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BDF_390

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Circulação Nacional

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 8 • Número 390

São Paulo, de 19 a 25 de agosto de 2010

R$ 2,80 www.brasildefato.com.br US Army

Campanha fria evita polêmicas e escanteia debate político A campanha para presidente começou em tom ameno. Para especialistas, o debate torna-se quase consensual por conta da massificação da propaganda e do predomínio do marketing. Assim, os candidatos não podem desagradar ninguém. Pág. 3

Eduardo Paes quer remover comunidade em Madureira O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), iniciou a remoção de 833 famílias no bairro de Madureira, zona norte da capital fluminense, para construir um parque no local. As famílias reclamam que o prefeito havia prometido não remover ninguém e que os critérios para a indenização não foram transparentes. Pág. 5 ISSN 1978-5134

EUA encenam retirada das tropas, mas mantêm intervenção no Iraque Os Estados Unidos anunciaram a saída das tropas de combate do Iraque até 31 de agosto. Ainda assim, ficarão 50 mil militares no país, cuja situação está longe de ser estável. Por outro lado, o país norte-americano aumentou a quantidade de soldados e ações no Afeganistão, onde cresce o apoio da população

ao Talibã. A situação no país ocupado em 2001 é complicada. Em julho, os EUA tiveram o maior número de baixas desde o início da guerra. A pressão também segue contra o Irã e até mesmo contra tradicionais aliados – como o Paquistão, onde a influência do Talibã e a oposição ao governo têm crescido. Pág. 9 Hendrik Speck/CC

Nina Fidelis

Jornalistas de SP contra o fechamento da TV Cultura O governo de São Paulo ataca mais uma vez a TV Cultura e ameaça realizar demissões e transformar a emissora numa retransmissora de conteúdo. Há dois meses a Cultura está sob o comando de João Sayad, que não desmentiu os boatos. Jornalistas criaram o Movimento Salve a Rádio e TV Cultura para tentar barrar o desmonte. “É preciso lembrar que a TV Cultura não é um órgão público da administração direta do governo. Não pertence ao governo. Pertence ao público”, escrevem em manifesto. Uma das primeiras medidas de Sayad foi cancelar o programa “Manos e Minas”. Págs. 6 e 7

Pág. 10

Apresentação do grupo A Família no programa “Manos e Minas”, da TV Cultura UJC/Curitiba

Periódico El Ciudadano/CC

As Américas a caminho de um outro mundo possível

Ivan Pinheiro critica caráter superficial das eleições

O Fórum Social das Américas, realizado em Assunção, Paraguai, aprovou uma pauta comum aos movimentos sociais do continente e a solidariedade aos povos de Honduras e Haiti. Págs. 11 e 12

Em entrevista, o candidato a presidente pelo PCB, Ivan Pinheiro (foto), afirma que a disputa entre Dilma Rousseff e José Serra é superficial, pois não coloca em jogo a natureza do Estado. Pág. 4


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editorial A REESTRUTURAÇÃO produtiva do capital, principalmente com a intensificação do uso tecnológico e a internacionalização da produção e do consumo, traz importantes transformações para o mundo do trabalho. E essas mudanças e inovações não têm sido favoráveis aos trabalhadores; pelo contrário, tem intensificado a exploração dos trabalhadores ocupados e ampliado o número de pessoas que ainda cumprirá a função de ser um exército industrial de reserva a ser incluído, (in)formalmente, segundo os ditames do capital. Essa dinâmica atual de exploração do capitalismo tem imposto à classe trabalhadora três processos combinados de readequação à vida. O primeiro é a precarização das condições de trabalho dentro e fora do ambiente laboral. O segundo, a luta pela sobrevivência sendo atrelada ao sistema de créditos e financiamentos, advinda dos salários cada vez mais contraídos. E, por fim, a dificuldade de organização fora do local de trabalho, dada a jornada exaustiva. Neste contexto, a juventude vem sendo a principal vítima das tensões próprias do processo de dominação do capital contra o trabalho. Segundo o último relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), dos

debate

A juventude e a luta de classes 620 milhões de jovens que compõem a população economicamente ativa (PEA), em idade de 15 a 24 anos, 81 milhões estavam desempregados em 2009. Ou seja, aproximadamente 13,1% da população mundial jovem está fora do mercado de trabalho. O fato é que a juventude vive dilemas próprios do atual modelo de desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais de produção do século 21. Um modelo no qual o capital concentra parte expressiva das riquezas de diversos territórios nacionais, em seu processo de consolidação da expansão mundial coordenada por poucos e fortes conglomerados financeiroseconômicos mundiais. Essa concentração traz para dentro das nações uma vulnerabilidade sem precedentes – coloca ainda mais em xeque a soberania nacional – e torna marginal uma parcela da classe trabalhadora. Os jovens que estão sendo preparados para ocupar uma posição no mundo da sobrevivência não encontrarão uma inserção imediata no mercado. A alternativa do próprio capital, frente

à dinâmica de roubo do tempo dos que estão empregados e o aumento da preparação dos que estão desempregados, é a de instituir o critério do empreendedorismo. O empreendedorismo é a manifestação clara da perversidade da ação do capital sobre o trabalho, enquanto técnica, ação, formação do imaginário coletivo desse grupo. Dessa forma, transfere-se, novamente, para o indivíduo uma situação coletiva, relacionada com toda a sociedade. Além disso, é a forma propagandista de ocultamento da real condição do trabalho frente às metamorfoses geradas no seio do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas, ao longo de seu caminhar histórico. No empreendedorismo, se ratifica a individualização da formação da consciência desde e para o trabalho, em que homens e mulheres jovens, na concorrência pela sobrevivência, manifestem sua capacidade criativa-inventiva, propondo algo (inovador ou necessário) que possa ser rapidamente absorvido pelo mercado consumidor/ produtor de bens e serviços.

crônica

Maria Luisa Mendonça

João e o pé de feijão NA CONHECIDA fábula infantil, João era um menino pobre e não tinha o que comer. Sua mãe pediu que ele fosse até a cidade vender o último bem que lhes restava, em troca de comida. Mas João voltou para casa apenas com algumas sementes de feijão, que se tornaram uma enorme planta, tão alta que chegava até as nuvens. João subiu até lá e encontrou um gigante que guardava uma harpa e uma galinha dos ovos de ouro. Com uma coragem impressionante, João derrotou o gigante, levou a galinha e a harpa mágica, de onde soava uma bela música. E nunca mais passou fome. Um dos debates centrais no Fórum Social das Américas girou em torno das disputas geopolíticas sobre recursos estratégicos em nosso continente, que podemos descrever como o tesouro que João recuperou do controle do gigante. As sementes de feijão podem ser comparadas ao importante acúmulo de análises e ações articuladas em âmbito hemisférico, refletido na experiência que representou a Campanha Contra a Alca e seus diversos processos de convergência que nos permitiram chegar até aqui. Essa articulação continental foi capaz de unir uma ampla gama de temas no sentido de compreender as diversas faces do imperialismo nesse momento histórico. Com isso, foi possível perceber as contradições das disputas intercapitalistas e estabelecer unidade entre diversos setores sociais organizados, em torno de lutas concretas. Hoje temos uma compreensão da relação entre as propostas de acordos comerciais nos moldes do que seria a Alca com projetos de infraestrutura como a IIRSA, com mecanismos de dominação militar estadunidense (bases, treinamentos, vigilância, entre outros) e também financeira, através do endividamento. Esses mecanismos buscam ampliar o monopólio do grande capital sobre recursos estratégicos e, para isso, é necessário intensificar a repressão aos movimentos em luta. No centro dessa disputa estão recursos energéticos – petróleo, minérios, gás, água, terra e biodiversidade – fundamentais para a produção e reprodução do capital. Poderíamos descrever essas fontes de energia como a ‘galinha dos ovos de ouro’ do capitalismo. Portanto, a luta dos povos contra grandes projetos de barragens, monocultivos, mineração, é central para combater o avanço do imperialismo monopolista. Em sua essência, os atuais mecanismos de dominação em nosso continente não diferem do período colonial, pois suas bases, em certa medida, permanecem intactas, principalmente o monopólio da terra e a organização de nossas economias a partir de uma demanda externa. Por isso, não existe contradição entre o velho latifúndio e as transnacionais

Luiz Ricardo Leitão

A imagem é quase tudo Periódico El Ciudadano

agrícolas travestidas de “modernas”. O que existe é a criação de uma ideologia fetichista em torno de novas tecnologias, somada a uma ideia positivista ou funcionalista do que significaria o desenvolvimento dos meios de produção. Essa ideologia se combina perfeitamente com o discurso desenvolvimentista conservador, com a ideia neoliberal de ‘eficiência’ e com os interesses do capital internacional. Um exemplo claro é a organização da indústria da cana no Brasil. No período colonial, o que se exportava não era cana, e sim o açúcar manufaturado nos engenhos brasileiros, que detinham tecnologia de ponta. O açúcar era uma das principais commodities da época e inclusive mudou os hábitos alimentares na Europa. Portanto, deter tecnologia avançada não significa necessariamente mudar as relações de produção. Atualmente, o modelo que sustenta a produção de etanol no Brasil, baseado no latifúndio e na superexploração do trabalho, não é muito diferente. A novidade é a crescente presença do capital internacional no setor. Uma nova característica da indústria do etanol, se comparada ao Pró-Álcool da década de 1970, é a aliança entre setores do agronegócio com empresas petroleiras, automotivas, de biotecnologia, mineração, infraestrutura e fundos de investimento. Neste cenário, não existe contradição desses grupos com a oligarquia latifundiária, que se beneficia da expansão do capital no campo e do abandono de um projeto de reforma agrária. A presença de capital estrangeiro na indústria da cana cresceu de 1% em 2000 para cerca de 25% em 2010, estimulada por recursos públicos. Entre 2008 e 2009, estima-se que o setor sucroalcooleiro abocanhou mais de R$ 12 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES). Essa verba é extraída, em grande medida, do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). Além de receber subsídios de forma desproporcional, o latifúndio se beneficia da grilagem

Dentro da juventude, outros grupos, como mulheres, negros e índios vivem essas contradições para toda a classe e de forma particular para a juventude, ainda mais intensa. Mas, para o capitalismo, é oportuna essa fragmentação para a seleção de diferentes grupos no âmbito formal da exploração. Assim, à exploração do trabalho se somam as classificações por grupos de idade, de gênero e de etnia-raça com o fim de diferenciar. Com isso, podem lucrar com as múltiplas funções colocadas a cada um de maneira individual no processo produtivo. Jovens mulheres têm um acesso menor que jovens homens, e, entre estes, jovens brancos têm uma inserção maior que jovens negros e índios. Além disso, a concepção de globalização como algo comum e igual cai por terra quando comparamos a inserção no mercado de trabalho dentro das nações a partir das diferenças regionais e nacionais. Jovens dos países centrais terão uma inserção, na disputa dentro de seus territórios, maior que jovens de nacionalidades pe-

riféricas. Estes estarão projetados para trabalhos de menor importância, desde que não haja crise e uma diminuição ainda mais intensa dos postos formais de trabalho com maior qualificação. A verdade é que a juventude pobre, da classe trabalhadora urbana, não tem espaço nesse modelo de dominação do capital financeiro e internacionalizado. Nem nos países chamados ricos, como na Europa, onde o desemprego atinge até 40% da juventude. E a primeira década deste século evidencia não só a revolução do capital e sua acentuação sobre o trabalho – que está cada vez mais condicionado e reduzido à lógica dominante atual –, mas a formação da consciência sobre o futuro da nação. Frente a esse cenário, somente se abrirá uma perspectiva de futuro com organização da juventude. Para tal, é preciso desenvolver consciência de classe e motivá-los para que se mobilizem, lutem. Mas, como a maioria está fora do mercado de trabalho, temos que desenvolver novas formas de atuação política que os ajudem a debater, a se aglutinar. Assim, descobrirão que é preciso construir um outro modelo de sociedade. E, juntos, construiremos um “outro mundo possível”.

de terras, da flexibilização da legislação ambiental e trabalhista e da continuidade da prática de trabalho escravo. A expansão dos monocultivos causa a expulsão de camponeses de suas terras, impede que outros setores econômicos se desenvolvam e gera dependência dos trabalhadores a empregos precários e temporários. O êxodo rural cria uma massa trabalhadora mais vulnerável à superexploração, tanto no campo quanto na cidade, além de contribuir com a crise alimentar, já que os camponeses são responsáveis por 70% da produção de alimentos e por 80% da geração de empregos no meio rural. Esse cenário significa que a resistência dos camponeses é estratégica. Os processos de resistência antiimperialista na América Latina têm como eixo central a defesa de recursos estratégicos. O caso mais simbólico é o da Bolívia, onde o processo de mudança política teve início com a chamada ‘guerra da água’, em Cochabamba, e culminou com grandes mobilizações pela nacionalização do gás. A revolução bolivariana, na Venezuela, só foi possível com a retomada estatal do controle da produção de petróleo. Ao mesmo tempo, a estratégia imperialista no continente intensifica um cerco militar por controle desses recursos, através de bases, tropas, frotas navais e acordos bilaterais para exercícios militares conjuntos em nossos países. Vivemos um momento de múltiplas contradições e, portanto, é necessário mantermos espaços de ação conjunta na luta por soberania – popular, econômica, política e alimentar. Para isso é necessário aprofundar a construção de unidade e análise compartilhada, a partir da memória e do acúmulo de conhecimento coletivo construído ao longo desta caminhada. Maria Luisa Mendonça é jornalista e esteve no Fórum Social das Américas, em Assunção (Paraguai). É coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

