BAILARINA|COREÓGRAFA 1940-2009
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Quando pensamos na figura do artista, surge-nos na mente a imagem de alguém que cria algo novo: que cria uma nova linguagem, que produz novos conceitos, que abre novas perspetivas. De certa forma, é esse o papel do artista moderno – o de nos dar a ver o que ainda não existe ou o que ainda não nos é dado a ver. Nascida em Solingen, uma pequena cidade perto de Wuppertal, na Alemanha, Pina Bausch foi uma dessas figuras.
Desde logo, porque foi uma CRIADORA. Não foi alguém que apenas seguiu escolas, que apenas seguiu conceitos, que apenas seguiu tradições; não era próprio dela seguir uma inércia derivada do trabalho já feito. Foi, isso sim, alguém que se inspirou no que aprendeu – e nos mestres com quem aprendeu –, mas que o fez para criar algo novo. Fê-lo questionando a própria ideia da dança. Isto é algo raríssimo: criar, mais do que reproduzir o que já existe, é uma capacidade única. É a capacidade que distingue o verdadeiro artista. Pina Bausch foi uma verdadeira artista, que criou novos conceitos, que desenvolveu uma nova relação entre a dança e as artes performativas, que criou um novo estilo. Em segundo lugar, porque ela ARRISCAVA. Não teve nunca medo do risco, nem teve nunca medo de chocar – muito menos teve receio da reação do público. Quando começou a testar a sua ideia da dança-teatro, Pina Bausch enfrentou salas que se esvaziavam em protesto. Eram frequentes as vezes em que o público saía, irado, das suas peças. O que é que a maioria das pessoas teria feito numa situação destas? Penso que muitos teriam adaptado ◊ Pina Bausch em Café Müller, 1978. Fotografia de Ulli Weiss. Fundação Pina Bausch.
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◊ Pina Bausch em Café Müller, Teatro São Luíz, 2008. Fotografia de José Frade
as suas peças ao público, sacrificando assim a arte pelo que, nesse momento, se apresenta como o gosto dominante. No entanto, Pina Bausch não fez isto: não sacrificou a sua criação, mas teve a coragem de continuar, e ao continuar acabou por transformar a dança. Persistiu nas suas ideias que, das salas a esvaziarem-se, passaram para as salas cheias e para as ovações em pé.
◊ Retrato de Pina Bausch, s.d. Fotografia de Ulli Weiss. Fundação Pina Bausch.
Por último, Pina Bausch foi alguém que DEIXOU UMA MARCA EM LISBOA. Foi alguém que marcou Lisboa e nos marcou a nós, lisboetas. Marcou-nos participando no momento transformador que foi a Expo 98, numa coreografia que combinou dança, música e teatro – uma expressão fiel ao seu percurso –, e, dez anos depois, no Centro Cultural de Belém, onde faria uma das suas últimas atuações de dança em público. Temos muito a agradecer-lhe: por ter partilhado connosco aquelas que foram as suas melhores criações, por nos ter dado um pouco de si, por nos ter deixado aplaudi-la. Essa marca ficará agora orgulhosamente impressa nas ruas da nossa cidade. Carlos Moedas Presidente da Câmara Municipal de Lisboa 2026 4
It is not about art, also not about pure technique. It is about life, and therefore it is about finding a language for life. Pina Bausch 1 Coreógrafa, bailarina e diretora de teatro, mas também atriz e argumentista, Pina Bausch é amplamente reconhecida como uma das figuras mais inovadoras e influentes da dança contemporânea na segunda metade do século XX. Nascida em 27 de julho de 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, em Solingen, na Alemanha, de nome Philippina Bausch, adotou mais tarde o diminutivo Pina, com o qual se afirmou como um ícone na arte da dança contemporânea. 1
Pina Bausch Foundation. https://www.pinabausch.org/page/fellowship
◊ Solingen, em 1944. Fotografia de Willi Mathonet
