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Toponímia LX – João Lobo Antunes

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LISBOA PRESTA HOJE HOMENAGEM A UM DOS MAIS NOTÁVEIS CIENTISTAS E HUMANISTAS DO NOSSO TEMPO.

Ao atribuir o nome de João Lobo Antunes a uma rua da cidade, inscrevemos no seu território um legado de excelência científica, de ética profissional e de compromisso com o serviço público, cuja importância ultrapassa em muito o domínio da medicina.

Nascido em Lisboa, em 1944, João Lobo Antunes viveu intensamente esta cidade: aqui nasceu, aqui estudou, aqui formou gerações de médicos, e aqui dedicou a sua vida a cuidar, a investigar e a pensar o lugar da ciência na sociedade. Formou-se em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, e cedo partiu para os Estados Unidos, onde se especializou em neurocirurgia na Universidade de Columbia. Regressaria anos depois a Portugal, trazendo consigo não apenas o domínio técnico de uma disciplina exigente, mas uma visão moderna, internacional e profundamente humana da prática médica.

Ao longo da sua carreira, João Lobo Antunes distinguiu-se como clínico, investigador, professor e pensador. No Hospital de Santa Maria, onde chefiou o serviço de neurocirurgia, fundou uma escola de referência, marcada por exigência, rigor e inovação. Introduziu técnicas pioneiras, promoveu a formação contínua e fez da excelência clínica uma prioridade. Mas, mais do que isso, criou uma cultura médica baseada no respeito pelo doente, na dignidade da profissão e na humildade perante o conhecimento.

A sua atividade académica foi igualmente notável. Como professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, influenciou profundamente o ensino da medicina em Portugal, promovendo uma formação que não separava o saber científico da ética humanista. Escreveu com clareza, ensinou com generosidade, orientou com exigência e escutou com atenção. Em todas as suas atividades, soube sempre mostrar que, na medicina, a técnica sem empatia é insuficiente, e o saber sem ética é perigoso.

Lisboa beneficiou diretamente da sua ação. Foi aqui que dirigiu instituições, aqui que formou gerações de médicos e investigadores, e aqui que participou ativamente no debate público sobre ciência, saúde e ética. Presidiu ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, colaborou com múltiplas instituições científicas e culturais, e integrou o Conselho de Estado, levando à esfera política e institucional a sua voz ponderada, independente e esclarecida.

Mas João Lobo Antunes foi também um pensador público de exceção. Nos seus ensaios, livros e intervenções, soube articular ciência e cultura, medicina e filosofia, razão e emoção. Escreveu sobre a vida e sobre a morte, sobre o cérebro e sobre a consciência, sobre os limites da técnica e a necessidade de compaixão. A sua escrita — clara, serena e profunda — conquistou um vasto público e mostrou que o cientista pode ser também um grande humanista.

Ao homenagearmos João Lobo Antunes, celebramos não apenas o neurocirurgião de renome internacional, mas o cidadão que soube colocar o saber ao serviço do bem comum. Celebramos o académico brilhante, o clínico generoso, o pensador lúcido. E celebramos um lisboeta que nunca deixou de valorizar a cidade que o viu nascer, crescer e trabalhar, contribuindo decisivamente para o seu prestígio científico e cultural.

A Rua João Lobo Antunes é, a partir de hoje, mais do que um nome no mapa: é uma memória viva, um sinal de reconhecimento e um convite à reflexão. Que esta rua inspire os que por ela passam a cultivar o rigor, a curiosidade e o compromisso ético. Que recorde a importância da ciência ao serviço da humanidade. E que mantenha presente, na paisagem de Lisboa, o exemplo de alguém que fez da sua vida um ato contínuo de serviço, de sabedoria e de humanidade.

Carlos Moedas Presidente da Câmara Municipal de Lisboa 2025

◊ João Lobo Antunes, New York. Final anos 70/início aos 80. Fotografia do Departamento de Neurocirurgia do Columbia University Medical Center.

Na véspera da minha partida para Nova Iorque despedi-me de Lisboa que inesperadamente se iluminara de um sol radioso. No meu Fiat 600, deambulei pela Baixa pombalina, subi aos vértices do triângulo que domina a cidade: o Castelo, o Largo de São Pedro de Alcântara e o cimo do Parque Eduardo VII. Enchi-me de Lisboa, como ávida esponja, ou como um dromedário que bebe litros de água porque suspeita que a viagem será longa. A verdade é que nunca mais olhei Lisboa com um olhar tão profundo, e a apertei num abraço tão cerrado e amplo como nessa tarde.

(JLA, Um Neurocirurgião Em Construção, p. 160)

◊ Maria Margarida Machado de Almeida Lima com os seus 4 filhos mais velhos. João Lobo Antunes à esquerda em baixo. Início dos anos 50. Arquivo da família.

João Lobo Antunes, médico, cientista e intelectual, é considerado um dos grandes nomes da medicina e da cultura portuguesa e um notável investigador da neurocirurgia a nível mundial. Nascido em Lisboa, a 4 de junho de 1944, numa família de médicos («em nossa casa respirava-se medicina» JLA, um neurocirurgião em construção, p. 61), é o segundo de seis filhos de João Alfredo Lobo Antunes e Maria Margarida Machado de Almeida Lima. Cresceu na freguesia de Benfica, em Lisboa e desde a infância, em toda a família, entreteceram-se a literatura e a medicina.

◊ João Lobo Antunes com Maria João, Paula e Margarida (filhas do primeiro casamento com Ana Maria Plantier Couvreur de Oliveira). Fotografia cedida pela família.

◊ João Lobo Antunes com Paula, Margarida e Madalena (filha do casamento com Maria do Espírito Santo Silva Salgado). 2015 Fotografia Revista LUX

Foi o seu pai, neurologista, que, tal como o seu tio Pedro de Almeida Lima, foi colaborador de Egas Moniz e também professor de Medicina, quem mais o encaminhou na profissão.

◊ João Alfredo Lobo Antunes e António Egas Moniz. 1941-46.

«Não há dúvida que teve importância, o meu pai. De seis filhos rapazes, três foram para Medicina, três para a área das neurociências. Vivia-se o cérebro naquela casa. (…) Por outro lado, desapontava-me a ineficácia, a impotência terapêutica da neurologia. Isto há 50 anos. O diagnóstico era elegante, mas havia pouca coisa a fazer para ajudar os doentes. O braço armado da neurologia era a neurocirurgia e foi o que fiz.»

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Dois dos seus irmãos seguiram o mesmo ramo, o escritor António Lobo Antunes, psiquiatra, e Nuno Lobo Antunes, neurologista pediátrico, que também escreve.

◊ João Lobo Antunes em família.

Tem 4 filhas: Margarida, Maria João, Paula e Madalena.

ESTUDO e FORMAÇÃO

«A aprendizagem do ofício, o cumprimento durante toda a vida dos hábitos de um bom aluno, terão contribuído para fazer de mim um razoável professor ou, melhor dito, um professor feliz.»

(JLA, Um Neurocirurgião Em Construção, pg. 9)

Aluno de quadro de honra, era capaz de estudar horas a fio, metodicamente, e tinha pouca disponibilidade para abandonar o trabalho e sair para a paródia com amigos.

«Tinha um sentido da obrigação e do dever tão precocemente encastoado no espírito que nunca achei que os sucessos que colhi ao longo da vida tivessem particular mérito».

(JLA, Um Neurocirurgião Em Construção, pg. 75)

◊ Programa Juvenil da RTP. Maria Cabral, Júlio Isidro, João Lobo Antunes e Luís Laureano Santos. RTP, anos 60

A partir de 1954 estudou no Liceu Camões, em Lisboa. No dia da matrícula na Universidade, saiu de casa com a intenção de se matricular no Técnico, convicto que iria ser engenheiro, mas por uma epifania que compara à queda de São Paulo na estrada de Damasco, acabaria por se inscrever na Faculdade de Medicina, no Hospital de Santa Maria (p. 101), onde entrou em outubro de 1961 (p. 107). Durante seis anos, até ao 5º ano da licenciatura, trabalhou na RTP apresentando um programa todos os sábados, em direto e em horário nobre, apurando a responsabilidade e o autocontrolo, a capacidade de improviso quando algo não corria bem, o sentido do trabalho e o sacrifício do seu tempo livre, que passou a ser apenas o Domingo (p. 97).

O seu estudo era rigorosamente programado, procurando sempre oportunidades de aprendizagem voluntária além do currículo formal (p. 105) e os verões de 1962 a 1967 passou-os a estudar em casa, na companhia do pai, enquanto o resto da família passava as férias na Praia das Maçãs (p.103). Pouco depois de entrar na Faculdade, em março de 1962, rebentou a crise académica e a revolta dos alunos que contribuiu para moldar o seu modelo de intervenção cívica (p.110). Acabou a licenciatura em Medicina pela Universidade de Lisboa, em outubro de 1968, com a mais alta classificação da história da escola (p. 102). Quando terminou o curso fez o internato no serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria e trabalhou como voluntário no Hospital Júlio de Matos, onde desenvolveu autonomia técnica, sentido de responsabilidade , tendo acumulado uma experiência pouco comum para o seu nível de formação. Fazia ainda consultas de neurologia na Associação de Empregados do Comércio de Lisboa e de clínica geral na Casa de Saúde da

◊ Hospital Santa Maria. Artur Pastor. 1974. AML

Idanha, hospital psiquiátrico em Belas onde também trabalhara o seu tio Pedro de Almeida Lima e o seu pai (p. 150). Em outubro de 1970 foi nomeado Assistente Eventual da Cadeira de Neurologia, lugar que ocupou apenas até março de 1971, quando, a convite de Melvin D. Yahr, pioneiro no tratamento da doença de Parkinson, foi para os Estados Unidos (p. 147), onde se especializou com uma bolsa da Fundação Fulbright e foi mais tarde também bolseiro da Fundação Matheson.

«No Instituto Neurológico de Nova Iorque, onde me formei, era fundamental a ideia de que o cérebro é um órgão sagrado, onde se deve tocar com rigor e especial delicadeza. Havia o princípio de técnica cirúrgica, tentar tirar um tumor sem tocar no cérebro. Nem sempre é possível, mas é o desejável. Essa foi a doutrina que aprendi. Um dia um dos meus mestres, falando de cirurgias e de técnicas, disse-me que alguém era um cirurgião porco, porque acabava as operações com a bata suja de sangue, limpava as mãos nela. A partir daí, percebi que o ideal era sair da cirurgia com a bata imaculada, sem uma mancha…»

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Em Nova Iorque permaneceu entre 1971 e 1984, no Departamento de Neurocirurgia do New York Neurological Institute, Columbia Presbyterian Medical Center, pertencente à Universidade de Columbia, tendo desenvolvido tanto atividade clínica como de investigação, em áreas tão diversas como tumores da glândula hipofisária, malformações congénitas do cérebro e da medula espinal, abordagens operatórias a tumores profundos, tumores da medula, tumores cerebrais pediátricos, aneurismas e

Lobo Antunes com Joseph Edwards Moser - paciente que operou em New York. 1983

◊ João Lobo Antunes, New York. Final anos 70/início aos 80.

◊ Boletim da Universidade Columbia “The Faculty of Medicine. College of Phisicians & Surgeons” e o nome de João Lobo Antunes como professor associado no Hospital Presbyterian. (p. 73) Departmento de Neurocirurgia do Columbia University Medical Center.

outros. Integrou um estudo sobre a definição de morte cerebral, um conceito de enorme importância para a medicina no último quartel do século XX.

Em 1980 foi nomeado Professor Associado de Neurocirurgia.

«Creio que muitos conhecem o ofício de neurocirurgião, quando mais não seja pelas séries televisivas que tanto o exaltam. [...]. a neurocirurgia e a cirurgia cardíaca disputam palmo a palmo o prestígio e o reconhecimento mediático, e ambas têm uma aura milagreira. No Neurological Institute de Nova Iorque onde me treinei, ouvi um dia dizer que a diferença entre Deus e o neurocirurgião é que Deus sabe que não é neurocirurgião. Acredita se, com exagerada benevolência, que os praticantes da minha especialidade são possuidores de um carisma especial, algo que parece intrínseco à sua natureza. Carisma significa dádiva dos deuses, e é verdade que este atributo é exigido por quem nos procura, como se possuíssemos uma bênção ou uma benesse adicional — mãos de ouro, mãos benditas, ouvi muitas vezes.»

(JLA, Um Neurocirurgião Em Construção, p. 7)

Em março desse ano deu-se a separação da mulher, que regressou a Portugal com as filhas. Encontrou-se então sozinho em Nova Iorque e a distância das filhas, bem como um certo cansaço em relação ao tipo de prática que exercia, motivou-o a obter um grau académico em Portugal, para facilitar a sua integração.

Doutorou-se assim em Medicina, pela Universidade de Lisboa, em 1983 e, um ano mais tarde, regressou a Portugal, chegando a Professor Catedrático de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

«Ao contrário do que encontrei em Portugal quando voltei, a cultura ética e profissional no NI [Neurological Institute] favorecia o conceito de que éramos pessoalmente responsáveis pelo que sucedia aos nossos doentes (…). Um dos primeiros (e inesperados) choques que recebi quando regressei ao meu país foi a quase total indiferença em relação a este tipo de responsabilidade.»

(JLA, Um Neurocirurgião Em Construção, p. 217)

Dedicou a sua carreira principalmente ao estudo do hipotálamo e da hipófise e também participou num estudo que lhe permitiu implantar com sucesso próteses visuais de carácter permanente em voluntários cegos. Atribui o seu sucesso a uma «total dedicação ao trabalho e a um programa muito austero ao serviço das pessoas e das ideias».

«Toda a vida pensei muito sobre um sentimento que o cirurgião guarda para si, e sobre o qual raramente fala: o medo. (…) Desde sempre, nas intervenções mais arriscadas, acordava mais cedo e até entrar para a sala parecia estar num estado de constrição, como que apertado por um colete. Isto, curiosamente, desaparecia quando começava a desinfectar-me e vestia os paramentos cirúrgicos. O medo transformava-se então numa forma diferente de energia, que parecia impulsionar-me para dar o salto.»

(JLA, Um Neurocirurgião Em Construção, p. 214-215)

Sempre deu importância à reflexão sobre o ser humano no seu contexto mais frágil e à nobre missão dos médicos de o poder cuidar em todas as dimensões do sofrimento. Em relação à sua prática clínica, criou o termo “compaixão ontológica”.

◊ Jubilação do Professor João Lobo Antunes a 3 de Junho de 2014. Univerisade de Lisboa.

◊ João Lobo Antunes durante uma cirurgia de mapeamento do cérebro no Hospital CUF Infante Santo. Março de 2015. Revista + Vida

«Isto é, a compaixão que emerge da raiz do ser que nós somos. Fui apurando-a com a idade: um aperfeiçoar do olhar, do ouvir. Foi uma surpresa, porque achava que o tempo me ia tornar empedernido. (…) Foi um consolo perceber que não era assim. Quando comecei a ter mais tempo para estar com cada um que me procurava, criei quase um prazer, como aquele que temos quando ficamos sentados à mesa, com os amigos, depois do jantar, do café. A consulta tornou-se uma conversa em que tentava ouvir, perceber melhor quem estava à minha frente.»

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Em 1990 foi nomeado vice-presidente para a Europa da Federação Mundial das Sociedades de Neurocirurgia, tornando-se depois Presidente da Sociedade Europeia de Neurocirurgia entre 1999 e 2003. Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Medicina de Lisboa entre 1996 e 2003, presidiu à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa entre 2000 e 2002, tendo sido professor convidado da Universidade de Pequim em 2001. Em 2006 assumiu a presidência da Academia Portuguesa de Medicina, tendo ao longo dos anos presidido às Comissões de Ética do Hospital CUF, do Hospital de Santa Maria, da Faculdade de Medicina de Lisboa, do Centro Académico de Medicina e da Fundação Champalimaud. Membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida entre 2004 e 2009, assumiu em 2015 e até à data da sua morte a presidência deste órgão plural, consultivo e independente cuja missão é analisar os problemas éticos suscitados pelos progressos científicos nos domínios da biologia, da medicina ou da saúde e das ciências da vida.

◊ João Lobo Antunes na Corrida Saúde + Solidária, na equipa BTT. Maio de 2016

Além de clínico e investigador, João Lobo Antunes foi também professor catedrático na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa até junho de 2014, altura em que se jubilou com uma última aula que intitulou de “Uma vida examinada”. O auditório Egas Moniz, da Faculdade de Medicina encheu-se para a despedida de 30 anos de ensino, que foram também 30 anos de Serviço Nacional de Saúde (SNS) e de Hospital de Santa Maria, onde era diretor do serviço de neurocirurgia.

«Ele era aquele em quem a formação científica não apagava nunca uma imensa sensibilidade à doçura e ao envolvimento das palavras. Cultivando o rigor, numa espécie de permanente dieta de austeridade e disciplina, o João já deixava transparecer o profundo amor pela linguagem»

(Eduardo Prado Coelho em artigo publicado no jornal Público em 2002, transcrito no livro Um neurocirurgião em construção, p.84)

O AUTOR LITERÁRIO

A literatura acompanhou-o desde a infância e ao longo da vida cultivou a paixão pela escrita, manifestada sobretudo em coletâneas de ensaios como “Um Modo de Ser” (1996), a que se seguiram “Numa Cidade Feliz” (1999), “Memória de Nova Iorque” (2002), “Sobre a Mão e outros ensaios” (2005), “Inquietação Interminável” (2010) e “Ouvir com outros Olhos” (2015).

«Até com palavras que nos parecem insignificantes, podemos construir uma filosofia, um poema. Sempre senti esse encanto da palavra. Quem não estudou pelos livros, nem sabe o que perdeu. E quem não aprecia as palavras também não.»

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O filósofo Fernando Gil, que citava frequentemente, foi uma referência muito importante ao nível cultural e intelectual. Uma outra referência é George Steiner, cuja obra conhecia profundamente.

«De alguma maneira, foram os meus maîtres à penser, pessoas que me ensinaram a pensar.»

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Nos seus livros reúne textos em que além da medicina e da literatura reflete sobre as humanidades, a universidade, a ética, o estado social e Portugal. O resultado é pôr-nos a pensar, interpelando-nos a olhar o mundo com todos os sentidos.

Escreveu ainda a biografia de Egas Moniz (2010), o Nobel português da Medicina, entre outras obras e centena e meia de artigos científicos. Deixou-nos também as suas memórias, “Um Neurocirurgião Em Construção”, que acabaram por ser lançadas em abril de 2019, mais de dois anos após a sua morte. Editadas pela Gradiva, são, nas palavras do seu editor e amigo Guilherme Valente «umas últimas memórias repassadas pela grande mensagem de toda a obra e vida de João Lobo Antunes: o exemplo e o elogio de uma ética do trabalho, de autoexigência».

◊ “Egas Moniz. Uma Biografia”. A primeira biografia sobre esta figura incontornável da História da medicina em Portugal. Gradiva, 2010.

PARA ALÉM DA MEDICINA

Depois do regresso a Portugal, em 1984, após um período de reflexão crítica e como testemunho de devoção à sua terra, começou a intervir, começou a intervir, na escola e em várias organizações, onde assumiu uma série de incumbências, tendo tido uma presença política e pública, mas mantendo sempre a sua independência.

◊ João Lobo Antunes, 2015

«O que fundamentalmente me preocupa são as questões da equidade, do acesso, e da reflexão que é preciso fazer e que as pessoas tendem a ignorar, porque não lhes convém olhar de frente os problemas. (…) Do ponto de vista ético, há muitas causas fraturantes, em que toda a gente acha que sabe e tem uma opinião segura e fundamentada, quando a maior parte das vezes é ignorante. A eutanásia, só para dar um exemplo. As pessoas não sabem nada o que representa, sobretudo na mudança quase radical no paradigma da prática médica e do entendimento da função do médico. É preciso chamar a sociedade a refletir e discutir todas estas questões. A decisão não pode ser entregue apenas a um grupo, seja ele qual for, de políticos, de governantes, da indústria ou da academia. Tem que ser um compromisso nacional. Há todo um processo a fazer de educação da sociedade portuguesa, para criar alguma literacia ética nestas matérias delicadas.»

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Foi mandatário nacional das candidaturas à Presidência da República do Dr. Jorge Sampaio em 1996, e do Prof. Cavaco Silva dez anos mais tarde, ambas vencedoras. A partir de 2006 fez parte do Conselho de Estado, nomeado pelo Presidente da República Prof. Cavaco Silva.

Na fase final da sua carreira académica, teve também um papel importante na Universidade de Lisboa empenhando-se na fusão de duas grandes universidades (a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa) no que considerou um processo exemplar para o país, porque, entre duas universidades tão distintas, foi necessário fundir boas vontades e encontrar compromissos e consensos, usando uma análise crítica, independente, mas orientada para o que deve ser o interesse público, dos cidadãos, do país.

A excelência e mérito do seu trabalho levaram-no a ser distinguido ao longo dos anos com vários prémios e condecorações. João Lobo Antunes recebeu inúmeros prémios na área da medicina e da ciência, como o Prémio Pfizer logo em 1969 distinguindo a sua tese de investigação elaborada durante o estágio final da licenciatura (p. 127); o Prémio Sandoz em 1970, o Neurobionik Award – Hannover em 2004, a Medalha de Honra da European Association of Neurosurgical Societies em 2007 ou a Medalha de Mérito Científico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior em 2016. Em 1996 recebeu o Prémio Pessoa, atribuído anualmente a pessoas de nacionalidade portuguesa que se tenham distinguido como protagonistas na vida científica, artística ou literária.

◊ João Lobo Antunes com Aníbal Cavaco Silva aquando da condecoração Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 2014, e com Marcelo Rebelo de Sousa na receção da Grã-Cruz da Ordem da Liberdade em 2016.

João Lobo Antunes foi ainda condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique em 2004, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 2014 por ocasião da sua última aula “Uma vida examinada” e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade em 2016. Em 2003 recebera a Medalha de Mérito de Ouro do Ministério da Saúde e em 2015 o Prémio Nacional de Saúde da Direção Geral de Saúde, destacando o seu contributo para o prestígio internacional do sistema de saúde nacional.

Após a sua morte, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa lançou o Prémio João Lobo Antunes, no valor de quarenta mil euros, atribuído anualmente a licenciados em medicina em regime de internato médico que visa estimular a cultura científica e a investigação clínica na área das neurociências, sem esquecer o princípio de João Lobo Antunes relativo à humanização do ato médico e em reconhecimento da excelência e do humanismo do neurocirurgião e cientista, considerado uma das figuras mais marcantes da saúde, da ciência e da investigação biomédica em Portugal.

João Lobo Antunes faleceu aos 72 anos, a 27 de outubro de 2016.

O legado João Lobo Antunes é perpetuado nas diversas áreas de atuação que teve, como tal, e considerando toda a excelência do seu percurso de vida, tanto pessoal como profissional, a Câmara Municipal de Lisboa escolhe homenageá-lo atribuindo o seu nome a uma rua na Freguesia do Lumiar, preservando assim a sua memória na toponímia da cidade.

BIBLIOGRAFIA

_ANTUNES, João Lobo, Um neurocirurgião em construção. Lisboa, Gradiva, 2019.

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◊ João Lobo Antunes e Maria do Céu Machado nos 25 anos do IPATIMUP, 2014. Arquivo de Família.

FICHA TÉCNICA

EDIÇÃO_ Câmara Municipal de Lisboa

PRESIDENTE _ Carlos Moedas

PRESIDENTE DA COMISSÃO MUNICIPAL DE TOPONÍMIA _ Diogo Moura

DIREÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA_ Laurentina Pereira

DEPARTAMENTO DO PATRIMÓNIO CULTURAL_ Jorge Ramos de Carvalho

TÍTULO_ João Lobo Antunes

COORDENAÇÃO_ António Adriano Isabel Corda

TEXTOS_ Filipa Ferreira

DESIGN_ Ana Filipa Leite

TIRAGEM_ 200

DEPÓSITO LEGAL_ 552056/25

EXECUÇÃO GRÁFICA_ IMPRENSA MUNICIPAL DE LISBOA

A Câmara Municipal de Lisboa estende um especial agradecimento à viúva, Prof Maria do Céu Machado, a proponente do nome do marido para uma rua de Lisboa. E ainda à família pela colaboração, na cedência e partilha de imagens e informação, sem as quais não teria sido possível a ilustração da presente edição biográfica.

toponimia@cm-lisboa.pt revelar.lisboa.pt/explorar/toponimia | facebook.com/toponimiadeLisboa

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