A TIRANIA DA imagem não é uma prerrogativa desta era globalizada pós-moderna, mas ela nunca foi tão ostensiva quanto agora. Quem não se lembra do comercial da Pepsi, há alguns anos, apregoando sem o menor pudor que imagem é tudo? Bem antes da poderosa transnacional, o crítico estadunidense Fredric Jameson enunciava, em um artigo publicado em 1984, que um dos traços distintivos da pós-modernidade (vista por ele como a “expressão da nova ordem social que emerge do capitalismo tardio”) é o esforço em condensar a realidade em imagens. Verdade seja dita que esse ‘mundo espetacular’ não vem a ser exatamente um conjunto de imagens, mas sim uma relação social mediada por imagens. O universo veiculado pela tela da tevê é a afirmação da aparência e a transfiguração deliberada de toda vida humana – ou seja, social – em aparência. Nosso tempo revalida a advertência de Feuerbach, que, no prefácio à segunda edição de A essência do cristianismo, já advertia: as imagens predominam sobre as coisas, a cópia vale mais que o original. “A ilusão é sagrada, ao passo que a verdade é profana.” Não há nada de novo, pois, na obsessão atual. A era biocibernética do capital apenas acelerou, em ritmo inusitado, tendências que o mundo ocidental há tempos estimula. De forma análoga, tampouco há como ignorar que a amoralidade, a agressão, o sadismo, o voyeurismo e a própria pornografia são temas recorrentes não apenas da mídia, mas também da grande arte. Como já escreveu Camille Paglia, discípula ferrenha de Freud, o sexo e a natureza são forças pagãs brutais que a cultura judaico-cristã jamais derrotou e que ainda florescem na arte, no erotismo, na astrologia e na cultura popular. É por isso que um artista consciente das implicações estéticas do sadismo e do voyeurismo é capaz de criar obras reveladoras, como o contundente filme Saló: 120 dias de Sodoma, do italiano Pier Paolo Pasolini, um dos mais vigorosos libelos antifascistas que o cinema logrou produzir. O leitor me perdoe tantas digressões filosóficas nesta despretensiosa crônica, mas tudo isso me veio à cabeça depois de ver a repercussão descomunal que (mais) um episódio envolvendo os “meninos da Vila” obteve na mídia. Refiro-me, é claro, à exibição nas chamadas redes sociais das imagens que Madson, Zé Love e Felipe registravam em sua webcam, com direito a bate-boca on-line com um torcedor do Santos e outras tolices do gênero. Sobram arrogância e narcisismo nos jovens boleiros milionários e em seus seguidores, mas por que seriam eles os únicos a merecer tamanha “reprovação” da mídia, cujos maiores astros e gurus não fazem outra coisa senão admirar-se nos lagos de plasma e LCD? Como dissociar o incidente santista da pseudoética que vigora em nossa sociedade de consumo hipertrofiada? Mais uma vez, evoco as palavras do craque-cronista Tostão, ao comentar uma entrevista infeliz de Neymar ao “Estadão”, em que o deslumbrado ‘menino’ dizia não ser preto e declarava querer um Porsche e uma Ferrari, além de expressar seu sonho de viajar à Disney e lamentar a obrigação de tirar o título de eleitor, confessando desconhecer quais são os candidatos à presidência do país. Para Tostão, o comportamento do jogador e de milhares de jovens como ele, “muitos, vítimas da desigualdade social”, é bem menos preocupante do que “a falta de civilidade de parte da população, formada por pessoas até com diploma universitário”. A “boa instrução” e o esclarecimento não têm impedido muita gente ‘chique’ de cometer as mais diversas infrações diárias e de exibir uma crescente soberba e agressividade, que motivam diversos crimes tão hediondos quanto banais, cada vez mais comuns nas páginas policiais de Bruzundanga. Se os toscos e desinformados “garotos” cometem seus desatinos, o que dizer de gente como o cacique global Galvão Bueno, que em recente entrevista à “Folha” desfiou um rosário ainda maior de presunção e vaidades? “Ganho mais do que preciso e menos do que mereço”, disse o semideus tapuia ao comentar que fatura perto de R$ 1 milhão por mês na Globo, mais do que os próprios ‘meninos’ recebem no Santos para propiciar à emissora e às empresas patrocinadoras lucros fabulosos com o espetáculo da bola. De fato, neste planeta de aparências e consumo, a imagem é quase tudo. Antes dela, convém lembrar, existe um prisma ainda mais perverso, que transforma a vida humana em mercadoria e cria fetiches irresistíveis para homens e mulheres de todas as idades. O mundo das imagens, enfim, é apenas mais uma refração desta fase do capital. Tanto para os tolos “meninos da Vila” quanto para os espertos bobos da corte midiáticos, a ilusão continua a ser sagrada, e as cópias seguem valendo mais que o original. Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto: o rebelde imprescindível.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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brasil

Mídia tenta impedir pautas progressistas; e consegue ELEIÇÕES Dilma Rousseff retira de seu programa temas como a taxação de grandes fortunas após grita da imprensa corporativa Lalo de Almeida/Folhapress

Renato Godoy de Toledo da Redação AO ENTREGAR o seu programa de governo ao Tribunal Superior Eleitoral, o Partido dos Trabalhadores obedeceu às diretrizes de seus fóruns, sobretudo o seu último congresso, e incluiu no documento a taxação de grandes fortunas e o controle social dos meios de comunicação. As medidas logo foram taxadas como radicais e oriundas de setores “incendiários” do governo – expressão cunhada pela revista Veja. O controle social da mídia mais uma vez foi confundindo com censura e atribuído a um ranço stalinista do governo e da candidata petista. Em uma estratégia de não confrontamento com a mídia, a direção da candidatura Dilma Rousseff retirou os pontos considerados polêmicos do programa. Outros pontos, como a descriminalização do aborto e a união civil homoafetiva, defendidas pelo partido em congresso, não constam em nenhuma das versões do programa. A tentativa de amedrontar o eleitorado apontando o radicalismo de Dilma não surtiu efeito, e a candidata disparou nas pesquisas. Agora, com chances de vencer no primeiro turno, os ataques devem se concentrar no passado da exministra como guerrilheira durante a ditadura.

Os candidatos José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva durante debate da TV Bandeirantes

“Chamar de radical a questão do controle social dos meios de comunicação é forçar a barra. Chamar de medida radical o imposto sobre grandes fortunas é hipocrisia”

Radical?

Mas o fato é que a retirada de temas um pouco mais progressistas do programa petista tornou o debate entre os candidatos mais bem pontuados nas pesquisas monótono e quase consensual. Serra tenta passar a imagem de candidato da “continuidade com melhorias”, Marina diz que aproveitará o legado do PT e PSDB, e Dilma basicamente propagandeia os feitos da gestão Lula. As críticas ao processo eleitoral ficaram por conta de Plinio Arruda Sampaio (Psol) – que arrancou um bom espaço na mídia – e candidatos de esquerda como Ivan Pinheiro (PCB) e José Maria de Almeida (PSTU). Para o cientista político José Antonio Moroni, do Insti-

tuto Nacional de Estudos Socieconômicos (Inesc), as medidas que saíram do programa de Dilma não podem sequer ser consideradas radicais. “Nenhuma das medidas retiradas afetavam a questão central do capitalismo, que é a propriedade privada e o lucro, e apenas colocavam uma certa ‘civilidade’ no capitalismo brasileiro. Chamar de radical a questão do controle social dos meios de comunicação é forçar a barra. Chamar de medida radical o imposto sobre grandes fortunas é hipocrisia”, explica. Francisco Fonseca, cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda que

tais bandeiras não são radicais, mas são avançadas dentro da atual conjuntura brasileira. “No contexto conservador, essas medidas fogem do padrão. Nesse sentido, são radicais. Agora, me parece que ela retirou muito mais em razão das grandes alianças do que propriamente por uma opção dela ou de setores mais progressistas. Um eventual governo Dilma, assim como a gestão Lula, é um governo de coalizão e precisa de um programa mais morno e menos polêmico. Uma questão é o programa; outra, são as alianças”, analisa. Fonseca cita como exemplo o tema da redução da jor-

Limite de propriedade rural seria, de fato, radical Cientista político também aponta proibição de terceirizações como medida impactante da Redação Ao contrário da taxação de grandes fortunas e do controle social da mídia, a limitação da propriedade rural seria uma medida realmente radical nas atuais condições brasileiras. O assunto será debatido na Semana da Pátria e será tema de um plebiscito popular realizado por movimentos e pastorais sociais. Além dessa medida, especialistas apontam que uma maior incidência do Estado sobre o sistema financeiro representaria uma radicalidade diante do atual quadro. “Acho que medidas radicais no atual estágio do capitalismo brasileiro seriam: controlar a remessa de lucros e outros dividendos para o exterior; limitar a propriedade da terra, tanto urbana como rural (reforma agrária e urbana radical); taxar a entrada

de capitais estrangeiros; limitar os lucros do sistema financeiro; enfrentar a concentração de propriedade nos meios de comunicação;

“Enfrentar a obsolescência programada dos produtos – isto é, os produtos saem da fábrica com prazo para quebrar – é uma medida radical na lógica do capitalismo”

e criar um sistema político onde o centro do exercício do poder esteja na soberania popular e nos mecanismos de democracia direta. Essas medidas que chamo de ‘radicais’ são todas medidas capitalistas, mas que de certa forma podem provocar mudanças na correlação de forças presente na sociedade”, enumera José Antonio Moroni, do Inesc. Francisco Fonseca, cientista político da FGV, aponta duas outras medidas pouco lembradas pela esquerda brasileira. “Enfrentar a obsolescência programada dos produtos – isto é, os produtos saem da fábrica com prazo para quebrar – é uma medida radical na lógica do capitalismo. Uma outra ideia seria a proibição de processos de terceirização, de reengenharia, porque reduziria esse amplo controle que o capital tem sobre o trabalho”, sugere. (RGT)

nada de trabalho para 40 horas semanais – do qual Dilma tem se esquivado, apesar de haver apoio dentro do governo. “A redução da jornada faz parte da história do capitalismo. Nesse sentido, o Brasil está muito atrasado por não aprovar as 40 horas. Na França, por exemplo, a hora extra é proibida e se trabalha cerca de 35 horas semanais. Isso seria uma medida normal, mas aqui é estigmatizada pelo reacionarismo e pela desigualdade da distribuição de poder que existe no país”, pontua. Repulsa à polêmica

Para os especialistas, o fato de a campanha ter se tornado cada vez mais midiática tem determinado uma equalização das candidaturas com mais exposição na mídia. José Antonio Moroni aponta que o que menos se tem discutido nas últimas eleições é política. “Os processos eleitorais são teleguiados por estratégias midiáticas. Neste sentido, o que menos se discute nes-

ses processos é política. Tudo se resume a quem consegue dizer mais coisas, ocupando mais tempo na mídia, sem dizer nada. Assim, são discursos que agradam ao senso comum, isto é, agradam grupos com interesses antagônicos. São discursos vazios de sentidos e significados. Dizer que a educação é prioridade é senso comum, ninguém discorda. Mas que educação? Com qual proposta pedagógica? Com quais objetivos? A serviço de quem e do quê? E com quais recursos? Isso ninguém fala”, indaga. Fonseca aponta a massificação como forma de produção de uma imagem quase consensual dos candidatos, ainda que haja diferenças entre eles. “Há um pastiche na vida política brasileira. Vivemos em uma sociedade midiática, os políticos falam para os miseráveis e para os milionários. Para se falar a setores amplos não se pode criar zonas de atrito”, define. No entanto, ele reitera que assun-

tos polêmicos, como a aprovação da união civil de casais do mesmo sexo e a legalização do aborto, podem ocorrer em um governo, independentemente de constar ou não no programa. Ele cita o caso de dois países com tradições conservadoras, Espanha e Argentina, que aprovaram a união homoafetiva recentemente. Tríade

De acordo com Moroni, os candidatos favoritos têm respeitado uma tríade que é exaltada pela mídia como um preceito fundamental: a responsabilidade fiscal, o controle da inflação e o câmbio flutuante. “Essa tríade virou o dogma, como se o mundo não pudesse sobreviver sem isso. Acontece que esse receituário serve para manter as coisas como estão, e não para mudá-las. Como nenhuma das candidaturas carimbadas como viáveis se propõe a mudar, todas se igualam tanto no discurso como nas práticas políticas e nas suas alianças”, acredita.

Controle social da mídia não é censura prévia Para membro do Intervozes, a retirada do item do programa de Dilma reflete posição do governo sobre o tema da Redação A criação de mecanismos nos quais a população pode opinar e legislar sobre a programação das emissoras que recebem concessão pública foi aprovada pela primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), em 2009. A medida também foi defendida pelo Congresso do PT. Além disso, o mecanismo também foi incluído no 3º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3). No entanto, ele foi retirado do programa de governo da candidata Dilma Rousseff (PT). O controle social foi logo apontado como uma forma de censura prévia dos meios de comunicação, pelas entidades patronais e as concessionárias.

Porém, as emissoras de rádio e televisão são concessões públicas e devem cumprir preceitos constitucionais, tais como a “preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas e respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”. Para alcançar de fato essas metas, entidades da sociedade civil exigem que haja um canal de interlocução com o governo para discutir se esses itens vêm sendo respeitados.

“[O controle social] não tem nada a ver com censura porque ninguém está solicitando para ver o conteúdo antes dele ser veiculado” Para Bia Barbosa, do Coletivo Intervozes, a supressão do controle social do programa de governo de Dilma reflete uma postura recorrente do governo. “Na verdade, a re-

tirada desse item foi mais um passo comprovando a visão do governo sobre a temática do controle social. Desde a Confecom, quando os empresários colocaram um impedimento para o debate sobre o controle, o governo já cedeu. Depois, ocorreu o mesmo com o PNDH3. A grande mídia fez a mesma pressão, e o governo recuou também. Apesar de ser lamentável, essa postura não é nenhuma surpresa”. Bia considera falaciosa a versão de que o controle social geraria uma censura. “Os grandes meios têm conseguido formar a opinião pública para essa visão do que significa o controle social, e o governo tem cedido a essas pressões. [O controle social] não tem nada a ver com censura porque ninguém está solicitando para ver o conteúdo antes dele ser veiculado. Nós defendemos a liberdade. Mas, a partir do momento em que o conteúdo violar algum direito, precisa ter punição”, explica. Para ela, o passado recente da ditadura civil-militar, com a censura aos meios de comunicação, é um fantasma que atrapalha a atuação dos militantes pelo direito à comunicação. (RGT)


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brasil

“O Brasil se transformou no paraíso do grande capital” ENTREVISTA Para Ivan Pinheiro, os banqueiros e grandes capitalistas nunca ganharam tanto dinheiro como neste governo Vladimir Platonow/AB

Nilton Viana da Redação A POLÍTICA econômica do governo Lula é semelhante à de FHC. Assim, Ivan Pinheiro, candidato às eleições presidenciais de 2010 e atual secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), avalia o cenário econômico do país. Para ele, o governo federal realiza com maestria uma combinação eficiente de consenso e coerção, para garantir a reprodução do domínio da ordem burguesa. Nesta entrevista, Pinheiro afirma que o capitalismo não tem mais nada a oferecer para a humanidade. E discorda das propostas de setores reformistas visando tornar o capitalismo mais humano e ético. “O capitalismo é desumano e antiético por sua própria natureza”, afirma. Para Pinheiro, é necessária uma revolução social para inverter a lógica das elites e construir um novo modelo de sociedade, que seja capaz de acabar com a fome, a miséria, o analfabetismo, que garanta salário, emprego e moradia digna para todos, educação e saúde gratuitas e de qualidade, de forma a construir uma nação próspera, democrática e socialista. E alerta: caso a crise se aprofunde nos países centrais, o Brasil também será afetado. Nesse sentido, segundo ele, resta ao movimento sindical e aos movimentos sociais organizarem a resistência para evitar corte de direitos e salários e avançar para outro modelo de sociabilidade. Brasil de Fato – Há hoje na sociedade uma relativa sensação de que a economia brasileira está bem estabilizada. Você concorda com esse sentimento?

Ivan Pinheiro – A economia brasileira se recuperou de maneira mais rápida que as economias dos países centrais, mas o modelo econômico, na sua essência, incorpora os mesmos valores neoliberais do período anterior, agora reciclados, como o fortalecimento dos grandes grupos monopolistas industriais e financeiros. A política econômica do governo Lula é semelhante à de FHC [Fernando Henrique Cardoso], adaptada ao atual quadro internacional, em que a unipolaridade da década de 1990 deu lugar a uma tendência de multipolaridade no campo do capital. O governo Lula realiza com maestria uma combinação eficiente de consenso e coerção, para garantir a reprodução do domínio da ordem burguesa. Usa a cooptação dos movimentos sociais para mantê-los nos limites da ordem do capital, estimula ações permanentes no interior das empresas para a colaboração de classe, como participação nos lucros e resultados das empresas, bancos de hora... Há hoje uma grave crise que atinge principalmente os países da União Europeia. Essa crise pode atingir o Brasil? E quais as consequências de uma crise como esta para o povo brasileiro?

