O PAPEL DAS VISITAS DE ESTUDO NO ENSINO DAS CIÊNCIAS O Ambiente Marinho Entre-Marés
SÍLVIA FERREIRA ANA SILVA Aceite para publicação em 11 de Março de 2010
Licença Creative Commons da Casa das Ciências
O papel das visitas de estudo no ensino das ciências – O ambiente marinho entre-marés Ferreira & Silva, 2010
INTRODUÇÃO As visitas de estudo no âmbito da Biologia/Geologia, bem como em outras áreas curriculares, têm sido consideradas actividades práticas fundamentais no processo de ensinoaprendizagem. Assiste-se, cada vez mais nas escolas, a uma aposta generalizada nas potencialidades deste tipo de actividade. Indesejavelmente, os motivos que levam alguns professores a realizarem visitas de estudo nem sempre passam pelo desenvolvimento de competências dos alunos através da realização de uma actividade estruturada, acabando, por vezes, por se tornarem num simples passeio com os alunos. Deste modo, este trabalho pretende ser um instrumento de auxílio aos professores na planificação e na execução de uma visita de estudo estruturada, concretamente ao ambiente marinho entre-marés, esperando-se contribuir para que, nesta situação, a prática pedagógica dos professores se torne mais eficaz. Esta actividade prática foi concebida pelas autoras e realizada com alunos do 8º ano de escolaridade na disciplina de Ciências Naturais. Considerou-se especialmente importante o desenvolvimento de competências em diferentes domínios, tais como o conhecimento substantivo, processual e espistemológico, o raciocínio, a comunicação e as atitudes, de acordo com o que o actual currículo do ensino básico preconiza (Ministério da Educação, 2001). Este instrumento encontra-se estruturado em duas partes principais. A primeira é constituída por um enquadramento teórico que fundamenta, com base na literatura consultada, o trabalho desenvolvido, fazendo uma breve abordagem à temática das visitas de estudo em Biologia/Geologia e ao ecossistema marinho entre-marés. Na segunda, tendo por base o tema “Ecossistema marinho entre-marés”, são concretizadas as ideias apresentadas através da construção de uma actividade constituída por três etapas – a aula anterior, a visita de estudo e a aula posterior. Espera-se que este trabalho contribua para que os professores possam planificar e realizar uma visita de estudo ao ecossistema marinho entre-marés, tendo em conta o papel que as visitas de estudo podem desempenhar na formação integral dos alunos. Considera-se que o trabalho estabelece uma inter-relação entre uma abordagem teórica e prática, de modo a que os alunos possam desenvolver competências complexas, num processo revestido de significado. Ao longo da planificação serão apresentados exercícios, exemplos, actividades, questões, entre outros, de modo a ir ao encontro dos objectivos propostos.
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1. ENQUADRAMENTO TEÓRICO Em diferentes aspectos da educação científica, vários cientistas, referidos por Gil-Pérez e colaboradores (2002), têm contribuído para a existência de um corpo de conhecimento coerente relacionado com o construtivismo, suportando a ideia de que é necessário “implicar os alunos na (re)construção do conhecimento científico de modo a tornar possível uma aprendizagem significativa e duradoura” (p.559). Deste modo, na abordagem construtivista do ensino das ciências, os alunos, em vez de terem um papel passivo no processo de ensino-aprendizagem, desempenham um papel activo. Aprendem os conteúdos escolares através de um processo de construção pessoal dos mesmos, reorganizando o próprio conhecimento e enriquecendo-o. Assim, tal como refere Mauri (2001), “a aprendizagem, entendida como construção de conhecimentos, implica o entendimento tanto da dimensão do conhecimento como produto como da dimensão do conhecimento como processo, isto é, do caminho através do qual os alunos elaboram pessoalmente os seus conhecimentos” (p.83). O professor, mais do que um mero transmissor de saberes, assume, nesta perspectiva construtivista, um papel de orientador das aprendizagens. Aprender ciência de acordo com a visão construtivista significa que os alunos precisam de realizar “experiências científicas do mundo real, de modo a tornarem-se cientificamente alfabetizados” (Mintzes et al., 2000, p.172). Neste contexto, e de acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), literacia científica consiste na “capacidade de usar o conhecimento científico, de identificar questões e de elaborar conclusões baseadas em evidências de modo a compreender e a ajudar a tomar decisões sobre o mundo natural e sobre as suas alterações provocadas pela actividade humana” (OECD, 1999, p.60). Associada à definição de literacia científica está a noção da interacção entre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). Daí que, de acordo com Membiela (2001, citada em Fontes & Silva, 2004), para se conseguir efectuar a alfabetização científica é necessário introduzir a interacção CTS nas aulas de ciências. Dos vários objectivos do movimento CTS, apresentados por Fontes e Silva (2004), destacam-se os seguintes: desenvolver o pensamento crítico e a independência intelectual dos alunos; esbater as fronteiras entre os conhecimentos científicos e os conhecimentos metacientíficos; analisar os aspectos políticos, económicos éticos e sociais da ciência; e promover a alfabetização científica de todos para que possam exigir dos diferentes poderes decisões fundamentadas. A interacção CTS encontra-se incluída na dimensão sociológica externa da noção de construção da ciência apresentada por Ziman (1984). A ciência, de acordo com este autor, tem de ser encarada como uma instituição social e, por isso, têm de se considerar as suas várias dimensões 3
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metacientíficas, as quais estão inter-relacionadas: dimensão filosófica – metodologia usada na investigação científica; dimensão psicológica – características pessoais dos cientistas; dimensão histórica – ciência como uma actividade dinâmica, que evolui; dimensão sociológica interna – relações sociais dentro da comunidade científica – e externa – interacção entre ciência, tecnologia e sociedade. As visitas de estudo, que se situam no quadro das actividades práticas, podem revelar-se uma importante estratégia para o desenvolvimento da literacia científica dos alunos. Importa, assim, compreender as concepções teóricas de diferentes autores acerca das vantagens e desvantagens das visitas de estudo, bem como os resultados de alguns estudos empíricos. Para além disso, faz-se uma breve abordagem a alguns aspectos relacionados com a realização de uma visita de estudo ao ambiente marinho entre-marés. 1.1 – Visitas de Estudo no âmbito da Biologia/Geologia As visitas de estudo, de acordo com Almeida (1998), quando são encaradas como uma “qualquer deslocação efectuada pelos alunos fora do recinto escolar com objectivos educacionais” (p.25), constituem estratégias que podem facilitar a compreensão dos conhecimentos científicos e o desenvolvimento de competências cognitivas e sócio-afectivas dos alunos. Através delas os alunos podem observar e estudar directamente os materiais de estudo nos seus locais funcionais (Krepel, 1981, citado em Rudmann, 1994). Deste modo, este tipo de actividade prática deve ser parte integrante de qualquer currículo de ciências pelas potencialidades que tem para o desenvolvimento equilibrado de diferentes tipos de competências dos alunos, nomeadamente ao nível conceptual, procedimental e das atitudes (Barros, 2000). Para Keown (1984), por mais sofisticado que seja o material usado nas aulas, nada pode substituir uma visita de estudo. “Não há nenhuma sala de aula equivalente à observação de um rio limpo, claro e despoluído, antes de entrar na cidade, e encontrá-lo, quando sai da cidade, verde, sem oxigénio e com uma comunidade de organismos poluentes” (p.43). Na opinião deste autor, as visitas de estudo permitem que os alunos conceptualizem as relações ecológicas e passem a ter exemplos locais que podem associar aos novos conceitos aprendidos. Do mesmo modo, Carmen (1999, citada em Dourado, 2000) refere que através destas actividades é possível estabelecer uma visão dinâmica e complexa da Natureza, por exemplo, a visita a um ecossistema permite estabelecer inter-relações entre os diversos organismos vivos e entre estes e o local onde vivem.
