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BDF_389

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Circulação Nacional

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 8 • Número 389

São Paulo, de 12 a 18 de agosto de 2010

R$ 2,80 www.brasildefato.com.br José Cruz/ABr

Eleições nos estados não refletem disputa PT x PSDB Enquanto a disputa entre José Serra e Dilma Rousseff se acirra, no âmbito estadual o jogo não segue a mesma lógica, já que PT e PSDB cederam a cabeça de chapa a aliados. Para o sociólogo Rudá Ricci, a situação reflete a falta de estrutura do sistema político brasileiro. Pág. 3

Governos mais progressistas devem ser o modelo na AL “Mais democracia, qualidade de vida, soberania e integração”. Assim Valter Pomar, secretário-executivo do Foro de São Paulo e militante do Partido dos Trabalhadores (PT), avalia os resultados da presença de governos progressistas na América Latina. Em entrevista, ele comenta a perda de terreno da direita na década de 1990, comparada com a anterior, e descarta a possibilidade de um conflito armado hoje. Pág. 11

Militantes do MST protestam diante do Congresso, em Brasília, pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo

“Temos a obrigação política de derrotar Serra”, afirma Stedile Em entrevista, João Pedro Stedile defende que a campanha de José Serra (PSDB) representa o núcleo central dos interesses da burguesia e a volta do neoliberalismo no Brasil. Nesse sentido, o membro da direção nacional do MST avalia que, “como militantes sociais, temos a obrigação política de derrotar” o tucano

nas eleições de outubro. Ainda que o MST não defenda abertamente nenhuma candidatura, Stedile entende ser preciso casar a luta social e a institucional. Na entrevista, ele ainda comenta a conjuntura política internacional e latino-americana, a crise econômica, a situação da esquerda brasileira e o governo Lula. Págs. 4 e 5

Airton Dantas

Southbank Centre

Cuba,

US Army

Venezuela

na mira dos EUA

ontem e hoje

Pág. 9

Pág. 10

Festival Brazil reforça estereótipos

Pelo controle social da publicidade Setores da sociedade exigem fiscalização mais rígida

ISSN 1978-5134

A legislação brasileira para a publicidade ainda sofre de uma desregulamentação que permite um “liberou geral” no setor. De acordo com especialistas, a publicidade pode exercer um papel nefasto na vida das pessoas, estimulando o consumo supérfluo e vendendo imagens enganosas. “Alguém que está com

problema na área afetiva vê o comercial de cerveja no qual a pessoa bebe e encontra a sua cara-metade. Isso vai produzir alguma influência na saúde emocional daquela pessoa”, exemplifica a psicóloga Noeli Godoy, do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro. O órgão responsável por fiscalizar o setor no Brasil

é o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que é composto por entidades patronais. O Conar é alvo de críticas de especialistas por sua permissividade. Os anúncios considerados mais críticos são os de remédios e alimentos e os direcionados ao público infantil. Págs. 6 e 7

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Pág. 8


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de 12 a 18 de agosto de 2010

editorial ESTAMOS HÁ cerca de 50 dias das eleições mais importantes da vida institucional do país. Vamos eleger presidente da República, senadores, deputados federais, governadores estaduais e os parlamentares das assembleias legislativas estaduais. Não há, no entanto, um clima de debates de ideias e de agitação política na sociedade. Parece que as campanhas eleitorais estão engessadas, moldadas por uma legislação que impede uma participação popular mais ativa. Limita comícios e atividades de agitação política próprias da natureza do processo. A burguesia brasileira reduziu a campanha eleitoral à propaganda na televisão, a marketing de pessoas – não de programas – que dependem de esquemas econômicos muito caros. A compra de cabos eleitorais – “militância” paga e material de propaganda sofisticados – se tornou um fato normal. Com isso, tem mais vantagem os candidatos que conseguem maiores arrecadações de recursos, junto a empresas, bancos etc., em mecanismos no mínimo promíscuos para quem deseja ocupar cargos públicos e administrar volumosos recursos do povo. Com isso, transformam a campanha num grande mercado eleitoral, no qual tudo se compra, tudo se paga. Ou seja, não existem mais cabos eleitorais motivados por ideologia ou programas; não existe mais trabalho voluntário de campanha; não existe mais os métodos populares de debate de ideias, de convencimento, de disputa e agitação política entre militantes e a população em geral. Nesse cenário, há também o componente do período histórico que

debate

Elementos determinantes da campanha eleitoral vivemos. A classe trabalhadora brasileira vivencia uma longa etapa de refluxo do movimento de massas, que vem desde a derrota político-ideológica para o neoliberalismo e a vitória dos governos Collor-FHC. Então, há muita confusão ideológica e divisionismo, pela derrota política sofrida pela esquerda e pelo abandono das ideias socialistas por muitos setores que levam a desvios oportunistas entre candidatos de todo tipo. Além disso, há uma desarticulação política das organizações de massa, que reduziram seus programas. Embora, justiça seja feita, houve tentativa de diversos segmentos organizados para discutir programas para o país. Nesse sentido é louvável o esforço da CUT e de outras centrais sindicais, que produziram uma proposta de governo que está mais à esquerda do que os programas dos partidos. Também é louvável o esforço da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS) em costurar um programa de desenvolvimento nacional com a ótica dos trabalhadores, uma espécie de programa mínimo. E foi importante o esforço da Assembleia Popular em debater e produzir um programa de longo prazo, baseado no espírito do Brasil que precisamos. Porém, todas essas iniciativas, importantes, não conseguiram ainda influenciar e determinar o debate entre

os candidatos, em todos os níveis. Condicionantes do melhorismo O cientista político André Singer defendeu – em entrevista publicada na edição 374 do Brasil de Fato – algumas hipóteses que podem nos ajudar a entender o que estaria acontecendo com as massas. Segundo ele, a principal base social do governo Lula e de sua candidata, Dilma, seria agora um subproletariado, que é a maior parte da classe trabalhadora brasileira. Mas que não tem tradição de organização nem consciência da luta de classes. Melhorou suas condições de vida, o que o leva a apoiar o governo e sua candidata, mas sem querer disputa e conflitos. É a letargia das massas que apoiam o melhorismo. E são a maioria da população. As candidaturas a presidente Entre as candidaturas a presidente, o cenário, seus atores e o script já estão definidos. Não estão em jogo programas de partidos. As siglas estão mescladas e, às vezes, juntam interesses oportunistas e até antagônicos. Tampouco estão em jogo as biografias pessoais, ou compromissos com a classe trabalhadora e os mais pobres. O que está posto são forças sociais que se alinharam com este ou aquele candidato, e isso está determinando o resultado eleitoral, cujo desenlace terá poucas mudanças

até o dia 3 de outubro. Como afirma João Pedro Stedile em entrevista (págs. 4 e 5), atrás da candidatura Serra estão as forças do capital mais atrasadas e subservientes ao império. Os grandes bancos, a grande indústria paulista, o latifúndio atrasado de Kátia Abreu e o agronegócio “moderno” do etanol. Seu programa é um só: a volta do mercado, benefícios para as empresas e a repressão para conter as demandas sociais. Seria a prioridade no programa dos PPPs já aplicado em São Paulo: privatizações, pedágios e presídios. A candidatura Dilma representa a continuidade do governo Lula e tem forças sociais entre a burguesia mais lúcida (temerosa da reação das massas), setores da classe média que melhoraram de vida e amplos setores da classe trabalhadora. Praticamente todas as forças populares organizadas têm sua base social apoiando a candidata petista. A candidatura Marina, apesar de seus vínculos passados com o PT e o governo Lula, não conseguiu sensibilizar a classe trabalhadora e reúne apenas forças sociais representadas por setores ambientalistas da classe média urbana dos grandes centros. E por isso seu potencial eleitoral é muito pequeno. E, por fim, temos três candidaturas de partidos de esquerda, com três lutadores do povo, de compromisso his-

Os movimentos sociais Os movimentos sociais em geral, e em particular a Via Campesina, que sustentam a proposta do jornal Brasil de Fato, têm adotado uma postura política de evitar adesões explícitas a candidaturas. Mas todos eles manifestaram publicamente a decisão política de não medirem esforços para derrotar a candidatura Serra. A vitória do tucano seria a volta do neoliberalismo e do desprezo aos movimentos sociais. Quem tiver dúvida basta analisar o que foram os 16 anos de governo tucano em São Paulo. E nisso o candidato Serra tem sido honesto. Quando perguntado pelo Jornal da Band o que acha do MST e da reforma agrária, respondeu secamente que iria criar o Ministério da Segurança Nacional. Mais claro impossível. As forças que o sustentam são a burguesia mais reacionária e corrupta desse país. E, certamente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos está torcendo muito por sua vitória, para, com isso, alterar a correlação de forças na América Latina e fazer com que a bússola se mova para a direita e para o norte. Por todos esses elementos, o nosso jornal se soma à decisão política dos movimentos sociais que o sustentam de contribuir para a derrota de Serra, torcendo para que haja mudanças progressistas em todos os níveis das eleições. E que se reative o clima de debate de programas e de ideias na sociedade brasileira.

homenagem

Antonio Lassance

O sorriso de Biondi A TELEBRÁS está de volta. Desde o dia 3 de agosto, ela retornou às operações. Seus antigos funcionários foram reconvocados e têm pela frente o desafio de reerguer a empresa, demonstrar a excelência do serviço público e, mais especificamente, implementar o Plano Nacional de Banda Larga. Quando se informou que a Telebrás seria reativada, houve uma grita de algumas empresas de telefonia e um ataque feroz da mídia tradicional. Ressuscitar a estatal foi tratado como verdadeira heresia. Na crítica mais amena, um disparate. A volta da Telebrás não apenas provocou a ira do liberalismo como representou uma derrota amarga, pois incidiu no setor que até hoje é apresentado como modelo do processo de privatização e das benesses dele decorrentes. O tratamento dado ao tema mais uma vez foi acometido de uma patologia crônica, apontada por diversos estudiosos da mídia: a falta de contextualização ou mesmo a descontextualização de um assunto. Uma falta de contextualização primária esteve na ausência de um diagnóstico sobre o setor, que sabidamente oferece serviços caros e de péssima qualidade. Suas empresas são campeãs de reclamações de usuários e de ações junto aos órgãos de defesa do consumidor. Outra falta de contextualização, ainda mais importante, está em que poucos se deram ao trabalho de trazer à tona a história da Telebrás e de seu processo de privatização. Lacuna curiosa, pois, afinal, a quem interessaria relembrar tal passado? Resposta: interessaria à maioria das pessoas, aos que têm e aos que não têm acesso aos serviços de telecomunicação. Até hoje, a melhor forma de contar essa história e travar a batalha da memória contra o esquecimento é revisitar o livro de Aloysio Biondi, O Brasil privatizado: um balanço do desmonte do Estado. O livro teve sua primeira edição em 1999. Sua 11ª edição se encontra disponível, gentil e gratuitamente, no site da Editora Fundação Perseu Abramo: http://www2.fpa.org.br/uploads/Brasil_ Privatizado.pdf Biondi, como se sabe, foi um monstro sagrado do jornalismo brasileiro, grande mestre do jornalismo econômico. Faleceu há 10 anos (em julho de 2000). O Brasil privatizado abria seu capítulo “As estatais: sacos sem fundo?” justamente falando da Telebrás. Biondi relembrava que, entre 1996 e 1997, a empresa teve um salto de 250% em seu lucro, desmentindo categoricamente a mensagem fabricada de que as estatais só davam prejuízo. No livro que tornou-se um clássico para a compreensão sobre o que fizeram com o Brasil nos anos 1990, Biondi contextualizava que tanto os prejuízos quanto os lucros das estatais tinham sido fabricados para atender a interesses muito bem identificados. Dizia ele: “Os prejuízos que o achatamento de tarifas e preços trouxe para as estatais tiveram efeitos que o consumidor conhece bem:

tórico com a classe trabalhadora. Mas nenhum deles conseguiu aglutinar força social organizada. E isso impede progressos eleitorais.

