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Edição 401 - de 4 a 10 de novembro de 2010

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Reprodução

ARGENTINA

Duas mortes em uma semana

Ex-presidente Néstor Kirchner morre uma semana após assassinato de militante de 23 anos nas mãos de grupos da direita sindical da base de apoio do governo de sua esposa Pág. 11

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Circulação Nacional Ano 8 • Número 401

R$ 2,80

São Paulo, de 4 a 10 de novembro de 2010

www.brasildefato.com.br Wilson Dias/ABr

Estadunidenses vão às urnas, mas mudanças não virão

E agora, Dilma?

No dia 2, os estadunidenses escolheram parte dos governadores, deputados federais e alguns senadores. Como costuma acontecer, o partido que está na Presidência deve perder assentos. Para o analista estadunidense Victor Wallis, o certo é que as eleições não são capazes de trazer mudanças. Pág. 9

Índios urbanos em busca de seus direitos

A eleição acabou, a luz apagou, o povo decidiu. A primeira presidenta do Brasil terá pela frente a pressão dos movimentos sociais que, apesar de terem dado apoio à sua eleição no segundo turno, possuem uma agenda política frontalmente contrária àquela de muitos de seus aliados. Págs. 2, 3, 4 e 5

Em meio ao preconceito, há cerca de 50 mil índios vivendo e resistindo nas cidades do país. Nesse cenário, muitas pessoas não entendem a dificuldade de um indígena viver na favela, sobretudo quando se leva em conta o jogo de empurra-empurra no que tange aos seus direitos sociais. Pág. 7

Para Wladimir Pomar, esquerda precisa ir à luta Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista político e fundador do PT, Wladimir Pomar, diz que os movimentos sociais deverão pressionar o governo de Dilma Rousseff, bem como a bancada de esquerda no Congresso, para obter vitórias dentro do campo das reivindicações populares. Pág. 6

ISSN 1978-5134

Altamiro Borges

Leonardo Boff

Alipio Freire

Cinco derrotas

Desafios para Dilma

Anauê, José Serra!

A ELEIÇÃO de Dilma Rousseff tem uma dimensão histórica. Após eleger o operário Lula, um fato inédito, o povo brasileiro repete a façanha e agora elege a primeira mulher presidenta da República. Pág. 3

CELEBRAMOS alegremente a vitória de Dilma Rousseff. E não deixamos de folgar também pela derrota de Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nível indecente de sua campanha. Pág. 7

SER DERROTADO nas urnas, numa eleição, não é tudo. Mais grave é passar para a história como um fascista. Sim, lamentamos, mas é exatamente isto o que ocorrerá com o candidato derrotado José Serra. Pág. 3 Reprodução

e cultura latino-americana Pág. 8


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de 4 a 10 de novembro de 2010

editorial

Vitória! E Agora? O QUE OS movimentos sociais podem esperar do governo de Dilma Rousseff, que inicia em janeiro de 2011? Nada além daquilo que foi o próprio mote da sua campanha eleitoral: a continuidade do governo Lula. Não há motivos para duvidar que a mulher que derrotou o tucano José Serra nestas eleições não medirá esforços para dar continuidade à política econômica do atual governo, tentando promover crescimento econômico com distribuição de renda. Até onde isso será possível, sem atingir os interesses das grandes fortunas, que também foram beneficiadas por essa política econômica, e sem promover as reformas estruturais na economia e na política, essenciais para impulsionar a distribuição da riqueza e consolidar uma democracia em nosso país? Ir além das políticas assistenciais, um imperativo neste momento, significará confrontar os interesses dos que monopolizam a renda e a riqueza brasileira. A presidenta eleita assegurou, durante a campanha, que a reserva petrolífera do pré-sal pertence ao povo brasileiro e a riqueza gerada será utilizada para erradicar a miséria e em investimentos nas áreas sociais da saúde, educação e saneamento básico. Enganam-se os que pensam que as transnacionais do petróleo e o capital internacional irão respeitar os 56 milhões de brasileiras e brasileiros que votaram a favor dessa proposta política. A rapinagem internacional encontrará em setores da elite brasileira, tão bem

debate

explicitada em torno da candidatura do tucano derrotado, o apoio necessário para tentar apoderar-se de mais essa riqueza natural brasileira. Não faltarão experts em economia, jornalistas, comentaristas políticos, parlamentares e lideranças partidárias defendendo, sempre com a empáfia do conhecimento das elites, que o país não tem condições nem capacidade para gerenciar o présal. Melhor será, de acordo com o aprendizado de 500 anos dessa elite nacional entreguista, deixar que os grandes grupos econômicos internacionais o explorem. A presidenta Dilma Rousseff, cumprindo sua promessa eleitoral, terá uma oportunidade histórica para derrotar esses setores entreguistas das nossas riquezas e assegurar ao povo brasileiro o pagamento de uma dívida social que perdura há cinco séculos. Dificilmente a candidatura de José Serra teria o êxito de disputar o segundo turno eleitoral se não fosse o desavergonhado e imoral suporte que recebeu dos grandes grupos de comunicação. Estes tornaram-se o grande partido político de oposição ao governo Lula. Aproveitaram-se do período eleitoral para fazer uma verdadeira luta de classes em defesa de suas bandeiras políticas mais conservadoras e direitistas. Não hesitaram em adotar candidaturas que se dispunham a fazer coro aos ataques ao governo e à sua candidata, em troca de alguns minutos de exposição nos noticiários. Já não é mais possível pensar no fortalecimento da democracia sem

O respaldo vindo das urnas, infelizmente, será insuficiente para se contrapor aos interesses do capital, à elite entreguista e às forças direitistas

mexer no oligopólio das comunicações em nosso país. É bem-vindo o Plano Nacional de Banda Larga, um serviço público que democratizará a informação através da internet. E, felizmente, alguns Estados já estão discutindo uma legislação própria que assegure um controle social sobre os meios de comunicação, como estabelece a Constituição Federal de 1988. Mas é preciso enfrentar os grupos empresariais do setor, seis ou sete famílias, que monopolizam a produção e a divulgação das informações. Não se trata de censurar a imprensa. Mas, sim, de assegurar ao povo brasileiro o direito de se informar e se comunicar. Direito que está acima dos interesses parti-

culares dos proprietários dos meios de comunicação. Este poderio, não enfrentado pelo governo Lula, precisa ser confrontado com as vozes vindas da Conferência Nacional de Comunicação e com uma legislação apropriada e atualizada, que atenda os interesses da sociedade brasileira. As trapalhadas do Poder Judiciário, durante o processo eleitoral, apenas atestam a necessidade de promover mudanças nessa esfera do poder político. O Brasil deve ser um dos únicos países onde o título de eleitor não é documento suficiente para o cidadão votar. Por indefinição do Supremo Tribunal Federal (STF), milhares de eleitores votaram em candidatos que não sabiam se estavam aptos ou não a receber esses votos, por estarem incluídos no projeto de lei “ficha suja”. Votaram e tiveram seus votos anulados por decisão do Judiciário. Ver um dos ministros do STF, Gilmar Mendes, receber um telefonema de José Serra durante a votação da corte, para interferir nessa decisão, foi o ápice dessas trapalhadas. Reformular a estrutura do Judiciário, limitar os mandatos nas cortes judiciais, democratizar o mecanismo de escolha de seus membros, criar e fortalecer instrumentos de controle da sociedade sobre o Judiciário, são algumas bandeiras que fazem parte da agenda política do país neste momento. São estes alguns dos desafios que o novo governo, liderado por uma mulher – pela primeira vez na nossa história republicana – terá que enfrentar. Os interesses contrários

crônica

Marcelo Salles

serão fortíssimos. As forças reacionárias e de extrema direita, que hibernavam desde o fim da ditadura militar, reapareceram com vigor na disputa eleitoral deste ano. Mostraram que não há limites éticos e legais para se fazer ouvir. As baixarias da campanha, onde o tucano Serra foi um desmiolado porta-voz, mostrou a força desse segmento social e do que são capazes. Enfrentar esses desafios exigirá da presidenta clareza política e muita força de vontade. O respaldo vindo das urnas, infelizmente, será insuficiente para se contrapor aos interesses do capital, à elite entreguista e às forças direitistas. A base parlamentar, na sua maioria, é mais suscetível aos interesses particulares do que ao programa vitorioso nas eleições. Alguns membros do próprio partido da candidata eleita, e próximos a ela, dão a impressão de que estariam mais à vontade nas fileiras tucanas do que defendendo suas propostas governamentais em defesa dos mais pobres. Assim como foi determinante no segundo turno das eleições, os movimentos sociais, sindicais e estudantis, as pastorais sociais, os comunicadores progressistas que ocuparam um importante espaço na internet precisam ir às ruas durante estes próximos quatro anos. Somente a mobilização popular, preservando sua autonomia frente ao governo, será capaz de assegurar novas conquistas e frear as forças direitistas que afloraram desse processo eleitoral.

Marcelo Barros

Gama

Um mosteiro acaba, o projeto continua

A mídia é a pauta da vez NOSSA AMÉRICA dá sinais, cada vez mais constantes, da necessidade de rever o modelo de comunicação a que estamos submetidos. Primeiro foi a Venezuela, que impulsionou a criação de uma televisão multiestatal, a Telesur, em parceria com Cuba, Argentina e Uruguai. A medida foi tomada logo após a tentativa de golpe de estado contra o presidente Chávez em 2002 – golpe esse que contou com apoio decisivo das corporações da mídia privada venezuelana. Em 2007, o Brasil cria a Empresa Brasileira de Comunicação, que une a Radiobrás e a TV Educativa do Rio de Janeiro num projeto de comunicação pública – ainda imperfeito, mas com capacidade suficiente de incomodar, a ponto de jornais neoliberais dedicarem editoriais exigindo o fim da iniciativa. No ano seguinte foi a vez da Bolívia criar um jornal estatal, El Cambio, de formato tablóide e preço popular. Inicialmente com cinco mil exemplares, dois anos depois o jornal boliviano já alcançou o primeiro lugar em vendas e desbancou os tradicionais La Prensa e El Razón. A Argentina enfrenta o monopólio dos grupos privados, e o governo Kirchner leva adiante a Ley de Medios, que atinge duramente as corporações privadas. Ainda no Cone Sul, no dia 14 de outubro, o ministro da Informação e Comunicação do Paraguai, Augusto dos Santos, anunciou a circulação de um jornal semanal público para informar a população sobre as políticas do Estado. O nome da publicação será Infogob, terá alcance nacional e distribuição gratuita. Santos disse que o objetivo do semanário é divulgar informações das secretarias, ministérios, entes públicos e demais poderes do Estado a serviço da cidadania. Segundo o ministro paraguaio, o Infogob apresentará opiniões e pontos de vista

As grandes transformações que precisam acontecer em Nuestra América necessitam de uma revolução na forma de comunicar externos ao olhar governamental para que exista um contraste permanente dos demais, com interesse cidadão. A mudança necessária no paradigma das comunicações não pode ter apenas caráter técnico. As novas ferramentas, as mídias sociais, sites e blogs da Internet são importantes, mas não são suficientes. As grandes transformações que precisam acontecer em Nuestra América necessitam de uma revolução na forma de comunicar. Não estou falando do momento eleitoral, em que essas ferramentas podem jogar um papel decisivo. Em termos de mudança de consciência, por exemplo, ou de erradicação de preconceitos, ou de respeito aos direitos humanos, nada vai mudar se as corporações privadas de mídia continuarem donas de oligopólios a serviço da exploração dos povos. Em outras palavras: enquanto vigorar a propriedade cruzada – mesmo grupo controlando jornal, rádio e televisão na mesma praça; enquanto meia dúzia de empresas capitalistas forem donas de mais de 90% da audiência e da maior parte das verbas públicas publicitárias; e enquanto esses grupos continuarem, como no Brasil, a ter mais influência junto aos parlamentares do que os cidadãos que os elegeram.