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Nas visitas de estudo podem coexistir os três tipos de educação – formal, a que se desenvolve em instituições, como a escola; não formal, a que é veiculada, por exemplo, pelos museus; e informal, a que se processa nas conversas do dia a dia, por exemplo, entre familiares ou colegas – contudo é necessário que os alunos tenham a noção de que este tipo de actividade se situa no contexto formal de aprendizagem, sendo implementado para o desenvolvimento de competências que se revelam em diferentes domínios, tais como o conhecimento, o raciocínio, a comunicação e as atitudes, tal como está preconizado no actual currículo (Ministério da Educação, 2001a). Se assim não for, os alunos podem encarar as visitas de estudo “apenas como um espaço privilegiado de relação mais próxima com o professor e os colegas e não lhes reconhecem qualquer utilidade do ponto de vista da aprendizagem cognitiva com efeitos na sua motivação pela disciplina de Ciências” (Almeida, 1998, p.35), acabando por ter comportamentos não adequados ao contexto das visitas de estudo. Deste modo, para que os alunos reconheçam este tipo de actividade como continuidade do contexto formal, Almeida (1998) refere algumas medidas que devem ser aplicadas: realização de fichas de trabalho durante a visita que posteriormente são objecto de uma análise atenta; discussão dos conhecimentos abordados na visita; aproveitamento do material recolhido para promover outras actividades práticas; e introdução de conteúdos relacionados com a visita em testes formativos e/ou sumativos. Uma revisão de literatura, efectuada por Couto e Duarte (2000), sugere que alguns dos objectivos principais das visitas de estudo em ciências são os seguintes: proporcionar um contacto directo com o objecto a estudar e com a Natureza; permitir que o aluno recolha e organize informação, relacionando-a com os conhecimentos que possui; abordar procedimentos científicos específicos; e contribuir para a motivação dos alunos. Orion (1993) também alega que as visitas de estudo permitem a aprendizagem de novos conceitos que podem auxiliar a aprendizagem futura na sala de aula e, por outro lado, podem facilitar a construção de conceitos abstractos, promovendo a aprendizagem significativa. Miguens e Garrett (1991) referem ainda que este tipo de actividade permite desenvolver quer algumas capacidades científicas práticas, tais como observar e manipular, quer atitudes positivas, como por exemplo, comunicar e cooperar. Pessoa (1991, citado em Almeida, 1998) também atribui às visitas de estudo a possibilidade de contribuírem para a aquisição de valores e atitudes pelos alunos, nomeadamente o sentido de responsabilidade e solidariedade, a espontaneidade e a criatividade.
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Apesar de as visitas de estudo serem consideradas, por vários autores, como actividades que assumem um importante papel no processo de ensino-aprendizagem, é necessário que o professor tenha em conta não só as suas potencialidades, mas também as suas limitações. Têm sido desenvolvidos alguns estudos que procuram verificar a natureza dos ganhos obtidos com as visitas de estudo. McNamara e Fowler (1975, citados em Keown, 1984) constataram que os alunos obtiveram ganhos quer ao nível da compreensão de conceitos científicos relacionados com o ambiente visitado, quer ao nível do desenvolvimento do pensamento crítico, e que aumentaram o seu gosto pelo ambiente natural. Por sua vez, Harvey (1951, citado em Rudmann, 1994), considera que as evidências do valor das visitas de estudo como método de ensinoaprendizagem decorrem, essencialmente, de opiniões não fundamentadas e raramente se apoiam em investigação ou estudos sistemáticos. O autor verificou que ocorreu uma melhoria positiva nas atitudes científicas dos alunos que realizaram a visita de estudo. Adeniyi (1985, citado em Almeida, 1998) constatou que alunos entre os 13 e 15 anos compreenderam mais facilmente os conceitos de ecossistema, habitat, comunidade, população, fluxo de energia e papel dos produtores, do que os alunos que não realizaram actividades fora da escola. Alguns autores defensores da utilidade das visitas de estudo não deixam de indicar várias limitações à sua concretização e à sua eficácia. Segundo Almeida (1998), estes obstáculos podem ser agrupados em motivos institucionais, pessoais ou relacionados com as características dos alunos. De acordo com Mason (1980, citado em Almeida, 1998), ao professor é pedido, cada vez mais, um maior número de exigências, o que o impede de ter tempo para planificar este tipo de actividade. A preparação de uma visita de estudo é um trabalho árduo e exige, a maior parte das vezes, uma deslocação prévia aos locais a visitar. O autor também refere a existência de turmas demasiado grandes como um factor limitante, uma vez que o professor pode ter dificuldade em controlar muitos alunos fora da sala de aula. Openshaw e Whittle (1993, citados em Almeida, 1998) e Orion (1993) mencionam como factor limitante à concretização de visitas de estudo a falta de confiança científica de alguns professores quando saem da sala de aula e, nesse estudo, muitos professores referiram a dificuldade em identificar os seres vivos. Outro aspecto a considerar, constatado por Moseley (1994, citado em Almeida, 1998), é o facto dos alunos menos motivados se limitarem a copiar os apontamentos da visita de estudo uns pelos outros, anulando a importância do trabalho efectuado. Na literatura consultada (Keown, 1984; Hodson, 1992; Orion, 1993; Rudmann, 1994; Almeida, 1998; Couto & Duarte, 2000) é referido que é fundamental que o professor planifique cuidadosamente uma visita de estudo, de modo a assegurar a aprendizagem cognitiva e o 6
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desenvolvimento de atitudes científicas pelos alunos, de acordo com os conteúdos a aplicar, tendo a noção que a planificação deste tipo de actividade é muito exigente quando comparada com a planificação de actividades para a sala de aula. Assim, o professor deve escolher o local a visitar de acordo com as competências que pretende desenvolver e deve também avaliar o desempenho dos alunos. Em relação ao modo como as visitas de estudo são organizadas e implementadas é necessário ter em atenção três aspectos: “a localização de uma visita de estudo no interior de uma unidade temática, a entidade responsável pela dinamização e a forma como essa mesma entidade actua durante a visita” (Almeida, 1998, p.71). No que diz respeito ao primeiro aspecto, diversos autores (Keown, 1984; Falk, Koran & Dierking, 1986; Miguens & Garrett, 1991; Hodson, 1992; Rudmann, 1994; Wellington, 2000) destacam a importância da existência de conhecimentos que possam funcionar como organizadores prévios do novo conteúdo a abordar na visita de estudo. Tal como refere Hodson (1992) “uma criança que não tenha o conhecimento teórico apropriado não saberá para onde olhar, ou como olhar, de modo a efectuar as observações apropriadas para realizar a tarefa pedida, ou como interpretar o que vê” (p.67). Assim, tendo por base este pressuposto, a visita de estudo deve ser colocada próximo do fim das unidades temáticas, de modo a contribuir para uma relação mais eficaz entre os conceitos abordados. Tal como é preconizado por Torre (1994, citado em Couto & Duarte, 2000), por Orion (1993) e por Nespor (2000), é benéfico para o aluno que exista um antes, um durante e um após, o que contribui para uma maior conformidade no processo de ensinoaprendizagem. No momento anterior à visita de estudo, Orion (1989, citado em Almeida, 1998) constatou que é necessário fornecer aos alunos (1) informações sobre a área a visitar, utilizando-se vários recursos, como filmes e/ou fotografias acerca do local, já que diminuem a excitabilidade dos alunos durante a visita de estudo, assim como o efeito novidade do espaço que irão visitar, facilitando, por isso, a aprendizagem significativa durante a visita; e (2) conhecimento prévio em termos dos conteúdos temáticos, uma vez que o novo conhecimento construído durante a visita de estudo pode relacionar-se com aspectos relevantes já existentes. Gennaro (1981) também verificou que o contacto prévio com alguns conceitos foi fundamental para a aprendizagem ocorrida durante a visita. Noutro estudo, efectuado por Delaney (1967, citado em Rudmann, 1994), constatou-se que os alunos obtinham melhores resultados cognitivos quando lhes era fornecida uma descrição do que iriam observar na visita de estudo, bem como os objectivos da actividade. Deste modo, a realização de actividades exploratórias prévias à visita de estudo e uma orientação do local a visitar podem melhorar o desenvolvimento quer cognitivo quer das atitudes científicas dos alunos (Rudmann, 7
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1994), tendo-se o cuidado, no entanto, de não tornar a visita de estudo meramente “ilustrativa” de aspectos já abordados com os alunos. Posteriormente à visita de estudo, Keown (1984) e Rudmann (1994) sugerem que o professor deve fornecer materiais e desenvolver actividades que ajudem os alunos a organizarem e a integrarem a aprendizagem efectuada durante a visita de estudo. Em relação à entidade responsável pela dinamização da visita de estudo e à forma como actua, Almeida (1998) constatou que os resultados dos alunos que realizaram visitas dinamizadas pelo professor foram sempre superiores aos dos alunos que efectuaram visitas dependentes de instituições. De acordo com o autor, os dinamizadores externos não conseguem o mesmo grau de articulação entre o conhecimento focado nas visitas e os conceitos já abordados pelos alunos, devido a várias razões: desconhecimento detalhado dos programas, falta de adequação do discurso ao nível etário dos alunos e deficiente utilização de estratégias de discussão promotoras do desenvolvimento de competências complexas. Almeida (1998), no estudo que efectua, introduz uma dimensão sociológica, recorrendo à teoria do discurso pedagógico de Bernstein1. Ao considerar, com base nesta teoria, as visitas de estudo como modalidade de prática pedagógica, o autor procurou verificar quais as características sociológicas que estas podem ter e que são facilitadoras do desenvolvimento de competências cognitivas e socioafectivas dos alunos das classes desfavorecidas (apesar de algumas dessas características estarem inerentes a qualquer visita de estudo, outras dependem do modo como ocorre a sua implementação). O enfoque está sobretudo na eficácia das visitas de estudo para os alunos das classes desfavorecidas porque estes alunos, sujeitos a formas de socialização primária mais afastadas da escola, poderão encontrar à partida dificuldades em relação aos contextos onde decorrem as visitas de estudo face às vivências proporcionadas pela família. O professor deve, assim, estar consciente que ao efectuar visitas de estudo pode estar a contribuir para o aumento do posicionamento dos alunos, à partida, mais favorecidos. Tal como refere Almeida (1998), “parece assim ressaltar mais uma vez a importância da forma de dinamização da visita e as formas de 1
De acordo com a teoria do discurso pedagógico de Bernstein (Morais & Neves, 2001), os contextos pedagógicos são definidos por relações específicas de controlo e poder entre os sujeitos, discursos e espaços. O poder define-se em termos de classificação e relaciona-se com as fronteiras que se estabelecem entre as várias categorias (sujeitos, espaços e discursos): a classificação é forte quando há uma nítida separação entre categorias e é fraca quando há um esbatimento das fronteiras. O controlo define-se em termos de enquadramento, que refere a comunicação que se estabelece entre as categorias consideradas: o enquadramento será mais forte quando as categorias superiores (por exemplo, o professor) têm todo o controlo sobre as categorias inferiores (por exemplo, os alunos). Podem considerar-se as relações entre professor-aluno, nas regras discursivas (selecção, sequência, ritmagem e critérios de avaliação) e hierárquicas, e nas relações entre os discursos académico-não académico.