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15 anos sem Florestan Reprodução

nesses períodos, elas ficaram sem dinheiro para investir e ampliar serviços. Explicam-se, assim, as filas de espera para os telefones, ou as constantes ameaças de “apagões” no sistema de eletricidade. Ou, dito de outra forma: não é verdade que os serviços das estatais tenham se deteriorado por “incompetência”. Como também é mentira que “o Estado perdeu sua capacidade de investir”, como diz a campanha dos privatizantes. O que houve foi uma política econômica absurda, que sacrificou as estatais.” (pág. 30). Lembrava ainda de uma decisão incrível: em 1989, um decreto do presidente da República proibia o BNDE (hoje BNDES) de realizar empréstimos a empresas estatais. Biondi era um “antifukuyama”. Só para lembrar, Fukuyama foi um dos garotos-propaganda do neoliberalismo, muito badalado durante o governo Reagan, autor de uma tese espalhafatosa sobre o “fim da história” e da vitória do capitalismo sobre tudo e sobre todos. Hoje, se alguém fizer um Google sobre os “Francis” existentes na face da Terra, Fukuyama sequer aparece nas sugestões do motor de busca. Fica atrás de Francis Bacon, Francis Ford Copola, Francisco Cuoco e Francisco Alves. Indício de que quem corre o risco de desaparecer é o próprio Fukuyama. Enfim, Biondi desmentia a tese do fim da história, mostrando que a moda era tentar “cancelar” a história. Contextualizava a esdrúxula decisão que proibia o BNDE de financiar empresas estatais lembrando ter sido ele criado “exatamente com o objetivo de fornecer recursos para a execução de projetos de infraestrutura, que exigem desembolso de bilhões e bilhões – e precisam de alguns anos para sua execução” (pág. 30). A memória do texto de Biondi é mais uma vez útil a um momento em que o BNDES também se tornou alvo de ataques violentos e virulentos à gestão de Luciano Coutinho, veja só, por fazer exatamente aquilo para o qual o banco existe: levantar investimentos e fazer financiamentos. Biondi também usou o exemplo da Telebrás para relembrar uma diferença básica do setor público em relação ao privado: além de prestar serviços, as estatais deveriam ser utilizadas com o objetivo de justiça social. Tais empresas não têm como objetivo fundamental o lucro,

nem têm como sina acumular prejuízos. Seu objetivo fundamental é garantir o atendimento à população em serviços essenciais. O fato de que muitas vezes acumularam prejuízos, além das malversações que acompanharam algumas de suas gestões, decorria das condições de desigualdade do país. A pobreza criava um obstáculo sério ao modelo de negócio de muitas estatais. Milhões de brasileiros excluídos do mercado interno de massas por um modelo de desenvolvimento excludente não tinham como contratar serviços em níveis que garantissem a rentabilidade de certas empresas estatais. Por isso, na atual situação do país, de expansão acelerada do mercado interno de massas, de ascensão de um contingente expressivo de pessoas à classe média e da tendência de crescimento da economia, do emprego e da renda dos brasileiros, o discurso contra as estatais está obsoleto. É como o relógio quebrado que homenageia a nostalgia e a ostentação, mas é incapaz de fornecer uma informação correta. As estatais, diante do novo quadro econômico, já podem se dar ao luxo de serem extremamente lucrativas. Mas estão longe de constituir uma ameaça ao setor privado. Elas podem atuar em atividades nas quais empresas privadas têm demonstrado dificuldades crônicas em dar conta do recado ou, como no caso da Petrobras, podem funcionar como grandes alavancas do crescimento econômico, responsáveis por irrigar inúmeras cadeias produtivas que sequer existiam, ou que tinham sido desativadas. Passados dez anos desde que perdemos Aloysio Biondi, tem-se a exata dimensão da importância daquilo que ele nos mostrou e de sua contribuição para reverter a cegueira que tomava conta do país. Me arrisco a dizer que, se vivo estivesse, o autor daquele texto célebre e indignado estaria tomado por um sorriso satisfeito com a volta dos elefantes. Até porque, “três elefantes incomodam, incomodam... incomodam muito mais”. (Carta Maior: www.cartamaior.com.br) Antonio Lassance é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e professor de Ciência Política.

Há 15 anos, no dia 10 de agosto de 1995, morria Florestan Fernandes, uma referência continental no desenvolvimento metodológico e científico da Sociologia. Paulista, nascido em 1920, filho de migrantes portugueses, deixou mais de 50 obras escritas. Foi deputado federal constituinte, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, e professor rigoroso. De origem humilde, fez de tudo na vida, trabalhando e ajudando a sobrevivência familiar, até romper as barreiras elitistas da USP (Universidade de São Paulo) e se tornar seu aluno, professor e, mais tarde, um mestre de referência. Sempre manteve a coerência ideológica e compromisso com a classe trabalhadora. Punido pela ditadura militar, amargou o exílio. Voltou ao Brasil e continuou a luta em defesa da classe. É sem dúvida o mais importante intelectual orgânico do século 20. Bebeu na fonte dos clássicos e estudou com profundidade as classes sociais na sociedade brasileira. Defendeu com coragem a necessidade de uma verdadeira revolução social, que pudesse construir uma sociedade com justiça e igualdade em nosso país. O povo brasileiro, a classe trabalhadora, os movimentos sociais e os intelectuais orgânicos – todos os que desejamos mudanças na sociedade brasileira – ficamos de luto. Seu legado, no entanto, nos anima a continuar a luta. Florestan defendeu como ninguém a importância da educação, da formação da consciência de classe e do acesso ao conhecimento como uma necessidade da classe trabalhadora para se libertar da humilhação, discriminação, opressão e exploração imposta pelos ricos e poderosos. O MST se orgulha de ser um dos seus seguidores e de ter aprendido muito com seus escritos e com seu exemplo. Por isso nossa escola nacional de formação de quadros, localizada em São Paulo, se chama Escola Nacional Florestan Fernandes. Florestan Fernandes segue vivo, por sua obra e exemplo de vida. “Contra a intolerância dos ricos, a intransigência dos pobres”! Direção nacional do MST.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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brasil

Eleições estaduais: tudo pela governabilidade POLÍTICA Rivais nacionais se aliam em plano estadual; e PT e PSDB abrem mão de cabeças de chapa Valter Campanato/ABr

Renato Godoy de Toledo da Redação EM 1986, a alta popularidade do recém-lançado Plano Cruzado promoveu a maior vitória eleitoral que um partido já apresentou em termos de governos estaduais. À época, o PMDB levou quase todos os estados brasileiros. O então PFL venceu apenas em Sergipe, e o PDS faturou o Distrito Federal. Hoje, o governo apresenta uma popularidade comparável à do Plano Cruzado na época do pleito de 1986, no entanto, não há indícios de que aquela transferência de votos seja reeditada. A peculiaridade deste próximo processo eleitoral é o fato de os partidos que encabeçam as candidaturas favoritas, PT e PSDB, não terem tanto peso nas disputas estaduais quanto nos anos anteriores. Para consolidar alianças em nível nacional, o PT optou por ceder a cabeça de chapa para aliados, como PSB e PMDB. Os partidos que compuseram a extinta Frente de Esquerda – que apoiou Heloísa Helena à presidência da República em 2006 – são os que possuem o maior número de candidaturas. Justamente por não terem reeditado a aliança, Psol, PSTU e PCB lideram a lista de postulantes aos governos estaduais.

“As alianças eleitorais, sem nenhum critério programático ou no campo da grande política, condenam as eleições ao jogo da pequena política” Despolitização

O cenário que aponta para uma polarização na disputa presidencial não é refletido no plano estadual, portanto. O aparente acirramento que se dá entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) é diluído na esfera regional. Sem a verticalização das candidaturas, criou-se uma série de peculiaridades como o

A candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, participa da convenção do PMDB que oficializou a indicação de Michel Temer como seu vice

“PMDB governo” (no Rio de Janeiro e Maranhão) e o “oposição” (em São Paulo e Rio Grande do Sul). O símbolo da confusão política nessas eleições é o PTB. A legenda integra a base governista e a coligação de Serra ao mesmo tempo. Mas esse cenário não impede que Fernando Collor, favorito ao governo alagoano, declare apoio a Dilma. Para analistas, o fato de os maiores partidos abrirem mão de candidaturas revela um processo despolitizado e fisiológico. “As alianças eleitorais, sem nenhum critério programático ou no campo da grande política, condenam as eleições ao jogo da pequena política. Acabam prevalecendo os caciques locais, os chefes políticos com mais chances eleitorais, os acertos e trocas de favores diante das possibilidades de financiamento de campanha, como se vê na aliança de Marina Silva, do PV, com PSDB e DEM no Rio”, aponta Mauro Iasi, historiador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“O lulismo desmontou o sistema vigente, e a consequência é que lideranças partidárias são maiores que seus partidos” Para Rudá Ricci, sociólogo do Instituto Cultiva, a preferência que os partidos majoritários têm dado aos aliados explicita um fisiologismo arraigado. “É uma situação das mais instigantes e peculiares. A polarização entre lulismo e tucanos paulistas levou a uma espécie de ‘tudo ou nada’ para os dois lados. Veja que não é efetivamente o interesse de seus partidos. Serra joga um tudo ou nada para se manter como cacique tucano. Se perder, encerra sua carreira política e, possivelmente, o eixo da direção tucana sai também de São Paulo. Portanto, para os dirigentes paulistas do PSDB, o que interessa é vencer em São Paulo e ganhar as eleições presidenciais. No caso do lulismo, o interes-

DEM pode sumir do mapa, conservadorismo, não Outrora dominante, ex-PFL corre o risco de não eleger nenhum governador da Redação O Democratas (DEM, ex-PFL) atravessa sua maior crise desde a redemocratização do país. Nas últimas eleições estaduais, elegeu apenas um governador, José Roberto Arruda, que saiu do comando do Distrito Federal direto para a cadeia. O partido é o principal herdeiro da Aliança Renovadora Nacional (Arena), que sustentava a ditadura civil-militar. Recentemente, o partido quase ficou de fora da aliança com o PSDB, do qual é aliado desde 1994. Nas pesquisas eleitorais mais recentes, o DEM aparece em primeiro apenas no Rio Grande do Norte, com Rosalba Ciarlini. Há sinalizações de que o partido pode ir ao segundo turno em dois estados, mas a tarefa é árdua. Em Santa Catarina, enfrentam a sempre favorita família Amin (PP) e, no Sergipe, o atual governador Marcelo Deda (PT). Assim, o Brasil estaria prestes a presenciar um momento histórico. Com exagero, diz-se que o DEM está no poder desde a chegada das caravelas, mas agora corre o risco de existência.

De acordo com o sociólogo Rudá Ricci, a direita brasileira não está mais representada nos partidos, portanto, o eventual fim do DEM não significa a morte do conservadorismo ou do neoliberalismo no país. “O pensamento conservador ainda é dominante no sistema partidário. O que quero afirmar? Que não podemos nos enganar: não existe um partido de direita no Brasil (possivelmente o DEM sumirá ou se fundirá com outro partido após outubro), mas o pensamento conservador e até reacionário continua imperando na cultura política nacional. Se infiltrou em vários partidos que antes eram declaradamente de esquerda. Vários deles se tornaram o partido da ordem. E defendem uma agenda social-liberal. É esta natureza conservadora que propicia a aproximação de líderes que são de partidos adversários. Porque, de fato, só são diferentes enquanto pessoas físicas. Como pessoas jurídicas são muito próximos”, compara. Modernização

Para o historiador Mauro Iasi, o DEM está sendo superado pelas mudanças do capitalismo brasileiro. Ele afirma que o partido representa o “fisiologismo das camadas mais retrógradas” e não está resistindo à “modernização da sociedade burguesa no Brasil”. “A modernização do domínio burguês exige outras tarefas das representações políticas, inclusive um grau de legitimação perante os ex-

se é eleger Dilma. Não é exatamente o interesse do PT, como vimos em vários estados, incluindo Minas Gerais e Maranhão, para citar apenas dois”, analisa. Sistema desestruturado

Ricci avalia que o fato de a popularidade do governo não se refletir em plano estadual, tal como em 1986, é consequência da desestruturação do sistema político-partidário brasileiro. “O lulismo desmontou o sistema vigente, e a consequência é que lideranças partidárias são maiores que seus partidos. Este é o caso de Aécio Neves no PSDB, Lula no PT, Marina no PV, e assim por diante. Temos, ainda a emergência de um eleitorado mais informado e exigente, mais

individualista. Metade da população brasileira é classe C. Eles são ciosos por manter sua ascensão social. O que quero dizer é que não temos mais os currais eleitorais que transferiam votos. O que temos é uma espécie de eleitor médio que avalia individualmente os candidatos e tenta se certificar das vantagens e garantias que terá”, explica. Ainda segundo o sociólogo, as disputas estaduais são muito influenciadas por fatores locais, sobretudo em termos da comunicação, controlada por poucas famílias. “As eleições atuais dependem da televisão e da rede de operadores políticos regionais. Esses operadores são mais que os velhos cabos eleitorais; eles influenciam na avaliação e interpretação do que se vê na televisão. Tudo para dizer que a competição entre candidaturas é muito mais individualizada e profissional que antes. Se o candidato fosse Lula, a eleição (todos sabemos) já estaria decidida”, aponta.

Governistas devem ganhar força PMDB, PSB e PT lideram 15 estados; PSDB, 5 Valter Campanato/ABr

plorados, por isso os ‘liberais’ do DEM foram subordinados aos tucanos na aliança conservadora de direita. Estes, por sua vez, têm dificuldade em disputar o comando político do projeto capitalista no Brasil contra o estilo centrista de Lula e seu verniz social baseado em iniciativas focalizadas e fragmentadas”, avalia.

