Circulação Nacional
Uma visão popular do Brasil e do mundo
Ano 8 • Número 391
São Paulo, de 26 de agosto a 1º de setembro de 2010
R$ 2,80 www.brasildefato.com.br Rivaldo Gomes/Folhapress
No pós-Uribe, Colômbia continua militarizada A enviada especial Patrícia Benvenuti percorreu a Colômbia dias após o fim do mandato de Álvaro Uribe e constatou a continuidade da militarização do país. Um evento organizado por mais de 40 organizações populares e sociais reuniu cerca de 2 mil pessoas que realizaram ações humanitárias em várias regiões. A atividade serviu para denunciar a presença de bases militares dos Estados Unidos da América e abusos de direitos humanos, sobretudo contra mulheres. Pág. 11
Dilma tem apoio amplo no sindicalismo, mas não total As maiores centrais sindicais do país apoiam a candidatura Dilma Rousseff (PT). Sindicalistas dizem temer a volta do PSDB, o que representaria um retrocesso. Porém, a Pastoral Operária critica alinhamento ao governo. Pág. 3
Rodovia dos Imigrantes, administrada pela concessionária Ecovias
Em SP, concessionárias lucram com pedágios mais que bancos As empresas que administram rodovias paulistas obtêm rendimentos que ultrapassam aqueles obtidos por instituições financeiras. Segundo a consultoria Austin Rating, os lucros originados da cobrança de pedágios em 2009 foram, em média, de 30% do patrimônio líquido das concessionárias. Já os bancos tiveram uma rentabilidade de 20,3%. Entretanto, algumas companhias fugiram à
média e atingiram rendimentos exorbitantes, como a AutoBan (80,5%) e a Centrovias Sistemas Rodoviários (47,2%). Segundo especialistas, tais cifras foram geradas a partir do modelo de concessão escolhido pelas seguidas gestões do PSDB, que governam São Paulo desde 1994. “É um modelo até mesmo antipatriótico”, destaca líder de Fórum contra o Pedágio. Págs. 4 e 5 Christine K./CC
Acampamento Terra Livre fala para os ouvidos “surdos” do país
Os dois lados das execuções medievais adotadas no Irã
Pela primeira vez fora da Esplanada dos Ministérios, o sétimo acampamento indígena Terra Livre foi para a capital do Mato Grosso do Sul. No encontro, que contou com cerca de 800 lideranças indígenas, foram sistematizadas as principais demandas para sensibilizar os ouvidos quase “surdos” à sua pauta de reivindicações. Pág. 6
As execuções por apedrejamento no Irã denigrem a imagem do país perante a comunidade internacional. Mais que isso; fomenta uma legitimidade à Casa Branca, ainda que frágil, de assumir sua posição belicista e imperialista no Oriente Médio. A condenação à morte, agora pela forca, da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani por adultério e o suposto assassinato do exmarido, reflete, além da violação aos direitos humanos, consequências à soberania iraniana e à geopolítica internacional. Pág. 9 ISSN 1978-5134
Mulher usa o
Há 63 anos exibindo temas provocadores, como incesto e pornografia, o Festival de Locarno, considerado o maior dos pequenos e o menor dos grandes, abunda histórias de vanguarda. Foi o primeiro festival a dar destaque ao cinema iraniano, revelando o cineasta Abbas Kiarostami. Na edição deste ano, realizada entre os dias 4 e 14 de agosto, teve destaque o desenho animado sobre o Patinho Feio (foto), feito por Garri Bardine. Pág. 7
Nos últimos 100 dias, a classe política britânica tenta aprender a Reprodução
Divulgação
“Maior dos menores”, festival suíço quebra tabus
as pressões internas contra a imigração. Pág. 8
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editorial O AVANÇO voraz das máquinas de guerra dos Estados Unidos em nossos países foi a principal preocupação das organizações políticas e sociais de nosso continente. O tema esteve presente em todos os debates realizados no 4º Fórum Social das Américas, ocorrido entre os dias 11 a 15 de agosto, em Assunção, no Paraguai. É verdade que, nos últimos anos, vem se apresentando uma crise hegemônica nessa região – historicamente considerada pelo Império estadunidense como seu quintal. E, apesar da crise estrutural do capitalismo atual, que afetou diretamente o coração do sistema, não se percebe nenhum sinal de fraqueza ou contentamento com os ventos de mudanças que se sente desde o Sul. Nesse sentido, as respostas do imperialismo têm sido muito claras.
Projetos de integração O caso da derrota da Alca é emblemático. Como não se conseguiu implantá-la, rapidamente ela foi substituída pelos Tratados de Livre Comércio (TLCs). Hoje, os Estados Unidos têm tratados com todos os países da América do Norte (Nafta), com todos os países da América Central e a República Dominicana (Cafta-RD) e com todos os países da costa pacífica da América do Sul, ex-
debate
O Império apresenta suas armas ceto o Equador. Ou seja, na prática, faltam apenas os países do Mercosul e os países da Alba para completar o cerco. Por isso, os sucessivos ataques a esses blocos de países. E, claro, essa ofensiva é articulada pelas empresas de comunicação aliadas ao projeto de integração imperialista.
Militarização No campo militar, contrariando muitos analistas que viam na vitória de Barack Obama um outro tipo de relação, diferente daquela imposta pelos seus antecessores, a situação é a mesma, senão pior. Vejamos os exemplos: a reativação da 4ª Frota após 60 anos inativa é um claro sinal de que dia a dia estarão patrulhando nossas águas com uma frota composta por porta-aviões, navios de guerra e submarinos nucleares, prontos para intervir a qualquer momento. No caso brasileiro, seguramente estarão monitorando as recentes descobertas de petróleo da camada pré-sal. O anúncio de instalações de bases militares em países como a Colômbia, Panamá e os efetivos militares enviados para o Haiti e a Costa Rica
se somam a outras dezenas de bases já instaladas no Caribe e na América Central. E, para não restar nenhuma dúvida do poder e da disposição de intervenção, o golpe militar em Honduras mostrou ao mundo o que ocorre quando são contrariados. Essa militarização dos territórios tem levado à perda da soberania, da autonomia e da autodeterminação dos povos e à crescente criminalização dos movimentos sociais, convertendo-se assim em uma ameaça real para os países do continente. Seja por água, terra ou ar, esse projeto se expande como instrumento de intervenção para o controle político, econômico e social numa região considerada estratégica por sua localização geográfica e por suas riquezas naturais.
Avanços O tabuleiro da geopolítica do nosso lado também tem se movido. Infelizmente ainda não se percebe um reascenso do movimento de massas capaz de por fim às nossas debilidades e avançar para uma posição mais ofensiva. Mas o pouco que se
crônica
Roberta Traspadini
Os desafios das juventudes na construção do projeto popular
1. Dados sobre juventude e educação brasileira Segundo o documento do Ipea de 2008, “Juventude e Políticas Sociais no Brasil”, a população de 15 a 29 anos corresponde a 27,4% da população total. Existem 51 milhões de brasileiras(os) nessa faixa etária. Com relação à educação tanto em termos de acesso quanto de permanência, os dados são alarmantes para se pensar o futuro da nação. Da população dos 15 aos 17 anos, 34% ainda não concluiu o ensino fundamental; apenas 12,7% dos jovens de 18 a 24 anos têm acesso ao curso superior. Além disso, 83% dos jovens de 25 a 29 anos e 66% de 15 a 17 anos deixaram de estudar. O número de idas e vindas aos bancos escolares também chamam a atenção: os que pararam somente uma vez representam 61,6%; duas vezes, 20,1%; e 3 vezes ou mais, 16,7%. Quase 70% desses jovens pensam ser possível retornar à escola, assim que as condições objetivas de sobrevivência o permitir. Outro foco importante sobre a diversidade da juventude se refere à situação do jovem do campo e da cidade. Enquanto nas cidades vivem 84,9% dos 51 milhões de jovens do país, no campo residem 15,1%. Para o campo se amplia a precarização das condições de vida e elementos como acesso, permanência e pertença, devendo haver outros olhares sobre o debate do ser e sentir-se jovem. A questão agrária, a posse da terra, o crédito, a agricultura familiar, o campesinato como classe e o uso da tecnologia subordinada à concepção de terra e de humano são alguns dos temas a serem debatidos por esses jovens no seu contexto de vida específico. O nível de escolaridade do jovem do campo é 50% inferior ao da cidade, e o grau de analfabetismo chega a 9% nessa população. 2. Debate teórico sobre o tema Em uma perspectiva crítica, falar em juventude é retomar ao menos 4 aspectos centrais que se entrelaçam: a) A juventude como protagonista da formação de consciên-
cia: Se, por um lado, são fundados valores, memórias, representações a partir do vivido, por outro lado são abertas perspectivas sobre como ler o que se vive, para além do que até então se tem. b) A juventude como historicidade: Está referido ao movimento ininterrupto de refazer-se a partir daquilo com que se encontra e para além. A historicidade demarca o terreno da ação dos sujeitos a partir da correlação de forças manifesta no cotidiano. Vai além quando lhe permite superar o vivido rumo a outro processo de vida a ser encarnado por ela. c) A juventude como ser social: Aqui o centro é a disputa na produção de símbolos, códigos, imagens, de uma juventude que é formada ou para reproduzir o que já está posto na engrenagem instituída pelo modo de dominação real, ou para, questionando-o, permitir verificar o que pode ser feito para superar dito modelo. Esse conceito põe em evidência o individualismo apregoado como única forma possível de produção de vida, na concorrência, frente às possibilidades de relações para além do processo mercantil. d) A juventude como consciência sobre o sentido do trabalho: Nesse tema, a juventude vive outras dimensões da tensão. Ou é tomada como uma mercadoria cujo preço é estipulado por quem paga, a partir da precarização intensiva de uma formação técnica para o trabalho subutilizado, ou é tida como possibilidade de recomposição do sentido de trabalho a partir da realização e pertença do mesmo ao grupo ao qual pertence: os trabalhadores. 3. Relação entre os dados e a teoria Com base nos dados e nos temas centrais da discussão sobre juventude, podemos ver como essa categoria é complexa, heterogênea e diversificada, fazendo uma alusão à construção de Ricardo Antunes sobre o sentido do trabalho, complexa pela relação direta entre educação e trabalho que vai promovendo a divisão social e internacional e alocando os jovens a partir do melhor uso pelo capital do saber acumulado e apreendido desse grupo. Jovens com carteira de trabalho e sem carteira de trabalho; jovens no trabalho informal legítimo e legal; jovens no trabalho informal ilegítimo e ilegal, entre outros. Heterogênea pela forma e o conteúdo do ser jovem a partir do recorte étnico-racial, de gênero, de regiões e de nacionalidades.
Frei Betto
Leitura e aprendizado Gama
O RETRATO DA juventude brasileira evidencia, além dos projetos de classe, as intenções manifestas por cada corrente tanto na concepção como no que fazer, apresentado a esse grupo social pertencente à classe trabalhadora. Façamos um breve exercício de entender a situação concreta desse grupo na educação, para depois, imersos nos principais elementos reflexivos, pensarmos o inédito viável desse grupo.
avançou, principalmente no campo institucional – como a ascensão de governos progressistas que se elegeram negando as políticas do modelo neoliberal; a formação de blocos de países que excluíram os Estados Unidos e Canadá, como é o caso da União das Nações Sul-americanas (Unasul); e, mais recentemente, a Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos (Celac) –, é fundamental para compor um campo de resistência à sanha imperialista. Foi justamente a partir da mediação da Unasul que foi possível desarmar a tática de provocação alimentada pelos EUA na relação entre a Colômbia de Álvaro Uribe e a Venezuela de Hugo Chávez. Assim como cumpriu um papel importante no caso da tentativa de golpe na Bolívia em 2008, agora cada vez mais se configura como um legítimo espaço de atuação política, ao selar o aperto de mão entre o recém-empossado presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e Chávez. Oxalá a Unasul possa atuar também nas negociações de paz entre as Farc e o novo governo colombiano.
