Simbologia | O mensageiro (in)visível: Hermes e o caduceu na arte tumular de Lisboa
Monumentos Sepulchraes | O Jazigo de João Severiano de Abreu
A Memória em Pedra e Barro: O Cemitério de Nossa Senhora do Pópulo e a Identidade
Ceramista das Caldas da Rainha .................................................................................
Um Jazigo digno de um Prémio Nobel
Pedras e Obras | Obras com Recursos Próprios
Leituras Para a Vida Antes da Morte ............................................................................
Perguntar não mata: os cemitérios como ponto de partida para o diálogo
Da Teoria à Prática
Notícias | Janeiro a Junho 2026 ....................................................................................
Artista Convidada | Inês Garcia ...................................................................................
Neste número contamos, uma vez mais, com a participação de vários autores convidados, cuja colaboração tem sido fundamental para a diversidade e qualidade dos conteúdos publicados André Ferreira aborda a simbologia funerária a partir de Hermes e o caduceu, Filipe Pinheiro de Campos dá a conhecer mais um monumento singular dos cemitérios de Lisboa, Cláudia Feio leva-nos ao Cemitério de Nossa Senhora do Pópulo e à história da cerâmica das Caldas da Rainha e Joana Rita Sousa regressa com novas propostas de leitura e um desafio para famílias
Pedras e Obras, em vez de apresentar uma empreitada específica, reúne nesta edição um conjunto de intervenções realizadas pelos trabalhadores da Divisão de Gestão Cemiterial e por equipas transversais da Direção Municipal. Num contexto de recursos muitas vezes limitados, estas obras, que vão desde a criação de cendrários à recuperação de edifícios, gradeamentos, calçadas, bancos de jardim ou outros equipamentos, são exemplo do empenho diário de quem trabalha para conservar e melhorar os cemitérios municipais. Muitas destas intervenções passam despercebidas aos visitantes, mas são essenciais para garantir a preservação e o bom funcionamento destes espaços
Merece ainda destaque o artigo de Gisela Monteiro dedicado a Maria Clementina Relvas e Martina de Bulhões Maldonado, onde, a partir da história do jazigo particular n.º 4426, a investigação conduz-nos por vidas marcadas pela independência, pela persistência e por uma grande amizade.
Termino com um convite a todos os leitores A 5 ª Semana Cultural nos Cemitérios decorrerá entre os dias 10 e 18 de outubro de 2026, voltando a trazer aos cemitérios de Lisboa um vasto programa de visitas, conferências, exposições e outras iniciativas de valorização patrimonial. Integrada nesta programação, realizar-se-á no dia 16 de outubro a 2.ª
Jornada Interdisciplinar sobre Cemitérios, reunindo investigadores, profissionais e interessados nestas temáticas.
Conto com a presença de todos para mais esta edição!
S I M B O L O G I A
O mensageiro (in)visível: Hermes e o caduceu na arte tumular de Lisboa
Na Rua n.º 4 do Cemitério dos Prazeres, no topo do Jazigo n.º 2664 – atualmente a cargo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa –, pertencente à Família de José Antunes Martins, destaca-se uma imponente figura masculina esculpida em cantaria A inscrição que identifica o proprietário como «Negociante da Praça de Pará, Império do Brazil» oferece a chave de leitura para a obra. Trata-se de uma figura em pé, trajada com um quíton que lhe cobre quase na totalidade o corpo, calçando umas sandálias aladas (as pédila gregas ou talaria latinas) A presença do pétaso, chapéu dotado de asas apontado na tratadística como símbolo renascentista da eloquência (Impeluso, 2003, p. 163), denuncia a figura alegórica do Comércio consolidada por atributos circundantes: uma âncora, caixas de mercadorias e vários barris.
Esta representação reutiliza a gramática de Hermes, divindade que na mitologia romana se apresenta como Mercúrio (do latim mercari, transacionar) (Pinheiro, 2007, p 353) Segundo Grimal (2009, pp 223-224), Hermes era o mensageiro dos deuses, protetor dos viajantes e patrono do comércio. A sua ligação aos negócios remonta à Antiguidade onde o vocábulo hermaion designava um lucro inesperado proporcionado pela divindade (Pinheiro, 2007, p 359) Na tradição literária, o próprio Zeus concedeu-lhe a incumbência de superintender as trocas comerciais (Pinheiro, 2007, p 352)
O artista-cantoneiro dos Prazeres manteve também o atributo mais sagrado à divindade olímpica: o caduceu. Descrito por Plaza et al. (2019, p. 372) como uma vara de oliveira investida de qualidades mágicas, cuja tradição mítica o associa ao cajado de pastor recebido de Apolo em troca da lira (Bared, 2024, p. 170), apresenta-se como um bastão em torno do qual se entrelaçam duas serpentes, rematado na parte superior por duas asas Esta herança iconográfica possui raízes mesopotâmicas e indianas remotas (Chevalier & Gheerbrant, 2019, pp. 141-142) e encerra uma complexa dualidade simbólica. Ao enrolarem-se em sentidos inversos, as serpentes equilibram forças contrárias convertendo o caduceu num emblema de paz, prudência e boa conduta (Chevalier & Gheerbrant, 2019, p. 142).
Paralelamente à dimensão económica, Hermes guarda uma relação intrínseca com o Submundo e a ritualidade funerária. Na Ilíada de Homero (XXIV, 343-344), o bastão surge como o instrumento com o qual a divindade fecha os olhos dos homens, possuindo a capacidade de induzir o «sono da morte». Na Odisseia (XXI, 1-10), Hermes assume o papel de Psicopompo, o «Acompanhante das Almas», encarregue de conduzir os mortos ao Além (Grimal, 2009, p 224) Segundo a perspetiva de Bared (2024, p. 170), as asas que coroam os seus atributos funcionam como símbolos de liberdade, agilidade e elevação espiritual, garantindo ao deus a faculdade de transitar e caminhar pelo reino subterrâneo sem obstáculos. Como reitera Elías (2019, p. 136), o caduceu era o atributo por excelência deste guia, justificando a sua integração na arte tumular
A transposição desta gramática alegórica para a pedra dos cemitérios de Lisboa prende-se com o contexto socioeconómico e artístico do Portugal do século XIX Com a proibição dos enterramentos nas igrejas e a fundação dos cemitérios públicos em 1834 – como o Alto de S João e os Prazeres –, os espaços de morte passaram a funcionar como autênticos espelhos da malha urbana dos vivos (André, 2004, p. 66).
A burguesia capitalista em ascensão apropriou-se do jazigo de família como um prolongamento do seu prestígio social (André, 2004, p. 104). Exibir a figura e os símbolos de Hermes tornou-se uma estratégia de distinção: mesmo omitindo uma inscrição profissional, o caduceu funcionava como um código visual que denunciava o sucesso comercial daquela família.
Esta massificação do repertório clássico deveu-se ao virtuosismo técnico das oficinas de canteiros de Lisboa durante o Romantismo (Queiroz, 2000, p. 55). Grandes oficinas de cantaria e transformação de mármores, como as de António Moreira Rato (1818-1903) ou de Germano José de Sales (1840?-1902) executavam monumentos funerários de elevado apuro estético sem a necessidade de intervenção de arquitetos (Queiroz, 2000, p 55) Estes mestres operavam a partir de álbuns de ornatos e guias franceses inspirados nos monumentos do famoso cemitério parisiense do Père-Lachaise, que serviam como «catálogo vivo» aos encomendantes locais (André, 2004, p 66; Queiroz, 2000, p 55)
Daí que Hermes, e o seu séquito simbólico, se encontre mapeado em, pelo menos, mais três configurações distintas, no Cemitério dos Prazeres Além da versão do jazigo n.º 2664, surge sentado sobre caixas de transporte no Jazigo da Família de Joze Rodrigues Dias (n.º 1591, na Rua n.º 8) – uma obra anónima cujo modelo foi replicado em mais três jazigos, atestando o uso de moldes e matrizes partilhadas pelas oficinas (Queiroz, 2000, p. 55). Uma terceira e rara variante iconográfica observa-se no jazigo de António Rodrigues da Costa Soares, executado por Marcelino G. Santos, onde Hermes surge integrado num trio alegórico ao lado da Agricultura (que reutiliza a gramática visual da clássica Deméter/Ceres) e da Fortuna (a Tique grega) sobre a sua célebre roda
O impacto deste programa iconográfico expandiu-se além Prazeres Exemplares de caduceus, isolados ou integrados em composições decorativas, surgem igualmente em jazigos dos cemitérios da Ajuda e do Alto de S. João, confirmando que Hermes se fixou de forma indelével na identidade visual da arte cemiterial de Lisboa como o derradeiro ponto de encontro entre o operoso sucesso do comércio terreno e a viagem mística da alma.
ANDRÉ FERREIRA
Licenciado em Biologia e Geologia, pós-graduado em Museologia e mestrando em Estudos do Património. É professor dos ensinos básico e secundário, professor-parceiro do Serviço Educativo do Palácio Nacional da Ajuda e Investigador Associado da Cátedra em Etnobotânica Com mais de 14 anos dedicados ao estudo da mitologia clássica aplicada ao património, dinamiza desde 2015 visitas guiadas, conferências e cursos em colaboração com diversas instituições culturais e escolares É o mentor do projeto Quíron e autor do primeiro curso de mitologia e alegoria da Ajuda (2026). Desde 2021, colabora também com a Divisão Cemiterial da CML em visitas guiadas e investigações sobre a iconografia do submundo clássico na arte funerária
M O N U M E N T O S S E P U L C H R A E S
O Jazigo de João Severiano de Abreu no Cemitério dos Prazeres
JP 1548 | Rua 11
De entre os muitos monumentos funerários plenos de significado e de traça notável conta-se o jazigo de João Severiano de Abreu que, pese embora seja de pequenas dimensões é pleno de significado e, como tal, alvo do interesse dos cada vez mais visitantes no Cemitério dos Prazeres Trata-se quase de um “retrato” do seu fundador assim como uma publicitação da sua atividade que se remata na própria inscrição de localização da sua oficina de canteiro, uma das mais renomadas da Lisboa de Oitocentos e responsável por inúmeros monumentos no mesmo campo santo.
Na face anterior abre-se um grande painel repleto de instrumentos de trabalho de canteiro, bem trabalhados em alto relevo, de traça perfeita e, nas pilastras uma régua e um prumo que acompanham toda a dimensão das mesmas. Os instrumentos incluem a maceta, o ponteiro, o escopro (ou cinzel), o badame (ou escarpa), a buarda, o alvião e, naturalmente os esquadros e réguas O remate é feito em frontão semicircular com acrotérios simples onde se inscreve o epitáfio “DE SEVERIANO JOÃO DE ABREU / DE / SUA MULHER E FILHOS”. No topo do frontão uma cruz trevolada de fantasia. Na base inscreve-se o seu fabrico (do próprio): “FEITO DA SUA OFFICINA / NA CALÇADA DO COMBRO n º 10 AOS PAULISTAS”
A entrada no jazigo é feita por porta na face posterior do mesmo onde se encontra trabalho notável com cruz e motivos vegetalistas em que se destacam as palmas e os juncos
A oficina de Severiano João de Abreu foi fundada em 1855 e situou-se sempre na Calçada do Combro, 86 a 94 (aos Paulistas). Em 1888 nela trabalhavam seis operários e quatro aprendizes. Apesar de não ter sido uma oficina muito grande, foi responsável por inúmeros monumentos nos cemitérios de Lisboa, encontrando-se também alguns exemplares nos de Setúbal, Arcos de Valdevez, Lousã, Castelo Branco, Santarém, Vila Nova de Famalicão (do Barão de Joane), Conchada (Coimbra), Viseu, e outros1
O terreno foi adquirido pelo referido Severiano de Abreu por guia de 11 de Abril de 1866, com as dimensões de 1,00 metros de frente por 2,20 metros de frente a fundo, pela quantia de 22$000
A 30 de Maio de 1912 foi o jazigo averbado em nome de seus filhos: D. Emília Augusta d’ Abreu Vidal, casada com João Cristino Vidal, Joaquim Carlos d’ Abreu, casado com D. Cândida Pinheiro d’ Andrade Abreu, Severiano João d’ Abreu, casado com D. Francisca Formosinho Sanches de Abreu, D Margarida de Abreu Silva, casada com Domingos Estanislau da Silva, D Olímpia do Nascimento d’ Abreu Nunes de Sousa, casada com Manuel Adelino Nunes de Sousa e José Miguel d’ Abreu, casado com D. Ana Laura de Faria d’ Abreu.