“O velho estilo do caciquismo político fisiológico do DEM mudou de forma e de ator, mas mantém sua essência na manipulação de massas desorganizadas” De acordo com o historiador, apesar da diminuição da influência do partido, suas práticas tradicionais ainda não saíram de cena. “O velho estilo do caciquismo político fisiológico do DEM mudou de forma e de ator, mas mantém sua essência na manipulação de massas desorganizadas através de demandas imediatas e localizadas que não se articulam a um projeto de transformação social, perpetuando a ordem capitalista e seus fundamentos”, pontua. (RGT)

O presidente do Senado, José Sarney, e sua filha, Roseana

da Redação A “boa vontade” do PT com seus aliados até o momento parece ter surtido efeito. Nos estados em que abriu mão de candidatura própria, seus coligados aparecem como favoritos nas pesquisas. Como é o caso do Maranhão, com Roseana Sarney (PMDB), e Minas Gerais, com o também peemedebista Hélio Costa. O partido deve reeleger o governador da Bahia, Jacques Wagner, mas corre risco de perder o governo do Pará, segundo as pesquisas. Em um eventual governo Dilma Rousseff, a presidenta teria um conjunto de governadores favoráveis à sua gestão, pelas indicações. No entanto, o PT não seria a principal força desse bloco governista nos estados. O PSDB tem chances de eleger cerca de cinco governadores, con-

figurando-se como o maior partido da oposição. O ex-governador Joaquim Roriz (PSC) aparece em primeiro nas pesquisas do Distrito Federal, mas sua candidatura ainda não está confirmada, já que foi impugnada pela Lei Ficha Limpa. Nesse caso, o principal beneficiário seria o ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz (PT). Outro partido governista bem cotado no pleito é o PSB, que surge como favorito para manter os governos do Ceará e Pernambuco e ainda ganhar no Espírito Santo. Para Rudá Ricci, essa ampliação dos partidos governistas não trará mais poder a essas legendas. “O poder seria dos governadores eleitos, não de seus partidos. O sistema partidário brasileiro é um dos mais frágeis da América Latina e é tema de toda uma literatura regional”, define. (RGT)


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brasil Reprodução

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Lucro máximo

Concessionária da distribuição de energia elétrica na Grande São Paulo, a empresa estadunidense AES Eletropaulo aumentou abusivamente seu lucro no segundo trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2009. Embolsou R$ 466 milhões graças ao reajuste das tarifas de 14,9% no último ano – muito mais do que os índices de inflação e de reajuste dos salários. Quem deixa empresa estrangeira ter tanto lucro com energia elétrica?

Privilégio – 1

O ministro Paulo Medina, do Superior Tribunal de Justiça, foi pego pela Polícia Federal em crime gravíssimo: a venda de uma sentença por R$ 1 milhão para liberar 900 máquinas caça-níqueis apreendidas em Niterói (RJ). Julgado pelo Conselho Nacional de Justiça, foi punido com aposentadoria compulsória, vai receber R$ 25 mil por mês sem trabalhar. Será que a Justiça vai aplicar a mesma punição para todo mundo que praticar algum crime?

Privilégio – 2

Não satisfeitos com o salário-base de R$ 26.723 por mês, os ministros do Supremo Tribunal Federal estão pedindo reajuste de 14,8% nos seus vencimentos, que devem passar para R$ 30.675 a partir de janeiro. Esse valor equivale a 60 vezes o salário mínimo atual, sem contar que a maior parte dos reajustes dados aos trabalhadores não passou dos 6% em 2010. É por estas e outras que a desigualdade continua sendo a principal marca do país.

Ação mexicana

O lobby parlamentar das empresas estrangeiras de comunicação e telefonia quer mudar ainda este ano a Lei do Cabo, especialmente para permitir que essas empresas assumam o controle do setor, o que está proibido pela legislação em vigor. É o caso da NET, que pertence oficialmente à Rede Globo, mas tem contrato de gaveta para transferir o controle ao grupo Embratel, do mexicano Carlos Slim, assim que a lei for modificada.

Divisão eleitoral

Unidos na campanha eleitoral de 2006, três partidos de esquerda disputam agora a presidência da República com candidatos próprios: PSol, com Plinio Arruda Sampaio; PCB, com Ivan Pinheiro; e PSTU, com José Maria. O desafio de todos é conquistar algumas cadeiras nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Espera-se que após as eleições voltem a atuar nas lutas sociais articuladamente!

Não trabalho

Na revista Carta Capital de 11 de agosto, o ex-presidente do BNDES Carlos Lessa abre o jogo sobre o resultado dos juros altos: “Os grandes bancos privados brasileiros cresceram, em termos reais, 11% ao ano durante os anos FHC. E passaram a crescer 14% ao ano durante o governo Lula”. É muito mais do que o crescimento médio dos setores industriais e produtivos. Segundo ele, “o que cresce no Brasil é o rendimento do não trabalho”.

Mobilização já

Moradores de Niterói desabrigados pelas enchentes de quatro meses atrás, cansados da enrolação das autoridades sobre as demandas por moradias populares, decidiram realizar seguidas manifestações na praia de Icaraí, a mais frequentada pelas elites locais. No dia 16, vão protestar contra a construção de uma torre de 60 metros de altura, com vista panorâmica para o Rio de Janeiro, e que consumirá R$ 20 milhões dos cofres públicos.

Clientela VIP

Vários setores da sociedade têm criticado a atuação do BNDES nos últimos anos, seja por concentrar empréstimos subsidiados (com juros abaixo do mercado) para alguns grupos empresariais nacionais, ou por repassar dinheiro público para empresas estrangeiras. A denúncia mais chocante contra o banco é a de um empréstimo sem cobrança de juro para um grande frigorífico do país. Pura transferência de renda!

Droga suspeita

Usados largamente para evitar e curar ressaca de bebida alcoólica, os medicamentos Engov e Metiocolin estão sendo analisados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária por determinação da Justiça Federal. A alegação é que os dois medicamentos não são hepatoprotetores como consta da propaganda aos consumidores. O resultado da análise da Anvisa pode suspender os dois produtos por 180

Raquel Júlia do Rio de Janeiro (RJ) MUNDIAL de Futebol, África do Sul. Em todo o mundo, a estimativa é de que 33 bilhões de pessoas tenham assistido aos jogos via televisão. Além do hino nacional, a escalação dos jogadores, os gols e a torcida, os telespectadores assistiram também a outras imagens – as que vendem produtos, serviços e mensagens, por meio da publicidade. Mas há quem questione a publicidade como vigora hoje, praticamente sem regulamentação. Para a psicóloga Noeli Godoy, do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, o problema é que a propaganda não vende apenas os produtos, mas a solução enganosa de dificuldades que eventualmente os telespectadores possam ter. “A publicidade incute não só o produto, mas a ideia de que o produto pode suprir a necessidade que você tem em alguma área da sua vida. Por exemplo, alguém que está com problema na área afetiva vê o comercial de cerveja, no qual a pessoa bebe e encontra a sua cara metade. Isto é o que vai produzir alguma influência na saúde emocional daquela pessoa”, exemplifica. Atualmente, existem poucos mecanismos para se controlar a publicidade no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é responsável por regulamentar e fiscalizar as propagandas de medicamentos, cosméticos, saneantes, alimentos e produtos para a saúde. A regulamentação de outros tipos de publicidade fica a cargo do próprio setor, por meio do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que reúne empresas de mídia, agências de propaganda e organizações de anunciantes.

“Justamente nos horários de programação infantil há a veiculação de propagandas que estimulam a alimentação com baixo teor nutricional” Publicidade e saúde Trazendo essa discussão para o campo da saúde, a professora-pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/ Fiocruz) Bianca Marins estuda como as propagandas de alimentos podem enganar o consumidor. Ela analisou peças publicitárias de produtos com fins especiais, como dietéticos ou aqueles destinados a lactantes. Bianca dá um exemplo: há alimentos cujas peças publicitárias

acentuam a existência de componentes que já são inerentes àquele produto, como vitaminas. “É como se, ao consumir aquele produto, a vida do indivíduo pudesse ser mudada, como se fosse uma pílula milagrosa”, comenta.

“É fundamental que a mídia crie espaços de discussão coletiva sobre seu modo de funcionar e interagir com o público” Para a pesquisadora, é difícil incentivar a população a hábitos saudáveis de alimentação se a publicidade de alimentos não auxilia neste processo. “Justamente nos horários de programação infantil há a veiculação de propagandas que estimulam a alimentação com baixo teor nutricional, ou que fazem uma visão distorcida. Por exemplo, dizem: ‘já que seu filho não come determinada verdura ou legume, faça uso de determinado produto’. Isso precisa ser discutido”, opina. No dia 29 de junho, a Anvisa publicou uma nova resolução sobre a publicidade de bebidas com baixo teor nutricional e alimentos com elevadas quantidades de açúcar, sódio, gordura saturada ou trans. As empresas têm até 180 dias para se adequar. De acordo com a determinação, as peças publicitárias em todas as mídias devem trazer alertas sobre os riscos do consumo excessivo desses produtos. No caso de alimentos com muito açúcar, por exemplo, a propaganda em qualquer mídia deve ter a frase: “O (marca comercial) contém muito açúcar e, se consumido em grande quantidade, aumenta o risco de obesidade e de cárie dentária”. Consumo de medicamentos “A persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”, dizem as propagandas de medicamentos no rádio, TV e mídia impressa. Por meio da resolução

96, de 17 de dezembro de 2008, a Anvisa tornou essa inscrição obrigatória. O pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) Álvaro Nascimento, que já estuda a publicidade de medicamentos há quase dez anos e é autor do livro Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado: isso é regulação?, afirma que, na realidade, os dizeres não adiantam. “O que é efetivamente dito a cada anúncio é o seguinte: compre primeiro, tente sozinho e, caso os sintomas persistam, procure um médico. Não é à toa que essa exigência do modelo regulador é uma das mais respeitadas pelo marketing farmacêutico. Na verdade, a frase estimula pelo menos o primeiro consumo”, critica. Álvaro lembra que o uso irracional e abusivo de medicamentos, influenciado pela publicidade, tem feito com que os produtos sejam o principal agente de intoxicação humana oficialmente registrado no Sistema Único de Saúde (SUS). O pesquisador comenta que os dados mais recentes, relativos a 2007, revelam mais de 34 mil episódios de intoxicação por medicamentos. “Se retirarmos os 15.119 casos de tentativas de suicídio, teremos 18.909 casos de intoxicação por medicamentos, considerando exclusivamente as pessoas que buscaram no medicamento uma forma de prevenir e tratar doenças ou recuperar a saúde. Se dividirmos pelos 365 dias do ano, são quase 52 casos por dia, ou seja, um caso oficialmente registrado a cada 30 minutos”, destaca. Ele alerta que o número pode ser ainda mais assustador, já que há que se considerar uma subnotificação dos casos de intoxicação e também que os dados se referem apenas aos atendimentos no SUS. A Anvisa determina que só pode haver publicidade de produtos registrados na própria agência e, no caso de medicamentos, apenas daqueles que não exigem prescrição médica para a comercialização, ou seja, os que não possuem tarja vermelha ou preta nas embalagens. De acordo com a gerente de monitoramento e fiscali-

Veja como são as legislações em outros países Austrália – Propagandas de bebidas só podem ser veiculadas após às 20h30min. Bélgica – É proibida a publicidade cinco minutos antes e depois dos programas infantis. Canadá – É proibida a publicidade de medicamentos e de produtos farmacêuticos, exceto creme dental com flúor. Na província de Quebec, é proibida qualquer publicidade de produtos destinados às crianças de até 13 anos, em qualquer mídia. Estados Unidos – Cada canal fica limitado a exibir dez minutos e 30 segundos de publicidade por hora nos finais de semana e de 12 minutos por hora nos dias de semana. Noruega – É proibida a publicidade de produtos e serviços direcionados às crianças com menos de 12 anos. Suécia – Nenhuma publicidade destinada ao público infantil pode ser veiculada antes de 21h.

Fonte: Instituto Alana

zação de propaganda da Anvisa, Maria José Delgado, há um avanço significativo no cumprimento da legislação desde 2000, quando a agência começou a monitorar a publicidade. Em parceria com universidades públicas, a Anvisa monitora peças publicitárias veiculadas em todo o país. “A legislação brasileira permite fazer propaganda de medicamento sem anuência prévia. Com esse cenário, é possível ver que o avanço foi grande desde a resolução 96. Antes de 2000, nós tínhamos peças puramente comerciais. A partir do primeiro regulamento, que é o 102, do mesmo ano, nós passamos a ter informações nas peças publicitárias que fizeram alguma modificação naquilo que era puramente comercial”, fala.

