Skip to main content

CARBONO DONNA #06

Page 1


grazi massafera

Entre delicadeza e força, a atriz celebra a liberdade de ser muitas em uma só gloria pires Uma das maiores estrelas da televisão fala sobre reinvenção, novos projetos e a potência da maturidade viagens De retiros espirituais a festas inesquecíveis, roteiros para diversos momentos da vida e muito mais !

Curiosamente, tudo o que construímos acaba se tornando um carro esportivo.

Desacelere. Seu bem maior é a vida.

AQUI, OS SEUS

Glaciais, Alasca

ATENDIMENTO EXCLUSIVO : (11) 3177-3131

ACESSE O SITE NCL.COM.BR OU CONSULTE O SEU AGENTE DE VIAGENS

Algo muda assim que o sol toca seus ombros e a brisa do mar diz ao seu corpo que finalmente pode relaxar. Você deixa de tentar impor sua vontade ao dia e passa a deixar que ele te leve para onde quiser levar. Aqui, há algo diferente em você. Provavelmente porque aqui é diferente.

VER ITINERÁRIOS

Santorini, Grécia
St. Thomas, Ilhas Virgens Americanas

EXCELÊNCIA EM SOLUÇÕES NA AVIAÇÃO EXECUTIVA.

Pit stops sempre foram o nosso ponto forte.

NOVO CAYENNE ELÉTRICO COM CARREGAMENTO POR INDUÇÃO. PORSCHE. THERE IS NO SUBSTITUTE.

Desacelere. Seu bem maior é a vida.

O Broto Impossível

Duas sementes irmãs em queda livre.

Uma cai em pedacinho de terra.

A outra, em pedacinho de chão.

Uma, bebe água e germina.

A outra – sequinha de tudo –, não.

Na semente sortuda, nascem pétalas.

Na sequinha de tudo, imagina!

Uma é colorida, vistosa.

A outra é mirradinha e franzina.

A florida, porém, não sabe sorrir.

“O Sol queima demais”

“A terra prende demais”

“A chuva molha demais”

Já a outra, em seu canto duro e gelado, ri quando o vento passa.

Agradece a réstia de luz.

A gota.

O orvalho.

O inseto.

A sombra.

O silêncio.

A Lua.

O tempo.

Um dia, a semente sortuda, que virou flor triste, se vai...

Sem perceber que havia vivido, morreu.

E a semente ressecada, que nada virou...

Sem perceber que havia morrido, viveu!

E dela surge um broto impossível.

Pois era tão grande sua alegria.

Tão funda sua gratidão.

Que um dia rompeu sua casquinha.

E fez nascer vida.

Daquele chão.

Mude para um Banco completo: escolha o BTG

Conta, cartão e investimentos no app

IOF Zero em compras no exterior

Até 3,5 pontos/dólar gasto Parcele compras em até 24x no app

Para quem espera mais de um banco

Sujeito à análise de crédito e elegibilidade. A Campanha IOF Zero é válida exclusivamente para compras internacionais no crédito e débito, por tempo indeterminado, e poderá cessar a qualquer momento sem aviso prévio. Não serão consideradas transações no cartão de débito internacional. Consulte o Regulamento. Confira as condições de taxas e parcelamento no app BTG Banking. Só será possível parcelar a compra já lançada na fatura vigente antes do dia de fechamento. Por isso, atente para a data de vencimento da sua fatura. O Programa de Fidelidade BTG Pactual está sujeito às regras da campanha promocional vigente. Confira os termos e condições.

REDAÇÃO EDITORA CARBONO

PUBLISHER

Lili Carneiro lili@editoracarbono.com.br

DIRETOR EXECUTIVO E DE LIFESTYLE

Fábio Justos fabio.justos@editoracarbono.com.br

DIRETORA DE ARTE

Mona Conectada

EDITORA CONVIDADA

Adriana Nazarian

PRODUÇÃO EXECUTIVA

Ana Elisa Meyer revistas@editoracarbono.com.br

REVISÃO DE TEXTOS

Paulo Vinicio

TRATAMENTO DE IMAGENS

Cláudia Fidelis

COMERCIAL E BACK OFFICE

DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO E NEGÓCIOS publicidade@editoracarbono.com.br

EXECUTIVA DE CONTAS

Fernanda Gibeli comercial@editoracarbono.com.br

FINANCEIRO financeiro@editoracarbono.com.br

ADMINISTRATIVO atendimento@editoracarbono.com.br

COLABORADORES

Bruno Rezende

Caio Delcolli

Calu Franco

Carla Julien Stagni

Chiara Banfi

Chris Ayrosa

Daniela Bortman

Denise Meira do Amaral Takeuchi

Diego Dias

Felipi Vieira

Fernanda Sá

Fernando Guerra

Fernando Tomaz

Filipe Berndt

Flavia Pires

Franck Willian

Gianfranco Vacani

Giusepe Botelho

Guiga Lessa

Henrique Martins

Isabel de Barros

Jean Labanca

Jessica Medeiros

João Bertholini

Jorge Porci

Julio Cardim

Kanucha Barbosa

Lais Acsa

Lu Gebara

Lucas Bori

Luisa Alcantara e Silva

Marcella Benita Maksoud

Marcio Shaffer

Marcos Santos

Maria Helena Pessôa de Queiroz

Mariana Tanajura

Mayra Azzi

Michael Ferire

CONCEPÇÃO EDITORIAL

Nathalia Hein

Nathalie Edenburg

Nellie Solitrenick

Olívia Tabet

Rafayane Carvalho

Raquel Fortuna

Rebeca Martinez

Reni Gaia

Roberta Munis

Sarah Oliveira

Sergio Baia

Shady Jordan

Vitor Guilherme

Av. Rebouças, 3.575

Jardim Paulistano

05401-400, São Paulo, SP

CTP, IMPRESSÃO E ACABAMENTO Stilgraf

CIRCULAÇÃO Nacional

DISTRIBUIÇÃO, BANCAS E MAILING

Black and White, Dinap e Gables distribuicao@editoracarbono.com.br

FOTOGRAFIA Fernando Tomaz

EDIÇÃO DE MODA

Giusepe Botelho

BEAUTY

Henrique Martins

COORDENAÇÃO

Trigo Comunica

GRAZI MASSAFERA USA

Blusa Tig e colar Chloé

Carbono Donna é uma publicação da Editora Carbono. CNPJ 46.719.006/0001-14

A Editora Carbono não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados. As pessoas que não constam do expediente da revista não têm autorização para falar em nome da Carbono Donna ou retirar qualquer tipo de material para produção de editorial caso não tenham em seu poder uma carta atualizada e datada, em papel timbrado, assinada por um integrante que conste do expediente.

@carbonoeditora

EDITORA CARBONO

Um B de Brasil e outro de belo, de balanço, de Bendito.

E, acima de tudo, B na hora de assumir as responsabilidades.

Um B em brasão. Que exibimos com orgulho. Orgulho das pessoas, do movimento e do futuro que semeamos todos os dias.

BRETON. Empresa brasileira certificada B.

VIAGENS

A SEGUIR:

28. CURTAS

Radar ligado

36. MÚSICA

Sarah Oliveira

38. COLEÇÃO

Chris Ayrosa

42. PRIMEIRA VEZ

Daniela Bortman

46. PERFIL

Grazi Massafera

62. ENTREVISTA I

Gloria Pires

68. MEU ESTILO I

Traudi Guida

70. MINDS I

Maria Carolina Kraljevic

72. ALMANAQUE

Panorama das artes

80. FOLLOW ME @’s para ficar de olho

83. AMADOS ACHADOS

Maria Helena de Queiroz

86. MINDS II

Lucila Evangelista

88. ENTREVISTA II

Carol Tilkian

92. ARQUITETURA

Casa Luciana Nascimento

100. MAKERS

Jade Marangolo

102. MEU ESTILO II

Toia Lemann

104. MINDS III

Paula Jafet

106. SAÚDE Medicina Integrativa

110. BATE-PAPO Mulheres Breton

112. MOTOR Porsche

114. MINDS IV

Ana Carolina Friedmann

118. MODA Cafeterias

120. LIFESTYLE Mundo afora

144. PENSATA Comportamento

124. Patagônia 128. Mount Shasta
132. St. Barth 136. Anguilla 140. Paris
Grazi Massafera, por Fernando Tomaz; o Hotel
Le Maurice, em Paris, e a Patagônia argentina, por Adriana Nazarian

TRAMA

MARIANA TANAJURA é artista têxtil, nascida em Salvador e radicada em São Paulo há 17 anos. Com uma relação profunda com a tecelagem, transformou o fazer manual em seu propósito de vida, desenvolvendo obras únicas que traduzem memórias afetivas em arte. Seus trabalhos não representam imagens concretas; inserem-se no campo do abstrato, não como negação da forma, mas como investigação da sensação. Convidam o observador a uma experiência sensível, em que a matéria têxtil é tratada como linguagem, capaz de comunicar aquilo que escapa às palavras. Uma característica central de sua pesquisa é o diálogo entre técnicas tradicionais do tear e abordagens contemporâneas, como o tufting e a smirna. Essa combinação amplia as possibilidades expressivas do têxtil e reafirma o artesanal como prática atual e potente. Mari é também a criadora da técnica Tear na Parede, na qual tece sobre o concreto, fazendo com que a obra pareça emergir da arquitetura. Recentemente, foi convidada a representar o Brasil, ao lado da artista Flávia Renault, nos Emirados Árabes, no festival Ras Al Khaimah Art, com quatro obras da coleção Essência na Trama @marianatanajurastudio

@fassano #fasano www.fassano.com.br

SÃO PAULO
Rua Iguatemi, S/N– Itaim Bibi
Shopping Cidade Jardim – Av. Magalhães de Castro, 12.000 – 3º piso

CURTAS

Arte em forma de bolsas, canetas e até cafés, mulheres que entendem tudo de taças, dicas de viagem, gastronomia, design e muito mais

NOVO REFÚGIO

A Aman abriu as reservas para o Amanvari, novo refúgio da marca na Costa Leste de Baja, no México, com inauguração prevista para 1º de agosto. O hotel contará com apenas 18 casitas e residências exclusivas, integrando paisagens de deserto e mar em uma proposta focada em privacidade, bem-estar e experiências imersivas, incluindo gastronomia autoral, spa e atividades ao ar livre. @amanvari_resort

ENTRE CIDADES

A Louis Vuitton apresentou a coleção Cruise 2027, criada por Nicolas Ghesquière, que estabelece um diálogo entre Paris e Nova York, unindo referências da cultura pop, arte e moda. Inspirada na obra de Keith Haring, a linha feminina revisita elementos do estilo americano sob a ótica do savoir-faire francês, em uma proposta que conecta diferentes épocas e identidades. @louisvuitton

DIA DE FESTA

Destaque recente em prestigiadas publicações, a Gloria Party Closet conecta design autoral, mesa e hospitalidade. Fundada por Cristiana Fonseca, a marca tem como destaque os Party Closets — louceiros concebidos para guardar e exibir os tesouros da casa — e a coleção de cerâmicas autorais AS MOÇAS, presente em restaurantes do Urban Italian Group, em Madri e Estocolmo. No Brasil, a Gloria Party Closet acaba de chegar à Mata Lab, no Complexo Cidade Matarazzo. No cenário internacional, anuncia sua entrada no Le Bon Marché, em Paris, e na WOW Concept, em Madri. @gloriapartycloset

FEITO JOIA

Como eternos defensores da escrita e de tudo o que envolve esse universo, nós estamos sempre de olho nas novidades da Montblanc e a caneta da vez já entrou para a nossa wishlist. A inspiração é ninguém menos do que Maria Callas, em especial a sua paixão pelas coisas bonitas da vida e, claro, por joias imponentes. Para tal, a marca criou uma caneta rubi, em que cada detalhe é uma pequena homenagem à soprano: enquanto a cor é inspirada na coleção de rubis da cantora, o formato reflete sua silhueta elegante. Os fãs de Callas também vão reconhecer toques como os olhos de gato delineados que decoram a pena artesanal de ouro maciço Au 585/1000 com revestimento de ródio, assim como seu emblemático apelido: ‘La Divina’. A Montblanc Maria Callas Ruby-Coloured Special Edition está disponível nas Boutiques Montblanc e on-line. @montblanc

SOB MEDIDA

O grupo Fasano acaba de anunciar dois novos projetos que unem lifestyle, design e hospitalidade em dois dos cenários mais desejados da Europa: a paradisíaca Sardenha, na Itália, e a charmosa Cascais, em Portugal. Na Sardenha, estreia o Fasano Yachts, operação náutica em parceria com a italiana Azimut. Para o verão europeu, uma frota de 12 iates navegará pelo Mediterrâneo, com roteiros exclusivos em Porto Cervo e no arquipélago de La Maddalena, com acesso à estrutura do Fasano Al Mare Hotel e Beach Club, aos restaurantes, ao spa e aos serviços integrados à vida a bordo. Em Portugal, Fasano Cascais tem inauguração prevista para 2028, na Quinta da Marinha, entre o Atlântico e o Parque Natural de Sintra-Cascais. Com arquitetura assinada por Miguel Saraiva e interiores de Carolina Proto, o projeto aposta em materiais naturais, vegetação integrada e referências à paisagem costeira portuguesa, com 97 quartos e suítes, além de residências com serviços inclusos. @fasano

ENTRE ONDAS

Amamos a poltrona Ondira da Breton, assinada por Gabriel Rosa e inspirada no movimento suave e contínuo das ondas. De curvas orgânicas e desenho envolvente, a peça une conforto e poesia ao propor um acolhimento quase intuitivo ao corpo. Com materiais e texturas pensados para despertar sensações, Ondira traduz uma visão mais sensível do morar, em que design e afeto caminham juntos. @bretonoficial

CRAQUES DA VIDA REAL

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) lança a campanha O Nome que Muda o Jogo é o Seu, que conecta o universo do futebol à sua atuação humanitária. A iniciativa destaca profissionais da instituição que compartilham nomes com grandes ídolos dos gramados – como Vini, Zidane, Salah e Pelé – para reforçar que, fora dos estádios, eles enfrentam diariamente desafios como conflitos, epidemias e desnutrição. Com estratégia multicanal, a ação convida o público a integrar a Torcida Médicos Sem Fronteiras e ampliar a rede de doadores da organização. Em uma das imagens da campanha, figura um dos craques da ONG humanitária, Pelé, que já vacinou mais de 20 mil crianças em situação de vulnerabilidade. @msf_brasil

CUIDAR MELHOR

À frente da B.TREAT, ao lado da sócia Roberta Pfiffer, Carolina Uip Luz tem transformado o cuidado com a saúde em uma experiência mais acolhedora. Conhecida por sua atuação no turismo médico – acompanhando pacientes que vêm ao Brasil em busca de tratamentos –, a empresa agora amplia sua atuação com o lançamento do Senior Concierge. A novidade foi criada para acompanhar de perto a saúde de idosos e dar suporte a famílias que muitas vezes se veem sobrecarregadas. Com enfermeiro concierge dedicado, plano de cuidado personalizado e articulação com a rede de especialistas, o serviço reforça o propósito da B.TREAT: tornar jornadas complexas de saúde mais leves e humanas. @btreat_brazil

SABOR RARO

A Orfeu Cafés Especiais lançou o Microlote Premiado 2026, produzido com a rara variedade Geisha, cultivada na Fazenda Rainha. Vencedora do 5º Concurso de Cafés da Região Vulcânica, a edição limitada terá apenas 400 garrafas numeradas à mão, com notas de frutas tropicais e aroma floral. @orfeucafes

Carbono Donna

Seu caminho até se tornar Cellar Master da Krug não foi linear. Como a transição dos mundos da gestão e da publicidade para a enologia influenciou a forma como você enxerga o vinho hoje?

Julie Cavil

Vir da publicidade me deu uma visão mais estrutural e narrativa. Para mim, o vinho não é apenas técnica, é entender como diferentes elementos se unem para criar algo significativo. Também aprendi a trabalhar de forma coletiva e a valorizar um universo em que o tempo é um aliado.

Carbono Donna

Você trabalhou ao lado de Éric Lebel por muitos anos antes de assumir o cargo. O que considera essencial preservar do legado dele na Krug?

Julie Cavil

Foi uma transição longa e natural, construída ao longo de muitos anos. Éric me ensinou que continuidade não significa permanecer igual: é preciso preservar os fundamentos da maison enquanto se conduz as mudanças necessárias. Humildade e paciência são essenciais.

Carbono Donna

O comitê de degustação da Krug prova centenas de vinhos por ano e constrói uma memória sensorial coletiva extremamente sofisticada. Como esse processo funciona?

Julie Cavil

Na Krug, a degustação orienta todas as decisões. O comitê é um espaço de troca em que provamos cerca de 450 vinhos por ano e registramos milhares de notas. Mais do que dados técnicos, esse processo depende de sensibilidade e diálogo constante entre gerações.

O FUTURO DO CHAMPAGNE

À frente da Maison Krug desde 2020, Julie Cavil ocupa um dos cargos mais emblemáticos do universo do Champagne. Primeira mulher a assumir a função de Cellar Master em 175 anos de história da maison, ela chegou ao vinho por um caminho pouco ortodoxo: antes de ingressar na Krug, trabalhou nos universos da publicidade e da gestão, experiências que hoje influenciam sua visão sobre criação, tempo e trabalho coletivo. Após mais de uma década ao lado de seu antecessor, Éric Lebel, Cavil assumiu a responsabilidade de conduzir o estilo da casa entre tradição e renovação. Confira, a seguir, a conversa exclusiva de Julie Cavil com Ana Paola Pollini, head digital da Editora Carbono. @krugchampagne

Carbono Donna

Um dos grandes desafios da Krug é imaginar tanto o futuro de cada vinho quanto o futuro da própria maison. Como você equilibra intuição, tradição e inovação nesse processo?

Julie Cavil

Provamos os vinhos em diferentes estágios para entender seu potencial – algo que exige tempo, repetição e humildade. E também seguimos fiéis ao sonho de Joseph Krug de criar o melhor champagne possível todos os anos, enquanto inovamos constantemente para preparar a maison para o futuro.

Carbono Donna

Você foi a primeira mulher a ocupar esse cargo em 175 anos. O que sua experiência traz hoje para a filosofia da Krug?

Julie Cavil

Não penso em termos de gênero, mas de trajetória. Venho de um caminho pouco tradicional e acredito profundamente no trabalho coletivo. Formação, experiências e personalidade moldam muito mais nossa visão do que qualquer rótulo.

Carbono Donna

A Krug sempre trabalhou com uma visão de longo prazo. Como a sustentabilidade entrou nessa equação?

Julie Cavil

Sustentabilidade, para nós, significa preservar nossos fundamentos pensando no futuro. Isso passa por práticas vitícolas responsáveis e também pela nova vinícola Joseph, projetada para reduzir impactos ambientais e cuidar tanto do terroir quanto das pessoas.

Carbono Donna

NEGÓCIOS EM MOVIMENTO

A plataforma de conteúdo e networking ENP Lab –Empreender na Prática, idealizada por Ana Laura Galesco e Kiki Affonso Ferreira, nasceu para descomplicar uma dor comum entre empreendedores: tocar o próprio negócio sem dominar áreas essenciais como finanças, jurídico, marketing, vendas e gestão de pessoas. A proposta é traduzir temas complexos em ferramentas práticas, conexões estratégicas e caminhos mais claros para quem quer crescer de forma estruturada. Depois de duas edições presenciais, o projeto ganha ainda mais fôlego com o apoio do C6 Bank. A nova fase prevê oito encontros presenciais, cinco eventos transmitidos pelo YouTube do banco e uma websérie com histórias reais de empreendedorismo. Mais do que ensinar gestão, o ENP Lab aposta em trocas reais, capazes de gerar novos negócios, parcerias e boas ideias fora do script. @empreendernapratica_lab

ENTRE TAÇAS E TERROIRS

Magdalena Viani faz parte da equipe de enologia da Trivento desde 2014 e hoje é responsável pelos vinhos de terroir da marca. Para Carbono Donna, ela responde três perguntas sobre sua trajetória e sua paixão pelo universo do vinho. Confira! @magdalena.viani | @triventobrasil

Um aroma que nunca lhe cansa no vinho?

Magdalena Viani

Difícil dizer um apenas, pois adoro os encantadores aromas frutados, associados às notas entregues de baunilha no contato com as barricas de carvalho. São muito prazerosos e sempre um convite para degustar um belo Malbec!

Carbono Donna

Então: um lugar perfeito para se abrir um Malbec?

Magdalena Viani

O Malbec é versátil e conversa com lugares e paladares diferentes. Então existe um estilo de Malbec perfeito para cada lugar e cada ocasião. Por

exemplo: um tinto combina perfeitamente com um jantar especial, uma noite ou momentos à mesa entre amigos. Já um rosé pede um rooftop ao pôr do sol, uma tarde de verão ou um encontro descontraído. E um white é ideal para dias quentes, à beira da piscina, na praia ou em um almoço ao ar livre.

Carbono Donna

O que mais lhe encanta no processo de criação de um vinho?

Magdalena Viani

Tudo! Do solo ao clima, das uvas à cantina. Cada detalhe importa e contribui para a construção de um belo vinho. Todas as fases têm a sua beleza, e elas culminam na taça. Gosto muito da minha profissão e vejo beleza em todas as etapas.

Fotos Michael Ferire, Vitor Guilherme e divulgação

Carbono Donna

MODA PARA DURAR

Clara Tarran é cofundadora e Chief Branding Officer da Escudero & Co, marca brasileira reconhecida pelo design autoral e pela produção responsável de bolsas, sapatos e acessórios de couro premium. Formada em Design Industrial na PUC-Rio, com especialização em Design de Moda pela Parsons School of Design, Clara une sensibilidade estética e visão estratégica na criação de peças atemporais – e de uma marca feita para durar. Prestes a dar à luz sua primeira filha, Clara nos recebeu no showroom da marca para uma conversa sobre trajetória, empreendedorismo e os bastidores da Escudero. @escudero_ Por Ana Paola Pollini

A Escudero sempre equilibrou design autoral e funcionalidade. Como esse processo acontece na prática?

Clara Tarran

Minha maior inspiração é sempre o cliente. Busco observar necessidades, comportamentos e movimentos do mercado para criar produtos de qualidade, com vida longa. Também procuro desenvolver o mesmo produto em diferentes versões e usos, porque isso amplia sua durabilidade e relevância no cotidiano.

Carbono Donna

Em um mercado movido pela rapidez, a Escudero defende a ideia de “escolher menos e escolher melhor”. Como essa filosofia se mantém tão atual?

Clara Tarran

Não fazemos produtos descartáveis. Nossas peças levam tempo para serem desenvolvidas. A Escudero

sempre teve a característica de antecipar movimentos. O atemporal está no nosso DNA.

Carbono Donna

A marca nasceu no ambiente digital. Qual foi o impacto disso na trajetória da Escudero?

Clara Tarran

Representa tudo! Se não fosse o Instagram, a Escudero provavelmente não seria o que é hoje. Já nascemos digitais: nossa primeira loja foi on-line e a produção de conteúdo sempre fez parte da nossa essência.

Carbono Donna O que vem por aí para a Escudero?

Clara Tarran

Nosso foco é consolidar a marca como uma retail tech, expandir o e-commerce internacional e crescer também com lojas físicas no Brasil.

VERSÃO PETIT

O BUBU, restaurante na Praça Charles Miller adorado pela turma literária, ganhou há pouco uma versão petit na loja da Feira Rosenbaum. Batizado de BUBU CAFÉ, o espaço no bairro Pinheiros conta com um cardápio reduzido, com alguns dos hits servidos no Pacaembu, como as tortas e as empanadas. E traz novidades que combinam com o clima urbano da Rua Mateus Grou, entre elas as deliciosas toasts de abacate com ovo. @lojadafeiranarosenbaum | @bubu_restaurante

CURTÍSSIMAS

A Pineh, criada por Jéssica e Juliana Zafalon, é uma marca de almofadas autorais que surge da vivência das irmãs no universo da decoração. A aposta é em uma peça central capaz de transformar a atmosfera da casa e influenciar diretamente a percepção de estilo de um ambiente. @pineh.atelier

Simetria é a nova coleção da Strauss que valoriza lapidações precisas e contínuas e a complexidade do corte manual, além de reforçar o caráter escultórico de cada peça. @straussoficial

No Satori Omakase, inaugurado em São Paulo, no bairro de Pinheiros, o chef Allan Beckmann, 9º brasileiro a receber o título Kuroobi, convida o cliente a compreender o produto, acompanhar o preparo de perto e se conectar com a história por trás de cada delicioso prato. @satori.omakase

Com trajetória multicultural entre Bélgica, Brasil, África e Ásia, o estilista Emmanuel Lejeune inaugura seu primeiro ponto de venda no Brasil, no Mata Lab, em um momento de reconhecimento do mercado nacional. @emmanuellejeune

O Grupo Glória abriu o La Spiaggia, restaurante ítalo-mediterrâneo no VillageMall, na Barra da Tijuca. O projeto é comandado pelo restaurateur Leo Rezende, ao lado de Gustavo Alves e Alejandra Maidana, e reforça a proposta do grupo de criar experiências gastronômicas voltadas ao convívio e à permanência. @laspiaggiacucina

A vinícola Uvva, localizada em Mucugê, na Bahia, acaba de lançar dois rótulos cultivados em um segundo terroir a 1.280 metros de altitude. O tinto Batéia é elaborado a partir do corte entre as variedades Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Syrah, enquanto o Viognier Safra 2024 é composto integralmente da variedade Viognier. @vinicola.uvva

CURTAS | Carbono Donna
Por Ana Paola Pollini

O Four Seasons chega à ilha de Mykonos com uma proposta de luxo mais intimista e foco em experiências locais, reunindo praia privativa, gastronomia mediterrânea, spa, villas com piscinas e acesso facilitado à ilha de Delos. Com reservas abertas, o hotel leva a assinatura do arquiteto grego Nicos Valsamakis e foi concebido como uma vila intimista no clássico estilo cicládico. @fsmykonos

A designer brasileira Carolina Neves participa de mais uma edição do prestigiado Couture Design Awards, em Las Vegas, com uma coleção exclusiva que reimagina o DNA de sua marca, com destaque para o colar Master Chapa Ágata Negra de ouro 18K com turmalinas verdes e rosa. @carolinaneves_

A Le Creuset acaba de apresentar Forêt (floresta, em francês), nova tonalidade inspirada na força e na imponência das florestas. Com verde sólido e acabamento matte, o lançamento traduz uma estética contemporânea e elegante, ampliando a paleta de cores da marca. @lecreuset

A manufatura italiana Ginori 1735 lança a coleção Florenza, que acaba de chegar ao Brasil e passa a integrar o portfólio da 6F Decorações. A linha reúne louças e artigos para presentes inspirados nas paisagens de Florença, traduzindo a delicadeza da vegetação local em lindas porcelanas. @ginori1735 | @6fdecoracoes

A Explora Journeys abriu as vendas para o Verão 2028, marcado pela estreia do EXPLORA VI e pela conclusão de sua frota com seis navios navegando simultaneamente. Com roteiros que passam por 27 países, a marca mantém o benefício Early Booking Benefit, com tarifas preferenciais e prioridade na reserva de suítes. @explorajourneys

Gloria Coelho e A.Damous Jewelry lançam uma collab com 11 peças exclusivas que unem a linguagem da estilista ao trabalho de Ana Damous. As peças articulam referências, materiais históricos e uma abordagem contemporânea, em que diferentes repertórios coexistem com precisão. @gloriacoelho | @adamous_jewelry

A Sentèz lança Pulso, coleção de Inverno 2026 inspirada na elegância e na precisão dos movimentos de uma bailarina. A linha destaca o uso de croco com acabamento transparente e introduz uma nova pele sintética, explorando contrastes de textura, volume e luz. Com cores desenvolvidas pela própria marca, a coleção traz tons de chocolate, vermelho e um verde exclusivo. Segundo Claudia Epszteyn, a novidade reflete respeito, equilíbrio e singularidade. @sentez.oficial

com

PICAPE Sarah

Retratos
Mayra
Azzi

A apresentadora e comunicadora Sarah Oliveira cresceu ouvindo música e frequentando shows com os pais. Assim, a canção não só se tornou sua grande paixão como também o tema principal de sua carreira. “Sou muito feliz de ter a música no meu dia a dia. Ela nos permite entender melhor os mistérios da vida.” Inspirada por sua série Atenção Para o Refrão, Sarah elege trechos que valem aumentar o som em diferentes ocasiões

E vê se me dá o prazer de ter prazer comigo. Me aqueça.