a FORMAÇÃO e o RECONHECIMENTO Desde jovem demonstrou interesse pela dança, com as primeiras experiências aos 14 anos no ballet infantil de Solingen. Um ano depois, Bausch iniciou uma formação profissional de quatro anos na Folkwang School, em Essen, na Alemanha, sob a orientação do coreógrafo Kurt Jooss (1901-1979), figura de referência da dança moderna alemã pela abordagem que combinava disciplinas como a dança, a música, o drama ou a mímica, com temas sociais de dimensão psicológica onde o ser humano era colocado numa perspetiva crítica 2. Em 1958, Pina Bausch foi premiada com o Folkwang Leistungspreis e ganhou uma bolsa do Deutschen Akademischen Austauschdienst (instituição alemã de intercâmbio académico) para estudar na famosa Juilliard School, em Nova Iorque, onde teve a oportunidade de trabalhar com alguns mestres da dança moderna, como José Limón (1908-1972) e Antony Tudor (19081987), e com bailarinos da companhia de Martha Graham (1894-1991). A experiência não poderia ter sido mais gratificante pelo que Bausch decidiu prolongar por mais um ano a estada, financiando-a através de trabalho na Metropolitan Opera. A permanência na capital norte-americana e a prática aí desenvolvida revelar-se-iam, mais tarde, na sua afinidade com a ópera e no respeito pela tradição musical, bem como no seu profundo gosto pelo jazz. A distinção académica entre música “séria” e “popular” não tinha qualquer sentido para Bausch 3.
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GALHÓS, Cláudia – Pina Bausch: ensaio biográfico.
Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. https://www.pina-bausch.de/en/person/6/pina-bausch
página anterior ◊ Pina Bausch durante uma aula de dança em 1967. Folkwang, Universidade de Artes. ◊ Pina Bausch durante um ensaio com o professor Antony Tudor, em Juilliard. Fotógrafo desconhecido.
◊ Pina Bausch e Kurt Jooss em conversa na esplanada do Teatro do Festival de Schwetzingen, 1967. Folkwang, Universidade de Artes
Em 1962, e por insistência de Kurt Jooss, regressa a Essen, sendo convidada como solista na companhia Folkwang Ballett. A partir desta década, integra regularmente apresentações de peças de criadores distintos, por várias localidades europeias, sobretudo alemãs e italianas. Entre outras, contam-se Elegie (de Hans Züllig, 1962), Lilac Garden (de Antony Tudor, 1962), Sequence (de Jean Cébron, 1962), Songs of Encounter (de Lucas Hoving, 1962 e 1967), The Green Table (de Kurt Jooss, com o Folkwang Ballett, 1964 e 1966), L’après-midi d’un faune, Pavane pour une infante defunte e Phasen (de Kurt Jooss, com o Folkwang Ballett, 1966 e 1967), Recueil (de Jean Cébron, com o Folkwang Ballett, 1966 e 1967, 1969), Songs of Encounter (de Lucas Hoving, com o Folkwang Ballett, 1966 e 1967), Essay im klassischen Stil e Reprise (de Hans Pop, 1967), Icarus (de Lucas Hoving, 1967 e 1968), Expansion I, Filandre-Mythique (Faden der Parzen), Model für ein Mobile, Poème dansé, St. Georg und der neue Drache, e Unidentified (de Jean Cébron, com o Folkwang Ballett, 1967 e 1969), bem como as suas próprias peças Fragment e Im Wind der Zeit, com dezenas de apresentações a partir de 1967, prolongando-se pelos anos seguintes. Im Wind der Zeit valer-lhe-ia o reconhecimento em 1969, ganhando o primeiro prémio na International Choreographic Competition em Colónia. Para a temporada de 1973-74, aos 33 anos, foi convidada pelo diretor artístico Arno Wüstenhofer, para assumir a direção da companhia de dança Wuppertal Ballett, que se passou a chamar de Tanztheater Wuppertal. Nesta companhia começou a desenvolver o “tanztheater”, ou teatro-dança, um estilo particular que combina elementos da dança, do teatro e da música complementados por uma cenografia ousada que desafiava as convenções tradicionais. Com as suas peças começou a abordar temas profundos e universais ao indivíduo e à sociedade, como o amor e as relações humanas, a solidão e a alienação, as relações entre homens e mulheres, a dor e a morte, a oposição entre os indivíduos e os 7