Lutas Os movimentos presentes no 4º Fórum Social das Américas também sinalizaram as duras batalhas que teremos. A primeira será construir, nos países do continente, a campanha “América Latina é de paz, fora as bases militares estrangeiras”, que teve sua primeira ação unitária entre os dias 16 e 23 de agosto, na Colômbia. Mais de 10 mil militantes de 17 países participaram das atividades contra as instalações das bases militares estadunidenses em território colombiano. Simultaneamente, houve manifestações em frente às embaixadas e consulados da Colômbia em quase todos os países do continente. Outra frente importante é a defesa dos bens naturais, que se tornou um eixo central da agenda de luta das organizações. Vivemos um momento histórico para desenvolver iniciativas de emancipação em escala internacional. E as lutas nos permitirão avançar na batalha pela soberania dos povos, soberania alimentar, soberania energética e soberania das mulheres sobre seus corpos. Assim, avançaremos na busca de outro paradigma centrado na igualdade, no bem viver, na soberania e na integração, fundamentada no princípio da solidariedade entre os povos.
Diversificada pela explícita diferença na concepção de cultura, do sentido do trabalho, do aspecto ético-moral e da religião. Diferenças que demarcam contextualizações distintas sobre o mesmo tema dentro desse grupo. 4. A juventude e o inédito viável O mais viável é nos referirmos à unidade do diverso da juventude, ou seja, juventudes em movimento. O inédito nesse viável é a intenção de vinculá-la na disputa pelo poder a partir da construção do sentido protagonista a ser dado a esse grupo dentro de um projeto popular. As diferenças cedem espaço à diversidade em unidade, e as experiências conformam um quadro comum neste mosaico de cores, flores, pedras, territórios específicos dentro de um modelo de desenvolvimento geral. O popular vira palco da territorialidade do poder, cujo protagonismo compartilhado vai, pouco a pouco, superando as classificações e criando um novo arranjo de sociedade, em cujo poder popular dê unidade ao diverso, harmonize as particularidades no todo do projeto de classe, efetive a inclusão real desse grupo na tomada de decisão rumo à implementação da sociedade que se quer. Roberta Traspadini é economista, educadora popular, integrante da Consulta Popular/ES.
NO BRASIL se lê, em média, 1,3 livro por ano. Nos EUA, 11; na França, 7; e na Argentina, 3,2. E há em nosso país 2.980 livrarias, uma para cada 64 mil habitantes. A Unesco considera razoável uma livraria para cada 10 mil habitantes. O Ministério da Cultura garante que até o fim do governo Lula serão inauguradas bibliotecas públicas em dois mil municípios. Tenho minhas dúvidas. O prazo para captar recursos do governo federal destinados à revitalização de bibliotecas públicas se encerrou em meados de julho. Apenas 300 dividirão os R$ 30,6 milhões liberados, o que significa que cada município, com apenas R$ 102 mil, deverá modernizar instalações, atualizar o acervo, melhorar o acesso de leitores portadores de deficiências e ainda criar bibliotecas ramais (em distritos, bairros da periferia e zona rural). Também duvido, a menos que as prefeituras descubram como multiplicar dinheiro e fazer a capacitação de pessoal. Há, em todo o país, 4.763 bibliotecas. Uma para cada 33 mil habitantes. Na Argentina há uma para cada 17 mil. Em 420 cidades brasileiras não existem bibliotecas ou se encontram fechadas. As nossas emprestam, em média, apenas 296 livros por dia, o que é muito pouco. E só 29% delas têm acesso à internet. Os dados são do Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais, realizado pela Fundação Getúlio Vargas a pedido do Ministério da Cultura. Uma pesquisa do Observatório do Livro revela que o alto preço é, para 67% dos leitores, a principal razão de se recorrer à fotocópia de um exemplar, embora isso seja proibido por Lei. Outros 20% justificam a ilegalidade por não encontrarem o título nas livrarias. E 13% alegam que, nas faculdades, é mais fácil “xerocar” do que procurar o livro a ser emprestado ou comprado. Segundo a Unesco, o Brasil tem 13,8 milhões de analfabetos. Isto sem contar os analfabetos funcionais, um universo que engloba 54% da população entre 15 e 64 anos que cursaram até a 4ª série e, no entanto, não são capazes de compreender textos longos e muito menos redigir uma carta sem graves erros de concordância e sintaxe. Nos EUA, pesquisa das universidades de Nevada e da Califórnia constatou que, quanto mais livros há numa casa, mais anos de escolaridade atingirão as crianças que a habitam. O nível cultural e de escolaridade dos pais também influencia, porém menos que a disponibilidade de livros no lar. Além de serem úteis no aprendizado escolar, ampliam o vocabulário e a imaginação, o conhecimento de história e geografia e a capacidade de refletir e argumentar. Hoje se recomenda a leitura de histórias infantis desde a primeira semana de vida do bebê. Ainda que se tenha a impressão de total desinteresse da parte dele, na verdade isso o ajuda a aprimorar as sinapses cerebrais, ou seja, a conexão entre os cem bilhões de neurônios do cérebro. O que é meio caminho andado para que, na idade da razão, ele seja mais capaz de construir sínteses cognitivas, sabendo relacionar as partes com o todo e fragmentar o todo em suas partes constituintes. Não basta apenas ler a história; é preciso interagir com a criança, mostrar figuras, fazer perguntas, reproduzir sons sugeridos, imitar personagens etc. Vale recordar que assimilamos 90% de tudo que é importante aprender para fazer de cada um de nós um ser humano até os seis anos de idade: comer, andar, falar, distinguir pessoas e relações de parentesco, discernir ocasiões de perigo ou risco, aprimorar o instinto de sobrevivência etc. Crianças que escutam histórias desde cedo enriquecem seu vocabulário e desenvolvem a capacidade de compreensão e aprendizado. Pesquisas comprovam que o hábito da leitura em casa possibilita melhor aproveitamento escolar. O grande perigo, hoje, é ver crianças e adolescentes “sequestrados” intelectualmente pela hipnose televisiva de baixa qualidade ou navegando à deriva na internet. No caso da TV, há o risco de abdicarem da própria imaginação em prol das fantasias projetadas no monitor. Na adolescência, poderão buscar suprir a carência através das drogas. O risco do uso abusivo da internet, sobretudo quando se navega sem direção, é ser bombardeado por um fluxo de estímulos e informações sem ter estrutura cognitiva e moral para selecioná-los ou discerni-los. E é bom lembrar que ver o que aparece na TV e na tela do computador não equivale a ler e, muito menos, a escrever. Bem cantavam os versos de Castro Alves, no século 19: “Oh! Bendito o que semeia / Livros... livros a mão cheia / E manda o povo pensar! / O livro caindo n’alma / É germe – que faz a palma / É chuva que faz o mar.” Frei Betto é escritor, autor de Maricota e o mundo das letras (Mercuryo Jovem), entre outros livros para crianças e jovens.
Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patrícia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800
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Entre centrais, apoio a Dilma é majoritário, mas não consensual MOVIMENTOS Maiores entidades defendem abertamente a petista; oposição de esquerda se divide entre três candidaturas Renato Godoy de Toledo da Redação A PARTICIPAÇÃO do movimento sindical na eleição de outubro deve ser mais nítida do que nos últimos pleitos. Quase todas as centrais sindicais, legalizadas recentemente, devem apoiar a candidata Dilma Rousseff (PT). Força Sindical, Nova Central, CGTB, CUT e CTB já participam da campanha da petista em nível nacional. Até dirigentes da UGT, que possui vínculos com o PSDB e partidos da oposição de direita, têm se manifestado a favor da candidatura da petista. Já os sindicalistas da Intersindical e Conlutas, ligados à oposição de esquerda, devem se dividir no apoio às candidaturas de Plínio Arruda Sampaio (Psol), José Maria de Almeida (PSTU) e Ivan Pinheiro (PCB). Em 1º de junho, cinco centrais se reuniram no estádio do Pacaembu, em São Paulo, e lançaram a Plataforma Nacional da Classe Trabalhadora, a fim de ser apresentada aos candidatos à presidência. No dia 2 de setembro, sindicalistas devem entregar a proposta a Dilma. No documento, os trabalhadores exigem redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, crescimento com distribuição de renda, fortalecimento do mercado interno, valorização do trabalho decente com igualdade e inclusão social, afirmação do Estado como promotor do
desenvolvimento socioeconômico, entre outros pontos. A secretária de comunicação da CUT Nacional, Rosane Bertotti, afirma que a plataforma da classe trabalhadora não vai ser entregue ao candidato José Serra (PSDB), pois seria em vão. “Os Democratas [que têm o vice na chapa tucana] entraram com uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o reconhecimento das centrais. Então, se eles não nos reconhecem como entidade, de nada valeria lhes apresentar nossas propostas”, explica a sindicalista. Serra tem demonstrado ojeriza ao movimento sindical e chamado as centrais de “pelegas”.
“Em um momento de disputa política como este, a independência do movimento social não pode ser transformada em neutralidade” “Dois projetos”
As entidades que declaram apoio à candidatura de Dilma Rousseff têm apontado como principal motivo para tal posicionamento as medidas progressistas do governo Lula, como a abertura do diálogo com as centrais e a po-
lítica de valorização do salário mínimo. Soma-se a esse discurso o temor da volta do PSDB ao governo. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o movimento sindical foi golpeado pela repressão e a falta de diálogo promovida pelos tucanos. Um exemplo claro da política salarial daquele governo em relação aos funcionários públicos e de empresas de economia mista foi a situação dos bancários das instituições federais, como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. A categoria não conseguiu sequer 1% de aumento durante aqueles oito anos e ainda teve de pagar os dias de paralisações reivindicatórias. Até mesmo os bancos privados tinham uma postura mais benévola, concedendo aumentos parcos aos seus funcionários. Diante dessa análise, esse campo do sindicalismo não tem escondido o seu empenho para eleger Dilma. “A candidatura de José Serra tem progressivamente se posicionado mais à direita, tendo se cercado das forças mais atrasadas que existem no país. A partir do exemplo concreto que tivemos com os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, sabemos que o retorno do PSDB seria um retrocesso em todos os terrenos. A nossa luta continuaria, mas numa situação muito adversa. Em um momento de disputa política como este, a independência do movimento social não pode ser transforma-
da em neutralidade, já que são dois projetos antagônicos”, avalia Nivaldo Santana, presidente em exercício da CTB. Sinalização positiva
De acordo com os sindicalistas, a candidata à presidência da República e o presidente Lula têm dado um bom prospecto acerca das bandeiras defendidas pelas centrais no ato do Pacaembu no dia 1º de junho. “Existem algumas questões que ela tem declarado apoio, um exemplo importante é a luta pela valorização do salá-
rio mínimo, que do ponto de vista social tem muito mais impacto do que qualquer política de transferência de renda”, afirma Santana. De acordo com Rosane Bertotti, a postura da ex-ministra tem sido positiva, “de forma genérica”. “A linha é sempre de respeito aos movimentos sociais e de instituição de mesas de negociação, diferenciando o papel de gestor público e movimento. Deixamos claro que apoiamos a candidatura de Dilma e também que continuaremos nas lutas e nas ruas”, aponta a cutista.
A candidata, no entanto, apontou durante o debate da Band que não pretende se envolver com a questão da jornada de trabalho. Provocada por Plinio Arruda Sampaio, Dilma afirmou que o assunto deve ser tema dos movimentos sociais e do Congresso, não do governo. Nesse ponto, tanto Nivaldo Santana quanto Rosane Bertotti divergem da petista, pois consideram que o governo deve impulsionar a aprovação da medida, ao lado do Congresso e do próprio sindicalismo.
“Para os trabalhadores nada mudará”, diz Waldemar Rossi da Redação O apoio das centrais sindicais à candidatura Dilma Rousseff não agrada a todo o movimento operário. O ex-metalúrgico e membro da Pastoral Operária Waldemar Rossi critica a aliança das centrais com o governo Lula e atribui a elas uma falta de combatividade no período. “O fato de a CUT, a Força Sindical e as demais centrais fecharem apoio em torno da Dilma é uma demonstração de que nada mudará para os trabalhadores.
