Circulação Nacional
Uma visão popular do Brasil e do mundo
Ano 8 • Número 370
São Paulo, de 1º a 7 de abril de 2010
R$ 2,80 www.brasildefato.com.br Jallasi/ABI
Nas eleições regionais, Evo quer consolidar sua hegemonia
A questão do acesso e da formação dos educadores O Brasil de Fato dá sequência à série de reportagens sobre a Conferência Nacional de Educação (Conae), que acontece em Brasília entre os dias 28 de março e 1º de abril. Nesta edição, confira as matérias sobre Democratização do acesso, permanência e sucesso escolar; e Formação e valorização dos/das profissionais da educação. Págs. 4 e 5
Escolha de candidato à Presidência divide o Psol O Partido Socialismo e Liberdade (Psol) vai escolher o seu candidato à presidência entre os dias 10 e 11 de abril. A desistência de Heloísa Helena e a aproximação de setores do partido com o PV gerou a maior crise desde a fundação da legenda em 2003. Três candidatos disputam a indicação do partido: Plínio Arruda Sampaio, João Batista Oliveira, o Babá, e Martiniano Cavalcante. O Brasil de Fato ouviu os três candidatos, que explicaram suas diferenças. Pág. 3 ISSN 1978-5134
Bolivianos encerram campanha para as eleições regionais; MAS deve obter maioria
A Bolívia vai às urnas em 4 de abril com a perspectiva de que o MAS-IPSP, partido do presidente Evo Morales, consolide ainda mais a hegemonia conquistada com as eleições de dezembro de 2009. Na ocasião, Evo foi reeleito com 64% e sua agremiação garantiu dois terços do parlamento. As pesquisas dão vitória certa ao MAS em seis dos nove departamentos do país. No entanto, analistas veem como arriscada a estratégia do partido de fazer alianças com ex-opositores para avançar eleitoralmente no oriente. Isso evidenciaria o surgimento, no MAS, de uma lógica tradicional de se fazer política. Pág. 9
Preocupação estadunidense com a bomba atômica do Irã é o petróleo A pressão dos Estados Unidos sobre o Irã revela, em primeiro lugar, o receio que o primeiro tem com relação a um colapso no abastecimento desse recurso energético, segundo especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato. Enquanto, por um lado, as potências nucleares tentam intimidar o país persa, por outro, fazem vistas grossas ao desenvolvimento de ogivas nucleares
em Israel. Com um gesto de beligerância, o exército estadunidense já transladou centenas de bombas para uma ilha britânica no Oceano Índico. A base já foi utilizada para missões militares no Iraque. Segundo estudiosos, se o Irã possuísse, de fato, armas nucleares, poderia equilibrar o xadrez geopolítico no Oriente Médio e ajudar a manter a paz na região. Pág. 12
Soupshow/CC
NC Photo/CC
UE impõe monocultura no México
Altar feito em Oaxaca, México
Para suprir sua deficiência energética, a União Europeia tem avançado sobre outros territórios para o cultivo de agrocombustíveis. No sul do México, o bloco passou a impulsionar a plantação de palma azeiteira africana. Para estabelecer o cultivo na região, indígenas sofreram despejo violento. Além disso, a produção causa danos ambientais. Pág. 11
“Desinformar-se” para escapar da alienação Em entrevista, a jornalista mexicana Gloria Muñoz Ramírez fala sobre a importância do trabalho de contrainformação para enfrentar a investida dos meios de comunicação capitalistas. Ela acompanha o movimento
Movimentos sociais realizam fórum alternativo para discutir questão urbana, no Rio de Janeiro
zapatista desde o histórico levante de 1994, em Chiapas. Atualmente, Gloria dirige a revista mensal Desinformémonos, veículo que propõese desfazer “do que nos oferecem” e nos munir de “Outra Informação”. Pág. 10
Contra a mercantilização das cidades Cerca de 2 mil pessoas participaram do Fórum Social Urbano (FSU) no Rio de Janeiro, entre os dias 25
e 28 de março e discutiram estratégias para combater a lógica mercantil sobre o espaço urbano, como a espe-
Divulgação/ASA
culação imobiliária. Ao final do encontro, foi lançado um documento final chamado Carta do Rio. Pág. 6 Reprodução
A vida, sem sofrimento, no semi-árido Para debater as possibilidades de convivência com o semi-árido, cerca de 600 trabalhadores do Nordeste e de Minas Gerais se reuniram em Juazeiro (BA), entre 22 e 26 de março, no VII Encontro Nacional da Articulação do Semi-Árido Brasileiro (EnconASA). Pág. 7
Wilfredo Lam:
a cultura afrocubana em gravuras Pág. 8
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editorial DESDE O DIA 8 de março os professores da rede de educação do Estado de São Paulo estão em greve. Uma greve anunciada ainda em 26 de novembro do ano passado, numa assembleia do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeosp), sinalizando protesto contra a falta de reajuste salarial, programa de promoção por méritos e prova para os professores temporários. A principal reivindicação dos professores é o reajuste salarial de 34,3%, sendo uma parte como reposição da inflação e a outra por perdas históricas. Há 5 anos eles não tem reajuste salarial. Mobilizados, cerca de 30 mil educadores saíram em passeatas pelas principais ruas da capital paulista. Em troca, recebem o desrespeito e a intransigência do governo (demotucano) de José Serra, incapaz de lidar com os movimentos sociais e com as reivindicações salariais do funcionalismo público. São mais de 80% das escolas paralisadas, de acordo com a categoria, e o governador fica alardeando que a greve estadual “graças a Deus não pegou”. O mesmo governador que afirmou ser apenas uma fatalidade as seis dezenas de mortes causadas pelas chuvas neste ano. O tratamento dispensado ao movimento grevista é apenas um reflexo do como o governo demotucano trata a questão da educação
debate
Todo apoio à luta dos professores e contra a truculência de Serra em São Paulo. O Estado mais rico do país tem um dos piores índices educacional. Materiais didáticos são editados e enviados às escolas com erros grotescos e de péssima qualidade. Os professores foram classificados em diferentes categorias, numa clara intenção de dividir e enfraquecer a categoria. As salas de aulas lotadas, dificultam o trabalho dos professores e comprometem a aprendizagem dos alunos. Não há concursos públicos para a efetivação dos professores – há mais de 80 mil professores temporários, excluindo-os dos benefícios que os efetivos já conquistaram. O vale-refeição é tão ridículo que passou a ser popularizado como “vale-coxinha”. E o sistema de “progressão continuada”, estabelecendo a obrigatoriedade de aprovar um aluno de um ano a outro, serve apenas para a divulgação do alto índice de aprovação (obrigatória!) dos alunos. Mas acreditem se quiser, o governo José Serra, tendo como Secretário da Educação o ex-ministro do governo FHC, Paulo Renato, estabeleceu que o professor da categoria “O”, após o término do seu contrato
terá que ficar, obrigatoriamente, 200 dias afastado das salas de aula. Ou seja, o governo instituiu uma espécie de “duzentena” há um professor que pode ter trabalhado apenas três meses, substituindo outro professor em licença. Imbecilidades não se justificam. Mas seus autores deveriam ser responsabilizados. Cada vez mais refém das forças conservadoras que lhe dão apoio a sua candidatura presidencial, o governador Serra – que deixa o cargo dia 31 de março – procura derrotar o movimento grevista sincronizando três aspectos. Primeiro, busca deslegitimar a greve dizendo que é um movimento pequeno – afirma que menos de 1% dos professores aderiram à greve – e que atende apenas interesses eleitorais, buscando prejudicá-lo na campanha presidencial. Coisa de “baderneiros” para tumultuar o processo eleitoral. O PSDB cogita, inclusive, processar a presidente da Apeoesp sob acusação da greve atender interesses eleitorais. O segundo aspecto é controlar a mídia, impedindo que seja divulgado tanto a incapacidade do governo
crônica
Frei Betto
Pileque precoce PESQUISAS INDICAM que o perfil preponderante do jovem brasileiro de hoje é, ao contrário da minha geração, conservador, individualista, distante daqueles que, em meados do século 20, queriam mudar o mundo. Agora, ele se mostra mais preocupado em ter um bom emprego do que motivações ideológicas; menos propenso a riscos e mais apegado à família. A relação com a sociedade é mais virtual que real: fechado em seu quarto, ele nem precisa rezar “venham todos ao meu reino”, pois tudo lhe chega através do telefone, da TV, da internet, do MP3. A cultura consumista a todos nós oferece, em cálice dourado, o elixir da eterna juventude. Os jovens não querem deixar de ser jovens; adultos e idosos insistem em imitar os jovens. E o principal fator de afirmação é a autoimagem, a valorização da estética. O jovem atual não quer se arriscar; anseia por experimentar. Na falta de motivação religiosa, experiência espiritual e ideologia altruísta, tende a buscar na bebida e na droga a alteração de seu estado de consciência. Sem isso não se sente suficientemente relaxado, loquaz, divertido e ousado. É óbvio que a mídia dita padrões de comportamento, hábitos de consumo e paradigmas ideológicos. A diferença é que tudo isso chega ao jovem de tal forma bem embalado em papel brilhante e fita colorida, que ele nem percebe o quanto é vulnerável à ditadura do consumismo. No Brasil, a ingestão de bebidas alcoólicas é legalmente proibida a menores de 18 anos (nos EUA, 21 anos). A fiscalização pouco funciona e o Estado permite a publicidade de cerveja a qualquer hora em rádio e TV – concessões públicas- e o estímulo ao consumo precoce. Inclusive a utilização publicitária de pessoas famosas das áreas de entretenimento, artes e esportes, para suscitar em crianças e jovens reações miméticas de consumo de álcool. Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) informam que 42% das crianças brasileiras com idade entre 10 e 12 anos já consumiram bebida alcoólica, e 10% dos jovens de 12 a 17 anos podem ser classificados como dependentes de álcool. Os adolescentes acreditam que um copo de chope não implica risco à saúde. Talvez. O problema é que, ao se enturmar num bar, ele bebe oito ou dez. Ou apela para o mais barato, no duplo sentido da palavra – custo e efeito:
como as mobilizações que os professores tem feito e a pauta de suas reivindicações. Há um completo silêncio. É como se a greve não existisse para mídia subserviente à candidatura Serra. Em algum período do futuro essa mídia será cobrada, não pelo explícito aparelhamento ao atual governo paulista, mas sim pelo total descaso com a história. O Controle que o governo demotucano tem sobre a mídia em nada difere do controle que os coronéis da política como José Sarney e Antônio Carlos Magalhães, já falecido, mantinham em seus Estados. A diferença é que eles eram donos dos meios de comunicação. O terceiro aspecto para derrotar a greve, é usar, sem hesitação, a truculência e a violência da Policia Militar. A violência cometida contra os professores não difere do tratamento dado aos movimentos grevistas no tempo da ditadura militar. Além disso, o governo Serra, repetindo práticas do governo tucano de Yeda Crusius, no Rio Grande do Sul, utiliza-se da prática de infiltrar agentes da polícia no meio dos grevistas, com a tarefa de
Luiz Ricardo Leitão
Yank$ Out Reprodução
uma garrafa de cachaça ou vodca custa menos que uma rodada de chope e provoca rápido “um barato”... O Ministério da Saúde já calculou quanto o alcoolismo custa aos cofres públicos? Quanto gasta o INSS com os alcoólicos afastados do trabalho por razões de dependência? De que adiantam as campanhas de prevenção se atletas de renome fazem propaganda de bebida alcoólica A publicidade de bebida destilada – cachaça, uísque, vodcaobedece à restrição de horários, regulados pela lei 9.294/1996. Entre 6h e 21h é vetada a publicidade de destilados, embora muitas rádios burlem a proibição. A cerveja, que responde por 70% de todo álcool ingerido no Brasil, é livre de regulamentação. E é por ela que muitos jovens ingressam na dependência química. Pela lei 9.294, bebida alcoólica é a que possui mais de 13 graus na escala Gay-Lussac. O Congresso Nacional assim determinou pressionado pelos produtores de cerveja e vinho. Normas internacionais consideram que é alcoólica toda bebida com 0,5º GL ou acima. Todas as demais leis do Brasil – de trânsito, de fabricação etc. – consideram alcoólica toda bebida com mais de 0,5º GL. A cerveja tem cerca de 4,8º GL. Verifique com lupa o rótulo de uma cerveja dita “sem álcool”. Com exceção de uma marca, as demais possuem 0,5º GL, ou seja, fazem, com respaldo da lei, propaganda enganosa. Assim, pais desavisados deixam crianças ingerirem a cerveja “sem álcool” e alcoólicos em tratamento são vítimas do mesmo engodo.
identificar trabalhadores, fomentar provocações, causar conflitos que justificam uma repressão maior por parte da Policia Militar e rendam imagens para a mídia demonizar a mobilização. Nesse clima, há uma tendência pela continuidade da greve. Caso isso se confirme, já é hora da classe trabalhadora mostrar solidariedade à luta dos professores. Não se trata apenas de ser solidário à justa reivindicação salarial dos professores. Trata-se de influir na política educacional do país, de impedir que os governos continuem tratando as questões sociais como caso de polícia e de cobrar dos meios de comunicação a responsabilidade de informar a população. O governo de José Serra quer fazer da greve dos professores to que o governo Fernando Henrique Cardoso fez coma greve dos petroleiros em 1995, impondo não apenas uma derrota ao movimento grevista, mas também assegurar uma ofensiva contra os direitos sociais e trabalhistas da classe trabalhadora. Em 1995, ao não perceber a jogada que FHC fazia contra os petroleiros, faltou solidariedade e apoio àquela greve. Aquela derrota custou-nos dois mandatos presidenciais de FHC. É hora de mostrar que houve um aprendizado e que a classe trabalhadora saia às ruas em apoio a greve dos professores de São Paulo.
