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BDF_346

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Circulação Nacional

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 7 • Número 346

São Paulo, de 15 a 21 de outubro de 2009 Marcos Eifler/AgAL

Leandro Konder é homenageado no Rio No dia 8, a editora Expressão Popular celebrou seu 10º aniversário com um ato no qual relançou quatro obras do escritor e filósofo Leandro Konder. Participaram da homenagem artistas e intelectuais, como Carlos Nelson Coutinho, Virgínia Fontes e Mauro Iasi, que ressaltou a importância da manutenção de ideias como as de Leandro para a criação de um mundo onde “o valor de uso derrote o valor de troca” e o papel da Expressão nessa trincheira. Pág. 8

R$ 2,50 www.brasildefato.com.br Luciano Garcia

Yeda Crusius: impunidade à vista no RS

Mídia omite grilagem da Cutrale

A governadora Yeda Crusius (PSDB) conseguiu o arquivamento do processo de impeachment. Na Comissão, onde Yeda tem maioria, o presidente Pedro Westphalen (PP) e a relatora Zilá Breitenbach (PSDB) são de sua base. Pág. 7

As imagens exibidas pela imprensa corporativa que mostram militante do MST derrubando pés de laranja ocorreu em área grilada pela Cutrale. O fato foi omitido pela mídia para criminalizar o movimento. Págs. 2 e 3

Conflitos com a PM explodem pelas periferias de São Paulo Somente este ano, a capital paulistana registrou dez conflitos em regiões de periferia. Com cenas transmitidas pelas televisões que até parecem repetidas ou orquestradas, os protestos têm como característica comum a forte repressão policial. A rotina de barricadas expressa a revolta dos moradores contra as tantas formas de exclusão e violência de que são vítimas. Os saldos

desses enfrentamentos são casas e pertences destruídos, pessoas presas e feridas. Lideranças de movimentos e cientistas sociais atribuem o aumento dos protestos à interferência do poder público nas comunidades, onde pessoas são despejadas de suas casas por grandes intervenções urbanas, desrespeitadas pelo aparato policial e desprovidas de direitos elementares. Págs. 4 e 5 Vinícius Mansur

Encontro de movimentos reúne 2 mil na Bolívia

O socialismo é a alternativa à barbárie capitalista “O socialismo é o adversário do capitalismo. A democracia é uma forma de governo que só pode funcionar plenamente em regimes socialistas. No capitalismo, a democracia será sempre restrita.” Essa é a avaliação de Plinio Arruda Sampaio. Personagem histórico das lutas da esquerda, Sampaio fala, em entrevista, sobre os 20 anos da democracia brasileira e afirma que o socialismo é a única alternativa à barbárie capitalista. E acrescenta: “Para resolver a questão do campo, será necessário derrotar a burguesia – cenário que não está à vista a curto prazo, mas que precisa ser trabalhado desde agora”. Pág. 6

O presidente boliviano, Evo Morales, discursa em Vallegrande durante o 5º Encontro Social Alternativo

Cerca de 2 mil pessoas, representando movimentos e organizações sociais de pelo menos dez países latino-americanos, participaram, entre os dias 6 e 8, em Vallegrande (Bolívia), do 5º Encontro Social Alternativo (ESA). Diferente das quatro edições anteriores que estavam voltadas para a agenda boliviana, o quinto ESA foi um chamado aos movimentos sociais do continente diante da necessidade de estabelecer uma agenda e uma pauta política comum entre as organizações populares anti-imperialistas da região. Nesse sentido, a defesa da democracia em Honduras foi o tema principal dos debates, que também trataram da construção de uma rede de comunicação alternativa no continente e da defesa da soberania alimentar. Pág. 9 NewsHour/CC

, Y T I C T I T POS ESPAÇO M E O N A URB O Ã Ç A M R O TRANSF

Pág. 12

Honduras: imprensa mostra seu golpismo O abrigo da embaixada brasileira ao presidente de Honduras, Manuel Zelaya, deu a deixa necessária para que a imprensa corporativa brasileira atacasse a postura do governo. O mais grave é o relativismo com que tratam a questão, legitimando o golpe de Roberto Micheletti. “A família Frias se esforçou para relativizar o golpe militar nessa sofrida nação latino-americana, que até hoje serve de base militar dos EUA”, analisa Altamiro Borges, do PCdoB. Pág. 10 ISSN 1978-5134

Hondurenhos acompanham a movimentação da polícia em Tegucigalpa


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de 15 a 21 de outubro de 2009

editorial O CENSO AGROPECUÁRIO de 2006, divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), põe uma luz sobre os dois modelos agrícolas em disputa hoje no nosso país. Nele está evidenciado que: a agricultura familiar, ocupando apenas 24% da área agrícola, produz 38% da riqueza desse setor produtivo; emprega 75% da mão-de-obra no campo; responde por 87% da produção nacional de mandioca, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café , 34% do arroz, 21% do trigo, 58% do leite, 59% do plantel de suínos, 50% das aves e 30% dos bovinos. Do outro lado, a agricultura nãofamiliar, o chamado agronegócio, representa apenas 15,6% do total dos estabelecimentos agrícolas, mas monopoliza 75,7% da área agrícola e impõe ao país um modelo, há cinco séculos, centrado na grande propriedade, na monocultura extensiva e no interesse de atender o mercado externo. Se é verdade que o setor agroexportador é responsável por um significativo saldo na balança comercial, é impossível ignorar a que custos – econômicos, sociais e ambientais – essas divisas externas são obtidas. A depredação ambiental, os trabalhadores mantidos em regime de semiescravidão, a concentração da renda e da riqueza, a anistia das dívidas dos ruralistas a cada cinco anos, a expulsão de milhares de famílias do campo; estes são apenas alguns exemplos do que nos custa a

debate

Disputa de modelos agrícolas manutenção do modelo do agronegócio. Um modelo agrícola que tem, num dos seus alicerces de sustentação, a violência contra os trabalhadores que ousam se contrapor a essa forma de produzir no campo. Já na República Oligárquica (1889-1930), a questão social era caso de polícia. Nas melhores terras não se podiam plantar alimentos, sendo elas destinadas apenas para o plantio do café para exportação. A população pobre do campo era vista como “jecas tatus”, merecedores apenas de um sentimento de pena e de ações assistencialistas. Mas o criador do Jeca, Monteiro Lobato, soube identificar a causa da pobreza e da ignorância do seu personagem: os vermes que o jeca tinha na barriga, a elite os tinha na cabeça, sentenciou o escritor. O golpe militar de 1964 não poupou forças para reprimir e extinguir os movimentos populares do campo, da década de 1950, que passaram a exigir “reforma agrária na lei ou na marra”. A ditadura militar liquidou os movimentos organizados dos trabalhadores e iniciou, a seguir, o período histórico em que houve o maior número de assassinatos de trabalhadores rurais, agentes, pastorais, presidentes de sindicatos de trabalhadores rurais, padres, freiras

e advogados que se posicionaram a favor da reforma agrária e da causa da agricultura familiar. A violência dos coturnos dos quartéis, associada com a certeza da impunidade dos crimes cometidos pelo braço armado do latifúndio, assegurou que a agricultura brasileira fosse modernizada, mantendo intocável sua estrutura fundiária. A partir dos anos 1990, com as transformações ocorridas na economia capitalista – sob o rótulo do neoliberalismo –, os grupos agroindustriais transnacionais e o capital financeiro tomaram conta da agricultura brasileira, de olho em nossas reservas de riquezas naturais e dos enormes lucros decorrentes da exportação dos produtos primários brasileiros. Mas os métodos para intimidar os que se opõem não mudaram. Apenas receberam uma aliada, a mídia. É necessário, perseguir, criminalizar e, se possível, extinguir os que ousam se opor ao agronegócio e defendam a agricultura familiar e a soberania alimentar do nosso país e, principalmente, quem ousa organizar os pobres do campo. A forma como a mídia tratou os acontecimentos da ocupação da fazenda da agroindústria Cutrale, em São Paulo, só pode ser compreendida dentro dos marcos de disputas

crônica

José Arbex Jr.