Com a eleição de Lula, as centrais se tornaram ‘lambe-botas’ do governo, subservientes, fazendo a sua vontade e tomando proveito dos favores que este lhes concede, colocando dirigentes nos cargos do governo. A gestão favoreceu bastante as centrais, que receberam rios de dinheiro”, critica. Segundo Rossi, a Pastoral não deve apoiar nenhum candidato, mas seus membros têm liberdade para fazê-lo. Para ele, a candidatura Dilma tem sido apoiada inclusive pela mídia, que quer sua vitória no primeiro turno. “Segundo a avaliação
da maioria dos militantes da Pastoral, mas não de todos, não há nenhuma perspectiva de que haja uma melhora para a classe trabalhadora no próximo governo, porque os candidatos que foram indicados e trabalhados pela mídia são do interesse do capital. A gente percebe um esforço grande dos meios de comunicação para garantir que Dilma se eleja já no primeiro turno. Para nós, os três [Serra, Marina e Dilma] têm acenado claramente para os interesses do capital, garantindo que nada mudará nesse país”, explica. (RGT)
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Terra Livre expõe demandas para “surdos” e insensíveis Maíra Heinen
MOVIMENTO INDÍGENA Em busca de maior espaço político, acampamento protesta e apresenta reivindicações
Assalto tucano
Os preços extorsivos dos pedágios no estado de São Paulo se transformaram no eixo da campanha eleitoral para governador. A oposição deita e rola no assunto, já que o reinado tucano paulista alimenta os consórcios das rodovias há muitos anos. É bom que se diga: o estrago tucano não está só nos assaltos dos pedágios, está também no sucateamento do ensino público e na privatização dos serviços de saúde, entre outras coisas.
Carta marcada
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA-15), do IBGE, registrou deflação em agosto pelo segundo mês consecutivo. Até agora a inflação dos últimos 12 meses está abaixo da meta anual de 4,5%. Esses dados contrariam a retórica do Banco Central do Brasil para elevar a taxa de juros para 10,75%. Na verdade, é um dos mecanismos usados pelo Estado para transferir renda à minoria que lucra com a especulação financeira.
Cristiano Navarro da Redação DEPOIS DE levantar suas tendas e barracas por seis anos consecutivos na Esplanada dos Ministérios, em frente ao Congresso Nacional, o acampamento indígena Terra Livre foi deslocado da capital federal para o Mato Grosso do Sul. A mudança teve como objetivo dar visibilidade para duas questões que se colocam como urgentes para o movimento indígena: a luta pela demarcação das terras indígenas do povo Guarani Kaiowá e a implantação da usina de Belo Monte, no rio Xingu. Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – que reúne as coordenações indígenas –, o acampamento contou com a presença de 800 lideranças indígenas de todas as regiões no município de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Uma prévia do encontro nacional ocorreu em Altamira (PA), contando principalmente com representações da região amazônica. Depois da realização do encontro, entre os dias 16 e 20 de agosto, as demandas apresentadas em plenária foram sistematizadas e encaminhadas para os candidatos à presidência da República. O documento de demandas do Terra Livre deste ano se apresenta com praticamente as mesmas reivindicações pontuadas ao longo desses sete anos: demarcação das terras indígenas, grandes empreendimentos, reestruturação da Funai, Saúde e Educação Escolar. “A constatação de que as demandas praticamente não sofreram alterações revela o tratamento dos dois governos do presidente Lula na questão indígena”, avalia Saulo Feitosa, secretário do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
fatos em foco
Hamilton Octavio de Souza
Crise aérea
Marcos Apurinã, coordenador da Coiab
Para Marcos Apurinã, coordenador da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), as reivindicações do movimento indígena não mudaram porque a relação do Estado com os povos indígenas não mudou. “No primeiro mandato do presidente Lula não teve conversa. Não fomos recebidos. Tivemos que forçar a porta para termos algum tipo de contato com o governo. No segundo, os contatos que tivemos foram para ele [governo]
Em 2008, seis indígenas foram eleitos para o cargo de prefeito, três para vice-prefeito e pelo menos 61 para as câmaras dos vereadores
anunciar o aumento dos recursos, que não são aplicados ou mal são executados, e de forma errada, ainda sem nos ouvir”, relata. Ouvidos surdos Apurinã cita como “surdez do governo” os grandes projetos implementados pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e a reestruturação do órgão oficial indigenista como falta de consulta e ouvidos do governo. “Ao todo, o PAC traz 423 grandes projetos que atingem nossas terras e que estão sendo tocados sem que sejamos consultados. Para reformulação da Funai, que mexeu em toda sua estrutura de atendimento, também não somos escutados. Isso fere as legislações internacionais e a Constituição brasileira”, reclama Apurinã. Se os ouvidos do governo parecem surdos às demandas indígenas, as candidaturas à presidência também não demonstraram sensibilidade. Nenhum dos candidatos ou candidatas convidou as organizações indígenas ou indigenista para um diálogo na formulação de uma proposta de política indigenista. Apesar de estar relacionado a temas importantes, como os recursos naturais e a questão fundiária, as reivindicações indígenas são delegadas ao segundo plano no embate eleitoral. Na visão de Feitosa, o financiamento das campanhas e a falta de familiaridade são pontos para o distanciamento. “Para os candidatos que são financiados pelos setores do agronegócio, mineradoras, bancos e empreiteiras, um compromisso com a questão indígena tira votos. Para os outros, a distância ocorre pela falta de proximidade e familiaridade com a questão”. O secretário do Cimi ressalta que, apesar “da ligação afetiva de Marina [Silva] com a questão, seu discurso é desenvolvimentista”, o que a afastaria das demandas do movimento indígena. Ainda esperançoso em colocar o tema em pauta no debate eleitoral, Apurinã acredita no poder da sensibilização. “Com a entrega do documento das demandas do Acampamento Terra Livre, queremos sensibilizar os corações desses candidatos para não empurrarem o desenvolvimento a todo custo, com violência, como querem fazer no Xingu com a Belo Monte”.
“Se os ouvidos do governo parecem surdos às demandas indígenas, as candidaturas à presidência da república também não demonstraram sensibilidade” Representantes Além da falta familiaridade e dos interesses econômicos, o espaço de quase invisibilidade do movimento indígena na política institucional enfrenta o pequeno contingente de votos que ainda representa. O único representante indígena a ocupar um cargo no Congresso brasileiro foi Mario Juruna, eleito deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro, com o voto “branco”, em 1982. O coordenador da Coiab considera que ainda falta mais contato indígena com a política institucional para que possam ser eleitos representantes. “Acho que nós ainda não conhecemos suficientemente a política partidária para participar em níveis acima”. Em 2008, seis indígenas foram eleitos para o cargo de prefeito, três para vice-prefeito e pelo menos 61 para as câmaras dos vereadores. Na região Norte, onde proporcionalmente existe uma maior concentração de votos indígenas, jamais foram eleitos representantes indígenas para as assembleias legislativas dos estados ou deputados para o Congresso. “Há inúmeros candidatos indígenas, mas poucas candidaturas estão descoladas do movimento, o que dificulta a possibilidade de êxito”, conclui Feitosa.
Além de esconder a existência de um processo disfarçado de desnacionalização de empresas, o setor do transporte aéreo de passageiros esconde também práticas danosas aos seus trabalhadores e perigosas para seus usuários. O Ministério Público do Trabalho investiga a empresa Gol por utilizar as tripulações de seus aviões além dos horários fixados nos contratos coletivos. É quebra grave das normas de segurança!
Saída patronal
Em seu 8º congresso, realizado no Rio de Janeiro, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), que reúne os donos de 146 empresas jornalísticas, debateu a polêmica proposta de criação de um conselho de autorregulamentação para fiscalizar a ética da imprensa. O objetivo maior é mesmo se contrapor ao movimento popular pela democratização da comunicação, que defende mecanismos públicos de controle social da mídia. Essa briga vai esquentar!
Assédio moral
O Sindicato dos Trabalhadores da USP denuncia, no seu Boletim nº 75, de 23/08/2010, que um grande número de funcionários está sendo vítima de assédio moral, praticado por diretores, professores, assessores administrativos e chefias da universidade paulista. Segundo o sindicato, muitos funcionários adoeceram, perderam a saúde e até mesmo chegaram ao suicídio. Toda denúncia de assédio deve ser feita ao Ministério do Trabalho.
Greve mundial
Pode ser apenas uma manifestação virtual, mas o fato é que ganha uma dimensão planetária as informações que circulam na rede social Facebook sobre a organização da 1ª greve geral do mundo, marcada para o dia 29 de setembro. A se confirmar tais informações, várias centrais sindicais europeias teriam aderido ao movimento. Se nada disso for para valer, pelo menos a ideia deve dar calafrio no mundo neoliberal.
Negócio escuso
O portal do Grupo Record, mantido pelo estelionatário esquema da Igreja Universal do Reino de Deus, deu destaque ao processo que tramita no Superior Tribunal de Justiça sobre um negócio nebuloso da concorrente Rede Globo, que foi a aquisição, em 1964, da Rádio Televisão Paulista S.A., do empresário Victor Costa. Até hoje antigos acionistas contestam a transferência daquela concessão. Difícil saber quem tem o rabo mais preso.
Efeito pesquisa
Conformados com as pesquisas que indicam a vitória da candidata de Lula já no primeiro turno, os jornalões da imprensa tucana, neoliberal e de direita publicaram matérias, nos últimos dias, sobre os possíveis líderes da oposição no governo Dilma, as disputas entre PT e PMDB por cargos federais e as primeiras medidas do futuro governo. É cada dia mais evidente o desânimo da tucanagem e o desespero dos demos. Agora é salve-se quem puder!
Quem banca
Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre qual candidatura o empresariado nacional está depositando suas esperanças, isso ficou devidamente esclarecido pela contabilidade apresentada pelos partidos: nos últimos sete meses o PT arrecadou R$ 44 milhões, enquanto a coligação PSDB, DEM, PPS, PTB, PMN e PTdoB conseguiu apenas R$ 19,4 milhões. Com certeza, a contrapartida dos empresários será tirada dos bolsos do povo!
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cultura
Provocação, a marca de Locarno
Fotos: Divulgação
CINEMA Festival na Suíça completa 63 anos exibindo temas tabus, como incesto e pornografia
Rui Martins de Locarno (Suíça) APESAR DO controle cada vez maior do cinema comercial estadunidense, detentor do filet mignon do mercado – a distribuição dos filmes –, ainda há festivais independentes. Entre eles, o Festival de Locarno, chamado de o maior dos pequenos e o menor dos grandes, colocado logo depois de Cannes, Veneza e Berlim, pela sua importância, pois seus filmes são vistos por cerca de 150 mil espectadores. Para só lembrar algumas ações de vanguarda desse festival, basta citar que foi o primeiro a dar destaque ao cinema iraniano, revelando o cineasta Abbas Kiarostami; e um dos primeiros a projetar filmes vindos de Burkina Fasso, da Tunísia e de diversos países saídos da antiga União Soviética. Quem vai a Locarno e escolhe os filmes da seleção dos Cineastas do Presente ou da competição internacional verá filmes inéditos e que, provavelmente, nunca serão exibidos no Brasil (com um pouco de sorte na Mostra de São Paulo) e nem mesmo na programação normal dos cinemas europeus. Locarno fica na Suíça, e, nesse país de banqueiros de mentalidade e estrutura econômica capitalista mais próximo dos EUA que da União Europeia, o Festival é uma exceção – isto desde suas origens, o que não deixa de provocar crises intestinais. Um exemplo é suficiente para demonstrar: em 1969, o prêmio maior, o Leopardo de Ouro (o leopardo é o animal do brasão da cidade, como o leão é o de Veneza e o urso, de Berlim) foi para o filme Charles morto ou vivo, de um jornalista da televisão suíça responsável pela cobertura da revolta estudantil de maio de 1968, em Paris.