A esperança equilibrista Sabe que o show de todo artista Tem que continuar

O Bêbado e a Equilibrista ALDIR

Porém, se a gente vive a sonhar Com alguém que se deseja rever Saudade, entonce, aí é ruim

Eu tiro isso por mim Que vivo doido a sofrer

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma Até quando o corpo pede um pouco mais de alma

A vida não para Enquanto o tempo acelera e pede pressa Eu me recuso, faço hora, vou na valsa

A vida é tão rara

É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte.

O importante é ser você;

LANÇA PERFUME , RITA LEE – VELUDO MARROM , LINIKER – ZÉ DO CAROÇO , LECI BRANDÃO –MANGUETOWN , CHICO SCIENCE E NAÇÃO ZUMBI – ALAGADOS , OS PARALAMAS DO SUCESSO –PALCO, GILBERTO GIL – RIO 40 GRAUS , FERNANDA ABREU – MÁSCARA , PITTY – VOCÊ ME VIRA A CABEÇA , ALCIONE – SANGUE LATINO , SECOS & MOLHADOS – TEMPOS MODERNOS , LULU SANTOS – ALTA NOITE , MARISA MONTE – SEGUNDO SOL , CÁSSIA ELLER

Paciência LENINE
Máscara PITTY
Lança Perfume RITA LEE
BLANC
Divino Maravilhoso
CAETANO VELOSO E GILBERTO GIL
Que Nem Jiló LUIZ GONZAGA
mesmo que seja estranho, seja você

a louca chris ayrosa

Com o chapéu como ponto de partida, Chris Ayrosa transformou o acessório em assinatura, escudo e, acima de tudo, ponte de conexão com o mundo

Por Kanucha Barbosa Fotos João Bertholini

dos c(a)éus ma.ni.ac

an obsessive enthusiast

“O chapéu me abre diálogos de uma maneira que eu nem acredito”

Chris Ayrosa não se desmonta. Não se desmonta para ir trabalhar nas ruas do Centro de São Paulo, para fazer compras no mercado, não se desmontou nem mesmo durante a pandemia – quando se maquiava, passava perfume e colocava chapéu para dar aula por videochamada. “Gosto de me olhar no espelho e falar: ‘hum, eu casaria com você, querida’. Esse é meu jeito”, diz ela, com a risada fácil.

Formada em História na USP, Chris passou anos ao lado de Pietro Maria Bardi no MASP e construiu, em mais de quatro décadas, uma das carreiras mais inventivas no mercado de eventos de luxo no Brasil. Esse apuro estético tem raízes profundas. Sua avó materna, Maria Antonieta Medeiros, era um ícone de elegância e inteligência de sua época e a ensinava que o corpo era um altar.

O primeiro chapéu chegou por acaso, como costumam chegar algumas paixões. Há cerca de 15 anos, em Nova York para estudar inglês, ela parou diante de uma loja durante suas caminhadas até o Lincoln Center. Na parede, uma fileira de chapéus. E o modelo escolhido, de palha, com um ar nova-iorquino –que sobreviveu com remendos de fita crepe e esmalte da cor certa. “Eu o tenho até hoje. Está todo marcado pelo tempo, mas o amo.”

De volta ao Brasil, a chama não se apagou. O estopim definitivo veio num desfile de moda que ela produziu para um shopping paulistano: entre modelos e araras de roupa, avistou chapéus pintados à mão. Apresentou-se às irmãs gaúchas por trás da marca – que, diga-se, tem um nome que combina bastante com Chris: Pirei no Chapéu – e comprou três, na hora. No dia seguinte, estava no atelier delas. “Entrei naquele galpão. Gavetas e gavetas de chapéus.”

Saiu com seis e sem um centavo do cachê que havia recebido do trabalho do dia anterior. “Eu me senti a mulher mais feliz do mundo.”

Hoje são 37 – e ela conhece a história de cada um. De onde veio, quando foi comprado, o que sentiu naquele momento. Os portugueses de feltro, para o inverno, os panamás trazidos de eventos na Colômbia e na Argentina, o japonês coberto de flores que ainda espera a ocasião certa para sair do armário. Se ela já doou algum? A resposta é categórica. “Posso até emprestar, mas doar jamais.”

O chapéu, para Chris, não é acessório. É ponto de partida. Entra primeiro. Antes da roupa, antes do brinco, antes dos óculos. Dita o look, o humor, a personagem do dia. E funciona como escudo também: com o cabelo sempre curtinho, o chapéu a abraça.

“Ele é meu amigo secreto. Só ele sabe o que tem aqui embaixo.”

Mais do que estilo, é sobre conexão. “O chapéu me abre diálogos com as pessoas de uma maneira que nem eu acredito”, afirma. No trânsito, já houve quem baixasse os vidros do carro para elogiá-la. Mulheres a param na rua para confessar que sempre quiseram usar chapéu, mas têm medo de serem julgadas. “Se eu puder inspirar as pessoas a se empoderarem por símbolos e por detalhes, eu vou me sentir muito feliz.”

Em vez de “a louca dos chapéus”, ela prefere “a possuída”, brinca. A distinção faz sentido quando se descobre que viaja com as peças empilhadas num suporte especial, carregado na mão – o que uma vez rendeu a pergunta de uma desconhecida no aeroporto: “A senhora está vendendo chapéus?” Ela achou graça, levou na leveza, como muitas coisas em sua vida.

the last time i did something for the first time

DANIELA BORTMAN

Desde que sofreu um acidente que a deixou tetraplégica, a médica Daniela Bortman aprendeu a se reinventar diariamente, fazendo da vida uma constante de primeiras vezes. “Se eu ligasse para todas as ocasiões em que me dizem que eu não posso fazer alguma coisa, estaria deprimida dentro de um quarto”, diz. Aqui, ela divide um pouco do que aprendeu – e conquistou.

Retrato divulgação

Fui a primeira pessoa tetraplégica a se formar em Medicina

Eu fui muito questionada quando decidi voltar à faculdade após o acidente. Tive que abrir um processo para conseguir ser aceita. E, muito além do diploma, concluir o curso envolveu diversas primeiras vezes – e não só minhas. A cada estágio, tivemos que nos reinventar a partir de soluções novas. Os carpinteiros do hospital fizeram uma rampa para que eu conseguisse assistir às cirurgias com os meus colegas, as costureiras criaram um avental que pegava a cadeira inteira, além de muitos outros exemplos. Fomos encontrando primeiras vezes para fazer dar certo.

Participei de um desfile de moda

Tenho 1,60 de altura e nunca chegaria perto de uma passarela, mas fui convidada para desfilar para a marca de uma amiga que faz peças indígenas. Senti um superfrio na barriga e foi um grande aprendizado! Venho do mundo corporativo, em que tudo é sempre muito alinhado, e essa experiência era o oposto. Ela me ajudou a perceber o quanto é bom, às vezes, a gente flexibilizar e soltar algumas amarras.

Andei de barco com a cadeira

Quando completamos 40 anos, eu e minhas amigas fomos para a praia do Patacho, no litoral norte de Alagoas e um dos passeios era de jangada. Elas não tiveram dúvidas: arranjaram uma cadeira anfíbia e, literalmente, me colocaram na embarcação para que eu pudesse participar. Foi muito especial. Elas não mediram esforços para que a viagem fosse o mais inclusiva possível.

Servi de inspiração para um livro

A autora de O Enigma de Daniela, Lelita de Oliveira Benoit, é uma antiga paciente do meu pai, que ficou amiga dele. E a minha história acabou sendo uma das inspirações para ela escrever esse romance. E eu que apareço na capa!

Trabalhei como estilista

Minha amiga tinha uma marca de moda praia e queria criar uma peça inclusiva, voltada para pessoas com dificuldade de mobilidade. Eu participei de todo o processo, dando sugestões e aprovando pontos como caimento, conforto do tecido, sempre pensando nas dificuldades e nos desafios. No fim, o maiô ganhou o nome de Daniela!

Visitei um buraco de tatu

Quando fiz uma transição de carreira e me tornei médica de uma empresa de agronegócio, não tinha muita familiaridade com esse universo. Para entender melhor o dia a dia dos trabalhadores, assim como os riscos à saúde envolvidos, fui para o campo conhecer in loco os tais buracos de tatu em que os colaboradores poderiam cair.

BORTMAN
Fotos
Filipe
Berndt / Galeria
Vermelho

chiara banfi construiu, ao longo de mais de duas décadas de carreira, uma trajetória marcada por investigações sensíveis sobre percepção, energia e aquilo que escapa ao campo do visível. Sua produção transita entre diferentes linguagens, mas tem como fio condutor o interesse por traduzir experiências imateriais – como frequência, respiração, repetição e estados expandidos de consciência – em formas concretas. Com uma pesquisa que frequentemente dialoga com conceitos da física, espiritualidade e percepção do corpo, a artista desenvolve obras em que ritmo, geometria e fluxo aparecem como elementos recorrentes. Seu trabalho busca dar matéria ao invisível, transformando sensações e experiências subjetivas em imagens de forte dimensão sensorial. Em sua produção mais recente, Chiara vem aprofundando a relação com a pintura e com processos repetitivos, explorando novas camadas de cor e texturas – sempre mantendo seu interesse em criar obras que convidam o espectador a desacelerar o olhar e experimentar outras formas de presença e atenção. @chiarabanfi_

Nagual, da Série Portais | Aquarela sobre papel de algodão 300g, em moldura de madeira folheada a ouro |

200 x 500 cm

CAMALEOA

Da feminilidade da renda à força do couro, Grazi Massafera mostra que a moda pode ser uma aliada para se transformar no que quiser

Fotos Fernando Tomaz

Edição de Moda Giusepe Botelho

Beauty Henrique Martins

Coordenação Trigo Comunica

Ensaio | GRAZI MASSAFERA
BLUSA E SAIA TIG • COLAR CHLOÉ

GraziMassafera

MEIA CALZEDONIA • CINTO ALAÏA
VESTIDO CRISTOPHER ESBER
BRINCOS NINA RICCI | MEIA CALZEDONIA • CINTO ALAÏA
CALÇA E REGATA HELENA BORDON

PREENCHIDA DE SI MESMA

Embalada pelo sucesso duplo nas telas neste ano, a atriz abre a intimidade de sua rotina, reflete sobre as dores e as delícias da maturidade, sobre ser o espelho para a filha adolescente e sobre a liberdade de quem aprendeu a escolher a si mesma

Nosso encontro com Grazi Massafera aconteceu no embalo do final da novela global Três Graças, em meio a sua incensada atuação no papel de Arminda, personagem que conquistou o público com uma vilania meio cômica, meio amoral. Foi um papo por videoconferência, em um dos primeiros respiros da temporada para a atriz. Grazi estava em sua casa, no Rio de Janeiro. Sozinha, fazendo um lanche da tarde – uva gelada com cobertura de chocolate, “receitinha para TPM” – em uma tarde fria de quinta-feira. “Agora os compromissos são comigo. Já fui ao dermatologista, ao dentista, vou ter fisioterapia logo depois da entrevista”, conta ela, introduzindo o papo.

O começo de 2026 foi de duplo twist: ao mesmo tempo que surgia como Arminda na TV aberta, Grazi trazia sua versão da personagem Dona Beja no streaming, uma releitura da obra de época que marcou a TV brasileira, exibida pela plataforma Max (antiga HBO Max). Duas personas completamente opostas e que, segundo Grazi, permitiram que ela se experimentasse artisticamente de formas diferentes, ao mesmo tempo que vivia experiências diversas do feminino. “Beja tem uma coisa mais selvagem, é uma mulher mais intuitiva, que revela a essência feminina e a liberdade com o corpo, a mente e os desejos. Trouxeme força e a personagem me ajudou muito no processo. Já com Arminda foi o contrário. Eu tive que ajudá-la, porque ela exigia uma energia minha que até então eu também desconhecia. Arminda é o meu oposto, tudo o que eu –tirando o humor – não gosto. É desprezível, um tipo de

mulher que, diferentemente de Beja, tem uma liberdade, mas dentro de um contexto ainda muito dependente das relações”, analisa a atriz.

Grazi conta que chegou a ter uma crise na construção de Arminda, quando a personagem demandava que ela maltratasse a mãe, Dona Josefa, interpretada pela veterana Arlete Salles. “Era aquela coisa de ficar xingando a mãe durante meses e eu pensava: ‘meu Deus, não consigo me divertir com isso’”, conta. O refresco veio quando o centro da trama passou a envolver Santiago Ferrette, personagem do ator Murilo Benício, seu par romântico. Foi a deixa para vir à tona uma das duplas de vilões mais cômicas – e amadas pelo público – dos últimos tempos. “Eu tenho humor, prefiro ver a vida com deboche, sarcasmo e acho que emprestei um pouco disso para Arminda. Murilo foi um dos parceiros de cena com quem eu mais me conectei no sentido artístico, de se jogar sem dor mesmo. Ele me incentivava e eu também fazia o mesmo com ele. Sou corajosa, mas ali eu estava despudorada”, brinca Grazi.

Da parceria surgiram cenas cheias de improvisos, os famosos “cacos”, que extrapolavam o roteiro e que faziam o público vibrar. “Foi lindo ver o quanto as pessoas gostavam de assistir à gente se divertindo. Era como se o público dissesse: ‘queremos vocês como personagem, mas deixa a gente perceber que existe uma diversão que embarcamos juntos’. Observei esse convite da audiência e mergulhei”, explica.

“Minha filha pode dizer que tem uma mãe que se valoriza, que se ama. E que não está na carência por mendigar afetos”
VESTIDO MUGLER • PULSEIRA DOLCE & GABBANA

Rompendo padrões

Se há um território onde Grazi se reconhece é o de virar chaves e transformar percalços em combustível para evoluir. Corta para 2005. Aos 22 anos, ela deixava sua cidade natal, no interior do Paraná, para desembarcar no Rio de Janeiro e participar do Big Brother Brasil. Dali, ao se lançar na carreira artística, recebeu questionamentos duros, enfrentando preconceito em sua estreia na novela Páginas da Vida (2006).

Mesmo assim, ela continuou, estudou, se preparou. “Não tenho metas rasas, elas são pesadas e profundas. Sou filha de Iansã, movida pelo vento e pelos desafios. Às vezes é necessário um pouquinho de conforto para se restabelecer para um próximo momento, mas eu sou do movimento. Preciso de reinvenção, da redescoberta”, diz.

Dez anos depois, veio a resposta para o estigma, com uma indicação ao Emmy Internacional pela atuação visceral como Larissa, uma modelo viciada em drogas, em Verdades Secretas (2015). Além de usar seu próprio estereótipo de beleza para chocar o público por meio da desconstrução física, o laboratório para o papel incluiu leituras aprofundadas sobre os efeitos das drogas e visitas à Cracolândia. Grazi conversou com dependentes químicos e terapeutas para entender o impacto físico e os abandonos psicológico e social daquelas pessoas. O papel lhe rendeu outros prêmios, como o APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte).

Agora, depois da repercussão de sua primeira vilã, Arminda, pela qual já recebeu o prêmio Melhores do Ano, da TV Globo, na categoria Melhor Atriz de Novela, e também da intensidade que trouxe à versão contemporânea de Dona Beja, a atriz vem consolidando seu nome no topo da teledramaturgia. “No momento em que estou mais amadurecida como mulher e como atriz, as personagens femininas também têm ganhado uma visibilidade maior, porque nós, mulheres, estamos ‘consumindo’ mais mulheres. Nossas histórias estão conquistando potência.

Então, é um deleite poder pegar personagens, modificar aquilo que eu não acho legal, por exemplo. Ter esse lugar de artista, de mulher, de consciência e falar: ‘não, isso aqui eu não vou fazer, mas eu tenho um caminho a propor’. Isso também aconteceu. Em cena e fora dela, inclusive. E, quando eu me garanto nesse lugar com propriedade, ninguém questiona. Acredito que a mudança vem daí, de a gente se colocar e não se submeter a tudo o que é imposto. Hoje, em uma condição financeiramente privilegiada, tenho a possibilidade de fazer isso artisticamente e na minha vida. E é exatamente o lugar onde eu queria e quero estar”, atesta Grazi.

Ciclos e transformações

Ao longo da conversa, Grazi se esquece de algumas palavras no meio da frase, e ri de si mesma. Um pouco cansaço, um pouco névoa mental. Prestes a completar 44 anos, ela diz que os efeitos da pré-menopausa já dão sinais. “Um dia eu estava gravando, decorei a cena, estudei, mas as palavras sumiram. Até chorei. Meus exames estão normais, mas tenho sintomas. A gente tem que lidar”, conta. Quisemos saber como é passar por essa fase e ter uma filha adolescente – Sofia, fruto do relacionamento com Cauã Reymond, tem 13 anos. “Ela está desabrochando por fora e por dentro. É um momento muito especial. Estou revivendo com ela coisas lindas do feminino. Sofia é uma garota disciplinada, faz análise, se cuida. Estou com a sensação deliciosa de estar formando, ajudando e instruindo uma mulher especial”, comenta. Entre os 9 e os 11 anos de Sofia, Grazi deu uma pausa nas gravações para acompanhar o crescimento da filha. “Eu vinha de uma fase de muito trabalho e senti que precisava estar mais próxima. É um período complicado, em que não se é nem criança nem adolescente. Fiquei grudada nela e a gente ganhou outro punch de conexão. A adolescência dela também conquistou outros contornos”, conta. Na complexidade da vida real, de Grazi, uma legítima representante da “geração sanduíche” – aquela faixa

da vida adulta em que a rotina se divide entre os cuidados com os filhos e os pais –, a engrenagem não para. A mãe, Cleuza, mora em São Paulo, e o pai, Gilmar, permanece no Paraná. É a atriz quem gerencia a distância, leva ao médico e faz questão de estar presente fisicamente sempre que pode.

Escolhas e verdades

Essa autonomia conquistada na maturidade se reflete, antes de tudo, na liberdade de desenhar o próprio futuro. Hoje o maior luxo de Grazi é poder desacelerar. Com a independência financeira alcançada antes dos 50 anos, um feito que ela honra e se orgulha de ter sido a primeira de sua família a conquistar, o verbo agora é viver, e não performar. “Se eu escolher um projeto em que eu vou me ferrar, eu vou me ferrar até o fim, porque eu não pulo do barco. Mas eu escolhi fazer. Então, poder escolher hoje é uma bênção”, reflete ela, que se planeja em curto prazo, mas permanece aberta até para mudanças de rota, como produzir ou dirigir um dia.

A mesma régua pautada pelo valor ela aplica na vida afetiva. Solteira, em uma fase “loba tranquila”, como define, confessa querer passar longe de dinâmicas baseadas na dependência emocional. Para o futuro, avisa que os homens precisam se reinventar, abandonando o passado de ditar regras e acompanhando a evolução das mulheres. Mais do que uma postura pessoal, esse posicionamento é o legado que ela quer deixar: “Minha filha pode dizer que tem uma mãe que se valoriza, que se ama. E que não está na carência por mendigar afetos”. Preenchida de si mesma, Grazi parece lidar com a passagem do tempo como quem aprendeu a diferenciar o inevitável do opcional. “O tempo passa para todos, mas ou você só envelhece ou amadurece. O amadurecimento é uma escolha, o envelhecimento, não”, pontua. Entre a exposição dos sets e a calmaria de sua cozinha, hoje ela escolhe o silêncio protetor do seu espaço e – por que não? – uma dança improvisada em sua casa. Grazi Massafera está, definitivamente, no lugar exato onde escolheu estar.

Transitoriedade

TEMPO E COR

NATHALIE EDENBURG é uma artista visual brasileira que transita entre a pintura e a joalheria autoral. Em seu trabalho, explora emoções, memória e o universo feminino por meio de formas orgânicas e campos de cor. É criadora do projeto How Do I Feel Today, iniciado em 2015, quando produziu uma obra por dia ao longo de um ano, construindo um diário visual de estados emocionais. Em 2025, retomou esse processo, aprofundando sua investigação sobre o tempo, a identidade e a transformação. @natyedenburg @nathalieedenburg | @howdoifeeltodayproject

Nathalie ao lado da obra Nascente
Na página ao lado, Kupla Landscape

UMA ESTRELA SEM FRONTEIRAS

GloriaPires

Entre cabelos grisalhos, terapia e uma liberdade recém-descoberta, Gloria Pires transforma a própria maturidade dos seus 62 anos em potência criativa – como atriz, diretora, produtora e empresária

Por

Denise Meira do Amaral Takeuchi Fotos Sergio Baia

“Eu já estava grisalha no ensaio?”, quis saber Gloria Pires ao contar que iríamos publicar as fotos inéditas produzidas pela Carbono Donna no ano passado. Ela revela que anda com dificuldade de acompanhar o tempo, fruto das redes sociais e da pandemia, que “deram uma bagunçada no calendário”. A preocupação é mais que legítima, porque seus cabelos brancos deixaram de ser apenas uma escolha estética para se tornar símbolo de emancipação feminina, quase um gesto silencioso de ruptura com padrões que atravessaram décadas da vida pública e da televisão. Foi a partir da escolha de abandonar a tintura – hábito mantido desde seus 20 e poucos anos – durante a pandemia, que a atriz parece ter acessado transformações mais profundas. Nos últimos anos, Gloria começou terapia pela primeira vez, deixou o contrato fixo com a Globo, saiu do Rio de Janeiro, começou a pintar aquarela e incorporou a escrita ao cotidiano. “Hoje me sinto melhor e mais completa”, conta.

Não por acaso, é justamente nesse momento da vida que nasce sua marca de cosméticos naturais com ingredientes amazônicos, a Bemgloria, e também Sexa, seu primeiro longa como diretora, lançado no fim do ano passado. O filme mergulha nas contradições, desejos, invisibilidades e liberdades da maturidade feminina – temas que atravessam também a própria trajetória da atriz.

Na área externa de sua casa em Goiânia, terra de Orlando Morais, com quem é casada há quase 40 anos, ela conversa sem pressa ao longo de uma hora e

meia de entrevista – e só desliga porque já estava na hora de entrar para sua sessão de terapia.

HERANÇA FEMININA Lembro da minha infância muito cercada por duas presenças femininas, minha mãe e minha avó Deolinda, mãe de meu pai. Sempre com muito carinho, afeto e comida. A gente morava junto e minha mãe se dava muito bem com ela. Minha avó era muito especial, tinha um senso de humor fantástico. E elas faziam uma dupla muito forte. Minha mãe me deixou vários exemplos. O primeiro foi o fato dela se dar tão bem com a sogra. Foi o primeiro paradigma que ela quebrou, contra aquela ideia de rivalidade feminina. E eu já conheci minha mãe grisalha. Ela nunca pôde pintar os cabelos porque era muito alérgica. Então, essa ideia da mulher sem artifícios eu aprendi com ela.

“Estou me cuidando para um dia poder brincar com o meu neto”

INSPIRAÇÃO Me tornei atriz muito por influência do meu pai [o ator e humorista Antônio Carlos Pires]. Lembro de passear com ele pelo centro do Rio de Janeiro e, no caminho, ele ia contando histórias, narrando cenas… Hoje eu vejo o quanto isso me povoou. Eu chegava em casa como se eu tivesse vivido altas aventuras. Foi ele que viu em mim a possibilidade de ser atriz.

CARTOLA Eu era muito tímida. Toda essa coisa de autógrafo, de tirar foto, foi muito tormentosa por muito tempo. Uma vida toda aprendendo a lidar com essas questões que esse tipo de trabalho traz demais. Com a prática, fui crescendo e encontrando formas de lidar com essa timidez. Descobri que gostava de me relacionar com as pessoas. Na pandemia, quando comecei a fazer terapia, tirei da cartola um monte de medos e traumas e passei a elaborá-los.