O Código de Autorregulamentacao do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) alerta que comerciais de cervejas não devem ser atrativos para o público jovem. O que se vê é o contrário. As peças publicitárias exalam jovialidade, bom humor, espírito de tribo, linguagem própria de jovens, sem que haja nenhum controle. Vêm aí a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Se permanecer liberado o direito de associar desportistas com bebidas alcoólicas a Lei Seca, com certeza, vai dar água... Em muitos países, como no Canadá, há regulamentação à publicidade de bebida alcoólica, visando à proteção do público infantil. Lá não se vende bebida alcoólica em supermercados, lojas, padarias e mercearias. Só se permite em bares e restaurantes. O Free Jazz, festival de música, foi cancelado por ser patrocinado por uma marca de cigarro. O mais badalado camarote do sambódromo exige que se vista a camisa de uma produtora de cerveja. Não existe o alerta: “Se fumar, não dirija”. Já no caso da bebida... O argumento de que regular a publicidade é censura ou fere a liberdade de expressão é mero terrorismo consumista centrado em sobrepor interesses privados ao interesse público, como é o caso da proteção da saúde da população, em especial de nossas crianças e adolescentes. Frei Betto é autor, em parceria com Marcelo Barros, de O amor fecunda o Universo – ecologia e espiritualidade (Agir), entre outros livros.
FORA IANQUE$! – bradavam as faixas vermelhas estendidas por milhares de indignados cidadãos ingleses. Não, meu caro leitor, não estou me referindo a um eventual encontro do Fórum Social Mundial em Londres, nem tampouco a um veemente protesto dos britânicos contra a ocupação do Afeganistão e do Iraque pelos marines de Tio Sam. O episódio ocorreu há poucos dias, em um estádio de futebol do Reino Unido, durante o jogo Manchester United x Liverpool, decerto o clássico de maior tradição da Liga Inglesa, até então considerado o mais rico e poderoso campeonato do Velho Mundo. O insólito protesto foi um marco na luta dos torcedores ingleses contra a “invasão” ianque em marcha acelerada sobre o velho e violento esporte bretão. O futebol da Inglaterra já há algum tempo vem sendo assediado por magnatas e mafiosos de distintas nacionalidades – desde o estadunidense Malcom Glazer (dono do Manchester) e seus compatriotas George Gillett e Tom Hicks (proprietários do Liverpool), até o bilionário russo Roman Abramovich (dono do Chelsea), cujo nome está associado a mirabolantes histórias de contrabando de diamantes na África, lavagem internacional de dinheiro e sonegação de impostos em sua terra natal, onde está condenado à prisão. Desde o início do ano, os torcedores esqueceram suas desavenças e comparecem aos estádios com cartazes e faixas que traduzem o seu desejo de resgatar a verdadeira identidade dos clubes locais, ‘assaltados’ pelos estrangeiros. Os fãs do poderoso Manchester, por exemplo, apesar do tradicional uniforme vermelho de sua equipe, têm usado cachecóis verde-amarelos, em alusão às cores originais do Newton Heath, time que em 1902 deu origem ao atual clube do craque Wayne Rooney. Os aguerridos hooligans prometem ainda boicotar os jogos da próxima temporada, afetando bastante a venda dos carnês antecipados, uma das principais fontes de receita dos clubes britânicos. A revolta dos reds não se dá por mero chauvinismo ou ufanismo estéril dos ingleses. No caso do Manchester United, a família Glazer, que assumiu a direção da agremiação em 2005, em vez de sanear as suas dívidas, terminou por elevá-las à astronômica cifra de 700 milhões de libras (cerca de R$ 1,89 bilhão!). A indignação da torcida é tão profunda, que os “cavaleiros vermelhos” já começaram a organizar-se para assumir a direção do clube, uma iniciativa que, se concretizada, seria um precedente notável na história de um esporte, que, tutelado por megaempresas como a Adidas e a Nike, se torna a cada dia mais globalizado e mais espetacular. Imagine, meu caro leitor, o impacto político (e pedagógico) dessa medida. O que seria feito de um Eurico Miranda ou de um Kléber Leite, se essa moda chegasse ao Brasil? Sonhar não custa nada, já cantava um samba-enredo carioca: o que ocorreria ao futebol e ao esporte de Bruzundanga, se parasitas como Ricardo Teixeira (atual chefão da CBF e – pasmem! – candidato à presidência da FIFA) e Carlos Arthur Nuzman (presidente do COB e cacique mor das Olimpíadas 2016 S/A) fossem destituídos por ligas autônomas de torcedores? Hoje isso é quase inconcebível, eu sei, mas não custa nada relembrar o velho Marx e frisar que, a julgar pela reação da torcida britânica, há fantasmas alvissareiros a rondar os gramados da Rainha e o reino encantado da pelota... Aliás, a estas horas, lá em seu túmulo londrino, o fantasma do genial criador do Manifesto Comunista deve estar, por certo, a esboçar um sorriso de ironia, ciente de que, não obstante as variadas máscaras com que se traveste (em especial o sonoro epíteto de globalização), o imperialismo não consegue ocultar sua natureza excludente e deletéria. Assim como o bom-mulato Obama, com sua fala mansa, tampouco se sobrepôs à aliança bélico-petrolífera que há muito comanda os negócios de Tio Sam, fustigando implacavelmente os “inimigos” do Império – que o digam o Irã, Cuba & Venezuela... Eu sei que, por cá, em plagas tropicais, o ritmo é outro. Trucidados pelo estilo BBB 10 da nossa mídia, os torcedores continuam entretidos pelos causos pitorescos de Ronaldo, Adriano & Cia., a quem o preconceito de classe reserva os comentários mais cruéis, ao passo que os dirigentes da hora seguem impunes em Bruzundanga, pecando não apenas por ação ou omissão, mas, sobretudo, por comissão, como disse, com rara ironia, o falecido Armando Nogueira. Contudo, não desanime, caríssimo leitor: a mentira pode correr cem anos, porém a verdade a alcança em um só dia. Amanhã vai ser outro dia... Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil (lançado em 2009 pela Expressão Popular).
Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800
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Escolha de candidato abre crise no Psol ELEIÇÕES Com três pré-candidatos, partido busca sair fortalecido do processo, mas troca de acusações compromete objetivo Fotos: Divulgação/Psol
Plínio Arruda Sampaio, Martiniano Cavalcante e Babá são os três pré-candidatos do Psol; desafio dos militantes é fazer o partido sair unido após a decisão de quem disputará a presidência da República
Renato Godoy de Toledo da Redação O PARTIDO Socialismo e Liberdade (Psol) terá sua primeira convenção eleitoral nacional dos seus sete anos de história entre os dias 10 e 11 de abril. Com a desistência do nome natural do partido, a vereadora de Maceió (AL), Heloísa Helena – que deve disputar uma vaga ao Senado –, três candidatos se apresentam como opções: Plínio Arruda Sampaio (SP), Martiniano Cavalcante (GO) e João Batista de Oliveira, o Babá (RJ). A configuração da disputa tornou-se mais acirrada após o fim das negociações – sem sucesso – de setores do partido com o PV de Marina Silva. As correntes que apoiam Martiniano Cavalcanti – o Movimento de Esquerda Socialista (MES) e o Movimento Terra Trabalho e Liberdade (MTL) – foram as principais protagonistas da tentativa de acordo e recebem críticas de outras tendências do partido. Os três candidatos apontam que o partido tem um desafio imenso após as prévias: sair unido da disputa, meta que parece comprometida, dada a escalada de troca de acusações entre as correntes. Mais difícil ainda vai ser reeditar a Frente de Esquerda de 2006, que a
“Apontamos a necessidade de formular uma alternativa de poder. Precisamos de uma democracia mais profunda, com uma ruptura democrática”, diz Martiniano legenda compôs com PSTU e PCB em torno da candidatura de Heloísa Helena. (ver matéria abaixo) Há uma maior polarização entre a candidatura de Plínio Arruda Sampaio e Martiniano Cavalcanti – os dois favoritos. No espectro partidário, o grupo de Babá situa-se à esquerda de ambos. Mas o próprio pré-candidato admite que sua corrente, a Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), tem pouca representatividade no partido. O ex-deputado federal aponta que o principal objetivo de sua militância no momento é derrotar a candidatura de Martiniano. Mesmo assim, Babá afirma que a desistência em favor de Plínio não foi discutida na sua corrente. Segundo os oponentes de Martiniano, sua militância se empenharia na candidatura de Marina Silva, caso a précandidatura do MES/MTL não saia vitoriosa. A indicada do PV à presidência demons-
tra que apoiará as pretensões de Heloísa Helena a uma vaga no Senado. Qual programa?
Em termos programáticos, as divergências também estão presentes. No último congresso do partido, em 2009, houve um debate entre duas posições distintas. Um setor defendia um programa para o partido que apontasse para uma ruptura socialista. Outro sustentava a tese de um programa democrático e popular. Na candidatura de Plínio Arruda Sampaio, há membros desses dois setores. Duas importantes bases de apoio da pré-candidatura de Plínio, a APS e o Enlace, defendem um programa democrático e popular, com reformas profundas e inversão de prioridades, o que acumularia forças na sociedade para a construção do socialismo. Outro setor que defende o programa democrático e popular, o MES/MTL, apoia a
candidatura de Martiniano. Para a CST, de Babá, esse programa está superado e a maior prova disso é a experiência do PT, que desde os anos 1980 o defendia e o transfigurou com o passar do tempo. Para Plínio, a candidatura do Psol não pode “esconder” o socialismo, mas aponta que essa bandeira ainda não está na ordem do dia. “Nossa candidatura tem dois eixos: o combate à segregação social e à dependência. A ruptura [socialista] não é imediata. Para o socialismo, são necessárias condições objetivas e subjetivas. Mas como a consciência não está desenvolvida, precisamos começar com transformações radicais dentro do capitalismo. Para, a partir das contradições desenvolvidas, apontar a necessidade histórica do socialismo”, afirma. Nesse aspecto, há concordâncias entre Plinio e Martiniano Cavalcanti. Este também aponta que a construção do socialismo não está em debate e defende a radicalização da democracia – o que é apontado por adversários como um recuo programático com vistas a “esconder” o socialismo. “Apontamos a necessidade de formular uma alternativa de poder. Precisamos de uma democracia mais profunda, com uma ruptura democrática. Esse processo deve
Aliança com empresários causa polêmica Martiniano Cavalcanti defende aproximação com setores médios da Redação Da mesma forma como ocorreu na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), o apoio ao chamado pequeno e médio empre-
sariado gera polêmica no Psol. Aqueles que defendem as alianças com tais setores são tachados como moderados e reformistas. Enquanto aqueles que defendem um partido “sem patrões” são apontados como estreitos e sectários. Para Plínio Arruda Sampaio, as alianças com setores do empresariado não são por si só contraditórias em relação ao movimento socialista. Em determinados momentos, elas são necessárias. Mas na atual conjuntura, o dirigente acredita que não há porque fazê-las. “Hoje não temos
nenhum interesse em comum com os capitalistas. Só nos interessa a aliança com os socialistas”, avalia. Setores mais amplos
O pré-candidato Martiniano Cavalcanti considera equivocada a visão de Plínio e defende que o partido tente atrair setores da pequena burguesia e empresários “que tenham contradição com a política econômica”. “Temos que contemplar setores mais amplos do que a esquerda socialista apenas. Em campanha para o governo de São Paulo [em 2006], Plínio fa-
Opositores de Martiniano apontam irregularidades Segundo Babá, Estados em que o partido não tem tradição não tiveram fiscalização da Redação Após a realização de conferências eleitorais estaduais com vistas a eleger delegados para o encontro na-
cional, alguns desentendimentos trouxeram contornos ainda mais tensos para o processo interno do Psol. Membros dos grupos que apóiam Babá e Plínio colocam sob suspeição a eleição de delegados em estados onde o partido tem pouca tradição, como é o caso do Acre. Neste estado, o partido elegeu nove delegados (pró-Martiniano) para a convenção nacional, enquanto em Alagoas, domicílio eleitoral de Heloísa Helena, foram apenas quatro. Para Babá, esses fatos ocorreram em Estados em que não houve fiscalização.