O Brasil não está imune à crise econômica mundial, pois é parte integrante do sistema capitalista que orbita em torno da economia líder, os EUA. Em 2008, a crise atingiu de maneira forte as bolsas de valores brasileiras, o setor exportador, várias empresas que estavam expostas no mercado de derivativos, e a consequência foi a demissão em massa de trabalhadores e a retração do PIB para próximo de zero. Portanto, caso a crise se

sua influência junto aos trabalhadores em várias partes do mundo. No Brasil, a esquerda está muito fragmentada, em função da crise do PT, do neoliberalismo e da reestruturação produtiva. Esses fenômenos atingiram em cheio a militância. Mas há espaço para a construção de uma plataforma de esquerda, anticapitalista e anti-imperialista, que seja capaz de unir os partidos de esquerda e os movimentos sociais que não se renderam à ordem do capital. O Programa Democrático Popular construído pelo PT em 1986 ainda é atual?

Crianças na Favela do Mandela (RJ): é necessária uma revolução social para inverter a lógica das elites e construir um novo modelo de sociedade

aprofunde nos países centrais, o Brasil também será afetado. Resta ao movimento sindical e aos movimentos sociais organizarem a resistência para evitar corte de direitos e salários e avançar para outro modelo de sociabilidade.

“Mesmo os partidos que se formaram no avanço das lutas sociais do final dos anos de 1970 e início dos anos de1980, ao chegarem ao poder, se transformaram em partidos reformistas” Como você avalia o atual modelo de desenvolvimento adotado no Brasil?

O Brasil se transformou no paraíso do grande capital. Os banqueiros e grandes capitalistas nunca ganharam tanto dinheiro quanto neste governo. Enquanto privilegia o capital, o governo Lula deixa de realizar a reforma agrária, que tanto prometeu no período eleitoral; faz vista grossa diante da criminalização dos movimentos sociais e populares; reduz proporcionalmente as verbas para saúde e educação em relação aos juros; veta o fim do fator previdenciário; mantém os professores da rede pública mal remunerados; e nada faz para conseguir a redução da jornada de trabalho, sem redução salarial. Tudo isso para não contrariar o consenso burguês. E o que você pensa sobre o atual cenário da América Latina?

Existe um processo rico e fecundo de lutas sociais na América Latina, especialmente na Venezuela e Bolívia, onde os povos desenvolvem uma intensa batalha pelas transformações sociais e contestam abertamente a hegemonia imperialista. Aliado à resistência heroica de Cuba, cujo exemplo é motivo de orgulho para todos os revolucionários, à insurgência armada na Colômbia e aos movimentos de massas em vários países, podemos dizer que a nossa América Latina está em

movimento. Por isso, o imperialismo afia as garras para manter essa ordem envelhecida e desumana. Cria bases militares em vários países para cercar os governos progressistas da região, promove o golpe militar em Honduras, continua o embargo criminoso contra Cuba e reativa a 4a Frota para ter o poder de intervenção rápida e tentar garantir o controle sobre as riquezas naturais latino-americanas, como o pré-sal, o Aquífero Guarani e a biodiversidade da Amazônia. Como você avalia a esquerda brasileira hoje?

No geral, a esquerda brasileira apoia os processos que se desenvolvem na América Latina, mas algumas organizações preferem não explicitar abertamente suas posições por oportunismo, para não perder voto, não ficar mal com a grande mídia e a classe média alienada. E também para não ficar mal com o governo Lula, como no caso da necessária luta pela retirada das tropas brasileiras do Haiti. Outras, apesar das proclamações revolucionárias, funcionam como a mão esquerda do imperialismo na região. Nesta questão, somos praticamente o único partido com registro que exerce um internacionalismo sem meias palavras, sem rabo preso com ninguém. Nós defendemos incondicionalmente Cuba; defendemos os governos progressistas da região, como os da Venezuela e Bolívia; e defendemos que o povo latino-americano se organize para derrotar o imperialismo e construir uma nova sociabilidade na região.

A esquerda brasileira tem o conhecimento verdadeiro da realidade social do país?

A esquerda, no geral, procura compreender a realidade do país, pois este é o teatro de operações onde atua. No entanto, grande parte da esquerda ainda é muito esquemática, superficial na análise. Mesmo assim é quem melhor procura entender os problemas sociais do país. O PCB realizou, nos últimos 18 anos de reconstrução revolucionária, uma criteriosa análise da realidade brasileira, cuja síntese está contida nas resoluções do 14º Congresso, realizado no ano passado. Consideramos esse trabalho um aporte valioso para quem quer entender o Brasil e buscar as transformações sociais.

Na sua opinião, quais os elementos fundamentais hoje para o processo revolucionário conducente à superação do capitalismo? Isso é possível no atual cenário?

Nós achamos que, mais do que nunca, a questão do socialismo está na ordem do dia. O capitalismo não tem mais nada a oferecer para a humanidade. Pelo contrário, seu crescimento representa uma ameaça à continuidade da espécie humana. É um sistema que se esgotou historicamente. Portanto, a solução para os problemas da humanidade está exatamente na revolução socialista. Muito embora as massas ainda não tenham despertado para essa necessidade, em algum momento não muito distante os trabalhadores irão se colocar novamente como atores principais do processo político mundial, possivelmente em resistência à própria crise mundial em curso. No Brasil, o PCB está propondo uma frente anticapitalista e anti-imperialista permanente, para realizar as transformações sociais. Achamos incorretas as propostas de setores reformistas visando tornar o capitalismo mais humano e ético. O capitalismo é desumano e antiético por sua própria natureza. Por isso, estamos propondo transformações profundas e radicais das estruturas sociais, da produção e distribuição dos bens e serviços, da organização do Estado, da propriedade, das grandes empresas industriais e financeiras. Estamos propondo soluções definitivas para a libertação dos trabalhadores da opressão.

Quais são, para você, os principais problemas do povo brasileiro e quais os desafios colocados para a esquerda brasileira atualmente?

Não se pode conceber um país como o Brasil, com terra e água em abundância, sol o ano inteiro, recursos naturais suficientes para satisfazer as necessidades da produção, uma mão de obra jovem e disposta ao trabalho, com a maioria da população vivendo na pobreza e na miséria. Essa situação é fruto da ação da elite bárbara que governa nosso país há séculos. Portanto, é necessária uma revolução social para inverter a lógica das elites e construir um novo modelo de sociedade, que seja capaz de acabar com a fome, a miséria, o analfabetismo, que garanta salário, emprego e moradia digna para todos,

educação e saúde gratuitas e de qualidade, de forma a construir uma nação próspera, democrática e socialista. Os instrumentos políticos da esquerda, principalmente os partidos políticos, ao seu ver têm sido capazes de fazer frente à atual realidade brasileira?

Uma das principiais características da política das elites brasileiras é a exclusão dos trabalhadores e, especialmente, dos seus partidos políticos, das decisões econômicas e políticas. Para se ter uma ideia, de 1922 até 1986, quando o PCB se tornou legal, nós só tivemos dois anos de legalidade, os outros 64 anos o partido viveu na clandestinidade. Se aliarmos isso ao atual controle dos meios de comunicação, ao massacre ideológico da população, à repressão aos movimentos sociais, à discriminação nos noticiários dos meios de comunicação, poderemos entender as dificuldades de atuação dos partidos de esquerda no Brasil. No entanto, mesmo os partidos que se formaram no avanço das lutas sociais do final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, ao chegarem ao poder, se transformaram em partidos reformistas. Mesmo assim, nós achamos que o partido político é o principal instrumental para a realização das transformações no Brasil.

“Somos praticamente o único partido com registro que exerce um internacionalismo sem meias palavras, sem rabo preso com ninguém” A esquerda, na sua avaliação, vive um momento de crise?

A esquerda mundial sofreu um duro golpe com a queda da União Soviética e até hoje não se recuperou completamente. Mas os partidos que não aderiram ao reformismo, que mantiveram e desenvolveram a linha revolucionária, estão crescendo e aumentando a

O programa do PT nunca se transformou em programa de governo. O programa que foi implementado foi a Carta aos Brasileiros (na realidade uma carta aos banqueiros), apimentada com aportes do que há de mais conservador no país. Mesmo assim, nós entendemos que esse programa de 1986 faz parte da história. É necessário outro programa que busque a transição para a sociedade socialista. Não se pode fazer remendo novo em pano velho.

E o que pensa sobre o cenário eleitoral deste ano?

A disputa entre os dois blocos nestas eleições brasileiras (Serra e Dilma, com Marina fazendo o papel de linha auxiliar) é superficial, pois não coloca em jogo a natureza do Estado brasileiro, vinculado aos interesses do grande capital financeiro e industrial. O PCB rejeita a falsa polarização que os meios de comunicação tentam impor ao nosso povo. Eles querem transformar essas eleições em mera escolha de quem será o melhor gerente para o capitalismo brasileiro. Essa falsa polarização é mais uma manipulação da mídia para afastar a população de uma alternativa popular para o Brasil. Com esses métodos espúrios, a grande mídia procura confundir, desorientar e manipular a população no sentido de passar a ideia de que não há alternativa à polarização do bloco dominante.

Como você vê a atuação dos movimentos sociais no Brasil?

Os movimentos sociais, especialmente o MST e parte do sindicalismo, cumpriram um papel importante na resistência ao neoliberalismo, mas com o refluxo dos últimos anos perdeu parte do protagonismo que obteve nos tempos mais duros do governo FHC. Nós achamos que, com o avanço das lutas sociais que virão, os movimentos sociais voltarão a ter um papel fundamental no processo de transformações sociais em nosso país. Arquivo pessoal

Quem é Ivan Pinheiro é secretáriogeral do Partido Comunista Brasileiro (PCB). É formado em Direito pela UERJ. Começou a ter contato com o Partido Comunista Brasileiro na década de 1970, na clandestinidade. Atuou como presidente do sindicato dos bancários do Rio de Janeiro, foi candidato a vereador em 2000, a deputado federal em 2006 e disputa a presidência da República nas eleições deste ano.


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Varrendo os pobres para longe RIO DE JANEIRO Em Madureira, comunidade com 833 famílias está sendo removida para a construção de um parque Eduardo Sá

Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) ALGUMAS GESTÕES ficam especialmente marcadas por grandes símbolos. A época de Pereira Passos como interventor do Distrito Federal (19021906), na primeira década do século 20, tomou a imagem da reconfiguração urbana nos moldes da Belle Époque – período do popular “Bota-abaixo”. A gestão de Carlos Lacerda como governador da Guanabara (1960-1965) foi marcada pelas obras para a classe média, pelas remoções e pelo “sumiço” com os pobres. É provável que o prefeito Eduardo Paes (PMDB), que hoje ocupa posto equivalente ao de Passos e Lacerda, seja lembrado por um elemento principal: as remoções. Por óbvio, ele será para alguns o prefeito do choque de ordem e das Olimpíadas. Para muitos pobres, será o que lhes tirou a casa. Em Madureira, repetindo o acorde que ecoa pela cidade, uma nova comunidade está ameaçada de desapropriação. Trata-se de Vila das Torres, composta por 833 famílias. Foi anunciada para a região a construção do que virá a ser a terceira maior área de lazer do Rio de Janeiro, o Parque de Madureira, de 113 milhões de metros quadrados. A comunidade recebeu o projeto com entusiasmo, principalmente após a promessa do prefeito – em dezembro, Paes disse, ao apresentar o projeto aos moradores, que eles podiam “dormir tranquilos, porque ninguém vai sair de Madureira”. A comunidade tem as declarações gravadas em DVD. Por ironia, no Dia do Trabalhador, em 1º de maio, alguns moradores surpreenderam-se com um convite da prefeitura para uma conversa. No final do mesmo mês já havia moradores desabrigados. O projeto da Secretaria Municipal de Urbanismo é sedutor. Serão instaladas fontes, ciclovias e pistas. E construídas quadras, biblioteca e anfiteatro. O parque será menor apenas que o Aterro do Flamengo, na zona sul, e a Quinta da Boa Vista, na norte. A prefeitura afirma que haverá, com o projeto, uma redução da temperatura da região de 5 ºC, devido à vegetação. Entretanto, o custo social diante dos supostos benefícios tem sido escondido. Além das remoções, uma horta que emprega dezenas de agricultores será inutilizada com as obras. O lavrador Egídio do Carmo afirma que muitos, como ele, “trabalham desde criança na região”.

“Eles fotografaram e mediram as casas, muitas vezes sem a presença dos moradores. Quando vão indenizar, não respeitam os valores das medidas” Na horta, são plantadas verduras e ervas medicinais. Toda a produção é composta de orgânicos. Boa parte é vendida no próprio Mercadão de Madureira. O poder público afirma que está discutindo uma solução para os agricultores, e que a anunciará em momento oportuno. Em matéria no jornal O Dia, o prefeito afirmou que a horta seria um “lixão ambulante”. Os impactos da destruição das plantações não são grandes apenas do ponto de vista econômico. As ervas me-

Além das remoções, construção de parque destruirá horta que emprega dezenas de agricultores

dicinais produzidas são oferecidas aos res da comunidade mente, em caso de dade emergencial.

na horta moradogratuitaenfermi-

A Defensoria Pública deu uma orientação aos moradores de que qualquer negociação deve ser feita coletivamente Ameaças Segundo os moradores de Vila das Torres, a prefeitura tem convencido muitos a sair através de ameaças. Oferecem indenizações que estariam variando de R$ 8 mil a R$ 70 mil, ou uma casa em região afastada de Campo Grande, na zona oeste. As

ameaças seriam feitas de duas maneiras: sugerindo que os moradores podem ser removidos sem receber indenização ou que o ressarcimento vai piorar se houver demora na negociação. A comunidade tenta resistir, com pouco sucesso. “Cada ação nossa gera uma reação deles. É como se estivéssemos no tempo dos coronéis”, afirma Eraldo de Oliveira Rosa, presidente da Associação de Moradores de Vila das Torres. Orientados pela Defensoria Pública do estado do Rio de Janeiro, os moradores têm se reunido semanalmente. Documentam em ata cada discussão. Segundo Eraldo, a maneira como a indenização das famílias removidas tem sido feita é “muito esquisita”. Não há clareza quanto aos critérios adotados para a precificação. Mal informados, os moradores estariam assinando todo tipo de papel, muitas vezes sem ler o conteúdo. “Parte das casas tem valor muito baixo perante outras, sem explicação. Eles fotografaram e mediram as ca-

sas, muitas vezes sem a presença dos moradores. Quando vão indenizar, não respeitam os valores das medidas”, diz.