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exploração utilizadas pelo professor no decorrer das mesmas como maneira de permitir a participação de todos os alunos e impedir o monopólio da comunicação por parte dos melhor posicionados” (p.100). Assim sendo, o autor considera que as características, a nível sociológico, que estiveram na base da organização das visitas de estudo efectuadas e que contribuíram para resultados mais favoráveis dos alunos, foram as seguintes: (1) ritmagem com enquadramento fraco, tendo-se verificado que os alunos tiveram um controlo superior sobre o seu ritmo de aprendizagem em relação à sala de aula; (2) maior explicitação dos critérios de avaliação, com o recurso a materiais pedagógicos, de modo a que todos os alunos identifiquem o conhecimento legítimo exigido; (3) valorização do conhecimento não académico, o que permite valorizar outras formas de saber, não esquecendo que o conhecimento académico tem maior estatuto; e (4) diminuição da classificação entre os espaços professor-aluno e aluno-aluno. Deste modo, o estudo efectuado “parece apontar claramente para a necessidade da … cuidada planificação [das visitas de estudo] de modo a tornálas uma actividade com algum interesse na aprendizagem dos alunos, nomeadamente daqueles com uma origem social mais desfavorecida” (Almeida, 1998, p.200). Salienta-se ainda que nas visitas de estudo há espaço para os professores estabelecerem relações intradisciplinares, favorecendo as múltiplas relações entre os vários conceitos abordados em diferentes alturas no(s) ano(s) lectivo(s) e levando o aluno a uma melhor compreensão do encadeamento temático. Pode ser também uma forma de recapitulação dos conteúdos apreendidos, mas efectuada de um modo mais enriquecedor porque está relacionada com os novos conteúdos. Deste modo, possibilita-se que o aluno possa ter uma visão global dos conteúdos da disciplina. A existência de intradisciplinaridade revela-se de grande importância quando se considera o ensino das ciências, dado que o conhecimento científico possui uma estrutura hierárquica (Bernstein, 1999), havendo, por isso, no discurso das ciências, integração de teorias que operam a níveis cada vez mais abstractos.
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1.2 – A Visita de Estudo no Ecossistema Litoral O trabalho que se apresenta pretende ser uma ferramenta que auxilie os professores na planificação e na realização de visitas de estudo a ambientes marinhos entre-marés, uma vez que este tipo de actividade prática é preconizado quer no currículo de Ciências Físicas Naturais (Ministério da Educação, 2002) quer no currículo de Biologia e Geologia (Ministério da Educação, 2001b). Com este tipo de actividade tenciona-se desenvolver as seguintes competências gerais referidas no Currículo Nacional do Ensino Básico (Ministério da Educação, 2001a, p.15): (a) mobilizar saberes culturais, científicos e tecnológicos para compreender a realidade e para abordar situações e problemas do quotidiano; (b) adoptar estratégias adequadas à resolução de problemas e à tomada de decisões; (c) realizar actividades de forma autónoma, responsável e criativa; e (d) cooperar com outros em tarefas e projectos comuns. Podem ser várias as dificuldades sentidas pelo professor na planificação deste tipo de actividade, especialmente em consonância com as orientações curriculares. Incluem-se impedimentos tais como, reduzida disponibilidade de tempo para a sua planificação, dificuldades por falta de base científica na identificação de organismos in situ e a necessidade de realizar visitas prévias ao local de estudo. Utilizando este instrumento, o professor terá acesso a toda a informação que se julga necessária para poder obter uma elevada eficácia neste tipo de actividade prática. 1.2.1 – A Selecção do Ambiente Marinho Entre-marés Um sistema litoral é constituído por quatro andares localizados na plataforma continental. Um andar corresponde à distribuição específica e constante de conjuntos de organismos numa faixa em relação ao nível do mar. Assim sendo, o sistema litoral divide-se nos andares supralitoral, mediolitoral, infralitoral e circalitoral (Figura 1.1).
Figura 1.1. Caracterização do sistema litoral. 10
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A natureza específica dos povoamentos/comunidades está na base da definição de cada andar, correspondendo a sua subdivisão a um padrão regular de distribuição na direcção terra-mar. A extensão de cada um está directamente dependente da influência dos seguintes factores: grau de hidrodinamismo e amplitude de maré nos povoamentos. Como situação de referência, tenha-se em conta que o andar circalitoral inicia-se a partir do limite inferior do andar infralitoral, a cerca de 20m a 24m de profundidade. Os andares supralitoral, mediolitoral e infralitoral compõem a zona intertidal (inter = entre; tidal = maré), ou zona entre-marés (Figura 1.2).
Figura 1.2. Subdivisão da zona intertidal.