Por despacho camarário de 24 de Junho de 1986 é averbada a totalidade do jazigo a favor de Eduardo José Teixeira Barbosa de Abreu
iA 7 de Setembro de 1912 procedem à venda de um domínio direto do foro anual de quarenta reis, com laudémio de quarentena imposto no prédio situado na rua de São Francisco de Paula n º 180 a 182 (atual rua Presidente Arriaga), feita aos respetivos senhorios, Emília Augusta de Abreu Vidal, Joaquim Carlos de Abreu e mulher Cândida Pinheiro de Andrade Abreu, Severiano João de Abreu e mulher Francisca Formosinho Sanches de Abreu, Margarida de Abreu Silva e marido Domingos Estanislau da Silva, Olimpia de Abreu e marido Manuel Adelino Nunes de Sousa, José Miguel de Abreu e mulher Ana Laura de Faria de Abreu, Maria da Purificação de Sousa Abreu Magalhães, Maria José de Sousa Abreu dos Santos e António Maria de Sousa Abreu . 2
Severiano João Gualberto de Abreu, nasceu na freguesia de Santa Isabel em Lisboa a 12 de Julho de 1829 e faleceu a 21 de Dezembro de 1893. Era filho de José Maria de Abreu, natural do Porto (Santo Ildefonso), Cabo de Esquadra da 5 ª Companhia da Guarda Real de Polícia, em Lisboa e de sua mulher D Olímpia Sabina do Carmo, natural de Lisboa (São Mamede), então moradores no Quartel de São Bento, casados na Igreja de Santos, em Lisboa a 16 de Abril de 1822, neto paterno de António Maria de Abreu e de sua mulher Maria Teresa, neto materno de José Gaspar e de sua mulher Francisca Quitéria. Era irmão, entre outros, de Miguel Egídio de Abreu, nascido em Lisboa (São Julião), casado em Santa Catarina a 27 de Agosto de 1858 com D Maria Josefa Henriques, nascida no lugar de Pé da Lomba em Santa Catarina (Vila Facaia), Pedrógão Grande a 1 de Junho de 1810, falecida em Santa Catarina, na sua casa da Travessa da Condessa do Rio, n.º 20, 1.º , filha de Manuel Henriques e de sua mulher Maria Josefa, neta paterna de Domingos Henriques e de Gertrudes Maria, moradores na Pelariga, Pombal, neta materna de José Simões e de Josefa Maria, de quem não deixou geração3
Casou na Igreja dos Mártires, em Lisboa a 29 de Junho de 1849 com D Francisca Romana da Luz Bartolomeu, nascida em Carnide em 1831 e falecida a 7 de Junho de 1889, filha de João Baptista Bartolomeu , natural da paróquia de San Marcos Leonardo de Turim e de sua mulher Maria José Apolinária da Silva, neta paterna de Francesco Bartolomeo, e de sua mulher Catherina Giuliana, neta materna de Manuel Francisco e de sua mulher Teodora Teresa, de quem deixou geração.
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Foram moradores na rua da Era, n º 21 em Santa Catarina
A sua obra foi particularmente reconhecida na Exposição de Paris de 1878 (medalha de bronze), 1879 (prata) e 1900 (ouro) tornando-se assim no canteiro de eleição da elite lisboeta e de muitos outros em diferentes pontos do país
No jazigo foram inumados:
- Francisco Serapião da Silva, falecido a 4 de Julho de 1862; - D. Carolina Pratas das Neves, falecida a 20 de Outubro de 1866 (transferida posteriormente para o jazigo 2515);
- D Carlota Joaquina, falecida a 26 de Março de 1869;
- Francisco de Paula e Almeida, falecido em Lisboa (Santa Catarina) a 2 de Março de 1870;
- D Emília de Almeida, falecida em Lisboa (Santa Catarina) a 14 de Setembro de 1870;
- Henrique Peixoto Pinto da Silva, depositado a 27 de Setembro de 1870 sendo proveniente do 3 º Cemitério;
- José Maria de Abreu, falecido em Lisboa (Santa Isabel) a 11 de Março de 1876;
- D. Guilhermina da Fonseca Abranches Costa, falecida em Lisboa (São Nicolau) a 20 de Janeiro de 1879;
- João José de Abreu, falecido a 6 de Agosto de 1880;
- D. Maria das Dores de Almeida Godinho Cabral e Melo, falecida em Lisboa (Santa Isabel) a 3 de Março de 1881;
- Cândido José, falecido a 22 de Junho de 1881;
- Maria, falecida a 29 de Agosto de 1881;
- D Maria Guilhermina da Purificação, falecida a 28 de Outubro de 1887;
- D Libânia Rita da Costa Marrão, falecida em Lisboa (Santa Catarina) a 14 de Novembro de 1888 e posteriormente transferida para o jazigo 4688;
- D Francisca Romana da Luz Bartolomeu de Abreu, falecida a 7 de Junho de 1889;
- D Maria Josefa de Abreu, falecida a 26 de Outubro de 1892
- João Carlos de Amorim Viana, falecido a 29 de Outubro de 1893;
- Severiano João de Abreu, falecido a 21 de Dezembro de 1893 (fundador);
- Feto do sexo feminino, falecido a 22 de Janeiro de 1895:
- Manuel Adelino Nunes de Sousa, falecido a 5 de Março de 1925.
FILIPE
PINHEIRO DE CAMPOS
Doutor em Saúde Pública e Medicina Preventiva Genealogista e investigador nas áreas da Genealogia e História da Família, Arte Cemiterial, Saúde Pública e História da Arte. Professor e formador.
Autor de diversas obras nas áreas de investigação enumeradas e colaborador em diferentes revistas nacionais e estrangeiras Voluntário da Câmara Municipal de Lisboa no projeto “Adopte uma Rua no Cemitério”. pinheirodecampos@gmail com
Para participar deve enviar entre 5 e 8 trabalhos, em formato digital (JPG, PNG ou equivalente), até 15 de setembro de 2026, para cemiterios visitas@cm-lisboa pt
A M E M Ó R I A E M P E D R A E B A R R O : O C E M I T É R I O D E N O S S A
S E N H O R A D O P Ó P U L O E A I D E N T I D A D E C E R A M I S T A D A S C A L D A S D A R A I N H A
Os cemitérios históricos transcenderam, nas últimas décadas, a sua função puramente fúnebre e sanitária, passando a ser encarados como autênticos museus a céu aberto e arquivos vivos de memória O estudo destes espaços permite cruzar dados genealógicos, arquitetónicos, artísticos e sociais, fornecendo um retrato fiel das comunidades do passado.
Na cidade das Caldas da Rainha, o Cemitério de Nossa Senhora do Pópulo assume um papel fulcral na preservação da identidade local É nele que repousam os protagonistas da chamada "Idade de Ouro" da cerâmica caldense (que abrange a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX), uma época de grande efervescência artística, técnica e comercial Este espaço constitui, assim, uma fonte inestimável para conhecer e divulgar o legado daqueles que transformaram o barro na imagem de marca da região.
A "Idade de Ouro" da Cerâmica Caldense
A segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX representaram um período de viragem para a cerâmica das Caldas da Rainha Impulsionada por figuras como Manuel Cipriano Gomes Mafra e, mais tarde, pelo génio de Rafael Bordallo Pinheiro, a cerâmica caldense ganhou contornos artísticos e industriais de relevo internacional.
A este grupo de pioneiros juntaram-se oleiros, escultores, pintores e empresários que fundaram fábricas emblemáticas O seu trabalho combinou o humor e a crítica social com o naturalismo e a inovação técnica, criando peças que ainda hoje definem a cultura local.
Uma das figuras mais importantes é Maria dos Cacos (cujo nome verdadeiro seria, segundo teoria do professor João Bonifácio Serra, Maria Póstuma, nascida em 1790, filha e neta de oleiros – teoria ainda passível de se comprovar). É considerada a primeira mulher a gerir uma unidade de produção cerâmica nas Caldas da Rainha Na sua oficina, que terá funcionado por cerca de trinta anos (1820-1853), laboravam-se peças utilitárias e decorativas que gozavam de grande popularidade, sendo vendidas nas feiras de todo o país Foi precisamente nas instalações desta oficina que se estabeleceram as bases para a transformação da cerâmica caldense num fenómeno de escala maior.
Através da consulta dos registos de enterramentos presentes quer no arquivo da Câmara Municipal, quer no arquivo histórico presente na Biblioteca Municipal, assim como dos registos paroquiais, foi-nos possível identificar algumas sepulturas perpétuas no Cemitério Nossa Senhora do Pópulo pertencentes a figuras incontornáveis da cerâmica caldense deste período, gizando um roteiro temático e uma visita guiada
Roteiro
1. Jazigo Particular n º 24 – Manuel Mafra (hoje pertencente aos herdeiros de José da Costa Xavier)
Manuel Cipriano Gomes Mafra foi uma das figuras mais marcantes da cerâmica portuguesa do século XIX. Nascido a 30 de agosto de 1831, na Saibreira (concelho de Mafra), e falecido a 11 de dezembro de 1905, nas Caldas da Rainha, foi pioneiro na renovação da cerâmica caldense, introduzindo o estilo Neo-Palissy e elevando a produção local a um patamar artístico e industrial de reconhecimento internacional
Filho de um oleiro, Manuel Mafra viajou para as Caldas da Rainha ainda jovem, onde começou a trabalhar em 1850 como operário na fábrica de cerâmica de Maria dos Cacos.
Manuel Mafra assumiu o espaço em 1853, iniciando o seu percurso como ceramista e empresário com o apoio da sua mulher, Maria José, e de suas irmãs, Luíza e Mariana
Ficou conhecido por ser o primeiro ceramista caldense a marcar as suas obras com o seu nome, garantindo a sua autoria e fomentando o prestígio da marca.
O grande salto na carreira de Manuel Mafra deu-se sob o mecenato e a proteção do Rei D. Fernando II, que visitou as olarias caldenses em 1852 e se interessou pelo seu trabalho.
Inspirado nas coleções de arte do monarca e do colecionador José Palha, Mafra adotou o estilo Neo-Palissy, que homenageava o mestre ceramista francês do século XVI, Bernard Palissy.
As suas faianças destacavam-se pelo realismo tridimensional, incorporando elementos da flora e da fauna como rãs, cobras, lagartos e ramagens com vidrados de cores vivas e muito brilhantes.
Introduziu novas técnicas, como a aplicação do efeito "musgado" e "areado". Em 1860, fundou a sua própria unidade, a Fábrica de Louça das Caldas, na Praça D. Maria Pia.
A qualidade e originalidade das suas peças conferiram-lhe enorme notoriedade O seu trabalho foi distinguido em diversas exposições internacionais de grande relevo, como a Exposição Universal de Viena (1873), onde ganhou a Medalha de Mérito; a Exposição Universal de Paris (1878), granjeado com a Medalha de Prata; e a Exposição Portuguesa no Rio de Janeiro (1879), onde também trouxe para as Caldas a Medalha de Prata
Graças ao seu sucesso, a sua fábrica recebeu autorização para usar a coroa real nas suas marcas fabris, e o ceramista tornou-se fornecedor da Casa Real Portuguesa.
A partir da década de 1880, com a morte de D Fernando II em 1885 e o surgimento de nova concorrência nomeadamente a fábrica fundada por Rafael Bordallo Pinheiro , a sua unidade fabril entrou em declínio.
Em 1887, passou a direção da fábrica ao seu filho, Eduardo Mafra, tendo ainda tentado fundar uma nova fábrica em 1897, mas sem o sucesso de outrora
Manuel Mafra faleceu em 1905, mas o seu legado foi fundamental para o reconhecimento da cerâmica caldense. A sua obra provou que a cerâmica poderia ser uma forma de arte e abriu caminho para a "idade de ouro " da região
2 Jazigo Particular n º 26 – José Alves da Cunha e Henriqueta Sezelina Mendonça
O papel das mulheres na história da cerâmica das Caldas da Rainha é um dos capítulos mais fascinantes e, durante muito tempo, pouco documentado do património local. Desde o início da industrialização e da criação artística na região, as mulheres desempenharam funções vitais, indo desde a liderança de fábricas até ao minucioso trabalho de pintura e acabamento que define a faiança caldense Por isso, é tão importante darmos voz às mulheres trabalhadoras que, na sua maioria, se mantiveram anónimas ou, até, secundadas no seu trabalho
Falamos de Henriqueta Sezelina Mendonça. Enviuvou de António de Sousa Liso em 1873 (tinha ele 28 anos e ela 31) com que teve dois filhos (um menino e uma menina), mas morreram ambos crianças. No registo de casamento, ela é identificada como costureira
A partir da morte do primeiro marido, também ele ceramista e dono de uma unidade fabril com alguma importância nas Caldas, passa a ser identificada como fabricante de loiça e oleira. A fábrica de António de Sousa Liso passa para José Francisco de Sousa, e vai adquirir mais tarde os moldes e outros materiais do Visconde de Sacavém
Casou em segundas núpcias com José Alves da Cunha em 1875 Deste matrimónio, foi mãe de mais dois filhos; primeiro um menino, a quem chamaram Benjamim, que também morreu ainda criança; depois Henriqueta Sezelina da Cunha (homónima da mãe) que sobreviveu e continuou o negócio dos pais
José Alves da Cunha já era oleiro quando casou, aos 22 anos, com Henriqueta, tendo esta continuado o trabalho do primeiro marido e nessa continuação vai reforçar a fábrica de José Alves da Cunha com os moldes vindos da fábrica de António de Sousa Liso
Mais tarde, a fábrica vai ser reforçada com moldes e peças de outras fábricas, o que faz dela uma das mais importantes do seu tempo.