Democratizar televisão, rádio e jornais é importante porque a mídia é, hoje, a instituição com maior poder de produção e reprodução de subjetividades. Ou seja, a mídia determina formas de sentir, de pensar e de agir dos indivíduos e, consequentemente, influencia posicionamentos da sociedade como um todo. Se divulga mensagens de ódio, se divulga informações distorcidas, então teremos um povo irracional e desinformado, caldo de cultura perfeito para a violência. Por outro lado, se a mídia divulga informações corretas e mensagens de respeito ao outro, então será mais provável criarmos uma sociedade mais harmônica. O governo do presidente Lula seguramente avançou mais que o anterior, pois além da TV Brasil está em curso o Plano Nacional de Banda Larga, que pretende universalizar o acesso à Internet de alta velocidade. Entretanto, em comparação com nossos vizinhos, estamos atrasados. O Brasil perdeu sua grande chance com o decreto da TV Digital, quando era possível ter investido na multiprogramação e fomentado a participação de novos atores no cenário da radiodifusão. Estamos atrasados não apenas por conta das dificuldades do governo atual. A esquerda brasileira tem enorme dificuldade de compreender a importância dos meios de comunicação de massa para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática. A tendência ainda é acreditar que se pode negociar com as corporações privadas, em vez de modificar a atual estrutura – o que, diga-se de passagem, seria apenas cumprir a Constituição de 1988. Vamos ver se a nossa esquerda acorda, e se acorda a tempo. (Boletim do Instituo de estudos latinoamericanos da UFSC) Marcelo Salles é jornalista

No final de outubro, a Congregação dos monges de Subiaco fechou definitivamente o mosteiro de Goiás. A comunidade beneditina de Goiás era um ponto de referência para pessoas crentes e não crentes, da cidade de Goiás e de outras partes do país e do mundo. Na sua regra, São Bento diz que um mosteiro deve ser “uma escola do serviço divino”, isto é, uma academia para que seus membros se exercitem em viver o projeto divino no mundo, como Jesus propôs. Infelizmente, com o tempo, muitas vezes, a vida religiosa se tornou um fim em si mesmo. As pessoas procuram mosteiros, apenas porque gostam de certo modo de viver. Quando a, nutrem ambições pessoais: estudar, ordenar-se padre, etc. Mas, dificilmente, se integram em um projeto maior que vá além da vida interna da comunidade e vise a construção de um mundo novo possível. Na cidade de Goiás, a pequena comunidade de monges procurava viver a vocação própria dos monges, inserida no mundo, como parábola do evangelho e exemplo de uma sociedade mais igualitária. Em 1977, por um convite de Dom Tomás Balduíno, então bispo de Goiás, três irmãos vieram do Paraná e se fixaram em um bairro de periferia da cidade. Em 1985, construíram o mosteiro. Era feito de casas simples e conjugadas entre si. Tinha uma Igreja sem paredes, em forma de tenda, aberta sobre o mundo. Dia e noite, acolhia quem quisesse chegar. As pessoas que vinham eram integradas nas atividades e orações da comunidade. Além dos monges, participavam da comunidade, leigos (homens e mulheres) que quisessem se associar àquela vocação.

As pessoas se reconhecem membros da comunidade pela causa a que se consagram No decorrer de vinte anos, o mosteiro de Goiás se tornou referência de apoio para as comunidades eclesiais de base, para o movimento bíblico no Brasil, para o diálogo entre culturas e entre religiões. A comunidade partia do princípio que a vocação de monge é elemento comum a toda vida humana. Qualquer pessoa que busca unificar-se interiormente, através do diálogo e da unidade com os outros, é, de alguma forma, monge ou monja. Em 2005, os irmãos que viviam na comunidade sofreram um momento de tensões entre eles. A intervenção de superiores da Ordem e uma tentativa posterior de reorganizar a comunidade em um modelo mais tradicional não conseguiram garantir a continuidade do mosteiro. Houve quem pensasse que o mosteiro de Goiás estava em crise porque tinha se afastado da observância da regra beneditina. O remédio seria voltar à tradição e à obediência à antiga estrutura. Talvez com o tempo, as pessoas que contribuíram para o fechamento do mosteiro se deem conta de que todos perdem quando não se respeita e se valoriza a diversidade. Em 1933, em Lyon, (França), o padre Paul Couturier, pioneiro do movimento ecumênico, propunha um “mosteiro invisível”. Esse mosteiro seria constituído por irmãos e irmãs que gostam de orar e procuram uma conversão permanente de si mesmos para colaborar com a transformação do mundo. Eles se sentem reunidos em uma comunidade que é invisível, mas real. Cada dia, esta comunidade reúne os irmãos onde estiverem, na oração pela unidade das Igrejas e pela colaboração entre as religiões. Esse mosteiro não precisa de laços institucionais. As pessoas se reconhecem membros da comunidade pela causa a que se consagram. Se o mosteiro de Goiás deixou alguma herança, é esta: homens e mulheres dos mais diversos lugares podem continuar a viver o “compromisso evangélico” de apoio mútuo na missão de cada um/uma, aprimorando relações afetivas de solidariedade e irmandade. Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 30 livros, entre os quais Dom Helder, profeta para os nossos dias, Goiás, Ed. Rede da Paz, 2006.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Edilson Dias Moura• Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


de 4 a 10 de novembro de 2010

instantâneo

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frases soltas Marcello Casal Jr/ABr

Nordestisto (sic) não é gente, faça um favor a Sp, mate um nordestino afogado! Brasileiros, agora, fodam-se! Isso que dá dar direito de voto pra nordestino @mayarapetruso, que apagou seu perfil no Twitter após vários protestos na web, 31 de outubro

Que Páis (sic) é esse. É a porra do Brasil... onde nordestino acha que é gente... É só olhar pra ver que eu sou do #SUL @Dannymiguxas, Daniella Lindner, Blumenau, mais preconceito, via Twitter, 31 de outubro

FLORES – O senador Eduardo Suplicy chega à casa da presidenta eleita, Dilma Rousseff, levando um vaso de orquídeas para presenteá-la, mas não foi atendido

Alipio Freire

Anauê, José Serra! SER DERROTADO nas urnas, numa eleição, não é tudo. Mais grave é passar para a história como um fascista. Sim, lamentamos, mas é exatamente isto o que ocorrerá com o candidato derrotado José Serra. Se os rumos que pretendeu imprimir à disputa eleitoral não são suficientes para que nos mantenhamos espertos, a eloquência das alianças forjadas para além dos partidos institucionais (DEM e PPS) e da grande mídia comercial falam por si. Como é público, o candidato derrotado esteve reunido com representantes e militantes do grupo paramilitar fascista Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e da organização ultra-direitista Tradição Família e Propriedade (TFP). Ambos participaram da conspiração e do golpe de 1964 e foram dos mais ferozes defensores da ditadura, opondo-se, até o final, a qualquer abertura. Na documentação da gráfica do Cambuci, em São Paulo (SP), onde foram descobertos milhões de panfletos que tentavam desmoralizar e criminalizar a então ainda candidata Dilma Rousseff, está clara toda a ligação do candidato derrotado com membros do Partido Integralista, Monarquistas e a ultradireita católica.

Pesquisa realizada pelo jornalista Tony Chastinet e publicada por Rodrigo Vianna com o título “Dilma é alvo de grupos de extrema-direita e neonazistas” em seu blog, deixa clara a promiscuidade entre o candidato derrotado e os neonazistas. Quando tudo isto tem ainda, como pano de fundo, os discursos dirigidos pelo candidato derrotado ao Clube Militar e ao Clube do Pijama, aludindo a uma “república sindical” e outros jargões que antecederam ao golpe de 1964; as manifestações dos membros desses dois clubes; e as declarações feitas nos EUA pelo doutor Nelson Jobim de que poderia ser ministro da Defesa de qualquer dos dois candidatos... é como se houvesse algo de podre na Dinamarca. De quem já fraudou uma Constituição; derrubou um avião matando cerca de 200 pessoas para se tornar ministro da Defesa; que já tentou um golpe contra o Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, esperamos tudo, menos que tenha viajado para os EUA para praticar esportes de outono... De um candidato que se alia a toda essa escória, podemos esperar sempre o pior. Fiquemos atentos: o candidato derrotado pode estar “cavando” um “terceiro turno”.

Altamiro Borges

Cinco derrotas A ELEIÇÃO de Dilma Rousseff tem uma dimensão histórica. Após eleger o operário Lula, num fato inédito, o povo brasileiro repete a façanha e agora elege a primeira mulher presidenta da República. A cultura machista sofre a maior derrota da sua existência. Mas os derrotados, nesta eleição histórica, foram muitos. Listo os cinco principais: 1- O bloco neoliberal-conservador Serra representava o retorno às políticas de FHC, que devastaram o Estado, a nação e o trabalho – com suas privatizações, subserviência aos EUA, desemprego e criminalização dos movimentos sociais. O povo deu uma surra nos demotucanos na sucessão e ainda expulsou alguns de seus líderes do Legislativo. 2- A direita fascistóide Serra reagrupou o que há de mais reacionário na sociedade. Dos golpistas da TFP e Opus Dei, aos milicos de pijama e aos fundamentalistas das igrejas. Estes setores babaram ódio, espalharam calúnias e preconceitos, exploraram o atraso. Mas o povo não se deixou contaminar e garantiu 12 milhões a mais para Dilma.

3- Mídia golpista As sete famílias que monopolizam o setor e que manipulam corações e mentes bombardearam Dilma. TV Globo, Veja, Folha e Estadão, entre outros, viraram cabos-eleitorais de Serra. A mídia, principal partido da direita e inimiga das lutas sociais e das mudanças, sofreu dura derrota. Espera-se, agora, que percam audiência e tiragem. 4- Ruralistas escravocratas Apesar de Lula ter cedido aos barões do agronegócio, eles garantiram as maiores votações para Serra. Para eles, Dilma representa a possibilidade de se avançar na reforma agrária, na punição do trabalho escravo e infantil e na defesa do meio ambiente. É bom que Dilma fique esperta e não cometa o mesmo erro de Lula. 5- Imperialismo Apesar do teatro diplomático, os EUA detestavam a política externa de Lula, expressa na rejeição ao golpe em Honduras, na busca pela solução pacífica com o Irã, no apoio aos governos progressistas da América Latina e à integração regional. The Economist e Financial Time inclusive explicitaram apoio a Serra. Mas o império não conseguiu abortar a continuidade da política externa soberana.

comentários do leitor A história não tem rascunhos

O editorial da edição 400 é um verdadeiro documento histórico e sociológico! Brilhante! Digno dos melhores textos políticos do Lênin. Também eu vou guardar. Quem dera a esquerda do contra resolva mudar de posição! Penso que ali, na hora do voto, muitos deles hão de votar na Dilma.

Heloísa Fernandes, professora do Deptº de Sociologia da USP e colaboradora da Escola Nacional Florestan Fernandes (São Paulo, SP)

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Belo editorial. Êta jornal PORRETA que dá orgulho de vê-lo existir e chegar ao nº 400. Já imaginaram se fosse diário? Sonho? O cacete! Em nosso país, em 1919, já tivemos dois jornais diários (de esquerda): A Plebe, em SP e A Hora Social no Recife. Em 1946, o PCB tinha oito jornais diários. Com o ouro de Moscou? Graças a deus que existia es-

te ouro (pouco) e era usado para fazer jornais. Além deste ouro, eram feitas festas, bingos, jogos, etc... para angariar dinheiro para manter “NOSSOS JORNAIS”. Vamos lá, gente. Depois de 31 de outubro, o jogo deverá endurecer. Vamos jogá-lo com toda força. Abraços.

Vito Gianotti, escritor e coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (Rio de Janeiro, RJ)

Edição 392

Legal a entrevista com o sindicalista presidenciável José Maria de Almeida. Dilma dará continuidade à alta lucratividade do capital. (…) Apesar da descarada campanha midiática global antipetismo, estamos chegando lá. E se Deus quiser, teremos um governo ainda superior aos oito anos de lulismo. Roussef “é a dona”. O Brasil pode mais sim e há de fazê-lo. Ótimos os pontos con-

sensuais da coordenação dos movimentos sociais.

Fernando Costa de Paula (Petrópolis, RJ)

Especial

Distribuímos, aqui no Paraná, 300 mil exemplares da edição Especial. Foram semanas intensas de distribuição em praças, bairros, portas de fábrica e universidades. Avaliamos que o jornal foi importantíssimo para consolidar o voto pró-Dilma. A edição do jornal foi bem feita, a manchete – “Serra governa para os ricos” – excelente. Manchete e foto tornavam o texto quase desnecessário. Cada vez fica mais evidente que o BF cumpre um papel importante na conjuntura política do nosso país. Aguardemos o próximo governo, vamos ver se teremos uma real valorização da imprensa independente e de esquerda. Cesar Sanson é Pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutor em sociologia pela UFPR.

A classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora Marilena Chauí, professora de Filosofia da USP, em entrevista à página Rede Brasil Atual, 10 de outubro

Hoje temos um país que é ouvido em toda a parte, porque fala de igual para igual com todos. Não fala fino com Washington; nem fala grosso com a Bolívia ou o Paraguai .

Divulgação

Chico Buarque, em ato pró-Dilma, de artistas e intelectuais, 18 de outubro, Rio de Janeiro

Se é menina bonita, tem que ganhar 15 [votos]. É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45 José Serra, em comício, em Uberlândia (MG), 29 de outubro

Na eleição, em caso de indecisão siga à esquerda! @freibetto, frade dominicano e escritor, via Twitter, 30 de outubro

Serra, chorão, diz que ‘alternância no poder é bom para o Brasil’. Por que não defende alternância em SP, onde tucanos dominam há 16 anos @BlogdoMiro, Altamiro Borges, jornalista, via Twitter, 31 de outubro


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brasil

“Mudanças dependem da unidade da esquerda”

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

ENTREVISTA Para Wladimir Pomar, correlação de forças sofreu pequenas alterações com as eleições Reprodução

Renato Godoy de Toledo da Redação COM A vitória de Dilma Rousseff (PT) e um cenário favorável à futura presidente, a esquerda partidária deve se aglutinar para atuar de forma decisiva junto ao novo governo. Essa é a análise do escritor Wladimir Pomar, fundador do PT. Os partidos de esquerda da coligação que elegeu Dilma obtiveram crescimento no Congresso e nos estados, dentre os quais se destaca o PSB, que elegeu mais governadores do que o próprio PT. Mas os partidos identificados com o fisiologismo também conquistaram um espaço importante nas eleições, sobretudo o PR. Diante deste cenário, Wladimir aponta que não houve grandes mudanças na correlação de forças. Ele aponta que, para mudanças mais significativas, será necessária a mobilização social que possa impulsionar a ação dos parlamentares de esquerda, que, para tanto, devem permanecer unidos. Um aspecto que não foi alterado no governo Lula é a inserção do Brasil no mercado internacional como mero exportador de commodities. Para Pomar, isso pode começar a mudar a partir de um plano de industrialização e a redução drástica de encargos para micro e pequenas indústrias. Confira, abaixo, a entrevista com Wladimir Pomar. Brasil de Fato – O senhor acredita que o governo Dilma terá uma mudança de correlação de forças na base aliada? Há uma tendência mais à esquerda com o crescimento do PSB, nos estados, e PCdoB e PT no Congresso?

Wladimir Pomar – Creio que sim. Mas não devemos esquecer que a correlação geral de forças não sofreu modificações radicais. Portanto, será preciso saber se a nova base aliada de esquerda vai ser capaz de formular uma unidade em torno dos pontos principais de mudanças políticas, sociais e econômicas que o país necessita, e mudar ainda mais a correlação política a favor de tais mudanças.

“Será preciso saber se a nova base aliada de esquerda vai ser capaz de formular uma unidade em torno dos pontos principais de mudanças políticas, sociais e econômicas que o país necessita” O senhor acredita que as pautas dos movimentos sociais, já apresentadas para o atual governo, teriam condições de serem implementadas no próximo governo, tais como a redução da jornada de trabalho e a revisão do índice de produtividade rural?

Creio que vai depender, por um lado, daquela unidade das forças de esquerda no Congresso e, por outro, do grau de mobilização social real que tais reivindicações obtiverem na sociedade. Se dependerem apenas do Congresso, vão encontrar uma oposição mais ferrenha.

A mídia já sinaliza que pretende impor uma agenda ao novo governo: a reforma da Previdência, se possível com a instituição de idade mínima para aposentadoria. Como a esquerda poderia influenciar para que essa pauta seja derrotada?

Da mesma maneira: mobilização social e ação firme no congresso.

A mídia parece despontar como a maior derrotada das eleições. Por que ela não conseguiu repetir com êxito o que fizeram em 1989?

Em 1989, quem precisava conquistar os descamisados era a esquerda. Aqueles não acreditavam que um igual poderia governar o país e, ainda por cima, acreditavam nas mentiras de que iríamos lhes tirar seus bens. O mais bizarro é que não havia tais bens. Em 2002, houve uma profunda reviravolta cultural para essas grandes massas das populações. Reviravolta que se aprofundou durante os oito anos do governo Lula. A mídia se defrontou com essa realidade e saiu derrotada, embora ainda tenha conseguido influenciar parte da classe média. Os próximos anos vão ser de intensa disputa ideoló-

Repeteco Em sua primeira manifestação como presidenta eleita, Dilma Rousseff rendeu homenagem aos ouvidos da mídia burguesa: “Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. As críticas do jornalismo livre ajudam ao país e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório”. Segue a mesma linha de contemporização adotada pelo criador. Comida cara Deve chegar ao varejo, agora, o aumento de preço da carne bovina, que, no atacado, passou de 6,6% no mês de outubro. Os frigoríficos estão trabalhando com margem de lucro superior a de anos anteriores, mesmo porque tem crescido o mercado de exportação. A desculpa para o aumento do preço interno é a forte seca na região amazônica. Com isso, entidades do setor já tratam a carne como produto de luxo – para quem tem renda alta.

gica e política entre a grande mídia e as forças democráticas e populares em torno destas questões. No âmbito econômico, o senhor acredita que Dilma terá mais espaço do que Lula para romper, de vez, com o neoliberalismo? Digo, com menos preocupação com ajuste fiscal e não ceder às pressões do mercado e da mídia para reduzir o “inchaço” e a “gastança” estatal.

Eu acredito que a disputa em torno desses problemas tende a se acirrar, em particular devido às políticas das grandes potências capitalistas para sair da crise às custas dos países emergentes e dos países pobres. Isso já se expressa na disputa sobre a desvalorização do dólar. Mas é difícil saber até onde será possível obter mais espaço para as rupturas necessárias. De novo, a fórmula parece ser mobilização social e disputa congressual firme.

Apesar do crescimento econômico e da redução dos índices de miséria e pobreza, o atual governo não conseguiu mudar a postura do Brasil no mercado mundial, permanecendo, sobretudo, como um exportador de commodities. Na sua opinião, que tipo de política deve ser feita para que o país possa ser referência em produtos com maior valor agregado?

Talvez a primeira coisa a fazer seja ter um plano de industrialização de mais largo prazo, tendo como eixo o adensamento das cadeias produtivas, absorvendo capitais e tecnologias avançadas para essas áreas. O que pode causar alguns deficits comerciais pela importação massiva de bens de capital indispensáveis para realizar tal adensamento. Depois, creio que será fundamental reduzir a zero, ou quase zero, todos os encargos sobre as micro e pequenas indústrias, de modo a criar uma massa crítica de fabricantes por todo o país, capazes de complementar a oferta de bens de consumo e certas demandas

dos grandes grupos industriais. Se essas duas medidas estratégicas forem implementadas, creio que a situação pode se inverter a médio prazo.

“Qualquer mudança nas relações do Brasil com os EUA deve depender dos EUA e não de nós. Se eles não interferirem em nossos assuntos internos, não há motivo para mudanças” A política internacional do governo Dilma deve permanecer a mesma da de Lula? Como o senhor avalia que deva ser a relação com os EUA?

É imperioso para o Brasil dar continuidade à política internacional do governo Lula. Se não tivéssemos diversificado as parcerias comerciais por todo o mundo, independentemente dos regimes políticos vigorantes em cada país, hoje estaríamos engolfados na mesma crise dos EUA e da Europa. E não vejo necessidade de modificar as relações com os EUA, tendo por base a mesma política de soberania e independência. Qualquer mudança nas relações do Brasil com os EUA deve depender dos EUA e não de nós. Se eles não interferirem em nossos assuntos internos, não há motivo para mudanças.

Quem é Wladimir Pomar é analista político e escritor. Foi fundador do PCdoB em 1962 e foi preso durante a ditadura militar. Posteriormente, ajudou na fundação do PT em 1980. Em 1989, coordenou a campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva. É um dos principais especialistas sobre a Revolução Chinesa, tendo publicado os livros O enigma chinês: capitalismo e socialismo (Alpha Ômega); China, o dragão do século XIX (Ática); Revolução Chinesa (Editora Unesp) e China - Desfazendo mitos (Publisher Brasil).

SEMINÁRIO

Petrobras discute fundo social do pré-sal Joana Tavares de São Paulo A descoberta de um grande volume de petróleo e gás de alta qualidade na camada de pré-sal, no litoral entre Santa Catarina e o Espírito Santo, coloca ao Brasil o desafio de planejar não só sua exploração eficiente, mas principalmente o destino de seus resultados. A Petrobras, que já possui experiência no desenvolvimento de campos de águas profundas, está se preparando técnica e tecnologicamente para garantir a produção nessa nova fronteira. Além disso, a empresa é responsável por garantir que os recursos do pré-sal atendam aos interesses do Brasil, conforme o novo marco regulatório para a exploração do pré-sal. Um dos principais debates, atualmente, é a constituição de um fundo social para os recursos do pré-sal. Aprovado no novo marco regulatório,

o Fundo Social deve se constituir como uma fonte de recursos para o desenvolvimento da educação, cultura, saúde, meio ambiente e para o combate à pobreza. Seminário Dada a importância dos recursos em questão, é importante que toda a sociedade brasileira participe das discussões para a implementação da proposta. Com essa intenção, a Petrobras promove um seminário com o tema: “Os recursos naturais do pré-sal e a criação do fundo social brasileiro – potencialidades e desafios”. A atividade será realizada nos dias 5 e 6 de novembro, no Instituto latinoamericano de agroecologia, educação, capacitação e pesquisa da agricultura camponesa Contestado, no município da Lapa, no estado do Paraná. Especialistas, professores, comunidade acadêmica e movimentos sociais participam do seminário.

Congelador O Poder Judiciário brasileiro tem sido especialista nas artimanhas para proteger ricos e famosos pegos na prática de crimes. Uma das jogadas é protelar ao máximo até que ocorra a prescrição. Já faz um ano que o processo iniciado com a Operação Satiagraha está parado na Justiça Federal, por conta de indefinição de jurisdição. Enquanto isso, o pessoal do banqueiro Daniel Dantas, acusado de evasão de divisas, continua impune. Ódio burguês Os jornalões da mídia burguesa no Brasil trataram Néstor Kirchner como um caudilho peronista centralizador e autoritário. Esconderam, na verdade, o motivo de seu ódio: ele colocou milicos torturadores na cadeia, enfrentou ruralistas e latifundiários, decretou moratória, combateu a especulação do capital financeiro e, a gota d’água, bateu pesado no oligopólio midiático. Quem teve coragem para tanto Megaeventos Com a participação de convidados da Grécia e da África do Sul, acontece nos dias 8 e 9 de novembro, na Faculdade de Direito da USP, em São Paulo, o Seminário Impactos Urbanos e Violações de Direitos Humanos nos Megaeventos Esportivos. O povo tenta se preparar para a Copa do Mundo de Futebol (2014) e as Olimpíadas (2016). Moradores das sedes desses eventos já estão sendo vítimas de despejos e outras violências. A barra vai pesar! Ocupações já Aproximadamente 50 famílias ocuparam, no dia 1º de novembro, o prédio do INSS localizado na rua Sara, 85, no bairro Santo Cristo, no Rio de Janeiro, e que estava abandonado há mais de 15 anos. Os novos moradores do prédio se autodenominaram Ocupação Guerreiro Urbano, denunciaram que o deficit habitacional, no município do Rio, é superior a 150 mil moradias e receberam solidariedade de outras ocupações na cidade. Rotina paulista No dia 29 de outubro, três homens não identificados foram assassinados a tiros na Vila União, na região do Capão Redondo, periferia de São Paulo. Eles foram abordados por supostos policiais, colocaram as mãos para cima e foram fuzilados. Essa foi a 12ª chacina do ano registrada na região metropolitana, com um total de 46 mortos. Os esquadrões da morte e os grupos de extermínio continuam ativos e impunes. Federalização Pela primeira vez, o Superior Tribunal de Justiça aprovou o instituto do deslocamento de competência e transferiu para a sua alçada o processo do assassinato do ex-vereador Manoel Mattos, advogado ligado aos direitos humanos, ocorrido em 2009, na Paraíba. Anteriormente, o STJ havia negado deslocar para a alçada federal o caso do assassinato da irmã Dorothy Stang, ocorrido no Pará, em 2005. Resta saber se fará justiça rapidamente! Teimosia imperial Em sua seção de 26 de outubro, a Assembleia Geral da ONU aprovou o fim do embargo comercial e financeiro dos Estados Unidos contra Cuba. Votaram a favor 187 países. Votaram contra apenas os Estados Unidos e Israel. As Ilhas Marshall, Palau e Micronésia se abstiveram. O império está praticamente só no bloqueio imposto à ilha há 48 anos, que acarretou em danos incalculáveis ao resistente e combativo povo cubano. Chega!


brasil

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Desafios para Dilma CELEBRAMOS alegremente a vitória de Dilma Rousseff. E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra, que não mereceu ganhar esta eleição, dado o nível indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados. Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, saíram desmoralizados. Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff. Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais, para um Estado republicano, que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituída. Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura. A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema. E a

ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Família, entre outras. Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu; pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas, desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos. Não obstante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu, o que granjeou a Lula extraordinária aceitação. Agora se coloca a questão: a presidenta aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira? Estimo que Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas

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Leonardo Boff

novos, como aquecimento global, devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a novel presidenta compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva. O PAC deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda, no horizonte, se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente. Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repetir a mercantilização das relações partidárias (“mensalão”). As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será difícil, devido aos inte-

A presidenta aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social ou manterá a equação que preserva o econômico?

resses corporativos dos partidos, em grande parte vazios de ideologia e famintos de benefícios. A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular, levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades. Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a presidenta deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócioecológica. O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra. Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos; não imperial, mas cordial e corresponsável pelo destino comum. Esse pacote de questões constitui um desafio, que a novel presidenta irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.