Esta faixa corresponde à zona da praia que sofre directamente a influência da subida e descida das marés e que é posta a descoberto pela baixa-mar (Nybakken, 2001). A zona intertidal encontra-se directamente sobre a influência dos ciclos de maré que, em Portugal se traduzem num regime tidal (=maré) diurno, ou seja, duas preia-mar e baixa-mar por dia. É na área relativamente restrita da zona entre-marés (na maioria dos casos, na ordem de dezenas de metros) que ocorre a transição entre o ambiente aquático marinho e o ambiente terrestre, pois os organismos estão temporariamente expostos ao ar (na baixa-mar). Os organismos colonizadores da zona supralitoral são sempre expostos ao ar durante um maior período de tempo. Devido ao facto de o gradiente ambiental ser acentuado e espacialmente restrito, a zona intertidal de litorais rochosos apresenta uma distribuição característica das espécies em bandas horizontais marcadamente distintas, designada por zonação. A composição específica de cada andar será descrita em capítulos posteriores. As praias enquadram-se nas faixas litorais, podendo apresentar zonas intertidais de carácter arenoso e/ou rochoso. Esta característica encontra-se directamente relacionada com a acção de diferentes graus de hidrodinamismo. Pode ainda surgir o caso de deposição sedimentar correspondente a material geológico mais fino como o caso das vasas e lamas das rias e estuários. Não obstante a variedade de vida que se pode encontrar nas praias de deposição de sedimento móvel (areias e vasas), sugere-se que as intervenções pedagógicas em campo se realizem 11
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em litorais rochosos. As zonas intertidais de natureza rochosa apresentam elementos distintivos que as tornam vantajosas para intervenções de carácter pedagógico. Revestindo-se de cariz variado, serão seguidamente apresentadas as principais características que, no entender das autoras, descrevem o ambiente intertidal em geral e o substrato rochoso em particular, como um excelente veículo de exploração programática das disciplinas de Ciências Naturais, nomeadamente nos 7º e 8º anos de escolaridade, nos temas organizadores “Terra em Transformação” e “Sustentabilidade na Terra” (Ministério da Educação, 2002), e Biologia e Geologia, especificamente no 10º ano nos temas “A Geologia, os Geólogos e os seus Métodos” e “Diversidade na Biosfera” (Ministério da Educação, 2001b) e no 11º ano nos temas “Sistemática dos Seres Vivos” e “Geologia, Problemas e Materiais do Quotidiano” (Ministério da Educação, 2003). A zona intertidal representa a área mais reduzida de todas na divisão inerente às zonas dos oceanos; no entanto, é sem dúvida a mais bem estudada (Menge & Branch, 2001). Assim, existe actualmente toda uma panóplia de informação científica e cultural direccionada para a compreensão de toda a sua dinâmica biológica/ecológica e geológica, no que respeita a fenómenos de erosão e transporte sedimentar. Este facto representa sem dúvida uma mais valia, na medida em que toda a informação sobre a ecologia das comunidades e do ambiente intertidal se encontra disponível e facilitada. A elevada acessibilidade do estudo dos organismos aquáticos sem necessidade de qualquer tipo de equipamento especial, representa sem dúvida uma vantagem especial, facto impossível noutros ambientes marinhos (Nybakken, 2001). A facilidade de observação e manipulação experimental dos organismos in situ conduz a uma situação preferencial quando comparada com a abordagem experimental em laboratório de custo acrescido. A escolha deste ambiente para visita de estudo pode ainda ser consolidada na medida em que duas situações de ganho pedagógico efectivo podem ocorrer: alunos não familiarizados com o ambiente litoral (por residência em zonas interiores do país ou outros) tomam contacto por exploração directa com novos ambientes ecológicos, expandindo assim a sua formação; e, em caso de conhecimento prévio deste ambiente por parte dos alunos, novos conceitos são abordados, alicerçando e estruturando assim o conhecimento já existente. Cerca de 80 % da população portuguesa reside na zona litoral (Biosfera, 1998) tendo uma influência diária no equilíbrio natural desta região. Assim, a compreensão do seu funcionamento, bem como o incentivo à sua protecção, tornam-se indelevelmente prioritários na escolha da transmissão cultural. 12
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Dentro das actividades pedagógicas a realizar ao ar livre, a visita de estudo à zona intertidal apresenta riscos de segurança relativamente reduzidos, desde que se cumpram as regras de segurança que serão atempadamente apresentadas. No entanto, na escolha da praia deve ter-se em consideração o declive das formações rochosas (que não deverá ser muito acentuado), assim como a amplitude diária da maré. Apresenta uma extraordinária diversidade de vida aquática marinha em substrato rochoso, evidenciando idênticas respostas adaptativas às diferentes variações ecológicas que podem ocorrer nestas áreas marinhas. Deste modo, o estudo da ecologia das espécies e das comunidades na sua interacção com o meio ambiente, permite a realização de actividades que se direccionam para a mobilização de competências simples até às que pretendem o desenvolvimento de competências complexas. Litorais de natureza rochosa são especialmente adequados para intervenções pedagógicas deste género uma vez que apresentam vários pontos de elevado interesse: (a) os povoamentos encontram-se distribuídos em bandas claramente definidas (zonação) (Cremona, 1988); (b) existe uma elevada concentração de diversos grupos taxonómicos de animais e plantas, traduzidos numa miríade de espécies; (c) as consequências de intervenções, naturais ou antropológicas, são directamente observáveis; e (d) é sujeita a grandes variações de factores ambientais numa escala extremamente reduzida (centímetros), amplificando assim os padrões e adaptações da vida marinha nestes locais (Nybakken, 2001). O facto da vida marinha intertidal se fazer representar por animais de natureza séssil e de movimentos lentos introduz uma vantagem na abordagem prática a estes ambientes, pois a manipulação e observação tornam-se mais simples, reduzindo assim os efeitos de qualquer interferência no decorrer do seu estudo (Little & Kitching, 1996). Quer se trate de um litoral rochoso ou de sedimento móvel, é possível abordar, no âmbito da temática geológica, toda a variedade dos diversos elementos geológicos destas zonas em particular. Será, sem dúvida, importante e inalienável uma abordagem tanto dos elementos geológicos constituintes, bem como da diversidade de vida a eles associada. Torna-se então possível tanto uma perspectiva geológica da dinâmica de sedimentos e de fenómenos modeladores como a erosão, como uma visão ecológica da vida marinha. Esta dupla riqueza num único local será, nitidamente, uma mais valia a que se deve estar atento em exemplos eficazes claramente pretendidos em visitas de estudo. Devido a todos estes factores, a zona intertidal fornece um sistema ideal para estudos científicos e intervenções pedagógicas ao nível da ecologia básica das comunidades e populações, influências ambientais na sua distribuição, taxonomia e aspectos fundamentais da fisiologia marinha 13
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(e.g. Connell, 1972; Hawkins & Jones, 1992; Little & Kitching, 1996; Nybakken, 2001; Saldanha, 1997). Enquanto adaptada a um espaço restrito sujeito a uma panóplia de factores de modelação, quer físicos quer biológicos, a vida marinha intertidal representa um mundo próprio, espelho das adaptações dos organismos ao ambiente em que se inserem. 1.2.2 – Os Locais da Visita de Estudo A escolha de locais propícios para a realização de visitas de estudo deve ser cuidadosamente planeada, independentemente do ano escolar a que se destina a visita. Na selecção dos locais a visitar devem considerar-se, essencialmente, os seguintes aspectos: - Acessibilidade do local a visitar, bem como a influência dos factores sazonais climáticos. Em primeiro lugar é necessário avaliar os acessos pedonais ao local de estudo, sendo desejável a presença de rampas, caminhos de fácil acesso e/ou escadas firmemente seguras. Este factor torna-se vital na escolha de praias delineadas por arribas ou encostas abruptas. Em segundo lugar, há que ter em conta a variação sazonal do clima. Tempestades, ventos fortes, chuvas e temperaturas reduzidas são factores característicos do Inverno e que podem influenciar o sucesso da visita, quer ao nível da estabilidade das comunidades biológicas, quer ao nível da segurança e facilidade com que a visita se pode desenrolar. Ventos e correntes fortes podem eventualmente reduzir o efeito de descida de maré em determinadas circunstâncias. Será desejável realizar a visita de estudo que se sugere neste trabalho no início da Primavera/Verão onde as condições climatéricas são mais amenas e onde se evidenciam facilmente as comunidades biológicas. - Adaptabilidade das características intrínsecas do local da visita ao conteúdo programático em causa. O professor deverá ter em consideração os objectivos da sua visita de estudo, uma vez que as vertentes biológica, ecológica ou geológica, entre outras, podem ser tomadas em consideração. Se possível, é desejável que o professor considere todas essas vertentes, estabelecendo relações intradisciplinares. As autoras consideram que um local de estudo altamente favorável para a execução deste instrumento de trabalho deverá incluir uma extensão considerável de formação rochosa, a presença visual facilmente identificável das comunidades, uma variabilidade na composição geológica e, possivelmente, alguns aspectos resultantes da pressão antropológica. - Disponibilidade satisfatória de informação relativa ao local da saída, bem como ao conteúdo teórico programático a abordar com os alunos durante a visita. Este aspecto é importante para a 14
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realização de algumas abordagens que o professor planeie, bem como para a sua própria familiarização com toda a variabilidade pedagógica que um local de estudo pode apresentar. - Adequação dos locais de estudo aos diversos níveis de conhecimento e a todo o gradiente de proveniência dos alunos, podendo ser para uns uma exposição introdutória a novos ambientes, e para outros uma experiência recorrente. Aqui as autoras desejam realçar a importância da escolha do professor sobre o nível de aprofundamento/dificuldade que deseja aplicar. Sendo um habitat complexo, em que interacções biológicas e pressões ambientais ocorrem com elevada e diferenciada expressão, o professor deverá ter em consideração o perfil dos seus alunos, de modo a que sejam propostos novos desafios aos alunos e, simultaneamente, haja concordância entre esse perfil e o nível de conhecimento a abordar. - Consciencialização das dificuldades inerentes ao local escolhido, nomeadamente a resolução de problemas inesperados in situ dos vários foros, devendo o professor ter a preocupação de prever alternativas de “emergência”. A acção do hidrodinamismo pode, de facto, inviabilizar a execução da visita de estudo prevista. Recorrer à discussão de alguns aspectos na sala de aula e/ou ao visionamento de imagens, podem representar algumas das alternativas possíveis. 1.2.3 – As Praias de Portugal Apresentando cerca de 940 km de costa, o litoral português oferece inúmeras oportunidades de estudo intertidal. De um modo geral, quase todas as praias que apresentem uma extensão aceitável de plataforma ou formações rochosas na zona sujeita à acção das marés serão indicadas para a realização de uma visita de estudo. No entanto, deve ter-se em atenção as características que acima foram assinaladas, com especial incidência nas questões de acessibilidade e segurança. Sugerem-se, agora, mais pormenorizadamente, alguns locais que se poderão tornar interessantes pelas suas características particulares, ou apenas como exemplos regionais. De notar que existirão necessariamente variações na composição e disposição espacial das comunidades nas praias ao longo da costa, muito em parte devido à distribuição geográfica das espécies marinhas e às adaptações específicas ao seu habitat. Região Norte Na região Norte do país, indicam-se três casos bastante atractivos para o estudo das zonas intertidais: por exemplo as praias de Cabo do Mundo, da Guelfa (Vila Praia de Âncora) e a Aguda perto do Porto. Outros exemplos poderão ser Vila do Conde e Valadares. A praia da Aguda é 15
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especialmente adequada pois nela existe uma estação marinha dedicada à divulgação e investigação ambiental da zona intertidal da praia (Fundação E.L.A.- Estação Litoral da Aguda). Esta entidade poderá disponibilizar apoio e informação adicional para o desenvolvimento da actividade programada. O caso da Ria de Aveiro. A Ria de Aveiro alberga uma elevada variedade de habitats, que lhe conferem uma acentuada importância natural, e desde sempre esteve ligada à exploração humana (Biosfera, 1998). De facto, poderá tornar-se interessante a abordagem de trabalho em grupo para a discussão da temática “O Homem e a sua relação com a Natureza”, a diversos níveis tais como a apanha de moliço (algas), a produção de sal, a pesca e a cultura de moluscos, entre outros. A natureza sedimentar móvel desta ria pode, inicialmente, parecer contraditória neste contexto, no entanto, poderá representar uma mais valia em abordagens mais abrangentes, nomeadamente, numa situação de comparação local de comunidades biológicas em substratos diferentes. Região Centro Sendo uma região de Portugal sob acção marítima menos acentuada do que a região norte, salientam-se vários exemplos de praias da região centro muito adequadas para a realização de visitas de estudo ao ecossistema entre-marés. Assim, na zona de Lisboa destaca-se a Praia das Avencas (Figura 1.3) na Parede (Cascais), praia desde há muito utilizada para fins de divulgação científica e pedagógica. O instrumento que se apresenta neste trabalho encontra-se, em muito, baseado nas características ecológicas desta praia, no sentido em que são apresentadas componentes práticas aí desenvolvidas. Relativamente a esta zona, pode-se também assinalar a existência do Laboratório Marítimo da Guia (Guia-Cascais), entidade oficial onde decorrem trabalhos de investigação marinha e onde existem investigadores e informação direccionados para o estudo dos ecossistemas intertidais.
Figura 1.3. Praia das Avencas na baixa-mar.
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Na zona do Oeste existem igualmente exemplos adequados para o desenvolvimento destas actividades como são os casos das praias da Areia Branca, Peralta e Paimogo (Figura 1.4) na Lourinhã, das praias da Ericeira e das praias rochosas do concelho de Peniche. A riqueza de fauna e flora presentes nestas praias é fortemente assinalável, bem como as excelentes condições de acessibilidade e adaptabilidade ao estudo em causa. A reserva marinha das Berlengas é sem dúvida um marco de referência nesta região.
Figura 1.4. Praia de Paimogo na transição entre marés.
Em particular, há ainda que realçar o facto de, nesta área, existir uma preponderante tradição cultural relacionada com a exploração dos recursos marinhos. Em Peniche e Lourinhã era prática corrente no passado, a apanha de algas para a adubação natural de campos e para o fabrico de substâncias farmacêuticas (ex. agár-agár). De igual forma se desenvolve ainda a apanha artesanal de recursos vivos marinhos, prática essa transmitida entre gerações. A Câmara Municipal da Lourinhã publicou um manuscrito direccionado para esta última temática (Silva, 2005). A exploração de recursos marinhos poderá representar um excelente tema a desenvolver em trabalhos de grupo na área da “Exploração Sustentável de Recursos”, relacionada com a protecção do meio ambiente. Região Sul Apesar de ser à partida uma zona por excelência de deposição sedimentar, são várias as características regionais que tornam a região sul do país muito atractiva para a prática pedagógica in situ. As praias de substrato rochoso localizam-se preferencialmente na zona ocidental da costa sul portuguesa. Apontam-se como exemplos as praias de Olhos d`Água, Praia da Luz e Ferragudo. Algumas praias do sudoeste alentejano também podem ser consideradas, tais como Queimado, Zambujeira e Monte Clérigo, no entanto, deve ter-se em atenção a existência de um maior grau de exposição ao hidrodinamismo e declives mais acentuados. 17
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O centro de estudos do mar pertencente à Universidade do Algarve (Faro) possui pólos de investigação nesta área, podendo representar uma adequada fonte de informação. Nesta região salienta-se ainda a existência da reserva natural da Ria Formosa em Faro-Olhão (Figura 1.5). Este sistema lagunar apresenta uma elevada riqueza faunística característica de sedimentos móveis. O grupo das aves encontra-se aqui representado através de espécies migratórias, raras e/ou de difícil observação noutros locais. Na Figura 1.6 apresentam-se diversos exemplos de fauna passível de ser comummente encontrada na Ria Formosa.
Figura 1.5. Ria Formosa.
Figura 1.6. Exemplos de fauna presentes na Ria Formosa: no topo esquerdo, Rola-do-mar Arenaria interpres; no topo direito, crustáceo decápode Uca tangeri; em baixo, Garça-branca-pequena Egretta garzetta. 18
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Mais uma vez, pode ser considerada uma excepção a ter em conta no contexto de estudo das relações antropológicas com a Natureza (Figura 1.7). Esta Ria desde sempre constituiu uma excelente fonte de moluscos bivalves e de fauna piscícola. Informações adicionais podem ser encontradas no Centro de Educação Ambiental da Quinta do Marim e no Instituto de Investigação das Pescas e do Mar em Olhão. a
c
b
Figura 1.7. Diversos aspectos de actividade antropológica desenvolvida na Ria Formosa: (a) exploração de berbigão e ostra; (b) apanha de bivalves; e (c) apanha de bivalves e crustáceos como sejam o longueirão (Solen marginatus) e o camarão (Upogebia pusilla).
1.2.4 – Selecção do Local da Visita de Estudo Realça-se novamente a importância de uma escolha adequada da praia a visitar, onde se devem reunir todas as condições de segurança, acessibilidade e adaptabilidade ao estudo pretendido. Elevado grau de hidrodinamismo e declives acentuados poderão representar riscos adicionais. O ideal será recorrer a praias de plataforma rochosa horizontal (Figura 1.3) e evitar praias com grande aglomeração de blocos rochosos ou de calhaus soltos rolados, pois a concentração de vida aquática nesta última situação apresenta situações ecológicas de diferentes características. Estas últimas, em alguns casos, também poderão retratar situações de maior hidrodinamismo.
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Muitas praias podem apresentar elevadas concentrações de frondes de algas, o que muitas vezes indica um menor grau de hidrodinamismo (Figura 1.8) e onde se poderá também encontrar associada uma elevada biodiversidade (Figura 1.9).
Figura 1.8. Zona de algas de baixo hidrodinamismo.
Figura 1.9. Diversidade vegetal.
Praias em que se observa uma razoável deposição de areia sobre a plataforma rochosa não representam os habitats ideais para o desenvolvimento de actividades destinadas à observação de vida marinha característica de substrato rochoso. A presença de areia pode, em alguns casos, influenciar a fixação de determinados organismos. O melhor compromisso que se poderá encontrar será uma zona litoral que forme uma baía protegida da acção marítima preponderante, onde a influência das ondas seja inexistente ou atenuada pela acção de formações rochosas protectoras (Figura 1.10).
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Figura 1.10. Praia do Caniçal – Acção marítima atenuada pelas formações rochosas circundantes.
Outros aspectos práticos que têm de ser tidos em consideração são, por exemplo, a escolha de um dia que apresente uma amplitude de maré adequada, a percepção de quanto tempo disponível se dispõe antes da subida de maré, as condições climatéricas, quando iniciar e terminar a visita e a influência sazonal nos organismos. Estes elementos serão abordados na apresentação do guião da visita de estudo realizada em capítulos posteriores. 1.2.5 – Segurança na visita de estudo Como qualquer outra actividade prática a realizar, a deslocação ao ambiente marinho entremarés envolve dificuldades e riscos que devem ser encarados de um modo preventivo e responsável. Uma vez que estarão envolvidos alunos de várias idades num ambiente que lhes poderá ser novo, as autoras consideram essencial incluir informação relacionada com a segurança, de modo a serem minimizados os possíveis riscos envolvidos na visita de estudo. Neste sub-capítulo procedeu-se à avaliação dos principais riscos de vária ordem que podem ser associados a esta visita de estudo, e a qualquer outra actividade do mesmo foro, a realizar no sistema litoral. Para além disso, descrevem-se medidas e abordagens inerentes a uma correcta prevenção e resolução de possíveis problemas. Neste sentido, apresenta-se no Apêndice A uma ficha de avaliação de riscos e respectivas medidas de controlo, que deve ser preenchida no momento de preparação da visita de estudo. Esta ficha pretende ser um suporte à componente de segurança humana envolvida na visita, onde se enumeram os riscos associados a uma actividade prática desta natureza, bem como as medidas de controlo possíveis e necessárias à minimização desses riscos. Deste modo, sugere-se que o professor responsável pela visita: (a) tenha o cuidado de preencher por completo a ficha de avaliação de riscos; (b) torne a ficha acessível aos respectivos 21
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colegas participantes na actividade, à entidade responsável na escola pelas visitas de estudos, bem como a todos os encarregados de educação que assim o desejarem; e (c) torne possível a aplicação das medidas de controlo planeadas. As autoras consideram que esta componente do planeamento da visita de estudo assume uma relevância preponderante, recaindo sobre o professor a responsabilidade da sua aplicação eficaz. Sendo a escolha do local onde realizar a visita de estudo uma das fases iniciais desta actividade, aconselha-se o professor a ter igualmente em conta vários aspectos relacionados com a sua segurança, bem como com a dos seus alunos. Assim sendo, apresenta-se o exemplo de alguns aspectos que o professor deve considerar: I)
Possibilidade constante de saída da zona de estudo, mesmo em situação de preiamar;
II)
Planear cuidadosamente o tempo disponível para as diferentes actividades que decidir realizar na visita de estudo, nomeadamente através de uma deslocação prévia ao local escolhido em situação de baixa-mar;
III)
Incutir nos alunos o respeito pelas regras de segurança definidas;
IV)
Escolher percursos de acesso ao local de estudo que minimizem os riscos;
V)
Certificar-se que os alunos se encontram devidamente equipados para a visita de estudo, nomeadamente com calçado adequado e com luvas protectoras;
VI)
Certificar-se que os alunos transportam consigo bens essenciais como a água, de modo a evitar o risco de desidratação, e protector solar, para evitar os efeitos solares nefastos;
VII)
Prevenir os alunos de que não é permitido qualquer tipo de desvio aos percursos por ele estipulados; e
VIII) Partilhar com os restantes professores responsáveis pela visita de estudo, ou acompanhantes, todas as regras de segurança por si definidas. A visita de estudo ao ambiente marinho intertidal tem necessariamente de incluir medidas protectoras que incluam o professor e os alunos, assim como o ecossistema em estudo. Em relação a este último aspecto, realça-se o facto do professor dever ter a preocupação de abordar, previamente com os alunos, a necessidade de contribuírem para a conservação da fauna e da flora estudadas, preservando-se assim o ambiente em que esses organismos estão inseridos. A zona litoral representa um habitat único para a flora e fauna marinhas. As variações no nível da água, na temperatura, na salinidade e o acentuado hidrodinamismo criam um ambiente, 22
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sem dúvida, agressivo. Como resultado desta variação dos factores abióticos, os seres vivos desta zona desenvolveram uma elevada panóplia de adaptações. Qualquer intromissão descuidada pode colocar em causa essa eficácia na adaptação ao ambiente em constante mudança. Apresentam-se de seguida alguns exemplos que o professor deve considerar. a) No caso particular do ambiente em estudo, uma das principais preocupações encontra-se associada com a deslocação adequada nesse ecossistema. O professor deve realçar o facto de, na deslocação até ao lugar de estudo, o aluno ter o cuidado de evitar caminhar sobre animais e algas. Neste sentido, sugere-se que essa deslocação seja realizada através da zona superior da praia, ou seja, junto à base das arribas, ou na zona arenosa da praia, sempre que esta situação não inclua riscos adicionais como a queda de sedimentos das arribas. b) Sempre que possível, o professor deve incentivar o aluno a não incomodar os seres vivos. Deslocar-se lentamente e evitar tocar nos objectos de estudo é a melhor atitude a tomar nestas situações. A observação, sem interferir com o que se observa, é sem dúvida o melhor método de integrar o aluno no comportamento animal a observar e, simultaneamente, preservar a integridade dos mesmos. Na realidade, se o aluno se mantiver parado perto da poça-de-maré, os animais que habitam nesse local aparecerão assim que sentirem um nível mínimo de “segurança”. c) Em caso de haver uma manipulação directa com os animais, esse contacto deve ser minimizado e cuidadoso de modo a assegurar a integridade dos mesmos. A maioria dos animais marinhos são na realidade mais sensíveis do que se poderia pensar. Em qualquer situação, os animais e plantas devem ser mantidos em submersão, especialmente em caso de observação prolongada. Os organismos marinhos retiram o seu oxigénio da água do mar e também se encontram dependentes do seu suporte para manter a integridade dos seus corpos moles. d) Em caso de estudo dos animais que habitam sob as pedras soltas, um cuidado especial deve ser tomado na reposição correcta dos animais e das pedras deslocadas. Assim sendo, o aluno deve repor a pedra na sua posição original e ter o cuidado de não danificar os animais aquando da sua reposição. A face inferior das pedras representa um habitat especial onde os organismos encontram abrigo e superfície de fixação. Por fim, deixa-se ao cuidado do professor a inclusão de outras avaliações de riscos e medidas de controlo que considere adequadas para a realização da visita de estudo da maneira mais eficaz 23
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possível. Apesar do ambiente intertidal necessitar de alguns cuidados especiais, as autoras consideram que é uma zona ecológica de extraordinário valor pedagógico e em que medidas de controlo eficazes poderão assegurar uma visita de estudo integrada, tanto no plano da segurança como na aquisição de conhecimentos. 1.2.6 – Efeitos antropogénicos no ambiente intertidal Os ecossistemas marinhos encontram-se ameaçados pela influência humana a diversos níveis. De um modo condenador, todos nós já pudemos observar alguma manifestação negativa do Homem no meio ambiente. Assim sendo, as autoras consideram que não podem deixar de fazer referência às diversas pressões a que o ambiente intertidal pode estar sujeito. Sendo um habitat com o qual todos nós contactamos e do qual usufruímos, cabe-nos também a nós defender e manter a sua integridade natural. Parece igualmente importante levar os alunos a compreenderem toda a informação que lhes permita avaliar o ambiente que os rodeia. Isto porque caberá, sem dúvida, às gerações futuras zelar pela gestão do meio natural. Ao entenderem como a pressão humana no ambiente intertidal tem consequências danosas para o mesmo, espera-se que os alunos adquiram valores e atitudes da conservação ambiental e, simultaneamente, da preservação do habitat. Assim sendo, começa-se por definir o conceito de poluição marinha e descrever as principais formas de poluição exercidas sobre o ambiente intertidal. Segundo o GESAMP (United Nations Group of Experts on the Scientific Aspects of Marine Pollution), a poluição marinha traduz-se pela introdução humana, directa ou indirecta, de substâncias ou energia no ambiente marinho resultando em efeitos nocivos, como sejam os riscos para a saúde humana, a perturbação de actividades marinhas como a pesca, a redução da qualidade do uso da água do mar e a redução dos benefícios provenientes deste meio (Clark, 2001). Esta definição baseia-se, sobretudo, nas fontes humanas de poluição e nos seus efeitos nefastos para o ambiente marinho. Estando este habitat localizado na faixa costeira onde a maioria da população portuguesa habita, são inúmeras as fontes de poluição que potencialmente afectam de forma negativa este habitat. A grande fragilidade que reveste este habitat específico reside no facto da faixa intertidal se encontrar logo à partida sujeita a stress naturais, como sejam a subida e descida da maré com as consequentes variações na temperatura, exposição ao ar e salinidade. A essa grande variação natural junta-se então qualquer stress imposto pelo Homem. O stress antropogénico é, por definição, a resposta de uma entidade biológica a uma perturbação humana (Crowe et al, 2000). É adoptada neste trabalho a divisão e descrição de Crowe 24
