıcula, como nos aceleradores do CERN, isso deixa de ser verdade.
Caixa 3.1: Rela¸c˜ao de Einstein e conserva¸c˜ao de energia.
9
10
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
sobretudo, espa¸co vazio. As for¸cas que os a´tomos (neutros) exercem uns sobre os outros s˜ ao muito fracas, quando as distˆ ancias s˜ao grandes comparadas com o tamanho at´ omico, mas tornam-se muito fortes, e repulsivas, quando a distˆ ancia ´e da ordem, ou menor, que o tamanho at´ omico. Por isso nos parece que objectos como bolas de bilhar s´ o interagem quando se tocam. magnetos
Figura 3.3: Os magnetos impedem os carros de se aproximarem demasiado.
No outro extremo, os astrof´ısicos estudam colis˜ oes entre gal´ axias, em que as distˆ ancias entre as estrelas que as comp˜ oem s˜ ao da ordem do tamanho de uma gal´ axia e a colis˜ ao pode durar 100 milh˜ oes de anos. Na actividade 3.2, observam-se colis˜ oes entre carros, numa calha de alum´ınio, sem que estes realmente se toquem. Na extremidade de cada carro existem dois magnetos. Quando os carros se aproximam demasiado, as for¸cas repulsivas entre os magnetos tornam-se elevadas e, num curto intervalo de tempo, o movimento dos carros ´e alterado. Se os carros n˜ ao se tocam, ser´ a que deveremos chamar a isto uma colis˜ ao? Quando se reflecte um pouco em todos estes exemplos, chegamos a` conclus˜ ao que, o que importa, realmente, neste tipo de interac¸ca˜o, ´e que existe um tempo durante o qual os objectos se movem independentemente um do outro, sem for¸cas m´ utuas; depois interagem durante um intervalo de tempo limitado e finalmente emergem da interac¸ca˜o (eventualmente modificados), de novo livres de interac¸co˜es m´ utuas.
" Actividade 3.1
Em resumo, o que caracteriza uma colis˜ ao, ´e que h´ a um antes e um depois em que o movimento ´e f´ acil de descrever porque n˜ ao h´ a interac¸co˜es. Por esta raz˜ ao, princ´ıpios de conserva¸ca˜o, como o da energia, s˜ ao muito importantes na an´ alise e discuss˜ ao de colis˜ oes. O que acontece durante a colis˜ ao, pode ser complexo e extremamente dif´ıcil, ou imposs´ıvel, de descrever. Mas as grandezas conservadas, como a energia, n˜ ao podem mudar e permitem-nos relacionar os estados inicial e final do sistema.
3.2 " Actividade 3.2
Conserva¸ c˜ ao de energia em colis˜ oes
Para ser concreto, tomemos uma colis˜ ao entre dois carros como os da Actividade 3.2. Quando os carros est˜ ao afastados, n˜ ao interagem. A respectiva energia potencial e´ constante, pois n˜ ao h´ a for¸cas m´ utuas que possam realizar trabalho. Como vimos atr´ as,
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
11
podemos tomar essa constante como zero. A energia dos carros antes da colis˜ ao ´e cin´etica: E=
1 1 m1 v12 + m2 v22 . 2 2
m1 e m2 s˜ ao as massas dos dois carros e v1 e v2 as respectivas velocidades antes da colis˜ ao. Se as velocidades depois da colis˜ ao forem v1" e v2" , a energia ser´ a: 1 1 2 2 E " = m1 v " 1 + m2 v " 2 . 2 2 Havendo conserva¸ca˜o de energia, ter´ıamos: E = E". Na Actividade 3.2 verifica-se que, em geral, isto n˜ ao acontece. O " mais frequente ´e ter-se E < E, embora seja poss´ıvel preparar situa¸co˜es em que se verifica o contr´ ario2 . Vejamos exemplos: a) Se dois carros idˆenticos colidem com velocidades de m´ odulo igual e sentidos opostos e ficam juntos (colados), a respectiva velocidade final ´e nula. Sen˜ ao, repare-se: dois carros iguais, a mover-se com velocidades de m´ odulo igual, um em direc¸ca˜o ao outro. Colidem e ficam juntos. Por que raz˜ ao haveriam de se