TRAUMAS Eu sou de 1963. Em 73, a gente estava num momento terrível do país. A informação era muito limitada. Meu pai era artista, uma profissão de risco. Lembro da sensação do medo. Também cresci ouvindo sobre a importância da mulher, tendo a Leila Diniz como ídola. A mulher que segura todas as ondas, que é multitarefa. Também me via fazendo parte daquele exército de mulheres que seguram tudo. Só que não é assim. A gente vai vivendo, sendo rejeitada, ridicularizada e isso cria camadas grossas. Se não percebemos, são coisas que ficam guardadas em algum lugar e aparecem depois como reação física: alergia, falta de sono, falta de ar, ansiedade. Agora tudo isso tem nome, mas não foi sempre assim. Hoje me sinto melhor e mais completa como jamais me senti.

MACACÃO ANIMALE
NA PÁGINA ANTERIOR, CALÇA E BLAZER LENNY NIEMEYER • TOP PANTERA BY MONA
“Também me via fazendo parte daquele exército de mulheres que seguram tudo. Só que não é assim. Hoje me sinto melhor e mais completa”

MEUS LINDOS CABELOS BRANCOS Na pandemia todo mundo ficou de cabelo branco, né? E aquilo começou a fazer sentido pra mim, porque já era algo que queria. Quando tudo parou, foi a minha deixa. Minha própria família, o Orlando, meus filhos ficavam me questionando: “Você vai ficar muito velha”. Mas como eu ia ficar mais velha do que eu já era? Rever seus conceitos é um desafio. Isso me trouxe muita liberdade. Hoje falo pra todo mundo: experimenta deixar o seu cabelo branco. Pode ser que fique muito mais legal do que antes, pode ser que você se reconheça. Eu me reconheci imediatamente.

MARCA PRÓPRIA Cada vez que eu pintava o cabelo, eu morria de coceira no couro cabeludo. Até então nunca tinha me atentado para o perigo que eu me impunha a cada dez dias. O quanto nós, mulheres, somos impactadas por esses ingredientes venenosos? Tanto nas tinturas, nos esmaltes, na maquiagem… E desde nova eu queria ter uma marca minha. Parei de comer carne muito nova, com uns 12 anos, comecei a entender melhor sobre alimentação. Mas não faz sentido você comer alimentos orgânicos e tomar banho com petróleo, plástico, silicone.

MUNDO 60+ É um mercado maravilhoso, porque as pessoas estão chegando aos 60 anos com saúde, querendo estudar, viajar, consumir cultura, arte, gastronomia. E é um universo pouquíssimo explorado. Eu sempre brinco, os grisalhos vão dominar o mundo (risos).

ELAS MERECEM Outro dia dei uma entrevista falando como é importante termos mais mulheres em lugares de decisão, na vida pública mesmo. E usei como exemplo o Papanicolau. Como hoje, num momento em que as pessoas já pensam em sair pra outro planeta, a gente ainda tem que passar por um exame tão incômodo? Faço todo

ano, mas é de lascar. Algumas pessoas não entenderam a colocação, acharam que eu estava desestimulando o exame. Mas eis que esses dias descobri que existe um novo teste que a mulher pode fazer sozinha [exame de biologia molecular DNA-HPV], que deve chegar em breve. Ou seja, era possível uma alternativa. Realmente ainda falta o olhar feminino em temas relacionados à mulher, seu corpo e seus direitos.

SEXA Quando recebi o primeiro tratamento do roteiro, fiquei encantada. A gente conseguiu fazer uma história fugindo das situações de praxe que o estilo comédia romântica traz, em que o homem resolve a vida da mulher e a salva. A mulher que não casasse estava fadada à miséria. O filme trouxe uma oportunidade de mostrar uma mulher de 60 anos, cheia de vigor, tesão, vida, cheia de possibilidades. Eu nunca tinha visto nenhuma novela, série ou filme com uma personagem assim. Então falei: eu tenho que fazer esse projeto. E me propus a dirigir. Os produtores ficaram um pouco surpresos, mas acabaram achando interessante.

NOVA FASE Quero contribuir com tudo o que eu observei e aprendi. Não desejo fazer mais do mesmo, ficar me repetindo. Quero arriscar, experimentar outras funções. E isso também tem a ver com o fim do contrato com a Globo. É uma liberdade que muda muita coisa. Antes eu não tinha possibilidade de escolher. Ter esse tempo mudou até a minha relação com os meus filhos.

MALA E CUIA Me mudei em dezembro para Goiânia. Já tinha morado aqui por dois anos. Hoje, todos os meus filhos (Cleo, Anttónia, Ana e Bento) estão em São Paulo. Eu ficava sozinha naquela casa enorme no Rio, não fazia sentido. Seguindo o pensamento de realizar o que eu quiser nos últimos 30 anos que me restam, achei que

seria uma boa mudança. É uma cidade que adoro, tenho grandes amigas e a família do Orlando. E se ele precisa viajar, eu posso ir junto. Nunca tive isso. Eu achei que valia a pena agora, sem as crianças.

O FUTURO VEM AÍ Tenho me preparado com muita atenção para a minha saúde, meu bem-estar, minha condição física e psicológica. Faço yoga, musculação todos os dias, voltei a desenhar, mas agora estou pintando em aquarela também e quero fazer dança de

salão. Tenho escrito tudo o que vem na minha mente. Tem dias que parece um diário, tem dias que vira uma sessão de terapia, sonho.

VOVÓ GLORIA Fui mãe aos 19 anos, então me preparo desde muito cedo para ser avó. Por enquanto nenhum dos filhos fala seriamente no assunto. Queria ser uma avó jovem, mas já não dá. Vou ser uma avó velhinha mesmo (risos). Estou me cuidando para um dia poder brincar com o meu neto.

CAMISA LENNY NIEMEYER • RELÓGIO MONTBLANC

1

SEM FRONTEIRAS

Sou bastante eclética no vestir. Escolho aquilo que faz sentido para mim em cada momento, sem me prender a rótulos. Posso estar com um visual mais executivo em um dia e, no outro, abraçar uma estética boho com a mesma autenticidade. Sempre fui assim.

2

LIBERDADE

Com o tempo aprendi que elegância também é saber escolher o que funciona para cada fase da vida. Continuo adorando moda, mas sou muito mais criteriosa com o que visto. Não sigo tendências cegamente. Uso apenas aquilo que considero bonito, adequado e fiel ao meu estilo.

3 INSPIRAÇÃO

Para mim, a arte é uma forma de contemplar a vida por meio da beleza e da sensibilidade.

4 HABITAT

Decoração sempre foi uma das minhas grandes paixões. É uma forma de contar histórias sem dizer uma única palavra.

MEU ESTILO

TRAUDI GUIDA

EMPRESÁRIA

@TRAUDIGUIDA

5 MAIS DO QUE UMA BOLSA

Essa bolsa foi a primeira Chanel que comprei, há cerca de 30 anos. Ela simboliza uma etapa importante da minha trajetória: o resultado do meu trabalho, da minha dedicação e do meu esforço ao longo dos anos.

DETALHES

Sou apaixonada por acessórios. Tenho gavetas cheias deles e adoro colecionar peças que atravessam tendências, como camélias e broches. Os acessórios têm o poder de transformar completamente o visual. Posso estar usando uma camiseta branca e, com o colar certo, criar uma produção cheia de personalidade.

PRIMEIROS PASSOS

Guardo até hoje o meu primeiro sapatinho de infância. Na época, era comum transformar esses sapatos em peças de bronze para preservá-los, mas minha família optou por mantê-lo original (de couro). Talvez por isso ele seja ainda mais especial.

7

SEM ERRO

8

PRECIOSO

Comprei esse xale off-white feito à mão em minha primeira viagem à China, há cerca de 30 anos. O trabalho é extraordinário: levou quase um ano para ser concluído, com um bordado tão perfeito que o avesso é tão bonito quanto a frente. Hoje, quando o feito à mão se torna cada vez mais raro, inclusive na China, essa peça tem ainda mais valor para mim. 6

Poucos acessórios conseguem transmitir tanta elegância e feminilidade de forma tão natural quanto as pérolas. Elas têm o poder de elevar qualquer produção, seja acompanhando um simples jeans ou complementando um clássico casaco Chanel.

DO DESEJO À REALIDADE

Meus vasos azuis chineses têm um valor afetivo imenso. Eu os admirava há muito tempo, mas, por serem peças antigas e bastante valiosas, nunca me permiti comprá-los. No Dia das Mães, meus filhos me surpreenderam com esse presente tão especial.

COLEÇÃO VIVA

Por trás dessas portas de vidro repousa um verdadeiro tesouro: minha coleção de garrafas e caixinhas de prata, construída ao longo de muitos anos. Cada peça chegou em um momento diferente da minha vida e carrega uma história, uma lembrança ou um significado importante.

Maria Carolina Maldonado Kraljevic
Carbono Minds
MARIA CAROLINA MALDONADO KRALJEVIC
“Ser mãe de uma pessoa com deficiência fez com que eu desenvolvesse habilidades valiosas, inclusive no mundo corporativo”

Determinada e polivalente, Maria Carolina Maldonado Kraljevic lida com a rotina desafiadora de conciliar a maternidade atípica com uma carreira de sucesso no meio jurídico

Com uma carreira consolidada no Direito e uma rotina intensa entre São Paulo e Brasília, Maria Carolina Maldonado Kraljevic sabe que conciliar a vida profissional e a maternidade atípica é um exercício diário de escolhas, resiliência e reinvenção.

Conselheira do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), doutora em Direito e professora, ela construiu uma carreira sólida no universo jurídico-tributário – historicamente dominado por homens – sem abrir mão de sua vida pessoal. Mãe de dois filhos, Maria Eduarda, 11, e Arthur, 9, vive os desafios da maternidade após o diagnóstico de uma síndrome genética rara na filha mais velha. Entre julgamentos, aulas e livros publicados, aprendeu a reorganizar prioridades e a ressignificar o próprio conceito de sucesso.

JORNADA DUPLA “Minha filha, Maria Eduarda, tem uma síndrome genética super-rara, com pouco mais de 500 casos no mundo, chamada Síndrome de Helsmoortel-Van der Aa, que causa deficiência intelectual e autismo. Ela dorme muito mal, exige diversas adaptações, o que torna minha rotina bastante desafiadora. Eu trabalho muitas vezes exausta. E há o Arthur, meu caçula, que cresce dividindo a atenção dos pais com as demandas da irmã. Maternar uma criança neurotípica nesse contexto também é um desafio. Mas eu tenho o privilégio de contar com uma rede de apoio robusta e um marido que divide a parentalidade e apoia minha trajetória. Sem essa estrutura, nada disso seria possível.”

FOCO E PRIORIDADES “Ser mãe de uma pessoa com deficiência fez com que eu desenvolvesse habilidades muito valiosas, inclusive no mundo corporativo. Essa capacidade de administrar demandas simultâneas, de trabalhar sob pressão, de focar no que é realmente essencial naquele momento. É óbvio que com uma vida complexa, com todas essas demandas, todos esses ‘pratinhos girando’ ao mesmo tempo, é impossível dar conta de tudo com perfeição. Então, é preciso priorizar. Essa vida me exige

escolhas constantes, aceitando que a expectativa da sociedade sobre as mulheres, dentro e fora de casa, é simplesmente impossível de atender – e que faço o melhor, considerando o que é possível”.

CARREIRA EM MOVIMENTO “Eu moro em São Paulo, mas trabalho em Brasília. Fico pelo menos uma semana por mês lá, entre sessões de julgamento e aulas. Isso exige muita organização – além de uma rede de apoio – para que tudo na minha casa funcione quando me ausento. Julgo processos tributários de alta complexidade e mantenho uma produção acadêmica constante: concluí o doutorado, publiquei dois livros e estou escrevendo o terceiro. Sou apaixonada pelo que faço. Quanto mais complexo o caso, maior minha realização.”

PRESSÃO E PERFORMANCE “O ambiente jurídico em que eu trabalho ainda é predominantemente masculino e existe uma pressão – muitas vezes interna – para performar tão bem quanto ou melhor do que os homens, sem deixar que a maternidade impacte isso.”

RESSIGNIFICAR O OLHAR “Quando recebi o diagnóstico da minha filha, precisei desconstruir tudo o que eu acreditava sobre sucesso e valor. Passei a enxergar as pessoas pelo que elas são, não pelo que são capazes de produzir. Tornei-me mais empática, com um olhar mais cuidadoso sobre o outro. Foi um processo difícil, um luto, mas muito transformador. Isso tudo vem com um peso enorme: noites sem dormir, cuidados médicos, um estado permanente de alerta. Não escolhi esse caminho. Ele simplesmente é o meu.”

EQUILÍBRIO POSSÍVEL “O diagnóstico fez também com que eu olhasse mais para minha saúde. Hoje eu cuido da minha alimentação, pratico exercício físico e faço todo o possível para que eu possa ter uma vida longeva. Quando você tem um filho com deficiência, o seu maior medo é morrer e ele continuar vulnerável nesse mundo.”

ARTE , SEMPRE

A chegada do Centro Pompidou ao Brasil, as duas décadas de Inhotim e a mostra itinerante da 36ª Bienal de São Paulo com recorde de visitantes são algumas das notícias que mostram o quanto o universo da arte está aquecido no Brasil. Para deixar você por dentro, criamos este almanaque com indicações de passeios, artistas para ficar de olho e outras curiosidades Por Luisa Alcantara e Silva

Há cerca de 25 anos, a colecionadora e mecenas Beatriz Yunes Guarita visitou com seu marido a residência de uma colecionadora de arte em Nova York. Uma obra do estadunidense Bill Viola chamou a sua atenção. Era uma instalação de vídeoarte em que ficavam passando imagens do ciclo da vida relacionadas à água. “Quem sabe um dia a gente consegue ter um trabalho dele em casa”, Bia disse ao marido. Duas décadas depois, a Sotheby’s, um dos principais e mais antigos espaços de leilão do mundo, enviou o catálogo de um evento em que a tal senhorinha, recém-falecida, estampava a capa.

Seu acervo estava à venda.

Bia quase não acreditou quando conseguiu dar o lance vencedor para a obra do artista. “Eu costumo dizer que a arte nos procura”, diz ela, que, além de cuidar da própria coleção – com mais de 4 mil obras – e da do pai (falecido) e da mãe, a coleção Ivani e Jorge Yunes (CIJY), com mais de 90 mil itens, faz parte de conselhos de importantes instituições de arte, como o Centre Pompidou, de Paris, a Fundação Bienal de São Paulo e a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Outra história que mostra a arte a procurando também começou há cerca de 20 anos, quando ela viu uma obra sonora do artista português Ricardo Jacinto. O trabalho não estava mais disponível – eram apenas três edições, então já vendidas –, mas, recentemente, um galerista lhe avisou que havia uma no mercado. Bia comprou a obra, que é uma performance, há pouco tempo. O trabalho consiste em o artista captar barulhos de um ambiente – no caso de Bia, de sua casa, em São Paulo –, “manipular esses sons e gravar como se fosse uma ausência do ser humano no espaço”, como explica Bia. Fones de ouvido ficarão espalhados na casa para as pessoas ouvirem. “Você vai escutar aquelas pessoas em um ambiente em que elas não estão. A obra leva você para o campo da imaginação.”

Essa é a sexta obra imaterial comprada por Bia, que está sempre antenada no mercado. Pesquisar e conhecer novos artistas faz parte de

seu trabalho. Bia tem ajudado o Pompidou com questões relacionadas à abertura de uma unidade da instituição em Foz do Iguaçu, no Paraná, a primeira no Hemisfério Sul.

Essa e outras notícias têm agitado o universo da arte, como a comemoração de duas décadas do Instituto Inhotim, em Brumadinho, em Minas Gerais. A programação do espaço, consolidado como o maior museu a céu aberto do mundo, começou em abril e se estende até o fim do ano, com mostras, entre outras, de Dalton Paula, Lais Myrrha e Davi de Jesus do Nascimento.

“A neuroarte está estudando como a arte, em suas diferentes formas, cura questões humanas”

Patricia Cardim, CEO da Belas Artes

Fora do eixo Rio-São Paulo, surpreendeu também a edição da mostra itinerante da 36ª Bienal de São Paulo, que bateu recorde ao atrair quase 35 mil visitantes ao Museu de Arte Contemporânea de Goiás.

Patricia Cardim, CEO do centenário Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, lembra que a arte tem uma importante função: a da cura. “A neuroarte está estudando como a arte, em suas diferentes formas, cura questões humanas”, diz ela. Nesse sentido, a instituição que dirige passou a oferecer cursos para pessoas que buscam a arte não como profissão, mas como respiro. “Sempre tivemos um olhar muito voltado ao mercado de trabalho, mas agora temos cursos em que a pessoa pode fazer aulas de cerâmica só para amassar uma maçaroca. Ela precisa daquele tempo, daquele momento presente, para seu bem-estar”, afirma.

PONTE Criada pela curadora brasileira Marina Bortoluzzi, a plataforma Women on Walls foi lançada em 2020 para conectar potenciais clientes a artistas, quase como um “Uber das Artes”. Ao acessar o serviço, é possível conhecer e contratar diretamente artistas, curadoras, produtoras e articuladoras desse universo no mundo todo. Você vê trabalhos como o da ilustradora Horopakó, indígena nascida em Novo Airão, no Amazonas, e o da portuguesa Maria Pratas, que faz bordados e outras obras manuais. A ideia também é impulsionar o valor dessas mulheres lançando editais, mentorias e outros projetos. Ponto para elas! @womenonwalls.co

GIRO CULTURAL

Membro do Conselho Curador da FAAP, conselheira do Museu de Arte Brasileira (MAB), da FAAP, do MIS e do Concultura da Fiesp, Pilar Guillon Liotti indica seus passeios culturais em São Paulo. “São lugares que me inspiram, emocionam e renovam o meu olhar”, diz ela.

MAB FAAP

“É um espaço que preserva, investiga e celebra a diversidade e a potência da criação nacional. Recentemente, a mostra FAAP na Coleção do MAM: A Formação do Artista surpreendeu a todos ao mostrar como as instituições irradiam saberes, abrigam rupturas e acompanham os movimentos da arte brasileira.”

MIS

PASSAPORTE Os museus preferidos da Pilar no exterior

PERGAMON MUSEUM , Berlim (fechado para reforma)

GRANDE MUSEU EGÍPCIO

, Cairo

“Arte, memória e inovação se encontram nesse museu para provocar reflexão e inspirar. As mostras são experiências sensoriais que misturam som, imagem e narrativa para aproximar o público da força humana.”

GUGGENHEIM NEW YORK , Nova York

MOMA , Nova York

Fernanda Galvão

“Formada na FAAP, sua prática artística parte da relação com a paisagem, a natureza e referências literárias. É muito interessante.” @fernanda.lgalvao

Eva Jospin

“Adoro as obras dessa artista francesa contemporânea, que mistura natureza e ficção, explorando temas como paisagens imaginárias, memória e cenários barrocos.”

Pipilotti Rist

“A artista visual suíça é reconhecida por suas videoinstalações e suas obras multimídia sempre lúdicas e coloridas.” @pipilotti_rist_studio

PILAR GUILLON LIOTTI INDICA ARTISTAS PARA FICAR DE OLHO

EM PERSPECTIVA

Cinco perguntas para a colecionadora e mecenas Beatriz Yunes Guarita

Carbono Donna Como você criou sua coleção?

Beatriz Yunes Guarita

Comecei com meu pai (Jorge Yunes, renomado colecionador de arte e empresário), ajudando-o a montar sua coleção. Fui treinando meu olhar na prática, frequentando leilões, conversando com artistas. Anos depois, iniciei minha própria coleção com meu marido. A do meu pai vai do quarto século antes de Cristo até 1970 e a minha de 1970 até os contemporâneos.

Carbono Donna Como é o mercado do mecenato no Brasil?

Beatriz Yunes Guarita

É restrito, há muito mais colecionadores do que mecenas. Acho que mais importante do que só colecionismo é o mecenato em si. Tenho muito prazer em apoiar novos artistas, projetos, fazer conexões de nomes de fora com brasileiros.

Carbono Donna Você costuma se cansar das obras que tem?

Beatriz Yunes Guarita

Não consigo, porque elas têm consistência. Meu marido às vezes me diz para eu vender tal obra porque o artista valorizou demais, mas é um pedacinho de mim. Acho que me desfiz somente de dois trabalhos nesses 40 anos. Eram peças que comprei sem pensar direito, e não tive a conexão de que precisava.

Carbono Donna Como começar uma coleção?

Beatriz Yunes Guarita

Antes de comprar uma obra, estude muito e vá a feiras. Mas vá sem vergonha de não comprar nada. E frequente ateliês de artistas para conversar, sem

“Uma coleção precisa ter um eixo de construção e esse eixo é o que você é”

dar esperança de que vai levar alguma coisa. Ao trocar ideias, você vai entender do que gosta. Uma coleção precisa ter um eixo de construção e esse eixo é o que você é. Esse passo atrás antes da compra, para você entender o que lhe move, é o principal a ser dado.

Carbono Donna Quais os riscos?

Beatriz Yunes Guarita

Você não entender o que busca. Se a coleção não refletir quem você é, fica mais fácil ir a uma galeria e comprar todas as obras. Se a obra refletir a sua alma, não tem risco nenhum.

PONTO DE CONEXÃO

Mais do que espaços voltados para a promoção e a comercialização da arte, as galerias funcionam como agentes dos artistas, conectando criadores a colecionadores e ao público em geral. A seguir, confira alguns dos principais endereços do Brasil, sediados em São Paulo

ANDRÉ

Considerada uma das maiores galerias de arte da América Latina, tem obras de mais de 150 artistas espalhadas em cerca de 1.500 metros quadrados. @galeria_andre

CASA TRIÂNGULO

Fundada em 1988 por Ricardo Trevisan, representa, entre outros, o argentino Matías Duville, que teve a instalação Monitor Yin Yang exibida na 61ª Bienal de Veneza neste ano.

@casatriangulo

NARA ROESLER

Com foco em arte contemporânea brasileira e internacional, inclui em seu programa nomes como Abraham Palatnik, Amelia Toledo e Tomie Ohtake. Além da sede em São Paulo, tem espaços no Rio de Janeiro e em Nova York.

@nararoesler

ALMEIDA & DALE

No ano passado, a Almeida & Dale se fundiu com a paulistana Galeria Millan. Tem espaços também em cidades como Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Goiânia. Representa cerca de 50 artistas. Nomes como Leonilson, Amilcar de Castro e Helio Oiticica.

@almeidaedale

LUISA STRINA

Um dos principais nomes quando o assunto é galeria de arte, Luisa Strina inaugurou seu espaço em 1974. Em 1992, tornou-se a primeira galeria latino-americana a participar da Art Basel. Representa mais de 40 nomes. Entre os brasileiros, há exemplos mais novos, como Brisa Noronha, e já consagrados, caso de Cildo Meireles. @galerialuisastrina

FORTES D’ALOIA & GABRIEL

Fundada como Galeria Fortes Vilaça em 2001, a Fortes D’Aloia & Gabriel tem presença em feiras de arte mundo afora. Em 2026, completou 25 anos com 45 artistas em seu quadro. São dois espaços em São Paulo e um no Rio de Janeiro.

@fortesdaloiagabriel

LUCIANA BRITO

No início dos anos 2000 – a galeria foi fundada em 1997 com Ana Maria Tavares, Mônica Nador, Nelson Leirner e Regina Silveira –, fortaleceu seu processo de internacionalização com a representação dos argentinos Leandro Erlich e Liliana Porter. Atualmente, tem nomes como Marina Abramovic e Alex Katz.

@lucianabritogaleria

GALATEA

Novata entre as galerias paulistanas – foi aberta em 2022 –, já tem dois endereços em São Paulo e um em Salvador. Dedica-se às artes moderna e contemporânea brasileiras, com nomes como Gabriela Melzer, Gabriella Marinho, Katie van Scherpenberg entre os representados. @galatea.art_

DAN

Gláucia e Peter Cohn iniciaram os trabalhos na galeria em 1972 com artistas como Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. Ao longo dos anos, foram além do modernismo brasileiro e expandiram sua atuação para a produção internacional e para a arte contemporânea. @dangaleria

VERVE

Fundada em 2013 e dirigida pelo artista plástico Allann Seabra e pelo arquiteto Ian Duarte, funciona no Edifício Louvre, na Av. São Luis. Entre os artistas que representa estão Ana Beatriz Almeida, Daniel Mello e Fefa Lins. @vervegaleria

CENTENÁRIA E ATUALIZADA

Quarta geração da família à frente do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, Patricia Cardim acredita que o sucesso da instituição vem do fato de a escola ser uma fotografia do momento. “Ela é centenária porque se atualiza, não fica parada”, diz a CEO da Belas Artes, que tem mais de oito mil alunos. A seguir, ela fala sobre a importância do estudo para quem quer trabalhar com arte.

Carbono Donna

Para alguém que quer trabalhar como artista, é fundamental fazer uma graduação na área?

Patricia Cardim

Sim. Acho que, atualmente, nenhum mercado criativo permite que a pessoa não tenha uma boa formação.

Carbono Donna

Ainda há aquela ideia de que artista não sabe lidar com dinheiro? Como a Belas Artes vê isso?

Patricia Cardim

Existe, mas, como olhamos muito para a realidade do mercado, engajamos o aluno para pensar de forma diferente, para ser implementador. E a mudança é rápida. Ainda sobre esse assunto, acabamos de lançar a pós-graduação em Autonomia Financeira Feminina do Brasil, com um olhar voltado para as mulheres.

Carbono Donna Para onde vão os alunos que se formam em artes visuais na Belas Artes?

Patricia Cardim

Hoje, 70% dos nossos formandos acabam trabalhando no mercado da arte – em instituições culturais, museus, setor público ou abrindo galerias. E 30% são artistas mesmo, que vão trabalhar com criação.