“Cada ação nossa gera uma reação deles. É como se estivéssemos no tempo dos coronéis” Eraldo diz que as casas de Campo Grande têm bom estado. Entretanto, se o bairro já é afastado, a região onde estão as casas é ainda mais. A Associação de Moradores fez testes do tempo de viagem, de ônibus, de alguém que more lá e trabalhe em Madureira. Esse eventual trabalhador perderia três horas diárias. Se trabalhasse no Centro, gastaria cinco horas dentro da condução. Até agora,

já foram oferecidas indenizações a 130 famílias. Há os que afirmam, na prefeitura, que a comunidade estaria localizada em área de risco. A entrega do Parque está prevista para o ano que vem. “Eles disseram que até dezembro temos que sair todos. Mas não nos dão opções de melhorias nas negociações”, afirma Fábio de Lima, morador da vila. Promessas No 1º de maio, quando anunciou as remoções, a prefeitura assumiu o compromisso de pagar o aluguel social e as moradias 40% acima do valor. Cinco dias depois a proposta do aluguel foi suspensa. Em seguida, surgiram os 290 apartamentos em Realengo, oferecidos a algumas famílias de forma a pressionar pela saída. Foram priorizadas as pessoas que tinham residências maiores. Segundo os moradores, após a retirada de uma família, suas casas são destruídas sem que os entulhos sejam removidos. Há relatos de que, uma vez negociada a retirada, as fa-

mílias são forçadas a sair pela polícia. Apesar de não haver tráfico de drogas em Vila das Torres, a prefeitura alega que os funcionários teriam sido ameaçados, por isso a necessidade de policiamento. Na comunidade, há denúncia de maus tratos por parte de policiais. Forasteiros estão entrando na área para roubar parte do entulho das casas derrubadas. A Defensoria Pública deu uma orientação aos moradores de que qualquer negociação deve ser feita coletivamente. Dona do terreno, a Light já começou as obras para otimizar o fornecimento de energia. A concessionária está cedendo o terreno à prefeitura, ficando encarregada de parte bastante rentável das obras. Pela previsão, as torres da Light serão realocadas. Todas as casas da comunidade já estão marcadas para demolição. No dia 16, o jornal O Globo publicou editorial em que celebra o fim do “tabu da remoção”. Procurada, a Secretaria de Habitação não atendeu à reportagem.

Plantando problemas

O pior está por vir

A grande horta inviabilizada pelo Parque de Madureira gera emprego, renda, alimento e remédio para a região

Morar Carioca pretende ser uma versão melhorada do Favela Bairro

do Rio de Janeiro É difícil precisar quantas pessoas trabalham na horta que será destruída na região, chamada por Eduardo Paes de “lixão ambulante” – talvez por não saber que as hortas não andam. Enorme, a plantação vai de Cascadura à Pavuna. Estimase que possua entre 1.200 e 1.600 ervas medicinais. Quase todos os chacreiros e funcionários moram em Vila das Torres. Cada horta tem cerca de oito funcionários. Quase toda a área do Parque ficaria dentro da plantação – e ainda restaria parte da horta fora, pelo projeto. A maioria dos agricultores tem pouco estudo e não teriam condição de trabalhar em outro setor se perderem sua atividade de sustento. Em geral, trabalham na agricultura desde a infância.

A maior parte da produção é destinada ao Mercadão de Madureira (grande feira popular), mas também é fornecida para outros bairros, incluindo os mais nobres da cidade.

A maioria das crianças das quase 300 famílias que já foram para os apartamentos de Realengo está sem escola Alguns moradores de Vila das Torres já tentam a articulação com as outras comunidades ameaçadas de remoção. Observa-se na região que os agricultores, entretanto, têm menor moti-

vação e senso de cidadania para a construção de resistência. Existe a preocupação de que venham a ser os mais lesados pelas medidas, devido à menor propensão ao enfrentamento. Os principais líderes reivindicam o cumprimento da Lei Orgânica 429, que lhes garante a não remoção. Mas admitem ser realocados, desde que para uma localidade próxima, de valor igual ou maior do que a casa original, conforme determina a lei. Segundo eles, a maioria das crianças das quase 300 famílias que já foram para os apartamentos de Realengo está sem escola. Os realocados relatam que levaram, por vezes, dois meses para receber. Entretanto, assim que recebe a indenização, a família tem dez dias para sair. São frequentes os relatos de que a documentação de compra sequer tem o carimbo da prefeitura. (LU)

do Rio de Janeiro (RJ) Há pouco menos de um mês, a prefeitura do Rio de Janeiro lançou um novo programa de urbanização de favelas. O Morar Carioca foi interpretado como a continuação do Favela Bairro, projeto tido como referência pelas Nações Unidas que estava para entrar em sua terceira fase. Pelo novo projeto, entretanto, estão previstas, ao todo, remoções de 123 comunidades, até 2012. O custo total será de R$ 8 milhões, até 2020. A prefeitura afirma que a proposta está sendo elaborada de maneira que tenha continuidade nas gestões futuras, indepen-

dentemente do prefeito. Diz, ainda, que este já seria parte do “legado social” dos Jogos Olímpicos de 2016. As favelas do Rio de Janeiro estão sendo recontadas e terão, todas, gabarito fixado e limites demarcados. Serão alvo de choque de ordem permanente e ininterrupto. As comunidades que estiverem em supostas áreas de risco seriam removidas. Ao todo, cerca de 13 mil famílias vivem nessas regiões, sendo que quase 5 mil já foram realocadas. As 13 favelas cuja remoção foi anunciada como prioridade no primeiro semestre, entretanto, pouca alteração sofreram. Os moradores retirados das 416 casas da Favela Serra do Sol, em Santa Cruz, estão em abrigos provisórios. A prefeitura afirma que as chuvas de 6 de abril a obrigaram a refazer o planejamento das remoções. Após a implementação do programa, a Secretaria de Conservação ficaria responsável pela manutenção dos equipamentos públicos que venham a ser construídos. (LU)


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Sindicato amplia campanha para salvar a TV Cultura Jair Bertolucci/TV Cultura

COMUNICAÇÃO Jornalistas se mobilizam para frear planos do governo paulista de precarizar emissora pública Fábio Rogério Ramalho de São Paulo (SP) NO DIA 12, foi realizada no Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo (SJSP) uma reunião com jornalistas, radialistas, artistas e telespectadores para decidir e discutir a real situação da TV Cultura e os rumos para a adesão e o fortalecimento social do Movimento Salve a Rádio e TV Cultura. Durante o encontro, o presidente do SJSP, José Augusto Camargo (Guto), informou que o sindicato havia feito uma reunião com o atual presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad, que não desmentiu nem confirmou os boatos de demissão em massa na emissora, mas afirmou que reconhece a dívida de cerca de R$ 200 milhões, e que os contratos das TVs Assembleia e Justiça, que terminam no final deste ano, não serão renovados. Com isso, aproximadamente 450 funcionários perderão seus empregos. É fato que a TV Cultura não aproveitará esses trabalhadores, mas, para Sayad, essa mão de obra deverá ser absorvida pela fundação que assumir a produção dos canais. O SJSP exigiu da direção da fundação sua participação em todo o processo de transição para que os trabalhadores não sejam prejudicados. “Entendemos que os

cebe verba pública do governo do estado de São Paulo e de entidades privadas por meio de anúncios publicitários ou doações. João Sayad, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), assumiu a presidência da emissora em junho, quando recebeu a missão de “equilibrar” as contas da emissora, que estão negativas.

Sayad pretenderia transformar a emissora numa retransmissora (coprodutora) de conteúdo, deixando de produzir programas próprios

O atual presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad

funcionários não podem ser demitidos nestes meses em decorrência do período eleitoral. Afinal, a TV Cultura recebe recursos públicos e precisa seguir a regra geral”, afirma Guto. A TV Cultura é a rede pública paulista e, ao longo dos últimos 16 anos, período em que a política neoliberal do PSDB/DEM “administra” a cidade de São Paulo, a emis-

sora, mesmo custeada com verba pública, atravessa constantes problemas financeiros, resultado de recorrentes erros administrativos. Contexto Fundada em 1969, a TV Cultura é uma emissora que tem como linha a programação educativa e cultural. Ela é mantida pela Fundação Padre Anchieta, entidade que re-

Correm rumores de que, para isso, Sayad pretenderia transformar a emissora numa retransmissora (coprodutora) de conteúdo, deixando de produzir programas próprios para, somente, comprar conteúdo de produtoras independentes ou do mercado internacional (BBC, Discovery, entre outros). Medidas que obtiveram o aval do ex-governador José Serra e do atual, Alberto Goldman. Para que essas medidas aconteçam, será preciso que a TV Cultura faça uma demissão em massa, aproximadamente 80% dos atuais 1.800 funcionários. Cogita-se também a venda de patrimônios, como estúdios e os edifícios localizados no bairro da Água Branca, em São Paulo. (Portal CTB)

Confira a seguir o manifesto pela criação do Movimento Salve a Rádio e TV Cultura, redigido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo Curador que, por única razão de existir, é o representante da sociedade civil na fundação. E a vontade da sociedade civil precisa ser consultada. A TV Cultura tem problemas e eles resultam de acúmulos de erros administrativos e de um modelo de gestão vazio e descontinuado, fruto do cíclico apoderamento político da emissora nos últimos 20 anos. Não foi o “conteúdo” da programação da emissora o causador desses problemas. Mas a má gestão contábil, que precisa ser corrigida dentro de seus limites, sem prejuízo do caráter educativo, social e cultural da TV pública paulista, de seu funcionamento, de seu passado de realizações, de seu significado na memória paulista. Não basta a atual administração fazer o uso repetitivo da reafirmação desse caráter. Qualquer projeto novo deve explicitar compromisso claro com a missão, vocação e aptidão da emissora para a formação de cidadãos, para a oferta de conteúdos que se contraponham à programação homogeneizada das emissoras comerciais, atreladas às regras do mercado. Só uma TV pública é capaz de tratar o telespectador como cidadão, e não como consumidor. Preceito que ainda não foi compreendido e assimilado pela nova administração da Fundação Padre Anchieta. Como é possível imaginar uma TV Cultura reduzida a uma “administradora de terceirizados”, trocando sua produção própria, trocando sua capacidade específica de formular programação de TV pública por conteúdos de produtoras independentes que em geral buscam nas regras do mercado a qualificação para a venda

Presente público

Depois que ficaram de fora do consórcio que ganhou a concessão da hidrelétrica de Belo Monte, as três maiores empreiteiras do Brasil – Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Odebrecht – devem receber de presente a construção da usina no rio Xingu, algo na bagatela dos R$ 30 bilhões. Para assegurar que todo o negócio fique resolvido antes das eleições, o governo marcou a assinatura do contrato de concessão para o dia 26 de agosto.

Ação criminosa

Há alguns anos, a transnacional Monsanto estimulou o contrabando de sementes transgênicas de soja para estender os seus tentáculos no Brasil. Jamais foi punida pelos crimes praticados. Agora anuncia que o Brasil já é o seu segundo mercado no mundo, conquistado na base do assédio e da pressão sobre os agricultores – para lucrar com sementes transgênicas e toneladas de agrotóxicos altamente venenosos. Até quando?

Dano certo

Uma crise institucional Há duas décadas sob crises financeiras periódicas, que variam de duração e intensidade conforme a “vontade” do governo estadual de liberar recursos, a TV Cultura vive agora sua primeira crise institucional e de identidade em 40 anos de funcionamento. Efeito dos dois primeiros meses da errática administração do economista João Sayad na presidência da Fundação Padre Anchieta. Conduzido ao cargo por um processo político constrangedor, com apoio governamental que atropelou o acordo de reeleição do presidente anterior, João Sayad não só protagonizou método intervencionista novo na história da troca de comando na Fundação Padre Anchieta como também se apresentou como o encarregado de um projeto casuístico destinado a resolver os problemas financeiros da entidade através da amputação orgânica da instituição. Plantou com isso a raiz de uma crise que assume contorno institucional, uma vez que a proposta confunde e busca mudar a natureza da instituição, cria uma dúvida de identidade que nunca houve e coloca em risco o patrimônio material e imaterial da emissora, ao desconsiderar os fundamentos que deram origem e vida à TV Cultura. É preciso lembrar, em voz alta, que a TV Cultura não é um órgão público da administração direta do governo do Estado de São Paulo. Não é autarquia. Não é secretaria estadual. Não pode nem deve responder a regras do poder. Não pertence ao governo. Pertence ao público de São Paulo, posto que é emissora pública, de interesse público. Não pode ser desfeita, não pode ser adulterada por simples vontade ou “implicância” de sua diretoria executiva. Tem estrutura jurídica específica, é supervisionada por um Conselho

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Comemorado em reportagem do jornal Valor Econômico, o avanço do milho transgênico já ocupa – na safra de 2010-2011 – mais de 55% de toda a área plantada, bem mais do que os 32% de área da safra anterior. Patenteado por empresas químicas estrangeiras, o milho transgênico está sendo usado tanto na alimentação de animais quanto no consumo humano, inclusive em alimentos infantis. Os danos à saúde são imprevisíveis!

Ação familiar

Mais uma vez o jornal O Estado de S. Paulo abre baterias contra a família Sarney: agora pegou no pé da governadora Roseana (PMDB-MA), acusada de ter simulado um empréstimo de R$ 4,5 milhões, no falido Banco Santos, para resgatar dinheiro de origem desconhecida depositado ilegalmente no exterior. Antes o Estadão já havia denunciado depósitos ilegais de Fernando Sarney, outro filho do senador José Sarney. O clã continua ativo!

Descaso total

O Conselho Tutelar do Grajaú, bairro popular de São Paulo, entrou com processo no Ministério Público contra a Secretaria Municipal de Educação, que rompeu convênio com várias entidades e deixou 1.400 crianças fora da escola até o final do ano. Mais 5 mil crianças aguardam vagas em lista de espera. Muitas mães já perderam o emprego porque não têm onde deixar os filhos. É assim que a prefeitura trata o povo de São Paulo.

Marcou bobeira

Gama

de seus produtos? O desafio de João Sayad vai muito além da contabilidade. E muito além de sua visão pessoal e particular do que é “chato”, do que fica e do que deve sair da programação da Cultura. Não é agora, mas sempre, que uma emissora precisa se “renovar”. Se ela – no dizer de Sayad – “perdeu audiência, qualidade e se tornou cara e ineficiente”, qual é, explicitamente, a fórmula, o projeto que a atual administração tem para a TV Cultura “ganhar audiência, qualidade e se tornar barata e eficiente”? Quais programas – mais baratos e eficientes – se pretende oferecer a crianças, a jovens, a jovens adultos e ao respeitável público em geral? É entretenimento? É educação? É complementação cultural? Quais seriam esses conteúdos e seus formatos? Quem virá a público detalhar e esclarecer isso? O “Movimento Salve a Rádio e TV Cultura” não se ergue para defender o emprego dos funcionários da emissora, ameaçados de demissão em massa. Isso é tarefa sindical. A defesa que se embute aqui é a da missão e do legado da TV pública paulista, de seu significado sociocultural, de manutenção de

uma TV alternativa que reflita viés humanista de vida e de mundo em sua programação. O movimento surge como teia espontânea de uma rede social multiplicadora entre funcionários, ex-funcionários, telespectadores, artistas, intelectuais, setores ligados à produção de pensamento e de cultura. E que já articula com os Sindicatos dos Radialistas e Jornalistas de São Paulo, personalidades políticas e da vida cultural, institutos e entidades afins, a abertura de um debate público em defesa da ideia original da Instituição TV Cultura. A troca inicial e pública de reflexões sobre a TV pública paulista tem, como alvo principal, a cúpula administrativa da emissora e seu Conselho Curador, instância superior que deve proteger os destinos da emissora e que tem sido omissa nesse papel. A eles devem ser dirigidas, inicialmente – através do site da TV Cultura e seus contatos disponibilizados –, reflexões, críticas e propostas de retomada de princípios e rumos que administradores perdem de vista diante do recurso fácil do corte de custos e do desmanche. O movimento busca criar junto à sociedade civil as premissas que serão reunidas e organizadas para dar base a esse necessário debate público.

