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Toponímia LX – SNU Abecassis

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S N U

A B E C A S S I S

EDITORA

1940-1980


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Nos últimos anos temos visto um renascer da atenção sobre a figura de Snu Abecassis. Filmes, reportagens, livros têm contribuído para revisitar a sua vida, e finalmente de uma forma que para nós é nova e refrescante: temos começado a ver Snu Abecassis, já não como subordinada a outra figura – já não como companheira ou mulher de –, mas simplesmente como Snu Abecassis.

ESTE DESVENDAR DA SUA VIDA TEM AJUDADO A MOSTRAR

A MULHER VERDADEIRAMENTE EXTRAORDINÁRIA QUE ELA FOI. Nascida na Dinamarca e tendo feito vida em cinco países diferentes, Snu Abecassis foi, de certa forma, alguém que cresceu na “vanguarda” da Europa e do Ocidente. A sua decisão de viver em Portugal – um país, na altura, um tanto exótico para os seus vizinhos europeus – não foi facilmente compreendida pela sua família, dividida entre as social-democratas Dinamarca e Suécia. Mas a verdade é que em Portugal e em Lisboa construiu, quase ex nihilo, uma vida que marcaria o país e que hoje se tornou uma inspiração. Ela marcou-nos ao trazer, de certa forma, o mundo para Lisboa. Ao abrir o mundo ao país da década de 1960. Fê-lo fundando, em conjunto com o seu marido, a editora Dom Quixote, um feito que tem de ser sublinhado como um marco na história editorial do país. Foi através da Dom Quixote que o grande poeta soviético Evgueni Evtuchenko visitou Portugal, num momento que abalou o regime e colocou Snu Abecasis na mira da polícia política. Foi a Dom Quixote de Snu Abecassis que deu a conhecer nomes da poesia como David Mourão-Ferreira, Natália Correia e Alexandre O’Neill, ou que catapultou a carreira ensaística de Eduardo Lourenço. Foi a Dom Quixote de Snu Abecassis que lançou o debate sobre temas fraturantes como a política ultramarina do regime, a guerra em África ou o uso da pílula.

◊ Snu nos EUA. Arquivo António Damasio

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◊ Snu na Feira do Livro, anos 60. Grupo Leya, direitos reservados

Em todas estas dimensões – na vida e carreira de alguns dos nossos maiores poetas e escritores, nos debates que eram então proibidos pelo regime, na introdução de obras estrangeiras num país fechado – Snu Abecassis demonstrou que, mesmo perante o perigo da ditadura, ela estava sempre do lado da liberdade. Foi, nesse aspeto, uma lufada de ar fresco; foi alguém que via a vida a cores num país que, em grande medida, ainda a preto e branco.

A cor que ela deu ao país deixou-nos ainda a sua derradeira marca: tornar-se num símbolo. Num símbolo de emancipação face a uma sociedade que não deixava de ser, de alguma forma, uma sociedade de costumes tacanhos; num símbolo de cultura num país que ainda precisava de fazer muito para combater o problema do analfabetismo; num símbolo de liberdade perante o peso das normas socialmente dominantes, de uma liberdade que viveu intensamente e que deu origem a uma das mais marcantes histórias amorosas do século XX. Hoje, Snu Abecassis não é apenas a mulher dessa história de amor terminada em tragédia; é ela própria a protagonista de uma história muito mais alargada, da história da sua vida – de uma vida que hoje admiramos tal como esta foi. É essa vida que celebramos agora nas ruas da nossa Lisboa. Carlos Moedas Presidente da Câmara Municipal de Lisboa 2026 4


uma estrangeira NUM PAÍS EM MUDANÇA

◊ Vida de Rua, Copenhaga, anos 40. Museu Københavns

RAÍZES e FORMAÇÃO Natural de Copenhaga, Dinamarca, Ebba Merete Seidenfaden nasceu a 7 de outubro de 1940. Filha dos jornalistas Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen (mais tarde conhecida por Jytte Bonnier), cresceu num ambiente familiar marcado pelo rigor intelectual, pela consciência cívica e por um profundo respeito pela liberdade de ◊ Snu com 3 anos. Arquivo de Família

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◊ Snu, 1959. Arquivo de Família


◊ Pai de Snu, Erik Seidenfaden

◊ Padrastro Tor Bonnier e mãe Jytte Bonnier

pensamento. Tratava-se de valores enraizados numa sociedade dinamarquesa reconstruida sobre princípios democráticos que viriam a moldar de forma decisiva a sua visão do mundo. Snu - nome pelo qual era carinhosamente tratada e que adotaria publicamente - estudou em diversos colégios internacionais, revelando desde cedo grande sensibilidade para as artes e para as humanidades. O interesse pelos livros, pela escrita e pela comunicação permaneceu ao longo da vida, tornando-se mais tarde fundamental quando encontrou, em Portugal, o terreno fértil onde pode concretizar os seus ideais de bem-estar social e desenvolvimento cultural. Defendeu sempre uma cultura livre, plural e democrática, valores que incarnou através do exemplo.