“No Brasil, é um ‘liberou geral’. O Conar não regulamenta nada, é totalmente permissivo” A Anvisa recebe também denúncias por parte da população, das próprias indústrias que denunciam umas às outras e de outros órgãos, como o Ministério Público. Constatadas irregularidades, a agência autua a indústria fabricante ou a que disponibilizou o produto no mercado, a mídia que veiculou a propaganda e a agência criadora da peça publicitária e determina a retirada imediata de circulação nas mídias. Se a publicidade for de um produto sem registro na Anvisa, os setores podem ser multados com valores que vão de R$ 2 mil a R$ 1,5 milhão, e este valor pode dobrar se for constatada reincidência na veiculação da peça publicitária. Outros produtos com registro, mas irregulares, com falta de informações, por exemplo, podem ser multados em R$ 5 mil a R$ 100 mil.

Para entender Conar – As seis entidades fundadoras do Conar, e que indicam os membros do conselho superior da entidade, são Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap), Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional dos Editores de Revistas (Aner), Associação Nacional de Jornais (ANJ) e Central de Outdoor.


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Maria José comenta que, no rádio e mídias regionais, sobretudo, ainda há muitas publicidades de produtos sem registro. Exemplos disso são emagrecedores, produtos para disfunção erétil, antitabagismo e calvície. “Recentemente encontramos um produto que estava sendo indicado para artrite e artrose, doenças de alta complexidade e de tratamento difícil, e outro indicado para câncer e Aids. É de uma maldade extrema”, diz. Segundo ela, as propagandas dos produtos foram suspensas. Álvaro Nascimento acredita que a fiscalização realizada hoje pela Anvisa ainda é deficiente. O pesquisador relata que, na última consulta pública feita pela agência, ele e outros 130 especialistas enviaram 19 propostas para modificar a regulamentação do setor. Uma delas se referia à criação do estatuto da anuência prévia, pelo qual toda propaganda seria analisada pelo Sistema Nacional de Vigilância Sanitária antes da veiculação. “Cheguei a ouvir de um membro do setor regulado, numa das reuniões da Câmara Setorial de Propaganda da Anvisa, que a anuência prévia defendida por nós representaria o retorno da censura dos tempos da ditadura militar. Refutei o argumento perguntando a ele se a França poderia ser considerada uma ditadura, assim como o Reino Unido, a Suíça, a Espanha, a Austrália, o México, já que em todos esses países o estatuto da anuência prévia existe há anos”, conta Álvaro. Além da Anvisa e do Ministério da Saúde, fazem parte do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária os conselhos de secretários estaduais e municipais da saúde (Conass e Conasems), os Centros de Vigilância Sanitária estaduais, municipais e do Distrito Federal, os Laboratórios Centrais de Saúde Pública, o Instituto Nacional de Controle e Qualidade em Saúde, a Fun-

dação Oswaldo Cruz e os Conselhos estaduais e municipais de saúde. “É fundamental que a mídia crie espaços de discussão coletiva sobre seu modo de funcionar e interagir com o público, e também que o mesmo público que ela busca conquistar para o seu produto seja convidado a debater as estratégias da publicidade em relação com o cotidiano das pessoas, em suas diversas situações”, sugere a psicóloga Ana Carla Silva, também do Conselho Regional de Psicologia.

A Anvisa determina que só pode haver publicidade de produtos registrados na própria agência, e, no caso de medicamentos, apenas daqueles que não exigem prescrição médica Público infantil

Se a publicidade pode influenciar o consumo perigoso dos adultos, no caso das crianças e adolescentes a preocupação de alguns setores da sociedade é ainda maior. Na avaliação de Noeli Godoy, esse tipo de publicidade deveria ser dirigido sempre aos pais, e não às crianças. “As crianças não têm poder de decisão, a princípio, sobre aquilo que é prioritário para ela naquele momento. Então, ela irá escolher o que for mais atrativo. A publicidade vai atingir o desejo, e não a necessidade daquela criança”, diz. Procurado pela reportagem da Revista Poli para opinar sobre o assunto, o Conar,

por meio da assessoria de imprensa, disse que há uma decisão do conselho de não conceder entrevistas sobre o tema da publicidade infantil. A assessoria sugeriu que a reportagem buscasse a posição da entidade em um documento disponível em sua página de internet. O documento, de 2006, fala sobre as medidas já tomadas pelo Conar em relação à publicidade infantil, com a atualização do Código de Autorregulamentação publicitária. “Desde então, não são veiculadas peças publicitárias que contenham apelos imperativos de consumo dirigidos às crianças e adolescentes (por exemplo,“peça à mamãe comprar... ou “não fique fora dessa...”), conforme recomendação expressa da Seção 11 do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, e os anúncios que vulneram esse princípio estão sendo sistematicamente reprovados pelo Conselho de Ética do Conar”, diz o texto. Desde 2001, tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 5.921, de autoria do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), que proíbe a publicidade para crianças. “Comecei a ler e pesquisar, pedi algumas consultas aqui na Câmara, e vimos que o mundo inteiro trata com muita seriedade a questão da publicidade nos meios de comunicação. No Brasil, é um ‘liberou geral’. O Conar não regulamenta nada, é totalmente permissivo”, avalia. Hauly lamenta que o PL esteja parado há quase três anos na Comissão de Ciência e Tecnologia: “90% da população brasileira não tem poder aquisitivo para dar aos filhos o que está sendo ofertado na televisão, isso leva a um conflito, destruindo a formação de grande parte dessas crianças”. (Reportagem originalmente publicada na Revista Poli – saúde, educação e trabalho, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fiocruz)

Reprodução

brasil

No Brasil, o artigo 30 do CDC afirma que toda informação ou publicidade deve ser cumprida pelo anunciante, o que significa que tudo o que estiver expresso claramente no texto ou imagem publicitários é obrigação do anunciante oferecer. O artigo 36 diz que a publicidade deve ser facilmente compreendida como tal, ou seja, não pode estar disfarçada de reportagem ou outros mecanismos que dificultem tal identificação. Já o artigo 37 proíbe a publicidade enganosa ou abusiva.


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cultura Southbank Centre

Para inglês ver

CULTURA BRASILEIRA Pese o esforço por representar a pluralidade das manifestações artísticas nacionais, o eixo da programação do Festival Brazil, em Londres, se manteve numa linha já conhecida, portanto, segura: é o apelo tropical, o Brasil litorâneo, colorido, praieiro Aleksander Aguilar PRIMEIRA reflexão necessária para se falar sobre cultura brasileira no exterior: qual Brasil vamos abordar? Tarefa monumental, tão grande quanto o risco de se deixar de lado, proposital ou descuidadamente, alguns aspectos determinantes da própria diversidade; esta que conforma, paradoxalmente, uma das características mais celebradas, já quase também estereotipadas, do universo chamado Brasil. Com esse desafio presente, o prestigioso Southbank Centre, de Londres, promove um dos maiores e mais importantes festivais sobre cultura brasileira já realizados no Reino Unido. O Festival Brazil começou na metade de junho e só termina no começo de setembro. E tem a ambição de ser o evento organizado por instituições britânicas capaz de captar e refletir o que o Brasil está pensando e fazendo hoje.

Eis a equação sem solução: o trinômio solsamba-futebol (…) ainda serve de linha mestra da representação cultural brasileira no exterior E pese o esforço por representar a pluralidade e fazer valer o rótulo de multicultural que tanta atenção internacional atrai para o Brasil, o eixo

da programação se manteve numa linha já conhecida, portanto, segura: é o apelo tropical, o Brasil litorâneo, colorido, praieiro. São mais de 70 eventos em forma de concertos, debates, exposições, palestras, filmes e performances, num dos mais renomados centros culturais da Europa, com a presença de ícones como Gilberto Gil e Maria Bethânia.

Sol-samba-futebol Mas eis a equação sem solução: o trinômio sol-samba-futebol, que povoa o imaginário da percepção estrangeira sobre o Brasil e conforma um clichê do qual muitas vezes o próprio país não quer se afastar, ainda serve de linha mestra da representação cultural brasileira no exterior. A grande variedade, indiscutivelmente cheia de qualidade, dos eventos do Festival Brazil flertam com o badalado multiculturalismo brasileiro no que diz respeito às diferentes formas de representação artística, mas não do seu conteúdo. Está a Tropicália e o reconhecimento aos monstros sagrados que revolucionaram a arte brasileira; a batida de Mart’nália; uma sessão inteira dedicada ao AfroReggae e até um debate com a lenda do futebol, Sócrates. Estão presentes aqueles que fazem o cartão postal do Brasil: o Rio de Janeiro e seu samba, seus morros; a Amazônia, a Bahia, Pernambuco, favelas, maracatu, capoeira e até os dilemas da violência urbana e as “criativas” formas brasileiras de enfrentá-los. Para além dos trópicos O que não está é o Brasil que não se vende nas agências de turismo. Um evento cultural internacional dessa dimensão não pode arriscar uma abor-

Cartaz anuncia a exposição em Londres que vai até setembro

A própria diretora artística do Southbank Centre, Jude Kelly, apresenta o evento falando do Brasil através de três cidades – São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro dagem muito desconhecida. A proposta de descobrir o que o país faz e pensa hoje não se aventura para muito longe do mar e, portanto, não pode, necessariamente, ver o Brasil inteiro. O rural, o sertanejo, o bucólico, os pampas e tudo o que conforma o Brasil do interior não costumam figurar. Menos ainda o Brasil sulista – com suas intersecções e intercâmbios com os povos castelhanos do rio da Prata – pois o frio e o cinza não podem ser brasileiros, a arte brasileira é tropical. A própria diretora artística do Southbank Centre, Jude Kelly, apresenta o evento falando do Brasil através de três cidades – São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro –, e sobre a capital carioca suas impressões são sintomáticas: “Praia, céu e mar fazem com que nesse lugar a busca por prazer seja uma questão inevitável, senão de princípio. Quando estive lá, eu revisitei a palavra hedonismo, uma noção articulada pelos antigos gregos como a celebração ao prazer. (...) O Rio me fez entender a generosidade e o valor que o compartir prazer pode oferecer”. Uma iniciativa de mérito, ainda que igualmente centrada na produção daquilo que vem da geografia tropicalizada brasileira, foi a inclusão simultânea de uma programação exclusiva sobre literatura brasileira no Festival Brazil e no London Literature Festival. O Brazilian Words é uma expressão de reconhecimen-

to da produção escrita do país e trouxe a Londres nomes como Milton Hatoum, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, Ana Maria Gonçalves, Maria Valéria Rezende, Patricia Melo e, ainda, Arnaldo Antunes. A arte de Arnaldo é articulada de maneira multimidiática e intersemiótica. Em Londres, ele se apresentou como performer, mais poeta do que músico, acompanhado de Marcelo Jeneci e de uma série de recursos materiais que justifica que ele seja chamado de “artista que desafia os gêneros de arte”.

Ritmos do sertão Pode-se dizer que nosso ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, também buscou fazer a sua parte nessa possível ampliação de percepções sobre o Brasil durante o festival. Em seu show, no dia 21 de julho, Gil avisou que só tocaria composições novas, em homenagem aos ritmos do interior do Nordeste, e assim foi. Xote, forró e baião tocados na sua guitarra, entre passinhos e pulinhos que não revelam que Gil já é quase um septuagenário, estiveram acompanhados de instrumentistas como o francês Nicolas Krassik e Sergio Chiavazzolli. É certo que o baião, desde sempre, influenciou o tropicalismo de Gil, mas um tributo direto a esse ritmo permitiu que Luiz Gonzaga e Dominguinhos também fizessem sua aparição em Londres. Ainda no âmbito da música, também é digna de nota a parSouthbank Centre

ticipação daqueles que estão, por assim dizer, duplamente fora do eixo. O nome no festival, que não está no panteão dos medalhões da arte brasileira, é o grupo Porcas Borboletas, que abriu o show dos Mutantes. A banda é ainda pouco conhecida e não é proveniente do Rio ou São Paulo, nem mesmo de Pernambuco, para onde muitas das atenções à música brasileira em nível internacional estão voltadas atualmente. Uma expressão musical fora do litoral, os mineiros do Porcas Borboletas fazem rock com irreverência e letras inteligentes, inspirados em nomes como Arnaldo Antunes e Arrigo Barnabé. O comportamento de palco, porém, parece algo desorientado, com uma proposta performática em que a irreverência gratuita muitas vezes não se encaixa na musica, mas o estranhamento que essa conjunção causa é certamente provocador.

Problemas sociais O Festival Brazil, diga-se com justiça, tratou de reconhecer que o país, apesar da sua crescente economia e relevância no cenário mundial, ainda enfrenta ameaçadores problemas sociais. Nesse sentido, o evento buscou discutir o Brasil também por meio de debates com intelectuais e ativistas que pensam o país com o olhar direcionado para o papel que a cultura pode desempenhar no desenvolvimento da sociedade brasileira. O ex-secretário nacional de Segurança Pública, o sociólogo Luiz Eduardo Soares, autor do livro que virou o filme Tropa de Elite, foi destaque do evento que pautou a violência urbana no país. Em debate com a diretora da organização britânica Kids Company, Camila Batmanghelidjh,

e com o diretor da People’s Palace Project, Paul Heritage, no qual o conceito predominante foi a invisibilidade social, Soares fez questão de deixar claro uma opinião: “se o Brasil quer merecer realmente o título de país democrático, ele terá que transformar profundamente suas forças policiais”.