Índios urbanos, o outro lado da aldeia Toré_Publius Vergilius-CC

POVOS ORIGINÁRIOS Entre aldeias e favelas, São Paulo abriga mais de 12 mil indígenas de 20 etnias

Etnias da metrópole paulistana

Heloisa Bio Ribeiro de São Paulo (SP) COM A responsabilidade de zelar pelas máscaras que representam os espíritos indígenas encantados, o líder comunitário Bino Pankararu venceu uma prova de fogo durante o último incêndio que se alastrou pela favela Real Parque em São Paulo. Entre o risco de perder os móveis da família ou as máscaras sagradas do ritual do Toré, ele não teve dúvidas e carregou, uma a uma, as pesadas peças da cerimônia para longe do barraco. Apesar das precárias condições de vida, os pankararu ainda se reúnem para cultuar os Encantados na favela, entoam cantos, cobrem o corpo com os praiás – as máscaras que incorporam os espíritos – e dançam ao som do maracá. Para além do folclore, a expressão do Toré mantém viva sua cultura e ajuda a definir a identidade do grupo onde quer que ele esteja. O debate sobre os direitos indígenas fora de seu território original é cada dia mais atual. Estima-se haver mais de 50 mil índios vivendo nas cidades brasileiras, dentro do universo de 720 mil índios do país, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os pankararu somam 1,6 mil pessoas em São Paulo, principalmente na favela Real Parque, no Morumbi, e compartilham a história da migração indígena com mais 19 etnias que se fixaram no município paulista e seus arredores. Em meio à população urbana da metrópole, há mais de 12 mil indígenas, distribuídos nas comunidades de baixa renda e em quatro aldeias guarani. Nesse cenário, buscam reconhecimento a partir de características culturais próprias que os distinguem da sociedade nacional, afastando a imagem de que o índio pertence à mata e deve permanecer na aldeia, distante da sociedade não indígena.

Estima-se haver mais de 50 mil índios vivendo nas cidades brasileiras, dentro do universo de 720 mil índios do país Estabelecimento

Em sua maioria, originária do Nordeste, chegaram a São Paulo após casos de invasão de suas terras, dificuldade de produção de alimentos, e, até, carência de oportunidades de educação e saúde nas aldeias. Coincide com a construção do estádio do Morumbi, por exemplo, o estabelecimento dos primeiros pankararu à margem do rio Pinheiros, ainda na década de 1950. A viagem de 2,2 mil km

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Pankararu realiza o ritual do Toré

da aldeia de Brejo dos Padres, em Pernambuco, até o centro urbano, foi empreendida, primeiro, pelos homens, que sobreviveram da renda na construção civil, e foi seguida pela chegada de suas famílias e da fundação da Vila da Mandioca, hoje, Real Parque. “A cultura não morre se não deixarmos, e aprendi com meu pai que precisamos brigar para sermos vistos”, expressa Dora Pankararu, filha de Bino, e, hoje, presidente da Associação SOS Pankararu, que busca soluções para os problemas da favela, como moradia e saúde, mas, também, o tratamento diferenciado para os índios urbanos. Esta resistência abriu as portas, em 2002, para que a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o órgão do governo federal que atende à saúde indígena, reconhecesse algumas etnias que vivem no meio urbano, tornando garantido seu atendimento básico, com oferta de medicação, consultas e cirurgia. A Fundação Nacional do Índio (Funai) também presta apoio aos estudantes e prevê assistência emergencial em casos de retorno à aldeia. “Mas, muitos não entendem a dificuldade do índio em viver na favela. As garantias sociais se tornaram um jogo de empurra-empurra. Para outras etnias, como os krenak ou terena, a conquista de direitos vem sendo fruto de muita pressão”, afirma Dora. Segundo ela, o reconhecimento dos pankararu esteve ligado a alguns fatores como o nível de organização, a manutenção da história viva e a união em torno de uma causa única. Ontem e hoje

Preservar os traços culturais é desafio mesmo para as etnias que ainda vivem em aldeias, como os guarani mbyá

diferentes etnias vivem na região da Grande São Paulo

das aldeias Tekoá Itu e Tekoá Pyiaú, do pico do Jaraguá, e das aldeias Tenonde Porã e Krukutu, da região de Parelheiros. No Jaraguá, a menor aldeia do Brasil (2,7 hectares) sofre com as pressões por reintegração de posse, a construção do trecho oeste do Rodoanel e a inserção de projetos imobiliários na região. Nesse bairro, a presença indígena remonta ao século 16, e a língua guarani ainda é falada e ensinada no centro de educação bilíngue construído ali, pois existe dificuldade em se aplicar o modelo não indígena das escolas públicas no ensino dentro da aldeia. A religiosidade e a produção artesanal estão entre os principais elementos da resistência guarani, já que a terra não pode ser mais fonte de sobrevivência. “Grande parte da sociedade reforça a ideia discriminatória de que a cidade grande não é espaço para as populações tradicionais. Mas os povos que vivem em área urbana não deixam de ser indígenas por esse fato”, defende Benedito Prezia, coordenador da Pastoral Indigenista de São Paulo e autor do livro Índios em São Paulo, ontem e hoje. Inclusão

Ele participa de um importante programa para a inclusão de jovens no sis-

Pankararu (vários bairros e cidades da Grande São Paulo Pankararé (vários bairros e Osasco) Atikun (zona norte) Guarani Mbyá (Jaraguá e Parelheiros) Guarani Nhandeva (zona leste) Tupi-Guarani (Guarulhos) Kaingang (zona leste) Pataxó (Guarulhos) Potiguara (São Miguel, Santo Amaro, Guarulhos) Fulni-ô (zona norte, Carapicuíba) Xukuru (zona sul) Xukuru-Kariri (Osasco) Terena (Mogi das Cruzes, zona norte) Kariri-Xokó (zona norte) Kaimbé (Ferraz de Vasconcelos e vários bairros da capital) Xavante (alguns bairros) Tupinambá (zona leste) Kapinawá (zona leste) Kaxinawá (centro) Karajá (zona sul)

tema de ensino superior do país. A semente foi lançada em 2001, numa parceria com a Pontifícia Universidade (PUC) de São Paulo e as comunidades indígenas da capital. Hoje, o Programa Pindorama tem formado 38 indígenas de nove etnias em cursos como engenharia, direito, enfermagem, serviço social, ciências sociais, pedagogia e mídias digitais. “Traz perspectiva de futuro e é uma via de dupla mão, em que os formados devolvem o saber para a comunidade”, reforça Prezia. Foi o caso da jovem Jaciara Augusto Martim, filha de pai krenak e mãe guarani, para quem o curso de serviço social oportunizou o trabalho na ONG Nossa Tribo, coordenada pela fotógrafa Rosa Gauditano, que desenvolve iniciativas para ampliar a comunicação entre os povos tradicionais e os não indígenas. “Na ONG, aprendi a montar projeto, produzir relatório, entender os editais de cultura, sempre com a ideia de desenvolver uma ação na aldeia onde vivo”, diz Jaciara. Em 2009, seu projeto “Troca de Saberes” foi aprovado pelo Ministério da Cultura e ela conseguiu recursos para colocar em prática um sonho de intercâmbio cultural entre o povo do Pico do Jaraguá e outras etnias. Jaciara levou as crianças guarani para conhecer os xavante, no Mato Grosso, e se surpreendeu com o resultado. “Perceberam o quanto ainda são fortes culturalmente, mesmo próximos da cidade, e despertaram, com o xavante, para o espírito de luta em prol da identidade”.


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cultura

América Latina:

onde floresce o

hip hop político Reprodução

MÚSICA Como na metáfora dos modernistas brasileiros, o continente promove uma antropofagia cultural, engolindo, digerindo e transformando a herança da diáspora negra Spensy Pimentel VINTE ANOS atrás, o rap político chegava ao seu auge nos EUA. Grupos como Public Enemy, Boogie Down Productions (BDP) e Niggers with Attitude (NWA) expressavam, cada um a seu modo, o descontentamento dos habitantes dos guetos das grandes cidades do país com a falta de oportunidades econômicas para os mais pobres e a violência policial, especialmente contra negros e latinos. A virulência das letras, recuperando muitas ideias e nomes do movimento negro dos anos de 1960 e 1970, chamava a atenção, e os grupos chegaram a ser alvo de investigações do FBI. Congressistas da direita faziam discursos raivosos e paranoicos. Causa? Efeito? Sintoma, de qualquer modo. Enquanto ecoavam pelos guetos negros e latinos dos EUA versos virulentos contra a polícia, como “Fuck the police”, uma insatisfação crescente desembocou em uma série de revoltas em 1992, principalmente a partir de Los Angeles, onde policiais acusados de espancar o taxista negro Rodney King, flagrados por um cinegrafista amador um ano antes, foram absolvidos por um júri formado majoritariamente por brancos. Logo depois, os ventos mudaram nos EUA. A sucessão de governos republicanos – que costumam cortar os gastos públicos, principalmente destinados à assistência social – foi interrompida em 1993 pela chegada do democrata Bill Clinton. A queda do Muro de Berlim, em 1989, deu força ao projeto neoliberal traduzido no Consenso de Washington, e os anos 1990 foram marcados pela imposição dos padrões econômicos que interessavam aos mercados financeiros. Na América Latina, uma leva de governos francamente alinhados aos EUA produziu a abertura dos mercados, privatizações e o desmantelamento da economia. Em menor ou maior grau, o continente foi à lona.

A centelha de consciência política e revolta trazida pelo hip hop como herança dos movimentos negros dos anos de 1960 e 1970 não morreu, apenas emigrou Espírito do mundo

A música dos guetos continuou a refletir o zeitgeist, o espírito do mundo. Favorecida pelas políticas de livre mercado, as privatizações e as novas tecnologias – com o advento da internet, sobretudo –, a economia americana viveu um período de grande prosperidade. Em paralelo, o rap ganhou espaço no mainstream (3M: mercado, mídia, moda) ao mesmo tempo em que o protesto político passou a ser uma corrente minoritária. Ganhava espaço, principalmente, o gangsta rap, cada vez mais celebrando um modo de vida consumista de artistas que passavam a ganhar dinheiro com a música. No fio da navalha, entre as duas tendências, ficavam figuras como certo filho de Afeni Davis, uma antiga integrante do Black Panthers Party, conhecido como Tupac Shakur, mais tarde, 2Pac. Mas a centelha de consciência política e revolta trazida pelo hip hop como herança dos movimentos negros dos anos 1960 e 1970 não morreu, apenas emigrou. Escondida nos porões das naus da globalização neoliberal, ela se espalhou pelos continentes. Na França, foi trilha sonora das revoltas dos jovens dos bairros pobres contra as políticas liberais e a violência policial. Na Palestina, embala a luta dos jovens na Intifada. À África, o fruto da diáspora negra voltou para semear a desobediência civil contra o autoritarismo.