a chegada a PORTUGAL No início da década de 1960, Snu mudou-se para Portugal após casar com o engenheiro português Vasco Abecassis, cujo apelido adotaria. O casal teve três filhos, Mikaela, Ricardo e Rebecca. A transição de um país nórdico progressista para um país conservador, ainda sob um regime ditatorial, constituiu um choque cultural significativo. Contudo, despertou nela um profundo sentido de missão: contribuir, através da ação cultural, para o despertar das consciências e para a valorização do diálogo crítico numa sociedade que ansiava por mudança. ◊ Snu, dia do casamento, 1961. Arquivo de Família.

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◊ Snu na Feira do Livro, anos 60. Grupo Leya, direitos reservados

◊ 3 dos primeiros lançamentos da editora Dom Quixote

Fundação da EDITORA DOM QUIXOTE ◊ Grupo Publicações Dom Quixote, anos 70.

G


xote

70.

◊ Estacionário da editora em 1978

Em 1965, com apenas 25 anos, Snu Abecassis fundou com o marido a Editora Dom Quixote, inspirada na figura romântica e idealista do herói de Cervantes. A escolha do nome refletia um projeto ousado, inconformado e intelectualmente desafiante. A Dom Quixote viria a tornar‑se uma das editoras mais influentes do século XX em Portugal, assumindo desde o início uma linha editorial moderna, independente e muitas vezes em desacordo com os padrões morais e políticos da época. Dotada de um notável talento para identificar autores e obras marcantes, e demonstrando uma coragem invulgar perante a censura, Snu publicou alguns dos mais importantes escritores portugueses do século XX, entre os quais: José Saramago1, Natália Correia2, Má3 rio Soares , José Cardoso Pires4, Sophia de Mello Breyner Andre6 sen5, Vergílio Ferreira , entre muitos outros nomes que ajudaram a transformar o panorama literário nacional e a expandir a cultura portuguesa além-fronteiras. Numa época marcada pelo escrutínio e pela repressão, a Dom Quixote assumiu-se como um polo de resistência cultural, dando a conhecer autores internacionais considerados proibidos e apostando na tradução de obras fundamentais da literatura contemporânea, entre os quais Sartre, Marcuse, Simone de Beauvoir e Garcia Marquez.

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Largo José Saramago - Edital de 18/12/2018, Freguesia de Santa Maria Maior

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Rua Natália Correia – Edital de 23/07/1993, Freguesia de São Vicente

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Jardim Mário Soares – Edital de 21/05/2018, Freguesia de Alvalade

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Rua José Cardoso Pires – Edital de 18/11/2003, Freguesia do Lumiar

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Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen – Edital de 13/11/2008, Freguesia de São Vicente

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Avenida Vergílio Ferreira – Edital de 24/09/1996, Freguesia de Marvila

Grupo Leya, direitos reservados

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UMA MULHER À FREN TE D O SEU TE MP O A forma de estar de Snu Abecassis contrastava com a imagem tradicional da mulher portuguesa dos anos 1960 e 1970. Independente e cosmopolita, demonstrava uma grande sensibilidade sobre os problemas sociais e culturais, rompendo com estereótipos num meio dominado por lideranças masculinas. Como empresária, articulou visão artística com pragmatismo, consolidando a D. Quixote como uma editora de referência. Era conhecida pela exigência na leitura de manuscritos e pela relação próxima que estabelecia com os autores, tratando cada livro como um projeto pessoal.

◊ Arquivo de Família

◊ Snu Abecassis no stand da Dom Quixote na Feira do Livro de Frankfurt, anos 70. 10

Arquivo de família


◊ Entrevista em 1976

◊ Arquivo de Família, 1974

O seu escritório tornou-se um ponto de encontro privilegiado de escritores, jornalistas e personalidades das artes - um espaço de debate e liberdade num país em que tal ainda era mal visto. Por isso, a Revolução de Abril representou para Snu a realização de um sonho: ver Portugal abrir-se à democracia e à pluralidade cultural pelo qual tanto lutara. Com a revolução, Portugal tornou-se outro país que, de um momento para o outro, abriu as portas para o mundo […] Antes de 1974, a Snu poderia ser uma benfeitora, mas, depois dessa data, ela era em primeiro lugar uma cidadã. (Bonnier, 2003, p. 89)

◊ Snu Abecassis na Reunião de editores e livreiros em Lisboa, a 5 de maio de 1974. Arquivos RTP

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A R E L AÇÃO COM SÁ CARNEIRO E OS ÚLTIMOS ANOS

No final da década de 70, Snu Abecassis iniciou uma relação afetiva com Francisco Sá Carneiro1, figura política em ascensão na jovem democracia portuguesa. A relação entre ambos, marcada por grande cumplicidade e partilha de ideais de ética, liberdade e modernização, tornou-se rapidamente alvo de grande atenção mediática e de pressões sociais e políticas.