Nota da Petrobras assume o compromisso de colaborar com a Agência Nacional do Petróleo, que determinou a interdição da plataforma P-33, no litoral do Rio de Janeiro, onde foram encontrados “equipamentos críticos com planos de manutenção expirados, acidentes não comunicados, dentre outros problemas de integridade mecânica e elétrica”. Só será mesmo uma empresa exemplar quando respeitar seus trabalhadores!

Militarização

Organizado por dezenas de movimentos sociais latino-americanos, o Encontro Internacional de Mulheres e Povos das Américas Contra a Militarização, de 16 a 23 de agosto, na Colômbia, é a mais ampla e expressiva manifestação já realizada contra a cooperação militar daquele país com os Estados Unidos, sempre com o pretexto de combater o narcotráfico e o terrorismo. Que o novo governo colombiano ouça o clamor popular!

Desafio global

Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que no final de 2009 havia 81 milhões de jovens economicamente ativos – de 15 a 24 anos – desempregados no mundo. Segundo a OIT esse quadro tende a se agravar em 2010, especialmente nos países dominados pela pobreza, com graves consequências sociais e psicológicas para o futuro das novas gerações. Está aí um grande desafio para os governos eleitos em 3 de outubro.

Na luta

Os trabalhadores que constroem a termelétrica de Pecém, em São Gonçalo do Amarante, no Ceará, entraram em greve no dia 12, pela segunda vez este ano, porque as empreiteiras EDP (portuguesa) e a MPX, do empresário Eike Batista, não cumpriram o acordo firmado em abril, que previa o atendimento de várias reivindicações trabalhistas. O presidente do Sintepav, Raimundo Nonato Gomes, denuncia a exploração dos trabalhadores.


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brasil

“Manos e Minas” mobilizados por seu espaço na TV Cultura COMUNICAÇÃO Além de música hip hop, programa extinto por Sayad exibe matérias direcionadas à juventude das periferias Patrícia Benvenuti da Redação MÚSICOS, MCs, Rappers, B-Boys, grafiteiros e organizações sociais de todo o país estão mobilizados contra a extinção do único espaço da cultura hip hop na televisão brasileira. A decisão de retirar o programa “Manos e Minas”, que vai ao ar aos sábados pela TV Cultura, da grade de programação da emissora foi anunciada no dia 5 pelo presidente da Fundação Padre Anchieta, João Sayad. O programa existia há quase três anos e apresentava, além da música hip hop, matérias direcionadas à juventude das periferias, com temas como gravidez na adolescência, violência nas escolas, crescimento do consumo do crack e autoestima da população negra. Ao todo, foram 93 programas e 93 apresentações de diferentes artistas. Para o rapper Kamau, a extinção do “Manos e Minas” representa não apenas o fim de um programa, mas o fim de um espaço importante dedicado à cultura da periferia. “Eu me sentia representado e [o fim do programa] é uma pena muito grande para a cultura hip hop e da periferia”. Kamau lembra que o programa foi uma conquista do movimento hip hop, frequentemente estigmatizado, e sua retirada significa a perda para uma grande parcela da população que não se vê em outros meios. “Onde vamos ar-

Nina Fidelis

rumar outro espaço como este? Na TV aberta é muito difícil”, pontua. O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) também lamenta o fim da atração. Para ele, o programa representava um avanço para a televisão. “Se trata de um programa inovador, diferente e que teve repercussão positiva. É um dos poucos programas que dá visibilidade à cultura hip hop”, ressalta.

Mobilização

Reestruturação de peso

Os trabalhadores da emissora souberam da decisão de retirar o “Manos e Minas” do ar por meio de entrevistas de João Sayad a jornais e páginas da internet. Como justificativa para os funcionários, Sayad alegou que a iniciativa deveuse ao baixo ibope da atração e a “questões artísticas”, sem informar maiores detalhes. Os profissionais, no entanto, garantem que a audiência do programa não era inferior à média da TV Cultura. O novo plano de gestão de Sayad prevê também a contratação de nomes “de peso” para a emissora. O principal deles é o de Marília Gabriela, que, a partir do dia 30, comandará o programa “Roda Viva”. Marília foi convidada para substituir o apresentador Heródoto Barbeiro na semana em que o jornalista desagradou ao candidato à presidência José Serra (PSDB) com perguntas sobre o preço dos pedágios nas rodovias de São Paulo. A TV Cultura também passará a exibir filmes da Mostra Internacional de Cinema

timentos como um dos principais erros. “Se os equipamentos estão sucateados, os funcionários não têm culpa”, salienta.

O apresentador Thaíde durante gravação do programa “Manos e Minas”

de São Paulo e documentários do festival “É Tudo Verdade”. Já o dono da gravadora Trama, João Marcelo Bôscoli, ganhará um programa diário de variedades voltado para música que poderia vir a substituir o “Manos e Minas” sob o argumento de cobrir toda a diversidade da música popular brasileira. Em entrevista à Folha Online, João Sayad confirmou que a meta das reformulações é modernizar a emissora e conquistar mais “prestígio” e au-

diência. “Estamos recuperando o prestígio da TV Cultura com personalidades conhecidas, em nome do espectador”, disse. Inchaço

Em diversas declarações, Sayad tem disparado também contra o “inchaço” do quadro de funcionários. Até agora, no entanto, não foram confirmadas demissões. Uma funcionária da TV Cultura, que prefere não ser identificada, relata que existe, den-

tro da emissora, uma preocupação geral em relação ao futuro da TV, que deve ganhar contornos mais comerciais com o novo projeto. Ela lamenta também que a culpa por possíveis falhas recaia sobre os trabalhadores. “Estão apresentando a TV como inchada e ineficiente. É uma grande injustiça, lá dentro tem grandes profissionais”, afirma. Ela critica ainda a postura do Estado em relação à emissora e aponta a falta de inves-

Desde o anúncio da extinção do “Manos e Minas”, a página do programa na internet tem recebido manifestações de apoio de telespectadores de todo o Brasil, que lamentam o fim da atração. As manifestações se somam ao esforço de integrantes do movimento hip hop e de diversas organizações de todo país, que têm organizado uma campanha em favor do programa e da TV Cultura. Os participantes da campanha enviaram uma carta ao senador Eduardo Suplicy, que se comprometeu a entregála ao presidente da TV Cultura, João Sayad. No documento, eles criticam a retirada do programa do ar e defendem o programa como um espaço dedicado à cultura das periferias. Também estão sendo coletadas assinaturas para um abaixo-assinado. Para assinar, basta acessar o endereço http://www.ipetitions.com/ petition/mem/. Para o rapper Kamau, desistir do programa agora pode significar novas perdas depois. “Perder o ‘Manos e Minas’ agora significa que podemos perder algumas coisas depois. Se a gente mantiver o programa, será bom para todo mundo, não só para o movimento hip hop”, enfatiza.


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cultura

Um homem do cinema PENNA FILHO Em plena atividade aos 77 anos, cineasta segue lutando para fazer cinema independente no Brasil

Elaine Tavares A figura do diretor de cinema geralmente vem associada a alguém excêntrico, vaidoso ou temperamental. Penna Filho não tem nada a ver com esse estereótipo. Ele é tranquilo, doce e cheio de ternura. Aos 77 anos, está em plena atividade, lançando seu mais recente filme, Doce de coco, vencedor do Prêmio Cinemateca Catarinense e que cumpre uma linda jornada pelo interior desse estado, apesar de ser olimpicamente ignorado pela mídia comercial. Penna Filho vive em Florianópolis e, dia desses, esteve na Rádio Comunitária Campeche falando do seu filme e de sua trajetória de homem da palavra e da imagem. Penna Filho nasceu capixaba em março de 1936, mas se fez do mundo quando decidiu mudar para São Paulo em 1959, para fazer cumprir seu destino de “contador de histórias”. Ainda em Vitória, ele, quase um menino, iniciou sua carreira de locutor, ator, repórter, produtor e diretor artístico. O guri magrinho era um dínamo, e sua voz serena prenunciava a delicadeza das narrativas que ele construiria ao longo da vida. Na capital paulistana, ele dava os primeiros passos junto com a televisão, crescendo e aprendendo com esta nova forma de comunicação que iria revolucionar a vida humana. Seguia no rádio, mas a imagem já começava a mexer com sua cabeça criadora. O golpe militar o tira do circuito da rádio comercial, porque um texto seu sobre o fato, censurado na Rádio Bandeirante, o faz ser demitido. Impedido de dizer a palavra libertadora, ele mergulha no cinema. A tela grande o chama e ele passa a trabalhar como continuísta e assistente de direção em filmes de gente como Ody Fraga, Ary Fernandes, Milton Amaral, Carlos Coimbra e Mazzaropi, de quem guarda boas lembranças. Paralelo a isso, atua em dublagens de filmes para a televisão, como ator e diretor. No início dos anos de 1970, ele já era um dos profissionais mais incensados pelo povo do cinema e da televisão, onde voltou a atuar na área da propaganda. Primeiros longas Também no começo dos anos de 1970, chegava a hora de Penna Filho dirigir seu próprio filme, e foi quando nasceu Amores de um cafona, feito em parceira com Osires Figueroa. Mas o seu solo foi O diabo tem mil chifres, que a censura civil-militar considerou imoral e iconoclasta. Esse filme não pôde ser visto por ninguém até o final dos anos de 1970 e marcou a vida de Penna Filho como um período em que faltaram as possibilidades de trabalho. Por conta disso ele regressou à televisão para fazer reportagens, atuando em programas como oFantástico e Globo Repórter, na Globo. Em 1977, entra para a TV Cultura de São Paulo e ali consegue produzir documentários e programas que, inclusive, são premiados. Foi um tempo de muita criação, no qual também dirigiu alguns especiais. É só nos anos de 1990 que ele volta para os 35 milímetros, com o filme Naturezas mortas, também ganhador de vários prêmios. Em 2006, realiza um longa

Divulgação

sobre a vida do jogador de futebol Ademir da Guia, Um craque chamado Divino, e, em 2009, finaliza outro longa, o Doce de coco. Ditadura comercial Essa curta descrição da vida profissional de Penna Filho certamente não lhe faz justiça, mas já dá uma ideia do potencial criativo desse homem que segue enfrentando a máquina trituradora do circuito comercial de cinema, que conta hoje com apenas 2.200 salas em todo o país, menos da metade do número de municípios, embora o governo federal alegue que são mais de 6 mil. Isto já deixa claro o quanto o cinema está em baixa no país e o quanto não há incentivo para esse tipo de espaço cultural. No mais das vezes, as grandes cidades só têm salas nos centros comerciais e a mágica do cinema não existe mais. E, no interior, já se pode falar de uma geração que nunca viu um filme em tela grande. Além disso, as salas que existem são praticamente prisioneiras da indústria estadunidense, com mais de 2/3 delas nas mãos de duas ou três megaempresas, dificultando a caminhada de produções cinematográficas que não estejam vinculadas ao sistema. Não bastassem todas essas dificuldades, a Globo ainda abocanha grande parte das produções nacionais, sendo subsidiária de uma empresa estadunidense. Por isso abundam os filmes “engraçadinhos” com atores globais. Tudo faz parte do mesmo esquemão. “A gente observa que essas produções são feitas só para o povo rir. Eu não, quero fil-

Cena do filme Doce de coco, do cineasta Penna Filho

mar para o povo rir e refletir”, diz Penna Filho. Doce de coco Sua mais nova produção é assim. Doce de coco é um filme que conta da vida da gente brasileira, o povo simples que batalha para sobreviver, mas que também é engraçado, sonha e faz planos para sair do sufoco da vida massacrante. Trabalho difícil de realizar por conta dos poucos recursos e tudo o que envolve fazer cinema na “periferia” do país, como é o caso de Santa Catarina. Mas que, a despeito de tudo isso, o filme, rodado no Ribei-

rão da Ilha (patrimônio cultural de Florianópolis), se completou e seguiu seu caminho, sendo apresentado por todo o estado de Santa Catarina no projeto “Cinema para o povo sem tela”. Penna Filho acredita piamente que o audiovisual no Brasil poderia ser autossustentável, mas para isso haveria que ter uma política pública real, que garantisse igualdade de condições aos profissionais. Hoje, da forma como está colocada a Lei Rouanet, fica muito difícil. Os artistas precisam fazer romarias às empresas que, muitas

vezes, não têm interesse em realizar os trâmites. “Agora tem uma proposta de mudança aí, em que as empresas terão de dar em dinheiro vivo de 10% a 30% dos recursos. Pode ser que dê mais certo”. Fora os editais públicos ou os trâmites da Lei Rouanet, os cineastas independentes ficam em péssima situação. Aqueles que não se vendem ao esquema global têm que penar muito para realizar um trabalho. Porque fazer cinema é coisa grandiosa, envolve muita gente, figurinos, cenários e tantos outros detalhes que demandam dinheiro.

O curral que virou

centro cultural PARÁ Espaço antes destinado à criação de bois por família latifundiária do Pará é transformado em centro cultural Márcio Zonta de Marabá (PA) UM ENCONTRO de militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocorrido no Pará, entre os dias 27 e 30 de julho, reuniu centenas de pessoas num local inusitado: um curral, na antiga Fazenda Cabaceiras, hoje parte do assentamento 26 de Março. Na realidade, um ex-curral. No encerramento das atividades dos militantes, na tarde do dia 30, o espaço se tornou o Centro Cultural Bertold Brecht. Maria Raimunda, uma das dirigentes estaduais do MST, acredita que a transformação significa “reverter o local para acontecimentos culturais que tragam a emancipação social e cultural”. Assim, os mugidos sofridos de bois deram lugar à cantoria e gritos entoados por lutadores do movimento, acompanhados de um pandeiro tocado ligeiramente por um rapaz, que dava o ritmo musical. De um balaio artesanal, o livro O Massacre – Eldorado dos Carajás: Uma história de impunidade (de Eric Nepomuceno, editora Planeta, 2007) era retirado e alça-

do pelas mãos de mulheres e homens que simbolizavam a luta dos que tombaram, enaltecendo a resistência daqueles que continuam a brigar pela reforma agrária. Depois, os exemplares foram distribuídos ao público. Fotos de Helenira Rezende e Dina Teixeira, entre outras mulheres que morreram a menos de 200 km dali, assassinadas em 1974 por agentes da ditadura civil-militar brasileira durante a guerrilha do Araguaia, ilustravam um dos temas da exposição fotográfica que marcou o lançamento do centro. A mostra ocupou os quase dez metros de comprimento do apertado corredor do brete (compartimento utilizado para prender o gado) do antigo curral, pelo qual milhares de animais passaram a fim de serem ferroados, vacinados, castrados ou abatidos. “Um lugar que representava a destruição, hoje, renasce com a arte”, define o jovem Pablo Neri, integrante do Coletivo de Comunicação e Cultura do MST no Pará, no meio de tantos outros jovens, crianças, adultos e idosos aglomerados para ver a exposição. Valdemar Pereira dos Santos, membro da cooperativa do assentamento Aproterra, diante das fotografias do Movimento de Resistência 26 de Março, que complementava a atividade cultural do dia, remeteu-se ao passado dos tempos difíceis de despejos ao ver a foto dos acampados saindo em fileira, observados por policiais fortemente armados. “Esse dia tinha 800 policiais. Eles foram cruéis, não respeitaram nem as mulheres nem as crianças”, recorda.