30 milhões de mexicanos ou descendentes vivem nos Estados Unidos

E foi na América Latina que a semente do hip hop encontrou o solo mais fértil. Aqui, os ensinamentos sobre o valor da organização comunitária local, na produção cultural, ganham nova dimensão, e o movimento se converteu em catalisador de núcleos de formação política nas periferias urbanas e voz dos oprimidos. Milhares de jovens, dos quais não falavam os partidos, os sindicatos ou os movimentos negro e indígena, de repente passam a ler obras de Malcolm X e Martin Luther King, a procurar informações sobre líderes como Zumbi dos Palmares, Che Guevara, Luisa Mahin ou Tupak Katari, ao mesmo tempo em que promovem festas, cursos de dança, desenho e poesia, além de trabalhos sociais nas comunidades onde vivem. A maioria absoluta não vai se tornar campeã de vendas, não vai se tornar milionária, mas terá, certamente, a vida mudada por essa sutil combinação de arte e política em que se converteu o hip hop. Chicanos

Os mexicanos, que são quase 30 milhões, entre os nascidos no México ou seus descendentes, vivendo nos Estados Unidos, têm tamanha presença nos guetos americanos que o país poderia ser considerado quase tão importante na composição dos elementos do hip hop como a Jamaica – de onde vieram vários dos primeiros envolvidos nas festas de rua (block parties) onde surgiu o movimento, com elementos como o DJing e o Mcing. O rap chicano se impôs nos anos 1990, e a arte do lowriding, por exemplo, típica das comunidades mexicanas na região de Los Angeles, foi definitivamente incorporada ao hip hop. Não há como ignorar, ainda, a possível influência da arte latino-americana no grafite, particularmente o muralismo centro-americano. Desde os anos 1990, ao mesmo tempo que é um dos mais castigados pelas políticas neoliberais, o país também gerou um movimento que virou referência para a resistência contemporânea ao capitalismo: o zapatismo. Rappers como Olmeca, que mora em Los Angeles, e Boca Floja, demonstram a influência do EZLN. Outro país latino-americano, cujos imigrantes estiveram fortemente ligados às raízes do movimento, é Porto Rico. Alguns dos primeiros MCs, DJs, breakers e grafiteiros tinham ascendência portorriquenha – ou cubana, ou ambas. Era portorriquenho, por exemplo, Julio

Magia Lopez e Alexey Rodríguez Mola, da dupla cubana Obsesion

204, precursor do grafite e do próprio Taki 183, o primeiro praticante das tags a obter fama na mídia em 1971. Outro descendente de portorriquenhos (e cubanos) era o DJ Disco Wiz, integrante de uma das primeiras crews de MCs do Bronx. Hoje, o rap político portorriquenho, conhecido como rap boricua, de artistas como Siete Nueve e Intifada, celebra a soberania do país e ataca os invasores norte-americanos, que já ocupam o país há 112 anos. Auto-afirmação

No Brasil, o hip hop tornou-se, rapidamente, uma das principais expressões de um forte movimento de autoafirmação da população negra e de reivindicação de espaços na política, na economia e na sociedade. Nomes como os dos Racionais MCs e GOG inspiraram milhares de jovens a procurar entender melhor sua história e sua vida. Toda uma geração de rappers obteve destaque no país desde o início dos anos 1990, trazendo destaque à problemática da juventude negra nas periferias metropolitanas do país. São nomes como RZO, Sabotage, De Menos Crime, Conexão do Morro, MV Bill, Z’África Brasil, entre outros. Na década atual, os rumos dos trabalhos dos Racionais e de Bill, entre outros, causam debate no movimento, incluindo-se contratos com grandes empresas, como Nike e Nextel, além de, no caso deste último, posicionar-se a favor de ações polêmicas do governo Lula, como a coordenação da missão da ONU no Haiti e fazer aparições na TV Globo. Em tempos de bonança na economia, com um governo que tem aprovação de uma maioria absoluta da população negra e pobre, o rap político perdeu terreno. Ganhou espaço no país o funk carioca, por exemplo, uma derivação de um estilo do rap norte-americano, o miami bass, mais dançante e abordando temáticas mais ligadas à sexualidade. Ainda assim, o funk carioca enfrenta a criminalização, da mesma forma que outras manifestações culturais populares, principalmente devido a letras que abordam (e, do ponto de vista de alguns, exaltam) o crime organizado do Rio de Janeiro. Artistas do funk carioca como Deize Tigrona alçaram fama internacional. Ao mesmo tempo, a maior consciência sobre os limites da tomada de poder por um partido de esquerda e a necessidade de continuar a luta social fora do âmbito estatal dão destaque a uma nova leva de ativistas-ativistas, como é o caso do coletivo Lutarmada. A falência da indústria da música também enseja a reflexão sobre formas alternativas de distribuição e novos padrões de comportamento diante da grande mídia e dos partidos políticos, como é o caso dos MCs Emicida, Rashid e Rapadura, do coletivo Enraizados, ou dos grupos Facção Central e Tr3f – este último, do escritor Ferréz, casos em que se trata de gente com anos

de estrada no movimento, mas que representam esse novo momento que chegou para o hip hop, no Brasil, diante da atual conjuntura política. Apoio governamental

Em outros países, como Venezuela e Cuba, onde há um explícito projeto socialista em marcha, os governos locais dão apoio massivo ao hip hop como forma de cultura jovem. Em Cuba, existe até mesmo um organismo estatal específico, a Agência Cubana de Rap, para dar suporte ao movimento. Intensa articulação com os afrocubanos nos EUA acontece em torno do evento Agosto Negro, que ocorre desde 1998 e envolve, entre outros elementos, a solidariedade com presos políticos negros nos EUA (como o padrasto de Tupac, preso até hoje) –, por iniciativa da ativista Nehanda Abiodun, veterana do Black Power que obteve asilo político em Cuba. Nomes fortes dessa cena do rap político cubano são, entre outros, Anonimo Consejo, Los Aldeanos e Obsesión. Na Venezuela, desde 2005, o governo ajuda a promover a Cúpula Internacional do Hip Hop, que é anual e já está em sua quinta edição. Aí estão grupos como o Hip Hop Revolución, Kultura Santa e Septima Raza. Em parceria com o governo, o movimento está criando a rede de Escolas Populares de Artes e Tradições Urbanas (Epatu). Pelas cúpulas venezuelanas, já passaram grupos de vários países, como Legua York (Chile), Actitud María Marta (Argentina) e Metaforus (República Dominicana). Uma das grandes novidades dos últimos anos, ainda, é o rap indígena. Na Bolívia, onde dois terços da população pertencem a algum dos 36 povos originários do país, destaca-se a produção de El Alto, onde apareceu o grupo Wayna Rap, rimando em aimara (uma das duas principais etnias do país) e onde está o grupo Ukamau Y Ke, cujo líder, Abraham, morreu em 2009. No Chile, os mapuche, que são o principal grupo indígena do país, enfrentam pesada discriminação racial e violência policial. A identificação com o hip hop é inevitável. Na fronteira do Brasil com o Paraguai, os guarani-kaiowá enfrentam situação semelhante. O resultado tem sido muita violência, suicídios e, agora, como reação, o hip hop, cantado em guarani, pelo grupo Brô MC’s. O hip hop na América Latina não para de evoluir e se transformar. Como na metáfora dos modernistas brasileiros, evocando a herança dos índios tupi da costa brasileira, canibais à época da conquista, o continente promove uma antropofagia cultural, engolindo, digerindo e transformando a herança da diáspora negra. (Publicado originalmente em Desinformémonos) Spensy Pimentel é colunista do Centralhiphop.uol.com.br e autor do Livro Vermelho do Hip Hop.


internacional

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“É preciso construir um movimento verdadeiramente de esquerda nos EUA” ENTREVISTA Para o analista estadunidense Victor Wallis, para que o processo eleitoral no país – que foi às urnas no dia 2 – traga mudanças de fato, será necessário a emergência de uma força política à esquerda do Partido Democrata Pete Souza/Official White House Photo

Dafne Melo da Redação NO DIA 2 de novembro, os estadunidenses foram às urnas para eleger governadores em 37 Estados, além de 435 assentos no Congresso, sendo 37 no Senado e o restante para a Câmara de Deputados. Como costuma ocorrer nessas eleições, sempre dois anos após o pleito presidencial, o partido que está na Presidência deve sofrer um revés, perdendo algumas cadeiras no Congresso. Desde 1946, o partido da situação perde, em média, 25 assentos na Câmara e três no Senado. (Os resultados das eleições não haviam sido divulgados até o fechamento desta edição, no mesmo dia 2) Assim, se o Partido Democrata, do presidente Barack Obama, possui hoje a maioria nas duas Casas, deverá perder a maioria na Câmara e manter uma leve vantagem no Senado. Essa é a avaliação de Victor Wallis, editor da revista Socialismo e Democracia (http:// sdonline.org) e professor do Departamento de Artes da Faculdade de Música de Berlee, em Boston, nos EUA. Wallis acredita, ainda, que, dentre os governadores, deverá haver um relativo equilíbrio, pendendo mais para os republicanos. Para o especialista, portanto, é certo que pouco mudará. “Desde 1980, tem havido um aumento contínuo das políticas neoliberais, independente do fato de se ter na Casa Branca um democrata ou republicano. Isso não deve mudar a curto prazo”, opina. Para o professor, mudanças, de fato, só ocorrerão quando a esquerda dos Estados Unidos conseguir criar força social que consiga quebrar o ciclo vicioso da política estadunidense. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista. Brasil de Fato – Essas eleições serão um sinal de como o povo estadunidense está avaliando o governo Obama? Será uma espécie de referendo? Victor Wallis – Sim. O problema, entretanto, é que não há uma força eleitoral à esquerda dos democratas. O resultado disso é que, quando aqueles que têm esperança de alguma mudança perdem a fé neles, os beneficiados são os republicanos. O Partido Democrata não conseguiu estar à altura das promessas que fez. Para a maioria dos eleitores, isso está relacionado, principalmente, à falta de melhoras em relação à economia e à reforma do sistema de saúde, que tiveram severas concessões. Ocultando estas falhas, ainda não discutidas senão nos meios mais progressistas, estão as políticas econômicas e militares de Obama, que são a continuação das de George W. Bush. Particularmente notável é a intensificação da presença militar estadunidense no Afeganistão e a ineficiência em punir os militares responsáveis pelas torturas, bem como a continuação das detenções em Guantánamo [base militar dos EUA em Cuba, onde se prendem acusados de terrorismo em condições que violam os direitos humanos]. O fato de que o secretário de Defesa de Bush [Robert Gates] manteve seu posto na gestão Obama diz muito. Os últimos acontecimentos – os vazamentos do Wikileaks [site que se dedica a divulgar documentos secretos de governos] – sobre os ataques a civis no Iraque tiveram o mesmo tratamento que teriam na administração passada. Ao invés de iniciar investigações, o governo Obama tem combatido as afirmações do Wikileaks. Na esfera financeira, os dois principais líderes vêm dos setores de Wall Street, ligados aos republicanos. Eles têm garantido a tranquilidade para os bancos, mas não para aqueles que foram forçados a sair de suas casas devido aos empréstimos predatórios que os bancos fazem. Outro comentário geral é que uma decisão recente da Suprema Corte retirou todas as restrições do uso de dinheiro privado nas campanhas políticas. Embora ambos partidos tenham a capacidade de atrair o financiamento privado, o Partido Republicano deve ter mais financiamentos. Boas quantias também estão sendo destinadas ao Tea Party, que acusam Obama de ser socialista! Os efeitos da crise econômica afetam diretamente o resultado dessas eleições? No começo do governo Obama, os efeitos da crise podiam ser atribuídos aos republicanos. Agora que, para a maioria das pessoas, houve pouca melhora depois de dois anos, os democratas passam a ser culpados também. Analistas apontam que os republicanos devem sair vitoriosos dessas eleições. Qual

Não há uma posição única. A liderança dos sindicatos da Federação Americana de Trabalhadores – Congresso de Organizações Industriais [AFL-CIO, na sigla em inglês] – é permanente e inquestionavelmente comprometida com os democratas, mas a capacidade deles de “distribuir” os votos de seus membros encontra problemas que já mencionei. Organizações de massa, incluindo as progressistas, também costumam advogar pelo apoio aos democratas como um gmal menorh. O único partido de esquerda que pode ter algum efeito nas eleições é o Partido Verde, normalmente em nível local apenas, quando ganha assentos em câmaras de vereadores, mas, às vezes, também em nível estadual. Nestas eleições, há uma campanha notável em Madison, Wisconsin, onde o ativista radical Ben Manski possui uma grande chance de conseguir um assento na assembleia legislativa.