NO RADAR DE PATRICIA CARDIM

Luiz Escañuela @luizescanuela
Julia Pereira @juliapereira.art
Thiago Hattnher @thiagohattnher
Fran Chang @fr_chang

DE OLHOS BEM ABERTOS

Há dez anos no mercado de arte, Carollina Carreteiro está à frente da Galeria Ora, que nasceu itinerante e, desde o ano passado, tem endereço fixo em São Paulo. Aqui, ela compartilha algumas reflexões sobre seu trabalho

Carbono Donna

O que busca ao visitar feiras de arte?

Carollina Carreteiro

Gosto de ver a produção recente e, para isso, tento sempre manter o foco. Tanto para não ficar distraída com o lado social quanto para não perder algo importante ali. As feiras estão cada vez maiores e, muitas vezes, é a única oportunidade de você ver determinada obra, que pode ser vendida para uma coleção particular.

Carbono Donna

O que acha das bienais?

Carollina Carreteiro

Falando da de Veneza, da qual acabei de voltar, gosto do modelo de pavilhões dos países, mas acho que está um pouco século XX frente às questões que estamos vivendo. Falo isso sabendo que, como classe artística, não conseguimos ainda encontrar uma solução mais interessante. E, nas exposições principais, tento sempre entender o que os pensadores da arte no mundo estão colocando em pauta e pensar para onde estamos caminhando.

Carbono Donna O mercado está mudando?

Carollina Carreteiro

Tenho dez anos na área, mas já percebo o crescente interesse do público mais jovem. Acho que as redes sociais contribuem para isso, porque hoje há mais visibilidade, as obras de arte estão no TikTok e em outras plataformas.

“Tento entender o que os pensadores da arte estão colocando em pauta e pensar para onde estamos caminhando”

Carbono Donna

Como equilibra a arte com o fato de a galeria ser uma empresa, com fins comerciais?

Carollina Carreteiro

Sempre digo que a relação com os artistas é como um casamento, algo muito íntimo. E você não começa a namorar antes de conhecer bem a pessoa. Gosto de testar as relações, entender se vai dar certo no âmbito energético mesmo, se eu e o artista vamos conseguir dialogar, se temos uma visão de futuro alinhada. A gente quer paz de espírito.

Fotos Marcos Santos, Rafayane Carvalho e divulgação

NAS TELAS

Uma seleção de filmes que abordam a vida de grandes artistas

1. OS AMORES DE PICASSO (1996)

Anthony Hopkins dá vida ao pintor Pablo Picasso já mais velho, quando conhece a jovem Françoise Gilot (Natascha McElhone), que se torna sua amante e mãe de dois de seus filhos. Picasso a ajuda a entrar no universo da arte, apresentando-a a grandes mestres.

2. BASQUIAT – TRAÇOS DE UMA VIDA (1996)

A cinebiografia do artista Jean-Michel Basquiat, interpretado por Jeffrey Wright, mostra seu início no grafite e depois no neoexpressionismo. David Bowie está no elenco como Andy Warhol, grande apoiador do jovem talento.

3. POLLOCK (2000)

Ed Harris brilha como diretor e como ator ao interpretar Jackson Pollock, pintor do expressionismo abstrato e um dos maiores artistas estadunidenses do último século. O longa mostra o artista e sua dependência de álcool e da mulher, Lee Krasner (interpretada por Marcia Gay Harden).

4. FRIDA (2002)

Salma Hayek vive Frida, um dos principais nomes da pintura mexicana, papel que lhe rendeu indicação ao Oscar de melhor atriz. O filme mostra o casamento conturbado com o também pintor Diego Rivera, interpretado por Alfred Molina, e outros momentos importantes da vida da artista.

5. GRANDES OLHOS (2014)

Outro longa que traz o sofrimento de uma artista mulher, o drama apresenta a história da pintora Margaret Keane (Amy Adams). Ela fazia retratos de crianças com olhos grandes, mas era seu marido, o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz), que levava o crédito.

6. COM AMOR, VAN GOGH (2017)

O longa, indicado ao Oscar de melhor animação, traz Armand Roulin, filho do carteiro e amigo pessoal do artista, que recebe a missão de entregar pessoalmente a última carta de Van Gogh ao seu irmão, Theo.

7. NO PORTAL DA ETERNIDADE (2018)

Ainda para quem gosta de Van Gogh, o filme traz o ator Willem Dafoe no papel do pintor holandês e mostra a luta dele contra os avanços da loucura, da depressão e as pressões sociais.

8. ROTHKO – UM MESTRE AMERICANO (2019)

Um dos principais nomes do movimento expressionista abstrato, Mark Rothko é tema de documentário. A obra traz depoimentos dos filhos do pintor russo, naturalizado americano, aos 10 anos de idade.

NO PAPEL

Lista de biografias sobre artistas de diferentes épocas

1. FRIDA - A BIOGRAFIA (1983)

A escritora Hayden Herrera escreve o que é considerada a biografia definitiva sobre a pintora mexicana (Editora Biblioteca Azul). A obra mostra as principais dificuldades vividas por Frida – o casamento com Diego Rivera, o acidente, na juventude, que a deixou com restrições graves de mobilidade, a relação com Leon Trotsky. A obra também mergulha em detalhes pouco difundidos sobre ela.

2. MICHELANGELO - UMA VIDA ÉPICA (2015)

Do jovem artista ao reconhecido mestre das artes que pintou o afresco na Capela Sistina, Michelangelo Buonarroti foi um artista complexo, e sua vida é contada por Martin Gayford (Cosac & Naify).

3. PICASSO (2006)

O pintor espanhol tem sua trajetória contada pelo pesquisador de história da arte Gilles Plazy (Editora L&PM). Ele narra os primeiros anos do pintor, a mudança da Galícia para Barcelona, as amizades, os amores, e o gosto pela vida agitada, que o marcaria por toda a vida.

4. PORTINARI: O PINTOR DO BRASIL (2003)

Um dos pintores brasileiros mais reconhecidos internacionalmente, Cândido Portinari é retratado no perfil de Marilia Balbi (Boitempo Editorial).

5. RENOIR: UMA BIOGRAFIA ÍNTIMA (2019) Maior autoridade sobre a vida e o trabalho de Renoir, Barbara Ehrlich White mergulha no universo do impressionista francês (Amarilys Editora). Há trechos de cartas escritas pelo pintor, que até amigos próximos e familiares tinham dificuldade de entender.

6. TARSILA DO AMARAL: A MODERNISTA (2018)

A autora Nádia Batella Gotlib volta-se para a história de um dos maiores ícones das artes no Brasil nessa obra (Edições Sesc). O leitor poderá conhecer a vida particular de Tarsila, sua formação artística, os amigos do círculo modernista, a antropofagia e outros momentos de sua trajetória.

FOLLOW ME

Elas criam, lideram, cuidam, inovam – cada uma à sua maneira, mas todas com impacto real. Nesta seleção, reunimos mulheres que inspiram não só pelo que fazem, mas pela forma como constroem suas histórias.

Perfis para acompanhar, aprender e se conectar

Nadia Léauté é executiva de marketing e comunicação com mais de 15 anos de experiência internacional nos universos premium de cultura e lifestyle. Atuou em grandes grupos, como L’Oréal, Pernod Ricard, LVMH e Rolex, liderando estratégias de marca em diferentes mercados. Hoje, é fundadora e CEO da Blend Inspire, onde desenvolve posicionamento e storytelling para labels de luxo. Ela também apresenta o ótimo quadro By Francesinha, no Instagram, destacando quem movimenta a cena cultural em São Paulo. @by_francesinha

A minissérie O Caminho do Cacau, apresentada pela empresária Ticiana Villas Boas Batista, surgiu com o intuito de mostrar ao público algumas etapas importantes da produção e do beneficiamento do cacau. Acompanhada pela equipe técnica da Fazenda Lealdade – propriedade centenária localizada em Maraú, na Bahia –, Ticiana apresenta os processos, da colheita à comercialização do cacau, com charme e sensibilidade. Os primeiros episódios já foram publicados no Instagram da Fazenda Lealdade. @fazenda_lealdade

Criada por Mariana Souza Sales, a Conexão Arte vem transformando encontros com a arte em experiências vivas – no Brasil e no mundo –, sempre guiadas por professores que ampliam o olhar de forma leve e acessível. São roteiros, vivências artísticas e encontros conduzidos por quem entende do assunto e sabe compartilhar. Com a Conexão Arte, conhecer uma exposição deixa de ser apenas uma visita e se torna um momento de descoberta, aprendizado e encantamento. Em junho, celebrou dez anos. @conexaoarte ‎

Há 11 anos, Renata Rocha Fanucchi trocou a advocacia por um propósito: o amor pelos cães. Assim nasceu o Just Dog, um dos espaços pioneiros em São Paulo como hotel e day care canino, onde cada animal é acolhido com olhar atento, respeito à sua individualidade e afeto genuíno. Ao longo dos anos, muitos dos cachorros que chegaram ainda filhotes cresceram sob seus cuidados, criando vínculos que atravessam o tempo e traduzem algo raro: a confiança construída na presença e na dedicação diária. @justdog_daycare

Chris Francini estudou moda no Istituto

Marangoni e na Parsons School of Design e, após a formação, assumiu o posto de primeira estilista da Track&Field no Brasil. Em seguida, desenvolveu o curso de Consultoria de Imagem e Moda do Senac São Paulo, atuou como chefe de figurino da TV Bandeirantes e da Record TV e lançou sua própria marca de camisas. Hoje, segue no universo fashion a partir de uma nova lente: a digital. No Instagram, compartilha conteúdo por meio do quadro How To, com dicas práticas de estilo, além de oferecer cursos on-line. @chrisfrancini

Empresária e palestrante, Tati Nigro é fundadora do escritório de experiências

Tati Nigro & Co., da WAV& Woman World e do movimento Share Your Light, que tem como missão unir e potencializar mulheres. Com mais de 30 anos de trajetória na moda e passagens por marcas como Le Lis Blanc e Lolitta, expandiu sua atuação para o comportamento humano e o desenvolvimento feminino. Primeira brasileira a concluir o MBA em Luxury Management da International University of Monaco, também atua como professora na FAAP. @tatinigro_

O Arte N C, projeto das jovens

Gloria Wickbold e Helena Valansi, nasceu da vontade de abrir portas para o circuito juvenil da arte contemporânea. A iniciativa dá visibilidade a artistas universitários por meio de exposições, entrevistas e conteúdos que traduzem a arte de forma mais acessível. A ideia é simples e poderosa: conectar novos públicos às histórias, aos processos e às trajetórias de artistas em formação. Além disso, publicam conversas aprofundadas com alguns dos principais nomes do mercado. @_arte_nc_

Idealizada por Camila Dable, Thais Braid e Victoria Angelini, a Martinique – marca brasileira de moda infantil autoral – foi criada para vestir crianças com elegância e conforto. Inspirada na beleza natural da ilha caribenha que lhe dá nome, propõe um novo olhar sobre o vestir na infância: peças atemporais, feitas com atenção aos detalhes, que acompanham o brincar, o imaginar e o crescer. Sua estética leve, poética e funcional se destaca pelo uso de estampas exclusivas, voltadas para crianças de dois a dez anos. @martinique.oficial

À frente do Adote Vica, a empresária

Amanda Senna – fundadora também da marca de moda praia Yeye Waterwear – conduz um centro de reabilitação e adoção responsável (que também funciona como petshop), com estrutura e compromisso real com o bem-estar animal. Cada resgate envolve acompanhamento veterinário e preparo cuidadoso antes da entrega do pet. A taxa de adoção garante a continuidade do trabalho e incentiva decisões conscientes. Adotar é um ato de amor – e, acima de tudo, de responsabilidade. @adotevica

Propriedade Criativa é o podcast apresentado pela jornalista e executiva de mídia Carol Gazal, que investiga, com um olhar sensível, o que transforma ideias em ativos culturais e de negócio. Em conversas profundas com nomes relevantes da indústria audiovisual, da mídia e do entretenimento, o programa revela bastidores, decisões e histórias que moldam o conteúdo que consumimos – da criação à distribuição. O podcast é exibido ao vivo nas plataformas de áudio e vídeo do Na Telinha Talk, sempre às segundas-feiras, às 19h. @carolgazal

No comando de uma nova forma de olhar para a carne no Brasil, Larissa Morales vem transformando o universo do churrasco em uma experiência mais técnica, sensorial e autoral. Primeira sommelière de carnes do País certificada pela Escola de Sommeliers de Carnes da Universidade de Buenos Aires, ela comanda o Larica na Brasa, canal de churrasco pioneiro comandado por uma mulher no YouTube – hoje com 18 milhões de visualizações e mais de 1,5 milhão de seguidores. @laricanabrasa

“A Liberdade de se Sentir Bem”. Com esse slogan a empresária Bianca Arcangeli apresenta a Clínica Arcangeli, no Itaim, em São Paulo, cujo foco é cuidar de cada pessoa de forma única e exclusiva. O espaço reúne inovação, tecnologia e ciência, e conta com uma metodologia própria – a badalada Redução Real® –, um protocolo de quatro ou oito semanas que combina diferentes equipamentos para promover apoptose e lipólise, com o objetivo de reduzir medidas de forma integrada. @clinicaarcangeli

A Poli Cucina, marca de experiências gastronômicas da chef Poliana Moufarrege, transforma a mesa em um espaço de conexão, troca e cultura. Com projetos autorais que vão além do simples ato de cozinhar, propõe encontros que estimulam convivência e construção de memórias. Atuando entre gastronomia e experiência, desenvolve desde jantares imersivos e vivências culinárias até projetos especiais em parceria com marcas e restaurantes, sempre com foco no encontro e no significado por trás de cada refeição. @poli.cucina

Com a chegada de Camila Pedrosa Magalhães como sócia, inicia-se uma nova fase da Vi Coutinho Festas. A marca, que nasceu da paixão da designer de interiores Vitória Coutinho por flores e decoração, evolui para um olhar mais amplo: projetos completos de festas, nos quais cada elemento é pensado de forma integrada, do conceito à execução. A entrada de Camila amplia o repertório criativo da marca e fortalece sua atuação na criação de experiências com identidade, estética refinada e atenção aos detalhes. @vicoutinhofestas

Rossana Angelini é mestra em Educação, Administração e Comunicação, pedagoga, psicopedagoga e formada em Letras na USP. Sua atuação se concentra no desenvolvimento do aprendizado, com ênfase na criatividade. Autora de obras que transitam entre a literatura infantojuvenil e a psicopedagogia, tem entre seus destaques Na Barriga da Mamãe e As Metáforas do Brincar e sua Dimensão na Clínica Psicopedagógica, além da série queridinha As Feras Peludas, que, em breve, ganha mais um volume. @poesiasemoracao

No meio do caminho tinha...

Dona de um senso estético absolutamente único, Maria Helena Pessôa de Queiroz busca beleza e significado em todos os lugares em que transita, e não só em seu MHSTUDIOS, focado em papelaria artesanal. Aqui, ela divide um pouco do que tem feito seu universo criativo pulsar mais forte, além de dicas para quem busca conexões mais profundas

“A pergunta sobre minhas referências criativas sempre me parece um pouco enganosa, porque sugere que existe um momento em que se está atenta e outro em que não, como se a inspiração fosse uma frequência que a gente sintoniza ou desliga. Não funciona assim para mim. O que existe é uma espécie de contaminação lenta. Acho que o meu trabalho de diretora criativa não é estar permanentemente alerta às inspirações. Acredito que meu papel seja também o de construir, com paciência e algum egoísmo, um repertório íntimo que continue produzindo eco depois que fechei o livro ou saí do museu. As coisas que importam voltam sozinhas. Sempre voltam. O que me alimenta de verdade é o que se esquece e depois ressurge, transformado em outra coisa.”

DESCANSO PROFUNDO:

AMANFAYUN

Fui para a China e me hospedei no Amanfayun, rodeado de plantações de chá e bosques de bambu. É o tipo de paz que você esquece que existe. Volta e meia me pego pensando nesse lugar.

A designer Julia Gastin mergulha fundo nas joias de crioula e traz criações próprias, todas feitas à mão, com uma pesquisa extremamente profunda e relevante por trás. É o tipo de mulher – e de trabalho – que eu admiro muito: atenta, cheia de repertório, talentosa e incrivelmente chique.

ELEFANTES NA NEBLINA

Esse podcast traz conversas tão profundas sobre psicanálise e autoconhecimento que, por vezes, me vejo dias a fio no mesmo episódio, pausando, anotando insights. Feito por três cabeças muito pensantes, é sempre um mergulho para dentro que me oferece saídas valiosas.

BATIDA SÓ, DE GIOVANA MADALOSSO

Fazia tempo que eu não lia um livro tão bom. Terminei com um nó na garganta.

100 ANOS GILBERTO CHATEAUBRIAND

Uma coleção que é patrimônio do Brasil está exposta com a grandeza que merece, no MAM do Rio. Ver reunido num só lugar o que Chateaubriand dedicou a vida a colecionar é lembrar que arte é também um ato de amor e de preservação da memória.

PLOU VINHOS

Adoro essa casinha charmosa, longe daquela energia de restaurante badalado lotado de São Paulo. Com uma seleção de vinhos simplesmente surreal, faz com que eu me sinta em Buenos Aires, à vontade, acolhida.

MANAS

O filme é um retrato delicado e corajoso de duas irmãs indígenas no Pará e carrega dentro dele questões urgentes sobre identidade, pertencimento e resistência. É o tipo de história que fica dentro da gente bem depois dos créditos.

COMER MUITO BEM

Sou carioca, apaixonada pelo Rio e o Pura Brasa traduz tudo o que eu amo na cidade: mesa na rua, chinelo, pé cheio de areia. O pão de alho é provavelmente o melhor que já comi na vida, o coração de galinha tem um molho incrível e a fraldinha com arroz de brócolis e batata é o cardápio do carioca. Perfeito pós-praia.

Adoro acompanhar essa influenciadora (@vicmontanari) porque ela não se leva a sério, tem senso de humor e uma energia solar que é muito bonita de se ver. Aliás, gente que não se leva a sério é o tipo de coisa que eu acho raro e precioso nos dias atuais.

O trabalho da Lize (@lisegrendene) sempre carrega uma pesquisa muito profunda por trás, com temas ligados ao feminino que impõem reflexões sérias, tal qual é a própria artista. E o uso que ela faz das cores me fascina.

UM CAFÉ COZY EM SP

A Bibla, no Alto de Pinheiros, me lembrou muito o projeto temporário Alice, Casa dos Curiosos, que criei em 2024. Aconchegante, bonitinho e gostoso para se ler um livro, é o tipo de lugar que a gente precisava que existisse mais em São Paulo.

VIAJAR PARA DENTRO: RETIROS SOWING

Tenho tentado reservar cada vez mais tempo para mergulhos internos. Faço menos do que gostaria, mas mais do que já fiz. E os retiros do Sowing são oportunidades raras de conexão profunda consigo mesma, autoconhecimento e expansão de consciência.

SOBREMESA: NOKCHA, DO KOMAH

O Komah já é um conhecido de longa data de quem ama comer bem. E o Nokcha, um gelato de leite com ganache de chocolate branco e chá-verde, me surpreendeu de um jeito especial.

PARA DANÇAR

O nome do Quartinho, no Rio, já diz tudo: é pequeno, mas traz aquela sensação de sala de casa em que chegou muita gente. Música boa, clima despachado, pessoas à vontade. De novo, o Rio me lembrando do despojamento que tanta falta faz em São Paulo.

USINA DE ARTE ÁGUA PRETA, PERNAMBUCO

A Usina Santa Terezinha foi fundada pelo meu bisavô e chegou a ser uma das maiores produtoras de álcool e açúcar de Pernambuco. Desativada, ficou parada no tempo, até que meus primos, com um desejo muito claro de ressignificar esse lugar e trazê-lo ao presente, criaram a Usina de Arte. Hoje são mais de 40 hectares que vão da antiga fábrica a um jardim botânico, com cerca de 40 obras ao ar livre de artistas brasileiros e internacionais, como Marina Abramovic, Regina Silveira e Alfredo Jaar. A maioria delas foi criada a partir de residências em que os convidados mergulharam na história do lugar e da comunidade. É lindo ver a memória e o futuro coexistindo assim num mesmo espaço.

Lucila Evangelista

Carbono Minds
LUCILA
“Há 50 anos, mãe e filha não falavam sobre sexualidade feminina; ainda bem que isso mudou”

Sócia fundadora da Célula Mater, clínica referência no Brasil há 40 anos, a ginecologista Lucila Evangelista acompanha, ao longo de sua trajetória, a evolução da mulher e os avanços da tecnologia

Por

A médica Lucila Evangelista tem muito o que comemorar neste 2026. Ela completa meio século de profissão – 47 anos como obstetra e os últimos três como ginecologista – e quatro décadas da Clínica Célula Mater, que mantém com o sócio e amigo Carlos Czeresnia, em São Paulo.

Ao longo de todo esse tempo, Lucila viu muitas transformações na medicina. Só para se ter uma ideia, ela estava grávida durante a residência quando um dos primeiros aparelhos de ultrassom chegou ao Brasil. “Minha filha foi cobaia da novidade”, diz Lucila hoje, época em que os bebês podem ser operados ainda no útero. Outra revolução que ela acompanhou foi a adaptação da sociedade a aceitar médicas mulheres. “Existia uma certa barreira. Eu mesma, no início da carreira, quis fazer plantão em uma maternidade e ouvi do diretor que não havia quarto (de descanso) para mulher”, lembra.

Entre as mudanças mais importantes, Lucila cita o empoderamento feminino em relação à sexualidade. “A mulher descobriu o prazer”, diz. A seguir, a médica fala sobre essas transformações e outras questões que a acompanham ao longo desses 50 anos de profissão – e mais de cinco mil partos realizados.

VOCAÇÃO “Quando entrei na faculdade, ser obstetra nem passava pela minha cabeça. Eu era muito tímida, achava que não conseguiria lidar com as pessoas diretamente. Frequentava muito o laboratório da faculdade, pensando em trabalhar com pesquisa. Até que um amigo me chamou para acompanhar um parto. Quando vi, eu falei: ‘Foi para isso que eu nasci’. Vivi uma emoção tão forte que nunca mais tive dúvidas. Ver surgir uma vida na sua frente é emocionante demais.”

PIONEIRISMO “Desde o começo da clínica, eu e meu sócio, Carlos Czeresnia, contratamos uma enfermeira obstetriz para acompanhar todo o pré-natal. Fomos um dos pioneiros a trazer esse olhar integral. E isso fez com que a gente conseguisse uma taxa de parto normal que quase ninguém tinha.”

UMA GRANDE NOTÍCIA “Em 99% dos casos de gravidez, você está trazendo uma boa notícia para a pessoa,

mas tem o outro lado, que é muito trágico. Ao longo da vida, eu fui aprendendo a ter uma postura adequada, mas essa é, para mim, a maior dificuldade da profissão.”

BÔNUS E ÔNUS “Não importa quantos partos eu tenha feito, sempre sinto um frio na barriga. É muita emoção. A obstetrícia é uma das áreas mais gratificantes da Medicina – e também uma das mais sacrificadas. Porque você tem que estar sempre ali, disponível. Não dá para prever a hora que o bebê vai nascer. Isso foi algo que me fez decidir, depois de 47 anos, por trabalhar como ginecologista, e não mais obstetra.”

ASAP “A possibilidade de uma grávida conseguir falar com sua obstetra por aplicativos de mensagem é algo positivo. Nós, médicos, estamos aprendendo a lidar com isso, a impor limites, porque não é sempre que podemos responder na hora. E não é sempre que a paciente precisa mandar mensagem com pedido de urgência.”

DAS TELAS PARA A VIDA “A gente vive uma era de excesso de informação e eu costumo dizer: ‘Olha, se você quer se informar pela internet tudo bem, mas procure sites aprovados pelo Conselho Regional de Medicina’. É até positivo que a pessoa pesquise on-line, isso faz com que ela saiba melhor o que perguntar para os médicos. O que não dá é para ficar se informando por TikTok, por rede social.”

NOVAS FRONTEIRAS “Uma coisa que realmente mudou é que as mães falam com suas filhas sobre sexualidade, as mulheres estão mais informadas. Havia muitas mulheres com dificuldade para ter orgasmo há 50 anos e, hoje, esse número diminuiu. Nesse sentido, a gente se empoderou, porque nem passa pela cabeça da jovem ter alguma culpa por querer iniciar a atividade sexual.”

FAMÍLIA Ê, FAMÍLIA “Há 50 anos, a gravidez era questão da mulher com ela mesma; o parceiro não a acompanhava no pré-natal. Isso foi outra mudança que vi. Hoje em dia, o parceiro ou a parceira sempre está presente, o que é extremamente importante.”

AMOR AO ALVO

CarolTilkian

Eterno enquanto dure, ou em curto prazo, amar é atividade incerta, que envolve pouca técnica e muito risco. Um jogo que não nos cansamos de disputar, mesmo que vez ou outra nos liquide. Com a palavra, a psicanalista e especialista em relacionamentos Carol Tilkian

Amar é papo sério. Ontem, hoje e amanhã, o hábito não cai em desuso, mas se transforma conforme as gerações. Presente em rodas, principalmente femininas – não porque as mulheres amam mais, mas porque falam mais abertamente do assunto –, os relacionamentos amorosos se adaptam aos tempos, ganhando novas regras, novos contornos e termos. Convidamos a psicanalista e comunicadora Carol Tilkian, pesquisadora de relacionamentos e fundadora do

Carbono Donna

Qual é a principal característica dos relacionamentos amorosos atuais?