Nessas unidades federativas, segundo ele, o grupo pró-Martiniano conquistou 100% dos delegados. Outra evidência de irregularidade, segundo ele, é o fato de, no Acre, mais de 90% da militância ter participado do processo, sendo que a média de comparecimento em outros Estados não passa de 50%. Alguns recursos tramitam no partido para anular esses resultados. Para o grupo de Heloísa Helena, trata-se de uma tentativa de reverter a vitória de Martiniano em alguns Estados, o que configura uma “virada de mesa”.
lou que não construiria nenhuma casa, porque há milhões de imóveis vazios. Isso gera um conflito com a pequena burguesia, e esse não deve ser nosso objetivo agora. Queremos um embate com o monopólio financeiro”, defende. Martiniano também critica a proposta de um sistema de saúde 100% estatal, defendida por Babá e Plínio. “Vão proibir um médico de abrir um consultório particular? Isso implicaria um choque com um setor que não é nosso inimigo principal”, acredita. (RGT)
Site fora do ar
As supostas irregularidades foram levantadas por membros de outros grupos e expostas até no site do partido em artigos. No dia 25 de março, membros da executiva nacional do partido liderados por Heloísa Helena resolveram retirar a página do ar, por considerar que esta servia a interesses da candidatura de Plínio. Mais tarde, o endereço voltou a funcionar. “Entendemos ser melhor garantir a imparcialidade de nosso site, tirando-o do ar e não colocando neste nenhum conteúdo, para que não cometamos os mesmos desvios da fração da direção que apóia a pré-candidatura de Plínio”, justifica nota assinada por Heloísa Helena e outros dirigentes. (RGT)
se apoiar na democracia direta. Devemos refundar a República por meio de uma Constituinte e defender primeiro as bandeiras nacionais, democráticas e populares. Não queremos fazer do Psol um partido vanguardista de extrema esquerda, que apenas dialogue com PSTU e PCB”, critica, numa referência aos seus oponentes. Já Babá critica a ideia do governo democrático-popular. “Temos críticas a esse modelo desde a gestão do ex-prefeito de Belém, Edmilson Ro-
drigues [que encampa a candidatura de Plínio]. Achamos que não se pode governar para todos. O governo tem que ser em prol dos trabalhadores, contra o capital. Não se pode servir aos dois ao mesmo tempo”, aponta. Mesmo contrário a tal programa, Babá acredita que, nas eleições, o partido deve propagandear bandeiras da classe trabalhadora, como o nãopagamento da dívida pública, que não é “necessariamente uma reivindicação socialista”, de acordo com o dirigente.
Quem é quem no Psol Plínio Arruda Sampaio é ex-deputado constituinte,
presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária. Deixou o Partido dos Trabalhadores em 2005. Sua précandidatura recebe o apoio da maioria dos parlamentares do Psol e de correntes como Ação Popular Socialista, Enlace e Coletivo Socialismo e Liberdade.
Martiniano Cavalcanti é apoiado pela ex-senadora Heloísa Helena e pelas correntes Movimento Terra Trabalho e Liberdade (MTL) e Movimento Esquerda Socialista (MES), da deputada federal Luciana Genro (RS). O précandidato é engenheiro e já militou no PCB e no PSTU. Babá foi deputado federal pelo Pará por dois mandatos.
Em 2003, deixou o PT, após a votação da reforma da previdência. Ao lado de Luciana Genro e Heloísa Helena, foi um dos primeiros fundadores do Psol. Em 2004, mudou o seu domicílio eleitoral para o Rio de Janeiro. É membro da tendência trotskista CST.
“Ex-Frente de Esquerda” deve lançar três candidatos Psol, PCB e PSTU devem ter nomes próprios em outubro da Redação Em 2006, um setor da esquerda brasileira apresentou uma composição eleitoral que parecia tornar-se uma alternativa ao bloco hegemonizado pelo PT e pelo presidente Lula. Psol, PCB e PSTU uniramse em torno da candidatura de Heloísa Helena. No entanto, desde a campanha até hoje, diversos problemas internos surgiram entre essas forças e a reedição da aliança em 2010 torna-se cada vez menos provável. No Psol, Plínio e Babá defendem a aliança apenas com PSTU e PCB. Martiniano afirma que pode se aliar com esses partidos, mas não quer se limitar a ambos. Se no Psol parece ainda haver um desejo de aliança com esses partidos, fora dele o cenário é diferente. O PSTU já lançou José Maria de Almeida como pré-candidato. Segundo a legenda, os diálogos entre membros do Psol e do PV precipitaram a decisão. Ivan Pinheiro, secretário-geral do PCB, também aponta essas negociações como problemáticas. “Esta aproximação foi muito ruim, porque deixou exposto que o que predomina é a ‘matemática eleitoral’. O raciocínio foi mais ou menos o seguinte: já que perdemos uma candidata com votos [Heloísa Helena], vamos procurar outra que nos ajude a eleger parlamentares. O problema é que
Marina não tem nada de socialista. É uma figura digna, mas quer conciliar o inconciliável: meio ambiente com capitalismo”, relata. Pinheiro considera difícil uma nova edição da frente e afirma que o partido já decidiu lançar uma pré-candidatura. “O problema não é o nome do candidato ou candidata [do Psol]. Está tudo errado. Primeiro tínhamos que discutir a política, a conjuntura nacional e internacional, o que nos une em termos táticos e estratégicos”, critica o dirigente.
“Esta coligação nunca mais se reuniu. Nem para tentar uma posição comum no segundo turno de 2006”, lembra Ivan Pinheiro Para o comunista, o Psol erra ao realizar uma discussão interna e posteriormente tentar impor um candidato aos demais partidos da frente. “Esta coligação nunca mais se reuniu. Nem para tentar uma posição comum no segundo turno de 2006 e nem para fazer um balanço! Não faz sentido agora um partido nos apresentar um candidato, por ele escolhido depois de um processo errático e dramático onde só se discutiram nomes, como se fosse também o nosso candidato”, avalia. (RGT)
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brasil
Cidades não são mercadorias NC Photo/CC
ENCONTRO Desmercantilização e elaboração de um modelo igualitário das cidades unificam progressistas no Fórum Social Urbano
Deficit habitacional O problema habitacional foi o mais abordado durante o FSU. O enorme déficit brasileiro e o crescimento das regiões de baixa qualidade de moradia foram frisados a todo momento. “O principal programa do governo federal, o Minha Casa Minha Vida, praticamente não está produzindo nada para a faixa que seria prioritária, de 0 a 3 salários mínimos. Por quê? Pela lei, é proibido construir em áreas sem infra-estrutura urbana. E as áreas que têm isso são vistas como oportunidades de negócio. Toda área estruturada fica num preço acima dessa faixa de salário, que é 90% do déficit habitacional brasileiro”, diz Guilherme Marques, o “Soninho”, pesquisador do Observatório dos Conflitos Urbanos no Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ) e principal organizador do FSU. A segurança pública também foi amplamente comentada, especialmente pelo fato de o evento tomar corpo numa cidade de índices de violência tão graves. O consenso era de que não se resolverá esse problema de forma isolada. É preciso encarar em conjunto todos os problemas da cidade, a começar pela enorme desigualdade social, causadora principal da violência carioca. A coerção promo-
Vitória ruralista
A bancada ruralista comemora grande vitória no Congresso Nacional: conseguiu protelar mais uma vez a votação da Proposta de Emenda Constitucional que confisca as terras nas quais são encontrados trabalhadores em situação de escravidão. Parlamentares do PT, PCdoB, PSB e de outros partidos que vinham apoiando a medida (PEC 438/2001) não acreditam que venha a ser aprovada em ano eleitoral. Vai completar 10 anos de tramitação!
Aliança direitista
A poucos dias de deixar a presidência do Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes tem sido objeto de manifestações de simpatia dos setores da direita. No dia 27, um editorial do jornal Folha de S. Paulo elogiou a atuação do jagunço do Mato Grosso no STF e reafirmou apoio à libertação do banqueiro Daniel Dantas, preso por ordem judicial devido à prática de vários crimes financeiros. A direita cuida de si!
Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) HÁ ALGUM tempo o Rio de Janeiro não via algo assim. Na tarde do dia 22 de março, pouco a pouco, chegavam a um enorme galpão, na zona portuária, homens e mulheres de traje informal. Após alguns minutos, a sede da Ação da Cidadania estava repleta daquelas pessoas raras que desejam modificar o mundo através de sua união. De estudantes secundaristas a parlamentares, o auditório lotado ouvia atento à mesa, composta por personalidades como o urbanista estadunidense David Harvey e a professora da Universidade de São Paulo (USP) Ermínia Maricato, entre outros. As ricas abordagens dos temas urbanos se seguiriam pelos cinco dias do evento. O sucesso do Fórum Social Urbano (FSU) surpreendeu até mesmo os principais organizadores. Com 113 atividades, criado como evento paralelo ao Fórum Urbano Mundial (FUM), da ONU, o espaço atraiu uma média de 2 mil pessoas por dia. A proposta era discutir a cidade sob uma perspectiva libertadora, que não enxergasse o espaço urbano como produto a ser vendido. Ainda antes da abertura, os organizadores promoveram uma passeata com cerca de 500 pessoas que saíram da Candelária em direção à área dos dois fóruns, ambos na zona portuária. Durante o ato, houve apresentação de peças teatrais e ações simbólicas pontuais, como a que simulava a poluição através de extintores de incêndio acionados em conjunto. Em frente ao FUM, os manifestantes protestaram contra o conservadorismo do espaço político criado pela ONU, estruturado na concepção liberal de cidade. Em seguida, houve a abertura oficial. David Harvey, o mais esperado e aplaudido, construiu uma intervenção centrada na ideia de que não há como superar os crescentes conflitos urbanos dentro da ordem capitalista. “As soluções que se encontram nesses outros fóruns sempre têm um viés econômico, como por exemplo a venda de créditos de carbono. Pergunto: há quanto tempo o capitalismo está aí? Se o consideram tão bom, por que ele não resolve o problema? Só construiremos uma outra cidade a partir de um outro modelo econômico”, afirmou.
fatos em foco
Hamilton Octavio de Souza
Desigualdade criada Fórum Social Urbano, evento paralelo ao Fórum Urbano Mundial, atraiu cerca de 2 mil pessoas por dia
“Existe tanta gente boa entre nós que é impossível que não saiamos daqui com alguma reinvenção”, disse. Foi o que aconteceu vida pelo próprio Estado contra comunidades pobres foi amplamente criticada. “Diferentemente dos primórdios da economia capitalista, os trabalhadores não estão mais confinados nas fábricas, sob o controle dos capatazes. Agora, são reprimidos nos ambientes em que se concentram”, denunciou Marcelo Badaró, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). Em relação às discussões, Ermínia Maricato foi otimista. “Existe tanta gente boa entre nós que é impossível que não saiamos daqui com alguma reinvenção”, disse. Foi o que aconteceu. Os organizadores do FSU elaboraram a Carta do Rio, homônima ao documento final do FUM. O texto estabelece 20 principais recomendações para democratizar o espaço público. Defende a redução das desigualdades sociais nas cidades, com casas populares em áreas urbanas e próximas ao mercado de trabalho, propõe o fim das remoções e despejos para realização de megaeventos, inclusive das 120 comunidades previstas para a organização das Olimpíadas de 2016, e clama
pela regularização de bairros pobres e acesso ao transporte público de qualidade, além da reforma agrária e opções de trabalho no campo. Dia da Cidade A Carta ainda propõe a criação de um Dia Internacional de Lutas Urbanas (25 de março), para trabalhar não apenas a luta por moradia, mas todas as demandas da cidade. Também sugere que sempre haja, paralelamente ao FUM, um FSU, nas mesmas cidades. “A Carta do Rio dá protagonismo a organizações que não têm evidência nos fóruns oficiais, para os quais são convidados apenas por formalidade, para simular uma diversidade inexistente”, declarou Sam Jackson, diretor da May Day New Orleans, organização em defesa dos sem-teto vitimados pelo furacão Katrina. Até o dia 15 de abril, outros movimentos sociais ausentes do FSU podem enviar sugestões ao documento para cartadoriofsu@gmail.com, que será reformulado a partir delas. O FSU nasceu de uma ampla mobilização dos movimentos sociais fluminenses, que pela fla-
grante heterogeneidade levava a crer que a discussão da cidade por um viés progressista era preocupação comum a todos os setores da esquerda. “No começo, discutíamos apenas o que iríamos fazer durante o Fórum da ONU. Pensávamos numa manifestação, e em alguns debates. Depois que nos reunimos pela primeira vez, percebemos que muita gente tinha grandes ideias e resolvemos fazer algo maior”, conta Soninho. A partir da ampla mobilização que gerou, e das inúmeras ideias que foram surgindo, sem as disputas comuns em processos construídos por setores heterogêneos, o FSU foi ganhando, cada vez mais, amplitude. A realização dos dois fóruns no Rio de Janeiro, na zona portuária, é emblemática. A cidade foi, recentemente, escolhida para sediar as Olimpíadas, além de ser a principal sede da Copa do Mundo de 2014. A região é objeto de um projeto de revitalização em curso, motivado pela realização das competições. Entretanto, a proposta é criticada por posicionar como questão central o fator econômico, e não o social. É provável que ocorra na zona portuária um fenômeno conhecido como “remoção branca”, a migração dos mais pobres para outras regiões, incapazes de sobreviver à especulação imobiliária. O Rio de Janeiro também é candidato à Expo 2020, maior evento de negócios do mundo.