Com a morte de José Alves da Cunha, em 1901, a fábrica passa a ser gerida pela filha e pelo genro, Ângelo Marcelino Garcia Ângelo Marcelino Garcia morre em 1910 e a sua viúva, tal como a mãe já tinha feito, continuou o trabalho. Em 1915, o diretor e gerente era Eduardo Elias dos Santos, irmão de Francisco Elias. Henriqueta faleceu em 1902
Amélia Bordalo Pinheiro Lopes de Mendonça, irmã de Rafael Bordalo Pinheiro, foi casada com Henrique Lopes de Mendonça, autor da letra do hino A Portuguesa, mas tarde transformada em Hino Nacional Foi militar, tendo o posto de Capitão de Fragata
Amélia foi sepultada neste cemitério, tendo falecido nesta vila vítima de síncope cardíaca Estando a prestar apoio ao sobrinho, Manuel Gustavo, no seguimento da perda em hasta pública da Fábrica de Faianças do seu irmão Rafael, morre subitamente a 1 de outubro de 1907 no Largo da Água Quente (hoje Largo do Conde de Fontalva), n.º 5. O marido decide sepultá-la aqui, primeiro no jazigo de Joaquim Agostinho da Silva e, exatamente um ano depois, é transladada para sepultura própria.
A Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (FFCR) é uma das instituições mais emblemáticas do património cultural e industrial português Fundada em 1884 por Rafael Bordalo Pinheiro, a fábrica não só revitalizou a tradição oleira local, como também introduziu uma estética inovadora que une o naturalismo, a sátira e a funcionalidade, marcando a "idade de ouro " da cerâmica caldense
Rafael Bordalo Pinheiro escolheu as Caldas da Rainha para instalar o seu projeto devido à vasta tradição cerâmica da região e à proximidade de matérias-primas e recursos naturais, como os barreiros e nascentes de água. O seu objetivo era criar um espaço que aliasse a arte à indústria, promovendo a formação e capacitação dos artesãos locais
O complexo incluía não só as áreas de produção e modelagem, mas também uma escola de cerâmica e instalações sociais para os operários e suas famílias.
As peças produzidas na fábrica destacaram-se rapidamente pela sua originalidade e rigor técnico, beneficiando do recrutamento de mestres e técnicos especializados.
Inspirando-se no estilo Neo-Palissy, a fábrica produziu peças com elementos da fauna e flora (rãs, lagartos, cobras, gatos, andorinhas, folhas de couve, abóboras) em tamanho real e com vidrados brilhantes e coloridos.
A criação de figuras caricaturadas que representavam os tipos portugueses como o Zé Povinho, o Padre Cura, o Polícia Civil e a Ama das Caldas consolidou a marca como um espelho crítico e humorístico da sociedade da época.
O sucesso da fábrica foi rapidamente reconhecido pela crítica e por intelectuais da época, como Ramalho Ortigão Numa famosa descrição, o escritor enalteceu a arquitetura do depósito de vendas, com as suas mísulas de faiança negra e paredes revestidas de azulejos que encantaram o público em exposições internacionais, como as de Paris
A integração dos saberes tradicionais com a visão artística de Bordalo Pinheiro abriu as portas do mercado internacional ao azulejo e à cerâmica portuguesa
Com o falecimento de Rafael Bordalo Pinheiro em 1905, o seu filho, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, assumiu o legado do pai
Após perder a Fábrica de Faianças, em 1907, Manuel Gustavo ergueu um novo espaço fabril que continuou a produzir e a reproduzir os moldes e as obras desenhadas pelo seu pai.
O vasto espólio manteve-se vivo, assegurando que as peças icónicas continuassem a ser fabricadas e comercializadas ao longo do século XX.
Vasco Lopes de Mendonça (1883–1963), filho de Amélia Bordalo Pinheiro e Henrique Lopes de Mendonça, foi uma figura multifacetada e de grande relevo na cultura e nas artes portuguesas do século XX Embora tenha construído uma sólida carreira na engenharia militar, o seu nome permanece intimamente ligado à ilustração, à caricatura e, de forma muito especial, à cerâmica das Caldas da Rainha, através da sua ligação à Fábrica Bordalo Pinheiro A paixão pelas artes fez com que Vasco Lopes de Mendonça dedicasse grande parte da sua vida ao desenho, à ilustração gráfica (tendo ilustrado vários livros de sua irmã Virgínia, também aqui sepultada) e, sobretudo, à cerâmica.
A sua obra cerâmica caracteriza-se pelo humor, pela caricatura e por um forte sentido de observação social e política, mantendo viva a matriz satírica e naturalista da fábrica.
Vasco Lopes de Mendonça foi um exemplo notável de um homem com múltiplos talentos: soube conciliar o rigor técnico da engenharia com a criatividade artística que corria nas veias da sua família. A sua produção para as Caldas da Rainha enriqueceu o espólio da Fábrica Bordalo Pinheiro na primeira metade do século XX, ajudando a perpetuar a "idade de ouro " da cerâmica caldense
Avelino António de Soares Belo nasceu a 19 de janeiro de 1872 na Murtosa (Aveiro) Oriundo de uma família de padeiras de Pardelhas conhecidas como as “Traças”.
O pai era pescador na Foz do Arelho. Aos 11 anos, Avelino junta-se ao pai
Com essa idade, Avelino já demonstrava um gosto e uma destreza notáveis para o desenho. Durante uma visita à região, o Dr José Filipe Rebelo (então médico do Hospital Termal e mais tarde seu diretor) reparou no rapaz a retratar a Lagoa de Óbidos. Surpreendido com o talento, o médico levou os desenhos a Rafael Bordalo Pinheiro, que terá exclamado: “Temos artista! Tragam-me o rapaz!”. A oposição inicial do pai, receoso do futuro nas artes, levou o jovem a fugir temporariamente para Lisboa, onde vendeu jornais para sobreviver.
Após ser trazido de volta por um primo, o pai cedeu e permitiu que Avelino seguisse o seu sonho
Aos 13 anos, Avelino Soares Belo ingressou na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha. Como não tinha onde ficar, chegou a viver no sótão da casa do próprio mestre Bordalo.
Revelou-se um aluno e artesão brilhante Aos 15 anos, já modelava algumas das peças mais complexas da fábrica
Juntamente com outros grandes mestres, como Francisco Elias, assumiu a execução das peças mais exigentes e artísticas desenhadas por Rafael Bordalo Pinheiro. Em 1888, enquanto aluno da Escola de Desenho Rainha D Leonor, participou na Exposição Industrial de Lisboa, destacando-se entre os seus pares.
Após a saída da fábrica original de Bordalo Pinheiro nos anos 1890, Avelino traçou o seu próprio caminho, tendo passado por uma pequena oficina criada pelo Visconde de Sacavém, que apoiava as artes, e cuja casa de veraneio viria, nos anos 80 do século XX, a ser o atual Museu de Cerâmica
Em 1899, Avelino Soares Belo fundou o seu próprio espaço entre a Rua das Olarias e a Rua da Fé (hoje rebatizada como Rua Avelino Belo).
Ficou conhecido pelo rigor técnico e qualidade das suas faianças, produzindo peças em tamanho real, figuras de movimento (como os tipos populares caldenses) e faianças vidradas, mantendo viva a tradição naturalista e satírica da "Idade de Ouro".
Avelino Soares Belo procurou sempre unir os ceramistas da região para enfrentar as crises da indústria do início do século XX Teve uma vida dedicada ao barro e às artes, mas morreu tragicamente nas Caldas da Rainha, a 24 de maio de 1927, por suicídio, devido a dificuldades e desgostos que afetavam o setor.
O seu legado foi continuado pelo seu filho, José Avelino Soares Belo, que garantiu que a Fábrica Belo continuasse a ser um dos polos mais tecnicamente evoluídos da cerâmica tradicional caldense ao longo das décadas seguintes
5. Sepultura Perpétua n.º 95 – Francisco Elias
Francisco Elias dos Santos (1869–1937) foi um dos mais exímios e talentosos ceramistas e escultores portugueses Nascido a 21 de setembro de 1869, nas Caldas da Rainha, destacou-se pela sua mestria técnica e por uma capacidade ímpar no trabalho do barro em miniatura Foi um dos discípulos e colaboradores mais próximos de Rafael Bordalo Pinheiro.
Filho de Elias dos Santos e de Maria José Moreira Branco, Francisco Elias começou muito jovem a sua ligação ao mundo do barro, tendo iniciado a sua atividade em 1886 na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
Frequentou a Escola Industrial Rainha D Leonor (atualmente Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro), onde aprimorou o seu talento para o desenho e a modelação
Rapidamente se tornou um dos colaboradores mais estimados de Rafael Bordalo Pinheiro, trabalhando diretamente na execução de peças de grande envergadura e complexidade, como a monumental Jarra Beethoven e a Jarra Brasil
Após o falecimento de Rafael Bordalo Pinheiro em 1905, Francisco Elias continuou a trabalhar na fábrica sob a direção do filho do fundador, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, até cerca de 1918.
A partir de 1918, passou a dedicar-se em exclusivo à criação de esculturas e grupos em miniatura, trabalhando a partir de um ateliê na sua própria casa e cozendo as suas peças na fábrica do seu irmão, Herculano Elias.
As suas criações destacavam-se pelo rigor anatómico, pela expressividade e pelo detalhe minucioso. Inspirava-se tanto no quotidiano e nas tradições, como em temas religiosos e obras-primas da pintura
Entre as suas obras mais célebres, grande parte hoje exposta em museus de referência, destacam-se: "O Calvário" (1923): (Museu de Évora); "Última Ceia de Cristo" (1924): (Museu José Malhoa); "Os Bêbados" (1922); "Música do Zé Pereiras" (1933): Museu da Cerâmica das Caldas da Rainha; Homenagem a Rafael Bordalo Pinheiro (1906): uma placa comemorativa e rara em terracota que retrata o perfil do mestre.
Francisco Elias faleceu 19 de agosto de 1937 Deixou um legado indelével na história da cerâmica das Caldas da Rainha, provando que o barro não servia apenas para grandes peças utilitárias ou decorativas, mas também para esculpir detalhes delicados à escala de miniatura
A sua arte e o seu rigor técnico criaram uma forte tradição familiar. O seu sobrinhoneto, o mestre Herculano Elias, e outros membros da família, continuaram este percurso e mantiveram vivas as técnicas do miniaturista ao longo das décadas seguintes.
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Jazigo Particular n º 207 – Família Eduardo Mafra Elias
Eduardo Mafra Elias nasceu a 19 de setembro de 1880 e faleceu em 1949 Filho de António Elias dos Santos (irmão de Francisco Elias dos Santos) e de Mariana da Conceição Mafra (irmã de Manuel Mafra). Casou com Lucinda Pereira Neves, filha de Joaquim Pereira Neves, o “Cartaxo” - este trabalhou com Manuel Mafra e Bordalo Pinheiro, onde era exímio nos vidrados e pastas
Eduardo Mafra Elias notabilizou-se também nas miniaturas, tal como o seu tio, Francisco Elias.
Teve um único filho, Eduardo Neves Elias, que nasceu a 7-8-1911
Dedicando a sua curta vida à arte e ao ensino, Eduardo Neves Elias destacou-se sobretudo na componente pedagógica e técnica, lecionando modelação na prestigiada Escola Industrial e Comercial Rafael Bordalo Pinheiro, onde formou e inspirou jovens artesãos da região, transmitindo o rigor e a técnica da tradição caldense
Trabalhou lado a lado com o pai, ajudando a criar e a consolidar a técnica das esculturas e dos presépios em miniatura que celebrizaram o atelier da família na primeira metade do século XX.
Eduardo Neves Elias faleceu prematuramente a 12-05-1940, com cerca de 29 anos de idade, num momento em que a comunidade artística e educativa depositava grandes esperanças no seu futuro.