“Embora ambos partidos tenham a capacidade de atrair o financiamento privado, o Partido Republicano deve ter mais financiamentos”

Presidente Obama vê a direita retomar força em seu país

deve ser a nova configuração no Congresso e, também, dos governadores? Espera-se, a essa altura, final de outubro, que os republicanos ganhem a maioria dos assentos no Congresso, mas é possível, embora incerto, que os democratas mantenham uma ligeira maioria no Senado, onde apenas um terço dos assentos é renovado a cada intervalo de dois anos. Quanto aos governadores, espera-se que o equilíbrio vai-se desfazer, em benefício dos republicanos.

“Não há uma força eleitoral à esquerda dos democratas. O resultado disso é que, quando aqueles que têm esperança de alguma mudança perdem a fé neles, os beneficiados são os republicanos” Você acredita que os resultados dessas eleições mudam alguma coisa, para melhor ou pior? Desde 1980, tem havido um aumento contínuo das políticas neoliberais, independente do fato de se ter na Casa Bran-

ca um democrata ou republicano. Isso não deve mudar a curto prazo. Infelizmente, dá-se muita ênfase às eleições como uma forma de trazer mudanças. Para que o processo eleitoral traga, de fato, alguma mudança que possa beneficiar a maioria da população – o que também pode trazer alguma melhora para aqueles que são vítimas das políticas estadunidenses ao redor do mundo –, será necessário construir uma força política de esquerda que ainda não existe nesse país. A crescente presença dos imigrantes nos EUA está influenciando o resultado dessas eleições? A retórica anti-imigrante é um componente muito importante das campanhas da direita. Esse discurso serve para distrair a atenção das pessoas das verdadeiras fontes de problemas econômicos. Dada a incapacidade dos democratas de responderem apropriadamente à situação econômica, qualquer esforço que façam para resistir às leis anti-imigração é apontado como antipatriótico. A imigração também é tida como a responsável por trazer o terrorismo, e se faz uso do fato de que Obama não nasceu nos Estados Unidos. Qual a posição dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda nessas eleições?

Por outro lado, qual a posição de movimentos da ultradireita, como o Tea Party, que parece estar ganhando influência nos últimos meses? O Tea Party não é um parido. O nome vem de uma ação dos independentistas da década de 1770 que afundaram um navio britânico com carregamento de chá, em Boston, em protesto contra os impostos metropolitanos. Ao contrário daqueles do passado, o Tea Party de hoje está muito longe de ser anti-imperialista. A agenda política oculta deles é dar à ala ultraneoliberal do Partido Republicano um verniz de legitimidade popular. A discurso deles, entretanto, não articula muito uma posição política, mas dá voz a sentimentos de ódio dos brancos mais velhos. Um típico protesto do Tea Party, referindo-se a Obama, diz: “impeachment ao muçulmano socialista!”. Eles não são apenas contra os imigrantes, mas também contras as “elites” e “grandes governos”. Eles expressam uma típica mentalidade fascista, incluindo um racismo mal escondido, que é estimulada por algumas personalidades direitistas da mídia, como Rush Limbaugh e Glen Beck. A estratégia deles é ganhar influência dentro do Partido Republicano. A liderança democrata deu espaço político para o surgimento dessas tendências, pois, ao invés de implementar as reformas verdadeiramente populares em 2009 (como a de saúde), eles cortaram tudo o que havia de popular na esperança de ganhar um apoio dos republicanos que, na época, sequer precisavam. Por não conseguir melhorar as condições materiais da vida das pessoas, eles ficaram vulneráveis aos ataques vindos das forças mais conservadoras. Os ataques confirmaram a timidez dos democratas, perpetuando o ciclo vicioso da política estadunidense, no qual as políticas reacionárias sempre possuem vantagem. Os esforços para quebrar esse círculo vicioso não têm conseguido muito sucesso ultimamente, pois as leis republicanas têm sido tão extremas – no militarismo e subserviência a interesses corporativos – que os setores progressistas têm desviado ou interrompido seus objetivos para dar apoio aos democratas. Então, protestam menos em um governo democrata do que protestariam em um republicano, ainda que os democratas estejam implementando as mesmas políticas. O movimento antiguerra foi uma vítima da campanha de John Kerry em 2004 [candidato democrata que disputou eleições com Bush] e os protestos contra a intensificação do conflito no Afeganistão, na era Obama, são minúsculos. Toda essa situação mostra a importância de se construir um movimento verdadeiramente de esquerda. Há dois exemplos, hoje, do potencial de força do eleitorado de esquerda. Um foi o Fórum Social recente que houve nos Estados Unidos, feito em junho, em Detroit, que recebeu mais de 20 mil pessoas dentre todas as atividades de uma semana. Isso não foi coberto pela mídia estadunidense, mas houve, por outro lado, um crescimento da procura por meios alternativos, como o programa Democracy Now!. (Disponível também em espanhol na página www.democracynow.org/es)


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Como Sarkozy desafia o contrato social francês FRANÇA O presidente insistiu em demonstrar o poder legislativo, executivo e policial da sua União para um Movimento Popular (UMP), o maior partido político francês Maria Do Fétal C. F. de Almeida POR CAUSA do parêntese das eleições, a mídia brasileira não repercutiu como, desde a primavera francesa (abril), a legitimidade do governo do presidente Nicolas Sarkozy caiu para somente 29% de aprovação dos franceses. Eleito em 2007, com maioria absoluta no Parlamento (Assembleia e Senado) e após a promessa de não tocar no sistema de aposentadoria, o que será que fez esse governo mudar de ideia e arriscar um segundo mandato de cinco anos a partir de 2012?

Se o sistema de arrecadação baseado sobre a sociedade do trabalho já doente faleceu, não foi sem a mão do setor financeiro No verão de 2007, a primeira lei assinada pelo presidente Sarkozy foi a do “escudo tributário” ou “bouclier fiscal”: subitamente, as quase 20 mil famílias francesas mais ricas receberam o direito de não pagar mais do que metade de sua renda em imposto tributário, nem sobre a fortuna nem sobre a herança. Resultado: malgrado a profunda crise financeira de 2008 que abalou o mundo, essas 20 mil famílias mais do que dobraram seu salário, seu bônus, sua renda, sua fortuna e sua riqueza pessoal ou familiar. Mas esse “milagre corporativo francês”, a partir da crise de 2008, aspirou, anualmente, 25% do dinheiro público arrecadado, graças à riqueza produzida pelos trabalhadores para financiar os bônus distribuídos ao sistema financeiro. Assim, se o sistema de arrecadação baseado sobre a sociedade do trabalho já doente faleceu, não foi sem a mão do setor financeiro. “A serviço dos ricos”

Durante todo o verão, em julho e agosto, os franceses assistiram, no jornal nacional, a uma novela político-financeira que foi legitimando toda e qualquer re-

ação possível contra esse governo, visto como autoritário porque está somente “a serviço dos ricos” e “expulsor de ciganos”. O prejuízo moral do escudo tributário fez com que Mme Liliane Bettencourt, a mulher mais rica da França, dona da empresa L’Oréal, recebesse, das mãos do ministro Eric Woerth, um cheque de 30 milhões de euros como ressarcimento. Ora, a própria esposa do ministro Woerth era a conselheira financeira de Mme Bettencourt. E o ministro do Trabalho que apresentou o plano de reforma das aposentadorias é o mesmo Eric Woerth. Porém, na França, o espaço público e o espaço privado estão legitima e legalmente separados desde a Revolução de 1789. Pois a conservadora e decadente burguesia francesa odeia os emergentes e suas grandes fortunas. O que explica como, mesmo sem metrô, ônibus e trem; sem táxi e aeroporto; sem jornal e jornalista; sem estudante e professor; sem secundarista e gasolina; sem lixeiro e carteiro; sem metalúrgico e caminhoneiro; apesar de todos esses inconvenientes, 69% dos franceses continuam apoiando os grevistas, as passeatas, os manifestantes e o Estado de Bem-Estar social. Poderes de Sarkozy

O caso ficou tão constrangedor (inclusive para a própria União Europeia, que emprestou trilhões de euros a 1% de juros para seus bancos privados) que a França acaba de receber um puxão de orelha da Comissão Europeia. Ela deve abandonar, para ontem, os privilégios tributários e fiscais e retirar essa lei do escudo tributário. O presidente Sarkozy – malgrado as resistências sociais de 1968, a mãe de todas as contestações; 1986, contra a reforma das universidades; 1995, contra a reforma da seguridade social (SUS); 2003, contra o primeiro projeto de reforma das aposentadorias; e 2006, contra o Contrato do Primeiro Emprego precário – insistiu em demonstrar o poder legislativo (não houve discussão na Assembleia e no Senado), o poder executivo (não houve discussão com os sindicatos e a oposição) e o poder policial – foram presos mais de dois mil jovens secundaristas e estudantes filhos da classe média) da sua União para um Movimento Popular (UMP), o maior partido político francês. O povo francês, acostumado a lutas longas, intersindicais, intercorporativas e intergeracionais de corpo a corpo, quer manter as conquistas sociais dos seus avós e transmiti-las para seus filhos e seus netos; e, para isso, está pronto a usar o Poder Judiciário. Pois, se o governo está disposto a impor um esforço da parte dos trabalhadores, estes estão exi-

Hoje, a aprovação de Sarkozy entre os franceses caiu para apenas 29%

gindo um esforço dos ricos e do mercado financeiro. Direito de greve

A maioria das propostas dos sindicatos e dos partidos de esquerda consiste em taxar as transações financeiras em igual proporção de 50%. Pois, a partir do momento que o dinheiro do setor público “salvou” as dívidas faraônicas do setor privado, adquiriu um “direito de vigilância” (un droit de regard) e um “salvo conduto” (un droit d’ingérance) sobre as ações e os investimentos do setor financeiro. O Poder Judiciário francês, consciente das injustiças fiscais e tributárias, ilegítimas em tempo de crise grave e profunda, com tendência a se repetir, considerou a requisição das refinarias de petróleo do setor privado, que estavam em greve, como injustas e ilícitas. Pois o direito de greve é inalienável. Ele é a base da democracia popular que só vem das ruas. E o Legislativo já respondeu ao escolher os juízes da novela também judiciária da família Bettencourt, que financiou todas as eleições da UMP com envelopes mensais em caixa dois, ilegal. Os fundos de pensão norte-americanos compraram empresas francesas,

beberam nas contribuições públicas ao demitir os funcionários e ganharam dinheiro público francês. O próprio irmão do presidente Sarkozy é dono de uma companhia privada de seguros, de convênios e de aposentadorias particulares. Ele seria um dos primeiros beneficiários da assinatura, pelo irmão-presidente, no dia 6 de novembro, da nova lei, que será rapidamente apresentada ao Conselho Constitucional pelo Partido Socialista e que já poderá ser rediscutida pelo próximo governo em 2013. O que diz a proposta de lei: que a idade mínima de aposentadoria passaria de 60 para 62 anos; que o tempo de contribuição obrigatório para o cálculo da aposentadoria passaria de 40 para 42 anos; e que a idade de uma aposentadoria plena e integral passaria de 65 para 67 anos. Quando, na realidade, em média, os franceses se aposentam com 57 anos e meio, com ou sem aposentadoria plena. Depois da presente pauperização dos jovens sem trabalho, vem aí a prevista pauperização dos idosos. Maria Do Fétal C. F. de Almeida é francesa, reside e trabalha no Brasil, e é doutora em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP).