Um prêmio para o “brando” Obama BARACK OBAMA foi contemplado com o Nobel da Paz. Até aí, nada demais. Outros grandes e notórios pacifistas ganharam o mesmo prêmio, incluindo Henry Kissinger e Menachem Begin, cada um deles autor de uma robusta lista de crimes contra a humanidade. O problema é o momento político em que o prêmio é concedido. Tenta-se sedimentar a imagem que Obama vendeu durante sua campanha à presidência dos Estados Unidos: o seu governo seria de retomada dos “valores democráticos da América”, em oposição ao legado estúpido, racista, autoritário e debiloide de seu antecessor, o baby George Bush. Só que Obama não é nada disso. Ao contrário. Seu discurso, de fato, é bem diferente dos grunhidos e ameaças multiplicadas por Júnior. Mas, passando das palavras aos fatos, os primeiros seis meses de Obama indicam a condução de uma política externa que só se diferencia da anterior pelo verniz “civilizado”. Vamos aos fatos: No que concerne à América Latina e Caribe, Obama sustenta o projeto Mérida, que alimenta os esquadrões da morte no México e na América Central. Prolongou o bloqueio de Cuba, alegando razões de interesse nacional (quais seriam, não disse). Mantém o propósito de instalar sete novas bases estadunidenses na Colômbia, sob o ridículo pretexto de “combate ao narcotráfico”. E só alguém que acredita na cegonha e em Papai Noel acha que a embaixada dos Estados Unidos nada teve a ver com o golpe em Honduras. Com relação a outras áreas “conturbadas” do planeta, Obama ampliou a presença de tropas no Afeganistão, com o envio de 19 mil novos soldados, causando temor, mesmo entre os seus pares, de caminhar rumo a um novo Vietnã (repetidas edições da revista Economist alertam, com estridência, para esse perigo). Além disso, apesar de criticar a continuidade dos assentamentos israelenses na Palestina, nada fez de fato para estancar o processo. E apenas mudou a retórica contra o Irã, procurando agora envolver a Rússia e a China no processo. Mas, é no plano da doutrina política que Obama revela sua face mais obscura, autoritária e perigosa. Ao discursar, no dia 21 de maio, diante do prédio em Washington que abriga os documentos originais da Constituição dos Estados Unidos, Obama gastou metade do tempo para criticar a

desses dois modelos de agricultura. Os dados do Censo Agropecuário e o que representam ficaram em segundo plano. Montou-se um aparato midiático para impactar a sociedade com imagens que, de acordo com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foram fabricadas para tal objetivo. A chamada grande mídia eximiu-se do dever de informar a sociedade. Tomou partido e, ainda de acordo com o MST, foi conivente com uma farsa montada para criminalizar as famílias que acamparam naquela fazenda. Em nota divulgada, o MST afirma que não promoveu a depredação na fazenda e muito menos tocou nos pertences e nas moradias dos trabalhadores que residem na área. A nota faz questionamentos sobre a versão insistentemente veiculada na mídia, que qualquer jornalismo sério e comprometido com a verdade faria: a Polícia Militar de SP não tem nenhuma imagem filmada da depredação? Como seria possível desmontar os tratores, como foram apresentados, não tendo equipamentos necessários para isso? Como seria possível furtar 15 mil litros de combustíveis se foram escoltados pela PM e transportados em cima de uma carroceria de caminhão? Por que, tendo recebido

Gama

violação das leis estadunidenses pelo seu antecessor. Em nome da “guerra ao terror”, disse Obama, Bush, entre outras coisas, autorizou a tortura, prendeu pessoas ilegalmente, montou a prisão de Guantánamo e promoveu outras aberrações jurídicas. Até esse ponto, o discurso foi admirável, vindo de um ocupante da Casa Branca. O problema é o que veio depois. A conclusão que Obama tira do caso é a de que devem ser mudadas as leis dos Estados Unidos, para que as detenções, hoje ilegais, sejam feitas... dentro da lei! Isso não é uma “interpretação tendenciosa” da “esquerda conspirativa”. Vamos ao discurso de Obama: “Finalmente, resta a questão dos detidos em Guantánamo que não podem ser processados, mas que colocam um claro risco ao povo americano.(...) É possível que haja vários que não podem ser processados por crimes cometidos no passado, mas que ainda assim representam uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Exemplos incluem pessoas que receberam treino extensivo com explosivos em campos da Al Qaeda, comandaram tropas do Talibã em batalhas, expressaram seu apoio a Osama Bin Laden, ou, por qualquer outro meio, expressaram o seu desejo de matar americanos. Essas pessoas, de fato, estão em guerra com os Estados Unidos. Como eu disse, não vou libertar esses indivíduos que colocam em risco o povo americano. Os

terroristas da Al Qaeda e os seus apoiadores estão em guerra com os Estados Unidos, e aqueles que capturarmos, como outros prisioneiros de guerra, devem ser impedidos de nos atacar novamente.” Obama reproduz, aqui, um conceito fundamental da “doutrina Bush” que, de fato, é a “doutrina Hitler”: a ideia de “guerra preventiva”, em que alguém que declara sua mera intenção de atacar os Estados Unidos é igualado a alguém que recebeu treinos em algum campo, que é por sua vez igualado a alguém que de fato praticou um ataque. Isto é, qualquer um pode ser detido como suspeito, desde que a autoridade considere que suas atividades representam uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Obama quer transformar a “guerra preventiva” em lei, coisa que sequer Bush ousou fazer (o Decreto Patriótico foi aprovado como medida de exceção, sob o impacto do ataque de 11 de setembro de 2001, mas sem a pretensão de se transformar em medida constitucional). O “brando” Obama, agora agraciado com o Nobel da Paz, trilha a rota do fascismo aberta por baby Bush. José Arbex Jr. é jornalista, escritor e professor de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). É autor dos livros Showrnalismo - A Notícia Como Espetáculo e O jornalismo canalha, ambos da editora Casa Amarela.

imagens da destruição dos pés de laranja ainda no dia 28 de setembro, somente no dia 5 de outubro a Rede Globo resolveu exibi-las? Por que os integrantes do MST foram impedidos de acompanhar a entrada da PM na fazenda, logo após a saída das famílias acampadas? O que realmente aconteceu na fazenda após a saída das famílias acampadas? Apenas uma comissão independente, como exige o próprio MST, poderá dar respostas a essas perguntas. Para completar o espetáculo circense, três parlamentares, paladinos do atraso, defensores do latifúndio, entraram imediatamente em cena para tentar constituir uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o MST. O deputado federal do Demo-GO, Ronaldo Caiado, chegou a dizer que essa CPI é para averiguar se o MST recebe dinheiro do governo para repassar à candidatura da ministra Dilma Roussef. Nada pode ficar mais evidente no ato falho do parlamentar Caiado. Esperamos que retorne o debate sobre qual modelo de agricultura interessa ao povo brasileiro. Certamente a escolha recairá sobre uma agricultura que garanta a produção de alimentos saudáveis, assegure a preservação ambiental e promova a distribuição da riqueza e renda produzida. Conquistas – para a sociedade – incompatíveis com o modelo de agricultura do agronegócio.

Luiz Ricardo Leitão

Lições de Copenhague e Japeri “A questão social é caso de polícia”, vociferava na República Velha o canhestro Washington Luís, deixando claro que, para as oligarquias de Bruzundanga, as reivindicações populares devem ser sempre resolvidas com tacape e borduna – ou, então, com gases (lacrimogêneo, de pimenta etc.), tiros (de borracha ou não) e outras técnicas pós-modernas, muito a gosto das forças de repressão policial de nossas províncias. Lembrei-me do último coronel da política do “café-com-leite” ao ouvir, na semana passada, o playboy Sérgio Cabral, governador do Rio, manifestar-se sobre os protestos dos passageiros do ramal de Japeri, na sofrida Baixada Fluminense. Durante três dias, eles não puderam sequer deslocar-se para o trabalho, por causa das sucessivas panes no serviço – que, diga-se de passagem, depois de sucateado ao extremo na gestão do tucano Marcelo Alencar, foi “privatizado” e entregue a um espúrio consórcio (que, ao melhor estilo neoliberal tupiniquim, fatura milhões e trata os usuários como bichos). O playboy Cabral, que foi criado a pão-de-ló nas areias de Copacabana, mostrou-se deveras “indignado” com o comportamento da plebe, a quem classificou de “delinquentes” perante os microfones e câmeras de TV. Os jornalistas, em sua maioria, pareciam solidarizar-se com o governador, que boa parte da mídia incensara dias antes, em Copenhague, quando o Rio foi escolhido sede das Olimpíadas de 2016. Deve ser constrangedor para os arautos da Corte, de fato, anunciar um mundo quase perfeito para daqui a sete anos e, cientes de que contra fatos não há argumentos, reconhecer que os serviços essenciais do Estado e da Cidade Maravilhosa continuam na era da pedra, incapazes de atender as justas demandas da população. Saúde, educação, transportes e segurança são um martírio para o povo, não obstante as promessas que as mirabolantes “autoridades” divulgaram em seus programas eleitorais. Cabral, por exemplo, em janeiro de 2007, disse que iria implantar o bilhete único até o final de 2008... A medida, hoje adotada em várias capitais do país, já fora instituída em São Paulo pela prefeita Marta Suplicy desde 2004, com resultados bastante positivos: a rede paulista ampliou-se, integrandose ao metrô e aos trens, e é atualmente a segunda maior do mundo, atrás apenas de Hong Kong. No Rio, contudo, o lobby dos donos de ônibus é tal que, além de dominar a Secretaria de Transportes, eles inviabilizam qualquer projeto de expansão do transporte de massa. Que o diga o Pan 2007: a badalada extensão do metrô até a Barra da Tijuca tornou-se uma galhofa inigualável – em lugar dos trens, criou-se uma linha de ônibus de Copacabana até a Barra, logo batizada pelos tecnocrata$ do poder com o singelo epíteto de “metrô na superfície”... Não são realmente criativos os aspones palacianos? É claro que o governador e o alcaide (não nos esqueçamos do bom-moço Eduardo Paes, que, quando foi ao subúrbio pedir votos, também apoiou a ideia de Cabral), vivendo o conto de fadas olímpico à custa do dinheiro público, estão decepcionados com os eventos do Rio 2009, tão distante daquela Cidade Maravilhosa que os marqueteiros e cineastas contratados com verbas milionárias projetaram com muita competência nas sessões do COI em Copenhague. Afinal de contas, como escreveu um colunista da grande imprensa, em matéria de transporte (e saúde, educação etc.) “o governo do Rio é uma fábrica de fantasia” – quem não se lembra do sorridente Paes, no Dia Mundial Sem Carro, desfilando de bicicleta pela Zona Sul, como fizera o playboy Cabral em Paris, em 2008 (em uma bike com GPS). Enquanto isso, os professores da rede estadual de ensino, cujo salário líquido no contracheque é R$ 540,47 (acredite, se quiser!), eram atacados a tiros de pistola pela PM do Estado, durante um protesto na Assembleia Legislativa, em episódio que a própria imprensa marrom da província se viu obrigada a destacar nas manchetes dos periódicos. Será que os nossos bravos docentes também são delinquentes, Sr. Cabral? Acuado, o governador teve de conceder longa entrevista ao RJTV, na qual, com a desfaçatez de sempre, não hesitou em declarar que, se conceder reajuste aos servidores, “o Estado quebra”... Bem, parece que o povão carioca, após anos de paciente espera, entendeu a mensagem “olímpica”: se os serviços não melhorarem, eles também vão quebrar – tudo que o Estado já quebrou ao longo de anos... Em tempo: como bom carioca, não desdenho o resultado de Copenhague, a começar pela lição que o bom-mulato Obama recebeu (há algo de raro no reino da Dinamarca, deve ter pensado ele na volta aos EUA...). De resto, exorto o movimento social a reverter a festa da burguesia em favor do povo: os bilhões em obras devem ir para as áreas populares da cidade, em vez de se escoarem nas maracutaias de Nuzman & Cia. ou nos “investimentos” destinados apenas à Miami tupiniquim (the wonderful Barra). Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Extranjeros: reflexões, crônicas e ficções de um brasileiro em Cuba no “Período Especial”.

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Daniel Cassol, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Vinicius Mansur • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte – Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Aurelio Fernandes, Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, René Vicente dos Santos, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800


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brasil

Para incriminar MST, imprensa corporativa ignora grilo da Cutrale Luciano Garcia

MOBILIZAÇÃO Transnacional já foi notificada pela Justiça Federal em 2007; imprensa usou imagens para tentar impor CPI Luís Brasilino e Renato Godoy de Toledo da Redação NO DIA 5, O Jornal Nacional da Rede Globo exibiu imagens captadas pela Polícia Militar de São Paulo nas quais integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) passam um trator sobre plantações de laranja, na zona rural de Iaras (SP). O telejornal não citou nominalmente a empresa que controla as terras ocupadas pela organização. Trata-se da Sucocítrico Cutrale, transnacional brasileira que tem como finalidade a exportação de suco de laranja. A notícia veiculada pela TV Globo repercutiu em todos os veículos. Em editorial, os jornais de maior circulação do país usaram terminologia agressiva contra o movimento. Terroristas, criminosos e vândalos foram termos recorrentes atribuídos aos militantes do MST. Tais jornais trataram o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, praticamente como membros do movimento, mas que discordaram da ação em Iaras. Terra grilada

Para o MST, a intenção da imprensa e da polícia é criminalizar o movimento e instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Em setembro, a bancada ruralista conseguiu reunir assinaturas para instaurar uma CPI contra o MST, mas a tentativa acabou frustrada. Agora, as imagens de Iaras deram novo fôlego a esses setores que, no fundo, miram inverter o debate e barrar a atualização dos índices de produtividade rural, prometido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Integrante do MST observa policiais; mídia não deu atenção às terras griladas pela Cutrale em Iaras (SP)

As versões sobre o que ocorreu em Iaras são muito opostas, a começar pela titularidade da terra, que a imprensa “concede” à Cutrale. Mesmo dando muito espaço sobre o caso de Iaras, os jornais não abordaram profundamente o tema. Disseram que o movimento destruiu plantações numa propriedade produtiva, mas não deram importância ao fato de o Incra reivindicar a área, alegando que a terra foi grilada. A área, atualmente controlada pela Cutrale, faz parte de um lote chamado Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares pertencentes à União, segundo o Incra. Em 2007, a Justiça Federal concedeu a totalidade do imóvel para o instituto. A empresa, no entanto, permanece na área e utiliza-se de ações judiciais para reverter a decisão. Argumentos do MST

No dia 28 de setembro, o movimento ocupou, pela ter-

“Não podemos nos calar enquanto terras públicas continuarem sendo utilizadas em benefício privado”, diz nota do movimento ceira vez, uma área de cerca de 2,7 mil hectares no Núcleo Monções a fim de pressionar o governo para que ele retomasse a área e realizasse assentamentos. De acordo com o movimento, os dois hectares destruídos seriam utilizados para plantar alimentos básicos aos acampados. O MST calcula que cerca de 400 famílias poderiam ser assentadas na área ocupada. No entanto, a divulgação das imagens acelerou o processo de reintegração de posse, que acabou ocorrendo no dia 6. A imprensa corporativa usou o argumento da produtividade da terra para criticar o MST, que rebateu, em

Depredações são falsas, diz movimento Se esses atos tivessem ocorrido, a polícia teria registrado as imagens, tal como captou as do laranjal da Redação O MST admite ter destruído 2 hectares de plantações de laranja da empresa Cutrale. No entanto, foram imputados ao movimento outras atitudes que ele nega, tais como a destruição de tratores, roubo de combustíveis e furto de pertences pessoais de trabalhadores da fazenda. “A gente fica bastante sentido da imprensa ter dito isso. Estamos atrás de terra e não de outra coisa. Teve gente que não era do movimento, gente da cidade, que não sabíamos nem quem era. E falavam que estavam ‘só dando uma olhada...’”, conta Cristina, do acampamento Rosa Luxemburgo, que participou da ocupação na Cutrale, mas prefere não revelar o sobrenome. O MST cobra das autoridades uma investigação independente sobre o que acon-

teceu na área. A assentada Andréa do Carmo Pio, que também participou da ação, reforça que não sabe o que ocorreu depois que as famílias deixaram a ocupação. “Eles [polícia e funcionários da Cutrale] forjaram isso para queimar a imagem do movimento, não são burros. Nós deveríamos ter um advogado para vistoriar”, lamenta. Em nota oficial, a direção estadual do MST alega que, se esses atos tivessem ocorrido, a polícia – que monitorou todas as ações do movimento na área – teria registrado as imagens, tal como captou as do laranjal. Sobre os pertences dos agricultores que moram no local, o MST-SP afirma que, em acordo com os trabalhadores, as casas foram desocupadas e trancadas, logo após a ocupação. “Em todas as nossas ocupações, sempre respeitamos os trabalhadores e zelamos por sua segurança”, pontua a nota.

Imagens divulgadas em emissoras mostram tratores desmontados na fazenda. Esse desmonte seria resultado do vandalismo dos semterra, segundo a imprensa. No entanto, o MST fez uma revelação que contesta essa versão: “Uma empresa com esse porte possui oficina mecânica dentro das fazendas e, portanto, faz a manutenção das suas máquinas dentro da própria área. As imagens mostram tratores e peças que já estavam abandonadas e desmontadas antes das famílias chegarem lá. Quem tem que responder pelo estado dos equipamentos é a Cutrale, e não o MST”, afirma o movimento. Os trabalhadores rurais também foram acusados de levar 15 mil litros de combustível ao desocuparem a fazenda. “Não foi roubado nenhum tipo de combustível ou veneno. No momento em que saímos, a PM estava lá e eles viram que não tínhamos nada no caminhão, que carregava dois fogões e mantimentos”, reforça Andréa. (LB e RGT, colaborou Eduardo Sales de Lima, da Redação)

nota: “Somos os primeiros e mais interessados em fazer com que as terras agrícolas realmente produzam alimentos. No entanto, não podemos nos calar enquanto terras públicas continuarem sendo utilizadas em benefício privado; enquanto milhares de famílias sem-terra continuarem vivendo na beira de estradas, debaixo de lonas pretas. A produtividade da área não pode esconder que a Cutrale grilou terras públicas. Aos olhos da população, por mais impactantes que sejam, as imagens não podem ocultar que uma multinacional extrai riqueza de terras griladas. Mais do que somente esclarecer os fatos,

é preciso entender a complexidade e a dimensão da luta pela terra naquela região”, afirma nota do MST-SP O movimento também criticou a atitude da Justiça, que, em agosto, decretou a extinção do processo em que o Incra reclama a fazenda como terra pública. “A Justiça alegou que o Incra, órgão federal responsável pela execução da Reforma Agrária, é ilegítimo para reivindicar a área. Quem poderá fazê-lo então?”, contesta. Estranheza

A ação dos trabalhadores havia ocorrido no dia 28 de setembro, e neste dia fora divulgado que o movimento ocupou a fazenda e destruiu pomares de laranja. No entanto, apenas no dia 5 as imagens foram divulgadas. A demora para publicar as imagens – que, sem dúvida, contêm forte apelo midiático – causou estranheza em movimentos sociais.

Transnacional exerce monopólio no mercado brasileiro Cutrale é alvo de cinco processos no Cade e seus proprietários são réus em processos por formação de cartel e posse ilegal de armas Eduardo Sales de Lima da Redação A Cutrale mantém um dos maiores monopólios alimentícios do mundo. Detém cerca de 30% do mercado global de suco de laranja e possui clientes como Parmalat, Nestlé e Coca-Cola. Em relação à última empresa, a Cutrale, segundo revela o geógrafo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Ariovaldo Umbelino, é sua fornecedora exclusiva. O deputado federal Dr. Rosinha (PT-PR) lembra, em boletim, que a empresa é alvo de cinco processos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), por liderar um cartel formado por quatro empresas que dominam o setor. As outras três seriam a Citrosuco, do grupo holandês Fischer; a Coinbra-Frutesp, do grupo francês Louis Dreyfus, e a

Quanto

60% da produção

nacional de suco são controlados pela Cutrale

Citrovita, do grupo Votorantim. Trata-se das maiores produtoras de suco do país e respondem por 90% da produção nacional. Entretanto, a Cutrale, sozinha, responde por mais de 60%. Essas quatro indústrias detêm mais de 50 milhões de pés de laranja e, como destaca Dr. Rosinha, impõem seus preços aos demais produtores. O monopólio, além de padronizar os preços, não permite a geração de empregos. Atualmente, apesar de existirem plantações de laranja por todo o Brasil, “restaram somente os grandes e médios produtores”, e “o número de trabalhadores no setor é reduzidíssimo porque as plantas são

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) acredita que a divulgação tardia das imagens possa ter sido usada como uma carta na manga dos ruralistas, para dar novo fôlego à CPI do MST, que havia sido enterrada dias depois da ocupação. “[A CPI] acabou frustrada porque mais de 40 deputados retiraram seu nome e, com isso, não atingiu o número regimental necessário. A bancada ruralista se enfureceu. A ação do MST do dia 28, que, ao ser divulgada pela primeira vez não provocara muita reação, poderia dar a munição necessária para novamente se propor uma CPI contra o MST. E numa ação articulada entre os interesses da grande mídia, da bancada ruralista do Congresso e dos defensores do agronegócio, se lançaram novamente as imagens da ocupação da fazenda da Cutrale”, aponta nota da entidade.

altamente tecnificadas”, revela Umbelino. Fundada há 40 anos, a Cutrale, conforme explica o geógrafo, sempre agiu de modo a verticalizar a produção. “Ela desenvolveu o processo de monopólio dentro de seu histórico de produção de suco, comprando unidades pequenas e as fechando”, conta. Umbelino lembra que, enquanto havia competição, as indústrias sucocítricas negociavam com seus fornecedores por intermédio do governo estadual. A Cutrale foi ganhando força e provocou a criação de associações de citricultores que a enfrentavam. As organizações racharam e a empresa conseguiu enfraquecer as entidades menores. Atualmente, segundo o geógrafo, a Cutrale planta 10% de sua produção como forma de garantir sua produção de sucos, no caso de haver possíveis problemas com o fornecimento de laranjas. Os donos da empresa, que teriam fortuna acumulada equivalente a 5 bilhões de dólares, segundo informações do deputado Dr. Rosinha, são réus em processos por crime de formação de cartel e posse ilegal de armas de fogo. A Cutrale também já foi autuada por causar diversos impactos ambientais.


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brasil

“No capitalismo, a democracia será sempre restrita” ALESP

ENTREVISTA Plinio Arruda Sampaio, personagem histórico das lutas da esquerda, analisa os 20 anos da democracia brasileira e afirma que o socialismo é a única alternativa à barbárie capitalista

Como o senhor avalia, no quadro geral, os 20 anos de democracia brasileira? O que se conquistou e o que se perdeu política e socialmente após o fim da ditadura militar? Plinio Arruda Sampaio – O ganho evidente é a liberdade de fazer política. Não é pouco. Mas insuficiente. Tudo o mais, no campo econômico e no campo social, tem sido um desastre. Costumamos caracterizar a democracia, genericamente, pela sua oposição a regimes autoritários ditatoriais. Isso basta? Qual a relação entre democracia, capitalismo e socialismo? De maneira geral, o combate a regimes ditatoriais exige a formação de frentes muito heterogêneas, congregando todos os que se opõem a tais regimes. Essas frentes, formadas com um único objetivo – derrubar o regime ditatorial –, se desfazem uma vez atingido o seu objetivo. Não têm nenhuma possibilidade de ação política positiva, porque, obviamente, não há outro acordo entre as forças que as compõem, além da derrubada da ditadura. O socialismo é o adversário do capitalismo. A democracia é uma forma de governo que só pode funcionar plenamente em regimes socialistas. No capitalismo, a democracia será sempre restrita. Há casos de militantes de uma esquerda muito organizada contra a ditadura militar brasileira que, após a redemocratização, tornaram-se políticos de partidos de centro ou mesmo de direita. Há diferença na posição ideológica em períodos

Recorde olímpico

De acordo com o último Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) divulgado pela ONU, o Brasil permanece na 75ª posição do ranking dos países, sem grandes alterações nos indicadores de renda, saúde e educação. O mais grave: o Brasil continua entre os dez países de maior desigualdade no mundo, atrás da Namíbia, Ilhas Comores, Botsuana, Haiti, Angola, Colômbia, Bolívia, África do Sul e Honduras. Até quando?

Sem memória

Além de protelar os julgamentos de policiais acusados de chacinas no Estado do Rio (Baixada, Nova Iguaçu, Queimados, Vigário, Guadalupe, Itaguaí etc.), o Poder Judiciário decidiu proibir que os familiares das vítimas vistam camisetas com fotos e nomes de seus parentes assassinados nas sessões dos tribunais. Ou seja, os juízes não promovem a justiça e ainda querem apagar a memória do povo. Essa é a nossa Justiça!

Cátia Guimarães do Rio de Janeiro (RJ) FOI EM 1989, há exatos 20 anos, que o Brasil voltou a eleger seu presidente pelo voto direto. Mas a tão esperada democracia do voto logo ficou atribulada, quando um conjunto de denúncias levou ao impeachment do presidente eleito, Fernando Collor de Melo. Manifestações da época, como a dos caras pintadas, também não indicavam um fortalecimento da democracia participativa: de lá para cá, só aumentaram as queixas de desmobilização social. Acompanhando de perto todo esse movimento estava Plinio Arruda Sampaio, personagem histórico das lutas da esquerda que, em entrevista à revista Poli, faz uma análise da democracia brasileira durante esse período. Contra o regime militar, ele se filiou ao MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Em 1980, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual foi deputado constituinte, em 1986. Muitos anos depois, ainda no mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, desfiliou-se do PT. Antes, porém, disputou a presidência do partido. Hoje, aos 79 anos, Plínio é filiado ao Psol (Partido Socialismo e Liberdade), pelo qual disputou o governo de São Paulo em 2006. Junto com a vida partidária, acumulou experiência também nos movimentos sociais: atualmente, é presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra) e diretor do Correio da Cidadania (www.cor reiocidadania.com.br), que atua na democratização da comunicação e da informação.

fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza

Farsa policial

Lula cumprimenta Collor durante o debate realizado antes das eleições de 1989

O socialismo é o adversário do capitalismo. A democracia é uma forma de governo que só pode funcionar plenamente em regimes socialistas. No capitalismo, a democracia será sempre restrita de autoritarismo e de democracia? Nas frentes formadas para combater uma ditadura, as questões ideológicas e programáticas são suspensas. Quando o regime político se normaliza, cada qual busca seu rumo. Como o senhor avalia o presente e as perspectivas da esquerda brasileira? A esquerda ainda não conseguiu se reerguer após a derrota de 1989. Ela tem perspectivas de se reerguer porque as razões de sua existência não só persistem como adquiriram mais força. Contudo, não são perspectivas de curto prazo. Qual a função dos partidos na condução de um projeto de sociedade e país? E a dos movimentos sociais? Como devem se articular a democracia representativa e a democracia participativa? Os partidos trabalham a totalidade – o conjunto da nação. Cabe-lhes articular ações de pressão sobre o governo da sociedade. Os movimentos sociais, pela sua própria natureza, são corporativos – defendem os interesses de grupos sociais definidos. Com a expressão “corporativo” aqui quero abranger toda entidade cujo objetivo direto não é a totalidade da nação. A reforma agrária, por exemplo, é sem dúvida uma luta de todos, mas o MST (Movimento dos Trabalha-

dores Rurais Sem Terra) a trava em nome de uma parcialidade – os trabalhadores rurais sem-terra. A democracia representativa é uma necessidade inarredável, dada a impossibilidade de se sentar a população todos os dias numa ágora gigante, a fim de deliberar sobre o que fazer. No entanto, precisa ser completada pela democracia participativa – momentos em que todos são chamados a decidir uma questão. Em textos antigos, o senhor avalia os prós e os contras do presidencialismo e do parlamentarismo. Fale um pouco sobre esses dois modelos como alternativas para o Brasil? A forma de exercício do governo – parlamentarismo ou presidencialismo – tem uma importância relativa. Qualquer uma delas pode funcionar bem ou funcionar mal. Isso vai depender de outros fatores, dentre os quais: o grau de cultura política da população; a solidez das instituições da República; a existência de partidos políticos fortes. A existência do Legislativo é tida como um dos pontos principais que caracterizam uma democracia. O Brasil tem vivido, frequentemente, situações de denúncias que desacreditam o Congresso. O que isso diz sobre a

Para resolver a questão do campo, será necessário derrotar a burguesia – cenário que não está à vista a curto prazo, mas que precisa ser trabalhado desde agora Reprodução

O presidente da Abra, Plínio Arruda Sampaio

democracia brasileira e qual o efeito disso sobre ela? Sem Poder Legislativo independente não pode haver democracia. Por isso, a correção para a deterioração do Congresso é a não-recondução dos atuais legisladores. Fala-se muito na necessidade de uma reforma política no Brasil, que é, inclusive, prioridade do governo federal. Quais os pontos principais que, em sua opinião, devem constar de uma reforma política que caminhe no sentido da democracia e da igualdade social? Não acredito na possibilidade de uma reforma política no Brasil, pois a estrutura atual atende perfeitamente aos interesses das classes dominantes. A posição do governo federal favorável a uma reforma política é uma cortina de fumaça para distrair a atenção da opinião pública dos temas que precisam efetivamente ser debatidos. O senhor tem se dedicado, mais especificamente, às questões da reforma agrária e da democratização da mídia e das informações. Qual a importância dessas “bandeiras” para um outro projeto de sociedade? A bandeira da reforma agrária, na opinião de Celso Furtado, deu origem ao movimento cívico mais importante da nossa história depois da campanha abolicionista. Infelizmente, a burguesia brasileira, entrincheirada na estratégia da contrarreforma permanente, não permitiu e não vai permitir a realização da reforma agrária, de modo que as perspectivas são muito pessimistas. Para resolver a questão do campo, será necessário derrotar a burguesia – cenário que não está à vista a curto prazo, mas que precisa ser trabalhado desde agora. Quanto à comunicação: na Constituinte, tivemos a ilusão de democratizar os meios de comunicação de massa, que hoje estão nas mãos de meia dezena de grupos econômicos. Digo ilusão porque os dispositivos democratizantes que colocamos no texto constitucional só poderão ser aplicados quando o povo derrubar a burguesia. Sem imprensa democrática, a democracia será sempre limitada. O senhor ainda acredita que o socialismo é o caminho? Quais as perspectivas para o Brasil e a América Latina? O socialismo é a única alternativa à barbárie capitalista. Em algumas regiões da América Latina há sinais de que as massas populares estão percebendo isso. Aqui no Brasil, os socialistas ainda precisam trabalhar muito. (Revista Poli – saúde, educação e trabalho, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio – Fiocruz – www.epsjv.fiocruz.br).

Concluído na semana passada, o inquérito policial militar para apurar a morte do trabalhador sem-terra Elton Brum da Silva, durante ação de desocupação da fazenda São Gabriel, pela Brigada Militar, no Rio Grande do Sul, afirma que ele foi morto “por engano”, já que o soldado Alexandre Curto dos Santos atirou nele com uma espingarda calibre 12, pelas costas, pensando que a munição não era letal. Era só o que faltava!

Crise econômica

Será realizado de 29 a 31 de janeiro de 2010 o Fórum Social Temático de Salvador, na Bahia, que terá sua programação em três dimensões: 1) Fórum de Respostas à Crise, para articular propostas de outro mundo possível pós-crise; 2) Fórum de Diálogos e Controvérsias, em alternativa ao neoliberalismo; 3) Fórum de Culturas Periféricas: de Salvador à Ilha Gorée, um encontro cultural rumo a Dakar e ao FSM 2011. A luta continua.

Avanço democrático

O Senado argentino aprovou projeto de lei do governo Kirchner para reorganizar a comunicação social do país: agora o sistema será operado por um terço de cada setor (privado, público e estatal); nenhuma empresa poderá ter mais de 10 concessões de rádio e TV, e nem poderá operar canal de TV aberta e a cabo ao mesmo tempo. A renovação de concessão será feita com transparência em audiência pública. E o Brasil?

Luta histórica

Será lançado no dia 24 de outubro, no Memorial da Resistência, em São Paulo, o livro Resistência atrás das grades, de Maurice Politi, que ficou preso durante quatro anos pela Ditadura Militar e que publica agora um relato das greves de fome e dos protestos organizados pelos presos políticos nos presídios do Carandiru, Tiradentes e Presidente Prudente. Um documento revelador daquele momento histórico.

Explosão urbana

Em entrevista para a revista Caros Amigos, edição de outubro, o escritor Ferréz, morador e conhecedor da vida na periferia de São Paulo, afirma que a população favelada está cansada de ser maltratada pela polícia e demais poderes públicos, e que está muito próxima de uma explosão social com consequências imprevisíveis. Para ele, o estopim da revolta pode ser qualquer ato de violência policial. Chega de humilhação!

Vitória ambiental

Moradores de São Pedro de Catuçaba, distrito de São Luiz do Paraitinga (SP), conquistaram liminar na Justiça local contra o transporte de toras de eucalipto pelas ruas da cidade e pela única estrada vicinal que liga o distrito à rodovia Oswaldo Cruz. Com isso paralisaram as atividades de extração vegetal da poderosa Votorantim Celulose e Papel, que tem feito um estrago ambiental muito grande naquela região. Chega de omissão!

Pura ideologia

Por mais que o MST esclareça o que aconteceu realmente na ocupação das terras griladas pela Cutrale, a grande imprensa neoliberal conservadora continuará criminalizando o movimento social e isentando a empresa de exportação de sucos. O jornal Folha de S. Paulo confirmou isso na edição de 12 de outubro, quando fala de “ocupação de terras” pela Cutrale e “invasão da fazenda” pelos sem-terra. Dois pesos, duas medidas!


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brasil Marcos Eifler/AgAL

Governadora do RS a um passo da impunidade CORRUPÇÃO TUCANA Yeda Crusius consegue arquivamento do impeachment na Assembleia Legislativa Miguel Enrique Stédile de Porto Alegre (RS) A GOVERNADORA do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), venceu o primeiro round da disputa pelo seu afastamento do cargo. Valendo-se da maioria entre os deputados da Comissão Especial que analisava o pedido, a governadora conseguiu que o mesmo fosse arquivado e a tramitação, encerrada. A base yedista – formada por PMDB, PP, PPS – já havia conseguido, há duas semanas, indicar o presidente e a relatora da Comissão, respectivamente Pedro Westphalen (PP), líder do governo, e Zilá Breitenbach, do mesmo partido de Yeda. Sem realizar nenhuma reunião ou audiência, a relatora apresentou seu voto pelo arquivamento, no dia 5, para aprovação pela Comissão três dias depois. A oposição ainda tentou reverter a correlação de forças. Na véspera da votação, dia 7, os deputados favoráveis ao impeachment apresentaram uma nova denúncia: o uso de recursos públicos para mobiliar e reformar a man-

são da governadora (veja matéria ao lado). No dia seguinte, o Comitê Pró-impeachment apresentou o resultado de um plebiscito popular realizado naquela semana: 94% dos votantes eram favoráveis ao afastamento de Yeda. Durante a sessão, os deputados de oposição ainda tentaram ganhar tempo, pedindo a retirada do deputado Carlos Gomes, indicado pelo PPS, mas que havia trocado de legenda naquela semana para o PRB. A oposição apoiava-se em parecer da Procuradoria da própria Assembleia, que determinava a perda no cargo da Comissão. Porém, o presidente Pedro Westphalen manteve o deputado e conseguiu o número exato de votos para o arquivamento. Para a oposição, restou abandonar a sessão antes da votação. Para a deputada Marisa Formolo (PT), a atitude foi ilegal. “Apelaram para uma visível ilegalidade para garantir os 16 votos a fim de livrar a governadora do impeachment. O voto de Carlos Gomes, no nosso entendimento, é nulo”, afirmou. Agora, restam duas possibilidades para o afastamento da governadora. Uma delas é que a CPI da Corrupção consiga apurar a participação de Yeda nos esquemas de fraude do Detran e desvios de recursos públicos, criando uma nova correlação de forças internamente. A outra possibilidade é o pedido de afastamento da ação civil impetrada pelo Ministério Público Federal.

Os 16 deputados que salvaram a governadora PMDB Alceu Moreira Gilberto Capoani Sandro Boka PSDB Adilson Troca Paulo Brum Pedro Pereira Zilá Breitenbach (relatora) PTB Adilson dos Santos Aloísio Claismann Luis Augusto Lara PRB Carlos Gomes PP Pedro Westphalen (presidente) Jerônimo Gorgen João Fischer Marco Peixoto Silvana Covatti

Pedro Westphalen e Zilá Breitenbach, presidente e relatora da Comissão Especial do impeachment

Yeda usa dinheiro público para pagar reforma de casa As denúncias de aquisição irregular de material de construção, móveis, produtos para jardinagem e alimentos somam cerca de R$ 100 mil Raquel Casiraghi de Porto Alegre (RS) Deputados de oposição apresentaram, no dia 7, informações que apontam o uso de dinheiro público para a reforma da casa da governadora Yeda Crusius em Porto Alegre (RS). Em entrevista coletiva, os parlamentares afirmaram ter documentos que comprovariam o desvio. Empenhos obtidos na Casa Militar demonstram a compra de ma-

teriais de construção e mobília por parte do Estado. Além disso, dois deputados viram uma nota fiscal em uma loja de material de construção da capital que teria como local de entrega a casa onde Yeda mora desde 2006. A presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Corrupção, deputada Stela Farias (PT), ainda apontou que um dos valores dos materiais de construção e móveis adquiridos por meio da Casa Militar seria idêntico ao valor da nota fiscal entregue na casa da governadora. Entre as aquisições estariam cerca de R$ 8 mil em pisos de borracha. Também foram adquiridos, com dinheiro público, móveis para os netos de Yeda. Irregularidades

“A bancada do PT, no ano passado, encaminhou à subchefia de assuntos administrativos da Casa Civil uma solicitação para vista ao processo 16980801-07-

5, que é um dos que vêm na denúncia. Este diz respeito à compra, em 2007, de móveis adquiridos com dinheiro público, cujo valor pago foi de R$ 6 mil”, afirmou. Ao todo, as denúncias de aquisição irregular de material de construção, móveis, produtos para jardinagem e alimentos somam cerca de R$ 100 mil. Em nota, o governo do Estado diz conhecer o uso do dinheiro público na reforma da mansão e afirmou que é legal. Segundo o texto, bens e serviços podem ser adquiridos para o local em que o governador mora. No final do mandato, os bens deverão ser restituídos ou indenizados ao Estado. No entanto, a própria casa de Yeda é alvo de denúncias. Suspeitas apontam que o imóvel de luxo teria sido comprado com dinheiro de Caixa 2 de campanha. Na época, Yeda justificou a compra da casa a fim de ter uma moradia à altura do cargo de governadora.

ANÁLISE ABr

Quem é a tucana Yeda Crusius? O que está acontecendo no RS não é por acaso ou por má vontade dos deuses com os gaúchos Cristóvão Feil O MINISTÉRIO Público Federal, semanas atrás, pediu o afastamento da governadora do Estado do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, por suspeita de improbidade administrativa. As últimas pesquisas de popularidade encomendadas pela empresa midiática RBS (insuspeita porque ajudou a elegê-la e sempre apoiou o seu governo) apontou que 64% dos entrevistados consideram o governo estadual ruim ou péssimo. A pesquisa, realizada entre 25 e 29 de setembro, informa que 62% são favoráveis ao impeachment da governadora tucana. A governadora gaúcha, hoje, é um fenômeno nacional de impopularidade, suspeição e inutilidade administrativa. A propósito disso, vamos recordar um pouco quem é de fato a tucana Yeda Crusius. A direita do RS conseguiu eleger para o governo do Estado uma deputada federal chamada Yeda Rorato Crusius, filiada ao PSDB. Foi no ano de 2006. Quem governava então o Estado era o senhor Germano Rigotto, filiado ao PMDB. Este também foi candidato, mas foi rejeitado já no 1º turno. Yeda adotou o discurso da renovação, com o slogan publicitário de “Um novo jeito de governar”. No 2º turno da eleição de 2006, Yeda dispu-

tou com o candidato petista Olívio Dutra. O conservadorismo do RS fez um esforço muito grande para derrotar o ex-governador Olívio, porque via nele uma impossibilidade de contar com o aparelho estatal para obter êxito nos seus negócios: seja nos negócios lícitos, seja nos negócios que precisam de meios menos visíveis para prosperar. Planta da midiocracia

Yeda foi professora de Economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). A reputação dela como mestra é muito fraca: não tem ou nunca teve nenhum estudo publicado. Foi uma professora apagada. Projetou-se na vida pública porque trabalhou na RBS TV (afiliada da TV Globo no Sul). No tempo da inflação, explicava aos telespectadores porque o preço dos legumes subia diariamente. Ficou conhecida e depois se elegeu deputada federal, mesmo sem nunca ter qualquer experiência ou militância política. É uma planta de estufa da midiocracia sulina. Durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello, aquele que renunciou para não sofrer impeachment por corrupção e irregularidades variadas, Yeda chegou a ser ministra durante 72 dias. Mas no Brasil ninguém se lembra disso, porque nem foi notada. Durante o de FHC (Fernando Henrique Cardoso), seu companheiro de partido, continuou apagada; e assim também no governo Lula, mesmo quando, na tribuna da Câmara, pediu o impeachment do presidente, por motivos que ela sequer conseguiu sustentar no próprio discurso. Depois de ser eleita governadora, Yeda foi correndo comprar uma casa nova; ale-

gou à época que uma governadora não podia morar em um “local sem apresentação”. Muitos perguntaram: mas como deputada ela morava antes em que local? Em uma cabeça-de-porco? Yeda comprou uma casa em um bairro chique de Porto Alegre. O local, de fato, tem boa apresentação. Mas ela, até hoje, depois de quase 34 meses de administração pública, ainda não apresentou as condições do negócio que realizou. Ninguém sabe quanto custou a sua atual casa; quem a pagou; e como foram esses pagamentos. Antes de assumir, Yeda quis promover um aumento geral de impostos, contrariando o que havia prometido na campanha eleitoral. Foi derrotada pelos deputados na Assembleia. No dia da posse, apareceu no balcão do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, com a bandeira do Estado virada. Mau presságio. A partir daí, tudo virou de pontacabeça no RS e sobretudo no seu governo. Nada mais deu certo. Yeda foi a um programa de entrevistas em São Paulo e afirmou alguns absurdos sobre a cultura e os costumes do RS. Chegou a dizer que a pantalha faz parte da indumentária dos sul-rio-grandenses, quando se sabe que a pantalha é um abajur. Apenas e tão somente um quebra-luz doméstico. Trocar o sentido de palavras e o seu uso adequado tem sido uma constante nas falas de Yeda Crusius. Uma vez, disse que a Barra de Rio Grande precisava ser assoreada, segundo ela, para melhor trânsito das embarcações que lá aportam. Às continuadas crises que abalam semanalmente o seu governo, Yeda deu o criativo eufemismo de “bebê japonês

que colocaram no meu colo”. Yeda aspira ser bem-dotada culturalmente, mesmo quando afirma que adora filmes bregas de terror, lê os piores best-sellers indicados pela revista Veja e, sobretudo, quando escreve cartas lamuriosas a um jornalista de Zero Hora. O governo de Yeda abriga as piores práticas públicas. Quem afirmou isso foi um dos seus secretários de Estado, Cézar Busatto, em diálogo com o vice-governador Paulo Feijó. Na ocasião, senhor Busatto foi “saído” do governo. O resto do secretariado permaneceu como estava. Ou seja: exercitando as piores práticas públicas. A governadora Yeda Crusius

Crimes

No governo de 2007 foi iniciada a Operação Rodin – que reuniu agentes da Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público Federal –, que apurou crimes de formação de quadrilha, fraude em licitações, tráfico de influências, sonegação fiscal, estelionato, peculato e corrupção ativa e passiva. A autoria desses crimes foi atribuída a agentes públicos do governo de Yeda, líderes partidários da aliança eleitoral que a apoiou e a militantes das legendas que a sustentam politicamente. Ao todo, mais de 40 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal (PF) e hoje são réus, junto com Yeda, da Justiça Federal de Santa Maria, por responsabilidade no desvio de recursos públicos do Detran do RS. Desvios estes estimados em mais de R$ 44 milhões. Pode-se afirmar que o governo Yeda é um consórcio lúmpen formado e montado para predar e depredar o Estado do RS. A administração hoje está paralisada: a educação está sendo desmontada, a saúde pública é vegetativa,

vivendo de repasses em programas federais. A segurança é igualmente sucateada, desprestigiada e seus agentes seguem sem meios de trabalhar. A política ambiental é ditada pelos interesses dos investidores em papel e celulose. O Estado simplesmente homologa a melhor decisão ao setor privado. A essa renúncia do poder público em governar e manter investimentos nas áreas sociais, a governadora dá o nome de deficit zero. Paralisia no Estado tem um nome: deficit zero, para Yeda. Disto, o governo tucano tem feito cavalo de batalha. Se vangloria de feitos e omissões que, em outra parte, se chamaria de irresponsabilidade social, inaptidão gerencial e incapacidade política. Yeda representa a parte visível do que há de pior no Estado do RS. Ela mobiliza e consegue chamar a atenção para um lado perverso da sociedade sulina: um subterrâneo lúmpen, marginal mesmo, e uma camada da classe dominante que está no poder atra-

vés da liderança de Yeda Crusius. A crise na produção e na repartição dos ganhos do capital, agravada pela falência dos valores morais gerados na revolução burguesa regional (1893-1930), bem como a predominância econômica e a consequente hegemonia político-cultural do setor primário atrasado, associado e dependente, tem propiciado uma dominação eleitoral da fração mais conservadora do RS. Com um pequeno interregno situado no quadriênio de Olívio Dutra, de 1999 a 2002. O que está acontecendo no Estado não é por acaso ou por má vontade dos deuses com o Rio Grande do Sul. Há sim um caldo de cultura que faz crescer e prosperar as ervas daninhas, os animais predadores e a criminalidade da expressão deformada das relações políticas no Estado mais meridional da República. Cristóvão Feil é sociólogo e editor do blog Diário Gauche (www.diariogauche. blogspot.com).