Mesmas preocupações, outra ideia de cidade Na rua ao lado, o Fórum da ONU deu às mesmas questões urbanas abordagens distintas, mas não opostas do Rio de Janeiro (RJ) Na mesma zona portuária do Rio de Janeiro, a apenas alguns metros do Fórum Social Urbano (FSU), realizava-se o quinto Fórum Urbano Mundial (FUM). Mais de 52 mil pessoas de cerca de 150 países participaram do evento. Nessa edição, o tema foi “O direito à cidade: superar a brecha urbana”. Promovido pela Agência para Habitação das Nações Unidas (ONUHabitat), é considerado o maior espaço de discussão das contradições urbanas do mundo. Entretanto, embora tenha representação de uma ampla diversidade de movimentos sociais, o fórum costuma ser criticado por setores da esquerda por privilegiar a discussão da cidade sob uma perspectiva liberal (a famosa busca por “atrair investimentos”).
“É preciso entender que ambos os fóruns são importantes, mas que têm objetivos completamente diferentes”, disse Peter Marcuse, professor de Planejamento Urbano da Columbia University (EUA), em carta enviada à organização do FSU. Nas discussões diárias, as distinções eram claras – embora, como afirmou Marcuse, não fossem necessariamente opostas. No FUM, falou-se em reformar o espaço urbano para seduzir o mercado imobiliário a investir. No FSU, reivindicou-se a reforma de regiões da cidade para melhoria de vida das pessoas, sem que a especulação expulse as classes mais baixas por
No FUM, falou-se em mecanismos para regular o trânsito e evitar engarrafamentos. No FSU, o discurso predominante dava cabo do excesso de carros na cidade
impossibilidade de arcar com os novos custos. No FUM, tentou-se elaborar soluções para um aumento de urbanização que, segundo a ONU, representará 70% da humanidade na próxima geração. No FSU, falou-se em interrupção do processo de urbanização, com a elaboração de outro modelo de produção no qual o fator econômico não seja tão central e a reforma agrária seja tida como solução para a reserva de mãode-obra nas cidades. No FUM, falou-se em mecanismos para regular o trânsito e evitar engarrafamentos. No FSU, o discurso predominante dava cabo do excesso de carros na cidade e da importância do transporte público. Enquanto no FUM se promovia políticas de segurança pública baseadas na repressão punitiva, no FSU a defesa de políticas sociais era a solução prioritária. E as distinções de abordagem se estenderam a todos os temas, embora temas como combate à discriminação, políticas de inclusão e distribuição de riquezas tenham sido em ambos condenados. Em 2012, haverá a sexta edição do FUM, em Manama, capital do Bahrein. As outras quatro foram realizadas em Nairóbi (2002), Barcelona (2004), Vancouver (2006) e Nanjing (2008). (LU)
Durante o Fórum Urbano Mundial, realizado no Rio de Janeiro, a ONU divulgou relatório sobre as desigualdades na América Latina, segundo o qual, diferentemente da Europa, a pobreza foi intensificada com o crescimento nas cidades: em 1970, havia 116 milhões de pobres espalhados pelo continente, enquanto que em 2007 eles passaram a ser 191 milhões. E os 20% mais ricos detêm 56,9% da renda nessa região.
Minha luta
Balanço preliminar das ações realizadas pelos movimentos sociais urbanos, na semana passada, dentro da jornada “Minha Casa, Minha Luta”, soma 15 atividades em oito estados, incluindo marchas, manifestações, ocupações de terrenos e de prédios. O movimento envolve trabalhadores sem teto, luta por moradia, quilombolas, em São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará, Amazonas, Maranhão, Roraima e Pará.
Questão indígena
Estão abertas as inscrições para o curso “A Questão Indígena: Caminhos e Desafios”, organizado pelo movimento indígena em parceria com as defensorias públicas federal e estadual. O curso começa dia 23 de abril e vai até 22 de maio, terá 36 horas de aulas nas sextas e sábados, no Anfiteatro da Defensoria Pública da União, na rua Fernando de Albuquerque 155, em São Paulo. Inscrições pelo telefone (11) 3112-1278.
Homenageados
O presidente da República condecorou postumamente, no dia 29 de março, com a Ordem do Mérito das Comunicações Roberto Marinho, o dono da Folha de S. Paulo, Otávio Frias de Oliveira, que no auge da ditadura emprestou veículos da empresa para o transporte de presos políticos; e o ex-diretor de jornalismo da TV Globo, Armando Nogueira, que tem no seu currículo a escandalosa fraude do Proconsult, em 1982. Sem comentários!
Direita raivosa
Edição Especial da revista Caros Amigos aborda como e por que as forças da direita impedem que o Brasil avance na luta contra a desigualdade, nas conquistas sociais e no aperfeiçoamento da democracia. Artigos de Virgínia Fontes, Chico de Oliveira, Gilmar Mauro, Octaviano Helene, José Arbex Jr., Ivan Seixas e outros analisam o papel atual da direita nas várias áreas de atividades. Cuidado: a direita continua forte, ataca e morde!
Aula pública
Os movimentos negros e sociais de São Paulo, entre os quais a UneafroBrasil, Assembléia Popular, Consulta Popular, MST e Círculo Palmarino, estão organizando a realização de aulas públicas no dia 13 de maio, nas quais debatem com a população a história dos negros no Brasil. No ano passado, esse tipo de manifestação político-cultural reuniu centenas de pessoas em vários pontos da cidade. Por um 13 de maio de luta e resistência do povo negro!
Contribuições
A Ação Solidária Madre Cristina, entidade que desenvolve ações de solidariedade junto aos movimentos sociais, está em campanha para ampliar o quadro de sócios-contribuintes e de novos voluntários para suas atividades. Os interessados devem acessar a página www.madrecristina.org.br e entrar em contato no endereço iasmcsp@brturbo.com.br. A entidade segue o lema “o pouco de cada um ajudará muito e muitos!”
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brasil
Para além do chão rachado, a vida Luca Barreto
SEMI-ÁRIDO Encontro Nacional da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) comemora os dez anos da rede e defende um novo desenvolvimento para a região
Reivindicar mais
Para o integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Roberto Malvezzi, o Gogó, pequenas tecnologias como as cisternas, o manejo correto da caatinga e a escolha de culturas e animais adequados à região foram capazes de trazer impactos significativos à população. “De uns 15 anos para cá, a gente não ouve mais falar em saques, em grandes migrações, em grandes fomes, nas chamadas frentes de emergência. E isso é mérito da ASA”, salienta.
Patrícia Benvenuti de Juazeiro (BA) DELZUITA FERREIRA Alves lembra bem a forte seca que, há duas décadas, atingiu a comunidade de Martinha, no município de Remanso, na Bahia. Mais do que a estiagem, a senhora de 64 anos recorda da própria tristeza ao ver sua filha pedindo um pouco d’água que, ali, não havia. “Na minha casa, não tinha água para cozinhar nem para beber. Nunca vou esquecer da angústia que passei”. Esses tempos difíceis, porém, tornaram-se apenas lembranças. A falta d’água não assola mais sua comunidade que, com ajuda da Articulação no Semi-Árido (ASA), aprendeu a construir cisternas para captar a água da chuva. “Será que não chovia?”, questiona Dona Delzuita, que já dá a resposta do que mudou no semi-árido brasileiro nos últimos anos. “Chovia sim, mas não tinha a organização que temos hoje”. Para celebrar a vitória da comunidade de Martinha e de tantas outras, 600 trabalhadores dos nove estados do Nordeste e de Minas Gerais se reuniram em Juazeiro (BA), entre 22 e 26 de março, no VII Encontro Nacional da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (EnconASA). O evento marcou os dez anos da ASA, rede que conta com mais de mil entidades que apostam na chamada convivência com a região. Outra lógica
O coordenador institucional da ONG Instituto Regio-
incentivando meus colegas e vizinhos para ver se seguem o mesmo caminho e para a gente fazer uma associação”, adianta.
Encontro contou também com diversas apresentações culturais ao longo da semana
“A lógica da convivência com o semi-árido vê a região de outra forma, não com chão rachado, com cabeças de vaca mortas, como aparece na mídia e nos livros didáticos de uma ponta a outra no país” nal da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Ademilson Santos, o Tiziu, explica que a proposta fundamental da ASA se baseia no rompimento com a lógica de combate à seca. “Essa vê a região como uma região de miséria, que só tem dificuldades, e, para tentar minimizar algumas questões, são traçadas políticas assistencialistas, compensatórias, que não resolvem o problema”, afirma. Tiziu ressalta o custo gerado por essas políticas, como a distribuição de água. Segundo ele, a média de gastos com cada carro-pipa fica em torno de R$ 6 mil por mês. Em localidades mais distantes, pode chegar a R$ 10 mil. Para Tiziu, a continuidade des-
se tipo de prática encontra respaldo nos grupos que não querem perder seu domínio na região. “A ideia de tratar o semi-árido dessa forma não é por acaso. Politicamente, é intencional, no sentido de manter aquela relação de cooptação, de clientelismo, para que as pessoas tenham que depender diretamente dos políticos, dos cabos eleitorais e dos coronéis”, avalia. Convivência
Em contraposição à lógica assistencialista, a ASA propõe outro olhar sobre as condições naturais locais, com a quebra do estereótipo de uma terra sem vida. “A lógica da convivência com o semi-árido vê a região de ou-
tra forma, não com chão rachado, com cabeças de vaca mortas, como aparece na mídia e nos livros didáticos de uma ponta a outra no país. Não, vê o semi-árido com gente, com vida. É conseguir entender essa região, inclusive as dificuldades e, a partir disso, trabalhar em cima das potencialidades, que são inúmeras”, diz. Uma dessas potencialidades está justamente na chuva, que, apesar de irregular, é abundante, podendo ser armazenada em cisternas, de modo a satisfazer as necessidades das famílias em épocas de estiagem. Com o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), em parceria com o governo federal, a ASA já construiu cerca de 288 mil cisternas, beneficiando 1,2 milhão de pessoas. As organizações que compõem a Articulação apostam ainda em iniciativas como produção agroecológica, educação contextualizada, economia solidária e organização de mulheres. “A metodologia da ASA parte da realidade daquilo que a população está fazendo, dos elementos
de resistência e de construção no semi-árido”, afirma o coordenador estadual da ASA na Bahia, Naidison Baptista. Caminho
Foi o caso do agricultor Edésio dos Santos Antunes, de 44 anos, que mora na comunidade de Lagoa Redonda, no município de Casa Nova (BA). Antes da construção das cisternas, a família de Seu Edésio dependia da distribuição de água dos carros-pipa. “A gente pegava água e andava três quilômetros, colocava nas costas de um jegue, num barril. Assim que eu fiz um barraco lá, pegava água de noite”, relembra. Com a ajuda da ASA, ele aprendeu a armazenar água não somente para consumo humano, mas também para utilizá-la em seus cultivos. Com as técnicas, a família pôde aumentar a quantidade de produtos em sua horta e diversificar a alimentação. “Eu estou dando o maior valor. Não estou perdendo reunião, em todo canto estou buscando experiência”, afirma o agricultor, que tem ainda outros planos. “Estou
Com a ajuda da ASA, ele aprendeu a armazenar água não somente para consumo humano, mas também para utilizá-la em seus cultivos O avanço dos resultados contribui ainda, de acordo com Gogó, para evidenciar os problemas que persistem no semi-árido, como a concentração fundiária, e fazer com que as famílias incorporem mais reivindicações. “As pessoas percebem que hoje é necessário ter a terra também. Se você não tem a terra, não tem nem onde colocar a água”, resume. A mesma opinião tem Naidison Baptista, que ressalta a importância da reforma agrária na região. “Há estudos que indicam que uma propriedade, para ser rentável no semi-árido, precisa de 200 hectares. O que acontece é que as famílias têm dois ou três hectares. Então, elas são fadadas à fome e à perspectiva de não poderem se desenvolver. O semi-árido não vai ter respostas efetivas enquanto nós não tivermos uma reforma agrária adequada”, assegura.