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O despertar da França As manifestações das multidões respondem à escolha de uma civilização injusta, levada a cabo com a desculpa da crise financeira, pelos governos europeus Serge Halimi A França não presenciava manifestações desta magnitude há 40 anos. A personalidade de Nicolas Sarkozy, sua arrogância, seu desejo de destruir o “adversário”, conseguiu que uma grande frente se agrupasse contra ele. As manifestações das multidões não têm origem nos caprichos de um homem. Elas respondem à escolha de uma civilização injusta, levada a cabo com a desculpa da crise financeira, pelos governos europeus cujo leque de partidos vai desde a direita sem escrúpulos até a esquerda que capitulou. Na Itália, Berlusconi não faz nem mais nem menos que os socialistas Georges Papandreou, na Grécia, ou José Luis Rodrígo Zapatero, na Espanha. Todos põem em perigo os serviços públicos e a seguridade social. Todos, para contemplar as agências de classificação, pretendem fazer com que os trabalhadores paguem os danos causados pelo saque que os bancos efetuaram nos países. Estes continuam com seus ganhos garantidos, sem qualquer obrigação de se mostrarem solidários com as gerações futuras. No é “a rua” que grita, é o povo francês que entra em cena. Nenhuma legitimidade dos governos pode opor-se a seu protesto. A Assembleia Nacional se elegeu depois de uma campanha presidencial em que Nicolas Sarkozy escondeu su-

as intenções relacionadas a uma reforma previdenciária, apresentada, depois, como a “marca” de seu quinquênio. “O direito à aposentadoria aos 60 anos deve permanecer”, proclamou quatro meses antes de sua eleição. Um ano depois, referindo-se a uma eventual redução deste direito, o novo presidente da República insistia. “Não o farei(…). Comprometo-me com os franceses. Não tenho poder para o fazer. E isto não é importante para mim”.

Na Itália, Berlusconi não faz nem mais nem menos que os socialistas Georges Papandreou, na Grécia, ou José Luis Rodrígo Zapatero, na Espanha Autoritarismo

Já governados por um tratado constitucional europeu rechaçado massivamente por referendo e que os eleitos de direita (respaldados por alguns socialistas) impuseram por via parlamentar, os franceses se manifestam também contra o autoritarismo depreciativo do poder. Os jovens se deram conta do que os espera. À medida que o capitalismo encadeia as crises, endurece sua lógica. Para se manter, primeiro tem que afundar a sociedade: avaliações permanen-

Manifestações e greves buscam reverter a desesperança

tes, competição entre os trabalhadores e desgaste no trabalho. A versão mais recente do relatório “Attali” já recomenda o congelamento do salário dos funcionários até 2013, a transferência, aos pacientes, de uma parte dos encargos referentes a doenças de longa duração (câncer, diabetes), aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado), tudo, obviamente, mantendo o “fiscal”. “Diante de nós dez anos de rigor”, vaticina o ex-conselheiro especial de François Mitterrand, que bateu o pé sobre o rigor do arrocho. No último 7 de outubro, um manifestante estudante secundário explicava o sentido de sua luta: “Primeiro, é a educação, a escola. Depois, o trabalho, o mais

duro. E, depois, a aposentadoria, a recompensa. Se nos roubam a recompensa, o que nos resta?” Os liberais ironizam essa estranha preocupação dos jovens sobre a sua aposentadoria. Não se dão conta dessa ansiedade acusadora das políticas que têm levado a cabo, há 30 anos, e que estão desembocando em um futuro sem esperança. As manifestações e as greves são a melhor maneira de reverter esse destino. (Le Monde diplomatique) Serge Halimi é escritor e jornalista francês. É diretor-editorial do jornal Le Monde diplomatique. Tradução: Renato Godoy de Toledo


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A ditamole em Portugal SE NADA fizermos para corrigir o curso das coisas, dentro de alguns anos se dirá que a sociedade portuguesa viveu, entre o final do século 20 e começo do século 21, um luminoso mas breve interregno democrático. Durou menos de 40 anos, entre 1974 e 2010. Nos 48 anos que precederam a revolução de 25 de Abril de 1974, viveu sob uma ditadura civil nacionalista, personalizada na figura de Oliveira Salazar. A partir de 2010, entrou num outro período de ditadura civil, desta vez internacionalista e despersonalizada, conduzida por uma entidade abstrata chamada “mercado”. As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem. Ambas conduziram ao empobrecimento do povo português, que deixaram na cauda dos povos europeus. Mas enquanto a primeira eliminou o jogo democrático, destruiu as liberdades e instaurou um regime de fascismo político; a segunda manteve o jogo democrático, mas reduziu ao mínimo as opções ideológicas, manteve as liberdades, mas des-

truiu as possibilidades de serem efetivamente exercidas e instaurou um regime de democracia política combinado com fascismo social. Por esta razão, a segunda ditadura pode ser designada como ditamole. Os sinais mais preocupantes da atual conjuntura são os seguintes. Primeiro, está a aumentar a desigualdade social numa sociedade que é já a mais desigual da Europa. Entre 2006 e 2009, aumentou em 38,5% o número de trabalhadores por conta de outrem abrangidos pelo salário mínimo (450 euros): são agora 804 mil, isto é, cerca de 15% da população ativa; em 2008, um pequeno grupo de cidadãos ricos (4.051 agregados fiscais) tinham um rendimento semelhante ao de um vastíssimo número de cidadãos pobres (634.836 agregados fiscais). Se é verdade que as democracias europeias valem o que valem as suas classes médias, a democracia portuguesa pode estar cometendo suicídio. Segundo, o Estado social, que permite corrigir em parte os efeitos sociais da desigualdade, é em Portu-

gal muito débil e, mesmo assim, está sob ataque cerrado. A opinião pública portuguesa está sendo intoxicada por comentaristas políticos e econômicos conservadores – dominam os meios de comunicação como em nenhum outro país europeu – para quem o Estado social se reduz a impostos: os seus filhos são educados em colégios privados, têm bons seguros de saúde, sentir-se-iam em perigo de vida se tivessem que recorrer “à choldra dos hospitais públicos”, não usam transportes públicos, auferem chorudos salários ou acumulam chorudas pensões. O Estado social deve ser abatido. Com um sadismo revoltante e um monolitismo ensurdecedor, vão insultando os portugueses empobrecidos com as ladainhas liberais de que vivem acima das suas posses e que a festa acabou. Como se aspirar a uma vida digna e decente e comer três refeições mediterrânicas por dia fosse um luxo repreensível. Terceiro, Portugal transformouse numa pequena ilha de luxo para especuladores internacionais. Fazem outro sentido os atuais juros da

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As duas ditaduras começaram por razões financeiras e depois criaram as suas próprias razões para se manterem

dívida soberana num país do euro e membro da UE? Onde está o princípio da coesão do projeto europeu? Para gáudio dos trauliteiros da desgraça nacional, o FMI já está cá dentro e em breve, quando do PEC 4 ou 5, anunciará o que os governantes não querem anunciar: que este projeto europeu acabou. Inverter este curso é difícil, mas possível. Muito terá de ser feito em nível europeu e a médio prazo. A curto prazo, os cidadãos terão de dizer basta ao fascismo difuso instalado nas suas vidas e reaprender a defender a democracia e a solidariedade tanto nas ruas como nos parlamentos. A greve geral será tanto mais eficaz quanto mais gente vier para a rua manifestar o seu protesto. O crescimento ambientalmente sustentável, a promoção do emprego, o investimento público, a justiça fiscal, a defesa do Estado social terão de voltar ao vocabulário político através de entendimentos eficazes entre o Bloco de Esquerda, o PCP e os socialistas que apoiam convictamente o projeto alternativo de Manuel Alegre. (Carta Maior)

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Duas mortes em uma semana e tarefa pendente ARGENTINA A morte do ex-presidente Néstor Kirchner teve grande repercussão no Brasil. Não aconteceu a mesma coisa com a de Mariano Ferreyra, que provocou mobilizações massivas no país vizinho

“UM ESQUERDISTA a menos”, se ouviu gritar no meio do bando agressor, enquanto Mariano agonizava. Mais três foram atingidos também. Dois, nas pernas. Elsa Rodríguez, na cabeça. Elsa, de 60 anos, ainda está em coma. Mariano Ferreyra tinha 23 anos, era metalúrgico e militante do Partido Obrero, de orientação trotskista. Estava naquele lugar, perto das oficinas da ferrovia, junto aos trabalhadores terceirizados do Ferrocarril Roca. A agressão partiu do grupo de choque a serviço da direção sindical ferroviária. Dito assim, parece uma querela entre correntes sindicais rivais que escapou do controle. Assim foi apresentado o episódio, num primeiro momento, pela imprensa argentina, reeditando a operação que fez nove anos atrás, quando apresentou a execução dos militantes Darío Santillán e Maximiliano Kosteki (pela polícia) como uma briga entre piqueteros. Detalhe: Mariano, então garoto de 14 anos, presenciou a morte de Darío Santillán.

vam entre o sindicato e grupos parapoliciais como a “Triple A”, e não poucos dos seus membros migraram, depois do golpe militar, para os grupos de tarefas das Forças Armadas. Durante o governo Carlos Menem, os “gordos” combateram a resistência dos trabalhadores contra as privatizações. Muitos deles tornaram-se donos de pseudocooperativas que recontratavam os trabalhadores demitidos por salários menores e que prestam serviços terceirizados às empresas privatizadas. No caso da privatização das ferrovias, de 90 mil trabalhadores com carteira assinada (e sindicalizados), passou-se a nove mil. Esses sindicatos não só não representam a grande maioria dos trabalhadores – em casos como o dos ferroviários, os interesses diretos dos burocratas sindicais, tornados patrões, são antagônicos com as reivindicações dos trabalhadores. Para lidar com os conflitos sindicais, esses burocratas contaram sempre com grupos de choque, quase sempre recrutados nas barras bravas das torcidas de futebol, onde se juntam, também, pobres, facilmente descartáveis depois que o trabalho sujo foi feito.

Os sindicatos

As alianças do governo

Silvia Adoue

Mas as coisas são um pouco mais complicadas. E têm a ver com a atual situação do movimento sindical argentino. Existem, neste momento, duas centrais sindicais: a Confederação Geral do Trabalho (CGT), que apoia o governo de Cristina Kirchner, e a Central de Trabalhadores Argentinos (CTA), que tem uma corrente interna mais próxima ao governo e outra que faz oposição. A CTA foi fundada no começo dos anos 1990, a partir de lutas dos trabalhadores do setor público, que eram quem conservavam maior poder de combate num contexto de desmantelamento do parque industrial. A CGT resultou da reunificação, em 2004, dos dirigentes que, já no final da ditadura, haviam se constituído como “CGT dissidente” para levar adiante greves que os velhos pelegos, os chamados “gordos”, não encampavam. Os “gordos” são de uma estirpe de sindicalistas que, desde os anos 1960, participou de negociados junto aos grupos empresariais. Nos anos 1970, valendo-se de métodos de gângsteres, foi fundamental ponto de apoio da direita peronista no combate a militantes classistas e jovens revolucionários. Seus grupos de choque, na época chamados de “juventude sindical”, circula-

Há quem especule com a possibilidade de a morte de Mariano ser uma operação da direita peronista para melar a campanha de Néstor Kirchner à presidência. É possível. Mas, em todo caso, é verdade que o assassinato não é estranho às práticas deste setor sindical e, se o crime pode ser utilizado contra o governo, é porque as alianças que o sustentam incluem sindicalistas como os assassinos de Mariano. Medidas do governo de Cristina Fernández de Kirchner, como a universalização do salário família, o julgamento e punição dos repressores da ditadura, a lei de meios de comunicação e a reestatização dos fundos de aposentadoria, exigem outro arco de alianças. As grandes empresas de comunicação, afetadas pela nova legislação impulsionada pelo governo, apressaram-se a responsabilizar o governo pelo assassinato. Por sua vez, a presidenta acusou a direita do seu partido, prendeu os autores materiais e pôs em marcha uma investigação que aponta para os burocratas do sindicato ferroviário. O próprio Hugo Moyano, secretário da CGT, toma distância deles e afirma que a central sindical acolhe as reivindicações dos trabalhadores terceirizados.

Militante do Partido Obrero exibe foto de Mariano Ferreyra

Grandes manifestações, sessenta mil pessoas na Plaza de Mayo e outros tantos milhares em vários pontos do país, exigiram a averiguação dos mandantes do crime. As reações sinalizaram ao governo a necessidade de se livrar de certas alianças indesejáveis. No último final de semana, a questão era saber se o governo tinha tempo de fazer essa operação.