Pode-se dizer que nosso ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, também buscou fazer a sua parte nessa possível ampliação de percepções sobre o Brasil A intenção de revelar o espírito do Brasil, como pautado pelos organizadores, numa das cidades mais cosmopolitas do mundo, através de um festival de tamanhas proporções e com a presença de artistas de alto calibre, é, sem dúvida, genuína, mas falta explicitar que este é o espírito de um dos vários “brasis” que coexistem no mesmo corpo territorial. O Reino Unido pode estar descobrindo um Brasil, aquele dos trópicos, mas o país também tem outras almas de outras cores, posturas e expressões artísticas que igualmente se encontram nessas permanentes sessões de sincretismo cultural que é o Brasil e que não acaba na sua ampla faixa litorânea. Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e mestre em Estudos Internacionais. Southbank Centre

Favela em miniatura criada pelo Projeto Morrinho, da comunidade de Vila Pereira da Silva (RJ); ao lado, a entrada para a mostra


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américa latina

A ofensiva dos EUA é total IMPERIALISMO Governo estadunidense investe na derrota de Chávez nas eleições legislativas de setembro Martin Maddock/USN

Frida Modak NAS ÚLTIMAS semanas, temos presenciado uma série de fatos que não são exatamente o que aparentam, mas formam parte dos preparativos de uma ação militar de grande envergadura cujo objetivo é pôr fim ao governo constitucional da Venezuela. Os Estados Unidos estão aplicando sua velha estratégia do track 1 e track 2, que implica em derrubar um governo desestabilizando-o até provocar sua queda dentro de certa “constitucionalidade” ou mesmo por força, se a primeira estratégia falhar. Na Venezuela, se aplica o track 1 desde que o presidente Hugo Chávez ganhou as eleições em 1998. Ao assumir em 1999, ele pôs em prática um programa de governo que desagrada e contraria os Estados Unidos, que já em 2002 conseguiram que um grupo de militares sequestrasse e forçasse o mandatário a renunciar. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, a bordo do navio estadunidense USS Yorktown, em 2002

Se tudo isso que foi descrito não levar a uma derrota eleitoral do governo em setembro, tudo indica que um plano B poderá entrar em marcha Enquanto isso, Chávez era levado a um recinto militar a partir do qual seria retirado do país em um avião com registro estadunidense que, segundo se apurou na época, era de propriedade do grupo midiático conservador de Cisneiros. Semelhanças com o que ocorreu em Honduras não são coincidências – em ambos os casos, as renúncias dos presidentes nunca existiram. No dia 26 de setembro, haverá eleições parlamentares na Venezuela, e o Pentágono e o Departamento de Estado já estão se movendo pela América Latina para criar condições que justifiquem um golpe de

Estado caso a oposição venezuelana volte a perder, assim como foi nas eleições e referendos de 1998, 1999, 2000, 2004, 2005, 2006, 2008 e 2009. O único revés que o governo bolivariano sofreu foi na reforma constitucional de 2008. As pesquisas, até agora, dão vantagem ao governo Chávez. Os EUA precisam reverter essa situação e, caso não consigam, há toda uma engrenagem militar que sugere uma intervenção armada, o que também já está sugerido nas declarações do agora ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, que afirma a existência de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em território venezuelano. Intervencionismo político

No esforço de derrotar Chávez nas eleições, há setores políticos latino-americanos envolvidos, além de dinheiro dos EUA e da Europa. Comecemos pelas intervenções políticas. No dia 26 de junho, o jornal chileno El Mercurio informou que, no dia 21 de junho, tinham chegado a esse país 16 dirigentes da oposi-

ção venezuelana que pertencem à chamada Mesa de Unidade Democrática. Eles participariam de “um programa especial de trabalho”, com integrantes da Concertação de Partidos para a Democracia, que governou o Chile desde a saída de Augusto Pinochet até o triunfo do atual presidente Sebastián Piñera, cujo mandato começou em março. A oposição ao governo venezuelano queria que os chilenos lhes dessem uma “capacitação”, dadas as semelhanças que, segundo eles, havia “entre a realidade venezuelana e a do Chile em fins dos anos 1980”, quando surgiu a Concertação, que derrotou o ditador Pinochet em um plebiscito. Os “instrutores” foram exaltos funcionários de governo da Concertação, pertencentes aos distintos partidos que a integram. Estiveram, dentre outros, o democrata cristão Mariano Fernández, último chanceler da presidente Michelle Bachelet (2006-2010) e exembaixador nos Estados Unidos; o socialista Enrique Correa, ex-secretário Geral de Governo do ex-presidente Patricio Aylwin (1990-1994); e Ser-

gio Bitar, dirigente do Partido pela Democracia, que foi senador e ministro de Educação no governo de Ricardo Lagos (2000-2006) e de Obras Públicas no de Bachelet. Bitar foi também ministro das Minas do presidente Salvador Allende (1970-1973). O fato provocou críticas por parte de setores do Partido Socialista, enquanto outros membros da Concertação se uniram à direita para questionar o presidente venezuelano; seus parlamentares se prontificaram a formar equipes de observadores eleitorais em setembro, criando um conflito que chegou a níveis governamentais até que o presidente chileno relegou o assunto ao parlamento. O detalhe é importante. Ainda que não apareça envolvido, José Miguel Insulza contará com seu amigo e colaborador na Secretaria Geral da Organização dos Estados Americanos Enrique Correa, a quem geralmente designa como observador desse organismo nas eleições da região. Insulza foi responsabilizado pelo chanceler equatoriano pelo rompimento das relações entre Colômbia e Ve-

nezuela por não ter postergado, como foi pedido, a sessão na qual a Colômbia formulou seus cargos.

O único revés que o governo bolivariano sofreu foi na reforma constitucional de 2008 Dinheiro e preparativos militares

Como é habitual nesses casos, os EUA destinam grandes quantidades de dólares para financiar suas ações intervencionistas em outros países. Contra o presidente Allende, investiram muitos milhões, como documentou o Congresso estadunidense. Na Venezuela, estão fazendo o mesmo, ainda que os membros da Concertação, no Chile, não queiram enxergar. A Fundação Nacional para a Democracia (NED, na sigla em inglês) foi criada pelo ex-

presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (19811989) para legalizar o que antes se fazia sob a roupagem da Agência Central de Inteligência (CIA). O dinheiro, aprovado no Congresso, é repartido através de fundações dos partidos republicano e democrata, e também as de empresas para instituições ideologicamente afins. Em 1999, a NED colocou dentro da Venezuela 1.273.408 dólares, segundo dados de sua página na internet. Mas isso não é tudo. De acordo com um relatório do instituto Fride, da Espanha, o financiamento também se dá por meio do Movimento Mundial para a Democracia, criado pela NED. A isso se soma o que é mandado pela Agência Internacional para o Desenvolvimento (Usaid), pela Freedom House, pela União Europeia e as Fundações Konrad Adenauer e Friederich Ebert, da Alemanha, cada participação girando ao redor de 500 mil euros anuais aos partidos venezuelanos de oposição. A embaixada estadunidense na Venezuela usa a mala diplomática para outros envios e tudo é lavado no mercado paralelo, o que fez com que o governo venezuelano ditasse uma nova legislação de câmbio. Se tudo isso que foi descrito não levar a uma derrota eleitoral do governo em setembro, tudo indica que um plano B poderá entrar em marcha. A Costa Rica, o país “sem Exército”, receberá este ano 43 navios de guerra dos EUA. Nas ruas do Panamá já estão os militares estadunidenses, o que não se via desde que as bases foram fechadas em 2000. A desculpa é o combate ao narcotráfico, que será feito a partir da instalação de 15 novas bases militares. Na Colômbia, ainda há as 13 bases estadunidenses autorizadas por Uribe. No Peru, acabaram de ser realizados exercícios navais com a participação de dez países da América do Sul e Central. Onde será a guerra? (Agência Latino Americana de Informação – Alai) Frida Modak é jornalista e foi secretária de imprensa do ex-presidente Salvador Allende. Tradução: Dafne Melo

ANÁLISE

Hiroshima e o nascimento do terrorismo de Estado Não é exagerado afirmar que a história do terrorismo de Estado começa com o bombardeio nuclear dos Estados Unidos ao Japão Atilio Borón No dia 6, completou-se 65 anos do ataque nuclear dos Estados à cidade de Hiroshima, no Japão, uma monstruosidade que se repetiu três dias depois com a outra bomba atômica sobre Nagasaki. Em uma primeira contagem, as duas explosões mataram cerca de 220 mil pessoas, 140 mil em Hiroshima e 80 mil em Nagasaki. A esmagadora maioria de vítimas era civil, já que essas cidades não abrigavam contingentes militares importantes, sendo que a metade morreu imediatamente no dia do atentado. Em sua edição do dia 6, ao se dar conta do aniversário do ataque, o The New York Times diz que as vítimas morreram instantaneamente devido à excepcional intensidade da explosão, que reduziu a cinzas as edificações da cidade, e os corpos de seus habitantes foram literalmente vaporizados, deixando apenas vestígios fantasmas e sombras sobre as poucas paredes ainda de pé. O restante da citada população faleceu ao longo do tempo devido a queimaduras

horríveis e aos efeitos da radiação, ou seja, condenados a uma lenta e dolorosa agonia. O registro atual dos mortos nos dois atentados, fornecidos em 2008, teve um quantitativo de 400 mil pessoas, e é muito provável que esse número suba ligeiramente nos próximos anos. Até hoje, os acontecimentos de Hiroshima e Nagasaki são considerados os únicos ataques nucleares da história, mas a proliferação de armas desse tipo pode repetir essa experiência trágica. Na verdade, a frota naval estadunidense-israelense que navega pelo estreito de Hormuz está pronta para atacar o Irã e é composta por um formidável arsenal nuclear. Recentemente, o comandante Fidel Castro advertiu sobre o risco de um holocausto nuclear e advertiu o presidente Barack Obama sobre isso, já que sua ordem de ataque teria um ponto de não retorno, desencadeando assim um conflito internacional com projeções incalculáveis e sombrias. Por outro lado, existem motivos razoáveis para supor que as sete bases militares da Colômbia que Álvaro Uribe disponibilizou aos Estados Unidos tam-

bém podem contar com armas nucleares. Será necessário que uma delegação da União de Nações Sul-Americanas (Unasur) inspecione essas bases.

Recentemente, Fidel Castro advertiu o presidente Barack Obama sobre o risco de um holocausto nuclear Não é exagero dizer que a história do terrorismo de Estado começou com o ataque nuclear estadunidense sobre o Japão. Se o assunto é armas de destruição em massa, os Estados Unidos levam uma salva de palmas, sem competidor à vista. Seu bombardeio às duas cidades indefesas constitui, sem dúvida, o mais grave e selvagem atentado terrorista da história da humanidade. Esse fato não impede, en-

tretanto, que os sucessivos governos desse país se sintam com a autoridade moral para acusar e condenar muitos países – como Cuba e Venezuela – por “fomentar o terrorismo”; também não lhes traz nenhum dilema ético o fato de que eles dão abrigo dentro de suas fronteiras a Luis Posada Carriles, terrorista comprovado e confesso, e muitos de seus comparsas, enquanto mantém em prisões de segurança máxima os cinco heróis cubanos que lutavam contra o terrorismo e procuravam desbaratar suas sinistras maquinações. A comemoração realizada em Hiroshima no dia 7 de agosto tinha um ingrediente especial: foi a primeira vez que um embaixador dos Estados Unidos participou de um evento desse tipo. Mesmo assim esse cidadão não mostrou nenhum sinal de arrependimento, e sim apenas soberba e desprezo pelo sofrimento alheio. Os diplomatas, funcionários e autoridades dos Estados Unidos tradicionalmente têm evitado participar nessas cerimônias por medo que sua presença possa reacender o debate sobre o pedido de desculpas que Washington deverá

fazer por seu monstruoso crime. O que não fez em relação ao Vietnã, país cujo território foi devastado após 11 anos de massacres que custaram cerca de 3 milhões de vítimas, civis em sua grande maioria. E muito menos em relação aos sandinistas da Nicarágua na década de 1980, ou ao meio século de agressão e sabotagem contra Cuba. O imperialismo é assim, e será inútil esperar por mudanças.