mover num sentido e n˜ ao no sentido oposto? Ou ´ nico resultado compat´ıvel com a simetria da situa¸ca˜o ´e uma velocidade final nula. Neste caso a energia cin´ etica final ´e zero. b) Uma bola de basquete, v´ olei, ou t´enis, nunca sobe a` altura inicial se for deixada cair sobre uma superf´ıcie r´ıgida. Isso significa que perdeu energia cin´ etica ao colidir com o solo. Se partiu do repouso, a sua energia inicial era E = mgh. Se atingir a altura h" , a sua energia ´e E " = mgh" (a velocidade ´e nula no ponto de altura m´ axima). A maior parte da energia " perdida, mg(h − h ), ´e devida a` colis˜ ao com o solo. Estas colis˜ oes, em que n˜ ao h´ a conserva¸ca˜o de energia cin´etica, chamam-se inel´ asticas. As colis˜ oes entre objectos macrosc´ opicos, em geral, s˜ ao inel´ asticas, em maior ou menor grau. O que acontece `a energia? Numa colis˜ ao inel´ astica n˜ ao h´ a conserva¸ca˜o de energia? 2 Eis um exemplo: prepara-se um carrinho com uma mola comprimida na extremidade. Se a mola for libertada na colis˜ ao a energia cin´ etica do conjunto pode aumentar.
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
12
3.2.1
Na Actividade 3.3 consideram-se v´ arios exemplos de colis˜ oes inel´ asticas em que se torna evidente que a energia cin´ etica perdida pode ser transferida para outros movimentos, que n˜ ao o de transla¸ca˜o do corpo.
" Actividade 3.3
O O
O O
(a) O O
Movimento da mol´ ecula de O2
O O
(b)
Figura 3.4: (a) Numa transla¸c˜ao, os dois ´atomos de oxig´enio tˆem o mesmo deslocamento e a mesma velocidade; (b)num movimento mais geral tˆem velocidades diferentes.
Para compreender melhor esta situa¸ca˜o, vamos considerar um corpo muito simples, a mol´ecula de O2 . Tem dois a´tomos de oxig´enio a` ˚ A massa da mol´ecula ´e quase exclusivamente distˆ ancia de 1, 48 A. devida a` massa dos dois n´ ucleos, cujas dimens˜ oes s˜ ao muito inferiores a` da pr´ opria mol´ecula. Assim, a energia cin´etica associada ao movimento da mol´ecula ´e, no essencial, a energia cin´etica dos dois n´ ucleos3 : 1 1 EO2 = mO v12 + mO v22 . (3.1) 2 2 Se as velocidades dos dois n´ ucleos forem iguais (em m´ odulo, direc¸ca˜o e sentido), a mol´ecula tem um movimento dito de transla¸ c˜ ao. Nesse caso podemos dizer que a velocidade da mol´ ecula ´e v = v1 = v2 e 1 1 EO2 = (2mO )v 2 = mO2 v 2 . 2 2 Mas, o movimento de transla¸ca˜o ´e uma situa¸ca˜o muito especial. Os ´atomos de oxig´enio podem rodar ou oscilar em torno da posi¸ca˜o m´edia. As velocidades de cada a´tomo s˜ ao, em geral, diferentes e v1 #= v2 . O que ´e, nesse caso, a velocidade da mol´ ecula? 3.2.1.1
Centro de massa
O ponto m´edio entre os dois n´ ucleos (sobre o segmento que os une, a distˆ ancia igual dos dois n´ ucleos) ´e designado por centro de massa da mol´ecula de O2 . O movimento dos dois n´ ucleos implica que o ponto m´edio entre eles tamb´em se desloque. Podemos tomar a sua velocidade, vcm , como sendo a velocidade da mol´ecula, como um todo. A vantagem desta escolha particular e´ que a energia cin´etica total da mol´ecula se pode escrever na forma4 : 1 2 EO2 = mO2 vcm + E". 2 3
A contribui¸ca ˜o electr´ onica para a energia da mol´ ecula ´e importante e uma parte significativa dessa energia e´ energia cin´ etica dos electr˜ oes. Mas essa energia s´ o varia se houver uma mudan¸ca de estado electr´ onica, uma altera¸ca ˜o da nuvem electr´ onica. Em geral, isso n˜ ao acontece numa colis˜ ao entre duas mol´eculas ou com outros a´tomos a baixas energias. 4 A demonstra¸ca ˜o deste resultado ser´ a feita no 11º ano.