Desafio é superar lógica do mega-empreendimento Luca Barreto
Para organizações populares, grandes obras sugam recursos naturais e empobrecem ainda mais as comunidades da região de Juazeiro (BA) A construção de um semiárido mais justo esbarra em um desafio que não será dos mais fáceis de ser superado: a transformação do modelo de desenvolvimento imposto para a região, baseado nos mega-empreendimentos. O maior exemplo é a transposição do Rio São Francisco, um dos símbolos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. Segundo estimativas oficiais, o chamado “canal eixo leste” deve estar pronto até o final deste ano, com conclusão total das obras em 2012. O governo federal afirma que a água será levada para 12 milhões de pessoas no Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, mas movimentos sociais seguem convictos de que o recurso será usado em irrigações e produções de crustáceos em larga escala. Além disso, as organizações chamam a atenção para o fato de que a prometida revitalização do rio ainda não saiu do papel. Também para 2012 está prevista a entrega da Ferrovia Transnordestina, lon-
ge de favorecer a população desses estados, segundo movimentos locais. O integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Roberto Malvezzi, o Gogó, defende que esses mega-projetos fazem parte da estratégia de inserir o Nordeste no mercado mundial de produtos, por meio da exportação de matérias-primas. Projeto econômico
“A Transnordestina, como a transposição, é uma peça de um projeto econômico desenvolvido no Ceará, sobretudo pelo Ciro Gomes [deputado federal, pré-candidato à presidência pelo PSB e ex-governador do estado] e pelo Tasso Jereissati [senador pelo PSDB e ex-governador do estado]. Esse grupo conseguiu vendê-lo como se fosse um projeto de desenvolvimento de todo o Nordeste”, critica. Projetos de mineração, cana-de-açúcar, carvoarias, usinas nucleares, barragens e até parques naturais também disputam espaço no semi-árido, que já se vê pequeno diante de tanta ambição. O coordenador institucional da ONG Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), Ademilson
Transposição do rio São Francisco é modelo de desenvolvimento baseado nos grandes empreendimentos
Projetos de mineração, cana-de-açúcar, carvoarias, usinas nucleares, barragens e até parques naturais também disputam espaço no semi-árido, que já se vê pequeno diante de tanta ambição Santos, o Tiziu, relata que algumas áreas estão na mira de mais de uma obra. “Eu conheço algumas comunidades, como no interior de Sobradinho [BA], onde minha família reside, que estão sendo disputadas por três ou quatro grandes pro-
jetos. As pessoas estão sendo encurraladas e, se escaparem de um [projeto], podem cair em outro”, revela. O súbito interesse pela região, para Tiziu, contrasta com a forma através da qual o poder público historicamente encarou o semi-árido, como
retrato da miséria. O coordenador do IRPPA, porém, avalia essa política como estratégica para explorar e concentrar as potencialidades do local. “Eu acho que os próprios governantes sabiam que essa região era rica e a estavam reservando para outras coisas. Como é que agora aparecem faraônicos projetos como uma avalanche?”, indaga. Conflitos
O coordenador estadual da Articulação no Semi-Árido (ASA) na Bahia, Naidison Baptista, pontua que, de fato, existem dois modelos de desenvolvimento que se con-
trapõem. “Nós, no semi-árido, vivenciamos esses dois projetos. Um é o que expulsa as pessoas e concentra água, terra, conhecimento, produção e resultado nas mãos de poucos, que sempre tiveram isso no Brasil. E o outro projeto é aquele em que a gente quer caminhar, progredir e se desenvolver, mas que seja centrado na vida e na possibilidade da partilha dos bens”, detalha. Este segundo modelo, de acordo com Baptista, é a concepção de convivência com o semi-árido, adotada pela ASA e por outras entidades que propõem respeito às características naturais do local. O atual momento, para ele, é o de evidenciar as contradições a fim de consolidar a proposta das organizações populares. “A explicitação dos dois modelos ajuda as próprias comunidades a entenderem o conflito pela qual elas passam”, complementa. A escolha da população em favor de projetos mais adequados à sua realidade, na avaliação de Gogó, ficará mais evidente à medida em que não se concretizarem as promessas feitas, como é o caso da própria transposição. “As pessoas criaram uma expectativa de que elas vão ter água e, quando a água da transposição chegar, vão ver que não vai para as populações. Então, o governo vai enfrentar um outro nível de conflito”, observa. (PB)
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cultura
As raízes
Imagens: Divulgação/Pinacoteca do Estado
africanas de Cuba “Anunciação”, de 1969
“Apostrofe”, 1964
ARTES PLÁSTICAS Mostra individual abarca quatro décadas da produção do modernista cubano Wilfredo Lam Dafne Melo da Redação PRATICAMENTE desconhecido pelos brasileiros, o artista plástico cubano Wilfredo Lam ganha pela primeira vez no Brasil uma mostra inteiramente dedicada aos seus trabalhos. “Historicamente nós nos referenciamos muito mais nos norte-americanos e europeus, conhecemos pouco os artistas latino-americanos e aqui se conhece pouco a obra de Lam”, explica o curador da exposição, Paulo Venâncio Filho, também professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nascido em 1902, na cidade de Sagua La Grande, próximo a Santa Clara, Lam era filho de uma cubana negra descendente de escravos vindos do Congo e de um imigrante chinês. Aos 14 anos, mudou com toda a família para a capital, onde começou a estudar direito para agradar aos pais. Ao mesmo tempo, estudava botânica tropical e artes. Largou o direito, formou-se em artes, mas frustrou-se com a academia, embora não com as artes plásticas. Similar à trajetória de tantos outros artistas modernistas latino-americanos, Lam foi então para a Europa em 1923 – graças a uma bolsa de estudo – para buscar novas inspirações. “Ele sai de Cuba e na Europa conhece Pablo Picasso, entra em contato com as correntes modernistas, sobretudo o surrealismo, que o influencia muito”, aponta Paulo Venâncio. Lam viveu na Espanha até 1938, e apoiou os exércitos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), fazendo campanhas e cartazes para a propaganda republicana. Depois, seguiu para Paris, onde viveu boa parte de sua vida – dividindo-se também entre Havana e Nova York. O artista retornou a Cuba somente em 1941, quando retomou mais intensamente o contato com a cultura de sua infância e juventude, mais precisamente, a afro-cubana, com a qual teve muito contato por conta de sua mãe. Começa então a se dedicar ao estudo da herança africana no país, incluindo rituais religiosos, os quais o fascinavam.
Elemento afro Para muitos, é aí que a obra de Lam chega ao patamar que o colocou como uma dos maiores pintores do século 20. “Eu quis com todo meu coração pintar o drama do meu país, expressando minuciosamente o espírito do negro, a beleza plástica da arte feita pelos negros. Dessa forma eu poderia atuar como um cavalo de tróia que revelaria figuras alucinantes, com o poder de surpreender e perturbar os sonhos dos exploradores”, disse certa vez o artista. Assim como a maioria daqueles que integraram as vanguardas modernistas em países latino-americanos, Lam destacava e valorizava o nacional e o popular. Para ele, o elemento negro era o que havia de mais interessante – e ameaçado – na sociedade cubana. “O resultado é algo muito original. Ele pega a força plástica do Picasso e associa isso ao mundo extra europeu e cria esse mundo de figuras híbridas, meio vegetais, meio animais”, define Paulo Venâncio. Lam também estendeu sua pesquisa sobre a cultura africana em outros países, como o Haiti, onde passou uma temporada em 1946 estudando o vudu. Sobre essa experiência, afirma: “Todos acreditam, equivocadamente, que foi nesse momento que minha obra tomou a sua forma definitiva. A minha estadia ali apenas ampliou meu repertório, assim como quando fui à Venezuela, Colômbia, ou no Mato Grosso, Brasil. Eu poderia ser um bom pintor na Escola de Paris, mas me sentia como um peixe fora d’água. O que realmente ampliou a minha pintura foi a poesia africana”. Quando a Revolução Cubana se iniciou, em 1959, Lam já era um artista reconhecido em todo mundo. Sempre manifestou apoio à Revolução, até sua morte, em 1982, em Paris. O pintor dá nome a inúmeros centros de arte na ilha e foi reconhecido durante o governo de Fidel Castro como o maior artista plástico cubano da história, justamente por exaltar o elemento africano na composição social.
“Olhar vertical”, de 1973
Serviço Lam: a obra gráfica Onde: Estação Pinacoteca, Largo General Osório, 66, Luz (centro), São Paulo–SP. Quando: até 2 de maio. De terça a domingo, das 10h às 17h30 (permanência até as 18h). Ingresso: R$ 6 (sábado a entrada é grátis). Mais informações: 11 3335 4990
“Contra uma casa seca”, 1974
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américa latina
Em busca da lua cheia G. Jallasi/ABI
BOLÍVIA As eleições regionais no país governado por Evo Morales apontam para a consolidação da hegemonia do MAS-IPSP e o fim da “meia-lua”
“O desafio agora é mostrar o que fazer com todo o poder que tem, não há muitas desculpas. A questão será ‘qual é o projeto’, e aí há um deficit de agenda”
Vinicius Mansur correspondente em La Paz (Bolívia) DESDE A ASCENSÃO de Evo Morales à presidência da República em 2006, a direita boliviana fez dos governos departamentais do oriente do país, e também das prefeituras das capitais desses departamentos, a sua principal trincheira de oposição. Aliados à maioria que tinham no Senado, os poderes executivos dos departamentos de Pando, Beni, Santa Cruz e Tarija eram as bases a partir das quais a oligarquia descarregava seu pesado arsenal contra o governo central, incluindo aí a tentativa de guerra civil separatista – como muitos analistas classificam – em setembro de 2008. Alimentando uma divisão política e econômica histórica, que coincide com a divisão geográfica do país em terras altas – localizadas na Cordilheira dos Andes – e terras baixas, a direita intitulou de “meia-lua” a oposição regional feita a Morales, em alusão à forma como estão dispostos no mapa esses quatro departamentos do oriente boliviano. Com o desmantelamento dos articuladores da ofensiva de 2008 e com uma sucessão de vitórias políticoeleitorais, incluindo a reeleição do presidente com cerca de 64% dos votos e a conquista de dois terços do atual parlamento, o Movimento ao Socialismo – Instrumento Político para a Soberania dos Povos (MAS-IPSP) conquistou uma folgada hegemonia que, de acordo com Morales, poderá ser traduzida como “lua cheia” a partir das eleições regionais de 4 de abril. Nela, serão escolhidos nove governadores, 144 assembleístas departamentais (correspondentes aos deputados estaduais no Brasil), 337 prefeitos e 1.887 conselheiros municipais (correlatos aos vereadores brasileiros).
De acordo com o levantamento mais recente, divulgado pelo Instituto Ipsos, o partido oficialista ganhará com folga em seis dos nove departamentos bolivianos: La Paz, Cochabamba, Oruro, Potosí, Chuquisaca e Pando. O quadro eleitoral As últimas pesquisas eleitorais, embora não abarquem os resultados das disputas municipais em localidades rurais e apontem um alto índice de votos brancos, nulos e indecisos – que chegam a incríveis 42% em Oruro –, indicam a vitória nacional do MAS-IPSP. De acordo com o levantamento mais recente, divulgado pelo Instituto Ipsos, o partido oficialista ganhará com folga em seis dos nove departamentos bolivianos: La Paz,
tuição: “Pela primeira vez na Bolívia se reconhece autonomias plenas em nível local, municipais ou indígenas-originárias-camponesas. Antes, o conselho municipal elegia o prefeito, o governo central indicava o governador. Já as autonomias indígenas se dão com base em um princípio básico, o direito à livre-determinação das nações e povos indígenas e à conformação de auto-governos a partir das normas e procedimentos de cada um deles”.
Evo Morales participou do encerramento de campanha dos candidatos do MAS, em Cochabamba
O pleito regional deve ratificar a hegemonia do MAS-IPSP, que “praticamente derrotou toda tentativa da oposição de forma contundente, tanto eleitoralmente, quanto pela via da luta contra a corrupção” Cochabamba, Oruro, Potosí, Chuquisaca e Pando. Em Tarija, a disputa está voto a voto com o candidato à reeleição, Mario Cossío (CC). Em Beni e em Santa Cruz, as candidaturas apoiadas por Morales estão em segundo lugar, mas enfrentam quadros de difícil reversão, embora neste último – único departamento onde o segundo turno é previsto pela legislação eleitoral – o candidato do MASIPSP tenha apresentado um crescimento de 9%, enquanto o oposicionista e candidato à reeleição Rubén Costas caiu 13% na comparação das duas últimas pesquisas. Quanto às cidades mais povoadas da Bolívia, que representam mais de 50% dos habitantes do país, o MAS-IPSP também apresenta boa vantagem, tendo praticamente garantidas as prefeituras de El Alto e Cochabamba. Em La Paz, os masistas lideram as pesquisas com 40%, mas são seguidos de perto pelos 34% do candidato do Movimento Sem Medo (MSM), num cenário que apresenta 14% de indecisos. O MSM dirige a cidade há 10 anos e sempre apoiou o chamado proceso de cambio. Porém, as relações com o MAS foram rompidas justamente por causa da disputa dessa prefeitura. Em Santa Cruz de la Sierra, nem mesmo a adesão de Marco Etcheverry, o maior jogador da história do futebol boliviano, à campanha do MAS-IPSP, parece ser capaz de derrotar o candidato à reeleição Percy Fernández, que possui 46%. O governista Roberto Fernández está com 27% Segundo o diretor do curso de sociologia da Universidade Mayor de San Andrés (UMSA), Eduardo Paz Rada, as eleições nos municípios menores, praticamente todos rurais, não serão um problema para os governistas, uma vez que o MAS-ISPS já ocupa diversas dessas prefeituras e nenhum outro partido é tão enraizado no campo como a agremiação oficialista. “Pelo menos 70% das prefeituras serão do MAS”, prevê o sociólogo. Correlação de forças Para ele, o pleito regional deve ratificar a hegemonia do MAS-IPSP, que “praticamente derrotou toda tentativa da oposição de forma contundente, tanto eleitoralmente, quanto pela via da luta con-
tra a corrupção. Porém, [os governistas] não devem repetir os 64% que Evo teve na reeleição”. O diretor do Le Monde Diplomatique Bolivia, Pablo Stefanoni, considera a próxima eleição “a última etapa da consolidação do evismo” e destaca o peso de Morales no processo. “Lideranças como Evo e Chávez colocam qualquer eleição de qualquer coisa de maneira plebiscitária. O MAS sempre teve um deficit de bons candidatos. Nas áreas rurais não, mas nas urbanas sempre teve dificuldades.
Nas eleições de 2004, não ganharam nenhuma cidade importante. É possível que isso aconteça agora porque se reforçou a liderança do Evo. O César Cocarico [candidato do MAS para o departamento de La Paz, que lidera as pesquisas] dificilmente seria competitivo por sua própria trajetória”. Quanto à direita, Stefanoni afirma que mesmo a vitória em um departamento de peso como Santa Cruz se incluirá em um cenário de retrocesso: “O caso Rózsas [morto pela polícia boliviana acusado de liderar um plano separatista] e as perseguições judiciais por corrupção são exemplo disso. A maioria deles [da direita] está semi-foragida. Outros setores foram cooptados pelo MAS”. O senador masista Adolfo Mendoza destaca que mesmo nos locais onde ganhe a direita, o cenário agora será outro: “Onde o MAS não for governo, terá força no legislativo, obrigando os governos a bus-
carem o consenso. Nos municípios onde há autonomia indígena, o processo está firme, independentemente do que aconteça com o MAS”. Nesse cenário, Stefanoni acredita que se abrirá uma nova etapa para o processo boliviano: “No MAS, sempre vingou a ideia de que só se pode fazer reformas profundas tendo todo o poder. O desafio agora é mostrar o que fazer com todo o poder que tem, não há muitas desculpas. A questão será ‘qual é o projeto’, e aí há um deficit de agenda”. Reconfiguração do poder Alguns departamentos bolivianos ainda elegerão sub-governadores provinciais, corregedores e autoridades indígenas nos municípios para os quais está prevista a autonomia para povos originários. De acordo com Mendoza, ocorrerá um avanço na institucionalidade estatal definida pela nova Consti-
Em nome da hegemonia, uma estratégia arriscada G. Jallasi/ABI
Para garantir vitórias eleitorais no oriente do país, MAS abre portas para candidatos anteriomente vinculados à direita do correspondente em La Paz (Bolívia) Durante a campanha de reeleição de Evo Morales, a entrada de um setor da União Juvenil Crucenhista (UJC) – organização com traços racistas e tropa de choque da direita em Santa Cruz – no MAS-IPSP causou indignação em parte da militância do partido. No processo eleitoral que culmina em 4 de abril, outros casos geraram polêmica, como a candidatura da ex-miss Bolívia e filha de um grande fazendeiro, Jéssica Jordan, à governadora do departamento de Beni. Em Santa Cruz de la Sierra, o candidato a prefeito, Roberto Fernández, foi aliado, na eleição anterior, do Podemos, principal partido de oposição ao primeiro mandato de Evo Morales. Em Pando, de acordo com o
Bolivianos irão às urnas no dia 4 de abril
Stefanoni relata que, com o tempo, lógicas muito tradicionais vão aparecendo no partido, que promove poucos debates político-ideológicos e tem um grande índice de militantes que estão ali em busca de empregos jornalista Pablo Stefanoni, os candidatos a governador, à prefeitura da capital Cobija e o principal nome para a Assembleia Legislativa local vêm da direita. Para ele, o MAS-IPSP vê no pacto com as elites a forma de ganhar o oriente do país: “Acho que há uma visão muito ‘andino-cêntrica’ que considera a política no oriente secundária pa-
ra a hegemonia política. Fazem qualquer coisa em Pando, afinal, no ocidente, não necessitam dessas alianças. Mas isso põe em dúvida se estão criando uma nova forma de fazer política”. Stefanoni relata que, com o tempo, lógicas muito tradicionais vão aparecendo no partido, que promove poucos debates político-ideológicos e tem um grande índi-
Para Mendoza, as próximas eleições marcam a reconfiguração do poder no país, contando, inclusive, com políticas de ação afirmativa de gênero e indígena. “São exigidos a paridade de gênero na formação dos governos e a representação indígena direta no Poder Legislativo, que já não passa pelo voto, mas pelos seus sistemas próprios de exercício da democracia”, afirma. Em Santa Cruz, por exemplo, o Poder Legislativo departamental contará com cinco representantes indígenas num universo de 28 assembleístas: um chiquitano, um guarani, um guarayo, um ayoreo e um mojeño. Entretanto, a paridade de gênero nas listas de candidatos não foi respeitada. De acordo com a representante da Coordenadora da Mulher, Mónica Novillo, as mulheres representam só 7% das candidatas aos governos departamentais, 25% das aspirantes às sub-governadorias e 22% das concorrentes aos conselhos municipais. “Queremos a inabilitação ou retificação das listas”, reivindica.
ce de militantes que estão ali em busca de empregos: “Isso explica um pouco a facilidade com que alguns setores entram no MAS. Isso está relacionado com a própria estruturação do campo político boliviano que, fora certos momentos, nunca foi muito ideológico. Isso existe em muitos países, mas aqui acho que é mais forte”. Outro perfil Segundo o sociólogo Eduardo Paz Rada, as candidaturas do MAS sempre contaram com pessoas que, mesmo que não fossem dirigentes populares, vinham, em geral, da tradição de esquerda. Mas, em 2009, a entrada de militantes com outro perfil aumentou de proporção: “É o caso de Ana María Romero, que veio da direita e que teve o posto de primeira senadora por La Paz e presidenta do Senado dados pelo MAS. Esse processo continua. Não é dominante, mas é uma tendência cada vez mais perigosa”. O senador Adolfo Mendoza (MAS-IPSP) afirma que há um “terrível custo político” em se aliar àqueles que “golpearam fisicamente um companheiro” – como a UJC – e que é contrário a tal estratégia. Porém, ele ressalta que o MAS-IPSP é um movimento político grande, de múltiplas tendências: “Não é que o MAS privilegie essas alianças, mas há uma relação objetiva que permite verificar o alcance da construção da nova hegemonia. E – isso é algo não dito, mas que é necessário dizer – o conservadorismo não está só fora do MAS: ele também pode ser encontrado no seu interior”. (VM)
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américa latina
“Desinformar-se e enfrentar a investida dos meios de comunicação capitalistas” Reprodução
MÉXICO Jornalista que acompanha os zapatistas fala sobre a importância do trabalho de contrainformação para as batalhas que se passam “abajo y a la izquierda” Cristiano Navarro da Redação DAS PERIFERIAS para o centro, a comunicação alternativa vai buscando brechas para transferir o poder da palavra dos maiores aos pequenos. Modificando a ordem dos caminhos da comunicação, o movimento zapatista, do México, experimentou, na década de 1990, a possibilidade de, por meio da internet, fazer ser ouvido no mundo desde sua realidade local. Uma das protagonistas dessa ação foi Gloria Muñoz Ramírez, jornalista que acompanha o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN)desde seu levante em 1994, no estado de Chiapas. Gloria segue militando na contra-informação. Seu mais novo projeto é dirigir a revista mensal Desinformémonos. Em janeiro deste ano, o Brasil de Fato iniciou um intercâmbio de conteúdo com a publicação. Com versão na web (http:// desinformemonos.org), a iniciativa envolve colaboradores de inúmeras partes do planeta e é traduzida para o português, grego, italiano, inglês, francês, alemão, e a língua indígena tseltal, bastante falada no sul do México. A seguir, a diretora de Desinformémonos fala sobre esse projeto internacional e a experiência acumulada em anos junto aos zapatistas. Brasil de Fato – Pode nos falar um pouco de como nasceu o projeto Desinformémonos?
Gloria Muñõz – Consideramonos uma ferramenta de luta por um mundo melhor, ou seja, por um mundo justo, livre e democrático. Aderimos às batalhas que se passam abajo y a la izquierda, à margem do poder e dos poderosos. Estamos do lado da autonomia dos povos, pelo direito a decidir sobre nossos próprios destinos. Somos, sem ambiguidades, fruto de uma luta que, desde 1º de janeiro de 1994, nos transformou: o levantamento do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). E é no terreno da “desinformação” que atuaremos.
“A ideia do uso da internet pelos zapatistas nasceu como um mito que, em muitos sentidos, persiste ainda hoje” Por que “Desinformémonos”?
Pegamos o nome emprestado de Mario Benedetti [poeta e escritor uruguaio morto em maio do ano passado]. Estávamos preparando esse projeto quando fomos surpreendidos pela triste notícia de sua
Zapatistas foram beneficiados pelo uso da internet, onde diversos de seus comunicados, distribuídos à mão, eram reproduzidos por jornalistas
morte. Pusemos pra tocar um CD com seus poemas, gravado para La Casa de las Américas, como uma singela homenagem a esse grande poeta e lutador das causas justas. De repente, no meio da incipiente edição dessa revista, lá estava o poema: desinformémonos hermanos/ hasta que el cuerpo aguante/ y cuando ya no aguante/ entonces decidámonos/ carajo decidámonos/ y revolucionémonos. Depois, veio o jogo de palavras. Desinformar-se e enfrentar a investida dos grandes meios de comunicação capitalistas, aqueles que nos dizem o que, como, quando, onde e por que, do ponto de vista – e para benefício – dos poderes políticos e econômicos, dirigido àqueles que se creem os donos do mundo. “Desinformémonos”: desfazer-nos do que nos oferecem e munirmo-nos de Outra Informação, geralmente invisível, na qual os depoimentos dos “ninguéns”, como diz Eduardo Galeano [jornalista e escritor uruguaio] são o que nos dá sentido e corpo, horizonte e destino. Os povos têm suas próprias vozes e eles mesmos se encarregam de que os demais as escutem. O que nos propusemos em Desinformémonos é ser olhado e ouvido... caixinhas de ressonância. Escutar, como diria o estimado escritor [inglês] John Berger, “as vozes da terra... sempre em baixo”. Sem confundir, como ele mesmo nos alerta, “a intenção deliberada de desinformar com o estar desinformado”. A resistência, nos disse no processo de inauguração desse espaço, “está em saber escutar a terra. A liberdade é descoberta pouco a pouco, não do lado de fora, mas nas profundidades da prisão”. Quem são os colaboradores do projeto?
Bom, somos pessoas de muitas partes do mundo. Nosso ponto de vista pretende ser global e abarcar lutas e resistências dos cinco continentes. Atualmente, tocam es-
“A Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) não apenas tomou as rádios e até mesmo a televisão comercial; ela criou uma rede de meios de comunicação” se projeto homens e mulheres do México, Argentina, Brasil, Estados Unidos, Alemanha, França, Espanha e Itália, com colaboradores na Grécia, Palestina, Turquia, Irã, Bélgica, Chile, Grã Bretanha, República Árabe Saaráui e Honduras. Em sua experiência junto aos zapatistas, foi possível acompanhar como eles utilizaram de maneira muito hábil a internet para comunicar suas posições para todo planeta. Como isso se deu?
A ideia do uso da internet pelos zapatistas nasceu como um mito que, em muitos sentidos, persiste ainda hoje. Em 1994, a internet ainda era algo muito incipiente e os primeiros comunicados do EZLN eram xerox distribuídos a nós jornalistas na cidade de San Cristóbal de las Casas, em Chiapas. Com o tempo, um exército de mulheres e homens anônimos se incumbiu de difundir as palavras zapatistas pela internet. Na selva em que vivem os zapatistas, não havia sequer luz, que dirá um computador. Assim, o mérito da difusão da palavra zapatista no ciberespaço não é propriamente zapatista, mas de todos que acreditaram nesse movimento e fizeram circular seus comunicados e pronunciamentos. Atualmente, algumas comunidades em resistência têm acesso à internet, mas isso é algo relativamente novo e não pode ser generalizado. De que maneira a internet pode fazer frente aos meios de comunicação tradicionais em favor dos movimentos sociais? Fotos: Soupshow/CC
Esse ciberespaço, ainda que criado pela elite, tem servido de ferramenta, vínculo e ponte para os setores da base nos últimos quinze anos. As lutas e a resistência dos povos campesinos e indígenas, dos migrantes, trabalhadores, estudantes, jovens e um longo etcétera, transitam pela rede produzindo identificações onde menos se esperava, isso apesar do acesso à internet ainda estar longe de ser uma realidade, ao menos nos países do chamado Terceiro Mundo. Mas isso não é necessariamente uma carência. Provavelmente não necessitam dessa “conexão”. O que desejamos com Desinformémonos é aproveitar esse espaço virtual, não apenas por falta de recursos para nascer em papel, como gostaríamos, mas porque reconhecemos nesse meio uma alternativa para conhecer o outro, a outra, suas histórias e tragédias, de um lado ao outro do planeta. Desejamos, como diria o mestre do jornalismo [bielo-russo] Ryszard Kapuscinski, “converter-nos imediatamente, desde o primeiro momento, em parte de seus destinos”. Afinal, somos os mesmos, as mesmas. E estamos na mesma situação. Entretanto, a internet, ao menos no México e em muitos países da América Latina, não é um meio acessível para toda a população. Nas áreas rurais e nos bairros de periferia, as pessoas não estão conectadas à rede. Essa é a razão, creio, de que o principal meio de comunicação popular, por excelência, continua sendo o rádio e de que, até agora, não haja espaço para se substituir a comunicação alternativa em papel. Insisto que estou falando do mundo dos de baixo. É por isso que na Desinformémonos criamos uma revista de bairro e comunitária em PDF, com o objetivo de que seja distribuída em comunidades que não têm acesso à internet. Essa singela revista pode ser distribuída como “folhas soltas” ou pregada em algum muro como jornal-mural. Com a dificuldade de transmitir mensagens ao grande público, como os movimentos sociais são mostrados hoje nos grandes meios de comunicação mexicanos?
A Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) criou uma rede de meios de comunicação para difundir suas ideias e atividades
Os movimentos sociais não aparecem nos grandes meios de comunicação do México e, quando aparecem, são satanizados e desprestigiados. Poderia dizer que apenas o jornal La Jornada (considerando os meios de comunicação massiva,
não os marginais nem alternativos) dá espaço para as lutas sociais do país. É por isso que, cada vez mais, os movimentos vêm criando seus próprios meios, para que sua palavra seja conhecida. Ao mesmo tempo, crescem os meios alternativos, livres e independentes, ainda que com muitas limitações. Nas revoltas de Oaxaca, a tomada das rádios foi a primeira ação dos movimentos mobilizados. O que isso pode significar?
A Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) não apenas tomou as rádios e até mesmo a televisão comercial; ela criou uma rede de meios de comunicação. Essa rede serviu não só para difundir suas causas, mas para convocar, organizar as barricadas e as marchas e, sobretudo, a defesa da ocupação que mantiveram no centro da cidade. Tomar as rádios e a televisão foi muito significativo para mostrar a força popular do movimento, mas foi ainda mais relevante a forma como conseguiram conduzir a relação com as rádios alternativas, principalmente com a Radio Plantón, que é hoje um exemplo do grande poder que um meio dessa natureza pode significar, de abajo y a la izquierda, de dentro do próprio movimento.
Você acredita que os movimentos de esquerda conhecem a importância da comunicação em um processo de mudança?
Acredito que os movimentos de esquerda estão cada vez mais conscientes da importância de uma comunicação do e para o movimento. Entretanto, acredito que enfrentamos grandes desafios, pois muitas vezes não comunicamos entre nós mesmos o que está acontecendo, não fazemos grande esforço para ultrapassar as barreiras impostas e fazer com que nossa palavra chegue “a outros como nós”. Na minha opinião, esse é um grande desafio, e devemos nos preocupar em não estar à margem, mas em atingir cada vez mais gente, sem preconceitos nem esteriotipização. Nunca sabemos onde ou quando haverá ressonância, temos que procurar por isso permanentemente. Ao mesmo tempo, acredito que outro desafio é a manipulação da linguagem feita pelos movimentos sociais de esquerda. Acho que devemos nos arriscar mais, jogar com as palavras e com as imagens, não ser tão sérios, mas ter a capacidade de rirmos, de sermos irônicos, de dar espaço ao jogo e à palavra lúdica. Esse, finalmente, foi outro dos ensinamentos dos zapatistas que, desde o princípio, comunicam-se com uma linguagem diferente, que incluem desde um conto, até uma piada ou uma canção.
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internacional Lon&Quetta/CC
Os efeitos da monocultura de azeite de palma AGROCOMBUSTÍVEIS A deficiência energética da União Europeia, que impulsiona o uso de agroenergia, está gerando a expulsão de indígenas de suas terras e a deterioração dos recursos naturais nos países do Sul Sara Plaza de Madrid (Espanha) AS COMUNIDADES da Reserva de Montes Azules, localizadas no coração da Selva Lacandona, em Chiapas, no México, não entendiam muito bem por que se viam obrigadas a abandonar suas terras. No fim de janeiro, um despejo violento e programado os deixava sem seus territórios ancestrais, perdendo tanto suas casas como seus cultivos em prol da “reconversão produtiva”. Esse termo, utilizado pelo governador de Chiapas em reiteradas ocasiões, e que poucos entendiam, não significava outra coisa que substituir a massa arbórea autóctone por florestas de palma africana. O que as comunidades não sabiam é que o estado de Chiapas pretendia, assim, cumprir o Plano Estratégico de Agrocombustíveis do México, que prevê, somente nesse estado,
a plantação de 900 mil hectares em um prazo de dez anos. E isso, para quê? Tudo indica que as metas que a União Europeia (UE) estabeleceu para si em matéria de agrocombustíveis têm alguma relação. Esse caso, denunciado pela organização Salva a la Selva, é apenas mais um exemplo dos impactos que geram as supostas necessidades do Norte, em busca de energias alternativas. “No México, para incentivar as plantações de palma, inclusive, modificaram-se previamente artigos constitucionais, para permitir a titulação individual e posterior privatização das terras e territórios de povos indígenas e comunidades camponesas”, declara Guadalupe Rodríguez, porta-voz de Salva a la Selva. Falta de informação E, para alcançar seus objetivos, a UE passou a impulsionar a plantação de palma africana através de fundos de co-
O óleo retirado da palma africana é usado para fabricação de cosméticos e produção de agrocombustíveis
A União Europeia passou a impulsionar a plantação de palma africana no México através de fundos de cooperação ao desenvolvimento operação ao desenvolvimento, tal como explica Rodríguez. “Existe um programa de desenvolvimento financiado pela UE, chamado Prodesis, que promove amplamente o semeio de palma africana na Selva Lacandona, sem informar as comunidades indígenas e camponesas sobre os efeitos ecológicos e sociais das monoculturas de palma em outros países, como Indonésia, Malásia ou Colômbia”, sentencia. A palma azeiteira já era motivo de preocupação em outros lugares do mundo. Um caso paradigmático é o da Indonésia, onde a expansão descontrolada das plantações – que começou em 1970 e que em agosto de 2009 já alcança-
vam os sete milhões de hectares –, segundo dados do Movimento Mundial das Florestas Tropicais (WRM, na sigla em inglês), acabou com florestas e pântanos e produziu um saque de terras indígenas em Bornéu e Sumatra. Além disso, estima-se que a quantidade plantada alcance os 20 milhões de hectares na próxima década. Durante 1997 e 1998, dez milhões de hectares de floretas foram queimados na Indonésia, como documenta o relatório da WRM “Palma azeiteira, da cosmética ao biodiesel”. A reação das ONGs ambientalistas não se fez esperar. Agrupadas na rede Sawit Watch, procuraram uma solução e, com sua pressão, consegui-
ram que os bancos holandeses, principais financiadores das plantações, decidissem suspender os financiamentos – ou restringi-los de forma substancial – para aquelas plantações de palma azeiteira que destruíssem intencionalmente as florestas tropicais. Autóctone, mas destrutivo Mas, o que acontece no local de origem da palma? Na África, tradicionalmente, as populações locais costumam cultivar a planta em pequena escala, combinando-a com cultivos alimentícios. No entanto, a propagação desse cultivo se deu por meio do desmatamento de florestas tropicais e com fins meramente industriais, o que produziu uma reiterada vulneração dos direitos das comunidades, assim como graves impactos ambientais. Como aponta o relatório da ONG Amigos da Terra África “Up for Grabs. The Scale and Impact of Land Grabbing for Agrofuels”, desde 2006, foram comprados, na África,
mais de nove milhões de hectares. Destes, pelo menos cinco milhões se dedicarão a produzir agrocombustíveis mediante o cultivo de palma azeiteira, entre outros. Mas as cifras são maiores, já que, apenas em Moçambique, funcionários do governo informam que investidores solicitaram 4,8 milhões de hectares (quase um sétimo da área cultivável do país) para destiná-los aos agrocombustíveis. Além disso, tal prática, que se propagou pelo continente sob a promessa de produzir combustível dedicado ao consumo local, não está cumprindo as expectativas. Um relatório de 2009 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) demonstra que nenhum cultivo utilizado para produzir agrocombustíveis na Etiópia, Gana, Madagascar ou Mali destina-se ao consumo interno, já que toda a produção é exportadas. (Diagonal) Tradução: Igor Ojeda
ORIENTE MÉDIO
O labirinto pós-eleitoral do Iraque ELEIÇÕES Pleito legislativo mantém o país violento e dividido, mas não dissolvido Patrick Cockburn Quando os habitantes das áreas sunitas de Bagdá ficaram sabendo do resultado final das eleições legislativas de 7 de março, correram para as ruas disparando para o alto com seus rifles em comemoração e cantando triunfalmente o nome de Iyad Allawi, o líder do bloco político que conquistou a maioria das cadeiras no parlamento. Esperava-se que Allawi fosse se sair bem, mas a extensão de seu sucesso ainda é surpreendente. Sua coalizão, a Al-Iraqiya, conquistou 91 dos 325 assentos no parlamento, contra 89 para a aliança Estado da Lei, do primeiro-ministro Nouri al-Maliki. Como primeiro-ministro interino entre 2004 e 2005, Allawi conduziu uma administração notável principalmente por sua incompetência e corrupção. Portanto, seu renascimento político é impressionante. Mas aconteceu porque, apesar dos fracassos, o banho de sangue que se seguiu à sua gestão foi ainda pior, particularmente para a comunidade sunita, que foi removida do poder com a queda de Saddam Hussein. Essa é a força e a fraqueza de Allawi. Seus sucesso foi o resultado de uma massiva “virada de casaca” dos eleitores sunitas, tornando-o capaz de varrer a oposição nas províncias de maioria sunita no norte e no oeste de Bagdá. Ele tam-
Haider Noman Ibraheem /Al Jazeera English/CC
bém foi bem na capital – agora bastante dominada pelos xiitas –, o que significa que muitos xiitas foram atraídos por sua plataforma nacionalista e nãosectária. Diferenças sectárias Mas o cenário político do Iraque permanece sendo determinado pelas diferenças sectárias e étnicas entre xiitas, sunitas e curdos. A força de Allawi é o apoio por parte dos sunitas, mas eles representam apenas entre 15 e 20% da população iraquiana, enquanto pelo menos 60% são xiitas e outros 15 ou 20% são curdos. Para muitos xiitas e curdos, o ressurgimento dos sunitas é perigoso. Tentarão limitá-lo, portanto, impedindo que Allawi forme seu governo com os aliados sunitas nos cargos mais altos. Por mais surpreendente que o triunfo de Allawi possa ser, ele é também algo como uma miragem, pois o voto xiita ficou dividido entre o Estado da Lei, de Maliki, e a Aliança Nacional Iraquiana (INA), que conquistou 70 cadeiras. A INA é composta por dois partidos religiosos xiitas: o Conselho Supremo Islâmico do Iraque e os seguidores do clérigo nacionalista Muqtada al-Sadr. O renascimento deste último, que representa os pobres xiitas, foi a segunda “preocupação” dessa eleição. O Estado da Lei e a INA estão, agora, negociando uma fusão, o que daria à eventual nova agremiação quase a metade dos assentos do parlamento. Um novo governo só precisaria da adesão das 43 cadeiras do principal partido curdo para ficar com a maioria. Os curdos e a INA provavelmente pedirão um novo primeiroministro que substitua Maliki, com quem ambos têm brigado. Os curdos podem encontrar di-
Mesários conferem documentos durante as eleições iraquinanas, disputadas entre xiitas, sunitas e curdos
A força de Allawi é o apoio por parte dos sunitas, mas eles representam apenas entre 15 e 20% da população iraquiana, enquanto pelo menos 60% são xiitas e outros 15 ou 20% são curdos ficuldades para negociar com Allawi, pois mais de um terço das suas cadeiras vêm das províncias onde ocorrem a disputa entre árabes sunitas e curdos. Complexidade A política iraquiana é altamente complexa por possuir muitos protagonistas – internamente e externamente –, que não confiam uns nos outros. Uma das razões para o fato de que as negociações para se formar um novo governo levarão muito tempo é que cada lado tentará atrair membros de
coalizões opositoras para seu campo através de ofertas de cargos no futuro governo. Mesmo assim, as eleições marcam um importante momento de transição no Iraque pós-Saddam, através do qual um novo grupo de vencedores e perdedores está emergindo. A boa notícia é que a comunidade sunita, que boicotou a última eleição parlamentar, em 2005, participou do atual pleito e, desde que ela não fique marginalizada na formação do novo governo, não tem motivo para pegar em armas no-
vamente. O mesmo vale para os seguidores de Muqtada alSadr, que conquistaram cerca de 40 cadeiras e cuja milícia (Exército de Mehdi) lutou contra os estadunidenses em 2004 e esteve na vanguarda da guerra civil entre xiitas e sunitas de 2006 e 2007. A eleição marca outras tendências importantes. Há um humor anti-cívico, compreensível pela corrupção e a natureza disfuncional do governo. A pobreza é chocante. As eleições não aconteceram antes que as pessoas das favelas e das periferias de Bagdá se apressassem a remover os painéis com propaganda eleitoral para vendê-los ou usá-los como telhados e paredes para suas próprias casas. Ineficiência O governo de Maliki deveria ter sido melhor, pois ele controla a máquina do Estado,