Este agora passa a ser um espaço de formação, declara Maria Raimunda, “sobretudo de sujeitos que compreendam, através da arte e das manifestações culturais, o processo de opressão e libertação que os envolve”.

“Um lugar que representava a destruição, hoje, renasce com a arte” Histórico Localizada a 24 km do centro de Marabá (PA), a área do assentamento de 11 mil hectares, na qual residem 206 famílias, pertencia à tradicional família da oligarquia de latifundiários do município, os Mutran. No local, antes da ocupação feita há 11 anos, era praticado crime ambiental e trabalho escravo, conforme acusação do Ministério Público do Estado do Pará (MPE). Além disso, a Polícia Federal encontrou lá um cemitério clandestino de trabalhadores rurais. Santos protesta: “aqui era uma área de castanheiras, que jamais poderiam ser derrubadas, é proibido por lei”. Na sua opinião, os corpos encontrados no cemitério clandestino são de trabalhadores rurais que tentaram fugir das fazendas por serem mantidos em condições análogas à escravidão. “É comum, infelizmente, ainda nos dias de hoje, fazendeiros contratarem pessoas para trabalhar no campo, não pagarem seus

direitos e ainda matar aqueles que se rebelam diante da situação”, lamenta. Com todas essas nuances, Maria Raimunda celebra: “Conquistar essa área foi umas das lutas mais difíceis e importantes do MST contra o latifúndio nos últimos tempos no Pará”. Transformação Junto ao Centro Cultural Che Guevara, no acampamento 17 de Abril, e ao Augusto Boal, no assentamento Palmares, todos no Pará, o espaço Bertold Brecht se transforma em mais uma área de reflexão diante da luta pela terra e pela defesa da Amazônia na região. “Trazer a consciência sobre nosso território, também, é a tarefa desse projeto. Já estamos em via da implementação de mais 11 centros culturais, entre nossos acampamentos e assentamentos”, anuncia Maria Raimunda. A ideia, ao mesmo tempo, é transformar espaços antes atrozes, representados pelo agronegócio na região, em centros que identifiquem nas comunidades pessoas que gostam de trabalhar com cultura e arte. “Vários jovens despertaram para a arte por intermédio de atividades desenvolvidas nesses locais”, ressalta Maria Raimunda. Gizelda Coelho, coordenadora do assentamento 26 de Março, deixa claro o sentido da mudança do curral para o centro cultural: “Quando chegamos aqui só tinham bois, eram aproximadamente 5 mil. Hoje, no mesmo espaço, tem gente cantando, dançando, interpretando, tocando algum instrumento musical, enfim, sorrindo e sendo o sujeito de sua arte”.

Agora, tramita no Senado Federal uma medida provisória (a 491/2010) do governo federal que, entre outras coisas, apresenta o projeto Cinema perto de você, uma proposta de criar salas de cinema nas cidades pequenas e nos bairros de periferia das grandes cidades. A ideia em si até é interessante, mas se não tocar na questão da distribuição dos filmes – sempre na mão estrangeira – e não garantir espaço digno ao cinema nacional será só mais uma sala a projetar o lixo ideológico estadunidense. A medida também avança para o estabelecimento de linhas de crédito, via BNDES, e com facilidades tributárias para as empresas que investirem no cinema. Mas também isso não garante uma mirada mais autóctone para a cinematografia. Longa caminhada Apesar dessas propostas pontuais, no Brasil há muito pouca compreensão de que o cinema deveria ser espaço de contação das histórias locais, dos personagens nacionais, dos fatos históricos, dos mitos, da realidade tupiniquim. Tirando alguns momentos, muito pontuais, o cinema nacional é mera reprodução do jeito de fazer estadunidense. Basta uma olhada no megassucesso Se eu fosse você, com Glória Pires e Tony Ramos, que chegou a ter um segundo “capítulo”. Nada mais é do que a reprodução – mal feita – das batidas comédias românticas do cinema estadunidense. Um colonialismo mental e cultural que vai se reproduzindo feito praga. E, nesse diapasão, a vida que vive neste imenso país encontra muito pouco espaço para ser narrada. Até porque o Brasil não é só São Paulo e Rio de Janeiro. Por isso, o catarinense Doce de coco, dirigido por Penna Filho, filmado no interior da ilha, tem de ir rompendo as barreiras, punho em riste, como os próprios personagens, que precisam apostar num grande sonho para poderem se mover adiante. O sonho de Penna Filho – ele não o disse, mas pude demandar no seu olhar misturado de ternura e força – é o de ver, cada vez mais, o Brasil na tela grande. O Brasil de verdade, desses cantões, as gentes reais, se dizendo na beleza e na luta. Já a política, bem, esta é outra seara, tão difícil de ser desbravada quanto fazer uma produção que seja independente do sistema internacional. Sem a ação coletiva e crítica da classe artística, as proposições governamentais continuarão a ser pontuais e sem conexão com uma proposta verdadeiramente nacional. A filmografia completa e outras informações sobre Penna Filho podem ser encontradas no sítio: http:// www.pennafilho.com/ Elaine Tavares é jornalista.


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internacional

Promessas vazias ORIENTE MÉDIO Saída de tropas de combate estadunidenses do Iraque e do Afeganistão não diminuirá ingerência dos EUA na região Dafne Melo da Redação CONFORME prometido em sua campanha, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama confirmou que até o fim de agosto as tropas de combate estadunidenses sairão do Iraque, país invadido militarmente desde março de 2003. Os Estados Unidos, que já chegaram a ter 165 mil militares na invasão, deverão manter pouco menos de um terço desse número. Os que ali ficarem serão responsáveis pelo treinamento de tropas iraquianas e realizarão operações antiterroristas, além de oferecer segurança aos diplomatas estadunidenses. A saída de todos estaria marcada para o fim de 2011.

Quanto

535

pessoas morreram vítimas da guerra no Iraque em julho.

Para especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, a iniciativa é limitada. “Isso nem de longe é uma retirada. Os Estados Unidos têm bases militares no Iraque para garantir a execução de seus interesses dentro do país e irão manter todas essas bases e militares ali”, explica Paulo Hilu, professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Para o iraquiano radicado em São Paulo Khalid Tailche, “os americanos estão deixando o país talvez militarmente, mas sua presença política está muito longe de se encerrar. O símbolo dessa dominação pode ser notado pela construção da maior embaixada americana do mundo na capital Bagdá”, escreveu em artigo publicado na página do Instituto da Cultura Árabe. Para Arlene Clemesha, historiadora e professora do Departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP), apesar dos Estados Unidos terem no Iraque um governo aliado, a situação é frágil. “Não é muito certo até que ponto eles conseguirão se retirar, pois o que têm hoje é

a manutenção de um equilíbrio muito precário. Ao mesmo tempo, a retirada das tropas é necessária para os EUA, não pode ser vista como uma concessão”, afirma.

“Não é muito certo até que ponto eles conseguirão se retirar, pois o que têm hoje é a manutenção de um equilíbrio muito precário” Deslocamento Um dos motivos pelos quais os EUA não podem mais se manter no Iraque é a necessidade de diminuir os gastos militares, ao mesmo tempo em que sentem a necessidade de abrir novas frentes no Oriente Médio. O gasto militar do país é atualmente de cerca de 700 bilhões de dólares. Desde 2009, o governo vem tentando cortar esse orçamento, projetando uma diminuição de 40% em longo prazo. Em julho, Robert Gates, secretário de Defesa, anunciou que 100 bilhões deveriam ser economizados nos próximos cinco anos.

Entretanto, a situação no Iraque está longe da estabilidade almejada pelos Estados Unidos. “Eles controlam o Iraque por meio da destruição. Não conseguem manter a vitória militar, e um dos objetivos é a destruição econômica e social do país. A região regrediu muito desde a guerra”, avalia Arlene. Paulo Hilu acredita que tanto a invasão no Iraque como a do Afeganistão são desastrosas. “Hoje, são dois países destruídos, já que são ocupações militares baseadas no uso excessivo de força militar”. Os governos dos dois países, completa o antropólogo, “não governam quase nada de fato, com exceção de alguns bairros de Cabul, no Afeganistão, e a chamada área verde, no Iraque”. A isso, soma-se a existência de uma população civil constantemente vítima de ataques, privada de direitos e serviços básicos. “O objetivo dos Estados Unidos era criar um mínimo de ordem pública para voltar à normalidade e criar governos aliados nessa região, mas a verdade é que não atingiram esse objetivo plenamente”. Um exemplo de que a situação no país ainda é agitada é a quantidade de vítimas da guerra. Em julho deste ano, 535 pessoas morreram, sendo 396 civis. Foi o mês mais violento desde maio de 2008.

Atenção volta para o Afeganistão Em julho, Estados Unidos teve maior baixa de soldados desde o início da guerra, em 2001 da Redação “A estratégia dos Estados Unidos é sair do Iraque e ir para o Afeganistão. Há pouco tempo era o oposto”, explica Paulo Hilu, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Desde que assumiu, prometendo se retirar do Iraque, o presidente Barack Obama tem centrado seus esforços no Afeganistão. No primeiro semestre deste ano, conseguiu aprovar no Congresso estadunidense o envio de quase 40 mil militares para o país. A situação no país invadido em 2001, logo após o ataque às torres gêmeas, é mais complicada para

os estadunidenses do que o Iraque. Enquanto este possui uma oposição fragmentada e sente a ausência de uma força política capaz de catalisar o descontentamento popular, no Afeganistão, o Talibã tem ganhado cada vez mais apoio. “No Afeganistão, há um alto descontentamento da população que não aguenta mais a situação de guerra. O Talibã, que era um grupo pequeno, tem ganhado apoio da população e hoje é o principal grupo de resistência”, analisa. Os Estados Unidos perderam 66 soldados em julho deste ano, a maior baixa em um mês desde o início da guerra. Ao mesmo tempo, o número de civis mortos aumentou 21% no primeiro semestre de 2010, se comparado ao mesmo período do ano passado. A Organização das Nações Unidas (ONU) culpa a resistência afegã por mais da metade das mortes. O certo é que a incapacidade de manter alguma estabi-

lidade, a exemplo do Iraque, dificulta cada vez mais a permanência das tropas dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no país.

O secretário de Defesa, Robert Gates, anunciou no dia 16 de agosto que o início da saída das tropas do Afeganistão será em julho de 2011

O secretário de Defesa, Robert Gates, anunciou no dia 16 de agosto que o início da saída das tropas do Afeganistão será em julho de 2011, daqui a um ano. O

comandante das tropas da Otan no país, general David Petraeus, que assumiu em julho e era o comandante das tropas dos EUA no Iraque, tem defendido que os planos de retirada sejam adiados. Paralelamente, os Estados Unidos também têm aumentado as ações de inteligência e militares em outros países da região, tradicionais aliados, mas que têm servido de destino para militantes do Talibã e da Al-Qaeda. Um deles é o Paquistão. Segundo Arlene Clemesha, da USP, “a guerra já se extrapolou para lá, mais precisamente ao norte, onde os Talibãs têm se refugiado”. Além disso, a oposição ao governo, alinhado aos EUA, tem crescido dentro do país. Em maio, outro tradicional aliado foi vítima dos estadunidenses. As tropas bombardearam a província de Magrib, no Iemen, em busca de membros da Al-Qaeda, causando a morte do vice-governador. (DM)

Irã A região onde existe maior estabilidade no Iraque é a sul, onde Hilu explica que há maior influência do Irã, país com o qual os Estados Unidos vivem em constante tensão. “Pelo menos hoje a região sul tem alguma estabilidade econômica e social, e isso se deve às relações com o Irã. A influência do Irã no Iraque é enorme, inclusive no governo. Então, os EUA precisam do Irã ali, paradoxalmente”. Nas eleições de março deste ano, a Aliança Nacional Iraquiana, vista como a sigla mais próxima ao governo de Teerã, obteve 70 cadeiras no parlamento, a terceira maior força, mas decisiva na tomada de decisões. Por isso, Hilu acredita que será difícil um conflito armado entre os dois países, como alguns analistas vêm alertando. “O jogo ali é a tensão. Não vejo a possibilidade de conflito armado a não ser que algum dos lados faça uma enorme besteira”. Arlene Clemesha ainda observa que, se os EUA estão tendo problemas no Iraque e no Afeganistão, a situação no Irã poderia sair totalmente do controle. “Seria uma ação dificílima. É um país montanhoso, populoso – com cerca de 70 milhões de habitantes –, teria que ser uma grande ação militar, com altos investimentos, e não algo pontual, seria dificílimo se re-

tirar depois. Além do mais, um ataque ao Irã poderia gerar alianças com outros países na região”, pontua a historiadora, para quem uma agressão seria por si só uma derrota dos Estados Unidos. “Se atacar o Irã, é prova de que sua política externa não é mais capaz de criar um consenso mundial que force o país persa a recuar”, observa a historiadora.

“Se atacar o Irã, é prova de que sua política externa não é mais capaz de criar um consenso mundial que force o país persa a recuar” Para Hilu, uma ocupação militar no Irã seria inviável. “O Irã é um país quase impossível de invadir”. Quanto a Israel, cujos líderes constantemente fazem declarações que apontam para uma ação de caráter preventivo contra o Irã, Arlene acredita que o Estado sionista dificilmente tomará uma atitude unilateral. “Israel não fará sem apoio e aval dos EUA”.

“Turquia voltou a se sentir parte do Oriente Médio” da Redação Numa posição geográfica estratégica, entre a Europa e o Oriente Médio, a Turquia, país muçulmano, tem, nos últimos anos, voltado a fazer parte da comunidade árabe. “Em parte, essa aproximação se dá porque ela não tem visto muito futuro em suas relações com a Europa”, explica Paulo Hilu, professor do Departamento de Antropologia da UFF. O país, que era visto como um aliado do imperialismo europeu e estadunidense na região, apoiando inclusive Israel, tem repensado sua política externa nos últimos anos. O apoio, ao lado do Brasil, ao desenvolvimento de tecnologia nuclear por parte do Irã, o envio da Flotilha da Liberdade à Faixa de Gaza no fim de maio e a posterior condenação ao ataque de Israel são exemplos. O país também condenou a operação Chumbo Grosso,

como ficou conhecido o massacre à população palestina em Gaza no fim de 2008 e início de 2009. “A Turquia tem se distanciado de Israel; pôs fim aos treinamentos militares conjuntos, por exemplo. No Fórum de Davos, ano passado, o premiê turco [Recep Tayyip Erdogan] saiu de uma mesa após uma discussão com o presidente israelense, Shimon Peres, sobre o ataque a Gaza”. Na ocasião, Erdogan disse a Peres: “você está matando gente”, e foi cortado por um moderador. Para Arlene Clemesha, da USP, a Turquia, que possui o segundo maior exército da Otan, ainda é uma aliada e não irá se alinhar totalmente ao Irã, mas pode ser um fator de desequilíbrio dependendo de sua posição. “A Turquia tem tido uma postura crítica sobre algo que de fato é totalmente criticável. Antes podia até discordar, mas não tinha força para se colocar. Agora tem”, conclui. (DM)


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Hendrik Speck/CC

internacional

TENDÊNCIAS Para filósofo esloveno, comunismo deve ser utilizado no enfrentamento dos problemas comuns da humanidade, para os quais um “capitalismo melhorado” é incapaz de oferecer respostas

to de Humanidades da Birbeck, Universidade de Londres, Zizek também é psicanalista e notoriamente conhecido como um especialista em Jacques Lacan, o principal seguidor de Sigmund Freud. Viveu sua vida universitária no ambiente de formação da república socialista iugoslava. Logo da independência da Eslovênia, depois da queda da União Soviética, em 1991, foi candidato à presidência da República pelo partido liberal democrático esloveno.