Carol Tilkian

Uma marca muito forte é o efeito da ansiedade social na ansiedade pessoal. Percebo que as pessoas estão à espera de um desastre, mais intransigentes, lidando com o próximo como se fossem inimigos, e não parceiros. E, quando estamos sempre esperando o pior, o próximo vira um ser capaz de nos machucar. O Brasil é o país mais ansioso do mundo e o quarto mais deprimido. Estamos tão imersos em problemas que não queremos que o outro seja uma questão extra para nós, e nem desejamos ser um problema para o outro. Com isso, qualquer pedido, expectativa ou discussão é um grande fardo. Estamos vivendo tempos de anorexia afetiva. O mesmo movimento da diminuição dos corpos, por conta das canetas emagrecedoras, aparece como demanda também de diminuição do peso na relação. Mas a verdade é que não existe relação sem peso. Some a isso uma comunicação menos ao vivo e mais mediada por mensagens, áudios, inteligência artificial. O resultado é que muito se pressupõe e se resolve, e

canal Amores Possíveis, para falar sobre o tema. Da importância da descoberta do processo pessoal de tesão ao que anda matando relações atuais, ela afirma: “Estamos vivendo em tempos de anorexia afetiva. O mesmo movimento da diminuição dos corpos, por conta das canetas emagrecedoras, aparece como demanda também de diminuição do peso na relação”. A seguir, essa e outras observações espertas sobre amar nos tempos atuais.

com isso acontece uma desistência antes mesmo de uma chance de ajustar a relação.

Carbono Donna De qual faixa etária estamos falando?

Carol Tilkian

Eu brinco que os 40+ estão vivendo uma espécie de adolescentização do desejo e do enlace amoroso. Essa turma quer ou apaixonamentos mágicos ou nada. Do tipo só entro numa relação se me trouxer borboletas no estômago. Mas a real é que não há nem tempo de dar certo ou para que algo real aconteça. Não estamos sustentando a perda da fantasia. Já a geração mais nova quer namorar, casar, fazer festa. E isso é um reflexo dos dias atuais, dos tempos instáveis. Em períodos sem nenhuma outra segurança, em que não sabemos se haverá trabalho, se seremos assaltados na rua, os contornos aparecem justamente nessa segurança de ter uma relação monogâmica.

Carbono Donna

Um estudo americano mostra que 89% dos filmes com protagonistas mulheres são histórias de romance.

“A gente ainda romantiza a anulação dos próprios desejos, da rotina, em nome do ‘nós’. E isso pode esconder comportamento com dinâmicas de codependência”

Ou seja, a gente cresce entendendo que esse é o (único) caminho. Como mudar essa narrativa? Com o que as mulheres hoje sonham, além de ser desejadas?

Carol Tilkian

O homem está aos poucos deixando de ter lugar de centralidade. Uma pesquisa de 2025 do Instituto Think Olga revelou que o maior sonho das mulheres brasileiras é viajar. Não é mais o casamento, é viajar sozinha ou com as amigas. Ainda assim, é importante apontar o crescimento das “trad wife” [abreviação de traditional wife ou, em tradução livre, esposa tradicional], movimento de mulheres que propaga que a felicidade está no conjugal. Esse discurso é perigoso e pune as mulheres autônomas. São falas muito fortes: “Você não acha que trabalha demais? Será que uma mulher forte não assusta um possível parceiro? Volte a ser mulher, vai cuidar da casa, fazer pão, descansar”.

Carbono Donna

Existe hoje quase uma rixa entre homens e mulheres. O que isso diz sobre nossa sociedade e nossas relações?

Carol Tilkian

Existe uma lógica nós versus eles. E olhar o outro como inimigo não serve para nada. Um a cada três homens da geração Z acredita que a mulher tem que obedecer ao marido. E uma em cada cinco mulheres concorda. Temos que parar e pensar o quanto o pensamento bélico se infiltrou nas nossas relações. Quando temos, por exemplo, uma figura pública, como o Trump, que fala em aniquilar uma população inteira [se referindo a essa fala: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, do dia 7 de abril de 2025],

a gente normaliza a agressividade. Estamos sendo muito agressivos e reativos uns com os outros. Percebemos isso na escolha das palavras.

Carbono Donna

Quando falamos em relacionamentos parece que só é bom se for para sempre. O amor pode ser verdadeiro e passageiro?

Carol Tilkian

Nossa sociedade ainda é muito refém do amor romântico. Aqui vale dizer que as mulheres e os homens sentem e sofrem com esse fracasso de uma relação que acaba. É o fracasso de um sonho. Ambos também sofrem esticando as relações em nome desse plano. Porque estar junto é ter um olhar que valida todas as suas experiências: alguém que esteve lá em vários momentos da sua vida. Então, quando essa união termina, tem muitos lutos envolvidos: o luto dos planos, o luto de quem se foi e o luto de quem se poderia ter sido. Gosto de pensar em amor como um caleidoscópio: às vezes afasta, às vezes junta, às vezes mais harmonioso, às vezes menos harmonioso.

Carbono Donna

Como entra o tesão nessa conta?

Carol Tilkian

Vivemos em tempos da ditadura da liberdade. Ou seja, tem quem transe casualmente só para não ser visto como careta. O caminho é cada um poder entender seu processo de tesão. Senão ficamos performando a mulher contemporânea. É preciso ser menos moralista também no desejo. Assim como individualmente é necessário investigar, como

casais precisamos investir na manutenção do vínculo romântico. Cuidar da conjugalidade com o mesmo carinho que depositamos em todas as outras funções. É uma ideia fantasiosa que a vida a dois não dá trabalho. Um amor conversado não vale menos. Já tive o privilégio de entrevistar Helen Fisher, antropóloga americana e uma das maiores estudiosas de relações conjugais longevas, e o que ela aponta e eu acho muito interessante é: casais, quando querem voltar a erotizar a relação, tendem a manter rituais. Ir ao mesmo restaurante, viajar para aquela pousada conhecida. Enquanto ela diz que fazer coisas novas desperta hormônios ligados ao prazer e à excitação. Façam coisas novas!

Carbono Donna

Quando se termina um casamento, a chance de virar ‘o solteiro’ ou uma ameaça para as turmas de amigos é grande. O que isso diz sobre nossas relações para além das amorosas?

Carol Tilkian

Eu acho que, mais do que uma pessoa paquerável, o que acontece é que a pessoa que se separa quebra um pacto simbólico de que em nome da família, a gente vai sustentar relações mesmo estando esvaziadas, desencontradas ou até violentas. Muitas vezes, quem se separa escancara o desejo que você não está se autorizando a ter. A pessoa que se mantém casada se sente julgada por quem saiu do casamento. O conflito se dá muito mais nesse lugar de quebra de pacto.

Carbono Donna

Há quem ache que a traição pode ser solução para o casamento…

Carol Tilkian

Defendo que quem ama trai. Existe uma pesquisa que indica que 65% das pessoas falam que traição é algo natural. Se é natural, por que então a gente ainda moraliza? Ninguém é tudo para o outro. Porque o que eu vejo é que também existe traição nas relações abertas. As pessoas traem os combinados porque existe um tesão no transgredir. Por outro lado, tem um boom de detetives. Um em cada quatro brasileiros já colocou aplicativo para stalkear celular do companheiro/a. É uma neurose obsessiva de controle que está minando as relações. Será mesmo que eu preciso saber tudo o que o outro está fazendo? Por que não usar essa energia para voltar a erotizar o desejo? Outro ponto interessante é que a mulher que trai ainda é muito mais julgada do que o homem que faz o mesmo. Ainda temos uma sociedade bem machista, que olha para essa mulher com uma cobrança muito maior.

Carbono Donna

O que as mulheres podem ensinar sobre relacionamentos aos homens? E quais desafios que elas ainda ainda enfrentam no amor?

Carol Tilkian

Mulheres podem ensinar que vulnerabilidade não é fraqueza, que conversa não é D.R. e que a gente pode cuidar um do outro, ser mais testemunha um do outro. Enquanto um grande desafio é desassociar o amor do cuidado. A gente ainda romantiza a anulação dos próprios desejos, da rotina, em nome do ‘nós’. E isso pode esconder comportamento com dinâmicas de codependência.

morada nas alturas

Com vista de diferentes ângulos de São Paulo, a cobertura de Luciana Nascimento é um refúgio de sotaque autoral que desconecta a rotina familiar do ritmo acelerado da metrópole

Por Raquel Fortuna Fotos Fernando Guerra Retratos João Bertholini

Quem entra no apartamento de Luciana Nascimento, em São Paulo, recebe um convite imediato: esquecer o frenesi do lado de fora, na região da movimentada Avenida Faria Lima. Embora totalmente inserida nesse contexto urbano, a cobertura triplex de 541 m², localizada entre o 37º e o 39º andares, descortina uma das vistas mais privilegiadas da cidade, emoldurando a Serra do Mar, a Serra da Cantareira, o rio Pinheiros e o Jardim Europa. “Dá até para saber se está vindo uma frente fria”, brinca o arquiteto Gabriel Garbin, que assina o projeto da cobertura, ao lado da

também arquiteta Bruna Garbin. “A ideia sempre foi tomar partido dessa integração total com o visual lá fora”, explica ele. Manter o diálogo com a metrópole e, ao mesmo tempo, trazer acolhimento aos ambientes era um dos desafios iniciais. Apesar da metragem generosa distribuída em três níveis, o layout pedia mais fluidez e uma adaptação dos espaços à rotina dinâmica dos moradores: uma mãe e três filhos de 8, 12 e 14 anos. “São três jovens com rotinas completamente diferentes. Eles estão em uma fase em que gostam de receber amigos. Então, refizemos a planta do

Casa | LUCIANA NASCIMENTO

andar dos quartos, deixando um para cada filho, um quarto de apoio, uma sala de convivência e uma minilavanderia. O meu quarto ficou em cima, no mesmo andar do espaço gourmet e da piscina. Como os arquitetos usaram uma parte do pé-direito duplo para ampliar, ganhei 60 metros quadrados de área construída. Então ficou bem privativo. Gostei do resultado. Cada um com seu espaço”, conta a proprietária do apartamento, Luciana, que costuma passar a maior parte do tempo justamente em seu canto particular. “Fiz um escritório, tem a área externa que parece meio uma casa, porque tem jardim, piscina, sol... Eu me sento à mesa, olho o verde e fico ao ar livre. Os meninos acabam passando grande parte do dia fora de casa, e eu uso muito essa parte”, comenta ela.

Elemento central na estrutura do imóvel, a escada é definida por Gabriel como o coração do projeto. Para além da função de circulação, sua forma escultural assume verdadeiro protagonismo. “Fizemos uma estrutura metálica totalmente revestida de madeira freijó lavada. Visualmente, é como se fosse aquele jogo de pega-varetas”, detalha o arquiteto. O desenho vazado também cumpre um papel funcional: “Ela permite uma comunicação sutil, sem isolar completamente os ambientes. Dá para ouvir se uma criança está descendo, por exemplo, o que ajuda na integração entre os andares”, complementa a arquiteta Bruna Garbin. Para arrematar, a iluminação linear, assinada por Airton Pimenta, reforça a imponência dessa verticalidade.

“Dá até para saber se está vindo uma frente fria”

Gabriel Garbin, arquiteto, sobre a vista do apartamento

A madeira freijó é o fio condutor de muitos dos ambientes do imóvel. E a escada, além da função de circulação, assume o papel de coração do projeto

“São ambientes feitos para o convívio real, desenhados de acordo com a forma como a família vive”
Bruna Garbin, arquiteta

A vista, que escancara até a Serra da Cantareira, é um dos destaques do apartamento, no burburinho de São Paulo

Toque de brasilidade

Essa mesma madeira freijó dá o tom no acabamento geral: surge nos forros e paredes dos pavimentos de chegada e superior, formando uma linha condutora que traz unidade aos espaços. “O briefing da cliente era que o apartamento tivesse uma relação forte com o Brasil. Então escolhemos uma madeira bem brasileira”, explica Gabriel. A ideia de Luciana era

fugir da aparência de “showroom”, como ela define. “Queria uma casa que tivesse identidade”, diz Luciana. Misturar itens novos e de acervo, além de dar uma garimpada em objetos são paixões da proprietária. Por isso, a sala de estar foi ambientada com peças de mobiliário familiar e aquisições recentes, predominantemente assinadas por designers brasileiros, como a poltrona Senhor, de Bernardo Figueiredo, e o par de poltronas Tete, de Sergio

Rodrigues. Os tecidos transitam por uma paleta de tons terrosos, explorando a variedade cromática. Para amarrar os ambientes sem quebrar a unidade, a artista têxtil Juliana Maia desenvolveu tapetes sob medida em um patchwork contemporâneo de tramas e cores. “Tem muita peça personalizada. Gosto bastante de detalhes artesanais. Então algumas coisas foram desenhadas pelos próprios arquitetos”, conta Luciana.

O apartamento mistura móveis garimpados do acervo familiar, peças assinadas por designers brasileiros e itens com detalhes artesanais, desenhados sob medida para o espaço paulistano

Detalhes como os acabamentos de cobre nas mesas de jantar tiveram o toque de Gabriel e Bruna. “A mesa da sala de almoço, por exemplo, a princípio seria uma mesa única, depois nós acabamos dividindo em duas peças, porque a Luciana tem uma turma de amigas enorme e, quando fosse receber, o móvel único iria dificultar o acesso”, explica Gabriel. As mesas não têm cadeiras tradicionais, mas uma espécie de banco-sofá em

volta. “Fica um ambiente configurável: você consegue tirar tudo, reorganizar e mudar o espaço conforme a ocasião”, complementa Bruna. A busca por flexibilidade reflete o desejo de Luciana por uma dinâmica mais informal, inspirada no estilo de vida da Costa Oeste americana. “As referências dela sempre foram aquelas casas na Califórnia, onde as pessoas ficam muito à vontade, com pufes no chão e uma atmosfera meio anos 1960

e 1970”, conta Gabriel. “São ambientes feitos para o convívio real, desenhados de acordo com a forma como a família vive”, acrescenta Bruna. É justamente essa descontração aliada ao rigor técnico estrutural que amarra a proposta da casa. O resultado é um refúgio bem pensado que, mesmo suspenso no coração financeiro do País, entrega a sensação de se viver em uma verdadeira casa nas alturas.

under construction

Jade Marangolo

Entre móveis restaurados, ladrilhos, telas, vitrais e estampas, a artista plástica Jade Marangolo transforma em arte sua conexão com a natureza

redor, cadeiras também restauradas, com estofados pintados, além de araras com peças estampadas de suas colaborações, cerâmicas e papéis de parede. Na cozinha, uma parede amarela conta com uma bananeira desenhada, ao lado de ladrilhos hidráulicos artesanais criados por ela. Para Jade, a sustentabilidade não está apenas no discurso do material reciclado, mas também na possibilidade de dar novos sentidos aos objetos. Sua preocupação se desdobra também no desejo de registrar saberes ligados à cultura caiçara: a casa de pau a pique, a canoa, o cultivo da taioba. A paixão por “coisas bonitas”, como ela mesma define, começou na escola. As páginas de seus cadernos viviam tomadas por desenhos. Primeiro em uma escola criada por um grupo de pais na Barra do Sahy, depois em Ilhabela e, mais tarde, em um colégio tradicional de São Paulo. “Senti muita diferença. Não tinha uma árvore no pátio. E as meninas falavam de marcas de roupa que eu sequer conhecia”, lembra.

Corpo como suporte

Seguindo os passos da mãe, Vera, e da tia, Virginia Mendonça, que construiu carreira internacional

Apesar dos janelões do teto ao chão com vista do Centro Histórico de São Paulo, o atelier e showroom de Jade Marangolo tem alma praiana. É lá que a artista plástica e designer, criada nas areias de Barra do Sahy, no litoral norte de São Paulo, reconstrói a paisagem que moldou seu olhar. A casa de sua infância cercada de Mata Atlântica, sem vizinhos nem acesso a carros, foi seu primeiro laboratório de cores, texturas e experimentações. “Era uma imersão. Para mim, o natural era estar ali, com o pé na terra, com bichos e muitas plantas”, lembra. Essa memória aparece hoje em criações lúdicas, em tecidos, cerâmicas, madeiras ou telas, nos quais mulheres se confundem com folhas e tucanos, por meio de formas orgânicas, e a cultura brasileira, especialmente a ribeirinha, ganha protagonismo. “Trago essa simbiose com a natureza porque somos uma coisa só. Eu a idolatro, mas, ao mesmo tempo, me encaixo nela. Acredito muito na força do feminino”, diz. No atelier, chama a atenção um guardaroupa antigo, herdado de um tio, restaurado e transformado com montanhas, mar e uma canoa, pintados em uma das portas. No centro da sala, um tapete verde estampado à la Mata Atlântica. Ao

Por Denise Meira do Amaral Takeuchi
“Trago essa simbiose com a natureza porque somos uma coisa só”

Portfólio vivo

A aproximação com a decoração aconteceu a partir da construção de sua própria casa/atelier, na Praia Preta, perto da Barra do Sahy, em um dos terrenos da família –que vive lá desde o final dos anos 1970, quando seu pai, Fábio, então DJ, deixou São Paulo em busca de um modo de vida mais simples. Jade transformou sua casa em uma espécie de manifesto e portfólio vivo. Pintou paredes com terra, desenvolveu ladrilhos para o banheiro, criou vitrais com o companheiro, Gustavo Pandolfo, da dupla OSGEMEOS, e levou suas estampas para cortinas, almofadas e estofados. “Quando terminei a obra, entendi todos os suportes que conseguia explorar e comecei a usar isso como um case para vender para as marcas”, conta. O vitral da morada, por exemplo, abriu caminho para novos projetos em outras residências. A participação na CasaCor, primeiro com murais e depois com papéis de parede, ampliou essa visibilidade e fortaleceu seu trânsito no universo da decoração e da arquitetura. Mesmo vivendo em São Paulo, Jade procura ir à praia quase todos os fins de semana. “Preciso voltar para me reconectar. Eu sou muito solar. Em São Paulo, a gente acaba sendo muito puxado para coisas que nos deixam no escuro, pegando esse lado mais conflituoso”, diz.

como modelo, Jade começou a trabalhar na área aos 14 anos. Aos 18, quando já estudava Design Gráfico na ESPM, passou uma temporada no exterior modelando. Morou no México, de onde vieram seu gosto por cores intensas, que se tornaria uma de suas marcas registradas, e o desejo de construir algo próprio. Passou ainda por Londres, França, Chile e Itália –país de origem de parte de sua família. Seu avô, vale contar, veio para o Brasil como representante da Olivetti, marca italiana de máquinas de escrever. Jade ainda tem origem alemã, por parte de pai, e uma mistura mais brasileira, por parte de mãe, de Minas Gerais, Sorocaba e São Paulo. Nos intervalos entre trabalhos, ela comprava canetas, papéis e tintas, visitava museus e desenhava sempre que podia. De volta ao Brasil, Jade terminou a faculdade e foi trabalhar com estampas digitais na Rosset, grupo ligado a marcas como Companhia Marítima e Valisere. A experiência seguinte a levou ao Lago di Como, na Itália, onde trabalhou em uma fábrica de seda que atendia a marcas de luxo, como Chanel e Louis Vuitton. “Tive muita liberdade para fazer coisas à mão, porque eles me viam com um olhar diferente: uma brasileira trazendo uma nova paleta para o acervo existente. Foi muito legal”, conta. A partir daí, começaram as colaborações com marcas, em projetos que uniam arte e moda. Em algumas campanhas, além de criar as estampas, Jade também aparecia como modelo, transformando o próprio corpo em suporte de sua obra. Entre as marcas com as quais trabalhou estão Hurley, C&A, Blue Bird, Farm e Havaianas.

Mesmo baseado em São Paulo, o atelier da designer Jade reflete sua personalidade solar e a infância vivida no litoral

Gosto de usar o estilo de roupa que desenvolvo na minha marca homônima: confortável, fluido e menos estruturado. Para mim, conforto e elegância podem andar juntos. Adoro peças que me deixam à vontade, mas com personalidade.

2

PROCESSO CRIATIVO

Desenho, pinto e faço colagens o tempo todo. Quando chega a hora de desenvolver uma coleção, já tenho muito material produzido. Eu e minha estilista selecionamos, entre telas e desenhos, as imagens que achamos que podem dar samba e virar estampa.

3 LABORATÓRIO

Desenvolvi uma coleção de papéis de parede para a minha marca e usei muitos deles na minha própria casa. Os testes estão espalhados em todos os cantos. Gosto de ver como os desenhos e as cores funcionam no dia a dia.

MEU ESTILO

TOIA LEMANN

ARTISTA E EMPRESÁRIA @TOIALEMANN_

4

ARTSY

A arte sempre esteve por perto, primeiro por meio da minha mãe. Quando comecei a trabalhar com moda, passei a desenhar estampas e me converti de vez ao universo visual. Das estampas vieram as telas, os papéis de parede e muitos outros desdobramentos. Hoje é isso que amo fazer.

5

ENTRE LIVROS

A literatura faz parte da minha vida desde sempre. Durante mais de 20 anos tive um grupo de leitura que se reunia semanalmente na minha casa. Tudo começou com Em Busca do Tempo Perdido. Hoje leio menos do que antes porque passo muito tempo desenhando e criando, mas os livros continuam sendo uma importante referência.

MEMÓRIAS

Esse jogo foi um presente de aniversário que ganhei quando era criança. Foi feito por uma amiga artista da minha mãe, que desenhou cada peça à mão. Guardo até hoje porque, além de ser lindo, me transporta para um tempo muito feliz.

6

PAREDE COM HISTÓRIA

Essas aquarelas são da minha mãe, Maria de Santiago Dantas Quental. Ela as fez para os netos, há cerca de 20 anos. Reuni os trabalhos e montei uma parede em homenagem a ela. Minha mãe era artista plástica e psicanalista – mesma formação que tive. Exerci por um tempo, mas acabei seguindo por um caminho mais criativo e empresarial.

7

LEGADO

Anos depois da morte da minha mãe, fiz um livro reunindo fotos e muitos de seus trabalhos. Foi uma forma de registrar sua trajetória e compartilhar sua obra com amigos e pessoas que conviveram com ela.

8

CAÇADORA DE TESOUROS

Adoro artesanato, feirinhas de antiguidades e cacarecos. Sempre que posso, vou à Praça XV (Rio de Janeiro) garimpar objetos curiosos. Também gosto de visitar brechós e mercados de antiguidades quando viajo. Procuro coisas que carregam humor ou alguma história.

REI DA CASA

Esse é o Fuji, um dos três gatos da casa. Eles são da minha filha – é uma espécie de ensaio para os netos. O Fuji foi o único que deu sopa no dia da foto. É um Maine Coon, gigante, dócil e carinhoso.

Paula Jafet

Carbono Minds
“Quando estava prestes a completar 50 anos, pensei: construí uma carreira linda, agora está na hora de conquistar algo meu”

Após 22 anos no Banco Safra e consolidada à frente da superintendência da instituição, Paula Jafet resolveu se lançar em voo solo e, hoje, celebra o sucesso de sua AFFA Capital

Paula Jafet de Almeida Carneiro é obstinada, comprometida e organizada. Uma “virginiana raiz”, como ela mesma se define. Ao longo de mais de duas décadas, construiu uma carreira sólida e bem-sucedida como executiva do Banco Safra, alcançando a superintendência de áreas como corporate e private ultra high da instituição.

Prestes a completar 50 anos, veio o estalo: “Ou eu mudava ou morreria ali”. A decisão não foi simples. Levou mais de um ano de reflexão até que Paula resolvesse abrir mão da estabilidade para construir algo próprio.

Há três anos, ela tem orgulho de comandar, ao lado dos sócios, a AFFA Capital, uma boutique de investimentos com atuação ampla e foco em cada cliente – e celebra a ousadia de recomeçar e ser dona de seu próprio tempo.

MUDANÇA DE ROTA “Minha primeira faculdade foi de Zootecnia, em Uberaba. Na época, com menos de 20 anos, fiz o curso porque queria experimentar uma vida diferente, fugir um pouco do controle da família. Eu era bem jovem. Fui aprender a lidar com animais para tomar coice no mercado financeiro (risos). Mas, quando voltei para São Paulo, decidi fazer faculdade de Administração. Logo comecei estágio em um banco pequeno e fui crescendo e me apaixonando por aquele ambiente corporativo.”

EU TENHO A FORÇA “Começar uma empresa do zero foi difícil. Óbvio que a gente ganha muito menos – cerca de um quarto do que ganhava antes – e sabia que seria assim por um tempo. Mas é uma aposta e acreditamos que ainda vamos crescer bastante. Eu já tinha muito conhecimento em gestão de investimentos e hoje trabalhamos com um leque enorme de soluções, com mais de 30, 40 parceiros, sempre buscando o que faz mais sentido para o cliente.”

VIRADA DE CHAVE “Eu fiquei mais de um ano pensando, conversando com meu marido, sem saber se mudava. Já tinha uma carreira consolidada, mas comecei a desanimar. O banco mudou. Eu estava com 47 anos e pensei: construí uma carreira linda, agora está na hora de conquistar algo meu.”

CARTAS NA MESA “No começo da minha carreira, o banco era um universo muito machista, assim como a maioria dos ambientes corporativos e do mercado de investimentos. Eu era nova e precisei aprender rápido a me impor, porque não dá para mostrar fragilidade. Lembro-me de uma reunião em que um cara começou a xingar, falar palavrão. Aí eu me levantei e falei: ‘Não jogo bola às quartas-feiras à noite para você falar comigo nesses termos’. E saí da sala. Depois, ele me pediu desculpas e nunca mais fez o mesmo. O clima hoje é muito melhor, tem mais mulheres. Mas ambiente tóxico não tem gênero – já vi mulheres também sendo agressivas. Isso é sobre caráter.”

DONA DE SI “Hoje eu tenho uma flexibilidade que não existia. Eu posso visitar clientes, olhar nos olhos, conversar, trocar. Não acho que eu trabalhe menos. Pelo contrário. Acredito que até mais, porque agora depende de mim. Mas poder falar o que eu penso, decidir com meus sócios, isso mudou tudo.”

A CONTA CERTA “Eu consegui ganhar e guardar bastante dinheiro, mas sempre priorizei viver bem. Gosto de viajar, de fazer coisas que me dão prazer, o que não significa que eu não tenha consciência de segurança financeira. Eu me organizei para essa fase de ganhar menos.”

EQUILÍBRIO E AUTOCUIDADO “Eu pratico esporte todos os dias cedo, jogo tênis, faço funcional. Gosto de me cuidar, sem exagero. Minha família é muito unida, tenho amigas da vida inteira, um grupo muito próximo e aproveito a vida ao lado do meu marido, Roberto Profili. Não tive filhos. Tentei muito, mas não aconteceu. Hoje vejo o lado positivo: tenho tempo para trabalhar, investir no meu negócio, além de ficar com meus quatro sobrinhos, que eu aproveito muito.”