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
13
O primeiro termo ´e exactamente o que esperar´ıamos, se a mol´ecula fosse uma part´ıcula simples, com movimento definido pela posi¸ca˜o de um ponto. Isto ´e, se a mol´ecula fosse uma part´ıcula material. O segundo termo ´e a energia cin´etica dos n´ ucleos no seu movimento relativo ao centro de massa. Ou seja, 1 1 2 2 E " = mO v " 1 + mO v " 2 . 2 2 As velocidades v1" e v2" s˜ ao medidas tomando como origem de coordenadas o centro de massa, ponto m´edio entre os dois n´ ucleos. Imaginemos agora uma colis˜ ao desta mol´ecula com um a´tomo de H´elio, por exemplo, conforme se mostra na Fig. 3.5.
O O O O
He He
Figura 3.5: A mol´ecula de O2 , ap´ os a colis˜ ao, tem movimentos de rota¸c˜ao e de vibra¸c˜ao, sobrepostos ao de transla¸c˜ao.
Se n˜ ao olharmos para “dentro” da mol´ecula de O2 , e seguirmos apenas o movimento do seu centro de massa, usando um modelo de part´ıcula material, ser´ a de esperar que se conserve a energia cin´etica, 1 1 2 2 mO2 vcm + mHe vHe ? 2 2 Na geometria da Fig. 3.5, a mol´ecula de O2 ter´ a, certamente, um movimento de rota¸ca˜o em torno do seu centro; a sua energia cin´etica total n˜ ao ser´ a apenas o termo associado ao movimento do centro de massa. Em geral, haver´ a at´e uma oscila¸ca˜o dos dois n´ ucleos em torno da posi¸ca˜o de equil´ıbrio e teremos uma contribui¸ca˜o de energia potencial, resultante da interac¸ca˜o entre eles. A equa¸ca˜o do balan¸co da energia ter´ a de incluir todos os termos que podem variar na interac¸ca ˜o: 1 1 2 2 mHe vHe + mO2 vcm + E " + Ep = const. 2 2
" Part´ıcula material: um sistema f´ısico numa situa¸c˜ao em que o seu movimento pode ser descrito pela posi¸c˜ao de um ponto.
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
14
Em resumo: n˜ ao h´ a conserva¸ca˜o da soma das energias cin´eticas do atomo de h´elio e da mol´ecula de O2 , considerados como part´ıculas ´ materiais. Mas h´ a conserva¸ca˜o de energia quando levamos todos os movimentos em considera¸ca˜o.
3.2.2
Energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao e centro de massa
Veremos no 11º ano que o conceito de centro de massa ´e aplic´ avel a qualquer sistema complexo de massas, desde um a´tomo at´e uma gal´ axia. Trata-se de um ponto cuja posi¸ca˜o ´e determinada, em cada instante, pelas posi¸co˜es da massas do sistema e cuja velocidade, #vcm , permite a seguinte decomposi¸ca˜o da energia cin´etica total do corpo:
A energia cin´etica total de um corpo pode escrever-se na forma: 1 2 Ec = M vcm + E" 2 em que: • M ´e a massa total do corpo; • #vcm ´e a velocidade do centro de massa; • E " ´e a energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa.