com seus 60 bilhões de dólares por ano em receita do petróleo e muitos milhões de empregos. Esse poder empregatício não foi tão efetivo quanto deveria ter sido porque uma boa parte do governo iraquiano é parasitário. Não realiza nenhum serviço se não for acompanhado de um suborno. Os iraquianos continuam bastante conscientes sobre a qual comunidade pertencem, apesar do humor estar, hoje, mais secular e nacionalista. Mas o crescimento do secularismo pode estar superestimado. Autoridades locais, por exemplo, estão fechando as lojas de bebidas de propriedade de cristãos que ainda restam em cidades xiitas como Basra. Nos últimos dias de campanha, os partidos xiitas não exitaram em pintar Allawi como um fantoche dos sunitas. Por outro lado, a votação em Bagdá, onde o Al-Iraqiya ganhou 24 cadeiras, enquanto o Estado da Lei ficou com 26, mostra que apelos para lealdades sectárias não ressoam como antes. O futuro próximo do Iraque não será decidido inteiramente dentro do país. A campanha de Allawi foi pesadamente financiada pela Arábia Saudita e outros estados árabes sunitas. Esse dinheiro continuará a prover a cola que mantém junta sua ampla coalizão. Os iranianos igualmente apoiarão os partidos xiitas na formação do núcleo do novo governo, embora sem Maliki. Enquanto as forças estadunidenses continuarem a se retirar de acordo com o cronograma, o Iraque permanecerá violento e dividido. Mas o país não está se dissolvendo, e há cada vez menos chances dele voltar a cair em uma guerra de larga escala. (Counterpunch) Patrick Cockburn é autor do livro “Muqtada: Muqtada Al-Sadr, the Shia Revival and the Struggle for Iraq” Tradução: Igor Ojeda
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de 1º a 7 de abril de 2010
internacional
Em busca do petróleo, governo dos EUA teme bomba atômica iraniana TENSÃO NUCLEAR Por sua posição geoestratégica, pela abundância em petróleo, e por buscar a independência em desenvolvimento de energia nuclear, Irã é o alvo da vez Eduardo Sales de Lima da Redação “ALGUMAS SEMANAS”. Esse é o prazo dado pelo presidente estadunidense, Barack Obama, para que a Organização das Nações Unidas (ONU) aplique sanções contra o Irã por conta do programa nuclear do país. A afirmação foi feita no dia 30, em encontro com o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Obama admite não haver consenso sobre as medidas a serem tomadas entre os países integrantes do Conselho de Segurança da ONU: ele vê uma China reticente, mas ainda aguarda por uma posição unitária. O tom das críticas por parte das potências nucleares sobre a “falta de transparência” do programa nuclear do Irã aumentou consideravelmente nas últimas semanas, sobretudo por causa da inspeção, em 10 de fevereiro, às instalações de enriquecimento de urânio na cidade de Natanz, localizada na região central do país. Na ocasião, os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmaram que o Irã enriquecia urânio a 20%, já se aproximando, segundo a agência, da capacidade necessária para a fabricação de uma bomba nuclear. Entretanto, especialistas afirmam que, para que isso de fato ocorra, o metal precisa ser enriquecido a mais de 90%. O país é pressionado a abrir mão de seus projetos de produção de energia nuclear, enquanto seus países vizinhos Israel, Índia e Paquistão possuem armas nucleares e são tolerados internacionalmente. Só como exemplo, de acordo com Franklin “Chuck” Spinney, um pesquisador que analisa o Pentágono, relatórios secretos da inteligência dos EUA divulgados em 22 de abril de 2004 demonstram que Israel possui um arsenal operativo de 82 ogivas nucleares, embora, oficialmente, o Estado judaico não seja integrante do clube da bomba atômica. Em 1968, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP) estabeleceu que a posse de armas nucleares deveria ficar restrita aos países que na época as possuíam: China,
De acordo com Franklin “Chuck” Spinney, um pesquisador que analisa o Pentágono, relatórios secretos da inteligência dos EUA divulgados em 22 de abril de 2004 demonstram que Israel possui um arsenal operativo de 82 ogivas nucleares Paz armada No entanto, para muitos especialistas, se o Irã possuísse, de fato, armas nucleares, poderia, surpreendentemente, equilibrar o xadrez geopolítico no Oriente Médio. De acordo com o professor de geografia humana da Universidade de São Paulo (USP), André Martin, isso ocorreu no caso da Guerra Fria entre a ex-URSS e os Estados Unidos, e em relação à Índia e Paquistão, rivais, por exemplo, em questões fronteiriças. “Infelizmente, a paz armada continua sendo a melhor garantia para a paz; quando há um povo forte e outro fraco, a tendência é a guerra”, afirma. Sem deixar claro ao mundo se possui ou não armas nucleares, o Irã ganha tempo e força a barganha de seus inimigos. O presidente Barack Obama insistirá por mais alguns me-
“Dá pra dormir tranquilo?” Para professor da USP, o Irã vive a iminência de uma situação de guerra
e mais de 3.200 estadunidenses. Parte do arquipélago de Chagos se encontra a cerca de 1.600 quilômetros de distância das costas do sul da Índia e do Sri Lanka, as melhores posições para a realização de ataques ao Irã. Treinamento
da Redação Segundo informações do jornal britânico The Sunday Herald, em janeiro deste ano, o exército estadunidense contratou uma empresa de transporte de cargas marítimas para transladar 387 bombas “Blu” – especializadas em destruir estruturas subterrâneas – do estado da Califórnia para a base militar da Ilha de Diego Garcia, no Oceano Índico. Foram utilizados dez contêineres de munição. O arquipélago de Chagos, território britânico onde se localiza a ilha, foi utilizado para os ataques contra o Iraque durante a guerra do Golfo Pérsico de 1991 e a invasão 2003. Estão na Ilha de Diego Garcia cerca de 50 militares britânicos
Departamento de Estado/
França, Estados Unidos, Reino Unido e Rússia. Desde então, estes repudiam países não-alinhados que ousam, simplesmente, desenvolver a tecnologia nuclear, mesmo que voltada apenas à produção de energia. Os detentores das armas nucleares, liderados pelos Estados Unidos, transformaram-se, então, em “fiscais da paz”. Por meio da AIEA, tentam, através de vistorias, controlar o desenvolvimento do programas nucleares como o iraniano. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o Secretário de Assuntos Estratégicos do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, Samuel Pinheiro Guimarães, atacou a falta de moral das “potências nucleares que não cumprem o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP)” mas exigem de países desarmados, como Brasil e Irã, “o estrito respeito de suas obrigações”. Na entrevista, ele defendeu que se pode partir do princípio de que são os desarmados que ameaçam a paz internacional, e que isso seria “ilógico”.
Segundo o professor de geografia humana da Universidade de São Paulo (USP), André Martin, por enquanto, a Ilha de Diego Garcia funcionará como treinamento para um eventual ataque ao país persa. Porém, segundo Martin, o Irã deve se preocupar em relação a um provável ataque israelense, a despeito de qualquer tipo de apoio estadunidense. “O Irã está cercado por intervenções americanas nas suas duas fronteiras, Afeganistão e Iraque. Além disso, existe uma hostilidade com Israel que vem de muito tempo. Dá para dormir tranquilo?”, destaca o professor da USP. De acordo com ele, a situação do país é de alerta máximo, de uma nação que vive a iminência de uma situação de guerra. (ESL)
Hlillary Clinton no Paquistão, país também acusado de ter armas nucleares
ses em se valer de diferentes tipos de sanções econômicas para fazer com que Teerã mude de comportamento. Isso porque, segundo analistas internacionais, os Estados Unidos estariam somente esperando um apoio total da China para efetivar sanções mais duras. Dizem também que uma sanção econômica ao Irã significa uma sanção à China. Em 2009, o gigante asiático tornou-se o principal parceiro comercial do país persa. O valor das trocas comerciais entre as duas nações alcançou 21,2 bilhões de dólares. De acordo com um artigo de Peter Lee para a agência Counterpunch,
ainda que mais da metade do petróleo importado pela China provenha de Arábia Saudita e Angola, a participação do Irã não para de aumentar. Lee aponta que a China National Petroleum e sua subsidiária Petrochina planejam investir mais de 8 bilhões de dólares em um projeto de gás e em dois projetos de exploração de petróleo. Atualmente, 10% do petróleo importado pela China vem do Irã. Se a China precisa cada vez mais de petróleo, os Estados Unidos não estão atrás. Seu consumo pode crescer de 19,7 milhões de barris por dia, em 2002, para 26,7 milhões previstos para 2020. As reservas internas são
insuficientes – em quatro anos, deverão se esgotar, segundo informações colhidas pelo professor Osvaldo Coggiola, do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP). O Irã é o quarto colocado em jazidas de petróleo no mundo e o segundo em gás. Além disso, controla o estreito de Ormuz, por onde passa o tráfego de navios petrolíferos da Arábia Saudita e outros países árabes. Independência De acordo com Virgílio Arraes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a obtenção, a médio prazo, de armamentos nucleares, na visão de Teerã, significa garantir a sua própria independência. “O temor do Departamento de Estado [dos EUA] é que se impulsione uma corrida de armas de destruição em massa na região, a mais rica em petróleo do globo”, explica. Arraes aponta caminho histórico que levou à atual situação de total falta de diálogo entre Estados Unidos e Irã, o que chama de “remanescentes da revolução de 1979”. Segundo ele, durante a Guerra Fria, o Irã (entre 1953 e 1979), a Arábia Saudita e Israel formaram o tripé dos EUA no Oriente Médio. Entretanto, de acordo com o professor, o Iraque, possível “substituto” do Irã a partir de 1979, não se mostrou confiável o suficiente aos olhos de Washington. Além disso, a partir de meados dos anos 1970, houve uma progressiva estatização da produção petrolífera na região. Com a invasão ao Iraque, em 2003, aguardava-se uma retomada do domínio estadunidense. E foi essa invasão que permitiu um outro conjunto de mudanças no planejamento estratégico iraniano, tirando o país do foco dos olhares estadunidenses. Segundo o professor da UnB, a partir de então, o Irã acelerou o seu programa nuclear, “visto que, de maneira involuntária, os Estados Unidos sinalizaram respeitar potências atômicas. A Índia é o maior exemplo, ao regularizar o seu arsenal durante o governo George W. Bush, apesar dos protestos do Paquistão; e, em menor escala, cite-se a própria Coreia do Norte, também do ‘Eixo do Mal’, que obriga os EUA a barganharem”, salienta Arraes. Mais que trazer à tona a crescente escassez do petróleo no mundo, a pressão estadunidense sobre o Irã expõe que tanto o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, quanto Barack Obama, veem a energia nuclear como a energia do futuro.“Qual é o paradoxo? É que justamente a energia nuclear, que dá a resposta à questão energética e ambiental, coloca um problema na questão da segurança, pois capacita a construção de bomba”, aponta o professor, André Martin.
A “pax nuclear” russo-americana Divulgação
Redução dos arsenais atômicos ocorre porque modernização de armamento tradicional gera lucro imediato, diz especialista da Redação Os Estados Unidos e a Rússia chegaram, no dia 26 de março, a um acordo para a redução de seus arsenais nucleares para substituir outro, o de Redução de Armas Estratégicas (Start, na sigla em inglês), assinado em 1991 e expirado em dezembro do ano passado. O novo acordo, que será assinado no dia 8 de abril em Praga (República Tcheca), contempla a redução de aproximadamente 30% das ogivas nucleares das duas partes, que ficarão limitadas a 1.550 por país. Segundo agências de notícias internacionais, os Estados Unidos possuem ainda mais de dois mil mísseis nucleares, enquanto a Rússia teria mais de 2,5 mil. Portanto, segundo o professor de geografia humana da USP, André Martin, o acordo que será assinado no dia 8 de abril só reitera uma es-
O presidente Mahmoud Ahmadinejad (centro) em reunião em seu gabinete
pécie de “condomínio nuclear russo-americano” que domina o mundo militarmente. Virgílio Arraes, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), acredita que a redução do número de armas acontece sobretudo por causa da recente crise econômica mundial. “A crise de 2008 pressionou os congressistas a direcionarem os gastos do orçamento. Todavia, a limitação decorre também da forma de executar a guerra atualmente, isto é, o reforço da tecnologia das armas convencionais. Estas podem gerar lucros imediatos, via
exportação para países em conflitos”, afirma Arraes. Ao mesmo tempo, o Departamento de Estado dos EUA quer alocar cerca de 2 bilhões de dólares para a modernização de seu arsenal de bombas atômicas B-61. No total, a Força Aérea estadunidense tem cerca de 150 bombas estratégicas B-61 em seu arsenal ativo. O projeto, porém, ainda tem que ser aprovado pelo Congresso do país e, antes de tudo, o presidente Barack Obama precisa elaborar a decisão final de sua “Revisão da Postura Nuclear”, documento que direcionará a estratégia nuclear estadunidense a médio prazo. (ESL)