MEU MUNDO AO REDOR “Eu sou uma pessoa comprometida, que se cobra muito. Cuido da minha equipe, da minha família, me preocupo com todos. Tenho uma personalidade forte, mas adoro estar cercada de gente, receber amigos, fazer conexões.”

PEQUENOS HÁBITOS GRANDES MUDANÇAS

Especialistas revelam o que realmente faz diferença na saúde da mulher e compartilham caminhos para uma vida mais equilibrada

Em meio à rotina cheia, às múltiplas demandas e ao hábito de colocar tudo e todos em primeiro lugar, o bem-estar feminino vai ficando para depois. E é justamente aí que mora o desequilíbrio. Reunimos dicas de médicas de diferentes especialidades para nos ajudar a olhar para nossa saúde de forma mais ampla, gentil e consciente. Do corpo à mente, do sono ao bem-estar, da alimentação à maternidade, são pequenas mudanças, possíveis no dia a dia, que ajudam a construir uma vida mais equilibrada.

TROCAS INTELIGENTES

“O que mais agride os dentes é a alta frequência de ingestão de carboidratos fermentáveis, como açúcar, balas, bolachas e doces em geral. Se uma criança for comer chocolate, por exemplo, é melhor ingerir a barra de uma só vez, ao invés de comer pequenos pedaços ao longo do dia, diminuindo assim o contato do açúcar com os dentes.”

Dra. Estela Aranha Odontopediatra e Implantodontista @draestelaaranha

ESCOLHAS POSSÍVEIS

“Cuidar de si é um gesto silencioso de respeito ao próprio corpo e os resultados aparecem na saúde, na pele e na forma como vivemos. Às vezes, vamos levando a vida no automático e nos esquecemos de que o mais importante para executar bem nossas tarefas diárias é estarmos bem com a nossa ‘casa’. Além disso, rotina saudável não precisa ser perfeita; precisa ser possível e constante. Essa frase parece clichê, mas, quando você deixa de se cobrar o porquê de ‘não ter ido’ e passa a ficar grato por ‘ter ido’, a sua semana fica mais leve e a caminhada mais feliz.”

Dra. Eliza Ducati

Médica Radiologista especialista em Ultrassonografia Dermatológica @elizaducati

OLHAR LEVE

“A região dos olhos costuma ser a primeira a revelar sinais de envelhecimento, pois a pele da pálpebra é fina, delicada e está em constante movimento. Flacidez, bolsas e excesso de pele podem transmitir um aspecto de cansaço, mesmo quando a pessoa está bem. Para preservar um olhar descansado e saudável, alguns cuidados fazem a diferença:

• Use protetor solar diariamente ao redor dos olhos.

• Aposte em hidratação adequada e produtos específicos para a área.

• Retinol ou retinoides podem ajudar, quando indicados.

• Evite tabagismo e excesso de sol, que são grandes aceleradores do envelhecimento cutâneo.

• Use óculos escuros e proteção física.

• Priorize um sono de qualidade e hábitos equilibrados, fatores que combatem diretamente edema e olheiras.

Quando há excesso de pele ou bolsas mais marcadas, tratamentos isolados podem não ser suficientes e a cirurgia palpebral pode ser indicada. O objetivo é preservar a naturalidade do olhar e refletir sua real vitalidade.”

Dra. Daniela Costa

Cirurgiã Plástica

@dra.danielacosta

CORPO EM MOVIMENTO

“Longevidade não é viver mais, é viver melhor, com autonomia, energia e clareza. Cuidar da saúde hoje é a maior estratégia de liberdade no futuro. E movimento é saúde, mas também é alegria. Movimento constrói músculo e músculo sustenta suas mitocôndrias e sua vida. Treinar hoje é garantir mais liberdade, energia e leveza no futuro. É investir no seu healthspan .”

Dra. Mariana Carvalho

Clínica Médica, Geriatra e Nutróloga

@dramariana.carvalho | @grupomftembra

INSPIRA, RESPIRA

“Respirar bem não é apenas uma função automática, mas um marcador sofisticado de saúde, equilíbrio e qualidade de vida. Prestar atenção na respiração, portanto, é um gesto de autocuidado preciso e altamente eficaz.”

1. Priorize a respiração nasal

Respirar pela boca, especialmente durante o sono, é um sinal de alerta. Avaliar a permeabilidade nasal é o primeiro passo para restaurar a fisiologia respiratória.

2. Atenção aos sinais discretos

Ronco, sono não reparador, acordar cansado ou com boca seca não devem ser normalizados. São sinais precoces de desequilíbrio respiratório.

3. O ambiente importa

Ambientes muito secos, poluídos ou com ar-condicionado excessivo impactam diretamente a mucosa nasal. Umidificação adequada e ventilação equilibrada fazem diferença.

4. Higiene nasal como ritual de cuidado

A lavagem nasal com solução salina, quando bem orientada, melhora a função da mucosa, reduz inflamações e contribui para uma respiração mais eficiente, especialmente em grandes centros urbanos.

5. Avaliação especializada é autocuidado

Exames simples e não invasivos com um otorrinolaringologista, como a nasofibrolaringoscopia, permitem uma avaliação precisa da via aérea e ajudam a identificar alterações muitas vezes silenciosas .”

Dra. Roberta Noer Pilla

Otorrinolaringologista

@drarobertapilla

SORRISO VERDADEIRO

“Poucas coisas são tão elegantes quanto falar de perto com segurança. Essa confiança começa numa rotina simples, mas completa, que inclui cuidar da língua com a mesma atenção dedicada aos dentes, passar o fio dental diariamente e manter a boca hidratada. É esse conjunto, feito com constância, que faz a diferença real. Para quem quer ir um passo além, a escova elétrica é uma ótima escolha. Não exige técnica apurada e traz resultados mais consistentes do que a manual. Autocuidado também está nesses detalhes que quase ninguém vê, mas todo mundo sente.”

Dra. Sonia M. Otani Torata

Endodontista

A MÃE REAL

“Ser mãe não é dar conta de tudo. É estar presente, com afeto e conexão. Do seu jeito!”

Dra. Mari Nudelman

Pediatra Geral

@clinicanudelman

DUPLA FACE

“O creme mais completo que temos é o protetor solar: ele previne manchas, rugas e câncer de pele. Não faz sentido passar outro creme se você não faz uso regular do protetor solar, que é o mais importante.

- Lembre-se de aplicar nas orelhas, nas pálpebras, no pescoço, no colo e no dorso das mãos;

- Se você usa protetor com cor, passe uma camada de protetor sem cor antes, para garantir a quantidade correta. Depois disso, use a versão com cor na quantidade que preferir;

- Existe uma variedade muito grande de texturas: creme, gel, líquido, bastão, spray… Encontre um protetor do qual você goste. Isso vai facilitar o uso;

- E lembre-se sempre dos aliados na hora da exposição intensa: óculos escuros, bonés e chapéus, além de roupas de proteção UV.”

Dra. Marina Leite Bastos

Dermatologista

@dramarinaleitebastos

EM FAMÍLIA

Anette Rivkind, Giselle Rivkind e Fabiana Feferbaum, mãe e filhas por trás da Breton, não só fazem parte da mesma família como compartilham as dores e as delícias das mulheres contemporâneas de diferentes gerações. Nesta roda de conversa, elas compartilham reflexões sobre carreira, vida e legado

Anette, Fabiana e Giselle

Giselle pergunta para Fabiana

Giselle Qual você considera o maior desafio na vida da mulher contemporânea?

Fabiana Sem dúvida alguma, equilibrar a vida pessoal com o trabalho. Conseguir desempenhar bem todos os inúmeros papéis e não sentir culpa.

G Como você concilia todos os seus “pratinhos”?

F Fazendo escolhas. Por exemplo, levo minhas filhas para a escola todos os dias, mas nunca busco. Chego em casa do trabalho e minha atenção é toda para minha família.

G Qual lição você gostaria de passar aos seus filhos?

Anette pergunta para Giselle

Anette Na sua opinião, qual o maior desafio na vida da mulher contemporânea?

Giselle Conseguir equilibrar a presença na vida dos meus filhos com a dedicação que o trabalho exige. São muitas responsabilidades, viagens, compromissos e uma rotina intensa, sem querer perder os momentos importantes da infância deles. Também existe o desafio de lidar com as próprias cobranças e entender que nem sempre tudo vai estar perfeitamente equilibrado. E tudo bem. Acho que faz parte da vida aprender a ajustar as prioridades ao longo do caminho e seguir fazendo o melhor possível.

A Qual a importância da família em sua vida?

G Gigantesca. Até por ser a filha mais nova, eu nunca vivi sem irmãos. Então compartilhar a vida sempre fez parte de quem eu sou. É a família que vibra nos momentos bons, que apoia nas fases difíceis e que está presente em tudo. E é muito especial ter a sorte de estarmos envolvidos com a Breton, olhando para o mesmo caminho, querendo crescer juntos e construir algo em conjunto.

A Como você enxerga a responsabilidade de seguir o legado de uma empresa já consolidada no mercado?

G De uma forma muito natural, porque cresci ouvindo conversas sobre crescimento, desafios e sonhos em torno da empresa. Pensar em estratégias sempre fez parte da minha vida. E eu quis estar perto, acompanhar você nos eventos, entender tudo e participar de alguma forma.

A Como ter coragem para empreender?

G Em primeiro lugar, estudando, se atualizando constantemente sobre as mudanças do mundo e, a partir daí, entender as oportunidades que a Breton tem para crescer, evoluir e continuar relevante, sem perder a sua essência.

F Terem autoconfiança. Temos que acreditar em nós mesmos e aí correr atrás do que queremos. Mas acreditando em nós, tudo fica mais fácil.

G Como você pretende implementar cada vez mais a sustentabilidade dentro da Breton?

F A sustentabilidade é um dos pilares da Breton. Ela está presente em todos os nossos processos, como o reúso de embalagens e o descarte correto. Plantamos uma árvore a cada pedido em nossas lojas, no intuito de sermos uma empresa carbono negativo. E é um trabalho que não tem fim, estamos sempre buscando matérias-primas sustentáveis e ajudando nossos fornecedores a também serem carbono neutro.

Fabiana pergunta para Anette

Fabiana E na sua opinião, qual o maior desafio para a mulher contemporânea?

Anette Lidar com a quantidade de papéis e responsabilidades que assumimos. Cada vez mais a mulher precisa dar conta de muitas áreas ao mesmo tempo: carreira, família, vida pessoal, relações e autocuidado. Sem perder sua essência no meio disso tudo e continuar fazendo o seu melhor.

F Quais são seus principais conselhos para as mulheres que desejam empreender?

A Dedicação. Empreender exige presença, entrega e constância. Mas, ao mesmo tempo, é fundamental aprender a equilibrar as diferentes áreas da vida, sabendo dividir o tempo entre trabalho, família, vida social e todas as outras responsabilidades que fazem parte da nossa rotina.

F O que é elegância para você?

A Elegância, para mim, vai muito além da estética. Está na forma como tratamos as pessoas: saber ouvir, estender a mão, estar próxima e agir com gentileza e respeito em qualquer situação.

F Qual a principal lição que você espera ter passado aos seus filhos?

A As principais lições são o respeito ao próximo e a importância do caráter. Acredito que valores, empatia e honestidade são as bases mais importantes que podemos deixar para alguém.

PORSCHE UMA NOVA REVOLUÇÃO

Há mais de 20 anos, a Porsche revolucionou o mercado ao lançar o Cayenne. Agora, inicia um novo capítulo com a chegada do Cayenne Electric, o SUV mais poderoso da marca. Com potência de até 1.156 cavalos na versão Turbo Electric e uma bateria que pode ser carregada de 10% a 80% em 16 minutos, o carro foi pensado para nos acompanhar nas mais atribuladas rotinas – e em momentos fora delas. A seguir, Peter Vogel, CEO da Porsche Brasil, fala mais sobre a novidade, disponível como SUV de proporções clássicas e como Coupé, e sobre sua presença na vida da mulher contemporânea. Por Rebeca Martinez

Carbono Donna

A rotina das mulheres costuma ser intensa e ter uma boa rede de abastecimento é essencial, certo?

Peter Vogel

A infraestrutura de recarga é um dos pontos centrais para a evolução da eletromobilidade no Brasil. Nossa estratégia combina diferentes frentes: recarga doméstica, soluções em destinos relevantes e uma rede de carregadores em rodovias e em

locais-chave. Mais do que pensar em um perfil único de uso, a Porsche oferece conveniência para diferentes rotinas. Para muitos clientes a recarga em casa já cobre grande parte do uso diário e nós oferecemos dois carregadores e serviço de instalação. Para deslocamentos longos, o crescimento da rede de alta potência torna a experiência mais simples e previsível. Investimos R$ 70 milhões no Brasil para a instalação de uma rede de carregamento rápido em estradas. Os clientes

“Para uma rotina intensa, fazem diferença elementos como o amplo espaço interno, a posição elevada de condução, o conforto a bordo, a conectividade e a operação digital intuitiva”

Porsche também contarão com facilidades únicas, como a reserva do uso de estações ou plugs exclusivos. Em condições ideais, o modelo pode carregar de 10% a 80% em 16 minutos, ou recuperar até 325 km de autonomia em 10 minutos. Sobre alcance, os primeiros ensaios com o INMETRO foram bastante animadores, com algumas versões superando 490 km de alcance. Os dados completos serão conhecidos no lançamento, programado para setembro.

Carbono Donna Quais soluções do Cayenne fazem mais sentido para a mulher contemporânea?

Peter Vogel

O Cayenne Electric foi desenvolvido para combinar performance esportiva com alto nível de praticidade. Para uma rotina intensa, fazem diferença elementos como o amplo espaço interno, a posição elevada de condução, o conforto a bordo, a conectividade e a operação digital intuitiva. O novo conceito Porsche Digital Interaction, com o Flow Display de OLED, cria uma experiência de uso mais fluida e personalizável. O painel digital de 14,25 polegadas reúne informações de condução, navegação, assistência ao motorista e infotainment, enquanto o head-up display com realidade aumentada, pode projetar orientações de navegação e faixa no campo de visão do motorista. Os serviços de conectividade adicionam mais praticidade: chave digital, informações em tempo real no seu celular sobre a bateria, pré-aquecimento ou pré-resfriamento. Outro ponto relevante é a conveniência na recarga: o Cayenne Electric conta com portas de recarga AC nos dois lados do veículo e abertura elétrica das tampas por gesto ou pela tela central. Também será oferecida uma solução de carregamento via indução, que permite iniciar a recarga em casa automaticamente ao se estacionar sobre a base indutiva. E, claro, funções consagradas nos modelos movidos a combustão e híbridos: fechamento suave das portas, possibilidade de abaixar o veículo com um toque para acesso facilitado ao porta-malas, dobrar os assentos traseiros com apenas um clique.

Carbono Donna

Quais tecnologias do Cayenne elétrico ajudam no trânsito e na segurança?

Peter Vogel

O Cayenne Electric reúne uma ampla gama de sistemas de assistência ao motorista, de série e opcionais, que aumentam a segurança e o conforto em diferentes situações de condução. Entre os recursos estão tecnologias de apoio à condução, manobras e estacionamento, além da integração de informações relevantes ao motorista por meio dos sistemas digitais do veículo. Além disso, a segurança passiva é parte central do desenvolvimento. Os módulos da bateria, por exemplo, utilizam um perfil de alumínio que absorve energia de forma direcionada e protege as células em caso de impacto.

Carbono Donna

Os elétricos trazem a questão da sustentabilidade. Como percebem esse ponto para as mulheres?

Peter Vogel

A sustentabilidade é um tema cada vez mais relevante para diferentes perfis de consumidores. No segmento premium, ela aparece junto com outros fatores importantes, como tecnologia, inovação, eficiência, conveniência e experiência de uso. No caso da Porsche, a eletrificação não é tratada apenas como uma escolha ambiental, mas também como uma nova forma de entregar performance. O Cayenne Electric combina emissões locais zero com alto desempenho, eficiência e tecnologias desenvolvidas a partir da experiência da marca em eletromobilidade e automobilismo. Para muitos clientes, esse conjunto é o mais importante: a possibilidade de dirigir um Porsche com uma nova tecnologia de propulsão, mantendo a esportividade, o conforto e a versatilidade esperados do Cayenne. No Brasil, sob o ponto de vista ambiental, a eletrificação faz total sentido. Mais de 85% da geração de eletricidade do País vêm de fontes renováveis. Esse é um dado incrível, principalmente em comparação com outros países.

Ana Carolina Friedmann

Carbono Minds
“Ser mulher em posições de liderança ainda significa lidar com situações que muitas vezes parecem ultrapassadas, mas continuam acontecendo”

À frente de importantes operações no complexo Cidade Matarazzo, Ana Carolina Friedmann representa uma nova geração de executivas que está transformando o mercado de luxo Ana Carolina Friedmann costuma dizer que seu escritório cabe dentro da bolsa. A frase ajuda a explicar a dinâmica da executiva, que transita entre operação, estratégia, relacionamento com marcas, obras, ativações culturais e expansão de negócios com a mesma desenvoltura. Aos 38 anos, ela ocupa uma posição estratégica na Cidade Matarazzo, ancorada pelo hotel Rosewood, que vem reposicionando a relação entre luxo, experiência e consumo em São Paulo. Diretora-executiva da concept store Mata Lab, Carol está à frente da loja de 3 mil metros quadrados, com mais de 300 marcas, em um novo modelo para o varejo de alto padrão. Filha de uma empresária do mercado de arquitetura e iluminação, Ana Carolina cresceu entre obras e reuniões, absorvendo desde cedo a dinâmica criativa e operacional desse universo. Mais tarde, escolheu cursar Relações Internacionais, mas foi no mercado de varejo premium que consolidou sua carreira. Em uma longa temporada na JHSF, acumulou experiência em frentes como comercialização e desenvolvimento de projetos. Há dois anos, foi convidada a integrar a equipe da Cidade Matarazzo com a missão de fazer acontecer o projeto da Mata Lab. Hoje, sua liderança também passa pela operação da Mata São Paulo, complexo de 26 mil metros quadrados que reúne restaurantes, espaços multimídia e um ambicioso plano de expansão – destaque para a Sala Baixo, centro de concertos e experiências com tecnologia superior à da Sphere, em Las Vegas. A seguir, Carol – que tem 165 colaboradores diretos e 179 indiretos sob sua gestão – mostra como tem dispensado lógicas tradicionais e apostado no pertencimento e na narrativa para concluir a missão.

obras, passar pela Mata Lab, conversar com a equipe de vendas, participar de um almoço de negócios e terminar em um teste de som da Sala Baixo. É um ritmo intenso, mas muito vivo. Aprendi cedo que não existe gestão real de um espaço físico feita à distância. Meu escritório cabe dentro da minha bolsa. Abro o computador onde estiver e sigo.”

DE OLHOS BEM ABERTOS “Ser mulher em posições de liderança ainda significa lidar com situações que muitas vezes parecem ultrapassadas, mas continuam acontecendo. Já participei de reuniões em que pediram para eu servir café simplesmente por ser a única mulher presente. Levantei e disse: ‘Claro, homens não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo’. E servi o café. Também ouvi comentários sobre parecer jovem demais para ocupar determinados espaços. Tudo isso incomoda, mas aprendi a transformar esses exemplos em força. Entendi que não adianta esperar que o ambiente seja igualitário o tempo inteiro... infelizmente, ainda não é. Então prefiro usar minha inteligência emocional, minha capacidade de articulação e minha objetividade a meu favor.”

DESAFIOS “Hoje vivo uma dinâmica curiosa: estou dos dois lados da operação ao mesmo tempo. Preciso exigir eficiência da loja, mas também cobrar soluções do próprio complexo. E como estamos construindo algo muito novo, quase nada segue um modelo tradicional. Todos os dias envolvem quebra de paradigmas. Aqui não funciona simplesmente repetir fórmulas prontas do varejo ou da hospitalidade de luxo. Precisamos nos testar e pensar diferente. Ainda tem o desafio adicional de operar dentro de um prédio tombado.”

EMBRIÃO “Começamos esse projeto do zero, em cima do sonho do Alex (Allard, fundador da Cidade Matarazzo) de um projeto de regeneração, sustentabilidade, valorização do Brasil e do South Power. Fui picada pelo bichinho desse prédio. Quando vi essa obra entendi que precisava trabalhar aqui.”

CABE NA BOLSA “Eu quase moro aqui. E acho que isso resume bastante a minha relação com o trabalho. Não existe um dia igual ao outro e talvez seja isso o que mais me encanta. Posso começar a manhã em reunião sobre as

PODER DE EDIÇÃO “Hoje ninguém sai de casa só para comprar. A pessoa quer viver uma experiência, descobrir coisas novas, sentir que faz parte de algo. Na Mata Lab, mudamos a disposição de tudo a cada dez dias: quem vem bastante sempre tem a sensação de descoberta. Mais do que curadoria, fazemos uma edição muito cuidadosa de produtos, marcas, design e narrativas. O foco está na diversidade estética, de repertório, de origens e de ideias, em marcas e fornecedores brasileiros. Aliás, esse olhar para os produtores do nosso país foi algo pelo qual batalhei muito para fazer acontecer.”

corpo e fio

A arquiteta e artista visual marcella benita maksoud trabalha a partir do bordado e de pesquisas têxteis, explorando camadas, materiais e contrastes. Em seu processo de criação, vai dando vida a formas que nem sempre são visíveis – estabelecendo um diálogo delicado entre fragilidade e estrutura. Ela acredita na arte como ferramenta social e, atualmente, direciona sua pesquisa para o corpo feminino, com foco na endometriose. É também fundadora da Casa-Corpo, projeto que conecta arte, saúde, informação e bem-estar. @marcella.benita | @casa__corpo

O café da moda

Das grifes internacionais às marcas brasileiras, lojas transformam cafeterias em extensão de suas identidades e apostam no café como ferramenta de permanência, convivência e experiência física

Por Caio Delcolli

Nos últimos anos, o café deixou de ocupar apenas esquinas, padarias e cafeterias especializadas para ganhar presença também em lojas de moda e lifestyle Em um momento de valorização das experiências presenciais, marcas passaram a transformar suas flagships em ambientes de permanência, encontro e circulação, incorporando operações de café às estruturas físicas de suas lojas. A ideia é simples: fazer com que o cliente queira ficar ali mesmo quando não pretende comprar nada – e, quem sabe, ele não muda de ideia, certo?

O movimento acompanha uma tendência internacional que já aparece em redes e grifes, como o Zacaffè, da Zara, lançado inicialmente em Madri e depois expandido para cidades como Nanjing e Seul; os cafés da Ralph Lauren, em endereços de Nova York, Chicago e Paris; e as unidades da Maison Kitsuné, espalhadas em cidades como Tóquio, Seul, Paris e Nova York. Em comum, esses espaços tentam transformar o varejo em algo mais próximo de um ponto de convivência ao lançar mão do café – a bebida que, nos últimos anos, foi cercada por métodos de preparo, grãos e torrefações especiais.

Para Andréia Meneguete, professora de comunicação e marketing de luxo da ESPM-SP, cafés, restaurantes e outras alternativas ajudam as marcas a criarem relações que vão além do produto. “Hoje, a experiência no universo da moda ultrapassa o serviço de hospitalidade e se torna uma alternativa valiosa para competir com os tempos de telas”, afirma. Segundo ela, esses espaços também viram parte da imagem das próprias marcas nas redes, em um momento em que consumidores buscam assunto para viver e compartilhar.

No Brasil, o fenômeno aparece em diferentes formatos: cafeterias minimalistas instaladas em flagships, hubs criativos com restaurante integrado e espaços inspirados em fragrâncias. Em comum, todos tentam desacelerar a experiência de consumo e criar novos motivos para frequentar uma loja física. Listamos alguns exemplos que reforçam o empenho das marcas em colocar o consumo mais dentro da rotina. Vem conferir.