Aconteceram também situações inversas, em que o Festival de Locarno cedeu suas telas para filmes que eram condenados nos países de origem ou que, ao serem premiados, desagradavam os governos de origem Único filme de ficção inspirado nas ideias que animaram o Maio de 68, Charles Morto ou Vivo foi dirigido por Alain Tanner e um grupo de contestadores de esquerda, entusiasmados com os acontecimentos vividos pela França e desejosos de transplantarem a temática para dentro da sociedade suíça. Embora rodado e vivido em Genebra, ci-
Talvez não por provocação, mas por coincidência, Locarno deste ano mostrou uma série de filmes em que o incesto faz parte da trama ou sua possibilidade é presente dade fronteira com a França, longe do conservadorismo e hermetismo das cidades suíças de língua alemã, o filme revela uma sociedade fechada, estratificada e hostil a todos movimentos de questionamento social. Tanto que Charles, o personagem principal, ao romper com os padrões locais, é enviado pela família para uma clínica psiquiátrica. Obra antológica por retratar ideias anti-establishment que germinavam e circulavam entre os jovens da época, apesar de premiada pelo Festival de Locarno, sua exibição foi proibida na Suíça. Quem queria ver Charles morto ou vivo precisava viajar para a França, onde o filme teve exibição no circuito normal dos cinemas. Só nos anos de 1980, portanto, mais de dez anos depois, Alain Tanner conseguiu, após entrar com um processo, exibir o filme em alguns cinemas suíços, quebrando a decisão do cartel dos distribuidores que controlavam as salas exibidoras. Esse clima de impermeabilização da sociedade, numa espécie de proteção contra conceitos vindos de fora, não conseguiu controlar o Festival de Locarno, onde tiveram exibição, público e mesmo prêmios muitos dos filmes brasileiros do Cinema Novo. Aconteceram também situações inversas, em que o Festival de Locarno cedeu suas telas para filmes que eram condenados nos países de origem ou que, ao serem premiados, desagradavam os governos de origem, temerosos de criarem precedentes culturais. Locarno foi assim um dos primeiros festivais a exibir filmes dos cineastas soviéticos dissidentes, ainda nos anos de 1980, e a criar a já citada vaga de prêmios para os filmes iranianos, que se tornaram depois atrações em Cannes, Veneza e Berlim. Jafar Panahi, libertado recentemente em Teerã, depois de prisão e greve de fome, por ter apoiado o movimento Verde, foi descoberto e premiado em Locarno.
Esse traço de provocação persiste, pois, em 2006, começou praticamente em Locarno a vitoriosa carreira do filme A vida dos outros, do alemão Florian Henckel von Donnersmarck, que tocava num tema tabu: o controle dos intelectuais e habitantes da Berlim Leste comunista pela polícia secreta Stasi, numa autocrítica dos sistemas autoritários, que o levou a obter o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 2010
Na edição deste ano, realizada entre os dias 4 e 14 de agosto, a direção do Festival teve a coragem de inserir no programa da Piazza Grande um longo desenho animado, sobre o Patinho Feio, feito não em Hollywood, nos estúdio Pixar ou de Walt Disney, mas pelo concorrente russo Garri Bardine, que dirige em Moscou o estúdio Stayer. É o retorno de uma concorrência em cinema de animação entre os filmes Disney e os soviéticos, de antes e durante a Segunda Guerra, como o clássico Flor de pedra, de Alexandre Ptouchko, exibido no Brasil em 1946. O clima da Guerra Fria fez com que a Disney dominasse o mercado dos desenhos animados e desenvolvesse novas técnicas, desaparecendo dos cinemas os filmes soviéticos de temas clássicos e colorido diferente. Em 2010, após 63 anos de existência do Festival, a provocação não foi econômica e nem social, mas a de garantir a livre expressão do cineasta canadense Bruce LaBruce, cujo filme pornográfico L.A.Zombie foi retirado do Festival de Melbourne, na Austrália. Para compensar o maltrato, o filme acabou indo para a competição, embora sem qualquer chance, pois não é nenhum Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, nem Romance, de Catherine Breillat. O tema é por demais grotesco para merecer maior atenção: uma estranha criatura, tipo morto-vivo, que copula com mortos e assim os ressuscita. De uma maneira geral, o festival deste ano em Locar-
No alto, filme Womb; abaixo, Patinho Feio
no teve o maior índice de bons filmes. Poucos ruins, mas poucos ótimos, exceto os da retrospectiva de Ernst Lubitsch. E, embora o tema social não fosse o principal, houve alguns nessa linha, como Beli Beli Svelt, do sérvio Oleg Novikovich, tendo como cenário a cidade mineira de Bor, hoje em decadência, onde as privações levam a dramas – para não se dizer tragédia –, como a do pai que se suicida ao saber que sua filha é sua amante. Talvez não por provocação, mas por coincidência, Locarno deste ano mostrou uma série de filmes em que o incesto faz parte da trama ou sua possibilidade é presente. Em todo caso, uma produção germano-húngaro-francesa, Womb, vai bem além ao conjugar clonagem com incesto. Além do bebê de proveta, prenunciado por Aldous Huxley no seu Admirável mundo novo, a possível clonagem humana poderá provocar casos de incesto sem conjunção carnal, como explicou o húngaro Benedek Fliegauf, diretor de Womb. O tema, considerado tabu pela religião e punido por lei, na verdade existe nos livros bíblicos do começo do mundo. E os criacionistas evangélicos, talmúdicos ou islamitas de hoje não poderiam explicar a origem dos humanos por Adão e Eva sem admitir ter havido incesto entre irmãos, pai e filhas e mãe e filhos. Mostrar um filme no qual uma mulher se sente feliz por estar grávida de seu próprio filho se insere bem no espírito de provocação de Locarno. A questão da imigração na União Europeia veio ao Festival pelo filme romeno Ama-
nhã (Morgen, no original), no qual um turco clandestino, recolhido por um romeno, quer ir para a Alemanha. Porém, a questão de como ir para a Alemanha fica sempre para se resolver no dia seguinte, amanhã, num clima em que a polícia dos estrangeiros ameaça os romenos caso acolham clandestinos, sem ser levada a sério, mesmo porque acaba havendo cumplicidade entre pobres e imigrantes sem papéis.
Este ano, o Leopardo de Ouro foi para o que se costuma chamar de filme autor, o chinês Han jia (Férias de inverno), mostrando em plano lentos o último dia de férias de quatro jovens estudantes que, sem ter o que fazer, visitam um amigo ou discutem, às vezes em voz alta, sobre temas de interesse duvidoso, como se um amor de juventude poderá atrapalhar os estudos ou se a formação escolar chega a ter algum valor na vida real.
O Bandido da
Luz Vermelha de Locarno (Suíça) Nos anos de 1960, na capital paulistana, um ladrão roubava mansões de gente fina e trepava com as patroas. Não era um Robin Hood porque não distribuía seus ganhos, mas virou um ícone com suas aventuras romanceadas e exageradas no jornal sensacionalista Notícias Populares. O clima da ação lembra um tanto Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard, mas só lembra, porque a história é outra e tem muito mais loucuras. Esse filme de Rogério Sganzerla virou antológico, e o cineasta foi endeusado como o mentor do movimento Boca do Lixo, que teria sua base na rua Aurora e proximidades, região pau-
listana do baixo meretrício. Antes de morrer, Sganzerla tinha imaginado uma sequência do Bandido da luz vermelha, num roteiro de três mil páginas, legado à sua viúva, a atriz Helena Ignez, que decidiu concretizar o desejo do marido. Para isso, contou com o apoio do cineasta Ícaro Martins, e fizeram Luz nas trevas, no qual se conta a fuga do Bandido da luz vermelha e a transformação do seu filho em seu sucessor. O filme não ganhou em Locarno, só recebeu um prêmio paralelo e simbólico de um grupo de críticos, mas agradou e se prevê bela carreira em outros festivais; e provável sucesso de bilheteria no Brasil, onde a estreia e exibições não estão ainda programadas. (RM)
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Perdas e danos no Reino (des)Unido ANÁLISE Em meio a uma histórica crise de legitimidade, classe política britânica tenta aprender a conviver com um governo de coalizão
Nick Clegg, que chegou à Câmara dos Comuns apenas na eleição anterior, da noite para o dia se transformou no homem com o poder de decidir quem seria o primeiro-ministro do Reino Unido As perdas Grosso modo, a curiosa e badalada expressão do jargão político inglês, “hung parliament” (algo como “parlamento pendurado”), significa que as eleições resultaram em um Parlamento onde nenhum partido conseguiu a maioria absoluta. Tal situação representou um golpe de peso nos 13 anos da era trabalhista, iniciada com a ascensão do exprimeiro ministro Tony Blair em 1997. O Labour Party perdeu quase 100 deputados e muita popularidade. Os Conservadores tiveram maioria, mas tampouco conseguiram obter sozinhos as 326 cadeiras necessárias para automaticamente obter o direito de compor o governo e indicar o primeiro-ministro. E o azarão nesta acirrada corrida de cavalos, conforme cunhado pela própria imprensa inglesa, os Liberais-Democratas (LibDems), não conseguiram emplacar como esperavam. Foram justamente os inéditos debates na TV – em que Nick Clegg teve uma performance muito bem acolhida pelos eleitores ingleses – que permitiram ao líder dos LibDems encher-se de confiança e efetivamente pautar sua possível chegada a Downing Street, número 10. De fato, a expectativa de êxito eleitoral dos Liberais era maior do que nunca, e muitos ingleses jovens, inclusive os que costumavam votar nos Trabalhistas, dessa vez foram com os Lib-Dems porque consideraram que o Labour se moveu demasiadamente para a direita; um raciocínio inspirado em grande parte pelo fiasco da decisão trabalhista de participar da guerra no Iraque, que é rejeitada pela maio-
Imigrantes Mas há outro tema que esteve amplamente presente na agenda dos três grandes partidos como uma das questões centrais da política nacional: a necessidade de conter os fluxos de imigração. Foram os Liberais que surpreendentemente tiveram um discurso menos pesado contra a imigração e com propostas que incluem medidas internas mais razoáveis, como a legalização dos imigrantes ilegais que estão no Reino Unido por mais de dez anos e sem registros criminais. Há um “euroceticismo” e um sentimento antimigração corrente e crescente no Reino Unido. Como parte da União Europeia e sujeito ao Direito Comunitário, o país permite a livre movimentação de cidadãos e trabalhadores dos países membros. Porém, ser parte do “clube europeu” nunca foi um tema pacífico e de fácil digestão para muita gente no Reino Unido, pese o fato de que há também centenas de milhares de britânicos em outros países da Europa.
ria da opinião pública britânica. Os Liberais seguiram, no entanto, com praticamente o mesmo número de pouco menos de 60 cadeiras que possuíam em 2005. Mas Nick Clegg, que chegou à Câmara dos Comuns apenas na eleição anterior, da noite para o dia se transformou no homem com o poder de decidir quem seria o primeiro-ministro do Reino Unido. Diante do impasse eleitoral, durante o período das complexas negociações para decidir o futuro do governo britânico com o objetivo de compor uma coalizão, Gordon Brown, então primeiro-ministro trabalhista, e David Cameron, o líder dos Conservadores, cortejaram Clegg, cada um oferecendo-lhe um melhor pacote de aliança que o outro, pois no seu apoio estava a chave da porta do governo. E essa chave tem nome: reforma eleitoral, um ponto inegociável para os Liberais. Quem cedeu nesse jogo foram os dois partidos tradicionais, tentando acomodar-se às exigências dos LibDems por um outro sistema de votação.
O discurso de “governo forte e estável”, repetido com tanta insistência pelos dois partidos agora aliados no governo, ainda não colou
Conservadores no poder Os Conservadores negociaram melhor. Clegg fechou com eles, recebendo o cargo de vice-premiê, e Cameron, aos 43 anos, tornou-se o mais jovem primeiro-ministro da Grã-Bretanha desde 1812. A solidez dessa coalizão formal, a primeira desde a Segunda Guerra, depende da gestão de diferenças-chave entre os dois grupos políticos, como a reforma eleitoral. Se o pacto for mantido, o Reino Unido realizará, em maio de 2011, um inédito referendo sobre seu sistema de votação. Uma das principais perdas nesse quiproquó britânico foi o prestígio do sistema eleitoral do país. Os liberais-democratas consideram que o atual sistema de voto uninominal, por maioria e de um único turno, perpetua o bipartidarismo entre trabalhistas e conservadores. Na proposta de reforma eleitoral dos Lib-Dems que será referendada, está previsto o Voto Alternativo, um sistema usado na Austrália segundo o qual o eleitorado alinha os candidatos por ordem de preferência. O que aparece em último lugar é eliminado e as segundas preferências são redistribuídas, até aparecer um que obtenha mais de 50% dos votos. Não se trata propriamente de uma representação proporcional, mas pode garantir que cada um dos deputados tenha um apoio majoritário no seu círculo eleitoral.