A 4 de dezembro de 1980, quando Snu consolidava o trabalho na D. Quixote e acompanhava de perto a evolução política do país ao lado de Sá Carneiro, ambos perdem a vida num acidente aéreo em Camarate, quando se dirigiam ao Porto. Snu tinha apenas 40 anos. A sua morte prematura provocou um profundo sentimento de perda no meio cultural e intelectual português.

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Praça Francisco Sá Carneiro - Edital de 05/04/1982, Freguesia do Areeiro


◊ Snu Abecassis, com Maria José Freitas do Amaral, na comemoração da vitoria da AD em 1980, Hotel Altis. Arquivo da Família

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LEGADO E INFLUÊNCIA NA ATIVIDADE EDITORIAL A influência de Snu Abecassis prolongou-se muito para além da sua morte. A D. Quixote manteve a linha editorial que ela definiu – liberdade criativa, rigor intelectual e compromisso democrático - continuando a publicar grandes autores nacionais e estrangeiros. O seu percurso e personalidade tornaram-se inspiração para outras editoras e profissionais do setor, que viram em Snu um exemplo de coragem, modernidade e visão cultural.

Após o seu desaparecimento, continuou a ser homenageada em livros, documentários e filmes que enaltecem o seu papel pioneiro e transformador na renovação editorial do país que um dia escolheu para viver.

◊ Livro “Snu”, escrito pela mãe Jytte Bonnier

◊ Os cadeirões de Snu. Livraria Buchholz.

Fotografia Humberto Mouco, Agenda Cultural de Lisboa. CML ◊ No local onde a tragédia ocorreu, é possivel ver um memorial de homenagem às vidas perdidas naquele dia Camarate, Bairro das Fontainhas 14


◊ Arquivo de Família

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◊ Snu nos EUA, em 61. Grupo Leya, direitos reservados


Estrangeira num país em transformação, Snu Abecassis permanece como uma figura de referência, lembrada entre as mais marcantes personalidades da cultura portuguesa contemporânea. Uma mulher que rompeu estereótipos e que acreditou no poder transformador dos livros, fez da edição um instrumento de intervenção cívica e política. Hoje, constitui um legado que importa preservar, cabendo à edilidade lisboeta perpetuar a sua memória coletiva ao atribuir o seu nome a uma artéria da Freguesia do Lumiar.

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BIBLIOGRAFIA Bonnier, J. (2003). Snu (2.ª ed.). Quetzal Editores Semblanza de SNU ABECASSIS - repositorioaberto.uab. pt/bitstreams/837fb6e0-fb9e-4ad3-817d-b916f92a6a13/ download (Consultado em 7 de Outubro de 2025) A vida privada de Snu tinha o fogo da paixão | PÚBLICO (Consultado em 7 de Outubro de 2025) “Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro”, de Cândida Pinto, reeditado no dia em que a editora faria 85 anos (Consultado em 7 de Outubro de 2025) Chama-se Ebba, aprendeu português sozinha e levou um comunista russo a Fátima. Histórias sobre Snu - Nacional - MAGG (Consultado em 7 de Outubro de 2025) Snu Abecassis – RTP Arquivos (Consultado em 7 de Outubro de 2025) Biografia de Snu Abecassis editada pela primeira vez em Portugal | PÚBLICO (Consultado em 7 de Outubro de 2025) Snu Abecassis [editora] (Copenhague, 1940 – Lisboa, 1980) [Semblanza] / (Consultado em 7 de Outubro de 2025) Como Snu Abecassis fundou uma editora e desafiou o regime - Vida - SÁBADO (Consultado em 7 de Outubro de 2025)

◊ Snu e os seus filhos. Anos 70 Arquivo de Família


FICHA TÉCNICA

EDIÇÃO_

Câmara Municipal de Lisboa PRESIDENTE _

Carlos Moedas PRESIDENTE DA COMISSÃO MUNICIPAL DE TOPONÍMIA _

Diogo Moura

DIREÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA_

Laurentina Pereira

DEPARTAMENTO DO PATRIMÓNIO CULTURAL_

Jorge Ramos de Carvalho

TÍTULO_

Snu Abecassis

COORDENAÇÃO_

António Adriano Jorge Luís Ana Filipa Leite

TEXTOS_ DESIGN_

TIRAGEM_

DEPÓSITO LEGAL_

EXECUÇÃO GRÁFICA_

200

566595/26

IMPRENSA MUNICIPAL DE LISBOA

Agradecimento à família Abecassis e ao Grupo Leya pela colaboração e pela cedência de imagens, sem as quais não teria sido possível a ilustração da presente edição biográfica.

toponimia@cm-lisboa.pt revelar.lisboa.pt/explorar/toponimia | facebook.com/toponimiadeLisboa

2026


JULHO 2026


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