DRA. CHERIE

Com ambiente cor-de-rosa, estética delicada e forte presença visual, o Café Cherie, instalado dentro da loja da marca nos Jardins, rapidamente passou a circular nas redes sociais, atraindo visitantes que muitas vezes chegam primeiro pelo café e só depois conhecem os produtos da Dra. Cherie. O caso mostra como as cafeterias passaram a funcionar também como ferramentas de desejo em um cenário cada vez mais guiado pela imagem. R. Dr. Melo Alves, 436 - São Paulo

PATBO

Conhecida pelo trabalho artesanal, a loja, fundada pela estilista Patricia Bonaldi, aposta em uma atmosfera que aproxima moda, hospitalidade e lifestyle em um mesmo ambiente. E, assim como em outros casos do setor, seu café ajudou a tornar a visita menos funcional e mais próxima de um programa. R. Haddock Lobo, 1626 - São Paulo

CARTEL 011

Muito antes de o tema se espalhar pelo varejo brasileiro, o Cartel 011 já misturava moda, design, arte e gastronomia em um mesmo endereço, em São Paulo. O espaço ajudou a consolidar o modelo de loja que funciona também como ponto de encontro e circulação criativa. Integrado ao hub, o café/restaurante virou parte essencial da experiência do lugar e contribuiu para transformar o endereço em referência de comportamento, arquitetura e consumo na cidade. R. Artur de Azevedo, 517 - São Paulo

BIRDEN

Pensado desde o início da Casa Birden, em São Paulo, o café da marca masculina funciona em parceria com o Zé Latte Café e aposta em grãos especiais e microlotes selecionados pelo Q Grader Neto Fante. A proposta era criar um ambiente em que as pessoas pudessem “ficar, conversar, sem pressa”, segundo o diretor criativo Rennan Spadafora. Com o tempo, o espaço passou a atrair também um público que nem sempre chega pela roupa. “As pessoas ficam mais e voltam com mais frequência. Muitas vezes nem para comprar, mas pelo café, pelo matcha, por aquele tempo ali”, afirma. Hoje, a operação soma mais de 600 xícaras por mês entre a flagship do Zé Latte e o pop-up instalado dentro da loja. R. Comendador Miguel Calfat, 235 - São Paulo

O BOTICÁRIO LAB

Em Pinheiros, O Boticário Lab expandiu a lógica da experiência física para além da moda, aproximando beleza, gastronomia e entretenimento. O endereço reúne cafeteria, drinks inspirados em fragrâncias e áreas de experimentação de produtos em um ambiente pensado para permanência. Em vez de operar apenas como loja, a flagship funciona quase como um laboratório de lifestyle, acompanhando a tentativa das marcas de criarem momentos mais profundos em torno de seus universos visuais e sensoriais. R. dos Pinheiros, 315São Paulo

INSIDER + THE COFFEE

A parceria entre as empresas une dois universos que conversam diretamente com um público urbano habituado a consumir experiências minimalistas, rápidas e visuais. Dentro da loja, o café aparece integrado à identidade estética da marca, reforçando uma ideia de praticidade contemporânea que combina com as roupas tecnológicas vendidas pela Insider. R. Oscar Freire, 1085 - São Paulo

PACE

Nos Jardins, a flagship da Pace incorporou um café ao mezanino da loja como parte da experiência da marca. O espaço ajuda a transformar a visita em algo menos acelerado, aproximando moda, gastronomia e convivência. Em vez de funcionar apenas como apoio ao varejo, a cafeteria se tornou uma extensão natural da proposta da Pace, acompanhando um movimento cada vez mais comum entre empresas que tentam fazer da loja um lugar frequentado mesmo fora do momento de compra. R. Bela Cintra, 2231 - São Paulo

WELCOME SUNNY GARMENTS

No Rio de Janeiro, a Welcome Sunny Garments incorporou um café ao clima descontraído da marca – e também da cidade. Conhecida pela estética praiana e casual, a etiqueta transformou o espaço em extensão natural de seu lifestyle. O resultado é um ambiente que mistura roupa, café e rotina urbana, sem separar claramente onde termina a loja e começa o ponto de encontro. R. Visconde de Pirajá, 452 - Rio de Janeiro

Lifestyle | TRAVESSIAS

entre mundos

Mulheres que deixaram o Brasil – ou sua cidade natal – por diferentes motivos compartilham relatos inspiradores de suas experiências

Nem toda mudança começa com um mapa – às vezes, ela começa dentro de nós. Ao deixar o Brasil, essas mulheres atravessaram mais do que fronteiras geográficas. Atravessaram versões de si mesmas. Entre despedidas, recomeços e desejos, existe em todas elas um território onde convivem saudade, descobertas, liberdade e reinvenção. Nestas páginas, juntamos pedaços de histórias – que não cabem numa só narrativa. Relatos de quem teve que construir um lar com outro idioma, maternar entre culturas diferentes e refazer, aos poucos, a própria rotina e os afetos longe do que lhes era familiar. Um recorte de sentimentos e experiências que mostra que, mesmo a distância, algumas coisas permanecem – enquanto tantas outras, inevitavelmente, se transformam.

um novo olhar

A arquiteta e diretora de relacionamento da Protecnica Revestimentos, Melissa Haenel, saiu do Brasil e se mudou para a Espanha com a família em 2024

“Mudar-me do Brasil para a Espanha foi um processo profundamente transformador e, ao mesmo tempo, desafiador. Sempre fui muito ligada à minha família, e a ideia de estar longe dos meus pais, especialmente em uma fase em que eles estão ficando mais velhos, mexeu bastante comigo emocionalmente. A mudança, por si só, já é um recomeço, é reaprender o cotidiano nas pequenas coisas: descobrir a padaria preferida, a estação de rádio predileta, fazer novos amigos, entender uma nova cultura, encontrar novos caminhos, novos médicos, novos hábitos... Tudo é novo! Ao mesmo tempo, é um processo muito rico. Ver os filhos se adaptando, crescendo em outro ambiente, aprendendo novas línguas, lidando com uma cultura diferente são coisas que trazem um amadurecimento enorme para toda a família. Além disso, viver fora nos abre para o mundo. Conhecemos pessoas de culturas variadas, ampliamos nossa visão e aprendemos todos os dias.”

“xxxxxxxxo o céu de xxxxx à noite, percebi pela primeira vez que a Terra existia. xxxxxxx”

autonomia na marra

Rafaella Mollo vive há 10 anos em Miami com o marido, Fernando, e as duas filhas, Sofia e Gabriela

“Se eu tivesse que apontar uma grande diferença de viver aqui nos Estados Unidos – principalmente com filhos –, diria sem hesitar: o ‘capítulo serviços de casa’. No Brasil, estamos acostumadas a uma certa estrutura de apoio, quase uma coreografia bem ensaiada dentro de casa. Já em Miami, a lógica é outra: normalmente, você encontra uma pessoa que faz ‘um pouco de tudo’ – isso quando encontra. No resto do tempo, você mesma vira motorista, assistente, cozinheira, babá, folguista… Confesso que já tentei a missão (quase impossível) de encontrar ajuda para o fim de semana. Até hoje, sigo achando que é tipo avistar um unicórnio em Sunny Isles. Por um lado é até libertador não ter tanta gente circulando na casa. Por outro, tudo – absolutamente tudo mesmo – acaba passando por você. E isso muda bastante a dinâmica de vida, especialmente com filhos pequenos. Tem também a questão da qualidade e da experiência. No Brasil, muitas profissionais constroem carreiras longas em serviços domésticos. Aqui, muitas vezes, essas funções acabam sendo ocupadas por quem está em transição, tentando se estabelecer ou ainda lidando com a barreira do idioma. No fim, morar fora também é isso: ajustar expectativas, ganhar autonomia na marra e, claro, aprender a rir (ou chorar) das pequenas (e grandes) diferenças do dia a dia.”

o universo em

mim

Especialista em desenvolvimento sustentável, Bruna Lessa Bastos já morou em diversos países com o marido, Fabio Sartore, e o filho, Enrico e, atualmente, reside em Dubai

“Morar fora nunca foi, para mim, sobre sair do Brasil, mas sobre expandir meus horizontes. Ao longo das últimas duas décadas, vivi entre mundos muito distintos: de Londres a Luanda, de Haia, na Holanda, a Dubai. Lugares marcados por histórias, ritmos, valores e momentos tão diferentes que, em cada um deles, precisei reaprender a ser eu. Hoje levo comigo a ‘casa’, a brasilidade e um pouco de cada lugar por onde passei. O ‘entre’ deixou de ser uma transição e virou meu lugar. Talvez seja isso que aprendi vivendo fora: mais do que pertencer a um território ou a uma cultura, o que me sustentou nesse processo de construção e desconstrução de identidade foi encontrar pertencimento e propósito. Seja ele qual for. É isso que me permite navegar por contextos tão distintos sem me perder de mim mesma.”

repaginar-se

sem amarras

Fundadora da marca de roupas de cama e banho Voucler, Giuliana Kaufman se mudou para os EUA em 2021 e para a Espanha em 2024 com o marido, Márcio, e seus três filhos

“Mudar de país não é só atravessar uma fronteira. É sair de uma versão de si mesma que já vinha no automático, cheia de hábitos, certezas. De repente, quase ninguém lhe conhece. Nem espera que você seja quem era antes. E isso, que no começo pode dar um vazio, também abre um espaço: o de poder escolher. Não é começar do zero. É olhar para si com um pouco mais de honestidade e ir entendendo o que ainda faz sentido. Viver em um lugar como a Espanha, onde tanta gente vem de fora, também muda essa percepção. O diferente não chama tanta atenção. E, aos poucos, você vai se soltando. Testa coisas novas, ajusta o caminho, sem tanta pressão de acertar. A liberdade ganha outro peso. Não é só fazer o que quiser, é poder decidir, de verdade, como quer viver. Como educar os filhos sem repetir tudo no automático. Como trabalhar com mais intenção. Como se vestir, se colocar, existir – mais por vontade do que por expectativa. Aqui, tenho a sensação de estar autorizada a ser quem realmente sou.”

valorizar o agora

Vivendo no México há 10 anos, a Travel Advisor da Mundana Travel, Nicole Salvia de la Garza compartilha essa experiência com o marido, Luis, e os três filhos: Luigi, Mateo e Isabella

“Acho que uma das coisas mais bonitas de morar fora é como a convivência ganha outro peso. A distância muda tudo. Os encontros deixam de ser rotina e viram acontecimento. Quando vejo meus pais – seja indo ao Brasil ou aqui no México – o tempo parece se expandir. A gente aproveita mais, conversa mais, observa mais. Até as coisas simples, como um café da manhã juntos ou um bate-papo sem pressa, ganham outro valor. É curioso, porque a saudade existe e aperta, mas também ensina. Ensina a estar mais presente, a valorizar o agora, a transformar cada encontro em algo inteiro. De certa forma, morar fora me fez entender a fundo que a convivência não está na frequência, mas na intensidade. E isso, para mim, é uma das maiores belezas dessa experiência.”

uma família, muitos mundos

Danielle Glaz-Diehl já viveu em diferentes países, como Estados Unidos, Panamá e Áustria. Hoje, mora na Alemanha com o marido, Rodrigo, e as filhas: Olivia e Isabelle

“Olhando para esses quase dez anos me mudando de um lugar para outro, o que mais me chama a atenção é que, por mais intensos – e, às vezes, difíceis – que sejam os deslocamentos, há sempre algo de muito especial em todas as fases. A adaptação em cada país vem, muitas vezes, com estranheza no começo, com certa intensidade emocional. Mas, com o tempo, cada lugar acaba deixando algo que ficará para sempre no meu coração e na história da nossa família. Cada pessoa da minha família carrega um pedaço de um lugar diferente: o Rodrigo veio da Argentina, eu sou do Brasil, a Olivia é panamenha – algo que, sinceramente, eu nunca teria imaginado viver! – e a Isabelle é alemã. E eu vejo essa característica, de juntar gente de origens tão diversas, como um grande presente que cada país me deu. Nós vivemos experiências, aprendemos novas culturas, ampliamos o olhar e, no fim, levamos dentro de nós um pouco dos lugares por onde passamos. E talvez seja isso que eu ache mais especial: essa construção feita de muitos locais, que acabou virando a nossa própria história.”

entre

estados

Nem sempre é preciso cruzar fronteiras para sentir que tudo mudou. Às vezes, basta trocar de estado – ou até de cidade – para que o tempo, os hábitos e até a forma de olhar a vida ganhem outro ritmo

A curadora Carla Kamalakian Savone nasceu em São Paulo e se mudou, em 2022, para Florianópolis, onde vive com o marido, Leonardo, e os quatro filhos: Mairam, Maya, João e Sergio

“Floripa me ensinou a ter tempo. E, mais que isso, a contemplar o presente. A me apropriar da natureza ao alcance das mãos, todos os dias –e, com isso, observar os sentimentos com mais clareza e aprendizado. Aqui, não sou engolida pelo caos da cidade grande; escolho me misturar, me expor e aprender com pessoas diversas. Tenho a chance de viver de forma mais simples, com mais amor e propósito, precisando cada vez menos do externo e cada vez mais do interno.”

UM VERÃO ENCANTADO

Esqueça qualquer imaginário que você tenha de um verão na praia. No Norte da Patagônia argentina, as praias são feitas de rios cristalinos e geladinhos, zero ostentação e muito silêncio

Cenas de um verão nada óbvio: águas cristalinas, jardins encantadores, cabanas dos sonhos e deserto total

Quando decidi passar um dos últimos Réveillons no Norte da Patagônia argentina, uma das poucas referências que tinha em mente era uma foto dos meus pais nos anos 1980 no hotel Llao Llao. Depois disso, as viagens para essa região sempre me eram apresentadas em cenários de inverno e a ideia de pegar sol nas montanhas argentinas me parecia algo distante. Dizem que demos sorte com as temperaturas que chegavam aos 30 e poucos graus – os casacos voltaram quase intactos na mala –, mas a verdade é que nunca imaginei que pegar praia de rio era tão possível e legal. Influenciados por amigos que estavam decididos a fazer uma road trip no verão argentino, eu e minha família

decidimos embarcar com eles nessa ideia. Nossos 15 dias foram divididos entre três destinos-base: Bariloche, Villa La Angostura e San Martín de los Andes. Se a cidadezinha de Bariloche há tempos perdeu parte de seu charme, é preciso dizer o contrário sobre suas paisagens: a cada dia, um novo cenário nos deixava sem fôlego. Algumas praias são acessíveis a partir de trilhas lindas, que atravessam florestas coníferas, como a inesquecível Bahía de los Troncos. E aqui vale um adendo: a maioria das praias e baías não tem restaurantes ou qualquer serviço, e isso talvez seja parte do que as torna tão especiais. O que se vê são famílias ou grupos de amigos argentinos carregando coolers discretos e

guarda-sóis para passar o dia em algum desses cantos paradisíacos. Sem caixa de som, sem largar uma sujeira para trás.

Além dos cenários mais conhecidos à beira do Nahuel Huapi, como a Villa Tacul e Bahía López, recomendo fortemente visitar as praias banhadas pelo lago Gutiérrez, para mim um dos mais lindos de toda a viagem. Em especial, a prainha deserta acessada a partir da estância Peuma Hue. Você pode marcar de almoçar no restaurante local – baseado nas colheitas da própria horta – e passar o dia entre mergulhos na água cristalina e momentos de descanso no gramado.

PELA ESTRADA AFORA

Saindo de Bariloche, dirigimos em direção a San Martín de los Andes para fazer a estrada cênica que compõe a famosa Rota dos Sete Lagos.

Antes de concluí-la, decidimos ficar alguns dias no vilarejo de Villa la Angostura para explorar a fundo os achados desse canto. E aqui tudo é um charme: a cidadezinha, pequenina, reúne muito menos gente do que Bariloche e uma série de lojinhas e restaurantes simpáticos escondidos em vielas e galerias, que complementam os dias de passeios na natureza. Entre as relíquias, que tal uma loja comandada por

um famoso paleontólogo – a Patagônia é conhecida por ter sido palco de importantes descobertas do mundo dos dinossauros –, com livros, jogos e outros itens para os entusiastas do T-Rex e afins.

Imersa na floresta andina, Villa La Angostura também concentra algumas das baías mais lindas que visitamos e uma forma inesquecível de descobri-las é alugando caiaque para deslizar sobre suas águas verde-esmeralda, observando de perto as casas incríveis penduradas nas margens do Nahuel Huapi.

Fizemos isso na Bahía Manzano e na paradisíaca Bahía Mansa. É nesta última, inclusive, que fica o pequeno porto local, de onde partem os passeios de barco que levam ao Parque Nacional Los Arrayanes, um bosque que vale a visita. Na volta, não deixe de comer o helado vendido em uma barraquinha na saída da Bahía Brava, outra praia local.

MUITO ALÉM DOS LAGOS

Nossa última parada era em San Martín de los Andes e o caminho até ela rendeu paradas cênicas para fotografar os lagos que ainda faltavam.

A cidade foi outra agradável surpresa: tem o charme das villas de ski europeias – sua montanha é famosa no inverno –, mas com uma autenticidade

toda particular e, claro, um lago aos seus pés, que no verão vira ponto de encontro dos locais.

Como já tínhamos descoberto diversas praias nos dias passados, decidimos ir além para embarcar em um dos grandes atrativos dessa região: o rafting no rio Chimehuin. A água é turquesa e a vista que emoldura quase todo o trajeto é a do impressionante vulcão Lanin. Crianças, adultos, todos se divertem!

Outro trecho do rio Chimehuin, bem mais calmo, também rendeu um dos momentos mais bucólicos da jornada. Nosso hotel, o Loi Chapelco, fazia parte de um condomínio de golfe com acesso ao rio. Depois de uma curta caminhada dentro da propriedade, você chega a um trecho lindo de suas águas, com áreas sombreadas, onde os locais fazem piqueniques – e nós também fizemos.

Depois de tantos momentos imersos na natureza, a gente terminava os dias sempre da mesma forma: sentados na varanda do hotel com vista de um jardim sem fim. Apreciando um vinho argentino enquanto as crianças corriam soltas atrás de uns coelhinhos selvagens que apareciam de tempos em tempos. Diante do pôr do sol rosa-alaranjado que acontecia por volta das nove da noite, a conclusão era a mesma: a vida em ritmo de slow travel é muito especial.

Das cervejarias às trilhas, passando pelo final de tarde alaranjado, o verão patagônico é um sonho

PARA COLOCAR NA ROTA

Dicas especiais para não perder em uma viagem pelo verão patagônico

CIRSE

Como eles mesmos se definem, esse “clube de lago” à beira do Nahuel Huapi, em Bariloche, é um lugar delicioso para terminar o dia. Você pega uma mesa/sofá no gramado e escolhe seus drinks e comidinhas entre as diversas opções presentes em barraquinhas. E a programação inclui shows, oficinas, ioga no SUP, e por aí vai. Imperdível! @cirse_clubdelago

PASSEIOS DE BARCO

O Sergio, da Lake Tours, faz passeios de barco por águas menos cheias e paradisíacas como as da Bahía Goluco, em Bariloche. Ainda leva SUP e bolinho caseiro para complementar o passeio. +laketours.com.ar

CERVEJARIAS ARTESANAIS

As cervejarias artesanais são um clássico da região e elas não valem só para quem aprecia a bebida, mas também pelos cenários. Do lado oposto ao Llao Llao, em Bariloche, a Patagônia tem uma vista incrível – o lugar é concorrido. Vale reservar. Já a Wesley é gostosa com crianças porque tem ares de sítio: o local conta com cavalos, pavões e porcos. E a comida é uma delícia! Por fim, a Diuka, mais hipster e menos turística, fica aos pés de um vale que parece cenário de filme. @patagonia.bariloche | @wesleybrewery | @cervezadiuka

BRUNCHERIE COFFEE & DELI

Um café/restaurante com croissants, tortas e doces deliciosos. Vale para um brunch ou para comprar gostosuras e levar aos piqueniques que acontecem nas praias de rio em Bariloche. @bruncherie.brc

Llao Llao
Diuka

EM BUSCA DE MIM MESMA

Sempre em busca de viagens que são verdadeiras jornadas espirituais, a dermatologista Calu Franco conta como as montanhas de Mount Shasta a ajudaram a encontrar as respostas internas de que precisava

por Calu Franco

O que me move a sair da zona de conforto é uma busca por respostas. Houve um momento em que o meu dia a dia, os lugares a que eu sempre fui, a forma como eu pensava, a minha rotina… já não preenchiam todos os meus anseios. E, uma das grandes razões para esse despertar foi a busca por um parceiro. Eu tive pessoas incríveis com quem namorei e me relacionei. Alguns viraram grandes amigos. Outros foram relações muito especiais. Mas ainda não eram o companheiro da minha vida. E nessa procura – entre relacionamentos tóxicos e outros maravilhosos, mas que também traziam sofrimento por não serem o resultado esperado – eu comecei uma jornada interna. Uma busca por mim mesma. Com que lente eu estava enxergando o mundo, que eu

não conseguia enxergar o meu caminho, qualquer que fosse ele? Porque a busca pelo outro nunca é a nossa resposta! Então iniciei essa jornada de procurar as resoluções para a minha vida na espiritualidade. E a intenção era: se não fosse para eu ter um companheiro de vida, que eu encontrasse paz nisso. Se não fosse para eu ter filhos ou uma família dentro de uma trajetória tradicional, que eu alcançasse propósito nesse lugar. E, se fosse para encontrar alguém, que eu estivesse completa de mim mesma, porque acredito que dois inteiros formam um caminho muito mais saudável. Percebi que quando a gente se silencia, quando a gente se disponibiliza a ir para lugares onde a vida simplesmente se apresenta – sem criar resistência – e quando temos coragem de nos movimentar, coisas muito profundas acontecem.

“Quando a gente se silencia, quando temos coragem de nos movimentar, coisas muito profundas acontecem”

Um mergulho em mim

A minha viagem para Mount Shasta, na Califórnia, foi curiosa, porque eu não conhecia esse lugar. A única referência que eu tinha era uma meditação que eu fazia, que citava Mount Shasta, Stonehenge e um terceiro vórtex de energia na Austrália. Meditávamos dentro desse triângulo energético planetário e eu lembrava do nome com clareza. Depois da pandemia, eu comecei muitos trabalhos de conexão, meditação, autoconhecimento, constelações familiares… várias jornadas que foram se apresentando no meu caminho. Então, fui para o festival Burning Man. E não porque eu idolatrava um evento de música ou buscava desconexão. Eu desejava simplesmente me abrir para

conhecer outros modos de vida, outros tipos de relacionamento, pessoas mais velhas com filhos, pessoas que se envolviam sem necessariamente buscar uma relação tradicional… Vidas diferentes da minha.

Era como se eu tivesse ido com uma carta em branco e pedido para o universo me mostrar algumas respostas. Ou talvez nem respostas. Acho que eu buscava histórias. Queria colorir o meu caminho e rever a trajetória.

E foi mágico perceber como sair da caixa é desafiador e libertador ao mesmo tempo. Eu me lembro de que estava com muito medo. Diziam que no festival tinha tempestade de areia, que era frequentado por gente louca. Eu não fazia ideia do que encontraria. A única coisa que eu sabia era que, se não me sentisse bem, iria embora.

“Foi como se eu estivesse entrando em outra dimensão, mas ainda dentro de mim mesma”

Entre caminhadas e meditações, Calu entendeu que as respostas para as suas principais inquietações estavam dentro dela mesma

Mas tive experiências profundamente transformadoras. Descobri muitas coisas sobre mim mesma: a leveza de ser, o não julgamento pela forma como alguém se veste, fala ou se apresenta. Há pessoas absolutamente geniais escondidas nos lugares mais improváveis.

Eu me lembro de estar sentada na minha tenda quando um senhor mais velho se aproximou. Um homem simples, baixinho, com uma aparência muito comum. E pensei: “Nossa, ele deve ter histórias curiosas para estar aqui”. Começamos a conversar e ele perguntou: “Posso lhe entrevistar? Estou escrevendo alguns quotes para um lugar onde publico”. Respondi que sim. No dia seguinte, ele voltou com o texto pronto. Foi quando soube que ele era um supercolunista do The New York Times, um profissional do mercado imobiliário que havia se aposentado e passado a escrever sobre viagens e experiências fora do convencional. Aquilo me marcou profundamente. Foi um ensinamento sobre não julgar a aparência, o lugar onde a pessoa está ou como ela se apresenta. E sobre como, quando você simplesmente é autêntico, experiências boas acabam lhe encontrando.

No último dia do Burning Man, conheci meu ex-namorado, que morava em Los Angeles. Vivemos um relacionamento à distância por cerca de um ano e meio. Em uma das viagens que fizemos juntos, fomos de carro até São Francisco. E lá tomamos a decisão de não continuar o namoro. Foi uma escolha difícil: queria seguir, mas

meu corpo dizia que aquele não era o meu lugar. Chorei muito, mais uma vez, pela frustração de estar sozinha, pelo medo de ser o caminho errado.

Mas o episódio me trouxe um insight muito forte. Na noite anterior ao meu voo de volta para o Brasil, eu simplesmente falei: “Eu vou para Mount Shasta”. Meu ex-namorado perguntou: “Mas o que você vai fazer lá?”. E eu respondi: “Não sei”. E ele: “Mas você vai com quem?”. Eu disse: “Não sei, mas sinto que preciso ir”. Entrei no ChatGPT e escrevi: “Guias espirituais em Mount Shasta”. Apareceram quatro nomes. Peguei o primeiro e mandei para três pessoas muito importantes para mim: minha professora de yoga, Camila Moura, uma guia de meditação, e uma amiga que faz retiros espirituais. Perguntei se alguém o conhecia. Camila respondeu: “Já ouvi falar dele e um amigo o conhece. Pode ir, é seguro”. Liguei para o guia espiritual da montanha – um homem que conduz experiências pelos chamados vórtices energéticos de Mount Shasta – e, surpreendentemente, ele tinha disponibilidade. Então pensei: “Agora eu vou”. Aluguei um carro e reservei um hotel. Esse foi o meu chamado da montanha.

Quando eu atravessei sozinha a Golden Gate Bridge, quando eu consegui vencer o medo, a aflição, a dor e me vi fazendo uma coisa nova, foi realmente mágico. Parecia que eu tinha entrado em outra dimensão, mas ainda dentro de mim.

Muito além da montanha

Mount Shasta é considerada uma montanha sagrada, um vórtex energético do planeta. Dizem que ali existe uma frequência vibracional diferente, medida em maior número de hertz. Outros acreditam que é um dos pontos de ancoragem da energia de Saint-Germain. Como visual, imagine algo como Aspen mil anos atrás. A montanha, algumas lojinhas, silêncio e uma energia impossível de explicar.

No primeiro dia, meu guia veio me buscar bem cedo para irmos para as montanhas. Estava nevando muito. E Mount Shasta em si não é um lugar turístico. É uma montanha. Então a conexão com a natureza é extrema.

Existem alguns pontos conhecidos como vórtices de energia, onde você se senta, medita e recebe insights. Visitei esses lugares por três dias consecutivos, meditava e escrevia.

No terceiro dia, eu caí em prantos. Eu senti Deus de uma forma muito profunda. Comecei a chorar de graça – porque existe a graça divina. Não era tristeza. Era como se eu estivesse sendo atravessada por uma presença divina muito forte. Foi uma loucura. Eu pensava naquela frase: “Senhor, eu não sou digna de que entreis em minha morada”. Porque eu sentia uma gratidão imensa. Fiquei talvez quarenta minutos chorando e escrevendo, num lugar de absoluta entrega. Mount Shasta tem cachoeiras, lagos, neve, natureza. É lindo. Mas o mais interessante mesmo são as buscas espirituais. E existem casinhas espalhadas na cidade que oferecem experiências energéticas e terapias alternativas. Você

vai descobrindo esses tratamentos escondidos em casinhas lindas. Parece Alice no País das Maravilhas

Em um dos dias, eu estava meditando num vórtice de energia quando meu guia pediu para eu olhar um pouco para a direita e focar no chakra cardíaco. Ele tirou uma foto minha e é difícil explicar racionalmente o que aparece na imagem (foto na dupla anterior). Eu apareço dentro de um tubo lilás de energia, ligado à energia de Saint-Germain – de transmutação, consciência e cura. Ali eu soube que precisava voltar.