Washington diz que o bombardeio atômico poupou milhares de vidas de soldados estadunidense e japoneses Para justificar a sua brutal agressão, Washington diz que o bombardeio atômico poupou milhares de vidas de soldados estadunidense e japoneses que morreriam caso a invasão ao Japão ocorresse. No en-

tanto, muitas pessoas, mesmo nos Estados Unidos, afirmam que jogar a bomba em alguma ilha deserta no Pacífico criaria o mesmo efeito de dissuasão sobre o alto comando japonês e que, portanto, decidir lançar sobre Hiroshima e Nagasaki foi um ato de crueldade desumana e conscientemente assumida. Durante a cerimônia, os manifestantes exigiram que os Estados Unidos pedissem perdão ao Japão, que retirassem as suas bases militares do país asiático, exigência diante da qual os EUA se fazem de surdos. Vale a pena recordar uma declaração de Albert Einstein em relação aos perigos de uma nova conflagração nuclear: “Se a Terceira Guerra Mundial acontecer com o uso de bombas atômicas, na futura Quarta Guerra Mundial os exércitos lutarão com marretas”. (Blog do Atílio Boron – www.atilioboron.com) Atilio Boron é diretor do Programa Latino-americano de Educação à Distância em Ciências Sociais, em Buenos Aires (Argentina). Tradução: Jacob David Blinder


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américa latina Fotos: Airton Dantas

Cuba resistente TRAJETÓRIA Nascidos sob a opressão imperialista, casal Carmen e Andrés celebra 51 anos de socialismo Airton Danthas, Cecília Luedemann, Eliane José, Fernando Campos, Márcia Carvalho, Solange Americano e Valmir Santos de Havana (Cuba) “A cobra morta não pode comer, a cobra morta não pode silvar, não pode caminhar, não pode correr. A cobra morta não pode ver, a cobra morta não pode beber, não pode respirar não pode morder.”

COMO NOS versos do poeta cubano Nicolás Guillén, os trabalhadores daquela heroica ilha seguem o “Canto para matar uma cobra”. Há 51 anos, a serpente do capitalismo foi derrotada, e Cuba resiste à ameaça imperialista. Quem for à ilha verá e ouvirá histórias reais que não serão divulgadas pela mídia corporativa. Histórias de mulheres e homens como Carmen e Andrés, que participaram da revolução com livros e armas. Uma revolução que marca a vida cotidiana da ilha em cada quarteirão, em cada pedaço de terra, em cada olhar de criança. Uma revolução viva que só pode ser vista em sua grandiosidade por aqueles que lutam pelo socialismo. Infância pobre, mas feliz Na larga rua San Lázaro, próxima à Universidade de Havana, palco de históricas manifestações estudantis e populares contra a sanguinária ditadura de Fulgencio Batista (1952-1959), no sobrado antigo, onde também está instalado o Comitê de Defesa da Revolução, moram a professora universitária Carmen Yolí Figueroa Evans e o comandante do exército aposentando, Andrés Medina. Carmen e Andrés nos recebem, gentilmente, em sua típica sala cubana com duas cadeiras de balanço e duas grandes janelas, para a entrevista ao Brasil de Fato. “Minha infância foi muito pobre, mas muito feliz”, lembra Carmen. Filha de professor e de dona de casa, recorda que sempre ouviu as notícias sobre a ditadura e as lutas revolucionárias dentro de casa. A família vivia com dificuldade, mas o pai sempre trazia um jornal emprestado para ler as notícias aos filhos.

“Eu me recordo que, em minha sala de aula, as crianças brancas se sentavam em um lugar e as negras, em outro” “Todos estudamos graças à revolução” Nascida em 11 de novembro de 1945, em uma família com cinco irmãos, Carmen recorda que eles foram obrigados a conviver com uma escola pública em que prevalecia o racismo e o desprezo aos filhos do povo e em uma escola privada de ensino tradicional. “Todos estudamos graças à revolução. Antes, a educação pública era catastrófica e racista. Eu me recordo que, em minha sala de aula, as crianças brancas se sentavam em um lugar e as negras, em outro. O ensino se baseava na memória, não na compreensão, na análise. Não havia sa-

las suficientes para todos. Faltavam vagas, faltavam professores. Não havia material escolar para todos. A universidade era apenas para os filhos dos ricos: eram oito universidades estatais e três universidades particulares. Hoje, todos têm direito à educação pública, do infantil à universidade. Atualmente são 30 universidades públicas.” Durante a ditadura, Carmen lembra-se do medo e do apoio aos revolucionários: “Eu me recordo vagamente do golpe de Estado de 1952, porque chegamos à escola e nos enviaram de volta para casa. Meu pai conversou sobre o golpe com os filhos. Lembro-me também do assalto ao Quartel Moncada. Meus pais fecharam portas e janelas e comentaram em voz baixa. As lutas dos estudantes revolucionários, como José Antonio Echeverría, eram acompanhadas pelos jornais, rádios e comentários em casa.”

“Quando meu pai me viu com o uniforme de brigadista (...), as lágrimas correram em seu rosto e [ele] me abraçou forte, cheio de orgulho” “Pátria sem senhores” Em 1959, Carmen ouviu o pai ler no jornal o que disse Fidel Castro sobre a lei contra a cota açucareira para derrubar a Revolução cubana: “Não se preocupem, a cada má ação que nos fizerem, reagiremos com outra que lhes façam mal pior”. A geração de Carmen acompanhou cada momento da revolução como resposta à violência imperialista: “Meu pai lia essa notícia da nacionalização das empresas estadunidenses que atuavam em serviços públicos como luz, telefonia e até das grandes empresas de frutas. Ele explicava as palavras de Martí: uma pátria sem senhores. E depois explicava as palavras de Fidel: com pátria e sem norte-americanos”. A Campanha de Alfabetização Em 1960, as mulheres de sua família ingressaram na Federação das Mulheres Cubanas, e o pai tornara-se presidente do Comitê de Defesa da Revolução. Em um ambiente de grande participação popular, adolescentes e jovens viviam a euforia da revolução. Quando eram convidados a participar de atividades longe de casa, o pai, embora progressista, avisava: “Meus filhos não saem daqui”. Com apenas 13 anos de idade, Carmen foi tomada pelo entusiasmo da Campanha de Alfabetização de 1961: “Guardei minha mala embaixo da cama com a esperança de convencer meu pai. Vi os brigadistas saindo, corri para casa, procurei minha mãe e meu pai. Eles não estavam. Fiquei esperando até que me deu um impulso, peguei a maleta e corri para a porta. Minha irmã não queria me deixar sair, mas fugi chorando para a escola. Quando meus pais vieram atrás de mim, fiquei nervosa, pensei que não me deixariam partir para o Acampamento Nacional de Varadero e me preparar com a cartilha Venceremos, o manual Alfabetizemos para a lei-

Carro produzido nos anos 1950 em rua de Havana, capital cubana

tura e a escrita e o livro de cálculos Economizar, Produzir e Organizar. Mas, quando meu pai me viu com o uniforme de brigadista da campanha, de boina verde-oliva e bota, ele se emocionou, as lágrimas correram em seu rosto e me abraçou forte, cheio de orgulho. Quando chegou em casa, meu pai ordenou ao meu irmão de apenas 10 anos de idade: Prepara-te, também vais alfabetizar”. Latifundiários matam jovens alfabetizadores Carmen explica que a Campanha de Alfabetização de 1961 contou com uma brigada-piloto em Pinar del Río, de 2 de fevereiro a 20 de maio, que reuniu estudantes secundaristas, brigadistas e professores voluntários bem mais experientes. Quando os inimigos perceberam a radical transformação que acontecia em Cuba, organizaram o ataque a Praia Girón. Derrotados, passaram a agir como uma serpente traiçoeira, escondida no interior de Cuba. Os latifundiários assassinavam os educadores porque alfabetizavam os camponeses. Queriam amedrontar e intimidar todos os que buscavam instruir os oprimidos. O primeiro professor assassinado foi um adolescente negro, Conrado Benítez, no início de 1961, três semanas antes de completar 18 anos, logo transformado em símbolo da Campanha de 1961. No final da campanha, o total de educadores assassinados eram 13. A Brigada Benítez percorreu a ilha com o intuito de eliminar o analfabetismo em Cuba. Como brigadista, Carmen alfabetizou 11 camponeses. Recorda-se do casal Ana Julia, dona de casa de 21 anos, e Viriato, 23 anos, com três filhos. As aulas aconteciam na casa do casal, com a instrução e a educação de novos hábitos, como vestir, calçar e dar banho nos filhos todos os dias e combater o alcoolismo. “Eu, uma menina de 13 anos, tinha que convencer os camponeses a deixar o rum, mesmo em seus dias de folga, e se dedicar à família e aos estudos”, recorda. Carmen explica que a cartilha apresentava textos simples de Martí, de Fidel, de cunho patriótico e revolucionário.

“Eu, uma menina de 13 anos, tinha que convencer os camponeses a deixar o rum (...) e se dedicar à família e aos estudos” Ensinava o camponês a segurar no lápis com suas mãos duras e calejadas do trabalho no campo e avançava na leitura e na escrita com o método silábico; em apenas seis meses já estava alfabetizado. O teste final do educando era uma carta, geralmente endereçada a Fidel, contando como se sentia por saber ler e es-

O casal Carmen Yolí e Andrés Medina

crever. Em uma dessas cartas, expostas no Museu da Alfabetização, encontramos o depoimento de Lara: “Não sabes com que alegria hoje lhe escrevo e lhe agradeço por haver me dado a oportunidade de aprender a ler e a escrever, já que agora nada me enganará e eu saberei a verdade, e continuarei a estudar para demonstrar meu agradecimento a minha professora e a você.” 100 mil brigadistas alfabetizaram 1 milhão A geração de Carmen participou de uma revolução cultural. Aprenderam muito mais do que ensinaram. Descobriram como era a Cuba da opressão: “Éramos um exército de 100 mil brigadistas. Partimos em 2 de fevereiro de 1961 com a missão de lutar contra o analfabetismo e retornamos em 20 de dezembro com a vitória de 1 milhão de alfabetizados em 100 províncias. Em uma população de 6 milhões de habitantes, naquela época, o impacto educacional na população de Cuba foi significativo”. Em 22 de dezembro de 1961, Fidel convocou uma manifestação na Praça da Revolução para declarar Cuba como “território livre do analfabetismo” e o “fim de quatro séculos de ignorância”. Na manifestação, os brigadistas gritaram a palavra de ordem: “Fidel, Fidel, diga outra coisa que teremos que fazer”. E Fidel nos respondeu: “Vocês devem continuar. Nós apenas começamos”. E, por isso, esse dia ficou marcado como Dia do Educador”. A maioria dos brigadistas seguiu a carreira de educador: “Como admirava meu pai, queria ser jornalista ou professora. Desde criança, gostava de imitar minha professora. Então segui para a Escola de Formação de Professores e depois para o Instituto Pedagógico Anton Semionovich Makarenko, onde fomos educados com muita exigência e disciplina. Foi um choque, porque tínhamos de estudar, limpar nossas residências e preparar nossas aulas”. Era o início de uma nova educação, socialista, em que todos estudam e trabalham. Infância não foi tão feliz como a de Carmem Como educadora, Carmen

contribuiu e se beneficiou da Revolução Cubana, se inscreveu na União da Juventude Comunista e ingressou no Partido Comunista cubano em 1977. Atualmente, é professora universitária. Em 1967, conheceu Andrés e tiveram um filho chamado carinhosamente de Andrezito. Andrés recorda dos tempos difíceis dos camponeses antes da revolução: “Minha infância não foi tão feliz como a de Carmen. Minha mãe foi abandonada por meu pai com cinco filhos. Eu era o caçula e tive que trabalhar desde pequeno: fui camponês, vaqueiro, cozinheiro. A revolução me encontrou aos 14 anos de idade. Eu queria fazer parte do Exército Revolucionário. No começo, eu tinha medo de montar guarda, corria na mata, mas fui aprendendo a ser artilheiro, a usar o morteiro”.