Medidas do governo de Cristina Kirchner, como a universalização do salário família, o julgamento e punição dos repressores da ditadura (…) exigem outro arco de alianças Kirchner

Militantes do peronismo de esquerda nos anos 1970, Néstor Kirchner e Cristina Fernández de Kirchner compreenderam, imediatamente, como a morte de Mariano poderia ecoar na sua ampla base de apoio e na campanha para as eleições presidenciais de 2011, à qual Néstor Kirchner era candidato. Ele assumiu seu mandato como a encarnação de valores da sua geração, como a justiça social, a soberania nacional e latinoamericanismo, mas combinados com uma defesa radical da legalidade republicana, sobre a qual se baseou para levar os repressores a julgamento. Esses valores republicanos permitiram sair da crise do começo da década recompondo legitimidade institucional. E aparecem, para eleitores de classe média, salvaguarda perante a violência política que levou ao extermínio de boa parte da geração de militantes dos anos 1970. Ainda está fresca na memória a morte de milhares de jovens, alguns, adolescentes, nas mãos, primeiro, das bandas da direita peronista, e,

depois, dos grupos de tarefas das Forças Armadas. Ainda há pouco, é que se lembrou “a noite dos lápis”, em que um grupo de estudantes secundaristas foi torturado e morto em meio a uma luta pela meiapassagem de ônibus. A comemoração se deu em meio a semanas de mobilizações de estudantes secundaristas em Buenos Aires, saudadas pelos mesmos eleitores de Kirchner e bem acolhidas pelo governo nacional. Nesse contexto, o assassinato de um militante de 23 anos, nas mãos de grupos da direita sindical que está dentro da base de apoio do governo, pode ter um efeito devastador. E é nesse contexto que morre o ex-presidente. A sua morte, de alguma maneira, “suspende” o tempo. Agora, abre-se todo um período de ajuste e negociação. A campanha pela presidência vai se reacomodar. Mas a direita não espera nem o cadáver esfriar. Um jornal da grande burguesia estampava na sua capa: “a presidenta vai ter oportunidade de governar”. O campo popular

Mas, para os trabalhadores argentinos, a morte de Mariano põe na ordem do dia a representação sindical das grandes maiorias. A flexibilização trabalhista dos 1990 debilitou a solidariedade de classe. Os trabalhadores subempregados não são apenas a ampla maioria numérica. Eles são, também, seu setor mais dinâmico da classe. O desafio é criar formas de organização que permitam a este setor, potencialmente mais combativo das classes trabalhadoras, se tornar protagonista dos combates necessários. E não há organização sem lutas. Silvia Adoue, argentina radicada no Brasil, é mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, doutora em literatura latino-americana pela FFLCH-USP e professora da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF).


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áfrica

“A política do governo de Moçambique é a favor das empresas e dos fazendeiros” Luciana Silvestre

ENTREVISTA Camponeses moçambicanos visitam comunidades impactadas pelo eucalipto no Espírito Santo e Minas Gerais para levarem experiência de luta a seu país Luciana Silvestre de Vitória (ES) ENTRE OS dias 7 e 18 de outubro, Ali Aide e Cecília Aide, integrantes da União Nacional de Camponeses (Unac) de Moçambique, realizaram uma visita de intercâmbio com indígenas, quilombolas, camponeses e sem-terras do Espírito Santo e comunidades do norte de Minas Gerais que sofrem impactos com a monocultura de eucalipto. O objetivo foi trocar experiências com quem foi atingido pelos monocultivos, uma vez que a expansão do eucalipto, em Moçambique, já é uma realidade. Atualmente, há cerca de 25 mil hectares plantados em todo o território moçambicano, e a previsão é de que este número seja ampliado para centenas de milhares de hectares nos próximos anos. Em entrevista ao jornal Brasil de Fato, os integrantes da UNAC, organização que faz parte da Via Campesina Internacional, relatam as impressões sobre as comunidades impactadas e expõem como tem-se dado a introdução das monoculturas de eucalipto em seu país. Brasil de Fato – Qual o objetivo da vinda de vocês ao Brasil, em especial ao estado do Espírito Santo?

Ali Aide e Cecília Aide – Viemos fazer um intercâmbio para conhecer como se deu a expansão da monocultura e plantio de eucalipto no Brasil, pois essas empresas já estão entrando em Moçambique. Como os companheiros daqui convivem há mais de 30 anos com este problema, resolvemos trocar experiências para saber quais foram as dificuldades encontradas, quais os efeitos, as desvantagens e impactos negativos da monocultura de eucalipto para as atividades dos camponeses. Quais as impressões em relação à situação das comunidades tradicionais indígenas, quilombolas, camponesas e semterra do Espírito Santo, que sofrem há décadas com o plantio de eucalipto?

O que nos chamou atenção, nessa visita, foi que a monocultura de eucalipto trouxe muitos problemas para os camponeses, porque, da forma como foi implantada no Brasil, afetou e destruiu a economia das comunidades. Os camponeses sobrevivem da terra e nela produzem alimentos para seu sustento, mas ela está tomada por eucaliptos. Como vão viver e o que vão comer? Os rios em que havia peixes e de onde se tirava água para irrigação secaram, e as caças que viviam nas matas desapareceram. Com o plantio de eucalipto, tudo isso acabou para as comunidades. As empresas que geram tantos impactos visam apenas ao lucro, mas isso é contra a humanidade, pois é um risco à soberania alimentar, que é um direito humano e não pode ser interrompido. As pessoas têm direito à alimentação adequada. Também ficamos tristes porque soubemos que foi por meio de tratores que as plantações das comunidades foram destruídas e que as famílias foram retiradas de suas casas para dar lugar ao eucalipto. Se deixarmos que as monoculturas entrem em Moçambique, vamos sofrer a mesma coisa.

“A monocultura de eucalipto trouxe muitos problemas para os camponeses, porque, da forma como foi implantada no Brasil, afetou e destruiu a economia das comunidades” Quais as principais semelhanças entre a situação do Espírito Santo e de Moçambique no que se refere ao plantio de monocultivo de eucalipto?

O que nós vimos de semelhança é que as empresas fazem uma abordagem que agrada às comunidades, prometendo que haverá desenvolvimento local, emprego, escolas melhores. Dizem que se vendermos a terra e fizermos poupança, vamos enriquecer a cada ano. Mas nada disso acontece, pois fazem essas promessas apenas para arrancar a terra dos camponeses. O rendimento do eucalipto fica todo para as empresas, e os camponeses não ficam com nada. Outra semelhança do processo é que, depois de as pessoas não terem mais terra para tra-

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da população de Moçambique vive no campo e

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da população rural é analfabeta

balhar, porque venderam à empresa, elas vão para a cidade, onde não há como produzir e nem dinheiro para comprar comida. As mulheres, em especial, sofrem muito com essa situação, porque as crianças ficam sem perspectivas de como irão viver. Como tem se dado a expansão da monocultura de árvores em Moçambique? Como a população local tem enfrentado essa situação?

O plantio de pinho e eucalipto começou em Moçambique em 2006, mas da maneira como tem se dado a expansão, pensamos que, a qualquer momento, começaremos a ter as mesmas dificuldades do Brasil. Cada vez mais, as empresas tentam enganar as comunidades para que elas ofereçam suas terras, pois vivem muito próximas a florestas nativas extensas. As empresas têm recursos e maquinários para trabalhar nessas florestas, mas precisam derrotar as comunidades, pegando as terras que estão li-

Cecília e Ali na comunidade quilombola de Angelim 1, no Espírito Santo, observam o preparo do beiju

vres primeiro, o que consideramos crime. 80% da população de Moçambique vive no campo e 65% da população rural é analfabeta, não sabe ler e escrever. Dessa forma, as empresas entregam o documento para o líder da comunidade assinar, mentindo com várias promessas do que irão fazer, e ele assina sem saber o que está escrito. É só pintar o dedo e carimbar ali. É assim que os camponeses perdem as terras. As empresas também prometem empregos, mas não falam por quanto tempo. Na prática, as pessoas ficam empregadas por apenas três meses. Nos locais onde o movimento não está, a situação é pior ainda, porque chega menos informação. Mas, nas comunidades onde o movimento de camponeses está, há mais informação e buscamos fazer um intercâmbio entre as comunidades. A expansão do monocultivo de eucaliptos em Moçambique não parou, as empresas ainda estão plantando.

“As empresas fazem uma abordagem que agrada às comunidades, prometendo que haverá desenvolvimento local, emprego, escolas melhores” Qual impacto das monoculturas sobre as mulheres? Como elas têm se organizado?

As mulheres vivem do campo e fazem sua renda a partir dos recursos naturais. Se a monocultura de eucalipto for o único plantio que há na terra, não será possível desenvolver qualquer atividade. As mulheres das comunidades, no Brasil, fabricam panelas de barros e muitas coi-

sas para seu sustento; mas, onde há eucalipto, secou tudo, e não se consegue extrair mais nada. Conhecemos um grupo de mulheres organizadas que fazem artesanato na aldeia indígena de Pau Brasil e gostamos muito daquela iniciativa, que deve se expandir por muitos grupos de mulheres. Em Moçambique, a maioria dos integrantes das associações comunitárias são mulheres e vivem do campo. Depois dessa experiência, como pretendem contribuir para a luta internacional contra as monoculturas de eucalipto?

Voltando a Moçambique, tentaremos um diálogo com o governo, pois a política é a favor das empresas e dos fazendeiros. O governo fala de desenvolvimento, mas iremos questionar: como esse desenvolvimento irá se realizar com os camponeses perdendo suas terras? Temos uma relação sentimental com nossas terras, pois foram de nossos bisavós. Se perguntarmos para a empresa a origem do povo que vivia ali, ela não responderá nada, ou melhor, responderá: dinheiro. No entanto, vimos que, no Brasil, não há abertura e diálogo com o governo e sentimos muito por isso, pois os camponeses se tornam mais pobres e as empresas mais ricas. Por isso, é muito importante a ação das comunidades, no Brasil, de retomar as terras destruindo o eucalipto para voltar ao ambiente natural, porque quem expulsou os camponeses das terras foram as empresas. Para os governos que aceitarem dialogar, nós vamos dialogar. Mas para os que não aceitarem, nós vamos fazer luta para conquistar as terras e pela soberania alimentar. Os camponeses do Brasil têm que ter mais força e nós vamos ajudar, porque participamos da Via Campesina, onde trocamos informações e lutamos pelos camponeses de todo o mundo.

Por onde passaram os moçambicanos dos Pequenos Agriculto•Movimento res (MPA), na região serrana do Espí-

rito Santo, no município de Domingos Martins. Conheceram a realidade da agricultura camponesa e a estratégia de fomento florestal – plantio de eucalipto em terras de agricultores – empresas de eucalipto.

no. Os quilombolas, que constitucionalmente têm direito à demarcação das suas terras, perderam seu território há mais de 30 anos, em grande parte para empresas de eucalipto e canade-açúcar. Atualmente, travam uma grande luta pela recuperação de suas terras.

do Movimento dos Tra- •Comunidades tradicionais de Vereda •Acampamento balhadores Rurais Sem Terra (MST), Funda e Raiz, que ficam no município na região de Vila do Riacho, município de Aracruz (ES). Visitaram as terras que foram invadidas pela empresa Aracruz Celulose há mais de 30 anos e que são devolutas, ou seja, pertencem ao Estado. A luta do MST é pela desapropriação dessas terras, para que sejam destinadas à reforma agrária.

quilombolas do Sapê do •Comunidades Norte, na região norte do Espírito San-

to, em Conceição da Barra. Passaram pela região onde existem 32 comunidades quilombolas, com uma forte ligação com o continente e povo africa-

de Rio Pardo, norte de Minas Gerais. São chamadas de geraizeiras e perderam suas terras na década de 1970 para empresas de eucalipto que arrendaram essas terras do Estado e expulsaram o povo. Há alguns anos, iniciaram uma luta pela retomada do território, sendo que Vereda Funda já conseguiu o seu de volta e está fazendo reconversão das terras de eucalipto para outros usos. A comunidade de Raiz fez sua retomada mais recentemente.

Federal do Espírito San•Universidade to (Ufes), onde realizaram um debate

sobre a luta camponesa em Moçambique e o processo de expansão das monoculturas no campo. Comunidades indígenas do Espírito •Santo, especificamente a comunidade

Areal do povo tupiniquim em Aracruz, que, após 40 anos de luta, conseguiu reconstruir essa aldeia em 2007 e está em processo de reconversão da terra explorada pela monocultura de eucalipto para a agricultura camponesa.

de Aracruz (ES), onde pude•Região ram ver a fábrica de celulose, o com-

plexo portuário, o desvio dos rios para a empresa de celulose e a situação das comunidades vizinhas.

camponesa de Farias, no •Comunidade município de Linhares (ES), que é cer-

cada pelas monoculturas de eucalipto e cana-de-açúcar, impactada também por uma fábrica de polpa de frutas da Coca-Cola. É vinculada ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).


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Edição 401 - de 4 a 10 de novembro de 2010 by Brasil de Fato - Issuu