O bom filho a casa torna

Cinco meses depois eu fui para Mount Shasta novamente e repeti a experiência outras vezes. A cada viagem eu me conectava mais com as pessoas daquele lugar.

No encerramento de uma das minhas viagens, depois de sete dias meditando, eu estava deitada no banco do parque esperando um amigo que conheci lá. Quando olhei para o céu, vi uma nuvem gigantesca em formato de anjo. São essas pequenas mágicas que acontecem em Mount Shasta. Algumas pessoas dizem já ter visto OVNIs, luzes, fenômenos inexplicáveis. Existem fotografias, histórias. Tudo depende daquilo em que cada um acredita, mas o fato é que se trata de um lugar poderoso de conexão e expansão de consciência. Independentemente da crença, o que eu sempre senti foi presença. E talvez essa tenha sido a grande descoberta de todas essas viagens: quando a gente para de buscar respostas fora, a vida começa, aos poucos, a responder dentro.

O savoir-faire da França no Caribe

Habituée de Saint Barth de longa data, a viajante profissional Flavia Pires revela o je ne sais quoi que faz do destino uma verdadeira joia no Caribe por Flavia Pires

Saint Barth não tenta convencer ninguém. Talvez seja justamente por isso que continue sendo o endereço mais desejado do Caribe. Enquanto outras ilhas apostam em excesso tropical, Saint Barth opera na lógica da edição cuidadosa. O mar é cinematográfico, claro, mas ninguém parece realmente impressionado com ele. O luxo aqui está em outra camada.

Com pouco mais de 20 quilômetros quadrados, a ilha francesa no Caribe continua operando numa lógica rara em 2026: exclusividade sem espetáculo. É um destino onde o silêncio vale tanto quanto uma diária de hotel. A estética mistura Riviera Francesa, surf culture e hospitalidade caribenha sem cair na caricatura tropical. Nada de resorts

gigantes, pulseiras all inclusive ou música ambiente genérica. Saint Barth prefere villas escondidas, beach clubs com listas de espera e hotéis boutique que parecem clubes privados.

O pouso no pequeno aeroporto Gustaf III, cercado por colinas e mar turquesa, continua sendo um dos mais emblemáticos da região. Aviões descem quase tocando a encosta antes de aterrissarem em Saint Jean, diante daqueles que interrompem o almoço apenas por alguns segundos para olhar para o céu.

Em Gustavia, capital da ilha, o Caribe ganha sotaque francês. O porto reúne megaiates, cafés minimalistas entre boutiques de marcas em um ambiente contido. Até a ostentação chega editada. Caminhar nas ruas da

cidade significa alternar entre sorveterias artesanais, galerias discretas e restaurantes onde reservas de última hora são quase ficção durante a alta temporada.

A hotelaria acompanha essa lógica low profile. Há anos, o Rosewood Le Guanahani é referência absoluta de quiet luxury ali, um refúgio sereno e com serviço impecável, que preza por detalhes em absolutamente tudo. Gastronomia deliciosa, villas aconchegantes, spa fantástico com farto menu de tratamentos, academia superequipada e ainda com uma estrutura à parte para famílias com crianças.

Mas Saint Barth ainda gira em torno das praias. E poucas ilhas conseguem oferecer faixas de areia tão diferentes em distâncias tão curtas. Em Saline, não há estrutura nem trilha sonora, apenas areia branca e um mar absurdamente azul. Gouverneur atrai quem procura privacidade sem precisar performar simplicidade. Já Saint Jean concentra o lado mais social da ilha, com cadeiras disputadas, playlists cuidadosamente produzidas e almoços que atravessam a tarde.

Os beach clubs ajudam a consolidar o imaginário de Saint Barth como o Caribe da moda, mas a ilha mudou

nos últimos anos. O excesso perdeu espaço para experiências mais calibradas. O wellness entrou definitivamente na equação. Spas de marcas internacionais, menus anti-inflamatórios, academias boutique e tratamentos faciais assinados por labels de beleza europeias passaram a dividir a atenção com o champanhe e as festas ao entardecer. A nova Saint Barth parece menos interessada em exibir riqueza e mais focada em criar conforto absoluto.

Ainda assim, a ilha preserva uma vida social intensa entre dezembro e abril, especialmente durante o Réveillon, quando executivos, celebridades e herdeiros transformam o porto numa extensão do Mediterrâneo. Só que existe uma diferença importante: Saint Barth não depende da cena para existir. Fora da temporada, ela desacelera sem perder o charme. O vento aumenta, as mesas ficam disponíveis e o Caribe reaparece por trás da curadoria francesa.

Talvez seja exatamente isso que mantém Saint Barth relevante enquanto outros destinos de luxo parecem replicar uns aos outros. A ilha entendeu antes de quase todo mundo que o novo desejo do turismo premium não é excesso. É edição.

Praias paradisíacas, hospitalidade impecável, bossa e savoir-faire francês transformam Saint Barth em uma joia única no Caribe

VALE OURO

Uma seleção de endereços imperdíveis no destino

Beach Clubs

Gyp Sea | Pelican Beach

Boho chic, colorido e delicioso. Drinks tropicais, grelhados na brasa e o mar calmo aos pés.

La Cabane | Cheval Blanc, Flamands Beach

Sofisticação descomplicada. Um lugar para quem aprecia o silêncio, o sabor e o azul profundo em harmonia.

Nikki Beach | St. Jean

Ícone da ilha. White party vibes, sushi delicioso e o tipo de animação que faz todos os dias parecerem uma sexta-feira.

Eden Rock – Sand Bar | St. Jean Um clássico absoluto. Serviço impecável e atmosfera elegante, com a vista mais icônica de St. Barth. Ideal para quem ama o mar e bons drinks. Lobster roll e truffle pizza imperdíveis!

La Guérite | St. Jean Espontâneo e animado. O clima muda do almoço para a pista com naturalidade! Música, dança e taças levantadas ao pôr do sol.

NAO Beach | St. Jean Novo, moderno e vibrante. Perfeito para quem gosta de clima de festa, decoração elegante e boa gastronomia à beira-mar.

Le Rivage | Grand Cul-de-Sac Mais low profile, com alma tranquila e culinária caprichada. Ideal para relaxar entre mergulhos e vinhos brancos gelados.

Beach Club Le Toiny | Anse de Toiny Selvagem, exclusivo e cinematográfico. Um refúgio para quem busca um luxo mais silencioso, cercado de natureza. Não deixe de passar na charmosa boutique!

“A ilha entendeu antes de todo mundo que o novo desejo do turismo premium não é excesso. É edição.”

Gastronomia Compras

Bonito – o encontro entre Saint-Tropez e América Latina

Colorida, feminina e absolutamente conectada ao lifestyle de St. Barth, a Lolita Jaca tornou-se um dos nomes mais emblemáticos da moda resort na ilha.

Bijoux de Mer – joias inspiradas na beleza do Caribe

A marca traduz essa conexão em peças sofisticadas que combinam pedras naturais, formas orgânicas e referências marítimas com extrema delicadeza. Colares minimalistas, pulseiras refinadas e acessórios elegantes refletem uma estética atemporal e luminosa.

Clic Gallery – fotografia, arte, cultura e lifestyle sofisticado

Poucos espaços representam tão bem o lado cultural de St. Barth quanto a Clic Gallery. Com atmosfera minimalista e elegante, a galeria reúne fotografias icônicas, livros de arte, objetos de design, obras assinadas por alguns dos maiores nomes da fotografia contemporânea internacional e uma curadoria de roupas e acessórios incríveis. O espaço combina arte e lifestyle de maneira sofisticada, atraindo colecionadores, amantes de estética e viajantes cosmopolitas.

Boutique Eden Rock – o glamour de St. Barth

Assim como o lendário hotel que a abriga, a Boutique Eden Rock traduz perfeitamente a elegância solar de St. Barth. Com curadoria impecável, o espaço reúne peças de resort wear, acessórios exclusivos, moda praia de luxo e itens de lifestyle selecionados com olhar refinado e contemporâneo. Não deixe de conhecer a marca de joias Jordana Gheler, um must!

Com vista privilegiada para o porto de Gustavia, o Bonito tornou-se um dos restaurantes mais desejados da ilha ao unir sofisticação francesa com sabores vibrantes da América Latina.

Le Tamarin – um jardim secreto sob as estrelas

Poucos endereços em St. Barth conseguem reunir tanta atmosfera quanto o Le Tamarin. Escondido em meio a um exuberante jardim tropical, o restaurante oferece uma experiência quase cinematográfica. A cozinha mistura referências francesas e mediterrâneas com leveza contemporânea.

Kinugawa – a sofisticação japonesa com alma parisiense

A chegada do Kinugawa à ilha trouxe um novo olhar sobre a alta gastronomia japonesa. Conhecido por seu sucesso em Paris, Saint-Tropez e Dubai, o restaurante combina estética minimalista, atmosfera intimista e um menu que interpreta a culinária japonesa de forma contemporânea.

Le Café – o luxo descontraído

Filial de Saint-Tropez, o lugar reúne música ao vivo, astral despretensioso, aquela alegria irreverente da França e boa comida de bistrô.

Hôtel Le Toiny – gastronomia com vista infinita do Caribe

Reservado, sofisticado e cercado por natureza exuberante, o Hôtel Le Toiny oferece uma das experiências mais exclusivas da ilha. Seu restaurante, posicionado diante do azul intenso do Caribe, combina alta gastronomia francesa com ingredientes locais e serviço extremamente personalizado.

Le Ti – irreverência, festa e glamour caribenho

Se alguns restaurantes de Saint Barth encantam pela discrição, o Le Ti conquista justamente pelo oposto. Icônico, vibrante e teatral, o endereço é famoso por transformar jantares em verdadeiros espetáculos. Entre performances inesperadas, música animada e uma atmosfera festiva que atravessa a madrugada, tornou-se um clássico da vida noturna na ilha.

Lolita Jaca – a essência bohemian chic da ilha

ANOTHER POINT OF BLUE

Situado em águas aquamarine do Caribe, Anguilla se apresenta como uma joia rara: o destino perfeito para ir com amigas, acompanhada ou até mesmo sozinha – tal a segurança e a tranquilidade que a ilha oferece. Descubra mais desse outro azul

por Mona Conectada

No mar do Caribe, Anguilla fica depois das badaladas ilhas que levam nomes de santos. A partir de St. Maarten, chega-se de ferry à tranquila ilha britânica, que revela natureza exuberante e serenidade.

Anguilla toda tem apenas seis semáforos e, como um vilarejo, todos os habitantes realmente se conhecem e se ajudam. A receptividade é genuína e a alegria faz parte da rotina, assim como o sol e o mar azur cristalino.

Seguro, é um dos destinos mais procurados por mulheres e também o spot silencioso das celebridades, pois Anguilla é um convite para valorizar o mais simples – que na hiperconectividade atual, parece um desafio –, o far niente . É um deleite notar a brisa no rosto, observar o farfalhar dos coqueiros, apreciar a vista e agradecer a natureza. A seguir, revelamos seus principais encantos.

Beleza natural e o azur a cada horizonte. Nas fotos, visual do Anguilla Arch; vista da suíte do Zemi Beach House; a piscina e áreas comuns do hotel. Na página anterior, vista da praia Shoal Bay Beach

OndeFicar

Zemi Beach House

De energia leve, o premiado hotel soma encantos. Com acesso à praia de Shoal Bay Beach e um clima de sossego aconchegante, é um lugar que nos convida a aproveitar todos os seus cantos. Em especial, a casa tailandesa com mais de 300 anos, que abriga o luxuoso spa do Zemi. A construção foi desmontada em 1970, com cada peça numerada cuidadosamente, trazida da Tailândia até Anguilla e montada in-situ

Após o pôr do sol, todas as noites têm eventos difíceis de serem recusados. São soirées pé na areia, com belíssimas mesas montadas e pratos frescos com ingredientes locais. E com música ao vivo –vozes de pequena sereia (literalmente) no canto de pessoas talentosas da própria equipe do hotel. Recomendamos dedicar pelo menos uma noite para jantar no restaurante Stone, com pratos sofisticados e menu sazonal. E, depois, conhecer o Rhum Room, que apresenta a mais extensa coleção em Anguilla de small-batch e edições limitadas de rum. A experiência de degustar e conhecer mais sobre a história dos mais de 100 rótulos disponíveis é guiada pelo rummerlier da casa.

+zemibeach.com

OndeFicar

Four Seasons Resorts and Residences

O complexo do grupo Four Seasons oferece estadia fabulosa, com acesso às praias Barnes Bay Beach e Meads Bay Beach. Começar o dia com um café da manhã silencioso e vista do mar é um presente. +fourseasons.com/anguilla

OndeComer

Mango’s Seaside Grill

Fundado em 1995 pelo casal, Kim e David Coburn, de Massachusetts, tem um belo ar vintage, com suas mesas de fórmica na cor azul-marinho e drinks em copos altos com cereja maraschino. Todos os frutos do mar e peixes servidos são locais. “Quando foi a última vez que você viu um salmão aqui?”, brinca Kim, apontando para a beira do mar – que é a vista da nossa mesa, pé na areia. Os pratos são deliciosos, incluindo o lobster cake da casa.

Blanchards Restaurant & Beach Shack

O charmoso restaurante de portas no tom azul-turquesa dá acesso à praia, com pôr do sol perfeito para iniciar o jantar. Blanchards oferece pratos saborosos, carta de vinhos apurada e mais de 200 runs selecionados. Para finalizar, o Ultimate Carrot Cake, bolo em camadas, que leva lemon curd, purê de framboesa e coco, e o Cracked Coconut, sorvete e licor irlandês servido em delicada casca de chocolate.

Conhecendo aIlha

Duas Rodas

Formada por uma equipe atenciosa, a Electric Explorers oferece tour na ilha e locação de e-bikes para diferentes níveis. Ótimo jeito de conhecer as praias. @electricexplorers.ai

Quatro Rodas

Autêntico charme passear de Moke, clássico automóvel inglês, criado na década de 1960. Em diversas cores, também está disponível para rental no Four Seasons.

Signature

Cada estabelecimento tem o seu punch de frutas à base de rum. Sempre servido com alegria como welcome drink. É realmente um esporte local – e que te conquiste a receita mais deliciosa!

tempo

Para amantes de lagosta, aproveite a viagem para solicitar à vontade. E não deixe de provar também os famosos lobster cakes

Old isCool!

Por que hotéis lendários de Paris, caso do Plaza Athénée e do Le Meurice, continuam sendo símbolos de elegância, hospitalidade e do eterno je ne sais quoi francês

Não é preciso ser um grande connoisseur da moda para saber que Christian Dior tinha um olhar visionário. E não se trata apenas de pensar nos códigos eternizados pelo estilista francês, como o New Look, as saias rodadas e a feminilidade extrema. Em 1946, na Paris do pós-guerra, quando o epicentro da alta-costura ficava em torno da Rue de la Paix e da Place Vendôme, Monsieur Dior escolheu o número 30 da Avenue Montaigne para abrir sua primeira loja. Ignorando o fluxo seguido por nomes

como Chanel e Schiaparelli, o ex-galerista viu ali uma chance de fazer diferente, em um momento em que a cidade buscava se reinventar. Mas o que os connoisseurs de fato sabem é que um dos motivos que o levou à escolha foi o hotel Plaza Athénée, que ali já estava desde 1913, a poucos passos de distância.

Dior foi sábio ao entender que a experiência do luxo ganharia pontos se integrada à hospitalidade e conectou o lendário palácio parisiense à sua marca – coleções foram

A icônica fachada e outros ambientes que fizeram do Plaza Athénée uma instituição parisiense apresentadas no hotel e peças icônicas ganharam o nome de áreas do Plaza, caso do Bar Suit – e à sua vida pessoal. Aos poucos, o público veio e a região como um todo passou a ser conhecida como o lugar da haute couture.

Até hoje, se hospedar no Plaza Athénée, considerado um patrimônio cultural do destino, é reviver um pouquinho desse glamour de outros tempos – ainda que o público fashionista na era do Instagram exagere no ver e ser visto.

A essência se faz presente na arquitetura e no décor, em especial nas suítes com vista da Torre Eiffel – é impossível não abrir a janela e fazer como Carrie, em Sex and the City! –, no salão monumental onde é servido o café da manhã e no ambiente art déco do restaurante Le Relais Plaza, um favorito entre os autênticos parisienses.

Mas também nos detalhes: na manteiga que é diferente em cada um dos restaurantes, no chá perfumado servido pós-massagem facial do spa – by Dior, claro –, no seu óculos de sol que aparecem impecavelmente limpinhos no quarto quando você volta do jantar e mais uma série de delicadezas assim.

Muito além da moda

Se Dior descobriu cedo o potencial daquele pedaço parisiense, foi a elite britânica quem entendeu o charme de outro endereço adorado na cidade, e hoje comandado pelo mesmo grupo do Plaza: o Le Meurice.

A poucos passos do Louvre, na Rue de Rivoli, o hotel

“Os habitués entenderam um grande trunfo do Le Meurice: a localização perfeita para flanar sem pressa por Paris”

foi fundado em 1835 para atender os ingleses que faziam o Grand Tour pela Europa e, hoje, é um favorito entre os entusiastas da arte e da história que gostam de tradição, mas preferem estar mais longe dos holofotes. E, claro, reconhecem o privilégio de dormir e acordar com vista do Jardin des Tuileries e seus arredores.

Com um passado histórico, atendia reis e rainhas em suas longas temporadas parisienses no século XIX, Queen Victoria incluída, e, anos mais tarde, tornou-se reduto de artistas e intelectuais. Salvador Dalí está entre os mais emblemáticos exemplos: a suíte em que passava um mês por

ano e que fazia excentricidades, como chegar nela a cavalo, pode ser reservada por nós, reles mortais.

Entre aristocratas e artistas, fato é que, para além da beleza do edifício, os habitués daqueles tempos entenderam logo de cara outro grande trunfo do Le Meurice: a localização perfeita para embarcar em um dos programas mais deliciosos de Paris: flanar sem pressa. E depois de tomar um café da manhã no salão do hotel de 1907, com décor inspirado em Versailles e docinhos do confeiteiro francês Cédric Grolet, você certamente não vai resistir e fará o mesmo.

Um dos quartos do Le Meurice e os docinhos criados por Cédric Grolet, o chef de pâtisserie do hotel, que ganhou fama – e lojas próprias – em toda a cidade
Takes do icônico Spa Dior, no Plaza Athénée

Flâneur

Entre compras e dicas culturais, selecionamos endereços imperdíveis para conhecer andando nos arredores do Le Meurice

Bourse de Commerce

Cédric et la Chocolaterie

Depois dos doces gelados que imitam perfeitamente o formato das frutas, Cédric Grolet agora faz chocolates com o mesmo cuidado minucioso. Hit absoluto, o lugar é inspirado em Willy Wonka e sua Fantástica Fábrica de Chocolates.

Flabelus

A charmosa marca espanhola de sapatilhas tem uma loja pequenina em Paris, com modelos que são verdadeiros achados.

La Galerie Dior

Para além das coleções de arte contemporânea, esse lugar vale pela história: a antiga bolsa de comércio e armazém de grãos foi totalmente restaurada por Tadao Ando.

Bibliothèque Nationale de France

Nem todo mundo se lembra desse endereço lindíssimo, o Edifício Richelieu, reaberto há poucos anos, após uma ampla restauração. Além dos livros, tem peças históricas, como o manuscrito de Os Miseráveis e partituras de Chopin. Em um dia de sol, o jardim da frente também oferece uma pausa deliciosa entre os passeios.

O histórico número 30 da Avenue Montaigne, onde Monsieur Dior abriu sua primeira loja, hoje abriga um dos museus mais lindos de Paris. Com uma cenografia impecável, oferece um mergulho nos momentos mais importantes da marca, mas também da elegância parisiense. Destaque para a sala que tem artesãs criando, in loco, acessórios que mais parecem obras de arte.

Meyrowitz

Com mais de 150 anos de história, essa boutique é especialista em óculos sob medida, feitos à mão na França, além de uma seleção de marcas superdescoladas.

Os ambientes repletos de personalidade do Le Meurice, com destaque para o salão onde é servido o café da manhã

sai da bolha

Você tem a impressão de que todo mundo ao seu redor está assistindo à mesma série, lendo os mesmos livros e desejando as mesmas coisas? Provavelmente não é só uma sensação, mas pode ser que você esteja alienado. Com vocês, o poder do algoritmo!

Por Isabel de Barros

Os domingos de 1996 tinham programa com hora marcada: às 22 horas, a maioria das televisões brasileiras estava ligada no humorístico Sai de Baixo, série brasileira da TV Globo, que, no dia seguinte, invariavelmente, virava assunto – do trabalho à escola, do salão de cabeleireiro ao táxi. Passados 30 anos, o boom do streaming tirou de cena essa monocultura, esvaziando a experiência coletiva que até então orientava e pautava a sociedade, e a fragmentou em múltiplos conteúdos, disponíveis o tempo todo para cada um escolher o que quer ver, ouvir, aprender. E, mesmo assim, muitas vezes a sensação é de que estamos todos assistindo às mesmas séries, lendo os mesmos livros e desejando as mesmas coisas.

A percepção não é à toa. E ganhou até termo, “bolha de filtro”, cunhado pelo autor estadunidense Eli Pariser em seu livro O Filtro Invisível, de 2012. Segundo o escritor, a internet é moldada de acordo com os interesses pessoais a partir de cliques (vale lembrar que hoje os algoritmos são muito mais sofisticados do que há mais de uma década). Ou seja, sites e redes sociais usam mecanismos avançados para que só conteúdos alinhados com suas buscas e likes cheguem a você, alimentando aquilo de que gosta e acredita e diminuindo o contato com pontos de vista diferentes.

O próprio Eli escreveu em um artigo certa vez: “O seu filtro-bolha é seu, pessoal, o único universo de informação com o qual você vive on-line. O que está no seu filtro-bolha depende de quem você é e do que você faz. Mas a questão é que você não decide o que entra. E, mais importante ainda, não vê o que fica de fora.”

Para a escritora Daniela Arrais, cofundadora do @contente.vc, estúdio de criação que pensa a vida digital de forma atenta e consciente, a internet está longe de ser uma ferramenta neutra. “Ela vem moldando um ambiente de informações que favorece as visões de mundo de cada um. Com isso, vamos nos fechando nos nossos próprios universos, esquecendo do poder que a pluralidade tem. As consequências a gente já percebe: intolerância, cancelamento, dificuldade de ouvir.”

Sintonizados

Se, no começo deste ano, você e nove entre dez conhecidos assistiram à série História de Amor, sobre o casal Carolyn Bessette e John F. Kennedy Jr., sua bolha deve ser de mulheres, 40+, nostalgia, anos 1990. O que isso quer dizer? Que, entre uma infinidade de séries e filmes,

Pensata | COMPORTAMENTO

o filtro invisível reforçado pelo uso cada vez mais sagaz dos algoritmos nos mostra aquilo que podemos gostar de acordo com as nossas preferências de consumo. Mas não só. Os próprios streamings destacam o que eles querem que seja mais visto e o desejo acaba enroscado nesse emaranhado em que não se sabe mais o que é vontade própria ou o que é empurrado. “Não é que o algoritmo invente nossos desejos, até porque ele parte das nossas preferências reais. Mas, ao amplificá-los o tempo todo, estreitamos nosso querer, tiramos espaço para o que a gente sequer considera. Não estamos escolhendo entre todas as opções, mas a partir de um conjunto filtrado que parece ser ‘tudo’”, diz Daniela. Agora, pense nesse efeito em grande escala e o resultado é que não estamos apenas assistindo à mesma série em bolhas; a algoritmização atravessa toda a nossa vida. A gente sonha em viajar para destinos dos quais “todo mundo está falando”, ler o livro que “estão dizendo que é muito bom”, ter uma roupa específica porque de repente “todos” parecem usar algo assim, comer naquele restaurante que nem a gente sabe como descobriu. “O gosto pessoal foi diluído. A gente é exposto a uma repetição sem fim, que acaba criando desejo também. Vamos desenvolvendo uma espécie de idioma

compartilhado”, comenta Daniela. Se de um lado isso é dependência, de outro, é pertencimento social. Segundo Miriam Debieux Rosa, professora titular do Instituto de Psicologia da USP e coordenadora do Laboratório de Psicanálise, Sociedade e Política da USP, pertencimento é “a percepção de alguém fazer parte de uma comunidade, de uma família, de um grupo, de uma nação. Está muito ligado ao reconhecimento”. E pertencer é intrínseco ao humano, dá acolhimento e contorno diante da incerteza do sentido da vida.

E se?

Se você está se perguntando como separar o joio do trigo – ou seja, o seu desejo do que é entregue pelo algoritmo – , é preciso bancar a autenticidade. “Temos que ser cada vez mais curadores do que escolhemos consumir, exatamente para não sermos consumidos por uma lógica que padroniza tudo, até o que nos abastece intelectualmente”, afirma Daniela. Para deixar de ser só mais um na multidão, tendo ideias e vontades próprias, é preciso parar, olhar para dentro e se questionar. E se, afinal de contas, você for a pessoa que traz uma novidade para a roda de conversa?

Odila Jasper é uma das telas apresentadas pela artista OLÍVIA TABET na exposição individual Os de Lá , em cartaz na Casa SLAMB. A obra convida o público a mergulhar em um universo misterioso, onde textos, retratos e esculturas se entrelaçam para narrar hist órias épicas e enigmáticas. São narrativas que emergem de um imaginário rico em referências, transitando livremente entre o lúdico e o gótico. Paulistana, nascida em 1984, Olívia também é autora de três livros infantis e acumula colaborações com marcas dos segmentos de moda e design. Em sua produção artística, transforma em imagens e objetos os muitos mundos que cria, dando forma a personagens, histórias e atmosferas que habitam seu repertório criativo. @oliviatabet.hand.heart.made

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook