ZINE
Os Segredos de Júlio Oliveira
O ator e produtor por trás de O Segredo de Brokeback Mountain
E MAIS
Greg Duffy e a febre das novelas verticais
Fama, afeto e caos criativo no entretenimento digital
Alfagamabetizado, 30 anos
O disco de Carlinhos Brown que ainda escreve o futuro
Permanecer em cena
Arte, repertório e consciência de carreira
JúlioOliviera| FOTO:AgênciaOphelia/divulgação
NÃOÉREVISTA.NÃOÉPORTAL.ÉZINE
Este zine nasce de um cansaço. Mas também nasce de um desejo. Cansaço da pressa, do algoritmo, do conteúdo que precisa performar antes mesmo de existir.
Cansaço da cultura reduzida a números, métricas, engajamento e tendências que duram menos que um respiro. Desejo de pausa. Desejo de escuta. Desejo de presença.
O ZINE D&A não quer competir com portais, nem disputar atenção em timelines infinitas. Ele quer outra coisa: encontro.
Criamos este zine porque acreditamos que a cultura ainda é — e sempre será — um espaço de afeto, reflexão e transformação. Mesmo quando tudo ao redor parece ruir. Especialmente quando tudo parece ruir.
Aqui, a curadoria importa.
O olhar importa.
O gesto importa.
Não nos interessa o hype vazio. Nos interessa o que pulsa longe dos holofotes.
O que sustenta.
O que atravessa.
O que fica.
Este zine é digital, mas carrega a alma analógica dos zines de outrora: feito à mão, com erros assumidos, escolhas conscientes e um certo prazer em não agradar a todos.
Não prometemos respostas fáceis. Nem listas definitivas. Nem verdades absolutas.
Prometemos perguntas bem colocadas. Textos que respiram. Imagens que dialogam. Silêncios que também dizem.
O Canal Diversão & Arte sempre acreditou na cultura como experiência — e não apenas como produto. O ano de 2026 é o marco dos 10 anos de Canal Diversão & Arte e o ZINE D&A nasce para aprofundar isso: um território editorial onde a arte, a educação, a memória e os afetos caminham juntos.
Se você chegou até aqui, chegou por Sente falta.
Sente vontade.
Sente que ainda vale a pena.
Este zine é para quem cria.
Para quem produz.
Para quem frui.
Para quem resiste.
Não é revista.
Não é portal. É zine.
E é convite.
— ZINE D&A |
Canal Diversão & Arte
Entre o palco, a pele e o silêncio: um ator em estado de risco, afeto e coragem por trás de O Segredo de Brokeback Mountain
Por tOn Miranda | @ton_miranda
ação
Tem histórias que não pedem palco. Pedem coragem. Algumas narrativas nascem do amor, outras da falta dele. Algumas gritam. Outras sobrevivem em silêncio.
Brokeback Mountain nunca foi apenas sobre dois homens. É sobre tudo aquilo que a gente aprende a esconder para continuar vivendo. É sobre desejos que não couberam no tempo. É sobre afetos que precisaram virar segredo para não virarem ferida aberta.
No ZINE D&A do Canal Diversão & Arte, a gente acredita que o artista não cria apenas com técnica, cria com aquilo que o atravessa. Com o que dói. Com o que ama. Com o que ainda não tem nome. Hoje, a conversa não é só sobre um espetáculo. É sobre o que acontece quando a arte exige que o corpo diga verdades que a vida tentou silenciar.
Recebemos Júlio Oliveira, um ator em estado do risco, atravessando uma obra que não permite distância nem respostas prontas. A conversa aconteceu no sábado, 10 de janeiro de 2026, à tarde, no foyer café do Teatro Itália, logo após um dos ensaios do espetáculo.
Entre um café e outro, em um ambiente de admiração mútua, afeto e intimidade, a entrevista se construiu sem pressa, como pedem os encontros que não cabem em respostas rápidas. Esta não é uma matéria para ver correndo.
É para ler com os olhos e o peito abertos. Porque quando a arte é sincera, ela não passa. Ela fica.
Júlio Oliveira: meu Deus do céu, se tem uma coisa que você sabe fazer é atravessar os outros, sabia? Você é inevitável! Inevitável... nossa!
tOn Miranda: Júlio, antes de falar do espetáculo, eu queria começar pelo que não está escrito, não está dito... que parte de você esse texto cutucou primeiro, o ator ou o homem.
JO: Ah, o homem, com certeza. Como ator, é um texto muito ambicioso, um prato cheio de sentimentos e situações que você não encontra em qualquer personagem. Mas, como homem, ele atravessa direto, porque fala com a estrutura de quem eu sou misturada com a estrutura de quem eu precisei ser. O teatro existe justamente para tocar onde não há defesa. Quando isso acontece, a gente é baleado. É uma ferida que nunca cura — e se curar, tem algo errado. Tem ferida que nasce para ficar aberta. O bom da arte é que, pelo menos, a gente consegue transformar isso em repertório. Transformar a dor em repertório muda a gente. Muda mesmo.
Júlio Oliveira | FOTO: Agência Ophelia / divulgação
tOn: Tem algum silêncio no espetáculo que diz mais do que qualquer fala? O que acontece dentro de você quando esse silêncio chega?
tOn: Todo grande papel exige um risco. Qual foi o risco emocional mais alto que você correu ao aceitar esse personagem? E o que você precisou abandonar para t á l ?
JO: Acho que existem dois silêncios muito fortes para mim no espetáculo, mas um deles me atravessa especialmente. É o momento em que o Ennis avisa ao Jack que vai se divorciar. O Jack atravessa uma estrada infinita para chegar até ele. Eu fico imaginando esse percurso: se ele parou para comer, se tentou não parar para ganhar tempo, se estava construindo tudo na cabeça para chegar mais rápido. Ele chega com um plano inteiro montado. Uma estrutura de futuro para os dois. E descobre que não foi o Ennis quem pediu o divórcio — foi a mulher dele. Ou seja, o Ennis não faz parte daquele plano. Aí vem uma pausa abissal. Porque o Ennis diz: “Livre? Eu nunca vou ser livre, cara”. Ali, o Jack entende, talvez pela primeira vez, que o problema nunca foi o casamento do Ennis. O problema sempre foi ele. O Jack encara o mundo como um conflito externo. O Ennis, além do mundo, tem conflito consigo mesmo. Esse silêncio vem seguido de um riso nervoso, quase um colapso. O Jack começa a se ofender, a se diminuir: “Eu sou ruim pra caralho”. Ele entende que o futuro que desenhou não vai existir. E, de fato, nunca vai

JO: Brokeback Mountain só tem a potência que tem por que é um texto simples. A complexidade está nos personagens, não na palavra rebuscada, não em jogos de linguagem. São personagens simples, mas profundamente complexos. O que a gente precisa abandonar ao entrar num trabalho desses são as defesas que aprende para sobreviver num mercado muito injusto. Muitas vezes, para trabalhar e viver disso, a gente acaba simplificando demais o próprio trabalho, criando atalhos, criando escudos. Quando aparece um texto que permite requinte, profundidade, você precisa abrir mão dessas escadas. Fazer o óbvio, que nem sempre é fácil: honestidade. Esse é, sem dúvida, o trabalho mais honesto da minha carreira.
tOn Miranda e Júlio Oliveira | FOTO: Agência Ophelia / divulgação
tOn: Existe alguma parte da sua trajetória artística que você precisou esconder para continuar trabalhando? Essa peça te convida a olhar para isso de outro jeito hoje?
JO: Não sei se escondi quem eu era para trabalhar, mas fui ensinado que precisava esconder. Talvez eu nunca tenha respondido muito às pessoas por incompetência mesmo — eu não sou alguém que pede licença. Eu chego chutando a porta. Não por estratégia. É porque, muitas vezes, é mais fácil arrumar a porta depois do que pedir para entrar. Nem toda porta abre com batida gentil. Nem toda porta tem campainha. Claro que a gente se machuca no caminho, mas eu prefiro isso a deixar de ser quem sou. Faz algum tempo que parei de pedir desculpas por existir do jeito que existo. Fui talhado pelos olhares dos outros e pelos meus próprios, tentando ser mais comedido. A gente precisa celebrar os lugares onde é bemvindo, onde cabe, onde é celebrado.
A gente ouve isso o tempo todo — de psicólogo, de podcast, de frase motivacional no instagram — mas continua insistindo em caber onde não somos desejados. Produzir também vem disso. Talvez eu não tenha pensado conscientemente no início, mas hoje faz todo sentido. Amarra tudo.
tOn: Então me conta: como está sendo estar em cena e, ao mesmo tempo, produzir um espetáculo que você foi atrás, que você puxou para si, para que esse corpo pudesse dizer tudo o que essa obra carrega?
JO: É uma loucura, tOn. Uma loucura que não se planeja totalmente. Ela acontece mais pela ousadia do que pela competência, sendo muito honesto. Algumas coisas, se você organizar demais e esperar o momento ideal, nunca acontecem. Tem coisas que precisam acontecer chegando na porta, com coragem.
Júlio Oliveira | FOTO: Agência Ophelia / divulgação
Eu já tinha feito parte do espetáculo antes, já cantava para o idealizador a vontade de trazer isso para cá. Quando consegui juntar as coisas, fui direto: falei para o (Marcelo) Brou que eu não queria mais encontrar uma produção em São Paulo — eu queria ser a produção. Queria produzir um novo Brokeback Mountain. Ele acreditou em mim. E aqui estamos, fazendo essa história crescer. Antes mesmo da estreia, sem falsa modéstia, já é uma grande promessa. Estamos com mil ingressos vendidos antecipadamente — algo que a própria administração do teatro disse nunca ter visto. Como não celebrar isso? Se tivéssemos planejado demais, talvez acontecesse no “momento certo”. Mas a gente faz do tamanho que pode — e faz. Às vezes, a ousadia é a coisa mais importante que existe.
tOn: Que tipo de afeto você só aprendeu tarde e que agora tenta devolver ao público no palco?
JO: Aprendi a dizer “eu te amo” de verdade. Isso veio com uma noção de tempo mais clara. Não estou obcecado pelo tempo, mas ele bateu. Passei a dizer “eu te amo” para minha mãe, para meus amigos, para as pessoas que estão comigo. Digo mesmo. Sem motivo especial. Sem data. Você pode estar comigo num bar, numa terça-feira qualquer, e eu vou olhar e dizer: “Eu te amo”.
Verdadeiramente. Não aquele “te amo” automático. Um “eu te amo” legítimo. É libertador. Não espero mais velório, casamento, Natal. A vida não se paga parcelada. É à vista. No pix. Na hora.
tOn: Obrigado pela entrevista. Acho que a gente ganha muito tendo você como um desses atores e artistas que ajudam a contar o nosso tempo contemporâneo. Tenho a sensação de que, mais adiante, as pessoas vão compreender ainda melhor tudo o que você representa — não no lugar da representatividade, mas no da referência.
Você é referência. Pelo trabalho, pela coragem e pela forma como atravessa a cena e as pessoas. É isso.
JO: Posso te dizer uma coisa? Você é prova de que a gente não é o que a vida faz com a gente. A gente é o que faz com o que a vida faz com a gente. Já vi muita porta se fechar para você. E você poderia fazer o mesmo hoje. Mas você faz o contrário: abre portas para que outras pessoas tenham voz. Você está fazendo isso agora. E eu faço questão de dizer: eu te amo. Porque eu sustento essa relação, essa admiração. E tenho certeza de que ela ainda vai reverberar muito.
Júlio Oliveira | FOTO: Agência Ophelia /
Algumas histórias não se encerram na última página. Elas continuam no corpo de quem lê. O que Júlio Oliveira compartilha aqui não pede conclusão apressada. Pede pausa. Pede escuta interna. Pede tempo para decantar. Falar de amor, de silêncio e de coragem nunca foi simples. Mas sempre foi urgente.
A arte, quando é atravessada de verdade, não oferece respostas prontas. Ela amplia as perguntas e nos devolve um espelho mais honesto. Que cada pessoa que chega até esta capa leve consigo aquilo que reconheceu, aquilo que incomodou, aquilo que ainda não sabe nomear.
Talvez o segredo não seja contar tudo. Talvez seja escolher os espaços onde a gente pode existir inteiro, sem armadura. Ao revelar bastidores, memórias e fissuras, Júlio nos lembra que a trajetória de um artista também é feita do que ele precisou calar — e do que decidiu, finalmente, dizer. Quando a arte encontra o afeto, ela não termina no palco, nem na última linha do t acompanhando quem t
tOn Miranda e Júlio Oliveira | FOTO: Agência Ophelia / divulgação
O Segredo de Brokeback Mountain
Montagem teatral do clássico do cinema que marcou gerações, O Segredo de Brokeback Mountain chega a São Paulo após temporadas de sucesso em Londres e no Rio de Janeiro. A peça acompanha a história de amor entre dois cowboys nos anos 1960, atravessada por silêncio, desejo, repressão e coragem.
Texto: Ashley Robinson, a partir do conto de Annie Proulx
Tradução: Miguel Góes
Direção: Moacyr Góes
Elenco: Marcéu Pierrotti, Júlio
Oliveira, Arlete Heringer, Daniel Tonsig, Eduardo Rieche, Francis Helena Cozta e Marcelo Brou
Banda em cena: Breno Ganz, Júlia
Maez e Milena Suzano
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: Drama
Temporada: de 14 de janeiro a 26 de março de 2026
Sessões: quartas e quintas-feiras, às 20h
Ingressos: R$ 100 (inteira) | R$ 50 (meia-entrada)
Vendas: Sympla
Local: Teatro Itália - Av. Ipiranga, 344 – República – São Paulo
Capacidade: 302 lugares
Marcéu Pierrotti e Júlio Oliveira | FOTO: Terci Melo / divulgação
PRÍNCIPEDODRAMAVERTICAL:
GregDuffyabreojogosobreafebre"StraightUntilHeKissedMe"e suaconexãolatina
Oastroamericano,quegravaaté15páginasderoteiropordia,revela osbastidorescaóticosdassériesdeapp,ridosmemesviraise prometemúsicasemespanhol.
Por Dinho Santoz | @dinhosantoz
Esqueça o horário nobre da TV tradicional. A nova paixão mundial cabe na palma da mão, tem episódios de um minuto e vicia mais que maratona de fim de semana. Estamos falando das novelas verticais, e se esse gênero tem um rosto, ele pertence a Greg Duffy. Conhecido por dar vida a personagens intensos e carismáticos, Greg se tornou um fenômeno no Brasil com o sucesso avassalador de Straight Until He Kissed Me (2025). Em entrevista exclusiva à nossa redação, o ator, cantor e compositor detalhou a rotina insana por trás das câmeras e seus novos projetos, I Found Another Him, After He Dies e o mágico The Prince's First Love.
Greg Duffy | imagem: Divulgação / backstage.com
VALEAPENA OUVIRDENOVO
Alfagamabetizado – CarlinhosBrowneagramáticaafrofuturistado
Brasilde1996
Por tOn Miranda | @ton miranda
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
Quando Alfagamabetizado chegou às lojas em 1996, Carlinhos Brown já era um furacão conhecido na música brasileira: percussionista inventivo, mentor da Timbalada, compositor gravado por meio mundo, figura central do Candeal. Mas esse primeiro disco solo é outra coisa: um manifesto. Um jeito de escrever o Brasil com outras letras, outros tambores, outros alfabetos.
Às vésperas de completar 30 anos em 2026, o álbum continua soando moderno, híbrido, provocador –daqueles discos que a gente escuta e pensa: como é que isso já tem três décadas?
O Brasil de 1996 e o mundo de Brown
1996 é Brasil do Plano Real, da MTV bombando, do axé e do pagode dominando rádios, de uma juventude conectada pelos primeiros CDs originais e pelos primeiros chats da internet. Ao mesmo tempo, é o país das desigualdades profundas, do racismo estrutural escancarado, das periferias ainda pouco escutadas no centro do debate.
Carlinhos Brown chega a esse cenário vindo do Candeal, depois de fazer história com a Timbalada e ver suas canções ecoando com Paralamas, Djavan, Marisa Monte e tantos outros.
Em 1996, Alfagamabetizado inaugura sua carreira solo e, de cara, entra na lista do livro “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer” – o que diz muito sobre o impacto internacional dessa obra.
Produzido por Wally Badarou, Arto Lindsay e pelo próprio Brown, o álbum mistura MPB, samba, funk, reggae, pop, rock, world music, eletrônica e, claro, uma percussão que parece vir de todo lugar ao mesmo tempo.
Uma produção que soa Bahia, mundo e futuro
A ficha técnica de Alfagamabetizado é um mapa de encontros: músicos baianos, metais poderosos, percussões múltiplas, vozes de vários sotaques, cordas e texturas eletrônicas convivem sem hierarquia. Às vezes parece bloco afro, às vezes trilha de filme sci-fi, às vezes balada pop-radiofônica –sempre com a assinatura rítmica de Brown.
O disco foi gravado em estúdios como WR Bahia e Nas Nuvens, mas também em espaços como a Concha Acústica de Salvador, onde violinos da Mauritânia conversam com surdos de escola de samba, enquanto o alfabeto grego é declamado sobre um chão percussivo.
É uma produção que já traz, em 1996, um afrofuturismo de sotaque baiano: ancestralidade, tecnologia, línguas diversas, camadas de som, ruído de cidade e reza de terreiro caminhando juntos.
Temas que atravessam 30 anos.
Ao longo das 16 faixas, Alfagamabetizado fala de: Cidade e desigualdade – o cotidiano duro, o corre, a feira enlameada, o ônibus cheio, o amor que resiste nos becos.
Ancestralidade negra e diáspora –Recôncavo, África, Candeal, santos, Ogum, capoeira, comunidades reais e imaginadas.
Afeto, desejo e relações complexas – amores tortos, cumplicidades secretas, namoros vigiados, solidões urbanas.
Espiritualidade e sincretismo –santos cobertos, festas de Ogun, benzedeiras, sonhos, bênçãos e dúvidas.
Linguagem e invenção –neologismos, trava-línguas, misturas de português, inglês e francês, um vocabulário próprio.
Capa de Alfagamabetizado com Foto de Mário Cravo Neto e Projeto Gráfico de Gringo Cardia | reprodução/divulgação
Ou seja: o disco fala de tudo aquilo que, ainda hoje, seguimos debatendo – raça, periferia, amor, espiritualidade, trabalho, juventude, violência, futuro. Só que embalado em canções que fazem o corpo querer dançar enquanto a cabeça pensa.
O apagamento de “Quixabeira” no digital
Um detalhe dói em quem ama esse álbum: nas plataformas digitais, a icônica gravação de “Quixabeira” muitas vezes não aparece – o que reduz o disco a 15 faixas, quando a edição original trazia 16.
“Quixabeira” é um canto de domínio público do Recôncavo baiano, resgatado e rearranjado por Brown, B. Von der Weid e Afonso Machado,
e registrado aqui em um encontro histórico com os Doces Bárbaros –Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso, reunidos novamente em coro de luxo.
Sem essa faixa, a experiência digital perde um dos grandes símbolos do disco: o diálogo entre tradição popular, memória dos anos 70 (Doces Bárbaros) e invenção de um Brasil negro, baiano e radicalmente contemporâneo.
Faixa a faixa – uma escuta 30 anos depois
As letras do encarte revelam o quanto Brown trabalha imagem, som e trocadilho como se fossem a mesma matéria-prima. Abaixo, um passeio faixa a faixa, olhando também para o que cada canção nos diz hoje.
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
1. Angel’s Robot List (Carlinhos Brown – part. Alexandra Teodoropoulou)
O disco começa com o alfabeto grego declamado em voz feminina, sobre um clima quase ritualístico. Não é só uma vinheta: é a ideia de que outra alfabetização está começando – uma linguagem da mistura, da travessia, da diáspora.
Trinta anos depois, essa abertura parece um anúncio do que viveríamos com a globalização da música brasileira: vozes, línguas e símbolos cruzados num mundo hiperconectado. Brown já estava lá, escrevendo uma “língua” sonora que não cabia em fronteiras.
2. Pandeiro-deiro (Carlinhos Brown)
Aqui, o instrumento vira personagem: o pandeiro, esticado, curtido, companheiro de feira, de ônibus, de terreiro. A letra mistura trava-línguas, imagens de mercado popular, chuva, lama, sacolas, filas, tudo girando em torno de quem toca e de quem dança.
Hoje, a música ecoa como um elogio ao trabalho informal e à cultura de rua que sustenta o Brasil – esse povo que “não desgarra do pandeiro” mesmo com a vida pesada. Em tempos de aplicativos e bicos, continua sendo um retrato vivo do corre diário.
3. Covered Saints (Carlinhos Brown)
Canção bilíngue, cheia de melancolia, que fala de um amor que talvez ainda more em alguém, mas de um jeito nebuloso. As imagens misturam “frases secas”, brisa suave, sonho, sono – e “santos cobertos”, como quem encara a fé em períodos de incerteza.
Hoje, essa faixa parece dialogar com a nossa espiritualidade urbana cansada, que tenta conciliar racionalidade, desejo, fé e desilusão. A mistura de inglês e português antecipa parte da estética pop globalizada que viraria padrão anos depois.
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
4. Cumplicidade de Armário (Carlinhos Brown)
Uma das letras mais fascinantes do disco. Brown fala de um amor guardado “em cumplicidade de armário”, misturando francês, imagens de imposto, direitos autorais, reino animal, tutano, antídoto. O amor aqui é força que cura, que resiste, que não se deixa capturar pelas regras.
A parte em inglês traz um eu lírico que denuncia sedução vazia, mentiras e a falta de responsabilidade afetiva – um tema absolutamente atual na discussão sobre relações tóxicas, ghosting e etc. Trinta anos depois, a música conversa com os debates sobre afetos mais éticos e cuidadosos.
5. Argila (Carlinhos Brown)
“Argila” é um poema sobre corpo, terra, despedida e permanência. Cidades e países se misturam (Uganda, Havana, Bahia, Luanda), enquanto alguém se pinta com lama de lagoa para suportar a dor. O amor é barro, é enfeite, é curva de estrada, é solidão que anda “de muda”.
Hoje, essa canção ressoa com discussões de identidade negra e diaspórica, de pertencimento múltiplo, de migração, de raízes espalhadas. O barro é metáfora de um corpo que se reinventa, que se suja, que se remodela para seguir vivendo.
6. Tour (Carlinhos Brown)
“Tour” brinca com a ideia de viagem afetiva. Tem cheiro de aeroporto, praia, saudade e promessa de felicidade. Brown fala dessa pessoa que faz “tour no pensamento”, aí o eu lírico vai na bagagem onde viaja o perfume dela.
Num mundo em que relações a distância, migrações e deslocamentos são cada vez mais comuns, a música segue atual: quem nunca carregou alguém na mala da memória, mesmo quando a geografia já se encarregou de separar?
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
7. Bog la Bag
(Carlinhos Brown / Celso Fonseca)
Com Celso Fonseca na composição, essa faixa é puro jogo fonético: “bog la bag”, “blá blá”, sílabas que parecem batuque verbal. A letra fala de mão deslizando na poça de leite, pão, boca, mel, corpo que sacode, balança. Sensualidade e humor se misturam.
Hoje, “Bog la Bag” continua interessante porque recusa explicação racional: é corpo antes de conceito, dança antes de tese. Num tempo tão mental e acelerado, é um lembrete da potência do nonsense e do prazer.
8. O Bode
(Alain Tavares / Carlinhos Brown)
Começa com brincadeira infantil, quase trava-línguas, falando de Chico e do bode, briga e reconciliação. Depois, a letra se abre para um discurso de quem “fala mudo”, busca sua vez, enfrenta a utopia e o absurdo.
Hoje, a faixa pode ser lida como metáfora do Brasil que apanha e reage, que vive em ciclo de conflitos e reconciliações, mas insiste em procurar “sua vez” no meio do caos político e social.
9. Comunidade-Lobos (Carlinhos Brown – instrumental)
Um respiro instrumental que pinta, em som, uma comunidade-realidade: percussões, camadas, ambientações que sugerem rua, mato, matilha, resistência coletiva. Sem palavras, Brown nos lembra que nem tudo que importa cabe em letra.
Trinta anos depois, “ComunidadeLobos” soa como trilha de muitas periferias e quilombos urbanos, onde a sobrevivência ainda se dá em bando, na base do apoio mútuo.
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
10. Frases Ventias (Carlinhos Brown)
Uma das letras mais bonitas do álbum: beijo que é cata-vento, saladas em “lavouras de agonia”, arroz em água escura, amor que mal dormia. A escrita junta cotidiano doméstico, cozinha, afeto e sofrimento em imagens delicadas.
Hoje, a canção fala muito com quem discute saúde mental e sobrecarga afetiva: como é que o amor aguenta, todo dia, a dureza da vida, as contas, o medo, o cansaço? Brown transforma isso em poesia ventando dentro da casa.
11. Quixabeira
(Domínio público – arranjo e adaptação: Carlinhos Brown, B. Von der Weid, Afonso Machado – part. Doces Bárbaros)
Aqui, o álbum encontra o Recôncavo de frente: um samba de roda tradicional, cheio de geografia (“Barreiras”, “Santo Amaro”), de viagem, de ninho que se desfaz, de saudade do carinho que ficou.
O arranjo com Doces Bárbaros é um abraço de gerações: o grupo mítico dos anos 70 se reaproxima através de um canto ancestral – e Brown faz a ponte entre passado, presente e futuro. Hoje, num mundo que discute patrimônio imaterial, memória e apagamentos, dói saber que justamente essa faixa às vezes não está disponível nas edições digitais. É como se um pedaço fundamental da história fosse silenciado nas playlists.
12. Seo Zé
(Carlinhos Brown / Marisa Monte / Nando Reis – part. Marisa Monte)
Parceria de peso: Brown, Marisa Monte e Nando Reis escrevem um retrato do Brasil em que a bandeira oficial (verde, anil, amarelo) não dá conta do todo; existem também outras cores, outros carvões, outros brasis invisíveis.
Seo Zé é esse sujeito anônimo, migrante, trabalhador, atravessado por Lampião, Brás Cubas, Judas e budas, quadrilha e baião – um Brasil mestiço, contraditório. É destes versos que nasce o título do álbum “Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão”, disco de 1994, da cantora e compositora Marisa Monte, um marco no cancioneiro brasileiro.
Nesta versão de Carlinhos Brown, Marisa faz uma participação luxuosa com vocais de sereia, como quem ajuda a conduzir o Seo Zé na história narrada
Trinta anos depois, a música continua sendo um comentário poderoso sobre povo brasileiro, desigualdade e identidade nacional, numa época em que as discussões sobre representatividade e projeto de país estão ainda mais urgentes.
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
13. Mares de Ti (Carlinhos Brown)
Balada que mergulha em mares de paixão e solidão. Tem caldo de cana, canal do Panamá, jeans, guitarras, lágrimas “grunge”: é amor em tempos globalizados, onde referências pop internacionais e realidade brasileira se misturam sem hierarquia. Hoje, “Mares de Ti” conversa com a experiência de amar em meio ao excesso de informação, de telas, de viagens e de desencontros. A solidão que “a vida nos fez” poderia tranquilamente ser tema de qualquer rede social em 2026.
14. Zanza (Carlinhos Brown)
“Zanza” é canção de deslocamento: noite, caminho deserto, folhas que entendem, abraço, afago, maré, rio azul, tupinambás. O verbo zanzar vira filosofia – é andar sem rumo fixo, mas com desejo de encontro.
30 anos depois, pode ser trilha para uma juventude que vaga entre empregos temporários, mudanças de cidade, identidades em trânsito, procurando um lugar de pertencimento sem perder a poesia.
15. A Namorada (Carlinhos Brown)
Foi o grande hit do disco, atravessando rádios, novelas, pistas de dança e até Hollywood entrou na trilha de Speed 2 (Velocidade Máxima 2) , levando Brown para o circuito pop global.
Mas, para além do refrão contagiante e da narrativa divertida de ciúmes adolescentes, “A Namorada” sempre traz um detalhe revolucionário que muita gente deixava escapar em 1996: a Namorada, na verdade… TEM Namorada.
Brown conta a história de uma jovem que desperta paixão, vigilância e fofoca no bairro mas que não está disponível para nenhum dos meninos da rua, porque seus afetos se dirigem a outra mulher. A letra, cheia de humor e esperteza, esconde essa revelação como quem semeia liberdade num terreno ainda conservador.
Ou seja: trinta anos antes de a pauta LGBTQIAPN+ ganhar mainstream e representatividade na música pop brasileira, Brown lançou um hit que naturaliza o amor entre duas mulheres sem tragédia, sem escândalo, sem moralismo.
É leve, bem-humorado, cotidiano, popular E por isso mesmo tão potente Hoje, “A Namorada” é lembrada não só como sucesso de rádio, mas como um marco de visibilidade lésbica na MPB, precursor de debates sobre liberdade afetiva, autonomia dos corpos e diversidade nas narrativas amorosas. Um hino, literalmente e afetivamente.
Carlinhos Brown | FOTO: Mário Cravo Neto / divulgação
16. Vanju Concessa (Carlinhos Brown)
Fecho perfeito: um cortejo afetivo pelo Candeal e arredores – Dona Brígida, Dona Bem, Dona Damiana, Festa de Ogum, cabaça, palha de dendê, capoeira de Angola, Narbal, areias brancas, jabuticaba, esmeralda. É crônica cantada de um território vivo, com suas lideranças, suas festas, seus rituais.
Em 2026, quando se fala tanto em território, memória comunitária e cidades mais justas, “Vanju Concessa” é quase um mapa afetivo. Lembra que por trás de qualquer grande artista existe um chão de vizinhos, tias, festas de rua e brincadeiras de infância.
Curiosidade de fã: o Brown Concessa Fã-Clube
Em 1998, dois anos depois do lançamento de Alfagamabetizado, eu e alguns amigos criamos um fã-clube para celebrar a carreira de Brown: o Brown Concessa Fã-Clube. A brincadeira virou ponte – ali conheci gente do Brasil inteiro apaixonada por música, e em pouco tempo o “ídolo” deixou de ser só capa de CD para virar encontro real, conversa, troca.
Talvez seja esse, no fim das contas, o maior legado de Alfagamabetizado: é um disco que junta mundos. Bahia e planeta, terreiro e estúdio high-tech, samba de roda e docinhos pop, fé e brincadeira, dor e esperança. Trinta anos depois, continuar ouvindo esse álbum é seguir aprendendo a ler o Brasil com outra gramática – percussiva, poética, amorosa e profundamente política.
Vale – muito – a pena ouvir de novo.
Contra capa do álbum – projeto gráfico Gringo Cardia | FOTO: Mário Cravo Neto / reprodução / divulgação
Carlinhos Brown | FOTO: divulgação
Arte,gestãodecarreiraerepertóriocomofundamentosparaquem escolhepermanecernotempoenãoapenasaparecer
Por Bia Ramsthaler | @biaramsthaler
Mayer, Paulo
e Fernanda Montenegro, são alguns exemplos de artistas brasileiros que logo entenderam a importância de se produzir | FOTOS: divulgação
A arte sempre foi atravessada por desejo, vocação e risco. Mas, se em algum momento foi possível acreditar que talento e entrega à cena bastariam para sustentar uma carreira, hoje essa lógica já não se sustenta sozinha. O artista das artes cênicas que atua no tempo presente — ator, atriz, encenador, performer ou criador híbrido é convocado a ocupar um lugar mais complexo: o de quem cria, pensa, produz, articula, comunica e gere a própria trajetória.
Durante décadas, o imaginário da carreira artística no Brasil esteve profundamente ligado à lógica da exposição midiática. A televisão aberta, especialmente por meio das novelas, funcionava como um grande eixo de consagração nacional.
Havia um centro, um fluxo dominante e alcançar esse espaço significava atravessar fronteiras simbólicas e territoriais. A fama era ampla, contínua e, de certa forma, homogênea. Sonhava-se com o rosto conhecido em todo o país, com a validação pública que vinha de um sistema concentrado e poderoso.
Esse mundo mudou e mudou radicalmente. Hoje, a visibilidade se constrói em nichos, bolhas, territórios fragmentados e profundamente mediados pelas redes sociais. A fama deixou de ser um fenômeno nacional contínuo para se tornar localizada, intermitente e, muitas vezes, efêmera. O reconhecimento pode ser intenso, mas restrito. Pode gerar alcance, mas não necessariamente sustentabilidade. E, sobretudo, exige gestão.
José
Betti, Lilia Cabral
Gerir uma carreira artística hoje significa lidar com múltiplas camadas: imagem, discurso, presença digital, circulação de trabalho, articulação institucional, sustentabilidade financeira e saúde emocional. A cena continua sendo o coração do fazer artístico, mas já não é suficiente. O artista que ignora as estruturas que sustentam o campo cultural torna-se dependente de convites, de intermediários, de oportunidades instáveis e de validações externas que nem sempre chegam.
Falar em permanência em cena é, portanto, falar de consciência Permanecer não é apenas continuar atuando, mas compreender o campo em que se atua. Conhecer os mecanismos da produção cultural, entender como se elabora um projeto, como se capta recurso, como se dialoga com políticas públicas, editais, leis de incentivo, patrocinadores, instituições e públicos diversos. Produzir não é um gesto menor. Elaborar um projeto é um ato de pensamento. Pensar o público não empobrece a obra; amplia sua potência de comunicação.
Essa compreensão não é nova, apenas se tornou mais visível. Muitos artistas que atravessaram décadas de trabalho consistente sempre atuaram também como produtores de si mesmos. José Mayer, Paulo Betti, Lilia Cabral e Fernanda Montenegro, entre outros, construíram trajetórias marcadas não apenas por grandes personagens, mas por escolhas conscientes, domínio do próprio percurso e profundo conhecimento do campo artístico em que atuam.
Mesmo quando dialogaram intensamente com a televisão especialmente em um período em que a TV aberta concentrava a atenção nacional nunca se limitaram a ela. Mantiveram vínculos sólidos com o teatro, com a formação continuada, com a leitura crítica do país e com a compreensão do fazer artístico como trabalho, estrutura e pensamento. Não dependeram exclusivamente da vitrine midiática para existir.
O que essas trajetórias revelam não é apenas talento. É repertório. Um repertório que se constrói no estudo, na escuta, na observação do mundo, na experiência acumulada e na capacidade de compreender a arte como linguagem, ofício e campo profissional. São artistas que entenderam, muito antes de isso se tornar pauta recorrente, que produzir também é um gesto de autonomia.
José Mayer, Paulo Betti, Lilia Cabral e Fernanda Montenegro
No presente, essa lógica se impõe com ainda mais força. O artista contemporâneo precisa ser um sujeito em constante formação não para se adequar, mas para escolher. Escolher onde investir energia, com quem construir, quais narrativas defender e quais modelos de trabalho recusar. A autonomia nasce do conhecimento que permite dizer “sim”, mas sobretudo dizer “não”.
A gestão de carreira, nesse sentido, não é um desvio da criação. É parte dela. Pensar estrategicamente não anula a sensibilidade, mas protege o gesto artístico. Planejar não engessa, mas viabiliza. Dialogar com o mercado não significa trair a arte, mas garantir que ela exista, circule e permaneça.
Talvez o maior desafio e a maior potência do nosso tempo seja compreender que a arte não perdeu importância.
Ela apenas mudou de lugar. E esse novo lugar exige artistas e produtores capazes de transitar entre a cena e o projeto, entre o pensamento estético e a realidade material do trabalho cultural.
Permanecer em cena, hoje, é um ato de responsabilidade consigo e com o próprio campo. É entender que quem não constrói repertório não sustenta discurso. Quem não conhece o território em que atua torna-se frágil. E quem não assume a gestão do próprio caminho corre o risco de confundir visibilidade com existência.
A cena continua pulsando. Mas ela pulsa com mais força quando sustentada por consciência, formação e autonomia. Porque, no fim, quem não tem repertório, não sobrevive e quem não se produz, não permanece.
José Mayer, Paulo Betti, Lilia Cabral e Fernanda Montenegro | FOTOS: divulgação