UK Parliament
ENQUANTO o Brasil se aproxima de mais uma eleição presidencial, a Inglaterra, num estilo algo fleumático que surpreende a quem está acostumado à ruidosa atmosfera eleitoral brasileira, chegou na metade de agosto aos 100 dias do novo e não usual governo britânico. A eleição geral no Reino Unido do dia 6 de maio foi considerada a mais animada e imprevisível em toda uma geração. Apesar desse ânimo não se traduzir em empolgação para padrões brasileiros, seus resultados realmente revelaram uma eleição cheia de suspenses e “ineditismos”, com poderosas consequências. Foi a primeira vez que os líderes dos principais partidos na disputa ao parlamento tiveram debates públicos na TV, a primeira vez que uma mulher muçulmana foi eleita para a Câmara dos Comuns (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e foi o primeiro Parlamento eleito sem maioria em mais de 30 anos. Sobretudo, essa eleição também pode ter sido a primeira em que todos perderam, inclusive, e principalmente, os imigrantes e o sistema eleitoral britânico.
cial do êxito do governo de coalizão do Reino Unido.
Se o pacto for mantido, o Reino Unido realizará, em maio de 2011, um inédito referendo sobre seu sistema de votação Há uma crescente percepção entre os analistas políticos britânicos de que todos os partidos políticos, apesar das ainda existentes resistências, precisam reconhecer a necessidade de mudanças no sistema eleitoral. A classe política britânica vive uma histórica crise de legitimidade motivada por promessas eleitorais não cumpridas e o arrasador escândalo de corrupção no uso de diárias que veio a público em 2009. Mudar o tradicional sistema seria uma forma de mostrar que os políticos estão preocupados em restaurar a confiança do público. O referendo do próximo ano será o teste cru-
Reprodução
Aleksander Aguilar
The Prime Minister’s Office
De cima para baixo: David Cameron e Nick Clegg; a Câmara dos Comuns; e manifestação de imigrantes
O tema Europa e identidade cultural europeia são extremamente complexos, e a GrãBretanha é um dos países onde tal debate é bastante presente e, não raramente, incendiado. Desde a gestão Tony Blair, a nação recebeu um fluxo de dois milhões de imigrantes, o maior de sua história, num momento em que a Libra Esterlina estava muito bem valorizada ante outras moedas. Mas, com o estouro da crise financeira em 2008, passou a ser visível aquilo que postula Eric Hobsbawm em sua obra On History quando afirma que “as pessoas sempre procuram por alguém em quem pôr a culpa de suas falhas e inseguranças e esta é uma perigosa situação, pois pode gerar movimentos inspirados pelo xenofobismo, nacionalismo e intolerância. É sempre mais fácil culpar os estranhos” (tradução livre). Igual a outras partes do continente, em especial na Espanha, há um número cada vez maior de pessoas que acreditam que a imigração é uma das principais razões para os maiores níveis de desemprego e para gerar sobrepeso nos serviços públicos. O discurso de “governo forte e estável”, repetido com tanta insistência pelos dois partidos agora aliados no governo, ainda não colou. O tradicional sistema eleitoral inglês e sua democracia foram marcados como demasiadamente complexos e, ao mesmo tempo, insuficientes. Uma reforma desse sistema pode ser a verdadeira mudança política do país decorrente dessa estranha eleição que deixou um legado de fragmentação política. De resto, o país segue essencialmente igual, levando a cabo políticas de corte de gastos públicos, particularmente direcionadas ao sempre polêmico sistema universal de saúde do país (NHS), e intentos de limpeza da imagem da instituição Parlamento; e apregoando um equilíbrio fiscal que permita um Estado mais eficiente tratando desesperadamente de manter sua posição de superpotência nas relações internacionais. Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais.
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internacional Ben Piven/CC
Ao se falar sobre o Irã, a pedra tem dois lados SAKINEH ASHTIANI O ocidente, sob a batuta estadunidense, mostra “indignação seletiva”, segundo sociólogo Eduardo Sales de Lima da Redação O CASO DA iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por adultério e por supostamente ter conspirado pelo assassinato de seu marido, tem se transformado em mais um instrumento de “demonização” do Estado iraniano por parte da mídia ocidental. As medievais execuções por apedrejamento no Irã ladrilham o caminho dos interesses estadunidenses de convencer a comunidade internacional da necessidade e da legitimidade de um ataque bélico ao país persa. A ser observada sob dois ângulos, o mais evidente choca os olhos de quem vê. Desde a Revolução Iraniana, 109 pessoas morreram apedrejadas, segundo o Comitê Internacional contra Apedrejamento; por vezes as execuções ocorrem em segredo.
Marcia Camargos reforça que não se pode confundir o islã, nem a sharia, com as práticas autoritárias derivadas de uma interpretação particular Adotada como sistema jurídico de Estado no Irã e na Arábia Saudita, a sharia é a legislação derivada do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, e da Sunna (também conhecido como Hadith), uma coleção sobre os feitos e passagens da vida do profeta Maomé (570-632). A partir da interpretação da sharia moldada segundo a Escola Jafari, Sakineh foi condenada à morte por apedrejamento, que é a pena atribuída àqueles que cometeram assassinato, adultério ou blasfêmia. Depois de muita pressão internacional, a condenação transformou-se em enforcamento, sem data prevista para a execução. De acordo com a jornalista e autora do livro O Irã sob
o chador, Marcia Camargos, práticas de apedrejamento são comuns em países de tradições tribais, nas áreas rurais mais miseráveis de países como a Somália, o Sudão, independentemente do aparato estatal. “No Irã hoje, um país que quer ser moderno, isso se torna um assassinato”, conclui. Ela reforça que não se pode confundir o islã, nem a sharia, com as práticas autoritárias derivadas de uma interpretação particular, “de cunho político, de controle social e repressão por imposição do medo e do terror”.
“O apedrejamento não é um aspecto cultural, é uma síndrome anticultural sem respaldo religioso, um crime cometido por um governo criminoso” Yasmin Anukit, pesquisadora em história das civilizações, dentre outras coisas, defende que não existe a pena de apedrejamento no Corão. A questão, segundo ela, é que, “como a sharia é passível de várias interpretações, alguns governos resolveram reinstituir essa antiga prática judaica, o que é um claro retrocesso e absurdo no contexto do islã”, pontua. “Certos crimes cometidos no Afeganistão contra as mulheres são compreendidos por estrangeiros e pela mídia como ‘aspectos culturais’. Pelo amor de Deus, não são aspectos culturais! São crimes!”, indigna-se Yasmin. Para ela, tal desvio de interpretação serve, intencionalmente, como incentivo à xenofobia, à islamofobia e às guerras. “O apedrejamento não é um aspecto cultural, é uma síndrome anticultural sem respaldo religioso, um crime cometido por um governo criminoso”, dispara. O curioso de tudo isso é que, de acordo com Marcia, o primeiro Código de Direitos Humanos do mundo de que se tem notícias foi o Cilindro de Ciro, da Pérsia Antiga, de 538 a.C. “É uma contradição, porque esses reis do império persa eram conhecidos pela tolerância em relação aos inimigos, às liberdades religiosas”, explica. Outro lado Esse é um aspecto do caso de Sakineh. Porém, existe outro. “Há a demonização do Irã pelo ocidente, pelo Império, os Estados Unidos e a Europa, que eles usam o exemplo da Sakineh pa-
ra expor o Irã, tendo em vista também seus próprios interesses econômicos na região”, afirma Marcia. De acordo com ela, as críticas da mídia ocidental não se preocupam com os direitos humanos das minorias naquele país; dentre elas, os curdos, os ba’hai, os homossexuais. Marcia contrapõe o tratamento que a mídia ocidental faz em relação à Arábia Saudita, parceira dos Estados Unidos, a qual não sofre nenhum tipo de condenação pública e que realiza as mesmas práticas que o Irã. “Ninguém pode aceitar o apedrejamento em pleno século 21, é uma prática medieval, mas, por outro lado, é preciso ficar muito atento e não cair nessa armadilha”, explica. A indignação do governo estadunidense e de sua mídia é extremamente seletiva. É o que pensa o sociólogo Lejeune Mirhan: “São dois pesos e duas medidas”, resume. “Quantas mulheres iraquianas, palestinas e afegãs são diariamente estupradas por soldados americanos e israelenses e ninguém é punido por isso?”, questiona. Para ele, o desgaste criado a partir do caso Sakineh funciona para colocar ainda mais a opinião pública internacional contra a nação persa, tentando convencer as pessoas de que, como no Iraque e no Afeganistão, poderemos acreditar em mais uma guerra contra o terror, “visando ataques que possam estar sendo inclusive preparados”.
“Quantas mulheres iraquianas, palestinas e afegãs são diariamente estupradas por soldados americanos e israelenses e ninguém é punido por isso?” Virgílio Arraes, professor de relações internacionais da UnB, exemplifica a situação por meio de um fato midiático em que é possível apreender o “peso” crítico utilizado pela mídia estadunidense quando esta se refere a direitos humanos no Oriente Médio. “Há poucos dias, a Time estampou em sua capa uma moça afegã mutilada por fundamentalistas islâmicos. A reação – correta – do mundo foi o choque. Contudo, o teor da capa insinuava que a situação poderia piorar, caso as tropas norte-atlânticas saíssem do país”, argumenta.
O Irã observado sob o chador Jornalistas brasileiras relatam experiências com os persas Reprodução
da Redação “Eles querem menos ingerência do governo em suas vidas privadas, mas não querem se ocidentalizar”. A frase é de Marcia Camargos, jornalista que escreveu, ao lado de Adriana Carranca, o livro O Irã sob o chador. Chador é um tipo de manto iraniano, usado para cobrir o corpo feminino da cabeça aos pés. Só o rosto fica à mostra. O traje é obrigatório em mesquitas e outros lugares sagrados, e conta com a preferência das iranianas islâmicas do segmento mais conservador da sociedade. “É utilizado principalmente no momento de se paramentar para falar com Deus, para entrar na casa do sagrado. É algo até lírico”, explica Marcia Camargos, que também é doutora em História pela USP e biógrafa de Monteiro Lobato.
“Fomos viajando, conversando com as pessoas e levantando esses véus” A partir das experiências em viagens em momentos distintos de cada uma no país persa, as autoras atestam que o aperto no código de conduta é, em grande medida, apenas aparente, e sua violação, nos espaços privados, é até aceita. Além disso, elas trazem a ideia de que a cordialidade do povo resiste “como valor num co-
tidiano de escassas liberdades individuais”. O livro destaca as contradições do país, onde, ao mesmo tempo mulheres e homens têm de se sentar em partes diferentes do ônibus, circulam táxis nos quais ambos os sexos compartilham o aperto do banco; e o contingente universitário conta com mais de 60% de mulheres estudantes. Sobre esse universo feminino no Irã, Marcia Camargos explica que o título do livro pode se referir ao desejo da maioria das iranianas de “levantar seu chador”, de querer
avançar em seus direitos coletivos e individuais. No plano da sociedade iraniana, Marcia revela que utiliza a metáfora “o Irã sob o chador” para remeter ao leitor um país que vive debaixo de uma vestimenta tecida de informação manipulada principalmente pelo ocidente. “Fomos viajando, conversando com as pessoas e levantando esses véus”, conta. O lançamento do livro ocorre no dia 30 de agosto, no CineSesc (Rua Augusta, 2.075), em São Paulo (SP). (ESL)
Adultério, substantivo feminino da Redação É mais provável que as mulheres sejam acusadas de adultério no Irã do que os homens. De acordo com a jornalista Marcia Camargos, uma das autoras de O Irã sob o chador, as mulheres casadas podem até pedir o divórcio, porém perdem a guarda dos filhos. Outra situação que chama atenção é que as viúvas são proibidas de se relacionar com outros
homens, podendo incorrer em crime de adultério. Aliás, para comprovar o adultério no Irã, é necessário haver quatro testemunhas presenciais. Contexto insólito, visto que tais testemunhas precisariam praticamente assistir ao ato sexual. “Há de se convir que, se você está cometendo pecado, você vai se esconder o máximo possível”, ironiza Marcia, que acentua que o valor do testemunho masculino vale o dobro do feminino nos julgamentos.