◊ Bailarinos representando a coreografia de A Sagração da Primavera de Pina Bausch
constrangimentos sociais, ou as relações entre a natureza e a sociedade humana, utilizando gestos quotidianos e explorando as emoções e os conflitos internos das personagens. Em 1975 criou uma reinterpretação de A Sagração da Primavera, e seguiu fielmente a ideia do compositor Igor Stravinsky, que imaginou o bailado como uma dança até à morte de uma donzela escolhida como sacrifício para uma colheita abundante, e retratou fortemente temas conflituosos como a totalidade e o indivíduo, a brutalidade e a apatia, o êxtase e o medo, sublinhando a fisicalidade extrema e a intensidade emocional dos bailarinos. Três anos depois, em 1978, Pina Bausch criou uma peça autobiográfica, Café Müller, marcada por cenas de vulnerabilidade e repetição. Da consistência das suas ideias e do seu trabalho, as produções tornaram-se cada vez mais terreno exploratório, nas quais procurou sempre envolver os bailarinos no processo criativo. Bausch afirmava que “I’m not so interested in how they move as in what moves them”4, incentivando os bailarinos a partilhar experiências pessoais, influenciando diretamente o conteúdo e a forma das peças. Deste modo, os bailarinos “ousaram deixar de ser meras marionetas, vazias de emoções, pensamentos ou ideias próprias, a repetir movimentos que outros inventaram para eles, sem saber porquê […] Deixaram de ser intérpretes. Ao serviço das emoções e das ideias dos outros”5, pois “tudo surge de uma pergunta que, num primeiro momento, parece insensata, sem ligação com tudo o resto, mas que na realidade acaba por estimular uma série de reacções em cadeia, que se revelarão finalmente úteis e
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Citada em CLIMENHAGA, Roy – Pina Bausch, p. 2.
GALHÓS, Cláudia – Pina Bausch: ensaio biográfico, p. 244.
◊ Pina Bausch durante um ensaio. Fotografia Fundação Pina Bausch.
◊ Apresentação, em 1989, nos Encontros Acarte. Fotografia Fundação Calouste Gulbenkian.
profícuas”6, ou seja, e nas suas próprias palavras, “o que importa é partilharmos o que estamos a sentir, aquilo de que temos medo, o que desejamos. Isto é o mais importante. Não tanto no sentido privado, pessoal, individual, mas sim no de todos nós, no sentido colectivo. Se cada um for ao fundo dos seus sentimentos, acredito que há uma linguagem que todos partilhamos, que todos falamos e na qual todos nos entendemos e nos encontramos” 7.
BAUSCH e PORTUGAL Pina Bausch teve uma relação significativa e especial com Portugal e a cidade de Lisboa, que se refletiu na sua obra e no impacto cultural que deixou no país. Em 1989 o Tanztheater Wuppertal fez a sua estreia em palcos nacionais nos Encontros Acarte: Novo Teatro-Dança da Europa, na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), sob o visionário impulso de Maria Madalena de Azeredo Perdigão. Em 1994, por ocasião da programação para as celebrações da Capital Europeia da Cultura, nos Encontros Acarte, na FCG, apresentaram-se cinco peças representativas do universo da criadora: Café Müller (1978), A Sagração da Primavera (1975), Kontakthof (1978), 1980 – Uma Peça de Pina Bausch (1980) e Viktor (1986). Mas a sua ligação com Lisboa viria a intensificar-se durante o processo de residência artística e criação da peça Masurca Fogo (1998), encomendada pelo comissariado da EXPO 98, a exposição mundial que teve como tema “Os Oceanos: um Património para o Futuro”. Durante o processo criativo, Pina Bausch e a companhia Tanztheater Wuppertal passaram três semanas em Lisboa, onde exploraram a cidade e a sua cultura, tomando contacto com a calçada portuguesa, a tourada ou a obra de Fernando Pessoa. Deste período, foi realizado o documentário Lissabon Wuppertal Lisboa, pelo cineasta Fernando Lopes, que teve acesso privilegiado aos en6 7
BENTIVOGLIO, Leonetta – O teatro de Pina Bausch, p. 25.