Para objectos geometricamente regulares, com distribui¸ ca˜o sim´etricas de massa (esferas, cilindros, cubos), a posi¸ca˜o do centro de massa coincide com o centro geom´ etrico do corpo. N˜ ao vamos, de todo, considerar situa¸co˜es mais complexas. O termo de energia cin´etica associado ao movimento do centro de massa ´e designado por energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao.
3.2.3
O modelo de part´ıcula material
Mesmo sem o sabermos, us´ amos, em todo o cap´ıtulo 2, um modelo de part´ıcula material para descrever o movimento dos corpos. Ao falarmos na velocidade de um corpo estamos a supor que
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
15
o seu movimento pode ser descrito pela varia¸ca˜o de posi¸ca˜o de um ponto. Os corpos macrosc´ opicos podem ter movimentos muito mais complexos. Aquilo a que cham´ amos energia cin´etica de um corpo era, realmente, apenas a energia cin´ etica de transla¸ca˜o, determinada pelo movimento do centro de massa. Se s´ o esse termo variar num determinado processo, o modelo de part´ıcula material ´e apropriado. Por exemplo, no movimento orbital da Terra em torno do Sol, e´ muito boa aproxima¸ca˜o considerar apenas as varia¸co˜es de energia associadas ao movimento de centro de massa da Terra: o modelo de part´ıcula material ´e aplic´ avel. J´ a numa colis˜ ao de uma mol´ecula de O2 com um a´tomo de He, este modelo pode n˜ ao ser adequado. Estes exemplos mostram que o modelo de part´ıcula material nada tem a ver com o tamanho ou a complexidade do sistema. Tem apenas a ver com o facto de, em muitas situa¸co˜es, as varia¸co˜es de energia poderem ser caracterizadas em termos do movimento do centro de massa. 2 /2, ´ A energia cin´etica de transla¸ca˜o, M vcm e apenas um dos termos associados ao movimento de um corpo. Quando dois corpos interagem, em geral, a soma das respectivas energias cin´ eticas de transla¸ca˜o n˜ ao se conserva, podendo haver transferˆencia de energia do movimento de transla¸ca˜o de cada um dos corpos para outros ´ isto que se passa numa colis˜ tipos de movimento. E ao inel´ astica.
3.2.4
Coeficiente de restitui¸ c˜ ao
Numa colis˜ ao, que quantidade de energia cin´ etica pode ser transferida para outros modos? Toda? S´ o uma parte? Na Actividade 3.2 investigamos colis˜ oes entre dois carros de iguais massas, m. Algumas s˜ ao colis˜ oes fortemente inel´ asticas: perde-se uma parte substancial (ou mesmo a totalidade) da energia cin´ etica. Temos duas maneiras de escrever a energia cin´ etica dos dois carros (ver Caixa 3.2) : a) Como a soma das energias de cada um dos carros: 1 1 Ec = mv12 + mv22 . 2 2 b) Como a soma da energia cin´etica de transla¸ca˜o do sistema dos dois carros com a energia cin´etica de movimento relativo
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
16
C´ alculos de energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao Exemplo 1: Se os dois carros se aproximam um do outro com velocidades de sentido oposto e igual m´ odulo, v, a energia cin´etica total ´e 1 1 Ec = mv 2 + mv 2 = mv 2 . 2 2 O centro de massa (ponto m´edio entre os dois carros) n˜ao se move, porque os carros deslocam-se a mesma distˆ ancia em tempos iguais. Assim, vcm = 0. A energia cin´etica de transla¸c˜ao do sistema de dois carros ´e nula. Toda a energia cin´etica ´e de movimento relativo: E ! = Ec . Exemplo 2: Se um dos carros est´ a parado e o outro se aproxima com velocidade v, a energia cin´etica total ´e Ec =
1 mv 2 . 2
Quando o carro em movimento avan¸ca de x, o ponto m´edio entre os dois carros avan¸ca de x/2. Logo, a velocidade do centro de massa ´e v/2. A energia cin´etica de transla¸c˜ao ´e Etr =
! v "2 1 1 (2m) = mv 2 2 2 4
ou seja, metade da energia cin´etica total. d/2
d/2 CM
v
v
Exemplo1 d/2 d v
CM
v/2
Exemplo 2
Caixa 3.2: Exemplos de c´ alculo da energia cin´etica de transla¸c˜ao de um sistema de dois corpos.