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et al. (2000) do tipo de perturbações antropogénicas. Estes autores definem 2 tipos principais de perturbações humanas no ambiente marinho: a) agudas e b) crónicas. Dentro das fontes de poluição agudas estão incluídos os derrames de petróleo e os blooms (vulgo “explosões”) de algas tóxicas. Quanto aos primeiros, sabe-se que representam uma das maiores fontes de poluição aguda uma vez que o seu impacto nas comunidades intertidais está bem estudado a curto prazo. Devido ao seu efeito altamente tóxico para as comunidades intertidais, todo o equilíbrio natural das populações é alterado. Um dos efeitos mais visíveis reside na eliminação de espécie-chave, como sejam as espécies de lapas. Uma vez que as populações destes animais herbívoros são afectadas, toda a comunidade de algas sofre consequências que terão efeitos em cascata sobre todas as outras comunidades que com ela interagem. Para além disso, são inúmeras as espécies que, intolerantes aos contaminantes, apresentam consequentemente um elevado índice de mortalidade. No que respeita à rápida e elevada proliferação de algas planctónicas tóxicas, os denominados blooms, estas ocorrem naturalmente no meio marinho; no entanto, investigadores sugerem presentemente que o aumento da sua frequência se deve à eutroficação artificial da água do mar (Hallegraeff, 1993). Independentemente da sua origem, estas manifestações têm efeitos devastadores nas populações de gastrópodes e equinodermes intertidais (Crowe et al, 2000). Robertson (1991) indica no seu estudo que um bloom da alga Chrysochromulina polylepsis representou a causa de destruição de cerca de 99% de populações de um gastrópode intertidal em algumas partes da costa sueca e, inclusivamente, causou diminuições na reprodução dos animais sobreviventes. Apesar de não criarem impactos imediatamente visíveis a curto prazo, existem várias fontes de poluição de menor grau de intensidade que causam danos significativos nas comunidades intertidais por exposição durante longos períodos de tempo. Estas representam as perturbações antropogénicas crónicas. Existem nove fontes principais identificadas na literatura (Clark, 2001): (I) poluição por nutrientes; (II) poluição por hidrocarbonetos; (III) poluição por metais pesados; (IV) poluição por pesticidas e tintas anti-colonização; (V) poluição térmica; (VI) exploração de recursos; (VII) pisoteio e degradação de habitat; (VIII) poluição por sedimentação; e (IX) introdução de espécies exóticas. De seguida apresentam-se algumas características destas nove fontes principais de perturbações antropogénicas crónicas. I) Poluição por nutrientes A poluição por nutrientes tem como principal efeito a substituição de espécies da flora e da fauna. Animais filtradores e omnívoros encontram-se melhor adaptados a esta situação pois têm 25
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acesso a uma maior disponibilidade de alimento. Regra geral também se pode dar o caso de haver uma diminuição da diversidade dentro das comunidades. Nas comunidades algais, o efeito mais visível encontra-se na substituição de algas de carácter perene pelas de carácter efémero. II) Poluição por hidrocarbonetos A poluição por hidrocarbonetos representa a fonte de poluição mais notória, nomeadamente através dos derrames de petróleo no mar. Apesar de não se terem realizado muitos estudos científicos sobre os impactos do petróleo nas comunidades intertidais a longo prazo, sabe-se que as comunidades de animais são mais sensíveis que as comunidades de algas. Os efeitos mais críticos nos animais transcrevem-se pelo incremento da mortalidade dos moluscos herbívoros e a consequente alteração dos padrões das algas marinhas. III) Poluição por metais pesados Apesar da Natureza introduzir metais pesados nos ecossistemas de um modo natural, através da erosão de rochas ou de actividade vulcânica, é apenas quando as concentrações destes se tornam tóxicas que os seus efeitos se tornam visíveis nas comunidades marinhas. A maioria dos seus efeitos está relacionada com a diminuição da taxa de crescimento, reprodução e alteração das características genéticas dos organismos intertidais. IV) Poluição por pesticidas e tintas anti-colonização Apesar de se saber que os organofosfatos são tóxicos e mesmo letais para os organismos marinhos, não existem ainda muitos estudos que atestem o seu efeito específico nas comunidades intertidais. Um dos casos mais conhecidos é o fenómeno de “imposex” numa espécie de gastrópode marinho muito comum na zona intertidal (Nucella lapillus). Este fenómeno tem origem na poluição por TBT (tributileno) e tem como principal efeito o desenvolvimento de características sexuais masculinas nas fêmeas desta espécie. A estrutura das populações é assim alterada, nomeadamente na proporção de organismos masculinos e femininos. V) Poluição térmica A poluição térmica encontra-se associada aos efluentes de água quente resultantes das grandes indústrias que utilizam água como sistema de arrefecimento. Um dos seus efeitos mais visíveis é o facto de se estabelecerem espécies exóticas perto desses efluentes. De igual modo, a estrutura das comunidades é também alterada devido a diferentes tolerâncias específicas à variação de temperatura. 26
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VI) Exploração de recursos Sendo a fonte de alimento de muitas populações humanas costeiras, a exploração de organismos marinhos tem impactos profundos no ecossistema intertidal. As espécies que se encontram neste habitat são especialmente vulneráveis uma vez que a maioria tem um carácter séssil ou encontra-se limitada em termos de habitat. A sua sobre-exploração põe em sério perigo a sobrevivência das espécies-alvo. Sendo algumas das espécies-alvo simultaneamente espécies-chave no ecossistema, pode-se então perceber os efeitos ainda mais devastadores desta fonte de perturbação, uma vez que toda a dinâmica das comunidades se irá alterar devido à redução na abundância dessas espécies vitais que mantêm o equilíbrio natural entre populações. VII) Pisoteio e degradação de habitat A degradação de habitat, associada quer à colecção de animais quer ao acesso pelas praias de diversas actividades humanas, tem efeitos significativamente nefastos para as comunidades intertidais. A abundância de diversos organismos, como sejam as cracas, algas e mexilhões, são consideravelmente reduzidas devido a incursões humanas no ambiente intertidal. Este tipo de perturbação terá graves consequências para as comunidades pois dará azo a que as espécies oportunistas se instalem e todo o ecossistema seja artificialmente alterado. VIII) Sedimentação Devido à crescente urbanização costeira, grandes quantidades de resíduos estão a ser libertados no oceano. Este material em suspensão é posteriormente depositado nas zonas litorais, causando a morte de diversas espécies intertidais que não se conseguem libertar dessa contaminação. Este aspecto torna-se igualmente grave quando as contaminações provenientes da actividade agrícola atingem os rios e, posteriormente, a zona costeira. As espécies de carácter séssil, como sejam as algas e as cracas, são especialmente afectadas. IX) Introdução de espécies exóticas As espécies que são inadvertidamente, ou não, introduzidas pelo Homem no ecossistema litoral têm graves consequências para o meio ambiente. A grande maioria das contaminações tem origem nas águas de balastro dos navios de grande porte. Alterações nas populações de cracas e algas já foram identificadas, com a substituição das espécies nativas pelas espécies invasoras, que regra geral são competidores superiores.
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Apesar de estarem sujeitas a diversos focos de stress artificial, as comunidades do intertidal rochoso são, regra geral, bastante resistentes e tendem a ser passíveis de recuperação se a fonte de poluição for retirada. Considera-se que o professor tem um papel activo na sensibilização dos seus alunos em relação a esta problemática e na sua consciencialização de que está ao alcance de todos impedir a degradação, ainda mais agravada, deste ecossistema que tanto é apreciado e do qual se usufrui.