GALHÓS, Cláudia – Pina Bausch: um festival de dança-teatro. Jornal Expresso. 9
saios e testemunhou todo o processo de criação durante o período em Lisboa.
◊ Pormenor do programa do espetáculo Masurca Fogo.
◊ Fotograma do documentário Lissabon Wuppertal Lisboa, de Fernando Lopes. Que acompanhou o processo de criação da peça Masurca Fogo.
Masurca Fogo é uma celebração vibrante e poética da vida, fortemente inspirada pela cultura portuguesa e pelos ambientes que Pina Bausch e os bailarinos experienciaram durante a sua estada. Bausch instruiu a companhia para descobrir a cidade, “vão onde os vossos olhos e ouvidos vos levarem, encontrem pessoas e entreguem-se às sensações”, recordou vinte anos mais tarde a bailarina brasileira Regina Advento, “éramos livres de escolher o que queríamos ver. Estávamos abertos a tudo, à procura de novas experiências e desafios” 8. A peça incluiu elementos da música portuguesa, como o fado, e referências à dança e à arquitetura de Lisboa, “ecos do quotidiano da cidade” 9 articulando-os com o estilo único que integra movimento, teatro e expressão emocional do Tanztheater. Sempre esgotadas, as apresentações de Pina Bausch em Portugal geravam profunda admiração pela artista, e as suas visitas, assim como as suas obras, tiveram um impacto duradouro na cena cultural portuguesa. A ligação afetiva entre a artista e a cidade tornou-se recíproca com a artista a não se coibir em expressar grande carinho pelo país, por Lisboa e pelo público português.
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Espetáculo “Mazurca Fogo” de Pina Bausch criado há 20 anos em Lisboa é recordado em Londres. RTP Notícias. CAETANO, Maria João – Pina Bausch: a dançar para as massas. Diário de Notícias.
Esta relação continuou ao longo dos anos, com várias apresentações das suas criações, que receberam sempre grande atenção e a aclamação do público e da crítica. Água (2001), criada após residência no Rio de Janeiro, foi apresentada no Centro Cultural de Belém (CCB) em 2003. Nelken (1982) e Ten Chi (2004), tiveram exibição em 2005, no Teatro São Luiz. Produzida após o 11 de setembro e estreada em 2002, Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã (2002) foi apresentada em 2007 em Lisboa, no Teatro Camões. No ano seguinte, com programação da responsabilidade de Jorge Salavisa e António Mega Ferreira, e partilhada entre o Teatro São Luiz e o CCB, realizou-se “2008: Um Festival Pina Bausch”, uma celebração interdisciplinar da obra da artista, então com 67 anos, naquela que seria a sua última visita a Portugal. Foram apresentadas as peças Nefé (2003), Masurca Fogo e Café Müller, exibidos os filmes O lamento da Imperatriz, A Sagração da Primavera e Lissabon Wuppertal Lisboa, conversas com os bailarinos da companhia Dominique Mercy e Nazareth Panadero, com o cenógrafo Peter Pabs, e os criadores portugueses Luísa Taveira, José Sasportes, Fernando Lopes, Maria João Seixas, André Teodósio, Olga Roriz e Rui Horta.