Para homenagear o seu único filho, Eduardo Mafra Elias mandou construir, em 1940, o Jazigo de Família no Cemitério Nossa Senhora do Pópulo, nas Caldas da Rainha iO jazigo possui um conjunto escultórico de grande valor artístico e com representações religiosas (Nossa Senhora e um Anjo).
A importância histórica e artística do monumento levou o Município e o Centro de Artes das Caldas da Rainha a realizar um minucioso trabalho de conservação e restauro do conjunto escultórico, salvaguardando a memória deste jovem professor e o legado da família Mafra Elias.
A sua vida, embora breve, simboliza as promessas, o talento e a fragilidade dos artistas e professores que tanto contribuíram para a identidade cultural das Caldas da Rainha.
Conclusão
O Cemitério de Nossa Senhora do Pópulo é um elemento vivo da identidade caldense
A sua valorização como fonte de estudo genealógico e cultural é essencial para compreender como as famílias de ceramistas se entrelaçaram na construção da cidade. Divulgar este património junto do público geral garante que o esforço, a criatividade e a técnica dos artífices da "Idade de Ouro" continuem a ser reconhecidos, celebrados e preservados para as gerações futuras.
CLÁUDIA FEIO
É bibliotecária e formadora no CENCAL (Centro de Formação Profissional para a Indústria de Cerâmica) em Caldas da Rainha, onde leciona História da Cerâmica e História da Azulejaria Atua como investigadora independente com foco na História da Cerâmica, Investigação Genealógica, História da Fotografia, História Social do século XIX e História Local Promove visitas guiadas ao Cemitério Municipal Nossa Senhora do Pópulo nas Caldas da Rainha, onde procura recordar figuras importantes da história local e chamar a atenção para o património artístico e simbólico presente no mesmo
5.ª SEMANA CULTURAL
NOS CEMITÉRIOS
10-18 OUTUBRO
2.ª Jornada interdisciplinar sobre cemitérios
16 de Outubro
Marque na agenda
Programa detalhado em Setembro
+informações: cemiteriosvisitas@cm-lisboapt
U M J A Z I G O D I G N O D E U M P R É M I O N O B E L
Em Londres, na popular Fleet Street, existe uma curiosa igreja dedicada a Santa Brígida cuja agulha é constituída por estruturas empilhadas, de dimensões distintas, em que cada uma é sempre de menor diâmetro que a anterior, criando um efeito original, que diríamos semelhante a um clássico bolo de noiva: Wedding Cake é, aliás, o nome pelo qual a igreja é popularmente conhecida; especialmente por se atribuir a essa agulha a inspiração para o primeiro bolo de noiva em camadas, criado por um pasteleiro que vivia nas imediações . 1 2
E se na cidade dos vivos este tipo de cognomes funciona para nos ajudar a identificar rapidamente algumas construções, sem termos de decorar números de polícia e nomes de ruas, o mesmo se passa na cidade dos mortos. Para simplificar a identificação de um jazigo, entre os restantes quinze mil e quinhentos, é mais rápido usar o sobrenome da família ou uma característica que o destaca dos outros, do que dizer o seu número Vejamos: se, para o Cemitério dos Prazeres, dissermos “jazigo particular número 5411”, pouquíssimas pessoas vão visualizar o jazigo a que nos estamos a referir, mas se dissermos jazigo dos Burnay, já será diferente O mesmo acontece com a mesa de marceneiro ou o dado, nomes comuns dos jazigos particulares números 1650 e 3282, respectivamente.
Usando este critério, apelidei carinhosamente o jazigo particular número 4426 do Cemitério do Alto de São João, de bolo de noiva Era uma forma de invocar a sua silhueta delicada e “ em camadas”, a altura do jazigo e até o elemento de remate no topo.
Efectivamente, trata-se de um jazigo muito original, todo composto em pedra de lioz branca, de planta oitavada assente sobre um embasamento quadrado; desenhado para estar num local que permita ser observado integralmente, vale a pena contornar o jazigo, notando as várias fachadas e o gradeamento de ferro com motivos vegetalistas estilizados, de influência Arte Nova, tal como a porta. O acesso faz-se através de dois degraus, que conduzem a um pequeno alpendre prolongado numa galeria perimetral, aberta em arcadas suportadas por colunas Sobre a porta pode ler-se «MATEO BENITO GARCIA / FAMILIA» e, à esquerda, encontra-se a epígrafe que identifica o arquitecto responsável pela direcção da obra: António do Couto (1874-1946), indicando-se abaixo que a obra foi executada pela CMPC – Companhia Portuguesa de Mármores e Cantarias No tardoz, abre-se um vão oval preenchido por um vitral que representa a Nossa Senhora da Conceição, assinado por Ricardo Leone (1891-1971).
No entanto, o elemento que mais se destaca é o lanternim aberto que coroa o corpo central do jazigo: mantendo a planta oitavada, é constituído por oito colunas e encimado por uma cúpula aberta, no topo da qual se vê uma ave de asas abertas. No interior do lanternim encontra-se uma enorme urna cinerária coberta por uma mortalha de pedra, contorcida em panejamentos delicados. Um dia, precisei de o nomear numa publicação.
Com um conjunto de jazigos para identificar, não podendo usar os cognomes, criei uma regra simples: a designação da construção seria o nome, sobrenome ou título do primeiro concessionário Recorrendo aos registos, procurei essa informação Sem surpresa, alguns correspondiam ao nome que estava gravado no jazigo; outros, nem por isso. No caso do jazigo particular número 4426, onde esperava encontrar os Benito Garcia, encontrei um nome distinto e inesperado: no espaço correspondente ao concessionário original lia-se Maria Clementina Relvas iRecordo-me de olhar o nome com espanto e alguma estupefacção. Recordo-me de achar que não seria possível ser a Maria Clementina Relvas, filha do fotógrafo Carlos Relvas (1838-1894) e irmã do republicano José Relvas (1858-1929) mas, ao mesmo tempo, pensei imediatamente: e se for?
I. Um Concessionário Inesperado
Foi fácil perceber que a família Relvas tem um jazigo no Cemitério da Golegã, onde foi inumado o patriarca, a primeira mulher e mãe dos seus filhos, Margarida de Azevedo Relvas (1838-1887) e a filha mais nova, homónima da mãe e também fotografa, Margarida Relvas Navarro (1867-1930).
O filho, José Relvas, tem o seu próprio jazigo de família no Cemitério de Alpiarça, onde se encontra inumado juntamente com os filhos e a esposa No entanto, não encontrei imediatamente informação sobre a última morada de Maria Clementina Relvas (18571934). Aliás, numa primeira pesquisa, a informação disponível relativa a esta filha da família Relvas era pouca, limitando-se a algumas referências dispersas e vários artigos interessantíssimos num blog Mais tarde, foi possível localizar outras fontes , assim como documentação coeva oficial, que ajudaram a clarificar pormenores importantes e a adensar a sua história de vida 3 4 5
Para compreender o jazigo mandado construir por Clementina Relvas e o motivo que a levou a tomar esta decisão, é preciso conhecer um pouco da sua fascinante história
Nascida em 1857, na Golegã, Maria Clementina Relvas era a filha mais velha da abastada família Relvas Educada no convento do Bom Sucesso, em Pedrouços, casou com apenas dezanove anos com José da Cunha d’Eça de Azevedo (c.1834-19?? ), seu primo pela linha materna e que tinha na época quarentena e dois anos Não foi um casamento de amor: decidido pelos pais, o casamento foi um fracasso 6 7
Tendo casado em Agosto de 1876, em Novembro desse ano Clementina abandonou a residência conjugal, separando-se do marido, e refugiou-se no Convento das Grilas em Xabregas, onde ficou durante quatro anos Em 1880, por indicação médica, abandonou o convento, mas continuou a viver uma vida de reclusão, agora na Quinta da Barroca em Torres Novas, propriedade da família. Como a lei portuguesa não permitia o divórcio, Clementina continuava casada com Eça de Azevedo; legalmente, os bens que levara para o casamento eram administrados pelo marido, mas, em 1888, conseguiu que este lhe passasse uma procuração para ela próprias os gerir . Em 1891, Clementina passou uma temporada na Sertã e em Junho do ano seguinte foi viver para Lisboa, em casa de uma amiga, Martina Carolina de Reboli de Bulhões Maldonado (1847-1909), escritora e professora de harpa Visitada e aconselhada pelo irmão do marido, regressou a casa de Eça de Azevedo; conseguiram cinco meses de co-habitação, mas Clementina acabou por refugiar-se novamente com Martina 8
Nessa altura a situação atingiu um novo limite: Eça de Azevedo decidiu anular a procuração que tinha concedido, retirando a Clementina a possibilidade de ter alguma independência financeira . Esta renúncia foi publicada nos jornais da época, imediatamente seguida pela publicação de uma carta de Clementina, expondo a sua situação com o marido e algumas acções do seu pai – que apoiava Eça de Azevedo . Esta visibilidade mediática terá sido um golpe doloroso para a família.
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Em 1894 morreu Carlos Relvas e foi José Relvas quem ficou responsável pelos bens da família, que já administrava há anos, considerando a dedicação do pai à arte da fotografia Em Abril do ano seguinte, Clementina iniciou uma acção judicial para separação de pessoas e bens, tentando desta forma terminar o casamento que começara dezanove anos antes11
O processo foi complexo e, em 1897, o tribunal ceitou a sep
Foi a amiga Martina de Bulhões Maldonado quem apoiou Clementina durante este período, continuando a dar-lhe guarida em sua casa. aceitou a separação, mas manteve os bens de Clementina na gestão de Eça de Azevedo12
Com os bens retidos pelo marido – de quem estava legalmente separada, mas não divorciada – Clementina recorreu a Martina para empréstimos e, em 1902, a segunda colocou a primeira em tribunal, de forma a obter os valores em dívida
Na verdade, penso que o mais plausível é este ter sido um estratagema das duas amigas para conseguirem levar o tribunal a obrigar Eça de Azevedo a libertar algum capital de Clementina, que este continuava a reter na sequência da inadequada decisão do tribunal relativamente à separação de bens Se observarmos atentamente este processo, percebemos que as dívidas reportadas ao tribunal parecem fazer pouco sentido. Ainda que seja compreensível haver valores relativos a empréstimos monetários entre 1895 e 1897 – enquanto corria em tribunal o processo de separação de pessoas e bens – após a sua conclusão, estes continuaram a agravar-se, somando salários de empregados, viagens a Paris, e, incompreensivelmente, a venda de imóveis e, até, de uma valiosa harpa Erad . Se Clementina não tinha conseguido pagar os empréstimos, como poderia comprar propriedades e objectos de luxo? 13 14
Além disto, é importante recordar que as duas mulheres continuaram uma convivência estreita; a sua amizade manteve-se e, até, parece ter-se intensificado já que, nos anos seguintes, escolheram morar lado a lado, ocupando os rés-do-chão esquerdo e direito d
do n º 27 da Rua Mouzinho da Silveira e, mais tarde, voltaram a morar juntas Quando Martina morreu, em 1909, a sua morada era o n º 17 da Rua Fontes Pereira de Melo, onde também habitava
Clementina . 15 16
Com a implantação da República, em 1910, e as consequentes mudanças legislativas, tornou-se possível avançar com o processo de divórcio. Em 1912, com 55 anos, Clementina obteve finalmente a liberdade que procurava desde 1876.
Foi neste período, mais precisamente em Agosto de 1915, que Clementina apresentou um requerimento à Câmara Municipal de Lisboa para a concessão de um terreno no Cemitério do Alto de São João, com o objectivo de construir um jazigo.
O que levanta imediatamente a questão: porquê? Qual a motivação de Clementina para mandar construir um jazigo nesta altura?
II Um Ocupante Inesperado
Entre o espólio de Teófilo Braga disponível no site do Museu da Presidência, encontra-se um cartão enviado por Clementina Relvas, convidando-o a participar numa cerimónia no Cemitério do Alto de São João, a ter lugar no dia 20 de Dezembro de 1915 O cartão-convite explica que a cerimónia tem por objectivo o lançamento da «pedra fundamental» do jazigo de homenagem a Martina de Bulhões Maldonado. 17
Martina foi uma das amigas de Clementina Relvas, alguém que descreviam até como sua «mãe adoptiva» , que a apoiou durante o processo de separação de Eça de Azevedo, com quem dividiu casa e, possivelmente, com quem criou um estratagema para conseguir aceder ao próprio capital, detido pelo marido Mas para além disto, quem era Martina de Bulhões Maldonado? 18
Martina Carolina Reboli de Bulhões Maldonado nasceu em Penafiel, em 1847, filha do negociante italiano Thiago Reboli e da espanhola Maria Antónia Fernandes Reboli; escritora e professora de harpa no período em que foi amiga de Clementina, apresentava-se como «ex-Directora e Professora do Recolhimento de Nossa Senhora da Serra em Nova Gôa (India)» . Foi para a Índia em 1882, mas sobre sua vida entre 1847 e 1885, ano em que regressou a Lisboa por motivos de saúde , temos apenas alguns fragmentos. 19 20
A primeira informação que encontrei é uma referência ao seu casamento, na freguesia lisboeta de São Paulo, com Joaquim Leandro de Bulhões Maldonado (1815-1882?) O casamento ocorreu em 1876, meses depois da futura amiga Clementina casar, dias depois desta procurar refúgio no Convento das Grilas
Joaquim Leandro, era viúvo e trinta e dois anos mais velho que Martina, um ponto em comum na vida das duas mulheres, já que Clementina tinha uma diferença de vinte e três anos do seu marido.