A estratégia do capitalismo natural é salvar o planeta dos problemas ecológicos para que tudo se torne uma commodity

Aleksander Aguilar O ESLOVENO Slavoj Zizek se tornou uma celebridade das ciências humanas, uma espécie de popstar da filosofia. Rotulado como um dos principais teóricos contemporâneos no campo da crítica cultural e da análise de problemas da política internacional, Zizek desfruta dessa reputação, jogando o jogo que lhe foi montado, fazendo as vezes de intelectual excêntrico, polêmico e controvertido – um rol que não reduz nem o seu brilhantismo, nem a pertinência das suas ideias. Filosofia e crítica cultural e política vinculam-se de maneira singular em seu trabalho, marcado por um estilo cheio de ironias e quase-sarcasmos. E, ao utilizar principalmente o cinema para ilustrar suas opiniões, ganhou notoriedade neste campo e se converteu em um especialista na análise da obra de David Lynch e Alfred Hitchcock. O intelectual, assim, galgou e encravou seu nome como crítico de cultura. Mas é ao manter suas ideias ligadas ao horizonte do marxismo e do comunismo que Zizek firma sua importância no debate sobre a desintegração dos estados socialistas, sobre globalização e papel da esquerda mundial. O comunismo de Zizek não tem, no entanto, nada que ver com as experiências sob este nome do século 20, senão o desafio de enfrentar, e resolver, os atuais grandes problemas da humanidade.

O fim dos tempos

Na esteira do lançamento do seu mais recente livro, Living in the End Times (ainda sem título em português), Zizek participou como um dos principais destaques do London Literature Festival e de um longo debate na prestigiosa London School of Economics (LSE), em julho, na Inglaterra. Professor da Universidade de Lubliana (Eslovênia) e diretor internacional do Institu-

Para o filósofo esloveno, a referência mais presente disto é o chamado “capitalismo natural”. Trata-se do conjunto de ideias para uma reinvenção do capitalismo, exposto no livro encabeçado pelo economista estadunidense Paul Hawken, que ganhou dimensão de movimento. Ele propõe uma nova revolução na produção mundial comparável com a Primeira Revolução Industrial. Como seria a economia se ela fosse organizada não através das abstrações econômicas neoclássicas, mas sim das realidades biológicas da natureza? Para contra-atacar as negligências do capitalismo industrial tradicional com os recursos naturais e os sistemas vivos sociais e culturais, essa teoria propõe uma mudança na abordagem da produção mundial. De acordo com os autores, há quatro estratégias centrais para se chegar a uma nova revolução industrial: a conservação dos recursos através de uma manufatura mais efetiva dos processos de produção, a reutilização de materiais na forma como são encontrados nos sistemas naturais, uma mudança dos paradigmas de valorização da quantidade para a qualidade e uma restauração e a sustentabilidade dos recursos naturais. Porém, Zizek afirma que, apesar de parecer que tamanha redefinição de capital seja eticamente benéfica, sua implementação demandaria, como mínimo, um controle e regulação estatais muito mais estritos; com agências governamentais definindo e implementando no mercado preços de commodities naturais. A estratégia do capitalismo natural é salvar o planeta dos problemas ecológicos para que tudo se torne uma commodity. Enquanto mantém a matriz do capitalismo – o lucro expandindo suas próprias formas de reprodução – propondo a salvação disso precisamente através dessa excessiva universalização, o núcleo central do problema permanece sendo a busca pelo lucro como a razão da reprodução econômica. E se o capitalismo busca reinventar-se, Zizek, com o humor seco e duro que marca seu estilo, não deixa nem

mesmo Antonio Negri escapar da sua crítica. O filosofo esloveno desafia o conceito de “multidão” do italiano, que se baseia nas atuais subjetividades políticas para permitir-se afirmar que basta a eliminação do já parasitário capitalismo (segundo entende Negri) para alcançar o comunismo. “Todos os exemplos convincentes de multidão que Negri apresenta são exemplos de dentro do capitalismo. Não vejo então fundamento sobre como essa ideia de multidão pode ser trazida daí para a totalidade da sociedade. Onde a multidão realmente começa a funcionar por si mesma?”, questiona. Para Zizek, um dos pontoschave da principal obra de Negri, Império (que se tornou uma espécie de manifesto do movimento antiglobalização), não se justifica. A noção de Estado-nação não está desaparecendo; pelo contrário, está ficando cada vez mais forte. O que deveria ser totalmente abandonado, na percepção do filósofo esloveno, não é apenas a perspectiva dos estados socialistas na forma da esquerda do século 20 – aquilo que costumase chamar estados comunistas –, mas também o chamado Estado social democrático de bem-estar.

“O comunismo do século 20 foi uma das maiores tragédias da história. Eu apenas afirmo que nós estamos enfrentando problemas para os quais o capitalismo não é suficiente” E, para não perder a viagem, Zizek segue: “Apesar disso, eu estou com Negri e contra Alain Badiou, porque meu problema com Badiou é o mesmo com a maioria dos filósofos políticos de orientação francesa, dentre os quais se

inclui também Ernesto Laclau e outros. Vocês percebem como não há espaço no trabalho deles para o que Marx chama de crítica da economia política? Eles afirmam que economia não tem nada a ver com política. Nesse ponto eu concordo com Negri: a economia é a arena onde as batalhas devem ser travadas, vencidas ou perdidas”. Nova configuração europeia

A necessidade do horizonte comunista é apontada por Zizek, por exemplo, no atual cenário da Europa Ocidental e Oriental, onde há sinais de uma reacomodação política de longo prazo. Há até recentemente, o espaço político estava dominado por dois partidos principais que conseguiam atender todo o seu corpo eleitoral: uma força de centro-direita (cristãos-democráticos, conservadores-liberais) e uma força de centroesquerda (socialistas, socialdemocratas). Agora, vemos uma progressiva nova polaridade. Zizek identifica a emergência de um partido que se posiciona a favor do capitalismo globalizado, geralmente com relativa tolerância ao aborto, direitos homossexuais, religião e minorias étnicas. E, em oposição a esse partido, há um agrupamento popular anti-imigrantes cada vez mais forte, que está acompanhado diretamente por grupos neofascistas. Nesse ambiente de despolitização das administrações pós-ideológicas – que, para Zizek, conforma uma “dinâmica perigosa” –, a única maneira de mobilizar as pessoas é provocar o medo (ameaça imigrante, por exemplo). É a partir dessa constatação que o esloveno afirma que apenas o fantasma da esquerda poderá salvar as liberdades do liberalismo que valem a pena serem salvas. “Quando debatemos com os liberais, não deveríamos dizer: ‘ah, vocês são os inimigos burgueses, não discutimos com vocês!’ Deveríamos, sim, alertá-los. ‘Sim, nós também gostamos das suas liberdades, mas apenas uma esquerda bem estabelecida em longo prazo irá ajudar a salvar os aspectos dessas liberdades que valem a pena. Se não for assim, vocês irão perder cada vez mais espaço para a extrema direita’”. Reprodução

Divulgação

Na opinião de Zizek, há uma sobrecarga de críticas vulgares anticapitalistas

Com a língua presa, mas afiada, Zizek, cheio de tiques nervosos, falou para um lotado auditório do Royal Albert Hall sobre seus quatro cavaleiros do apocalipse, aqueles que em sua opinião trazem o inquestionável fim do capitalismo: a crise ecológica mundial, os desequilíbrios do sistema econômico, a revolução biogenética e a explosão das divisões e rupturas sociais. Mas a pergunta-base da reflexão é: se o fim do capitalismo é visto por muitos como o fim do mundo, como a sociedade ocidental pode enfrentar este período de fim dos tempos? “Democracia não é suficiente”, dispara. Não se se trata apenas do seu sentido conhecido de eleições pluripartidárias, de estado de direito. Uma diferente mobilização sociopolítica é o lugar onde as mudanças deveriam acontecer, argumenta. Na opinião de Zizek, há uma sobrecarga de críticas vulgares anticapitalistas. Ao mesmo tempo, do outro lado desse fenômeno global, existem tentativas de legitimar um capitalismo ético pós-moderno que aposta em equilibrar um discurso de responsabilidade social e ecológica.

Capitalismo natural

No alto, capa do livro Living in the End Times; à direita, manifestação fascista contra imigrantes nos Estados Unidos

Apocalipse ecológico

O outro sinal desse fim dos tempos, a crise ecológica mundial, é também analisado por Zizek como um aspecto que pode ser considerado cínico na nossa realidade. O discurso de fazer a nossa parte está permeado de cinismo e pode tangenciar os enormes problemas causados pelas grandes empresas com a retórica do “consumo responsável e sustentável”. “Toda ideia de reciclar o lixo, poluir menos..., tem algo de superstição. É como olhar a Copa do Mundo e estar em frente à TV gritando incentivos aos jogadores. Sabemos que é absolutamente insignificante, mas ainda assim o fazemos”, compara.

“Toda ideia de reciclar o lixo, poluir menos..., tem algo de superstição. É como olhar a Copa do Mundo e estar em frente à TV gritando incentivos aos jogadores” Para Zizek, os problemas que o mundo enfrenta hoje não podem ser apenas tratados pelo “capitalismo melhorado”, ou natural, nem pelas instituições democráticas. Nesse sentido, é ao fazer referência aos problemas comuns da humanidade que o comunismo ainda deve ser utilizado. “Coisas tremendas precisam ser feitas. Tomemos como exemplo, muito factível, o vulcão na Islândia. E se a explosão tivesse sido tão grande ao ponto de todo o território islandês tornarse inabitável? Não teríamos mecanismos para resolver o que fazer com a sua população. Para onde iriam? Deveriam se dispersar por todo o planeta? Os deslocamentos de grandes grupos humanos, por conta das mudanças na natureza, são questões presentes e altamente complicadas para as quais não temos respostas”, provoca. Isto é o que Zizek quer dizer com comunismo. O Estado liberal, no seu atual sentido jurídico-legal, com parlamento e estado de direito, não é suficiente. “Eu não me refiro à volta do camarada Stalin. O comunismo do século 20 foi uma das maiores tragédias da história. Eu apenas afirmo que nós estamos enfrentando problemas para os quais o capitalismo não é suficiente. Estou preparado para ser parte desse legado histórico da esquerda que se move um passo adiante da democracia”. Eis a reflexão-chave do fim dos tempos, segundo Zizek: o espaço da sociedade como conhecemos está para terminar, e é tempo para interpretações mais radicais. Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais.


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américa latina

Outro mundo é possível, e a América está a caminho Periódico El Ciudadano/CC

FÓRUM SOCIAL DAS AMÉRICAS Assembleia dos Movimentos Sociais aprova pauta comum e agenda de lutas no continente

23 de agosto – Dia de Solidariedade às Mulheres e Povos da Colômbia e das Américas que lutam contra a militarização. 7 a 17 de outubro – Semana de Ação em Defesa da Mãe Terra, contra a mercantilização da vida / Ações Globais contra a Militarização / Ações contra a Dívida, as Instituições Financeiras Internacionais (IFIs) e o Banco Mundial e por Trabalho Decente.

Terezinha Vicente de Assunção (Paraguai) O ÚLTIMO dia de Fórum Social foi escolhido pela Assembleia de Movimentos Sociais para um encontro no qual se fecham os “consensos para que sigamos lutando”, como falou Nalu Faria, da Marcha Mundial de Mulheres/Brasil, na abertura da aprovação da declaração final do 4º Fórum Social Américas (FSA), realizado em Assunção (Paraguai), entre 11 e 15 de agosto. Com grande participação das mulheres, seja as da Marcha Mundial ou da Via Campesina, da Articulação de Mulheres Brasileiras ou das Indígenas, essa quarta edição do fórum continental mobilizou diversas organizações sociais e de trabalhadores; o MST, o movimento sindical da CUT Autêntica (do Paraguai) e da CUT Brasil, cooperativas, agroecologistas, setores ecumênicos, estudantes, acadêmicos de diversas áreas e artistas. Destacavam-se ainda o grande número de meios de comunicação independentes e comunitários, trabalhando solidariamente, além dos comunicadores individuais com suas câmeras variadas que levaram as imagens para seus locais de origem.

Calendário de lutas e mobilizações assumido no 4º FSA

7 de outubro – Jornada Mundial por Trabalho Decente. 8 a 16 de outubro – 5º Congresso da Coordenadora Latinoamericana de Organizações do Campo (Cloc) e da Via Campesina, em Quito (Equador). 8 a 12 de outubro – Fórum Social das Migrações, em Quito (Equador).

4ª edição do fórum continental mobilizou diversas organizações sociais e de trabalhadores

A defesa da Mãe Terra, de suas riquezas naturais e de toda a vida presente está na base de todas as resoluções e propostas de lutas Por um novo mundo Na assembleia, os consensos foram muitos, e o lotado Centro Desportivo mostrava a disposição de luta dos movimentos, com palavras de ordem cantadas a cada tema importante que o documento trazia. A defesa da Mãe Terra, de suas riquezas naturais e de toda a vida presente – base do conceito de bem viver trazido dos ancestrais indígenas e de-

fendido por eles especialmente neste fórum – está na base de todas as resoluções e propostas de lutas. A busca de outro paradigma baseado na solidariedade e harmonia entre os povos coloca para já a radicalização das lutas contra as falsas soluções apresentadas para a mudança climática, com novas investidas do capitalismo “verde”; contra a militari-

zação e golpes de Estado; contra a criminalização dos movimentos sociais; pela reforma agrária, respeito à natureza e uma agricultura familiar e campesina; pela soberania dos povos, política, alimentar e energética; e pela soberania das mulheres sobre seus corpos e vidas. Globalizar a luta Outro ponto forte da declaração final em Assunção foi a solidariedade com os povos de Honduras e do Haiti, presentes no documento original, e também ao povo da Palestina. A assembleia denuncia o golpe em Honduras e se solidariza com seu povo que resiste bravamente; solidariza-se

com o povo do Haiti e exige que sejam retiradas as forças militares daquele país. A Assembleia dos Movimentos Sociais chama assim ao final um plano de luta, com algumas datas-chave, para que no mundo todo os ativistas que buscam novos paradigmas – para a convivência entre os povos, pela preservação da vida sem violência, exploração e destruição e pela democratização do conhecimento e da comunicação, das tecnologias e do saber ancestral, pela convivência da diversidade com paz e harmonia – manifestem-se em uníssono com radicalidade, na construção de outra América possível. (Ciranda Brasil)

12 de outubro – Grito dos Excluídos (continental). 12 de outubro – Dia de Ação pela Justiça Climática. 15 de outubro – Jornada de Solidariedade ao Haiti – Basta de ocupação econômica e militar. 17 de outubro – Jornada Internacional em solidariedade às mulheres que vivem em zona de conflito. 29 de novembro a 7 de dezembro – Ações Globais contra as falsas soluções para a mudança climática (prévias e simultâneas à COP-16 em Cancun, México). 12 de janeiro de 2011 – Jornada de Solidariedade com o Povo Haitiano.