“Foi um choque, porque tínhamos de estudar, limpar nossas residências e preparar nossas aulas” “Vivi a miséria do imperialismo” Andrés ingressou no Partido Comunista cubano em 1970, porque percebeu que não bastava ser um soldado do Exército Revolucionário: “Eu criei uma convicção como revolucionário. Vivi a miséria do imperialismo e não queria que Cuba voltasse a ser miserável. Gosto de viver, mas se vier o imperialismo, estou preparado para lutar. Quase todos são soldados, mas nem todos são militantes. Eu queria ser militante para lutar contra o imperialismo, com convicção revolucionária”. Em Angola, uma guerra de libertação colonial A luta armada em Cuba significava manter sua pátria livre, socialista. A participação de Cuba, em Angola, significava fortalecer as lutas de libertação colonial no continente africano. Andrés aderiu como voluntário junto a

40 mil soldados enviados a Angola em novembro de 1978 e de lá retornou em janeiro de 1981. “Eu acreditava que deveria colaborar para a libertação de Angola porque me sentia parte da África, parte do meu povo, dos oprimidos. Foi uma guerra bastante dura, com 2 mil mortos. Os soldados angolanos não tinham disciplina. Eram poucos com convicção revolucionária. Percebemos que muitos eram amigos de Cuba durante o dia e amigos do inimigo à noite. Angola nunca foi socialista. Não foi uma revolução. Foi uma guerra de libertação colonial.” E Cuba, hoje? Convidados a apreciar um mojito, bebida típica cubana preparada com rum claro e hortelã, no terraço do emblemático Hotel Nacional, com vista para o Malecón, nos surpreendemos com um típico domingo socialista. Passava da meia-noite e milhares de cubanos caminhavam ou sentavam-se nas muretas em frente ao mar, conversando, cantando ou namorando. Aos 60 anos, aposentado, militante ativo, Andrés analisa a situação atual do país: “Hoje, vejo que Cuba está com um passo mais firme do ponto de vista social, econômico e internacional. O povo vê mudanças. Passamos do período de dificuldades, quando perdemos o apoio econômico da ex-URSS e enfrentamos sozinhos o bloqueio econômico imperialista estadunidense, em 1961. O que enfrentamos hoje é a luta política e ideológica”, avalia. Para Carmen, o turismo, hoje a principal plataforma econômica do país, gera divisas, mas também patrocina a crise ideológica. Há o interesse do imperialismo em criar e desenvolver em Cuba uma tendência ao consumismo e à marginalidade. A solidez do pensamento e da prática socialistas enfrenta as contradições do capitalismo trazidas junto com o dinheiro dos turistas. E assim, como no poema de Guillén, “a cobra caminha sem patas; a cobra se esconde na mata”. Cuba, uma nação de homens e mulheres dignos e corajosos como Andrés e Carmen, Cuba resiste como no “Canto para matar a uma cobra”.


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“Farc deveriam declarar cessar-fogo” Reprodução

CONJUNTURA Valter Pomar, secretárioexecutivo do Foro de São Paulo, aposta que a medida seria benéfica para a esquerda colombiana e tiraria da direita o pretexto para manter a guerra Lamia Oualalou de São Paulo (SP) VINTE ANOS após sua criação, o Foro de São Paulo, organização que reúne os partidos de esquerda latino-americanos, realiza, entre os dias 17 e 20 em Buenos Aires (Argentina), sua 16ª edição. Para os movimentos progressistas, é um momento para fazer o balanço de mais de uma década de governo em boa parte dos países latino-americanos, avalia Valter Pomar, secretário-executivo do foro e militante do PT. Em entrevista ao Opera Mundi, Pomar disse acreditar que esses mandatos tiveram forte impacto na vida da população. Porém, acha que “os avanços ainda não se tornaram estruturais” e podem ser revertidos em caso de derrota eleitoral. Segundo ele, o foro, depois de ter sido um espaço de resistência contra a ofensiva neoliberal, deve se converter em um centro de formulação de estratégias que permitam fazer desse ciclo de governos progressistas “o ponto de partida de um novo modelo de desenvolvimento para a região”. Na entrevista, Pomar falou também sobre as Farc e defendeu que a melhor estratégia para o grupo guerrilheiro agora é declarar um cessarfogo unilateral e negociar um acordo de paz com o novo governo colombiano.

Qual é o balanço de uma década de governos progressistas na América Latina? Valter Pomar – Mais democracia, qualidade de vida, soberania e integração. Os exemplos são muitos. Incluem mudanças constitucionais, aumento da participação eleitoral, crescimento do número de organizações sociais, surgimento de novos meios de comunicação, eleição de juízes, mudanças em algumas forças armadas. Temos mais gente alfabetizada, mais serviços de saúde, menos fome, direito a casa, mais empregos, aposentadorias maiores. Há que lembrar também o controle sobre as riquezas naturais de cada país, assim como mais diálogo, cooperação e criação de instituições como a União das Nações Sul-Americanas, a Unasul.

Patrulha das Farc cruza rio em território colombiano

Mas esses avanços ainda não se tornaram estruturais, não se converteram num outro modelo de desenvolvimento, de tipo democrático-popular. Enquanto isto não ocorrer, a permanência do que fazemos a partir dos governos dependerá de estarmos no governo. E governos se ganham e se perdem. Para que se construa um novo modelo, permanente, é preciso democratizar a estrutura de propriedade e fazer com que a infraestrutura social se torne o centro da dinâmica da acumulação.

“Não existe solução militar para o conflito na Colômbia. Nem o governo de Juan Manuel Santos acabará com a guerrilha, nem a guerrilha tomará o poder” O senhor acha que a direita está em condição de recuperar o terreno perdido, como ocorreu no Chile? Nunca devemos subestimar a direita, especialmente quando os EUA tentam recuperar sua influência na região. Também devemos lembrar que, à medida que a direita neoliberal típica perde espaço, essas forças buscam outros porta-vozes. No Brasil, a provável terceira derrota do PSDB e do DEM já faz setores conservadores especularem sobre uma alternativa distinta em 2014. Finalmente, devemos lembrar que o objetivo da esquerda não é eleger presidentes, mas, sim mudar as sociedades. E pode ocorrer, como no

Chile, de a esquerda chegar ao governo e não mudar a sociedade, como pretendemos.

Na sua opinião, existem ondas políticas que se alternam, e que depois da esquerda nos anos 2000 pode ser a vez da direita na década de 2010? A história não é circular. Se fosse, viria por aí uma onda de golpes militares, similares aos que sucederam o ciclo desenvolvimentista-populista dos anos 1950. Por outro lado, é preciso tomar cuidado com uma análise “politicista”, que dá excessiva atenção a eventos institucionais. A questão de fundo é saber se a esquerda que chegou ao governo na América Latina fará mudanças estruturais. Se conseguirmos, uma eventual vitória da direita numa eleição nacional terá pequeno impacto. Se não conseguirmos, estar no governo não terá grande significado. Alguns governos, como o da Venezuela, consideram que existe um risco militar contra os governos de esquerda. A contraofensiva da direita é política. Uma das facetas desta contraofensiva política é militar, ou seja, a carta militar é jogada para fazer pressão política. Neste momento, considero pouquíssimo provável uma agressão direta dos EUA contra algum país governado pela esquerda. Agora, Honduras, as bases na Colômbia e a 4º Frota não são ficção. Estão relacionadas com algo simples: os EUA perderam terreno ideológico, político e econômico na região e no mundo, mas sua força militar é incomparável. Interessa a eles levar a disputa para o terreno militar, mesmo que sob a forma de pressão. Por isso é estratégico que o conflito na Colômbia deixe de ser militar e passe a ser político-eleitoral. Reprodução

Unidade de guerrilheiras das Farc

A oposição brasileira voltou a acusar o PT de associação com as Farc, e Álvaro Uribe (ex-presidente da Colômbia que entregou o cargo no dia 7) acusou Hugo Chávez (presidente da Venezuela) de protegê-la. Qual é a razão de existir da guerrilha hoje? Não existe solução militar para o conflito na Colômbia. Nem o governo de Juan Manuel Santos acabará com a guerrilha, nem a guerrilha tomará o poder. É preciso um acordo. A melhor coisa que as Farc podem fazer neste momento é anunciar sua disposição de fazer um acordo de paz. E, para deixar claro que está falando sério, libertar as pessoas que mantém em seu poder, declarar um cessar-fogo unilateral e se dispor a aceitar uma mediação externa – da Unasul, por exemplo. Seria um ganho para o povo e para a esquerda colombiana e poria fim ao pretexto dos EUA e da direita colombiana para manter viva a guerra, que para eles é um negócio. As Farc e outras organizações guerrilheiras participaram ou participam do foro? Mesmo que não tenham sido integrantes formais, já estiveram presentes em reuniões da entidade? A resposta para as duas questões é não. Mas isto não tem a menor relevância. Primeiro, porque, quando o Foro de São Paulo surgiu, havia luta armada e negociações em vários países da região. Exemplo clássico: a FMLN de El Salvador. Hoje o presidente de El Salvador [Mauricio Funes] é da FMLN. Motivo pelo qual não faz o menor sentido tratar com preconceito organizações que recorreram à luta armada, que, sob determinadas condições históricas, é um instrumento legítimo, do qual lançaram mão Nelson Mandela [ex-presidente da África do Sul], Pepe Mujica, Daniel Ortega, Raúl Castro [presidentes do Uruguai, Nicarágua e Cuba, respectivamente] e outros. Segundo, porque o foro é uma instituição aberta, com reuniões públicas, provavelmente frequentadas por agentes da CIA e por outros serviços mais eficientes. Terceiro, porque o importante é saber que papel o foro pode jogar, agora, em 2010, para construir a paz na Colômbia. O resto é diversionismo: o sonho de José Serra e Índio da Costa é achar alguém que dê uma declaração que possa virar manchete em seus jornais oficiais. Numa recente entrevista, Fernando Henrique Cardoso disse que,

no poder, a esquerda latino-americana, e especialmente o PT, tinha virado socialdemocrata. O que acha dessa avaliação? De qual social-democracia ele fala? Da revolucionária, que foi até a Primeira Guerra? Da socialista, que foi até o pós-Segunda Guerra? Da reformista, até a crise dos anos 1970? O risco dessa comparação é nos fazer perder de vista que o capitalismo latino-americano não é o europeu, não é imperialista. Portanto, a margem de manobra para compatibilizar capitalismo, democracia e bem-estar social é muito menor. Por outro lado, a pressão dos EUA e a burguesia local fazem com que os social-democratas sinceros da América Latina sejam mais radicais que os europeus. Na prática, um social-democrata na América Latina vai entrar em conflito com o capitalismo e com o imperialismo. Assim, parece-me aproveitável nesse raciocínio de FHC o reconhecimento indireto de que o PSDB é tudo, menos social-democrata.

“O único teste para saber se um partido é revolucionário ou não é ver se ele dirigiu uma revolução. Discurso, fé, autoproclamação e acusação dos inimigos não contam” Mas o senhor acha que os partidos de esquerda que estão no governo na América Latina abandonaram suas reivindicações revolucionárias? Uma parcela dos partidos de esquerda que estão no governo hoje não existia em 1980, o que torna pouco válida a comparação. Por outro lado, não concordo que a maioria dos partidos de esquerda abandonou reivindicações de mudanças radicais. No fundo, há uma dificuldade em entender que vivemos um período de defensiva estratégica da luta pelo socialismo. O que é ser revolucionário num período em que as revoluções não estão na ordem do dia? Em minha opinião, é ter uma política de acumulação de forças que tenha como objetivo criar as condições para mudanças revolucionárias. Ser revolucionário significa de-

fender que, para acabar com a exploração e a opressão capitalista, é necessária uma revolução político-social. A maioria dos partidos de esquerda latino-americanos tem, no seu interior, correntes revolucionárias e correntes não revolucionárias, numa combinação indispensável neste momento. E o único teste para saber se um partido é revolucionário ou não é ver se ele dirigiu uma revolução. Discurso, fé, autoproclamação e acusação dos inimigos não contam.

Com a esquerda no poder, qual é sua avaliação do papel dos movimentos sociais nesses países? A rigor, a esquerda não está no poder em nenhum país da região, exceto Cuba. Em Cuba, houve uma revolução em 1959, e o Estado cubano foi construído por essa revolução. Não há distinção qualitativa entre os objetivos do governo e do Estado. Já nos países em que, desde 1998, partidos de esquerda elegeram o presidente, o Estado é herdeiro de décadas ou séculos a serviço das classes dominantes. Parcelas expressivas do aparato de Estado seguem controladas diretamente por representantes delas, que na prática mantêm o poder, embora não tenham o governo. Os movimentos sociais foram essenciais para a vitória eleitoral. E são decisivos para construir o caminho que nos leve da condição atual de governo para a condição de poder. Como qualificaria a política do governo Obama em relação à região? Obama mudou as palavras, mas não os gestos. A política geral para a região segue a mesma. No seu discurso de posse, disse que os EUA estavam prontos para voltar a liderar. E o que os EUA têm pronto para isto? Seu aparato militar. Claro que, para quem se iludiu com Obama, deve ter tido uma decepção. Qual é a função do foro? O foro passou por várias fases. De sua criação a 1998, foi um espaço de resistência contra a ofensiva neoliberal. Depois, converteu-se num espaço de articulação da ofensiva eleitoral dos partidos de esquerda. Essa ofensiva se deteve em 2009, com a posse de Mauricio Funes, em El Salvador. Desde então, precisamos nos converter em um espaço de formulação e de articulação de uma estratégia que permita fazer desse ciclo de governos progressistas e de esquerda o ponto de partida de um novo modelo de desenvolvimento, sem deixar de ser útil aos partidos de esquerda da região que ainda não são governo. Se não formos capazes de dar este salto, o foro não será capaz de ajudar a esquerda latino-americana a conseguir respostas para problemas de fundo: mudar o modelo e sair da condição de melhorar a vida do povo dentro do capitalismo para a condição de melhorar a vida do povo nos marcos do socialismo. Em novembro de 2009, Chávez defendeu a criação da Quinta Internacional. A intenção é boa, mas a proposta não é adequada. O próprio Chávez percebeu isto. Uma curiosidade: a esquerda ultrassectária existente em alguns países do mundo viu na proposta a chance de colocar uma “cunha” entre a esquerda brasileira, especialmente o PT, e a esquerda venezuelana, especialmente o Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv). Quebraram a cara. O melhor é reforçar o Foro de SP e ampliar a articulação entre o foro e partidos de outras regiões do mundo, sem a pretensão de ser laboratório para ninguém: como o capitalismo é diferente em cada região, lutar contra ele exige esquerdas também diferentes.