Além de maior credibilidade e de gozar do direito de casar com cinco mulheres, os homens também podem manter relações sexuais com uma mulher solteira por meio do “casamento temporário”. “Eles casam com uma ‘prostituta’, se divertem alguns meses fora do casamento oficial, depois se divorciam e pronto”, relata. Segundo Marcia, esse “jeitinho iraniano” serve, na verdade, para encobrir uma “prostituição legalizada”. (ESL)
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américa latina
Novos conteúdos para uma comunicação de esquerda ENTREVISTA Aran Aronian, ex-diretor da Telesul, fala sobre os desafios de se construir uma mídia a partir dos movimentos sociais Reprodução
Pedro Carrano de Assunção (Paraguai) FUNDADOR e ex-diretor da Telesul, Aran Aronian é um dos comunicadores que vêm construindo uma proposta de integração latino-americana, tendo os meios de comunicação como parte integrante dessa agenda e envolvendo movimentos sociais e os espaços criados pelos governos no marco da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). Aronian esteve presente no encontro “Movimentos sociais, redes de comunicação e governos, um diálogo necessário para democratizar a comunicação e impulsionar a integração”, realizado entre os dias 9 e 10 de agosto, previamente ao Fórum Social das Américas, em Assunção (Paraguai). Aronian também promove cursos de comunicação popular na Argentina, voltados para movimentos sociais, a partir de incentivo do Estado. Nesse país, acompanha a luta que vem sendo feita em torno da nova lei de meios radiofônicos, na qual os movimentos sociais têm direito a um terço do espectro radiofônico. A medida despertou setores da população para a luta, que pressionaram a presidente Cristina Kirchner na direção de posições populares, em contraposição ao grupo Clarín, que vem se colocando contra a medida e buscando organizar a direita do país. De acordo com Aronian, a questão para a construção de meios de comunicação a partir das organizações de esquerda passa por uma autoanálise sobre a produção de conteúdos, não se trata apenas do direito a mais espaços de transmissão. “Queremos ter muitos meios, mas tudo depende: para quê? Alternativo, mas alternativo a quê? Para contrapor a mensagem hegemônica me parece muito bem, mas somente o direito de ter novos meios não garante a democratização; se nós seguimos repetindo a agenda, os formatos e o conteúdo do inimigo, estamos trabalhando para o inimigo”, provoca. Brasil de Fato – Em que a comunicação pode contribuir para a integração entre os povos latinoamericanos? Aran Aronian – Dentro do processo de integração, nos organismos latino-americanos, não há nenhuma referência à comunicação e aos meios de comunicação, o que deveria ser o constituinte e o constitutivo para a integração. Isso quer dizer que as velhas estruturas oligárquicas que desenharam nossos projetos de integração continuam tendo preponderância. Toda possibilidade de mudança, ou de início de um processo de incorporar a comunicação como ferramenta indispensável para a integração, foi bloqueada. Depois, temos uma quantidade de países nossos onde os meios de comunicação hegemônicos se converteram no que foram as ditaduras militares há 40 anos. Já não fazem falta as ditaduras para impor um modelo econômico, político e social, mas agora temos nos meios de comunicação uma mensagem única, uma imagem única, a “notícia espetáculo”, que cria uma percepção, que aponta não ao racional do indivíduo, e sim vai criando o imaginário coletivo com mensagens anti-integradoras ou não integradoras. A história da América Latina é de divisão para dominar. Recordemos que, quando lançam os sistemas de televisão digital, por exemplo, e
Marcha em defesa da nova Lei de Meios Audiovisuais em Buenos Aires, Argentina
cada país sinaliza um formato diferente, é uma forma muito sutil de impedir uma integração de conteúdos. E, por sorte, há alguma mudança, mas não é por consenso, e sim por imposição de um projeto que o Brasil já possuía, das normas da televisão digital. Pelo menos há uma conjunção de trabalhar com um modelo, com um formato, não sei se melhor ou pior, mas que pelo menos vai ser único para uma série de países da América do Sul, e que vai ajudar uma possível integração de conteúdos, sempre e quando esses conteúdos não sejam pensados a partir das metrópoles imperiais. E não estou me referindo ao Brasil quando falo em imperiais [risos].
A democratização da comunicação envolve a luta institucional e também a mobilização popular, a exemplo do que vemos em alguns países? Há um movimento interessante, sobretudo na Argentina, desde baixo e desde cima: não é certo que seja apenas a partir do governo, tampouco que venha só da população; é uma conjunção de interesses de governo e dos movimentos que levou adiante uma lei de radiodifusão, que será regulamentada. Isso abre caminhos, são ferramentas que abrem espaço para a democratização. Esta não é a democratização, mas obviamente é um passo muito positivo nesse caminho.
“Dizia [Eduardo] Galeano que estamos, os latinoamericanos, cegos de nós mesmos, em 500 anos nos vimos como estrangeiros, nossas referências eram copiar modelos estranhos”
Esse processo está gerando a conscientização da sociedade? Algo muito interessante é que pessoas que haviam se afastado da política, ou comprado o discurso de que a política deveria ser deixada aos políticos, se deram conta de que esse discurso é vazio. Há uma possibilidade de já não ser objeto de política para passar a ser sujeito; a possibilidade de inteirarse sobre para que serve a lei, quais suas potencialidades. O que tem a ver com movimentos políticos, nos quais o grupo Clarín se havia convertido em oligopólio que manipulava o interesse coletivo e, ademais, impunha seus interesses econômicos, sempre muito alinhados com os interesses dos EUA. Por outro lado, um diagnóstico não muito animador é que existe muito voluntarismo em querer mudar as coisas, mas partindo de bases que não são as próprias. Dizia [Eduardo] Galeano que estamos, os latino-americanos, cegos de nós mesmos, em 500 anos nos vimos como estrangeiros, nossas referências eram copiar modelos estranhos. Mas, com as formas democráticas de nossos países, sobretudo, com essa nova esquerda latino-americana – que são os movimentos sociais, a única esquerda real na América Latina, que está impulsionando as reformas dentro dos países –, creio que há uma mudança positiva, de olhar com os próprios olhos, recuperar a memória, olhar suas próprias identidades; o destino não vai ser imposto de fora.
Mas então o modelo de televisão digital neste momento tem um caráter favorável à integração dos países, ou trata-se de uma fórmula de subordinação? Uma possibilidade que se abre. Há que se trabalhar muito bem, sempre e quando sirva para chegar às grandes massas, para democratizar. Podemos chegar com a TV digital a todos os rincões de um país, democratizar, com custos muito baixos, televisão e internet. Porém, se vamos transmitir conteúdos hegemônicos então é pior, a dependência cultural se acentua. Então, esta é uma confusão muito grande e é preciso saber analisá-la. O modelo brasileiro foi adotado pelo Uruguai, Argentina, seguramente será também pelo Paraguai, assim como pela Venezuela. Países centro-americanos e o México vão tomar o modelo dos EUA. E o Chile seguiu o modelo europeu.
A mídia hegemônica, no caso, o grupo Clarín, representa claramente os interesses da classe dominante, inclusive contribui na sua organização? Na manifestação do dia 15 de abril deste ano, quase 70 mil pessoas saíram às ruas em Buenos Aires. Há muito tempo não se via isso, me parece que a classe média estava nas manifestações, jovens universitários e velhos de classe média que haviam se retirado de tudo, mas veem [nessa bandeira] que vale a pena seguir lutando, estar vivo. É uma importante recuperação desse governo que havia perdido a classe média, relevante do ponto de vista eleitoral, a partir de dois temas que, à primeira vista, parecem pouco importantes: a lei de rádio e comunicação e a lei do matrimônio gay. Há um ano, as mudanças que se produziram na Argentina foram surpreendentes; um cenário empurrado por essa situação de crise onde o grupo monopólico Clarín segue sendo o principal ator, porque o seu presidente é quem agora reúne os líderes opositores.
“A exclusão social na América Latina pelo neoliberalismo faz com que milhões de pessoas nem sequer tenham documentos, estão marginalizados completamente” Há um acúmulo dos movimentos sociais no que se refere à elaboração de uma comunicação própria, ainda que com deficiências. Mas, e quanto às massas que não estão organizadas, como fica o seu acesso à informação? A exclusão social na América Latina pelo neoliberalismo faz com que milhões de pessoas nem sequer tenham documentos, estão completamente marginalizadas. São objetos de política
a cada quatro ou cinco anos para votar, nem sequer são tratados como cidadãos e não há interesses da classe dominante em fazer com que sejam sujeitos de políticas, no que podemos chamar de democracia participativa. O que passa pela informação e o direito humano de ser informado passa pelo debate das ideias e pela construção desse coletivo. Nós somos representantes dos movimentos ou do povo, mas somos intermediários de opiniões que muitas vezes não são debatidas nas bases. A única coisa que se constrói de cima é um poço. De baixo, empurra-se o poder para exercer as mudanças. Senão, não podemos pensar que Lula é presidente, que Rafael Corrêa, que Evo Morales exista. Nós que nos queremos comunicadores temos que entender primeiro que somos alternativos, mas a quem? Compramos o paradigma que nos venderam de que alternativo é sinônimo de marginal. E não há possibilidade de ser alternativo se não for massivo. Ou então coloca-se a comunicação como algo em si mesmo, ou como algo específico, localizado, distante da luta política, como algumas experiências de comunicação comunitária. Não há que ter medo da política. Toda manifestação é política, e a comunicação é uma parte, uma ferramenta da política. Todo meio tem uma linha editorial, não existe imparcialidade e subjetividade sem decisão política. Há muita confusão, muitas vezes lutamos para ter os meios e nem sabemos para quê. Com a lei na Argentina, estamos falando de várias rádios novas. Queremos ter muitos meios, mas tudo depende: para quê? Alternativo, mas alternativo a quê? Para contrapor a mensagem hegemônica me parece muito bem, mas só o direito de ter novos meios não garante a democratização; se nós seguimos repetindo a agenda, os formatos e o conteúdo do inimigo, estamos trabalhando para o inimigo. Mais importante que ter meios novos é gerar conteúdos para esses meios novos, com nossa forma de pensar e interesses. Da pequena organização ao Estado. Se não, vamos ter que apresentar o “Programa do Chaves” na
grade de programação. Conteúdo sem meios não serve para nada, e ter os meios sem conteúdos também não. E a questão da visibilidade? O Brasil de Fato talvez tenha sido o único com uma página sobre à África na Telesul. Às vezes vemos notícias que não veríamos noutros espaços. O problema da Telesul é que 85% das imagens vêm das agências internacionais. Então, a agenda informativa está ligada a esse sucesso que visibiliza o inimigo. Poucas vezes a informação é alternativa, os movimentos sociais não aparecem quase nunca, exceto quando há um presidente no meio. Se você quer uma TV latino-americana, tem que buscar um vocabulário, linhas comuns em todos os países. A televisão serve para apontar e acompanhar quais são os processos de integração. É impossível que nos integremos sem saber quem somos nós mesmos. Na Telesul, o problema é que não estão convencidos de que há a possibilidade de conteúdo próprio, de ser realmente alternativo e não reativo somente. O triunfo maior da Telesul foi que mudou a agenda da CNN em espanhol, que já não podia invisibilizar uma série de coisas, porque havia uma alternativa. Durante dez anos, a CNN em espanhol nunca passou nem uma imagem de índio, nem de negro, salvo quando há uma notícia espetacular ou uma matança. Após a Telesul, a CNN passa até o discurso de Daniel Ortega nas Nações Unidas. Mas o problema é que a Telesul não logrou entrar nos países e é pouco vista hoje.