◊ Pina Bausch em Café Müller, Teatro São Luíz, 2008. Fotografia de José Frade ◊ Pormenor do cartaz da passagem de Pina Bausch e da sua companhia pelo Teatro São Luíz em 2005, com as peças Nelken (Cravos) e Ten Chi (Céu e Terra).
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◊ Pina Bausch em Café Müller, Teatro São Luíz, 2008. Fotografia de José Frade ◊ Pina Bausch com os seus dançarinos no espetáculo Wiesenland, 2009. Fotografia de Raphael Labbé.
o seu LEGADO Contudo, o legado de Pina Bausch em Portugal estendeu-se muito para além da apresentação das suas peças. A singular abordagem ao teatro-dança e o impacto da sua obra deixou uma marca profunda em diversos artistas portugueses, especialmente no campo da dança contemporânea e das artes performativas, inspirando artistas como Vera Mantero 10, Olga Roriz 11, João Fia-
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Vera Mantero, uma das mais destacadas coreógrafas e intérpretes da dança contemporânea portuguesa, é reconhecida pelas suas atuações que combinam dança, texto e elementos visuais, onde explora temas como a identidade, a memória e o corpo, de maneira similar à abordagem de Bausch ao teatro-dança.
Olga Roriz, uma das coreógrafas mais prestigiadas de Portugal, é reconhecida por obras intensas e dramáticas, onde, muitas vezes, explora temas psicológicos e emocionais, características também presentes no trabalho de Bausch. A abordagem de Roriz ao movimento e à narrativa corporal, que mistura dança e teatro, reflete a estética do Tanztheater de Bausch.
◊ Em 1994, Pina Bausch foi condecorada, pelo então presidente da República Mário Soares, com a Cruz da Ordem Militar de Sant’iago e Espada, pelo seu contributo revolucionário para o mundo das artes, da dança contemporânea e do teatro-dança. Fotografia da Fundação Caloute Gulbenkian
deiro 12, Clara Andermatt 13, Rui Horta 14 ou Rui Lopes Graça 15, entre outros, contribuindo para o desenvolvimento de uma cena artística rica e diversificada. Até ao presente, a sua obra continua a ser uma referência incontornável em Portugal.
No decorrer da sua carreira, Pina Bausch tornou-se uma figura de renome mundial tendo recebido várias distinções e sido galardoada com inúmeros prémios. Em 1991, o governo francês atribuiu-lhe o título de Comendadora da Ordem das Artes e das Letras e, em 2003, o de Cavaleiro da Legião de Honra. Em 1997 o governo alemão distinguiu Pina Bausch com a Ordem de Mérito da República Federal da Alemanha. Em 2009, foi eleita Membro Honorário Estrangeiro da Academia Americana de Artes e Ciências. Várias universidades, em todo o mundo, distinguiram Bausch com o grau de doutoramento honorário pelo seu trabalho artístico. Os prémios sucederam-se no tempo e no reconhecimento das suas criações ímpares, de que são exemplo, o Bessie Award (1984, Nova Iorque), o German Dance Prize (1985), o Deutscher Tanzpreis (1995), o Berlin Theatre Prize (1997, Berlim), o Praemium Imperiale (1999, Japão). Em 2000, Viktor foi nomeada para a categoria de “Outstanding Achieve12
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João Fiadeiro, aclamado coreógrafo e intérprete, também reconhece a influência de Pina Bausch, especialmente no que respeita à improvisação e ao modo como a dança pode ser usada para explorar e expressar emoções e narrativas complexas. Fiadeiro explorou o método de composição em tempo real e, embora diferente do Tanztheater, partilha o interesse em processos criativos que integram a experiência humana nas suas múltiplas dimensões. Clara Andermatt, uma das figuras centrais da dança contemporânea em Portugal, foi influenciada por Pina Bausch na forma de abordar a dança como uma linguagem que vai além do movimento físico. Andermatt é conhecida por criações que frequentemente incorporam elementos teatrais e sociais, refletindo a interdisciplinaridade que também caracteriza o trabalho de Bausch.
Rui Horta, outro coreógrafo português de renome, também reconhece a influência de Pina Bausch. Fundou o centro de residências artísticas O Espaço do Tempo que se tornou um ponto de referência para a dança contemporânea em Portugal. Horta explora frequentemente no seu trabalho a interseção entre movimento, emoção e narrativa, uma abordagem que ressoa a estética do Tanztheater. Rui Lopes Graça, coreógrafo e diretor artístico, é outro artista nacional que se inspirou no legado de Pina Bausch, explorando nas suas obras temas que abordam a vulnerabilidade humana e a expressão emocional, elementos centrais no trabalho de Bausch.
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◊ Nelken. Fotografia de Clau Damaso ◊ Leão de Ouro da Bienal de Veneza.
ment in Dance” pelos Laurence Olivier Awards e, em 2006, ganharia na mesma categoria com as peças Nelken (Carnations) e Palermo Palermo, apresentadas no Sadler’s Wells Theatre, em Londres. Em junho de 2007 ganharia o Leão de Ouro na Bienal de Veneza pela sua carreira e, em novembro do mesmo ano, o prestigiado Prémio Kyoto em Arte e Filosofia. Outros prémios incluem o Golden Mask (2005, Moscovo) e o Goethe Prize (2008, Frankfurt am Main). Já postumamente, algumas das suas obras foram especialmente encenadas em 2012 como um dos pontos altos da Olimpíada Cultural que antecedeu os Jogos Olímpicos de Londres, no mesmo ano. À semelhança de Viktor, inspirada por Roma, ou Masurca Fogo, por Lisboa, estas obras foram criadas na sequência de visitas e residências artísticas de Bausch na Índia, Brasil, Palermo, Hong Kong, Los Angeles, Budapeste, Istambul, Santiago, Roma e Japão, entre 1986 e 2009. No presente, o Tanztheater Wuppertal continua a apresentar as suas peças16, garantindo que a visão e a arte de Pina Bausch permanecem vivas para o público e para as futuras gerações de criadores. ◊ Edifício do Tanztheater Wuppertal Pina Bausch GmbH, Alemanha. 16 14
Sob licença da Pina Bausch Foundation.
Pina Bausch faleceu a 30 de junho de 2009, em Wuppertal. Tinha 68 anos e mais de 50 peças criadas. De reconhecimento mundial, o legado de Pina Bausch consolidou-se e subsiste no tempo, testemunho da sua dedicação “à dança, mas uma dança com sentido profundo de querer conhecer o outro e fazer dessa missão uma forma de estar” 17, continuando relevante e inspirador para o público e novas gerações de coreógrafos, dançarinos, artistas pluridisciplinares e de artes performativas, desconstruindo uma visão normalizada do mundo em que as audiências são confrontadas com novas perceções da realidade, da verdade e das relações humanas. Com os seus inovadores métodos de trabalho, e de “braços abertos ao mundo”, Bausch “inscreveu, na história de cada um, recordações que quase fazem parte de um álbum de família partilhado, onde as pessoas se podem encontrar com prazer na diferença” 18. Pelo caminho da sua obra, Pina Bausch transcendeu e redefiniu os limites da expressão física e teatral da dança, dotando-a de novas possibilidades como meio de refletir a sociedade e os tempos. No mesmo ano, o seu filho, Salomon Bausch, criou a Fundação Pina Bausch 19, instituição sem fins lucrativos que detém o seu legado artístico. Com o objetivo de assegurar que as criações de Bausch possam ser apresentadas em palco, em todo o mundo, a fundação concede licenças ao Tanztheater Wuppertal Pina Bausch e a companhias internacionais que se disponham a apresentar peças da artista, proporcionando não só a novos e antigos públicos, mas também a novos bailarinos, experimentar a força e a beleza, a alegria e a dor, a inquietação e a intensidade que Pina Bausch sempre perseguiu.