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2. VISITA DE ESTUDO AO ECOSSISTEMA ENTRE-MARÉS A visita de estudo que de seguida se apresenta pretende ser um instrumento de auxílio aos professores na planificação e na realização de uma visita de estudo a um ambiente marinho litoral, tendo como exemplo a praia das Avencas (Cascais). Esta actividade prática foi concebida pelas autoras para ser realizada na disciplina de Ciências Naturais com alunos do 8º ano de escolaridade e, neste seguimento, algumas das sugestões que se apresentam resultam já da sua aplicação, bem como da análise das dificuldades sentidas e dos aspectos conseguidos. A actividade enquadra-se no tema organizador do 3º ciclo do ensino básico “Sustentabilidade na Terra”, na unidade temática “Ecossistemas” (Ministério da Educação, 2002). Foi realizada durante o 2º período lectivo, próximo do final da unidade referida, servindo também de introdução à unidade temática seguinte “Gestão Sustentável dos Recursos”. No entanto, enquadra-se de igual modo nos conteúdos programáticos leccionados na disciplina de Biologia e Geologia, especificamente nos 10º e 11º anos, respectivamente nos temas “A Geologia, os Geólogos e os seus Métodos” e “Diversidade na Biosfera” (Ministério da Educação, 2001b) e “Sistemática dos Seres Vivos” e “Geologia, Problemas e Materiais do Quotidiano” (Ministério da Educação, 2003), cabendo ao professor o cuidado de seleccionar e adaptar as questões para cada ano de escolaridade. Esta actividade é constituída por três momentos, tal como defendido por diversos autores (Orion, 1993; Torre, 1994, citado em Couto & Duarte, 2000; Nespor, 2000), um antes (a aula anterior), um durante (a visita de estudo propriamente dita) e um após (a aula posterior), os quais estão caracterizados no Quadro 2.1, de acordo com as suas finalidades, material necessário e uma breve descrição; e no Quadro 2.2, de acordo com as competências que se pretendem desenvolver em diferentes domínios. Cada uma destas componentes da actividade prática apresenta-se detalhadamente de seguida. No Quadro 2.3 evidenciam-se ainda os conceitos, quer científicos quer metacientíficos, que se pretende que os alunos apreendam ao longo da actividade. As autoras apresentam ao longo da actividade um vasto leque de questões e sugestões, com o intuito de abranger toda uma panóplia de aspectos que podem ser focados antes, durante e após a visita de estudo. Pertence a cada professor a tarefa de seleccionar as questões, ou mesmo adaptá-las, de acordo com os conteúdos programáticos que pretende abordar, com as competências que pretende desenvolver e em consonância com as características específicas de cada turma envolvida. Apoiando-se nos exemplos e sugestões apresentados, o professor tem à sua disposição uma estratégia que se pretende que seja eficaz para o processo de ensino-aprendizagem dos conceitos científicos de Ciências Naturais, Biologia e Geologia. 29
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Quadro 2.1. Caracterização de cada componente da actividade prática. Aula anterior
Visita de estudo
Aula posterior
Finalidades
Favorecer a aprendizagem que se pretende que ocorra durante a visita de estudo, nomeadamente pelos seguintes aspectos: (a) pela discussão de alguns conceitos que serão necessários para a Estudar o ecossistema marinho aprendizagem, na visita, de intertidal em substrato rochoso. outros conceitos; (b) pelo fornecimento de informações sobre o local a visitar; e (c) pela discussão das regras de conduta a ter durante a visita e da avaliação da mesma.
Consolidar o processo de ensino-aprendizagem em relação ao estudo do ecossistema marinho intertidal, colmatando falhas e dificuldades de aprendizagem e avaliando as aprendizagens realizadas.
Material
- Guião do aluno - Sequência de diapositivos em - Guião do professor PowerPoint ou acetatos - Guia de identificação de - Computador e Data-show ou organismos retroprojector - Material de campo para cada grupo
- Guião do aluno - Guião do professor - Acetatos com figuras e esquemas de apoio/ Diapositivos de PowerPoint - Retroprojector ou computador e Data-show
Descrição
Consiste numa actividade de discussão em que os dados e as questões são apresentados aos alunos através da projecção de acetatos ou diapositivos de PowerPoint.
Nesta actividade prática haverá Consiste numa actividade de a realização das questões discussão das questões do previstas no guião do aluno. guião do aluno, principalmente das questões onde ocorreram Os alunos estarão organizados maiores dificuldades, assim em grupos, que serão apoiados como de avaliação da e orientados pelo professor. actividade.
Quadro 2.2. Competências a desenvolver ao longo da actividade.
Substantivo Processual
Domínio do Conhecimento
Aula anterior
Visita de estudo
- Recordar conceitos no âmbito das unidades “A Terra conta a sua história” e “Ecossistemas”. - Conhecer a biodiversidade do ambiente marinho litoral. - Compreender que no ambiente - Explicar o fenómeno das marés. marinho litoral ocorre uma - Compreender que no ambiente zonação dos organismos, os quais marinho litoral ocorre uma possuem adaptações. zonação dos organismos. - Indicar relações bióticas. - Executar tarefas, em grupo, na exploração do ambiente marinho - Ler dados expressos em tabelas. litoral. - Interpretar dados expressos em - Registar as conclusões obtidas tabelas e figuras. no guião do aluno. - Observar dados e figuras. - Interpretar dados expressos no guia de identificação e em figuras. - Recordar conceitos no âmbito das unidades “Terra – Um planeta com vida” e “Ecossistemas – Interacções seres vivos e ambiente”.
Aula posterior
Consolidar os conceitos apreendidos na visita de estudo. - Introduzir conceitos relativos aos temas “Perturbações no equilíbrio dos ecossistemas” e “Gestão sustentável dos recursos”.
- Interpretar dados expressos em figuras.
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Domínio do Raciocínio
- Relacionar conceitos no âmbito das unidades “Terra – Um planeta com vida” e “Ecossistemas – Interacções seres vivos e ambiente”. - Tirar conclusões. - Interpretar um artigo de uma revista de divulgação científica.
Domínio da Comunicação
- Compreender que a construção - Reconhecer que a ciência e a do conhecimento científico é um sociedade estabelecem relações de - Reconhecer que a ciência e a interdependência entre si. processo dinâmico. sociedade estabelecem relações de - Compreender a importância dos - Reconhecer a influência do cientistas publicarem os resultados interdependência entre si. avanço científico na sociedade. das suas investigações.
- Usar linguagem científica durante a realização da actividade e na apresentação dos resultados à turma. - Participar nas discussões com argumentação científica. - Reconhecer a importância da adopção de uma metodologia na discussão. - Seleccionar informação, distinguindo o essencial e o acessório.
Domínio das Atitudes
Epistemológico
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- Formular hipóteses. - Tirar conclusões. - Estabelecer comparações. - Tirar conclusões. - Relacionar as conclusões obtidas - Relacionar as conclusões obtidas pelos vários grupos. pelos vários grupos. - Interpretar um artigo de um jornal sobre um desastre ambiental.
- Valorizar o papel da Ciência na vida quotidiana. - Apreciar o papel da Ciência na resolução de problemas. - Manifestar curiosidade científica na realização da actividade. - Demonstrar interesse na resolução das questões apresentadas. - Intervir de forma responsável no grupo de que faz parte. - Respeitar os colegas.
Quadro 2.3. Lista dos conceitos a apreender ao longo da actividade
Conceitos
Conceitos científicos
Zona intertidal
Extensão de aprendizagem Uma parte da costa está diariamente sujeita às variações dos níveis de maré.
Maré
A atracção gravitacional da Lua e do Sol sobre as grandes massas de água dos oceanos da Terra e a força centrífuga gerada pela rotação do sistema Terra-Lua no seu conjunto originam a variação dos níveis da água do mar.
Zonação
Os organismos da zona intertidal dispõem-se em faixas paralelas ao nível do mar e a determinadas alturas no perfil da praia, de acordo com a sua capacidade de tolerar a emersão. A distribuição espacial dos povoamentos em andares originam a divisão do sistema da zona intertidal em: andar supralitoral, mediolitoral e infralitoral. Os organismos que suportam facilmente a exposição ao ar, entre outros factores associados, serão encontrados na parte superior da praia e aqueles que são mais sensíveis a este factor limitante, serão encontrados na parte inferior.
Factor limitante
Adaptação
Relação biótica
A existência de determinados seres vivos num dado local é condicionada por factores bióticos e/ou abióticos. Na zona intertidal surgem como factores ambientais/físicos limitantes a exposição ao ar, a temperatura, a salinidade, entre outros. Factores biológicos como sejam a competição e a predação podem também ser responsáveis pela distribuição dos organismos Os seres vivos possuem diferentes adaptações aos factores limitantes do meio, de modo a poderem sobreviver. Na zona intertidal são vários os exemplos de adaptações: a fixação à rocha de mexilhões e o refúgio de caramujos em fendas como adaptações ao hidrodinamismo; e o refúgio de caracóis na sua concha como adaptação à exposição ao ar e a temperaturas elevadas. Os seres vivos de um ecossistema estabelecem interacções entre si. Na zona intertidal, por exemplo, organismos de espécies diferentes podem competir pelo espaço.
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Poluição das águas
O ambiente aquático pode sofrer modificações produzidas pela presença de substâncias contaminantes, por vezes tóxicas, as quais ameaçam o equilíbrio dos ecossistemas.
Maré negra
Os barcos petroleiros podem derramar para o mar produtos petrolíferos, provocando a destruição de numerosos seres vivos dos ecossistemas marinhos.
Conceitos metacientíficos
Biodiversidade
Um ecossistema possui uma determinada variedade de espécies de seres vivos.
Ecossistema
As comunidades bióticas e os factores abióticos interactuam entre si, constituindo uma unidade ecológica.
Dimensão filosófica
Na investigação científica utiliza-se uma determinada metodologia, que pode passar pela formulação de problemas e hipóteses, elaboração e execução de um plano experimental e interpretação e discussão de resultados experimentais.
Dimensão histórica
O conhecimento científico está em constante evolução, construindo-se através da contribuição de nova informação, sendo um processo contínuo e questionável.
Relação CiênciaSociedade
A ciência e a sociedade estabelecem relações de interdependência entre si.
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