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Trabalhou como escrivão do Juízo de Direito da Comarca de Luanda na década de 1850 , trocando o direito pela área da banca, ficou até associado à resolução de um caso de falsificação de notas em Angola em 1878 . Na década de 1880 surge como vice-gerente da sucursal de Luanda do Banco Nacional Ultramarino .
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No Verão de 1880, Martina de Bulhões Maldonado surge na lista de passageiros do vapor La Plata, a caminho de Luanda A própria refere a sua coragem ao «sulcar oito vezes os mares para a Asia e para a Africa» , pelo que esta seria uma dessas vezes, possivelmente um regresso a casa e ao «excellente collegio» que aí estabeleceu. Do marido, sabemos que em 1882 abandonou o cargo no banco e deixou Luanda, tendo-se «retirando para a Madeira por incommodo de saúde» ; tinha sessenta e oito anos e a esposa trinta e cinco. Provavelmente, Martina tê-lo-á acompanhado na viagem.
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O mais provável é Joaquim Leandro ter sucumbido ao tal «incommodo de saúde» na Madeira em 1882, uma vez que foi nesse ano que Martina partiu para a Índia: um trabalho na área da educação, ainda para mais com características de missão religiosa, seria socialmente aceitável para uma viúva e, em algumas situações financeiras, até desejável
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Nos seus livros, Martina conta algumas das provações – ou aventuras – por que passou enquanto estava na Índia, referindo a coragem que se vira obrigada a reunir para «atravessar de noite essa floresta a pé e as pantheras, os Leões e todas as féras de que é juncado esse sitio, passavam em torno de nós» ou conseguir resistir e sobreviver com «o recolhimento cercado de salteadores e assassinos que tinham a cabeça a preço de oiro a quem os entregasse» , tendo mesmo de «armar todas as recolhidas» para fazerem rondas, «por ter fugido a guarda» . As suas memórias, se as tivesse escrito, poderiam ser um testemunho fascinante da condição feminina no último quartel do século XIX
De volta a Portugal continental, em 1885, no decurso de febres que a terão deixado à beira da morte, passou a realizar anualmente uma celebração em honra da Imaculada Conceição de Maria na Real Capela da Memória, na Ajuda, seguida de um beberete em sua casa ou num hotel, cumprindo assim uma promessa feita em horas de aflição.
Como já vimos, terá sido em 1891 que conheceu Maria Clementina Relvas, de quem se tornou inseparável amiga; nos anos seguintes publicou várias obras, chegando mesmo a dizer «seres tu [Clementina] que me compulsas sempre aos grandes empreendimentos », conferindo-lhe, em parte, a responsabilidade pela coragem de escrever e publicar É autora de A vida da Virgem Maria ou o caminho celestial (1898), Duello de morte: crítica aos livros de Guerra Junqueiro e Padre Senna Freitas (1900) e A vida de Todos os Santos (1908), todos eles considerados «obras de caracter religioso»33
Na introdução do seu livro Duello de morte, explica que existem «trez obras» que pretendia fazer antes do fim do século; a primeira seria «uma capella onde dê morada condigna ás minhas idolatradas Imagens, doces companheiras de minha vida, que teem sido meu comforto e alegria por todo o mundo por mim percorrido, que me teem suavisado as agruras da vida!» Curiosamente, explica que «conto com as boas almas que vão comprando o meu livro – A vida da Virgem Maria» como forma de financiar tal empreendimento. O sucesso deste livro – agora esquecido – foi suficiente para que, a 30 de Junho de 1900, num epílogo à obra, refira ter começou a construir a capela num terreno na «rua Fontes Pereira de Mello, tornejando para a rua G» que, entre 9 de Março de 1901 e 29 de Novembro de 1902, ganhou temporariamente o nome de Rua D. Martina , antes de se passar a chamar Rua Andrade Corvo Não há registo da capela não ter sido concluída
Em 1906, contrariando as regras, Martina de Bulhões Maldonado escreveu aos reis da Suécia, candidatando-se ao Prémio Nobel, submetendo um conjunto de cartas abonatórias sobre os seus livros, escritas por diversas personalidades, onde se incluíam as rainhas portuguesas D Amélia e D Maria Pia, a rainha de Espanha, o núncio apostólico em Portugal, o bispo de Pouso Alegro (transmitindo a bênção apostólica dos papas Leão XIII e Pio X) e até Bulhão Pato e Luiz de Sommer . 40
A sua relação de amizade e devoção mútua para com Maria Clementina Relvas continuou: ambas eram mordomas de Santa Rita, na confraria da Real Capela da Memória e viveram juntas (ou lado a lado) até à morte de Martina de Bulhões Maldonado, em 1909 Aliás, é Maria Clementina Relvas quem acompanha Martina (que sofria de Mal de Bright ) durante a sua «longa doença» e quem, finalmente, faz publicar o anúncio da morte da sua «extremosa amiga» n ’O Século. O próprio jornal faz uma notícia elegíaca sobre o falecimento, descrevendo Martina como «extraordinariamente esmoler, consagrava grande parte da sua avultada fortuna a socorrer os pobres que á sua caridade directamente recorriam e a contemplar algumas instituições de beneficencia da capital»
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Apesar de nada ser dito sobre o velório, chegou até nós um conjunto de sete fotografias – da autoria do fotógrafo Eduardo Alexandre Cunha (187?-1959) – que o documentam : primeiro, em casa da falecida, com Martina deitada na sua cama, rodeada de amigos e família e depois no que parece ser uma capela , já depositada no seu caixão e também na companhia de amigos e família 45 46
As imagens são fantásticas e cheias de informação relevante. No grupo registado em casa, vemos Martina deitada numa cama de dossel, de cortinas brancas recolhidas, as paredes ponteadas com quadros e recordações; junto da cabeceira, sobre um braço do canapé, vemos Clementina prostrada sobre uma pilha de almofadas, olhos abertos e perdidos, fixos no rosto de Martina. Noutra imagem, Clementina encontra-se de costas para o fotógrafo, o rosto a três quartos, tendo cedido o espaço junto da cabeceira a uma harpa, decorada com um fúnebre bouquet de flores e, do lado oposto, sobre o colchão, os livros escritos por Martina, com o Duello de morte no topo.
Observando a harpa da fotografia, percebemos ser a harpa Erard, comprada em Londres, que Martina usava para as suas aulas e que vendeu a Clementina, constando o seu pagamento do inventário do tribunal como parte da dívida A presença da harpa entre as duas mulheres, neste registo dos momentos finais do corpo de Martina na terra, não permite perceber a quem o objecto pertence, parecendo reforçar a hipótese de que o processo em tribunal terá sido uma farsa Curiosamente, a harpa vai continuar na posse de Clementina até aos seus últimos dias , ganhando quase o estatuto de símbolo.
Nas quatro imagens da capela, voltamos a ver Clementina em duas delas, numa com a mão dentro do caixão, junto da cabeça da amiga Um grande volume de flores decora o caixão aberto – crisântemos e, talvez, rosas em tecido? – e os livros de Martina voltam a surgir, agora junto dos pés da falecida, no interior do caixão Provavelmente, terão sido enterrados com ela
O funeral é anunciado na imprensa para 20 de Dezembro no Cemitério dos Prazeres, no entanto, é «em jazigo de familia, no cemiterio oriental» que foram depositados os restos mortais de Martina de Bulhões Maldonado. Inesperadamente, o nome de Maria Clementina Relvas não aparece na notícia, não fazendo sequer parte da lista de pessoas que cumpriram os turnos da borla entre a entrada do cemitério e o jazigo 48 49
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Quando descreve o funeral, o jornalista refere que «sobre o feretro foram depostos muitos ramos de flores e corôas, oferecidas pela filha e sobrinhos da extincta» ; sendo que Martina morreu sem descendência e que já a vimos ser referida como «mãe adoptiva» de Clementina, talvez o jornalista também o tenha pensado e seja esta a marca da sua presença.
Assim, Martina Carolina Reboli de Bulhões Maldonado foi inumada no jazigo particular número 2995, na rua 19 do Cemitério do Alto de São João, concessionado inicialmente em 1897 a Miguel Redondo Jimenez, associado à família Bulhões Maldonado e em cujo frontão se encontra um baixo-relevo de uma saudade
III «Ninguem tenha horror á morte porque é ella que nos dá a eterna vida!»51
No registo de óbito indica-se que Martina de Bulhões Maldonado que não deixou filhos nem testamento, mas deixou publicada a sua «primordeal e ultima vontade» , dizendo que pretendia que fizessem «repousar o meu corpo na minha capella, na capella mór, ao lado do evangelho, e sobre a pedra tumular se grave os versos em que fallo no meu livro A vida da Virgem Maria» . 52 53
A capela não chegou a ser concluída e, mesmo que fosse, não eram permitidos enterramentos fora dos cemitérios, pelo que, quando Martina morreu, não foi possível cumprir esse seu desejo Efectivamente, Martina queria ser inumada no interior de uma igreja, pois considerava que aí «havia mais amor, veneração e fé» e, ao mesmo tempo, dizia «não quero repousar n ’ um campo santo, porque n ’ um dia de tormenta, teria frio e medo» e reforçava «não, não quero que repouse o meu corpo n ’ um campo santo, quero que as preces, lagrimas e flôres que me offerecerem estejam sempre cobrindome, como me cobrirão todo o meu corpo as folhas soltas dos meus livros, servindo-me tambem dois para descanço de minha cabeça, e assim ninguem terá horror de se aproximar de mim» 54 55 56
Os livros foram consigo, no interior do caixão e, muito provavelmente, Clementina recordaria estes pedidos feitos e não cumpridos A amiga não podia ser inumada na capela da cidade, como inicialmente imaginava, mas podia ser inumada numa capela construída no interior do cemitério.
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A 4 de Dezembro de 1914 era «convertida em divórcio definitivo a separação dos cônjuges D. Maria Clementina Mascarenhas Relvas ( ) e Dr José da Cunha Eça Avezedo» , na sequência da «sentença, de 26 de Julho de 1912» . Estava assim finalmente concluído todo o processo.
Finalmente livre - e certamente com o propósito de responder o melhor possível ao último pedido da amiga Martina, que nunca a abandonou - Clementina concessionou um terreno quadrado, com 6,4 metros de lado, no Cemitério do Alto de São João, em Junho de 1915, apresentando uma proposta para construir um jazigo de capela exuberante e original, que no interior colocava em destaque o caixão de Martina.
No projecto que consta do macroprocesso, na planta não assinada, encontram-se estátuas a pontuar o conjunto: figuras mmasculinasculinas, de livros na mão, que claramente parecem evocar os Evangelistas e, no interior do lanternim – onde agora vemos uma urna coberta – está uma imagem que parece representar a Nossa Senhora da Conceição, em honra de quem Martina fazia a sua celebração anual e a mesma que se encontra reproduzida no vitral.
Efectivamente, as obras arrancaram rapidamente após a conclusão do processo, permitindo marcar uma sessão de homenagem e «lançamento da pedra fundamental do tumulo-monumento erigido á memoria de D. Martina Carolina Reboli de Bulhões Maldonado» para o dia 20 de Dezembro de 1915, seis anos exactos após o seu funeral Essa é a sessão para a qual foi convidado Teófilo Braga, conforme o já comentado cartão-convite que se encontra entre o seu espólio.
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No diário vespertino A Capital, de dia 20 de Dezembro de 1915, noticiou-se a cerimónia como tendo sido «brilhante e commovente» , com a presença de «numerosas pessoas da nossa melhor sociedade» , mas sem referência a Teófilo Braga que, em Outubro desse ano, tinha deixado de ser Presidente da República e vivia novamente dedicado à vida académica
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Refere-se que D Luiza de Sousa leu uma poesia escrita por si, intitulada Preito de Saudade e que intervieram, tomando a palavra, Carneiro de Moura e os reverendos João Marques e Joaquim José Branco. Foi ainda distribuído um folheto com uma poesia que, apesar de não nos ter chegado, ficaram as palavras imortalizadas no jornal:
«Em santo e doce envelo alegra-se o céu,
Os anjos cantam: entoam hymnos a Martina!
Junquemos de pétalas de rosas o percurso triumphal
Emquanto a terra se reveste de gala divina »62
Ficam ainda algumas notas sobre o jazigo: indicam que terá nove metros de altura, encimado por «symbolos de fé» e que «nos quatro frontões erguer-se-hão as figuras allegoricas da Sciencia, da Poesia, da Musica e do Trabalho» , referindo o envolvimento do escultor Francisco dos Santos (1878-1930) Quanto ao arquitecto, atribuem o desenho a Edmundo Tavares (1892-1983), referindo António do Couto como um dos «outros artistas [que] collaboram na obra» . Como construtor, remete-se para António Moreira Rato. 63 64 65
Curiosamente, há alguns anos, encontrou-se no repositório online do Arquivo Municipal de Lisboa uma fotografia que, à luz do que sabemos agora, deverá ter sido tirada neste dia, talvez depois de terminada a cerimónia ou alguns dias depois Nela podem ver-se as fundações, a cripta e o embasamento do jazigo, com um pequeno murete. Atrás do murete, um homem de aparência simples e, sobre o murete, três mulheres Durante muito tempo, sabíamos que a fotografia apresentava as fundações do jazigo particular número 4426 – cuja planta oitavada é suficientemente incomum para ser de fácil identificação – mas nunca se tentou identificar as pessoas que estavam na fotografia. Quando percebemos que o jazigo tinha sido mandado construir por Clementina Relvas, observei os rostos mais atentamente e percebi que a figura da esquerda seria ela
Que milagre: encontrar uma fotografia da construção do jazigo e nela ver a sua encomendadora.
Apesar de tão auspicioso
arranque, a construção não correu de feição. O prazo de construção era de um ano, mas em Setembro de 1916, a construção ainda não estava completa; nem estava em Setembro de 1917. Não sabemos exactamente o que aconteceu, mas sabemos que a Europa também estava em Guerra, dificultando o acesso a mão de obra e materiais de qualidade e a obra foi-se arrastando 66
A 22 de Maio de 1918, dia de Santa Rita de Cássia, Maria Clementina
Relvas voltou a casar – agora por escolha própria – com Manuel
Hipólito Ferreira, celebrando-se o casamento na Capela da Memória, na Ajuda
Desta vez, o casamento durou quatro meses e o processo de divórcio, litigioso, demorou cinco anos.
O jazigo continuava em construção, mas agora, o processo em tribunal impactava o andamento dos trabalhos A Câmara Municipal de Lisboa tinha vindo a cobrar as devidas multas e a conceder as prorrogações de prazo pedidas, mas a 26 de Junho de 1921, Maria Clementina Relvas viu-se obrigada a apresentar uma justificação detalhada para a falta de andamento da obra.
Começava por invocar o processo de divórcio litigioso que se encontrava a decorrer e que lhe permitiria retirar os seus bens da administração do seu marido e dar assim continuidade aos trabalhos de «construção do meu Tumulo Monumento» Explicava que «sendo importante e muito trabalhosa a Obra impossivel foi concluil-a no curto prazo imposto Estava porém bastante adiantada o que se depreende pelo que já está feito em Pero Pinheiro nas oficinas do Construtor Sr Antonio Moreira Rato, além do alicerce já construido com uma medida de 6 metros e 40 na sua maior largura e 6 metros e 40 de profundidade – quando a Providencia Judicial veio interromper o projecto de estar brevemente concluído o que espero conseguir logo que se decrete a sentença da separação de bens» . 67 68
Reforçava que «o meu empenho em fazer este monumento é enorme» , pedindo por esse motivo a possibilidade do prazo de construção ser novamente prorrogado até volta a ter acesso às suas rendas e propriedades. Por fim, reiterava que «ao retomar a administração [dos seus bens] se procederá imediatamente à construção do Monumento interrompido» 69 70
Finalmente, a 20 de Fevereiro de 1924 Maria Clementina Relvas encontrou-se divorciada pela segunda vez. A sua condição financeira parece ter-se degradado, em parte devido a questões legais e processos que mantêm em tribunal ; talvez por isso, apesar do desejo anteriormente expresso, as obras do jazigo particular número 4426 não foram retomadas. 71
Por esses anos «a sua situação financeira era preocupante» , mas Clementina continuou a pagar as multas pelo atraso da construção do jazigo e a fazer pedidos de prorrogação até 1932, quando vendeu o terreno e o jazigo ainda em construção à CPMC . A Companhia ficou com o encargo de concluir a construção, responsabilizando-se pelo que fosse necessário junto do empreiteiro e da própria Câmara de Lisboa. Clementina conseguiu o valor de quinze contos: «dez mil escudos em dinheiro, que (…) recebeu neste acto» e «os restantes cinco mil escudos (…) para serem entregues a Dona Aurora Sarmento» 72 73
74 75
Este é um nome que aparece recorrentemente no final da vida de Maria Clementina Relvas, surgindo como sua procuradora e credora, acusada de «lançá-la na miséria, penhorando-lhe as rendas que lhe restavam e das quais necessitava para viver» De facto, em Fevereiro de 1933, Maria Clementina Relvas submete um auto de insolvência civil, alegando não dispor de meios para assegurar a sua subsistência . 76 77
No dia 17 de Abril de 1933 – um ano depois de vender o jazigo que tanto queria construir para homenagear a sua queria amiga Martina de Bulhões Maldonado – Maria Clementina Relvas faleceu no serviço de banco do Hospital de São José Dois dias depois, à uma da tarde, o seu corpo foi inumado no jazigo municipal número 840.
O jazigo que Clementina idealizou continuou a ser erigido A CPMC submeteu um conjunto de alterações assinadas por António do Couto, procurando simplificar a construção, especialmente a componente escultórica e, assim, reduzir os custos da obra Desapareceram as estátuas – fossem elas Virtudes ou Evangelistas –, eliminou-se a porta posterior para acesso directo à cripta e substituiu-se a figura da Nossa Senhora da Conceição por uma urna cinerária coberta por uma mortalha que, para um olho mais cuidadoso, percebe-se não pertencer no interior do lanternim Não sabemos exactamente em que momento a construção do jazigo particular número 4426 foi concluída, mas em Abril de 1938 a sociedade por quotas Pardal Monteiro, Lda adquiriu vários jazigos à insolvente CPMC, entre os quais este que, à época da venda, «se encontram desocupados de cadáveres» Finalmente, em 1941, o jazigo particular número 4426 passou a ser propriedade da família Benito Garcia.
Conclusão
Findos os trinta anos de cedência inicial, os restos mortais de Maria Clementina Relvas foram considerados abandonados, retirados do jazigo municipal e inumados numa das valas de ossadas que, por essa altura, ainda existiam no Cemitério do Alto de São João Mais tarde, o jazigo de família onde foi inumada Martina de Bulhões Maldonado em 1909, foi também considerado abandonado, os seus restos mortais retirados e inumados noutra zona do Cemitério do Alto de São João
No final, os restos mortais das duas amigas não ficaram na capela que Martina queria construir em honra de Nossa Senhora da Conceição, nem no jazigo de capela que Clementina quis construir para homenagear a amiga, mas acabaram juntas, entre os restos mortais abandonados do Cemitério do Alto de São João
Duas vidas ímpares, com percursos diferentes, unidas por uma amizade criticada, mas que permaneceu para lá da morte. E que nos lembra que os cemitérios guardam memórias e que qualquer jazigo pode esconder histórias e vidas que não podemos deixar perder
Agradecimentos no apoio à investigação e cedência de imagens:
Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada; Câmara Municipal da Golegã e Casa-Estúdio Carlos Relvas; Câmara Municipal de Alpiarça e Casa dos Patudos –Museu de Alpiarça; Câmara Municipal de Torres Novas; Museu da Presidência. Arquivo Municipal de Lisboa e Hemeroteca Municipal de Lisboa.
Cláudia Feio, José Raimundo Noras, Vanessa Batista e, claro, Sara Gonçalves, que descobriu a fotografia dos alicerces do jazigo e deu o mote para a investigação.
39 Este é um ponto que merece ser aprofundado, mas cujo foco do texto obriga a deixar p
40 POITOUT, op cit , p 31
41 Designação de época para problemas renais
42 O Século, N º 10064, 20 de Dezembro de 1909
43. O Século, N.º 10063, 19 de Dezembro de 1909.
44 Ibidem
45 Fotografias pertencentes ao Arquivo Municipal de Lisboa, fundo Eduardo Alexandre Cun
46 Considerando a sua devoção, poderá ser uma sala de velório na Real Capela da Memór
47 Quando, a 1 de Fevereiro de 1933, Clementina requereu um auto de insolvência civil, na l estavam na sua posse, encontra-se «uma harpa marca Erard e o respetivo estrado» Cf
48 O Século, N º 10065, 21 de Dezembro de 1909
49 No século XIX e princípios do século XX, considerando que os caixões para inumação em com uma urna de chumbo no interior, estes tornavam-se muito pesados Assim, eram col que chegavam ao cemitério, puxadas ou empurradas por coveiros Como última homena considerando a dificuldade de pegar o caixão, existia a prática de amarrar uma fita – o borla na ponta – às pegas do caixão; durante o percurso no cemitério, os amigos do fale segurar essa fita, mimetizando desta forma o transporte do féretro
50 O Século, N º 10065, 21 de Dezembro de 1909
51 MALDONADO, op cit , p 67
52 Ibidem, p 67
53 Loc cit
54.Ibidem, p. 68.
55 Loc cit
56 Ibidem, p 69
57 Diário do Governo, III Série, N º 286, 8 de Dezembro de 1914
58 Ibidem
P E D R A S E O B R A S
Dos cerca de 190 trabalhadores da Divisão de Gestão Cemiterial, mais de metade desempenha funções operacionais, sobretudo como coveiros. Em contrapartida, nas áreas especializadas essenciais à manutenção dos cerca de 85 hectares que constituem os sete cemitérios de Lisboa, os recursos humanos são escassos. Profissões como calceteiro, pintor, serralheiro ou carpinteiro estão subrepresentadas e, em alguns casos, inexistentes, o que condiciona a capacidade de resposta às necessidades de conservação e manutenção destes espaços
No entanto, para resolver problemas do dia a dia e melhorar a qualidade de espaços e equipamentos organizam-se equipas operacionais que juntamente com equipas transversais da Direção Municipal realizam com brio e entusiasmo trabalhos importantes e que muitas vezes passam despercebidos
Estas intervenções, algumas com uma dimensão tal que poderiam ser enquadradas numa empreitada, são tão diversas como construir um cendrário, recuperar um edifício ou reparar calçadas ou gradeamentos
O Cendrário do Alto de S João surge como resposta à crescente procura pela cremação e consequente necessidade de criação de um local digno para colocação de cinzas Todo o material empregue na construção deste espaço foi reaproveitado, sobretudo de uma grande intervenção em muros de suporte, em que as pedras bujardadas que serviam de capeamento a esses muros foram aqui empregues para fazer um novo pavimento e tampas para os diversos cendrários. Com o tempo, foram sendo plantadas Tuias, Oliveiras e outros elementos que transformaram o espaço que é hoje visitado por tantas famílias.
Esta solução de cendrários foi posteriormente replicada nos restantes cemitérios, pelos meios próprios de cada um e numa escala mais pequena
No cemitério dos Olivais, face ao esgotamento da capacidade do depósito de cinzas existentes e enquanto não avança a empreitada que prevê a construção de uma grande área com cendrários junto ao Crematório, foi necessário dar resposta às necessidades atuais e construiu-se um novo cendrário, no prolongamento do existente, com o apoio da equipa transversal da DMAEVCE e dos operacionais do cemitério, recorrendo a materiais existentes
Usado para depósito de ossadas a aguardar vaga para cremação, o edifício em madeira existente no cemitério de Benfica, aguardava há muito uma recuperação total ou a sua demolição Face ao estado de degradação seria espectável a demolição, no entanto com recurso à imaginação, boa vontade e materiais existentes foi dada uma nova vida ao edifício.
Todo o exterior foi revestido a madeira envernizada, substituindo as placas que estavam em avançado estado de degradação Também no interior foi feita uma grande remodelação, permitindo que o espaço de trabalho seja agora funcional e confortável e visualmente agradável
No cemitério do Alto de S João, na rua 57, junto a um chafariz revestido a azulejo, encontra-se um gradeamento em ferro que, à primeira vista, pouco se distingue de tantos outros. Mas um olhar mais atento permite decifrar a simbologia da vida e da morte: tochas acesas e caveiras O tempo deixou marcas de ferrugem e vários danos, mas, graças a um cuidado trabalho de limpeza e pintura renasceu e recuperou o seu valor
Os cemitérios de Lisboa, em particular os do Alto de São João, dos Prazeres, da Ajuda e de Benfica, integram alguns dos importantes conjuntos de calçada artística da cidade. A conservação deste património, constituído por elaborados desenhos em pedra miúda branca e preta, depende atualmente do trabalho de um único calceteiro pertencente aos quadros da Divisão, responsável pela manutenção de extensas áreas distribuídas pelos vários cemitérios municipais.