“Estamos gastando tempo em denunciar e responder às políticas do Império, mas não estamos gerando políticas próprias” A questão, do seu ponto de vista, para os meios de comunicação de esquerda é a produção de conteúdos? Estamos gastando tempo em denunciar e responder às políticas do Império, mas não estamos gerando políticas próprias. Mesmo em um caso que se deu em 2002, na Venezuela, na época do golpe petroleiro, as pessoas estavam cansadas de ver tanto a televisão privada como a do Estado e foram ver uma TV que era da igreja e passava documentários. E agora estão migrando para canais de oposição. Na Venezuela, foi tirada a concessão da RCTV, um canal que tinha 25% de audiência, e se colocou no lugar uma TV associada que não tem nem 1% de audiência. Isso significa ter meios e não sabermos para que os queremos, não sabemos profissionalmente. Não há por que tirar esportes e novelas, que são uma parte importante. Era uma discussão que tínhamos com o Eugenio Bucci, ex-presidente da Radiobrás. Ele dizia que o espetáculo era para a TV privada, não para canal público. E eu perguntava se tínhamos que ficar com o pior pedaço da carne. É falso que algo público não possa ser divertido. Isto tudo tem a ver com o debate de espaço público, gerar conteúdos para ocupar esse espaço.
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américa latina Patricia Benvenuti
Uma Colômbia para povos, e não para armas COLONIZAÇÃO Encontro com mais de 2 mil pessoas traça perfil de um país cada vez mais militarizado Patrícia Benvenuti enviada a San Juan de Pasto e Barrancabermeja (Colômbia) PASSAVA DAS 9h30min do dia 19 de agosto quando um grupo da Polícia de Trânsito da Colômbia, que fiscaliza as rodovias do país, parou um ônibus de camponeses e indígenas em Buga, departamento de Vale de Cauca. O coletivo saía de San Juan de Pasto, no departamento de Nariño (sul do país), com destino a Barrancabermeja, em Santander do Sul, norte da Colômbia. Um a um, três policiais entraram no ônibus, balbuciaram algumas palavras e, logo, remexiam nas malas que estavam guardadas acima dos bancos. Um deles olhou dentro do banheiro feminino, como se procurasse algo. Em seguida, deram pequenas batidas no teto do veículo. Não contente, um dos policiais puxou uma espécie de chave de fenda e abriu parte da lataria. “Estão à procura de armas, de drogas”, diz à reportagem um adolescente, que continua seu cochilo. “Isso que você está vendo é [Álvaro] Uribe [ex-presidente colombiano que deixou o posto no dia 7]”, diz outro passageiro no banco de trás, enquanto avista a saída dos soldados. Esse tipo de vistoria é rotineiro na Colômbia, em seu chamado combate ao narcotráfico. Para os passageiros, porém, era mais um lembrete sobre a importância da sua viagem a Barrancaberme-
ja. Eles seguiam para a última etapa do Encontro Internacional de Mulheres e Povos das Américas contra a Militarização, realizado entre 16 e 23 de agosto na Colômbia. Articulado por mais 40 organizações, o evento reuniu mais de duas mil pessoas e promoveu missões humanitárias por várias regiões do país. O objetivo foi expor as consequências da militarização e as violações de direitos humanos causadas pelo conflito armado que existe há 40 anos no país. A integrante da Organização Feminina Popular e do Movimento Social de Mulheres contra a Guerra e pela Paz Iolanda Bezerra Veja explica que o encontro é um marco na luta das organizações colombianas, já que foi o primeiro evento internacional para denunciar a presença estadunidense no país e os efeitos da militarização, especialmente contra as mulheres. Em 30 de outubro de 2009, os governos do então presidente Álvaro Uribe e de Barack Obama assinaram um acordo militar que permite a instalação de sete bases estadunidenses em território colombiano. “Está se militarizando a vida e o ventre das mulheres porque são os nossos filhos, as nossas crianças que estão sendo enviadas para a guerra, tanto para grupos legais como ilegais”, salienta Iolanda. Inconstitucional No dia 17 de agosto, porém, foi anunciada decisão da Suprema Corte colombiana, que julgou inconstitucional o acordo militar por não ter sido debatido e aprovado pelo Congresso Nacional, que deverá analisar a proposta agora. Para Iolanda, a decisão é um passo importante para bloquear a instalação das bases militares. “Isso não soluciona todos os problemas, mas dá uma legitimidade pa-
Homenagem aos desaparecidos: encontro é o primeiro evento internacional a denunciar a militarização do país
“Está se militarizando a vida e o ventre das mulheres porque são os nossos filhos, as nossas crianças que estão sendo enviadas para a guerra” ra nosso encontro, pois nos dá um espaço para seguir mobilizados”, avalia. No entanto, o líder do Comitê de Integração do Maciço Colombiano (Cima) Robert Daza Guevara aposta que a decisão da Suprema Corte não deve ser suficiente para impedir a presença dos estadunidenses. Ele lembra que 80% do Congresso é governista, o que facilitará a aprovação do acordo. “Não há respaldo no Congresso para as propostas da gente [movimentos sociais]. Então a tendência é de que [o acordo] seja aprovado”, justifica Guevara. Direito à violação Além do estabelecimento das bases, o acordo garante imunidade aos soldados estadunidenses. Segundo as organizações sociais, já há registros de violações cometidas por esses militares que já estão no país para atividades de capacitação. Um dos crimes foi o abuso sexual de uma menina de 12 anos na base militar de Tolemaida, localizada no município de Melgar, no departamento de Cundinamarca. Há também pelo menos sete casos de mulheres que tiveram filhos com militares estadunidenses que estão instalados há mais tempo na costa atlântica do país. Os soldados, no entanto, se negam a reconhecer a paternidade das crianças. “Pensamos que,
com as bases gringas [estrangeiras], todas essas violações possam aumentar muito mais”, afirma Guevara. Para ele, a instalação das bases provocará também a intensificação de confrontos entre forças públicas de segurança, grupos paramilitares e guerrilheiros, que tem causado, entre outros resultados, a morte e o deslocamento forçado de muitos colombianos. “As bases vão aumentar a violência, com equipamentos e ações de apoio técnico [ao Exército colombiano]”, prevê. Interesses Na avaliação do dirigente camponês, as bases são uma prova real do interesse estadunidense em retomar o controle sobre a América Latina, com o respaldo das autoridades colombianas. “Pensamos que há uma aliança entre a oligarquia colombiana e o governo dos Estados Unidos na qual a oligarquia colombiana se oferece como base de apoio para o controle dos movimentos sociais que estão nascendo na América Latina”, avalia. Opinião semelhante tem o padre hondurenho Fausto Milla. Ao conhecer a situação colombiana, conta ele, foi possível identificar uma série de semelhanças com seu país, que, em junho de 2009, sofreu um golpe de Estado que derrubou o então presidente Manuel Zelaya. “As formas de
matar, em grupos, e a ostentação de força militar e de polícia para assustar as pessoas [são similares]”, explica. De acordo com o padre, que também integra a Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado, o continente vivencia uma tentativa de um novo processo de colonização. “Vejo claramente que se está dando uma segunda conquista e colonização do continente, com consequências de saque, usurpação, violência e sofrimentos”, analisa. Vítimas O aumento da militarização na Colômbia também gera críticas por parte de famílias que já foram vitimadas pelo conflito armado. Para uma jovem do departamento de Nariño, que pediu para não ser identificada, o governo utiliza as maiores cidades, como Bogotá, Cali e Medellin, para mostrar a eficácia de suas políticas de segurança. No entanto, as marcas do conflito ficam escondidas no interior do país. “O governo Uribe vende uma imagem de que aqui está tudo perfeito, mas todos nós sabemos que isso é mentira”, afirma. Em 2008, seu irmão foi assassinado, junto com outros professores, por um grupo guerrilheiro no município de La Florida. A família soube da morte por um bilhete do grupo, que afirmava que as vítimas foram mortas por colaborar com o governo. Os corpos nunca foram encontrados. Ameaçada pelo mesmo grupo, ela pediu proteção do Estado, que apenas recomendou que fosse embora do local. Atualmente, sua família vive em outra localidade, sem ter recebido qualquer auxílio. “Onde está o Estado en-
tão, onde está a segurança?”, questiona a jovem. Mudanças Para mudar o atual cenário de violência, os movimentos sociais colombianos ressaltam a necessidade de grandes transformações no país. No entanto, a transição presidencial de Álvaro Uribe para Juan Manuel Santos não parece estar entre as mudanças mais significativas, já que o novo mandatário é considerado um sucessor das políticas de Uribe. Algumas lideranças, porém, são ainda mais pessimistas. “Acho que Santos é uma continuidade do que tínhamos. Mas creio que vai ser mais sofisticado e prudente, e assim mais eficaz contra as forças”, projeta Iolanda Bezerra Veja. Para as organizações populares, as mudanças devem ocorrer a partir de um ponto de vista político, com o fim do conflito armado e com a garantia de melhorias para a população. Atualmente, cerca de 65% dos colombianos vivem na linha da pobreza, e o desemprego, especialmente no campo, empurra trabalhadores para atividades ligadas ao narcotráfico. “As fontes de emprego não existem na Colômbia, e os únicos empregos são o de policial, informante, trabalho em cooperativas de segurança”, explica Iolanda. Para o líder camponês Robert Daza Guevara, é imprescindível que haja um diálogo entre sociedade, governos e grupos armados, a fim de buscar alternativas para o país. “Esse diálogo tem que determinar uma nova proposta de país, em que a comunidade pobre, rural e urbana, tenha possibilidades de saúde, de educação e bons empregos”, frisa.
Transnacionais patrocinam violência
da enviada a San Juan de Pasto e Barrancabermeja (Colômbia) Além do aumento da militarização, simbolizado agora pela instalação de sete bases militares estadunidenses em seu território, os colombianos enfrentam outra ameaça não menos agressiva: o avanço de empresas transnacionais no país. Minas repletas de ouro, manganês e outros recursos são algumas das riquezas nacionais que têm atraído corporações de todo o mundo nos últimos dez anos. Segundo o líder do Comitê de Integração do Maciço Colombiano (Cima) Robert Daza Guevara, atualmente há pelo me-
nos 137 transnacionais atuando no país, que recebem concessões para a exploração em todo o território. As corporações, porém, não vieram desacompanhadas. Junto com elas, veio a intensificação dos conflitos armados no país. De acordo com o dirigente, muitas empresas agem no sentido de expulsar os trabalhadores do campo, a fim de tomar suas terras. Para isso, fazem uso até do patrocínio de grupos paramilitares. “Em Arauca [departamento], há grupos paramilitares que são financiados por empresas multinacionais petrolíferas. É onde há os mais altos índices de assassinatos e violações dos direitos humanos”, destaca. Para Guevara, a atuação dos paramilitares em certas áreas está mais relacionada com a existência de recursos naturais do que com a presença de grupos guerrilheiros. O paramilitarismo, segundo ele, faz parte de um esquema articulado por várias frentes. “As corporações transnacionais, em cumplici-
dade com o governo, com os militares e em aliança com os paramilitares, retiram as pessoas do seu território. E as bases militares vêm a ser um apoio técnico e militar a todas essas estratégias”, enfatiza.
Em Cajamarca, a disputa por uma grande mina de ouro é a causa de violações e massacres, muitos dos quais atribuídos ao próprio Exército colombiano Como exemplo, ele cita a transnacional AngloGold Ashanty, que ganhou concessão de exploração em 26 dos
32 departamentos colombianos. Dos 13 milhões de hectares concedidos pelo Ministério de Minas e Energia, 800 mil já têm permissão de exploração. Ao recusarem vender suas terras, agricultores, indígenas e negros sofrem ameaças que se concretizam em assassinatos. Forças Públicas As terras onde há mais concentração de recursos, no entanto, também têm recebido forte aparato das Forças Públicas colombianas. Em uma hora de viagem entre os municípios de Sapuyes e Ricaurto, no departamento de Nariño, é possível observar cinco bases permanentes da polícia, que conta ainda com outras três ocasionais. A área, uma das mais ricas em ouro, também registra altos índices de violência. Já em Cajamarca, departamento de Tolima, a disputa por uma grande mina de ouro é a causa de violações e massacres, muitos dos quais atribuídos ao próprio Exército colombiano.