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brasil Leandro Uchoas

Merecida homenagem a Leandro Konder LITERATURA Relançamento de quatro livros do pensador marxista, no Rio de Janeiro, marcam os dez anos da Expressão Popular Leandro Uchoas do Rio de Janeiro (RJ) A HOMENAGEM não poderia ter sido melhor escolhida. Na noite do dia 8, a editora Expressão Popular celebrou seus dez primeiros anos com o relançamento de livros do escritor e filósofo Leandro Konder. Com a presença de alguns dos maiores intelectuais marxistas do Brasil, a homenagem se transformou em festa. Entre lembranças de histórias ora engraçadas ora nobres, Carlos Nelson Coutinho, Mauro Iasi e José Paulo Netto reverenciaram o amigo e mestre que não abandonou seus ideais mesmo em “um dos piores momentos da história para os socialistas”, segundo definiu o próprio Leandro. Uma inusitada apresentação teatral, nascida em meio à própria audiência, abrilhantou a ode às contribuições literárias do escritor. Leandro doou à editora os direitos de cada obra relançada – A Derrota da Dialética, O Marxismo na Batalha das Ideias, Introdução ao Fascismo, Marxismo e Alienação e A História das Ideias Socialistas no Brasil. Do título de

um dos mais importantes livros do filósofo, a Expressão Popular tirou o lema da comemoração de sua primeira década: “10 anos na batalha das ideias”. A noite chuvosa no Rio de Janeiro não impediu que um número significativo de admiradores prestigiasse a homenagem. Na plateia, misturavam-se estudantes e militantes a intelectuais como Virgínia Fontes, Leo Lince e Milton Temer. “O que mais me impressionou, ao longo da vida, foi a maneira como Leandro sempre combinou coerência com autonomia intelectual”, resumiu o cientista político Carlos Nelson Coutinho. “A coerência sem autonomia intelectual pode degenerar em dogmatismo. Por isso a importância de combinar as duas coisas. Leandro tem um espírito autocrítico muito forte”, complementou. Amigo muito íntimo do escritor homenageado, Carlos Nelson lembrou da passagem de ambos por três partidos políticos (PCB, PT e PSOL), ou “três longos casamentos”, segundo sua definição. A troca de “casamento” só teria se dado em fidelidade aos ideais marxistas. Entre uma e outra lembrança afetiva de momentos importan-

Expressão Popular, 10 anos na trincheira Durante sua intervenção na celebração dos dez anos da Expressão Popular, Mauro Iasi ressaltou a importância da manutenção de ideias como as de Leandro para a criação de um mundo onde “o valor de uso derrote o valor de troca”. Para isso, seria preciso, aos poucos, desmercantilizar tudo o que foi sendo transformado em mercadoria: a educação, a saúde, a terra, a água e, sobretudo, os livros. Nesse contexto, a Expressão Popular assumiria uma importância ímpar no cenário literário contemporâneo do país. Segundo o dirigente do PCB, a editora foi uma das poucas a manter o foco na disponibilização de obras com qualidade e a preços populares. “Temas como agroecologia e geopolítica só são devidamente contemplados por ela. Fazem com que ela cumpra um papel maior do que uma simples editora que favorece a circulação de livros. Ela passa a ser uma trincheira das mais essenciais naquilo que se chamou de batalha das ideias”, apontou. O nascimento da Expressão Popular em 1999 ajudou a preencher uma das lacunas da produção e distribuição de livros no país. A editora é uma das poucas propensas a publicar obras de qualidade intelectual e gráfica a preços módicos, de forma a estimular o enrijecimento teórico da militância social. Ela integra mais de 300 colaboradores em todo o território nacional, responsáveis por trabalhos que vão da simples indicação de textos à tradução de clássicos. A distribuição é realizada através de uma rede alternativa com mais de 200 colaboradores, a maioria militante. Poucas editoras no país, hoje, contribuem tanto para o enfrentamento ideológico e a divulgação de ideias de real transformação social. (LU)

Estudantes, militantes e intelectuais se encontraram para homenagear Leandro Konder no Rio de Janeiro

“Nós somos vistos pela burguesia, e de certa maneira pela sociedade, como ‘louquinhos’, gente de boa intenção, mas antiga”, afirmou Leandro tes vividos em parceria, Carlos Nelson descreveu a relevância do intelectual para a reflexão marxista brasileira. O livro Marxismo e Alienação teria sido essencial para o entendimento do momento vivido pelo país nos anos 60, após o golpe civil-militar de 1964. O argumento foi sublinhado pelo colega de ambos, o intelectual José Paulo Netto. “Só os mais velhos têm ideia do significado de Marxismo e Alienação. Esse livro foi uma lufada de ar fresco para os combatentes derrotados em 1964 e para uma ampla gama de jovens que estava rompendo para a vida. Corajoso e avançado, mudou qualitativamente a forma de se

divulgar o marxismo no Brasil”, afirmou. Zé Paulo ressaltou a relevância da publicação dos quatro títulos, que, a partir de naturezas distintas e escritos em momentos históricos diferentes, dão a dimensão real do pensamento de Leandro. O intelectual lembrou que, antes das publicações, os marxistas estavam mais dedicados a produzir para o grande público, socializar conceitos, o que frequentemente contribuía para a vulgarização das ideias originais. Por conta disso, Zé Pauloconsidera Leandro o criador da publicística filosófica marxista no Brasil. “Se o pedagogo não é aquele que doutrina, nem aquele que

ensina, mas aquele que contribui para que o educando caminhe por suas próprias pernas, ninguém fez mais pelo marxismo no Brasil do que Leandro Konder”, resumiu Zé Paulo. Antes que o homenageado falasse, para surpresa de todos, uma bela homenagem surgiu de dentro da própria plateia. Recitando trechos importantes das obras relançadas, homens e mulheres se levantam das cadeiras um após o outro. “E, como diz um grande mestre que não apenas se propôs a interpretar o mundo, mas dedicou a sua vida a transformá-lo, quanto mais contraditório se apresente o processo histórico, quanto mais complexas estejam as tarefas da transformação consciente da sociedade, tanto mais necessária se torna essa chama de rebeldia”, disse Isis Campos, a última a pronunciar os trechos, sob aplausos emocionados. Foi nesse clima que Leandro, com um senso

de humor admirável para alguém com sérios problemas de saúde, tomou a palavra. “Pintou um clima muito interessante aqui hoje. Em determinado momento cheguei a imaginar que não se falava de mim”, ironizou. O escritor começou frisando justamente o caráter imprescindível do senso de humor como estratégia de superação do doutrinalismo, da rigidez excessiva das ideias. Ressaltou a crise grave pela qual passa o socialismo, de pouca aceitação social e muita satanização por parte das classes dominantes. “A burguesia brasileira criou um clima em que nós somos vistos como um bando pitoresco. Nós somos vistos pela burguesia, e de certa maneira pela sociedade, como ‘louquinhos’, gente de boa intenção, mas antiga”, afirmou. Aclamado por uma plateia participativa, ressaltou a necessidade de se levar aquele clima de esperança do auditório a outros espaços.

“Teoria tem que ter um vínculo, mas não escravizado pela prática” Em bate-papo informal, pílulas de sabedoria de um mestre do pensamento de esquerda

famosa amizade entre os dois intelectuais. Como resultado, um vídeo está sendo produzido pela editora. A seguir, alguns dos momentos mais lúcidos e esclarecedores das intervenções do filósofo:

do Rio de Janeiro (RJ) Durante as preparações para o lançamento das obras de Leandro Konder, a Expressão Popular esteve em sua casa, na companhia de Carlos Nelson Coutinho e da equipe do Brasil de Fato. Foram quatro horas de uma conversa animada, na qual se debateu da conjuntura atual à longa e

“A gente pensa na possibilidade de associar cada vez mais o aprofundamento teórico com o aprofundamento da ação, prático. Não pode se reduzir às urgências da prática política, mas também não pode se desligar dela. Teoria tem que ter um vínculo, e um vínculo que não a escravize, mas que tenha ligação com essa prática. Acho que a gente tem que pensar então em uma teoria, como é o marxismo: de desvendamento, desmascaramento das contradições camufladas. Você tem Raquel Torres

Leandro Konder: “o inimigo não dorme”

que trabalhar reconstituindo criticamente as contradições e estabelecendo conexões”.

tar esses problemas variados, sofreremos uma derrota política. O inimigo não dorme”.

* “Temos que dar um passo adiante na nossa relação tensa com linhas de pensamento de filósofos que investem contra a parte mais forte da nossa concepção, que é a razão. Temos hoje um tipo de irracionalismo que é diferente. E hoje a gente tem que ter algumas respostas para questões concretas colocadas por essa gente. Essas pessoas estão empenhadas, não por safadeza, mas por paixão ideológica, em afastar nossas ideias. Em afastar Marx, Lukács, Gramsci. E aí nós temos esse instrumental, ao qual nos convertermos, e nem sempre conseguimos extrair dele aquilo que era necessário. Temos que retomar o estudo, mas também ligar isso de alguma forma a uma atividade prática que facilite a compreensão da teoria dos dois. Ao mesmo tempo, não podemos entender o mundo hoje exclusivamente a partir de Lukács ou Gramsci. Só com eles não resolvemos o problema”.