Além desta manutenção existem trabalhos frequentes de reparação de buracos, roturas, desagregação de pedras ou fenómenos dispersos, como foram os temporais de 2025 e 2026 em que mais de duas centenas de árvores caíram nos cemitérios. A acrescer aos danos em jazigos provocados pelas árvores, as raizes arrancadas provocaram crateras gigantescas nos arruamentos arrasando dezenas de m de betuminosos e calçadas. Muito deste trabalho será feito por empreitada, mas em muitas situações, têm vindo a ser repostas calçadas, caleiras e caldeiras de árvores.
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Os bancos de jardim existentes nos cemitérios são alvo de um trabalho contínuo de manutenção e recuperação A substituição de ripas de madeira degradadas, o tratamento das estruturas metálicas e a pintura ou envernizamento regular permitem prolongar a vida útil destes elementos
Estas intervenções contribuem para uma imagem mais cuidada dos cemitérios, devolvendo funcionalidade e dignidade a elementos essenciais do espaço público.
O edifício dos Serviços Administrativos do Cemitério dos Prazeres irá ser alvo de beneficiação profunda Enquanto se elabora o projeto de reabilitação e se prepara empreitada, é necessário, por um lado dar melhores condições de trabalho a quem ali passa o seu dia, mas também melhorar a imagem daquele que é um dos mais emblemáticos cemitérios da cidade O interior, apresentava rebocos pulverulentos, tinta a descascar e caixilharias de madeira estavam ressequidas e sem tinta Foi executado um trabalho exaustivo de limpeza, decapagem de tintas velhas, betumagem e pintura de todas as caixilharias de madeira devolvendo ao edifício um aspeto digno e cuidado
A limpeza e pintura do interior permitiu aos funcionários auferir de melhores condições de trabalho num ambiente mais limpo e luminoso.
Ficam por apresentar muitos dos trabalhos que foram sendo realizados ao longo dos últimos meses e anos Recuperações de muros e muretes, pinturas de paredes, recuperação de compartimentos municipais, reparação de escadas, colocação de guardas, reparação de roturas, plantação de flores, um sem número de pequenas melhorias, que contribuem para que, apesar de tudo, os nossos cemitérios apresentem melhores condições de utilização, conservação e acolhimento
Serve este texto também para reconhecer e agradecer o trabalho que têm feito tantos e tantos trabalhadores
Quando surgem perguntas das crianças sobre a morte, é comum ouvir: “ mas essas perguntas não têm resposta!”. Algumas permanecem misteriosas; outras admitem mais do que uma resposta válida, e é nesse espaço que o diálogo acontece
Um dos livros recomendados no boletim anterior procura precisamente responder a perguntas sobre a morte formuladas por crianças e jovens: ¿Así es la muerte?, de Ellen Duthie, Anna Juan Cantavella e Andrea Antinori (Wonder Ponder)
Perguntar pela morte é também perguntar pela vida, e isso nem sempre é confortável
Pergunta a pergunta, leitura a leitura, página a página, vamos aprendendo, em conjunto, a habitar e a gerir esse desconforto.
Boas leituras e boas perguntas!
Notas sobre o Luto, de Chimamanda Ngozi Adichie, D. Quixote
James Nwoye Adichie morre no dia 10 de Junho de 2020, na Nigéria. A sua filha, Chimamanda, viu o mundo desabar quando recebeu a notícia através do seu irmão Nada apontava para esta morte, já que o seu pai tinha desenrolado a sua rotina habitual nesse dia e nos dias anteriores. Este é um livro que nos convida a pensar sobre o luto e, sobretudo, sobre as histórias partilhadas em vida que depois assumem o lugar de memórias.
Will my cat eat my eyeballs?, de Caitlin Doughty, W W Norton & Company
Caitlin Doughty é uma agente funerária que tem coleccionado perguntas de crianças sobre a morte, o que inclui perguntas muito específicas sobre a sua profissão Neste livro a autora avança com respostas para perguntas como “Todas as pessoas cabem num caixão? E se a pessoa for mesmo muito alta?”, “É verdade que as pessoas veêm uma luz quando morrem?” ou “Porque é que mudamos de cor quando morremos?”
4000 Semanas, de Oliver Burkeman, Objectiva
O jornalista e autor Oliver Burkeman convida as pessoas leitoras (e mortais) a pensar sobre o tempo e a finitude, bem como sobre a gestão do tempo, a nossa relação com o trabalho e com a procrastinação, e ainda sobre as nossas escolhas e decisões
Gato Comum, de Joana Estrela, Planeta Tangerina
Gato Comum faz parte da colecção Dois Passos e Um Salto da Planeta Tangerina, pensada para adolescentes e "outros leitores mais crescidos".
Joana Estrela é a autora deste livro que nos fala do Manel, o gato da família que adoece e exige da família uma decisão difícil
Memento Mori, de Conce Condina e Aurore Petit, Rouergue
Memento Mori é um livro de perguntas e respostas Cada dupla página convida a pensar a morte através de perguntas diferentes que nos visitam no quotidiano. Basta estar vivo para pensar sobre a morte.
Quando as coisas desacontecem, de Alessandra Rosco e Odilon Moraes, Alfarroba
Considero a palavra “desacontecer” muito bonita e infantil, capaz de abrir um campo de pensamento inesperadamente profundo O livro parte dessa ideia para explorar o que significa quando algo deixa de acontecer, especialmente quando falamos de vida e morte Tanto o texto como as ilustrações sugerem uma atmosfera de passagem entre a vida que acontece e a vida que desacontece.
JOANA RITA SOUSA
joana rita sousa é mortal, filósofa e perguntóloga. Em 2024 criou as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais. Publicou o livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, em 2025
P E R G U N T A R N Ã O M A T A : O S C E M I T É R I O S C O M O P O N T O
D E P A R T I D A P A R A O D I Á L O G O
Sugestões para o diálogo em família e nas comunidades escolares
Materiais necessários: curiosidade, tempo, calçado confortável, protector solar (nos dias de maior calor), um caderno, lápis ou canetas para fazer registos manuscritos e um telemóvel ou máquina fotográfica
Nota: Este guia foi pensado para ser explorado em família ou em contexto escolar. Sempre que possível, deixe que sejam as crianças a ler as propostas e as perguntas, bem como a fazer os seus próprios registos.
Os cemitérios são lugares que nos ajudam a descobrir o património Contam-nos histórias sobre pessoas, sobre a comunidade e sobre a nossa História São também lugares onde nascem perguntas.
Esta rubrica é um convite a visitar o Cemitério do Alto de São João com uma atitude perguntadora e exploradora, pois vamos conhecer lugares novos. Em cada proposta, convidamos à descoberta de um lugar diferente, orientada por algumas perguntas para pensar em grupo
Caminhar até à Rua 41
Os cemitérios organizam-se de forma semelhante às cidades: têm ruas identificadas e os jazigos possuem numeração, tal como as casas têm número de porta
Vamos até à Cripta dos Combatentes da Grande Guerra Posicionem-se à entrada do Cemitério do Alto de São João, de frente para a Capela e com a estrada nas vossas costas. Sigam pela primeira rua que aparece à vossa esquerda, a Rua 4. Percorram a Rua 4 até ao fundo, onde vão encontrar a Rua 41.
Ao longo do percurso, observem atentamente o cemitério e os seus jazigos Que elementos simbólicos encontram? Há flores? Representações religiosas? Elementos que indiquem a profissão da pessoa ali sepultada?
Podem fotografar alguns desses elementos para investigarem posteriormente o seu significado.
Observar a Cripta
No topo da Cripta encontramos a escultura do Soldado Desconhecido, da autoria de Maximiano Alves.
O espaço onde foi construído este monumento-cripta foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa à Liga dos Combatentes
A Cripta constitui um espaço de homenagem aos militares portugueses da Primeira Guerra Mundial Nalguns dias do ano é possível entrar e visitar o seu interior
À direita da Cripta encontra-se a sepultura de João Jayme de Faria Affonso, fundador da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, que pediu para ser ali sepultado de pé Contornem a Cripta lentamente. O que descobrem que não tinham visto num primeiro olhar?
Perguntar para investigar, imaginar e pensar
Investigar
· Encontraram a informação sobre os dias em que a Cripta está aberta?
Correspondem a datas especiais?
Imaginar
· João Jayme de Faria Affonso pediu para ser sepultado de pé. Porque terá feito esse pedido? Registem todas as hipóteses, mesmo as mais improváveis Pensar
· Porque serão as lápides dos soldados tão semelhantes?
· O que merece ser recordado depois de uma guerra?
É possível esquecer uma guerra?
Dialogar em torno da memória colectiva
Muitos jazigos recordam pessoas ou famílias. Nesta Cripta homenageia-se um acontecimento histórico e todos aqueles que nele participaram
Há memórias que pertencem a todos?
Porque continuamos a recordar pessoas que morreram há mais de cem anos?
O que aconteceria se deixássemos de recordar as guerras?
Porque é que algumas pessoas têm uma campa e outras um monumento?
Será possível homenagear alguém sem conhecer o seu nome?
Há perguntas que começam no cemitério, outras que continuam no diálogo Há perguntas tão importantes que voltamos a elas ao longo da vida, descobrindo respostas diferentes em cada momento
Que perguntas levam convosco depois desta visita?
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Gostaríamos muito de conhecer as perguntas, as conversas, os desenhos e as descobertas que esta visita inspirou Se possível, partilhe-os através deste link Algumas dessas contribuições poderão integrar futuras publicações ou iniciativas das Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais.
Para saber mais:
Flores, Francisco Moita (1993) Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário Câmara Municipal de Lisboa.
Gandra, Maria; Monteiro, Gisela (2024) Guia Ilustrado do Cemitério do Alto de São
João Mais Portuguesia
Concepção e textos: joana rita (filocriatividade)
Investigação cemiterial: Gisela Monteiro
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais [filocriatividade] resultam do encontro entre a filosofia para crianças e o património cemiterial Desde 2024, convidam famílias, escolas e outras comunidades a explorar os Cemitérios de Lisboa como espaços de memória, património e pensamento
Através da observação, do diálogo e da geração de perguntas, transformam os cemitérios em lugares de descoberta, onde é possível conversar sobre a vida, a morte e tudo o que existe entre uma e outra Acompanhe estas oficinas através do instagram e subscreva a newsletter!
D A T E O R I A À P R Á T I C A
Há vários anos que a Divisão de Gestão Cemiterial, em articulação com o Departamento de Desenvolvimento e Formação da Direção Municipal de Recursos Humanos, tem vindo a acolher estudantes e investigadores de diferentes áreas do conhecimento. Ao longo destes anos, recebemos alunos em estágio curricular para conclusão de licenciaturas, mestrados e cursos técnico-profissionais, bem como investigadores que desenvolvem dissertações e outros projectos científicos. Da História da Arte e Museologia às Tecnologias de Informação, Design, Comunicação ou Sociologia, são muitas as áreas que encontram nos cemitérios de Lisboa um contexto de aprendizagem, investigação e contacto directo com o património Nesta rubrica, damos a conhecer esses percursos através de testemunhos escritos na primeira pessoa, partilhando experiências, desafios e descobertas de quem passou pela nossa equipa.
Escolhi estagiar na Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa porque procurava uma experiência que me permitisse aprofundar conhecimentos na área do Turismo Cultural e do Património, mas também porque fiquei curiosa com a forma como os cemitérios podem ser reconhecidos enquanto espaços culturais e históricos Desde o primeiro momento, pareceu-me uma oportunidade diferente e única, já que dificilmente encontraria esta experiência noutro contexto.
Quando iniciei o estágio, esperava adquirir experiência prática na organização de eventos culturais, melhorar as minhas competências de comunicação e, principalmente, aprender mais sobre a História, História da Arte e património Posso dizer que esta oportunidade não só correspondeu às minhas expectativas, como até superou Fui recebida por uma equipa muito acolhedora, que estava disponível para ajudar, esclarecer dúvidas e partilhar conhecimentos. Para além do apoio profissional constante, os pequenos gestos como as boleias, os bolos e os pequenos presentes, contribuíram para criar um ambiente próximo e positivo, tornando esta experiência tão produtiva quanto saborosa, e, que sem dúvida alguma, deixarão recordações que levarei comigo para o futuro.