Reprodução
Regiões mais ricas em recursos naturais são palco de conflitos
Fumigação A violência direta, porém, não é a única arma usada contra os camponeses. Sob pretexto de erradicar o plantio de coca, é usada a técnica da fumigação, pelo despejo aéreo de glifosato sobre as lavouras. Como a coca já adquiriu proteção ao glifosato, o prejuízo
fica sobre lavouras de alimentos básicos aos agricultores, como cacau, arroz e banana. Somente nos últimos oito anos, cerca de 4,5 milhões de trabalhadores foram expulsos do campo. Hoje, dos 45 milhões de habitantes da Colômbia, apenas 11 milhões vivem nas zonas rurais. (PB)
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américa latina Neil Palmer (CIAT)
A influência brasileira no campo boliviano AGRICULTURA Brasileiros desenvolveram o agronegócio no país vizinho, especialmente a cadeia da soja, incrementando o PIB boliviano, mas semeando problemas sociais e ambientais Heloísa Gimenez e Vinicius Mansur de La Paz (Bolívia) DE ACORDO com o pesquisador Marco Ribera, em 1967 havia cerca de 300 hectares de soja no departamento boliviano de Santa Cruz. Em 1975, eram 28 mil hectares plantados. Acompanhando a demanda mundial que freneticamente exigia soja para sustentar os crescentes empreendimentos de avicultura e pecuária intensiva, a Bolívia chegou a 70 mil hectares do grão na década de 1980. Porém, com a chegada massiva de brasileiros a Santa Cruz, o país entrou de vez no mercado mundial da soja. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), em 2008, a Bolívia foi o oitavo maior produtor de soja do mundo, atrás de gigantes territoriais como Estados Unidos, Brasil e China. Atualmente, o cultivo da oleaginosa ocupa 700 mil hectares (o equivalente a mais de 23% das terras propícias para a agropecuária intensiva na Bolívia e a mais de um terço da superfície cultivada), e a produção beira os dois milhões de toneladas por ano, contribuindo com 6% do produto interno bruto (PIB). Já as exportações geram cerca de 600 milhões de dólares, ou 25% do total exportado pelo país. “Esse boom foi produzido pelos brasileiros. Eles tinham capital, tecnologia, experiência e mercado, o que permitiu o desenvolvimento da indústria. Hoje, o setor agropecuário é liderado pela soja, o principal produto de industrialização completa que o país tem”, constata Federico Martínez, assessor da Câmara Agropecuária do Oriente (CAO). Ocupação brasileira
A presença brasileira na Bolívia não é nova. Muitos vivem dentro do território boliviano, mas, na maioria, são camponeses pobres que trabalham praticamente em regime de subsistência ao longo de quilômetros de fronteira na região amazônica, o que dilui a linha convencionada para dividir o território dos dois países. Porém, a natureza da presença dos brasileiros que participam do agronegócio é distinta. Antes produtores de pequeno e médio porte no Brasil, ou ex-técnicos de transnacionais do agronegócio no país, eles prosperaram na Bolívia. Ocupam também as atividades de extração de madeira, pecuária e agricultura em geral, mas concentram-se na soja. Martínez relata que essa migração brasileira, em geral, se dirigiu ao departamento de Santa Cruz, principalmente ao chamado Norte In-
tegrado, que inclui os municípios de Yapacani, San Julián e Obispo Santistevan, locais onde estão os melhores solos da Bolívia. A sua chegada foi catapultada após a crise hiperinflacionária que arrasou a economia boliviana no início dos anos de 1980, levando a agricultura do país a uma séria recessão e derrubando o preço das terras, especialmente nas chamadas terras baixas, muito menos povoadas que o altiplano boliviano. A história de Manoel (nome fictício dado a um sojeiro brasileiro na Bolívia que pediu para não ser identificado) é um retrato fiel desse quadro: “Cheguei em fevereiro de 1992, em Obispo Santistevan, e a primeira propriedade eu comprei pagando 90 dólares por hectare, um presente dos céus. Na segunda eu paguei 190 o hectare, e na terceira 850. Hoje, as propriedades valem, no mínimo, dois mil dólares o hectare”. De acordo com Manoel, atualmente, 40% da área plantada de soja e 60% da capacidade de armazenamento do grão estão nas mãos de brasileiros. Em meio à crise que se encontrava a agricultura boliviana, os brasileiros chegaram com capital para investir em tecnologia e em infraestrutura. Investiram na construção de estradas e, inclusive, em pesquisa, chegando a criar a Fundacruz, fundação que estuda o melhoramento de sementes e aporta o desenvolvimento da cadeia produtiva da soja. No início, esse processo, e até a comercialização da soja, eram feitos em terras brasileiras, mas hoje a Bolívia exporta insumos e derivados para o Brasil. De acordo com o exfuncionário do vice-ministério de terras da Bolívia, Carlos Balderrama, a margem de lucro com a produção nesse país é muito maior que no Brasil: além de custos mais baixos para produzir, a possibilidade de que todas as transações sejam feitas diretamente em dólar exclui as possíveis perdas com a variação da taxa de câmbio.
A chegada dos brasileiros foi catapultada após a crise hiperinflacionária que arrasou a economia boliviana no início dos anos de 1980 Dessa maneira, os brasileiros entraram em todos os ramos relativos à soja na Bolívia. São donos de terras, dirigem grandes empresas e possuem dois dos nove diretores da atual gestão da Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo (Anapo), que reúne os maiores fabricantes do setor no país. Segundo Federico Martínez, a experiência é tão exitosa que já há brasileiros investindo em terras na Amazônia peruana. Para Manoel, a ocupação de território estrangeiro não deve ser vista como problema: “Eu falaria para você que, daqui a dez, quinze anos, acabarão os brasileiros. Eu fiz questão que os meus filhos fossem bolivianos, eu sou boliviano naturalizado,
Plantação de soja no departamento boliviano de Santa Cruz
De acordo com o ex-funcionário do vice-ministério de terras da Bolívia, Carlos Balderrama, a margem de lucro com a produção nesse país é muito maior que no Brasil nós fazemos parte dessa cultura. E daqui a alguns anos são meus filhos, bolivianos, que vão cuidar de tudo”. Os impactos
Para o pesquisador Marco Ribera, a proliferação da oleaginosa precisa ser avaliada com mais rigor, já que os altos valores somados ao PIB mitificaram o produto na Bolívia. “O cultivo da soja tem estreita relação com grandes transnacionais, o que gera enormes dúvidas sobre os be-
nefícios reais à nação. Além disso, os custos ambientais e sociais nunca são postos nos cálculos finais. Foram devastadas enormes superfícies de terras frágeis e ricas em biodiversidade, dando abertura a plantas transgênicas e à lógica dos agrocombustíveis”, pondera. Porém, os cálculos finais dos sojeiros sempre consideraram o baixo custo do desmatamento na Bolívia. Segundo Federico Martínez, a derrubada completa de um hecta-
re de terra já custou 400 dólares no país. “Chegou-se a derrubar em Santa Cruz 300 mil hectares em um ano; e isso foram os brasileiros”, afirma. Outro aspecto negativo do boom da soja, na opinião de Jaime Palenque, gerente geral da Associação de Provedores de Insumos Agropecuários (Apia), foi o encarecimento da terra. “Muita gente que veio especulou, criando um superpreço, mas o preço chegou a uma nivelação, e vários brasileiros tiveram problemas com bancos, porque não conseguiram cobrir os custos do investimento inicial”, observa. Entretanto, os impactos mais violentos causados por brasileiros é sentido por militantes camponeses. Segundo Lorencio Orco, dirigente da Confederação Sindical Única dos Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), res-
ponsável pelas quatro províncias do norte de Santa Cruz, “o brasileiro, quando toma uma terra, é mais cruel que um empresário comum daqui ou de qualquer outro país. Utilizam pistoleiros, armas. Uma vez nos abordaram com um fuzil, um revólver, eram armas de guerra, não sei como eles obtêm isso”. O dirigente do Movimento dos Trabalhadores Camponeses e Indígenas Sem Terra da Bolívia (MST-Bolívia), Silvestre Saisare, tem depoimento similar. “Há uma instigação constante, perseguição, inclusive assassinatos. Na fronteira, um brasileiro, que é um pistoleiro contratado, entra, mata e volta para o Brasil. Muitos assassinatos ficaram sem solução por isso. De Porto Suarez até Piso Firme já são de 30 a 40 pessoas assassinadas”, relata.
Governo Lula garante agronegócio no país vizinho J. Lirauze/ABI
de La Paz (Bolívia) A ascensão do governo Evo Morales, em janeiro de 2006, provocou certo receio nos fazendeiros brasileiros na Bolívia quanto à possibilidade de terem suas terras desapropriadas. “Na verdade, ter alguma coisa [terras] no Brasil é mais uma questão de segurança por causa da política boliviana, você não sabe até onde o governo será capaz de fazer o que ele fala que vai fazer”, revela João, nome fictício de um fazendeiro brasileiro na Bolívia que pediu para não ser identificado. Segundo Manoel, outro proprietário que pediu sigilo de sua identidade, a reeleição esmagadora de Morales e a conquista de mais de dois terços do Congresso Nacional pelo seu partido (MAS-IPSP), em dezembro de 2009, trouxeram “temor de que eles [masistas] regulamentem a nova Constituição à maneira deles”. Porém, Manoel afirma confiar na garantia dada pelo governo brasileiro. Sem precisar a data, ele conta que, certa vez, houve um rumor pela mídia de que o então candidato a presidente, Evo Morales, desapropriaria terras de brasileiros caso ganhasse. “O Roberto Rodrigues [então ministro da Agricultura do Brasil] esteve em Santa Cruz, mais ou menos nessa ocasião, eu falei disso com ele e ele disse: ‘Olha, segunda-feira eu tenho uma reunião com o presidente Lula, vou conversar com ele’. A resposta não demorou. O embaixador me chamou pessoalmente pelo celular e avisou: ‘O problema está contornado, fica tranquilo, está tudo certo, o Lula já falou com o Evo, es-
Presidente Evo Morales participa da Exposoja 2010
Pela nova Constituição boliviana, os grandes produtores de soja podem ficar tranquilos. Apesar do texto enfatizar a distribuição de terras, ele não é uma ameaça aos sojeiros pero que ele cumpra’ [risos]. Então, quando o Evo esteve aqui fui lá falar com ele: ‘Escuta, como é que é? Dizem que você vai nos desapropriar, nos mandar embora?’. E ele respondeu: ‘Não, que nada, isso é versão da mídia’”. Manuel se diz fã do governo Lula, que “foi espetacular pela assistência que deu aos produtores de soja na Bolívia, sempre nos auxiliou”. “[No governo Fernando Henrique] nós fomos um pouco esquecidos”, revela. Com relação à política boliviana, porém, o fazendeiro diz que, em geral, os brasileiros não se metem:
“Na maioria, os produtores são pessoas muito humildes, que não têm a cultura de definição política. Se dedicam à produção somente, não se pronunciam. Eu, astutamente, sou uma pessoa de centro, de centro-esquerda. Agora, eu não sou político, eu respeito o governo de todos. Eu sou empresário do agronegócio, eu não quero saber de ir para um lado ou para outro, sabe? Tomar partido de Santa Cruz, pegar a bandeira, não. E nem pegar a bandeira do outro”. Segurança
Pela nova Constituição boliviana, os grandes produto-
res de soja podem ficar tranquilos. Apesar do texto enfatizar a distribuição de terras, ele não é uma ameaça aos sojeiros, já que garante a propriedade privada, que a função econômica e social da terra não restringe a monocultura e que o limite de propriedades não é retroativo, ou seja, serão respeitados aqueles que já tinham propriedades maiores que 5 mil hectares. Ademais, a Empresa de Apoio à Produção de Alimentos (Emapa), criada pelo governo Morales para dar suporte a pequenos produtores, já está comercializando soja transgênica. E, de acordo com o pesquisador Enrique Ormachea, a compra pela Venezuela, com capital estatal, de uma das mais tradicionais empresas sojeiras da Bolívia – a antes colombiana Gravetal – revela que “os venezuelanos aparentemente querem que a Bolívia seja o polo graneiro da Alba”, afirma. (HG e VM)