Três presidentes participaram do encerramento Evo Morales, Fernando Lugo e Pepe Mujica celebram o momento histórico do continente de São Paulo (SP) No encerramento, dia 15, o 4º Fórum Social das Américas (FSA) chamou os movimentos, organizações e redes sociais do continente a redobrar a luta pela soberania dos povos. O ato numeroso reuniu os presidentes Evo Morales (Bolívia), Fernando Lugo (Paraguai) e Pepe Mujica (Uruguai), que foram apresentados às conclusões aprovadas horas antes na Assembleia dos Movimentos Sociais. “Nossa América Latina está a caminho”. Com essas palavras, ditas também em guarani, o presidente do Paraguai iniciou sua saudação aos participantes das diversas organizações e movimentos sociais presentes no FSA. Lugo disse aos presidentes da Bolívia e do Uruguai que, há alguns anos, era impensável que um índio ou um ex-guerrilheiro chegassem a ocupar a presidência em países da América Latina. E acrescentou que “ainda não atingimos a meta, e não devemos perder de vista a luz que nos mostra o FSA, uma luz que vem para iluminar o caminho da América Latina”. O paraguaio relembrou os libertadores Simón Bolívar, San Martín, José Artigas:

“Quanto terão sonhado nossos pais da pátria ver este momento? Um só povo em marcha na construção da grande pátria, o sonho frustrado por dois séculos”. Lugo afirmou que as manifestações de solidariedade ao povo paraguaio são a força que sustenta o caminho irreversível da mudança, dizendo que sem a diversidade cultural e o pluralismo não se pode avançar para uma verdadeira construção da América Latina. O mandatário também alertou sobre os perigos que espreitam a América Latina, lembrando o exemplo do golpe de Estado em Honduras. Acrescentou que “a paz na região é outro elemento da democratização que vivem os países frente às tentativas de desestabilização desses processos democráticos. O confronto direto não faz parte de nossa agenda, e fato disso foi o caso da Colômbia e a Venezuela, que constroem novas formas de superar os problemas”. O novo desafio para Lugo é a urgência de adotar políticas públicas que permitam erradicar a pobreza, instalar um sistema de saúde preventiva, destinar fundos para ter uma educação gratuita e a formação de quadros e profissionais qualificados, realçando que esse desafio se deve construir com os movimentos sociais para fazer realidade frente ao sonho de milhões de pobres no continente.

Uruguai e Bolívia Mujica, por sua vez, censurou o processo político ocidental, em especial do imperialismo, que tenta se impor ao mundo como uma ci-

APC

Os presidentes Evo Morales, Fernando Lugo e Pepe Mujica

“Não alcançamos forjar ainda uma só pátria – grande é a marcha, longo, o compromisso, imensa, a esperança”, observou Mujica vilização agressiva que pre- quer Estado do mundo, “e istende ser a única possível do so já foi demonstrado em váplaneta. rios países da região”. Ele desEle colocou, em uma breve tacou ainda que as bases miliintervenção, que não há um só tares estadunidenses na Amémodelo de democracia, e hoje rica do Sul trabalham contra a a luta deve incluir a multipli- integração na região. cidade de modelos, acrescenO boliviano destacou os lutando que “isso obriga a refle- cros econômicos alcançados tir que se deve aprender a vi- pelo seu governo. Nos últimos ver sem agredir aos demais; 40 anos, a Bolívia tinha pera liberdade deve estar pensa- manentes deficits fiscais, no da desde a diversidade. Não entanto, agora é um país com alcançamos forjar ainda uma bons investimentos, e isto grasó pátria – grande é a marcha, ças à recuperação dos recursos longo, o compromisso, imen- naturais e ao feito de ter se lisa, a esperança”. bertado dos condicionamenSegundo Morales, os po- tos do G-7 (países mais ricos vos unidos e organizados são do planeta) e do Fundo Momuito mais fortes que qual- netário Internacional (FMI).

vocou a morte de milhões de peixes na Amazônia, fenômeno que nunca havia ocorrido; os incêndios, as inundações, as secas nunca antes vistas em alguns lugares só aumentam. Frente a tal situação, o capitalismo, em vez de pensar em salvar a vida reduzindo seus gases de efeito estufa, está pensando em ampliar e salvar seus negócios mediante o mercado de carbono, especialmente vinculado a nossas florestas.

“Esta é uma rebelião democrática contra o imperialismo, agora estamos melhor que antes”, comemorou Morales

“Esta é uma rebelião democrática contra o imperialismo, agora estamos melhor que antes”, manifestou. Morales denunciou que em décadas passadas foram usadas armas para lutar pelas transformações, mas agora é o imperialismo que recorre às armas para frustrar os procesMorales assinalou que alsos de mudança da América Latina, utilizando os pretextos guns dos planejamentos da do narcotráfico e o terrorismo. Conferência Mundial dos Po“Na Bolívia e em outros paí- vos sobre a Mudança Climáses, os dirigentes sociais, sin- tica e os Direitos da Mãe Terdicais e políticos são acusados ra realizada em Cochabamba, de narcotraficantes, os jornais em abril deste ano, foram innoticiam que o subcomandan- corporados como opções de te é narcotraficante, que Hugo negociação para a Conferência Chávez é narcotraficante. Des- sobre Mudança Climática de de o 11 de setembro de 2001, Cancún, entre eles: limitar o os líderes anti-imperialistas e aumento da temperatura a um antineoliberais são acusados grau centígrado, a redução de emissões até 50% entre 2010 e de serem terroristas”. Em relação à mudança cli- 2017, os direitos à Mãe Terra mática, o mandatário de- e o pleno respeito aos direitos nunciou os efeitos que a mu- humanos e os direitos dos podança está causando na Bolí- vos indígenas. (Portal Vermevia, onde a onda de frio pro- lho e Minga Informativa)


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américa latina

Sem comunicação, não haverá a integração latino-americana Enrique Dordal

FÓRUM SOCIAL DAS AMÉRICAS Encontro revela que América Latina possui experiências de luta popular e de regulamentação do monopólio da mídia no âmbito institucional Pedro Carrano de Assunção (Paraguai) O DEBATE sobre o monopólio dos meios de comunicação e a criação de alternativas por parte de governos e movimentos sociais teve um espaço próprio nos dias que antecederam o 4º Fórum Social das Américas (FSA), organizado em Assunção (Paraguai), entre 11 e 15 de agosto. O encontro “Movimentos sociais, redes de comunicação e governos: Um diálogo necessário para democratizar a comunicação e impulsionar a integração”, realizado nos dias 9 e 10, deu sequência à construção de uma agenda dos movimentos sociais em busca da democratização da comunicação, em diálogo com governos no marco da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). Convocado por organizações ligadas à comunicação nos movimentos sociais, caso da Minga Informativa dos Movimentos Sociais e da Associação Latino-Americana de Educação Radiofônica (Aler), entre outros, o evento levantou temas que compõem a atual conjuntura, tais como o domínio das transnacionais no campo, a soberania alimentar e a militarização tendo os governos do campo da Alba em mira. “Há um processo de mudanças forte, ameaçado por um contexto de reposicionamento imperialista, como vimos durante o golpe de Honduras”, comenta Alessandra Seregatti, da Marcha Mundial de Mulheres.

A concentração dos meios de comunicação independe de fronteiras. Na Argentina, quatro grupos são donos de 84% da informação produzida O debate da comunicação esteve presente em vários momentos. Mesmo durante o encerramento do FSA, que contou com a presença dos presidentes do Paraguai (Fernando Lugo), Uruguai (Pepe Mujica) e Bolívia, o presidente boliviano Evo Morales afirmou que, nas últimas semanas, instalou-se uma campanha, através de meios como a estadunidense CNN, na qual se lançam provocações e ofensas à revolução bolivariana, acusando o governo de Hugo Chávez (Venezuela) de envolvimento com grupos “terroristas”. Falta de democracia

O Paraguai é um território exemplar da necessidade do debate sobre a comunicação. No país onde 1% da população detém 77% das terras, so-

Encontro deu sequência à construção de uma agenda dos movimentos sociais em busca de democratização da comunicação

mente três grupos controlam os canais televisivos. Não existe no país um canal público-estatal, projeto programado para maio de 2011, segundo destacou Diego Segovia, secretário de comunicação e informação do Paraguai. O principal jornal em tiragens do país, ABC Color, pratica ataques constantes contra o governo Lugo – posição inversa em comparação com a época das eleições e da iminência da vitória do atual presidente, ainda em 2008. A concentração dos meios de comunicação independe de fronteiras. Na Argentina, quatro grupos são donos de 84% da informação produzida no país. “Há uma consciência da demanda, é um tema visível, tem uma pertinência social, para além dos agrupamentos que estão debatendo os meios alternativos e reclamando sobre esse exercício abusivo de concentração dos meios de comunicação”, diz Osvaldo León, coordenador da Minga Informativa.

mo o Brasil, a partir do marco institucional têm sido criados espaços para debate, caso da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). As diversas organizações presentes no encontro, procedentes de nove países, chegaram a um consenso de que é preciso encontrar espaços comuns, a partir das diferenças, para atuar em momentos importantes da luta política. O golpe de Estado em Honduras e a situação de ameaça contra o governo Chávez exigem resposta imediata no plano continental. Frente à ofensiva dos meios de comunicação na Venezuela, às vésperas das eleições parlamentares, a “guerra midiática” já é um dado concreto. De acordo com a comunicadora Blanca Eekhout, da venezuelana Vive TV, em 28 dias foram contabilizados 1.600 artigos na imprensa internacional desacreditando o processo bolivariano e o presidente Chávez.

Propor é o desafio

O programa proposto pelas organizações populares entende que há avanços possíveis no marco legal, no qual as mudanças no Equador e na Argentina são o melhor exemplo

Nova lei radiofônica é reflexo do enfrentamento no âmbito governamental, empurrado pela pressão das ruas

Outras medidas necessárias, presentes no programa elaborado pelas organizações, é a questão da formação em comunicação popular no continente, que não se limite apenas aos governos no marco da Alba e do anti-imperialismo; e a criação de uma instituição que coordene as ações em comunicação no continente, experiências em termos de comunicação popular, criação de meios próprios, entre outras tarefas de movimentos sociais e comunicadores progressistas. “Vivemos distanciados e não nos conhecemos, precisamos resgatar os valores da comunicação e trabalhar conjuntamente, resgatar o sentido dialógico e participativo da comunicação”, agrega León. (Com informações de Minga Informativa dos Movimentos Sociais)

“A primeira mobilização levou cerca de 15 mil pessoas à frente da Casa Rosada”

León define que a experiência do FSA iniciou-se no marco de um período de resistência contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e os Tratados de Livre Comércio (TLCs) no continente. Sua primeira expressão foi em 2004, em Quito. Desta vez, na opinião de León, o FSA aporta uma programática e um projeto alternativo, em vários campos da produção e cultura. Já não seria apenas uma proposta reativa. “Temos que avançar a ofensiva de elaborar projetos, saber que paradigma estamos propondo e como respondemos a essas iniciativas. São setores que propõem saídas reais, como a iniciativa de esfriar o planeta”, coloca. No campo da comunicação, o programa proposto pelas organizações populares entende que há avanços possíveis no marco legal, no qual as mudanças no Equador e na Argentina são o melhor exemplo. A lei de meios no país presidido por Rafael Corrêa sofre neste momento críticas por parte de um grupo estrangeiro como o Human Rights Watch, que considera a nova lei uma violação à liberdade de imprensa. Na Argentina, por sua vez, está em processo um enfrentamento a grupos privados que formam monopólios de veículos de comunicação, como o grupo Clarín. A mobilização social tem empurrado o governo de Cristina Kirchner a adotar posições populares. Em outros países, co-

Experiências de comunicação popular presentes no FSA Fábrica e comunicação recuperadas

O Fórum Argentino de Rádios Comunitárias (Farco) possui rádios livres instaladas em fábricas recuperadas. Numa delas, na região de Buenos Aires, transmite 58 programas de rádio todas as semanas, articulado em uma rede nacional de rádios comunitárias, em diferentes regiões do país. Com a nova lei de meios de comunicação no país, as forças populares têm agora o dever de preencher o espaço público cedido a elas. “Há um inimigo comum e a necessidade de juntar-se, ninguém tem condições de fazer por si só, para sustentar a lei e preencher os 33% [cota reservada aos meios dos movimentos sociais]”, coloca o comunicador Henrique Dordal, integrante do Farco.

Comunicação e organicidade dos movimentos sociais

“A comunicação está a serviço da organização interna do movimento, o que chamamos de organicidade. A comunicação é tarefa de todos e todas, uma ferramenta de integração dos povos, só se conquista como resultado do povo organizado, integrado com outros meios de comunicação de esquerda”, afirma Judite Stronzake, da Via Campesina brasileira.

Na Argentina, a luta da sociedade ao governo Enrique Dordal

de Assunção (Paraguai) Desde 1983, comunicadores estão na luta para substituir a lei de mídia do período ditatorial na Argentina. De acordo com a nova lei radiofônica, aprovada recentemente, movimentos sociais têm direito a um terço do espaço no espectro radiofônico do país. Cerca de 50 mil pessoas protestaram contra a ameaça de que a medida fosse derrubada.

A nova lei de difusão radiofônica apresenta 21 pontos básicos, apresentados à presidente Cristina Kirchner ainda em abril de 2008, que levou a lei ao Congresso em março de 2009. Desde então 25 fóruns foram abertos no país. “A primeira mobilização levou cerca de 15 mil pessoas à frente da Casa Rosada e não teve um minuto de apresentação nos meios”, conta Nés-

Néstor Busso, do Conselho Federal de Comunicação da Argentina

tor Busso, representante do Conselho Federal de Comunicação da Argentina. Após receber mais de cem emendas no congresso, a imensa maioria dos parlamentares votou pela lei, sendo que a oposição se retirou da votação. Na voz de Busso, a lei já está em vigência. Até o momento, a corte jurídica negou o direi-

to de legitimidade para retirar a lei. Entre 50 e 70 mil pessoas foram às ruas para defender a sua validade. Para Busso, a iniciativa jurídica abre caminhos, mas a democratização ainda é um horizonte. “A lei não muda a realidade. Na Argentina, a ela produziu os instrumentos para que a mudança se produza”, reflete. (PC)


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