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GALHÓS, Cláudia – Pina Bausch: ensaio biográfico, p. 210.
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Pina Bausch Foundation. https://www.pinabausch.org/
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GALHÓS, Cláudia – Pina Bausch: ensaio biográfico, p. 22.
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◊ Pina Bausch em Café Müller, Teatro São Luíz, 2008. Fotografia de José Frade
Pela contribuição ímpar de Pina Bausch para o mundo da dança contemporânea, e pela sua ligação a Portugal, e a Lisboa em particular, a Comissão de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa emitiu, em reunião de 27 de setembro de 2022, parecer favorável à consagração do topónimo Pina Bausch na toponímia de Lisboa e, a 19 de julho de 2024, pronunciou-se a favor da atribuição do topónimo Pina Bausch à Rua D da Malha 34 do PUAL, na freguesia do Lumiar. Com a inscrição do nome da coreógrafa e artista-total na toponímia lisboeta, espera-se consolidar a ligação desta artista à cidade que tanto visitou e revisitou.
RUA PINA BAUSCH
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BIBLIOGRAFIA _BENTIVOGLIO, Leonetta – O teatro de Pina Bausch. Lisboa: AcarteFundação Calouste Gulbenkian, 1994. _CAETANO, Maria João – Pina Bausch: a dançar para as massas. Diário de Notícias. (01 jul 2009). https://www.dn.pt/artes/pinabausch-a-dancar-para-as-massas1284871.html/ _CLIMENHAGA, Roy – Pina Bausch. Abingdon: Routledge, 2009. _Espetáculo “Mazurca Fogo” de Pina Bausch criado há 20 anos em Lisboa é recordado em Londres. RTP Notícias. (26 jan 2017). https:// www.rtp.pt/noticias/cultura/espetaculo-mazurca-fogo-de-pinabausch-criado-ha-20-anos-em-lisboa-e-recordado-em-londres_ n978710 _GALHÓS, Claúdia – Pina Bausch: ensaio biográfico. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010. _GALHÓS, Cláudia – Pina Bausch: um festival de dança-teatro. Jornal Expresso. (30 jun 2009). https://expresso.pt/actualidade/pina-bausch-um-festival-de-danca-teatro=f523592 _Pina Bausch Foundation. https://www.pinabausch.org/ _Tanztheater Wuppertal Pina Bausch. https://www.pina-bausch.de/de
◊ Retrato no Festival d’Avignon 1981 Fernand Michaud Bibliothèque nationale de France
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FICHA TÉCNICA
EDIÇÃO_
Câmara Municipal de Lisboa PRESIDENTE _
Carlos Moedas VEREADOR DA ECONOMIA E INOVAÇÃO _
Diogo Moura
DIREÇÃO MUNICIPAL DE CULTURA_
Laurentina Pereira
DEPARTAMENTO DO PATRIMÓNIO CULTURAL_
Jorge Ramos de Carvalho
TÍTULO_
COORDENAÇÃO_
Pina Bausch
António Adriano
DESIGN_
Denise Santos Ana Filipa Leite
FOTOGRAFIA DE CAPA_
Wilfried Krüge
TEXTO_
TIRAGEM_
DEPÓSITO LEGAL_
EXECUÇÃO GRÁFICA_
200
570298/26
IMPRENSA MUNICIPAL DE LISBOA
A Câmara Municipal de Lisboa agradece a todos aqueles que, pela sua colaboração, tanto na partilha de informação como na cedência de imagens, tornaram possível a ilustração da presente edição biográfica.
toponimia@cm-lisboa.pt revelar.lisboa.pt/explorar/toponimia | facebook.com/toponimiadeLisboa
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