Ao longo do estágio tive a oportunidade de participar em tarefas muito diversificadas, desde a organização de inscrições para as visitas guiadas mensais, até à preparação da 4 ª Semana Cultural nos Cemitérios e da 1 ª Jornada Interdisciplinar sobre Cemitérios O que mais gostei foi, sem dúvida, de participar na organização destes dois últimos grandes eventos Foi extremamente gratificante ver e contribuir em todo o trabalho que acontece nos bastidores.
Para além disso, trabalhei na inserção e categorização de informação patrimonial no programa HADES, uma tarefa que permitiu-me ter acesso a uma vasta gama de conhecimento referente aos 7 cemitérios de Lisboa, desde a simbologia presente até ao estilo artístico dos jazigos
No final desta experiência, levo comigo conhecimento, novas competências e uma perspetiva diferente referente ao Turismo Cemiterial. Para além de ser um espaço de memória, tem também uma importância histórico-cultural muitas vezes desconhecida pelo público
Por fim, agradeço à Divisão de Gestão Cemiterial e particularmente à orientação da Dr.ª Gisela Monteiro, pela oportunidade, disponibilidade e generosidade que demonstraram do primeiro até ao último dia
No dia 9 de janeiro de 2026, Diego Andrés Bernal Botero, professor da Universidad Pontificia Bolivariana (Medellín, Colômbia) e Secretário Permanente da Red Iberoamericana de Valoración y Gestión de Cementerios Patrimoniales, visitou os Cemitérios de Lisboa.
Criada no início dos anos 2000, a Red Iberoamericana de Valoración y Gestión de Cementerios Patrimoniales reúne investigadores, instituições e gestores de diversos países ibero-americanos dedicados ao estudo e valorização dos cemitérios históricos. Entre as suas principais iniciativas destacam-se os Encuentros Iberoamericanos de Cementerios Patrimoniales, realizados regularmente desde 2000, que promovem a apresentação de investigação e a troca de experiências sobre conservação, gestão e divulgação do património funerário
A visita iniciou-se no Cemitério dos Prazeres, com passagem pela exposição «Flores de Pedra / Flowers of Stone», patente na galeria da capela. Seguiu-se uma visita ao cemitério, centrada na sua história, património artístico e arquitetónico e nos principais projetos de valorização desenvolvidos pela Divisão de Gestão Cemiterial
Durante a tarde, a visita prosseguiu no Cemitério do Alto de São João, incluindo o crematório, onde foram apresentados o seu funcionamento, a evolução da cremação em Lisboa e o trabalho desenvolvido na preservação e divulgação do património cemiterial.
Red Iberoamericana de Valoración y Gestión de Cementerios Patrimoniales
No final de janeiro foi publicado um novo número da Revue d'Histoire de l'Art da Universidade Sorbonne, em Paris Intitulado «Les paysages de la nostalgie en Europe au XIXe siècle», este volume foi coordenado pelas professoras Marie Clemenceau, historiadora da arte especializada em património e paisagem, e Alithéia Soulié, historiadora da arte e investigadora da Universidade Sorbonne, reunindo os trabalhos apresentados na jornada de estudo com o mesmo título, realizada a 15 de abril de 2024 naquela universidade
Entre os artigos publicados encontra-se «The Tombs of Alto dos Prazeres by Mendes Leal Junior or How Nostalgia Permeates a 19th Century Book of Cemetery Drawings», da autoria de Gisela Monteiro, investigadora na Divisão de Gestão Cemiterial da CML.
O artigo analisa o conceito de saudade enquanto forma particular de nostalgia na cultura portuguesa, explorando simultaneamente a representação da flor homónima na arte funerária e a sua relação simbólica com esse sentimento Com base, sobretudo, em fontes coevas, o estudo centra-se no álbum Os Túmulos do Alto dos Prazeres, de Mendes Leal Júnior, procurando contribuir para a divulgação do património cemiterial português e para o reconhecimento da saudade esculpida em pedra como um símbolo funerário característico dos cemitérios nacionais
Para descarregar gratuitamente o volume completo:
pantheonsorbonne.fr
A convite do Município de Santarém, a Divisão de Gestão Cemiterial da CML esteve representada nas iniciativas que assinalaram os 130 anos do incêndio do Club Artístico, uma das maiores tragédias da história da cidade, ocorrida a 18 de fevereiro de 1896
A participação integrou a visita guiada organizada pelo Município de Santarém, que percorreu os principais locais associados ao incêndio, desde a antiga localização do Club Artístico até ao Monumento às Vítimas, no Cemitério dos Capuchos. Seguiu-se uma visita mais aprofundada ao Cemitério dos Capuchos, durante a qual foram apresentados a sua história, o património artístico e funerário e algumas das intervenções de valorização desenvolvidas pelo município
O programa terminou com uma visita ao Cemitério da Ribeira de Santarém, permitindo conhecer duas realidades cemiteriais distintas e trocar experiências sobre a gestão, conservação e valorização do património funerário
E I N Ê S P E R E I R A
No dia 31 de março de 2026, Inês Pereira realizou, com sucesso, a defesa da sua dissertação de mestrado na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, na sequência do estágio curricular desenvolvido na Divisão de Gestão Cemiterial da CML, com orientação do Professor Dr. Eduardo Duarte.
O trabalho incidiu sobre a criação de um protótipo de museu virtual para o Cemitério do Alto de São João, desenvolvido sob a forma de um sítio web que propõe uma nova forma de interpretar e divulgar o seu património Entre os principais contributos da dissertação destaca-se a definição do conceito de «coleção de monumentos», que organiza e apresenta os monumentos funerários segundo critérios temáticos, aproximando o património cemiterial da linguagem e dos métodos da museologia.
A Divisão de Gestão Cemiterial felicita a Inês Pereira pelo excelente resultado obtido e agradece o empenho, a dedicação e o contributo que o seu trabalho representa para a valorização e divulgação do património dos Cemitérios de Lisboa, desejando-lhe os maiores sucessos no seu percurso académico e profissional.
O S C E M I T É R I O S D E L I S B O A
No dia 14 de abril de 2026, a equipa do Município de Santarém realizou uma visita técnica aos Cemitérios de Lisboa, retribuindo a visita anteriormente realizada pela Divisão de Gestão Cemiterial da CML aos cemitérios de Santarém
O programa iniciou-se no Cemitério do Alto de São João, onde foram apresentados os principais elementos históricos, arquitetónicos e patrimoniais deste espaço, bem como aspetos relacionados com a sua gestão, conservação e valorização A visita incluiu também o crematório, permitindo a partilha de experiências sobre a evolução da cremação e a gestão dos equipamentos associados
Durante a tarde, a visita prosseguiu no Cemitério dos Prazeres, com destaque para o património artístico e funerário deste espaço, incluindo o Jazigo dos Duques de Palmela, um dos mais relevantes exemplares da arquitetura funerária portuguesa do século XIX Foram ainda apresentadas algumas iniciativas de valorização patrimonial e mediação cultural desenvolvidas pelos Cemitérios de Lisboa. A visita constituiu um momento de partilha entre as duas equipas municipais, permitindo o conhecimento direto de diferentes práticas de gestão e valorização do património cemiterial
A partir de 1 de maio de 2026, os Cemitérios de Lisboa passaram a contar com novos coordenadores nos cemitérios de Carnide, Olivais e Ajuda
A entrada dos novos responsáveis vem assegurar a continuidade da gestão diária destes três cemitérios municipais, dando seguimento ao trabalho desenvolvido pelas equipas que anteriormente asseguravam a coordenação destes espaços.
Os novos coordenadores assumem funções num momento de continuidade e renovação, garantindo o acompanhamento das diversas áreas de funcionamento dos cemitérios, nomeadamente a organização dos serviços, a articulação com as equipas operacionais e a preservação e valorização do património cemiterial.
A Divisão de Gestão Cemiterial deseja aos novos coordenadores muito sucesso no desempenho das suas funções e agradece o contributo de todos os anteriores responsáveis pelo trabalho desenvolvido ao longo dos anos.
Organizado pela Federação Espanhola de Municípios e Províncias, no âmbito do projeto europeu “Religions & Tolerance – Re&To” e em colaboração com a Fundação Pluralismo y Convivencia, realizou-se no passado dia 18 de junho, em Madrid, o “Foro Europeo sobre Gobernanza Local de la Diversidad Religiosa”, que reuniu representantes de vários organismos europeus para partilha de experiências e boas práticas na promoção de uma governação local inclusiva e plural
A Câmara Municipal de Lisboa foi representada pela Chefe da Divisão de Gestão Cemiterial, Sara Gonçalves e pela Coordenadora do Edifício Saudade, Eugénia Abrantes, apresentando a experiência desenvolvida no âmbito da liberdade religiosa em contexto funerário, com destaque para o espaço multirreligioso Edifício Saudade, no Cemitério de Carnide P A R T I C I P A Ç
O projeto foi muito bem recebido pelos participantes, tendo suscitado especial interesse por parte de representantes de países como Itália, Luxemburgo, Áustria e Espanha que colocaram diversas questões sobre a implementação e funcionamento do modelo, evidenciando o potencial de replicação desta abordagem em outros contextos europeus.
Os Cemitérios de Lisboa participaram na Assembleia Geral e Conferência Anual da Association of Significant Cemeteries in Europe (ASCE), realizada entre 18 e 20 de junho de 2026, em Turim (Itália). Dedicada ao tema «Life Lessons: Cemeteries as Educational Heritage», a conferência reuniu investigadores e profissionais de vários países europeus para refletir sobre o potencial educativo dos cemitérios e o seu papel na sensibilização para o património
A Câmara Municipal de Lisboa esteve representada por Gisela Monteiro, investigadora da Divisão de Gestão Cemiterial, que apresentou a comunicação «Significant stories (in) significant cemeteries: the role of tours in heritage awareness», desenvolvida em coautoria com Francisco Queiroz, investigador do CHAM Açores, colaborador do CEPESE e da Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA/FLUL) C E M I T É R I O S D E L I S B O A N A C O N F E R Ê N C I A A N U A L D A A S C E 2 0 2 6
A comunicação analisou o papel das visitas guiadas e de outras iniciativas de mediação cultural na valorização do património cemiterial e na aproximação de novos públicos Entre os casos de estudo apresentados destacaram-se as «Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais», workshops de filosofia para crianças promovidos nos Cemitérios de Lisboa, bem como iniciativas desenvolvidas em cemitérios de menor dimensão, nomeadamente nas Caldas da Rainha, em Alverca, Paranhos e Alvarelhos.
Estes exemplos demonstraram que a interpretação do património cemiterial pode assumir formatos diversificados e adaptados às características de cada comunidade, contribuindo para uma maior consciência do valor histórico, artístico e cultural destes espaços
Além da participação no programa científico, os Cemitérios de Lisboa marcaram presença na Assembleia Geral da ASCE, acompanhando os projetos e as atividades desenvolvidas pela associação e reforçando o intercâmbio de experiências com outras instituições europeias dedicadas à investigação, conservação e valorização do património funerário
No dia 25 de junho de 2026, a convite do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), Gisela Monteiro, investigadora da Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa, apresentou o webinar «“Casa de Autópsias”: do modelo parisiense ao cemitério enquanto substituto da morgue na Lisboa de Oitocentos».
A apresentação teve por base a investigação desenvolvida pela autora sobre este tema, que resultou no artigo publicado em 2023 no segundo número da revista RomantHIS, e integrou novos dados documentais, entretanto identificados. A sessão abordou a introdução, em Portugal, do modelo parisiense das casas de autópsias e a sua implementação nos cemitérios de Lisboa ao longo do século XIX, analisando a forma como estes espaços passaram a desempenhar funções médico-legais, acolhendo as primeiras casas de autópsias da cidade e funcionando, na prática, como substitutos da morgue antes da criação de instalações próprias para esse efeito.
O webinar contou com a participação de mais de 120 profissionais do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, constituindo um momento de partilha de conhecimento sobre a história da medicina legal e a evolução das relações entre os cemitérios e a investigação médico-legal em Portugal
INÊS GARCIA
1990, Lisboa. Apreciadora de universos de fantasia e terror com monstros à mistura (ou não fosse uma ávida colecionadora de crânios) bem como de concept art, animação, banda-desenhada e videojogos A banda desenhada SINtra foi a sua obra de estreia. Atualmente ensina a criar personagens (concept art), pintura digital, desenho de figura humana e de espaço, bem como modelação 3D e arte para videojogos tanto na Escola Superior de Educação de Lisboa como na Universidade Lusófona
É também coordenadora (juntamente com Tiago Cruz) do curso de Banda Desenhada no Museu Bordalo Pinheiro (Egeac)
A área da tafofilia tem, gradualmente, ganho mais destaque nos seus vários sketchbooks e quiçá, em futuras publicações