˜ DE ENERGIA EM COLISOES ˜ 3.2. CONSERVAC ¸ AO
17
ao centro de massa (que ´e o ponto m´edio entre os carros, como no caso da mol´ecula de O2 ): 1 2 Ec = (2m)vcm + E" 2 ´ muito importante distinguir a energia de transla¸ca˜o do sistema E dos dois carros, da soma das energias cin´eticas de transla¸ca˜o de cada carro. Para dois carros iguais, a posi¸ca˜o do centro de massa do sistema ´e o ponto m´edio entre os dois carros. A velocidade do centro de massa do sistema ´e a velocidade desse ponto. Por exemplo, se os carros se aproximarem um do outro com velocidades de m´ odulo igual, v, o ponto m´edio entre eles n˜ ao se desloca: #vcm = 0 e a energia cin´etica de transla¸ca˜o do sistema ´e nula (ver Caixa 3.2 da p´ agina 16). Mas a energia cin´etica de transla¸ca˜o de cada carro ´e mv²/2. Veremos, no 11º ano, que as leis do movimento de Newton implicam a conserva¸ca˜o da energia cin´ etica de transla¸ c˜ ao de um sistema isolado (os dois carros no nosso exemplo). A u ´nica parte que pode variar numa colis˜ ao ´e a energia cin´etica de movimento relativo ao centro de massa, E " . ´ habitual caracterizar o grau de inelasticidade de uma colis˜ E ao pelo respectivo coeficiente de restitui¸ c˜ ao, e, definido do seguinte modo. A raz˜ ao entre as energias cin´eticas de movimento relativo depois e antes de uma colis˜ ao, Ef" e Ei" , ´e o quadrado de e: e2 =
Ef" Ei"
.
Quando os corpos que colidem ficam juntos ap´ os a colis˜ ao, a velocidade de cada corpo ´e tamb´em a velocidade do centro de massa: n˜ ao h´ a movimento relativamente ao centro de massa. Neste caso, Ef" = 0 e e = 0: a colis˜ ao diz-se perfeitamente inel´ astica. Se houver conserva¸ca˜o de energia cin´etica, Ef" = Ei" e e = 1: a colis˜ ao ´e el´ astica. 3.2.4.1
Colis˜ ao com um objecto fixo
Uma colis˜ ao com um objecto fixo, como uma parede, pode ser inclu´ıda, da seguinte forma, na discuss˜ ao anterior.
˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
18
Um objecto fixo funciona como um corpo de massa infinita (a parede est´ a fixa a` casa, que por sua vez est´ a rigidamente ligada ao solo, etc.). Neste caso, o centro de massa do sistema pode ser considerado como sendo o centro de massa do objecto de massa infinita, que permanece im´ ovel; logo, vcm = 0. O quadrado do coeficiente de restitui¸ca˜o ´e simplesmente: mvf2 /2 vf2 Ef e = = = 2, Ei mvi2 /2 vi 2
em que m ´e a massa do sistema que colide com a parede e vi e vf s˜ ao as suas velocidades, antes e depois da colis˜ ao. Sendo assim, o coeficiente de restitui¸ca˜o ´e e=
3.3
vf . vi
Actividades, quest˜ oes e problemas
3.3.1
Actividades
3.1. Colis˜ ao de bola com superf´ıcie Considerar a colis˜ ao entre uma bola e uma superf´ıcie nas seguintes situa¸co˜es limite: i) Uma superf´ıcie muito deform´ avel (como um membrana el´ astica) e uma bola r´ıgida (como uma bola de bilhar). ii) Uma superf´ıcie muito r´ıgida (parede) e uma bola (muito) deform´ avel. Para estes dois casos: (a) Fazer uma representa¸ca˜o esquem´ atica da configura¸ca˜o dos dois corpos, em fun¸ca˜o do tempo, incluindo v´ arios instantes durante a colis˜ ao. (b) Representar, nesses esquemas, as for¸cas que a superf´ıcie e o corpo exercem mutuamente. (c) Fazer um gr´ afico qualitativo da energia cin´ etica da bola em fun¸ca˜o da sua posi¸ca˜o relativamente a` parede. Relacionar as varia¸co˜es de energia cin´etica da bola com o trabalho das for¸cas que a parede exerce sobre ela. 3.2. Colis˜ oes entre carrinhos Ver ficha de actividade A7.
˜ 3.3. ACTIVIDADES, QUESTOES E PROBLEMAS
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3.3. Colis˜ oes inel´ asticas Ver ficha de actividade A8. 3.4. Ensaio Um colega, faz a seguinte afirma¸ca˜o: “Quando atiro uma bola de plasticina a` parede, a energia que imprimi a` bola perde-se: a energia n˜ ao ´e conservada”. Escrever um texto (m´ aximo de uma p´ agina A4) rebatendo essa conclus˜ ao, recorrendo a exemplos e a situa¸co˜es an´ alogas `a apontada pelo colega.
3.3.2
Problemas e quest˜ oes
3.1. Colis˜ ao de ´ atomos de h´ elio Dois a´tomos de h´elio, no respectivo estado fundamental, colidem com velocidades de 100 m s−1 . (a) Qual ´e a energia cin´etica total em electr˜ oes-volt? (b) Sabendo que o primeiro estado excitado de um a´tomo de h´elio est´ a quase 20 eV acima do fundamental, esta colis˜ ao ser´ a el´ astica ou inel´ astica? 3.2. Colis˜ oes entre autom´ oveis (1) Como classificar uma colis˜ ao frontal entre dois autom´ oveis? (a) El´ astica; (b) fracamente inel´ astica (e ! 1); (c) fortemente inel´ astica (e ≈ 0). 3.3. Colis˜ oes entre autom´ oveis (1) Considerar as seguintes colis˜ oes frontais entre autom´ oveis idˆenticos (m = 1000 kg): i) Um carro a 45 km h−1 colide com outro parado. ii) Dois carros colidem com velocidades de 30 km h−1 de sentidos opostos. (a) Calcular as energias cin´ eticas totais iniciais. (b) Calcular as energia cin´eticas iniciais de movimento relativo ao centro de massa. (c) Qual destas colis˜ oes seria classificada de mais violenta (causadora de maiores danos nos autom´ oveis e seus ocupantes)? Justificar.
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˜ CAP´ITULO 3. COLISOES
3.4. Bola de basquete Uma bola de basquetebol, largada do repouso de uma altura 1 m, s´ o sobe a uma altura de 80 cm. (a) Qual ´e o coeficiente de restitui¸ca˜o da colis˜ ao com o solo? (b) O coeficiente de restitui¸ca˜o, em boa aproxima¸ca˜o, ´e independente das velocidades iniciais dos corpos que colidem. A que altura subir´ a a bola de basquete no segundo ressalto do solo? 3.5. Sucesso do CERN Um dos objectivos dos aceleradores de part´ıculas ´e obter a m´ axima energia poss´ıvel para permitir a cria¸ca˜o de part´ıculas de massa mais elevada. Por que ´e que uma configura¸ca˜o de dois feixes a viajar em sentidos opostos e´ mais eficaz do que uma colis˜ ao de um feixe com um alvo estacion´ ario?
Bibliografia [1] CERN. URL: www.cern.ch.
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