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A militarização da América Central e do Caribe: a ameaça estadunidense US Army

ANÁLISE A entrada das Forças Armadas dos EUA na Costa Rica é parte de uma escalada que indica uma mudança de estratégia e táticas estadunidense para controlar a América Latina

Paz e solidariedade

Enquanto os trabalhadores estadunidenses sofrem com o desemprego, o sistema de saúde insuficiente, os drásticos cortes na educação e nos serviços sociais, bem como com a catástrofe ambiental do golfo do México, criada pela cumplicidade entre o governo Obama e a BP [British Petroleum], as prioridades da classe dirigente dos EUA estão em outro lugar. Ela está preocupada em investir seu dinheiro nas questões militares e suas ameaças de guerra.

Mark Vorpahl ANINHADO entre o Panamá (ao sul) e a Nicarágua (ao norte), a Costa Rica é um país centro-americano que tem, aproximadamente, o tamanho de Rhode Island [o menor estado dos EUA]. Se outro país enviasse a Rhode Island uma força militar com 7 mil soldados, 200 helicópteros e 46 navios de guerra, em um esforço para erradicar o tráfico de drogas, os moradores da ilha certamente não o veriam com bons olhos. Até porque esta não é a maneira mais eficaz de dar combate aos cartéis da droga. A única conclusão lógica é que a nação cujas tropas agora ocupam a Costa Rica tem outro objetivo em mente. No início de julho, por 31 votos a 8, o Congresso da Costa Rica aprovou o ingresso dessa força militar estadunidense no país, justificando a medida com a desculpa duvidosa da “guerra contra as drogas”. Segundo o acordo firmado entre as duas nações, as tropas dos EUA devem deixar a Costa Rica até o final de 2010. Isso suscita a seguinte questão: se, neste momento, a força militar é supostamente necessária para combater os cartéis do narcotráfico, o que será feito nos próximos meses para tornar sua presença desnecessária? O histórico militar dos EUA no mundo é revelador: uma vez instaladas num país estrangeiro, as tropas estadunidenses raramente o deixam. A máquina política da Costa Rica é subserviente ao governo e aos interesses corporativos dos EUA. Mesmo assim, muitos costarriquenhos denunciam que o acordo é uma violação de sua soberania e é inconstitucional. (Em 1948, a Costa Rica aboliu seu Exército, o que foi sancionado na Constituição.) Luis Fishman, membro do Congresso do país centro-americano, prometeu contestar a decisão dos colegas nos tribunais. Estratégia e táticas

A entrada das Forças Armadas dos EUA na Costa Rica é parte de uma escalada que indica uma mudança de estratégia e táticas estadunidense para controlar o que a doutrina Monroe definiu, de maneira infame, como “o quintal dos EUA” – toda a América Latina. Uma vez que o governo estadunidense, em décadas anteriores, inspirou secretamente golpes de Estado e reviravoltas políticas nos governos e/ou movimentos populares de Guatemala, Brasil, Chile, Nicarágua e El Salvador, seus dirigentes acreditaram ter ajeitado as coisas a seu favor no continente latino. As elites políticas da América Latina estavam no bolso do império corporativo dos EUA e pareciam ter um certo controle sobre o povo latino-americano. Proibiram as greves e, às vezes, até os sindicatos, eliminaram as leis do salário mínimo e deram incentivos fiscais para as grandes empresas dos EUA. Portanto, os construtores do império estadunidense pu-

Também é muito possível que as forças estadunidenses deem sustentação a exércitos controlados, como o da Colômbia, em conflitos militares que se alinhem aos interesses do país. No entanto, este é um jogo perigoso. Mesmo no curto prazo, a classe dominante dos EUA pode arrastar o país para outro conflito direto que, apesar de suas intenções, pode se alastrar e envolver inúmeras outras nações.

Paraquedistas estadunidenses saltam em Honduras: apoio ao golpe militar que depôs Zelaya

deram usar a política e a economia dessas neocolônias para subjugá-las e colocá-las na rentável agenda neoliberal. Essa agenda incluiu o fácil acesso, por parte das corporações dos EUA, e a pilhagem dos setores públicos das nações latino-americanas, através da privatização. Também permitiu que as multinacionais estadunidenses inundassem os mercados e a agricultura locais graças à eliminação das barreiras comerciais, ao aumento da exploração dos trabalhadores e à devastação dos recursos naturais, desprezando as leis que regiam o trabalho desses países e suas normas ambientais.

O Congresso da Costa Rica aprovou o ingresso da força militar estadunidense no país, justificando a medida com a desculpa duvidosa da “guerra contra as drogas” Golpe frustrado

Em consequência dos lucros auferidos por alguns como resultado dessas medidas, as grandes corporações levaram a melhor, embora tenham provocado um clima de rebelião nos camponeses e nos trabalhadores das semicolônias – rebelião que inevitavelmente encontrariam expressão. Como o olhar e os recursos dos EUA começaram a se voltar para outras partes do mundo, sobretudo Oriente Médio e Ásia, a rede com a qual haviam enrolado a América Latina começou a se desfazer. Isso ficou mais evidente na Venezuela, onde uma tentativa de golpe apoiada pelos EUA, em abril de 2002, não foi adiante por causa da mobilização do povo venezuelano em defesa de seus direitos democráticos. Todas as tentativas posteriores da oligarquia venezuelana, em conluio com o Departamento de Estado dos EUA, para se livrar de Hu-

go Chávez resultaram em humilhação, por causa do constante apoio e da organização das classes exploradas do país a favor de seu presidente. Tornou-se claro, para a classe dominante dos EUA, que já não era mais possível contar com a oligarquia venezuelana, que havia perdido o controle direto sobre a situação política. Além disso, o levante popular que a Venezuela testemunhou na década passada abriu as comportas para a organização anti-imperialista do continente, o que resultou na eleição de vários presidentes de esquerda. Nesses países latinos, além do bloqueio à agenda neoliberal dos EUA, houve também a criação de uma alternativa para as políticas de livre-comércio estadunidense. A Alternativa Bolivariana para a América Latina e o Caribe (Alba), iniciativa de Venezuela e Cuba, começou a construir um bloco comercial com base na troca, de acordo com as necessidades das diferentes nações, em lugar de enviar lucros às corporações estadunidenses. Enquanto a Alba precisa se desenvolver mais substancialmente, a fim de garantir seus compromissos, em especial no que diz respeito à organização das bases populares – que devem determinar suas prioridades –, os EUA veem-se às voltas com o desafio de manter o domínio empresarial e político na região. Movimentos militares

O resultado disso tudo foi a mudança de tática do governo dos EUA. Em vez de depender de meios exclusivamente econômicos e políticos para controlar a América Latina, os EUA decidiram recorrer a medidas militares, mesmo estando envolvidos em guerras no Iraque e no Afeganistão. Entre tais medidas, podemos lembrar que, em 2006, os EUA realizaram exercícios militares na costa da Venezuela, na chamada “Operação Parceria das Américas”. Esses exercícios envolveram quatro navios, 60 aviões de combate e 6.500 tropas. Nesse mesmo ano, o Departamento de Estado classificou as ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao, com suas bases militares em conjunto com a Holanda, como a

“Terceira Fronteira dos Estados Unidos”. Aviões de carreira e de combate, navios de guerra, helicópteros Black Hawk, submarinos nucleares e milhares de soldados se estabeleceram nas ilhas, em particular, Curaçao. Em 2009, um avião militar estadunidense, saído da base de Curaçao, foi interceptado no espaço aéreo venezuelano. Antes, em 2008, os EUA reativaram a Quarta Frota, fora de operação desde 1950, para patrulhar as águas do Caribe. Atualmente, ela pode ser utilizada como base flutuante, a partir da qual os EUA podem realizar ataques militares em toda América Central e do Sul. Em 2009, o país fechou um acordo para montar sete bases militares na Colômbia, a fim de estacionar, nelas, de 250 a 800 soldados estadunidenses e 600 civis, assumindo, de modo efetivo, o controle sobre essas instalações. A iniciativa foi amplamente denunciada em toda a América Latina como uma ação para intimidar a Venezuela. Em dezembro do mesmo ano, um drone [avião sem piloto] estadunidense decolou de uma das bases colombianas e violou o espaço aéreo venezuelano.

Em vez de depender de meios exclusivamente econômicos e políticos para controlar a América Latina, os EUA decidiram recorrer a medidas militares De 2009 a 2010, os EUA atuaram nos bastidores para legitimar o golpe militar que depôs, em Honduras, o presidente legalmente eleito Manuel Zelaya, que alinhara a nação com a Alba. Parte dos motivos que levaram os EUA a essas ações foi manter

o controle da base aérea Soto Cano, com seus 550 soldados estadunidenses e 650 civis de EUA e Honduras. Em 1980, o país havia usado essa base como campo de treinamento e plataforma de lançamento para os contraterroristas da Nicarágua e para os esquadrões da morte salvadorenhos, que atuavam contra a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Há boas razões para suspeitar que, atualmente, essa base aérea voltará a ser usada para operações semelhantes. Em 2009, um acordo entre EUA e Panamá levou à abertura de duas bases militares neste último. É a primeira vez, desde 1999, que as forças militares estadunidenses estacionam no Panamá. Guerra contra as drogas

A justificativa dada para a maioria dessas medidas foi a luta contra o tráfico de drogas – a mesma desculpa da escalada militar na Costa Rica. No entanto, nunca houve redução do narcotráfico. Ao contrário, a entrada das forças militares estadunidenses tem sido acompanhada por um aumento no tráfico de drogas, como aconteceu na Colômbia e no Afeganistão. Com base nesse registro, só se pode concluir que a lógica da “guerra às drogas” é uma falsa questão, usada como propaganda e relações públicas, e não a motivação real da militarização. O envio de tropas e equipamentos militares à Costa Rica é o mais recente de uma série de movimentos que os EUA realizam na América Latina e que tem como objetivo o uso de ameaças e armas para reverter a resistência das forças populares anti-imperialistas na região. O país joga com a possibilidade de erupção de uma conflagração continental, que geraria lucros para as grandes corporações. Embora seja duvidoso que, neste momento, os EUA queiram se engajar diretamente em um conflito militar com, talvez, a Venezuela, os preparativos para essa possibilidade estão sendo feitos. O mais provável, a curto prazo, é que os militares estadunidenses usem suas forças para empreender sabotagem e intimidação, na esperança de reverter o apoio dos países alinhados com a Alba.

Embora seja duvidoso que, neste momento, os EUA queiram se engajar diretamente em um conflito militar com, talvez, a Venezuela, os preparativos para essa possibilidade estão sendo feitos O objetivo dessa guerra, ou guerras, seriam as classes trabalhadoras e os movimentos populares da América Latina, cujo único crime tem sido o de lutar para se libertar da superexploração e da repressão policial. A elite política e econômica dos EUA é a mesma que nega aos trabalhadores estadunidenses o que é deles por direito, a mesma que se opõe aos esforços dos trabalhadores e camponeses do continente para se fortalecer. É tarefa do movimento pacifista recusar não apenas as guerras no Iraque e no Afeganistão, mas também prevenir futuros conflitos armados dos EUA na América Latina. Onde quer que os ativistas da paz busquem mobilizar as pessoas contra a guerra, devem também educá-las sobre os movimentos militares imperialistas dos EUA na América Latina. Mais do que isso, é necessária a solidariedade internacional para combater o que a elite estadunidense vem fazendo nas Américas Central e do Sul. Recentemente, houve um evento que, de certo modo, começou a preparar essa solidariedade. Em Sanare, na Venezuela, de 21 a 25 de junho, aconteceu uma série de encontros intitulada “Encontro das Américas: resistir à militarização e promover a cultura de paz”. Participaram delegados de organizações de 19 nações do continente, incluindo a School of the Americas (SOA) Watch [Observatório da Escola das Américas], dos EUA. Saiba mais sobre esse encontro em www.soaw.org. (Global Research) Mark Vorpahl é líder sindical, pacifista e ativista de solidariedade à América Latina. Tradução: Baby Siqueira Abrão


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