* “Os conceitos se renovam e trazem muita vitalidade para nossa discussão. Agora, a maneira pela qual eles se renovam depende de um processo prático de transformação. Eu acho que a luta de classes existe, mas existe de uma maneira diferente de anteriormente. Marx tinha em volta dele uma sociedade que não tinha partidos capazes de mobilização maior. É aquilo que Gramsci dizia, da política menor e maior. A política maior não trabalha com centenas de milhares de eleitores. Trabalha com milhões. Mudou. Então a gente tem que mudar para preservar, transformar para recriar”.

* “Existe uma certa impossibilidade de a gente hoje ficar nesses campos onde o marxismo é comprovadamente muito fecundo, mas insuficiente. A gente tem de certa forma que pensar a partir da interligação de tudo com tudo. No plano da cultura isso é fundamental. Se na nossa política cultural não tivermos disposição para enfren-

* “Nós nos insurgimos contra a situação injusta do mundo. E temos a ideia de que é preciso buscar caminhos alternativos para superar esses aspectos lamentáveis. Essa alternativa não vai brotar por milagre da cabeça de alguém. Tem que ser cultivada coletivamente através da atividade política e do estudo, do exercício e do rigor do pensamento. Só se destrói realmente aquilo que se substitui. E nós queremos substituir o espírito que prevalece atualmente. Seja ele conservador, ou seja rebelde, queremos fazer com que o conjunto das forças comprometidas com os ideais populares, do povo brasileiro, esse conjunto se ponha em movimento”. (LU)


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américa latina

Encontro em Vallegrande reforça a luta internacionalista Vinícius Mansur

BOLÍVIA A região na qual tombou Che Guevara recebe a quinta edição do Encontro Social Alternativo, iniciativa que colocou mais um elo na articulação dos movimentos sociais latino-americanos Vinicius Mansur correspondente em La Paz (Bolívia) “NÃO PERMITIREMOS que nos chamem de estrangeiros quando qualquer um de nós caminhar por qualquer um de nossos países. O primeiro presidente argentino, Cornélio Saavedra, era boliviano. A primeira capitã do exército argentino, Juana Azurduy de Padilla, era boliviana. Quem dirigiu as lutas de independência no oriente boliviano e foi assassinado em Santa Cruz, José Ignácio Warnes, era argentino. O libertador do Uruguai, o mais digno de todos os generais, José Artigas, encontrou refúgio para a dor da traição no Paraguai. O fundador da Bolívia era venezuelano. A libertação do Chile e do Peru teve dois pilares: o chileno O’Higinis e o argentino San Martin. José Marti, o maior dos cubanos, foi cônsul da Argentina nos Estados Unidos. E o guerrilheiro heroico, o Comandante, era argentino, fez a Revolução Cubana e deixou seus ossos aqui mesmo, onde agora nos olhamos cara a cara”. Essas palavras, presentes na declaração final do 5o Encontro Social Alternativo (ESA), refletem bem o espírito do evento que aconteceu em Vallegrande (Bolívia), entre os dias 6 e 8. Carregado de simbolismo, o evento reuniu cerca de 2 mil pessoas representando movimentos e organizações sociais de, pelo menos, dez países latinoamericanos, sendo encerrado no dia do 42º aniversário da captura de Che Guevara. A

poucos quilômetros dos espaços do encontro estava a Quebrada del Churo, local onde o revolucionário foi capturado; a escola de La Higuera, onde foi assassinado; a lavanderia de Vallegrande, onde seu cadáver foi exposto; e a cova na qual foi enterrado anonimamente, ao lado de outros sete guerrilheiros. Nas palavras do embaixador cubano na Bolívia, Rafael Dausá, “tentaram enterrá-lo da história, mas acabaram plantando a semente de seu exemplo”. Diferente das quatro edições anteriores que estavam voltadas para a agenda boliviana, o quinto ESA foi um chamado aos movimentos sociais do continente diante da necessidade de estabelecer uma agenda e uma pauta política comum entre as organizações populares antiimperialistas da região. Construção da luta Com o intuito de integrar as lutas do continente, a principal pauta política girou em torno da defesa da democracia em Honduras. A representante hondurenha Berta Cáceres, integrante do Conselho de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), agradeceu os gestos de solidariedade militante e afirmou que seu povo “está disposto a lutar pela volta do presidente legítimo, Manuel Zelaya, ao governo, mas, sobretudo, a não cruzar os braços até conseguir a convocatória de uma Assembleia Constituinte que inclua todos e todas”. As resoluções do encontro apontam para a organização de uma mobilização única

Participantes do 5o ESA se encontram em área ao lado de mausoléu onde estão os corpos dos guerrilheiros que lutaram com Che no país

das organizações populares latino-americanas em frente às embaixadas dos Estados Unidos na região, com data a ser definida, e também defende a realização de atos públicos, no sétimo dia após a possível restituição de Zelaya, em nome da libertação dos militantes presos no país e da condenação dos golpistas. Reivindicando uma real integração, a cubana-boliviana Guadalupe Perez, integrante do Comitê Organizador do 5o ESA, destacou a exigência feita pelo encontro para a criação de órgãos de governo voltados para os problemas sociais dos imigrantes em todos os países e a articulação dos diversos meios de comunicação populares.

Mídia alternativa Segundo a coordenadora da mesa de Comunicação, a boliviana Mirian Suarez, as resoluções finais apontam como princípio fundamental dos comunicadores “o trabalho para estabelecer a democracia e os direitos humanos no continente, fazendo dos meios de comunicação um espelho onde o povo se vê com sua vivência, suas experiências, seus saberes, suas identidades, reconhecendo os graves problemas de sua realidade, ponto de partida para transformá-los”. A mesa de comunicação definiu os primeiros passos para a articulação dos meios de informação alternativos dos diversos países e pleiteou um próximo encontro

para aprimorar a metodologia de trabalho dessa rede. Em homenagem aos veículos que surgiram em Honduras após o fechamento da Rádio Globo e do Canal 36, o dia 27 de setembro foi declarado pelo encontro como “Dia Latino-americano e Caribenho da Comunicação Alternativa e Popular”. Campo De acordo com o coordenador da mesa de Soberania Alimentar, Gerardo Burgos, o principal eixo de luta definido foi o combate à produção de agrocombustíveis e organismos geneticamente modificados. “Em países como Argentina e Brasil essas práticas já estão muito avançadas, provocando desmata-

mento, monocultivo, aumento dos agrotóxicos e afetando a alimentação dos povos. Em países onde isso está ingressando, como Bolívia, precisamos impedir o seu fortalecimento”, disse. Ao final do encontro, a cubana-boliviana Guadalupe saldou a presença da militância de diversos países, mas avaliou criticamente a participação boliviana: “Entendo que estamos em pleno processo eleitoral e as organizações nacionais têm um papel protagonista. Porém, elas não são feitas só de líderes, ao contrário, são nutridas de uma grande base social que pode representálas. É preciso explicar melhor porque não vieram com mais peso”.

Um encontro sintonizado à agenda política boliviana Fórum acompanhou processo de transformações pelo qual passa o país desde 2003 de La Paz (Bolívia) A história dos Encontros Sociais Alternativos na Bolívia surge inspirada nas edições do Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Após a realização da segunda edição do Fórum, em 2002, parte da delegação boliviana volta da capital gaúcha convicta da necessidade de realização de um encontro semelhante em seu país. A proposta, amadurecida dentro da versão boliviana do Comitê de Luta contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), ganha vida em 2003 e, de lá para cá, acompanha e intervém na agenda política da Bolívia. O primeiro Encontro Social Alternativo aconteceu em paralelo à 13ª Cúpula de Presidentes Iberoamericanos, na cidade de Santa Cruz, em novembro de 2003. O fórum, realizado menos de um mês após a deposição, via revolta popular, do então presidente Gonzalo Sanchez de Losada, teve mais de 40 mesas de trabalho, mas as mais importantes foram os temas de hidrocarbonetos e a luta contra a Alca. “O interessante foi que o no-

Vinícius Mansur

vo presidente (Carlos Mesa) foi ao encontro no último dia. Até aí não sabíamos o que viria a ser esse presidente, mas no encontro ele foi intimado publicamente a dizer o que pensava da Alca. Em sua resposta, ele fugiu do tema. Foi intimado outra vez e, de novo, não respondeu. Aí ele teve que sair praticamente fugido do local”, comenta o membro do comitê organizador, Alejandro Martin. Incorporadas Em setembro de 2005 foi realizada a segunda versão do encontro, dessa vez em Camiri, cidade ao sul do departamento de Santa Cruz, considerada a capital do petróleo e do gás natural boliviano. Nesse momento, o movimento popular, além de rechaçar a Alca, também empunhava as bandeiras da nacionalização dos hidrocarbonetos e da convocação de uma Assembleia Constituinte. Cerca de dois meses depois, o então sindicalista cocaleiro Evo Morales ganha as eleições. “Isso surpreendeu a todos, nem nós esperávamos. A partir daí a Assembleia foi convocada, as resoluções desse encontro entraram no debate da Constituinte e muitas delas estão hoje na nova Constituição. Hoje temos os hidrocarbonetos nacionalizados e o processo de autonomias está sendo levado a cabo, mas não é mais dirigido pela elite de Santa Cruz”, destacou Martin. Ataques da direita De acordo com o organizador das cinco edições do En-

Presença de Evo Morales

Evo discursa: “mudança na Bolívia é homenagem a Che Guevara”

contro Social Alternativo, o terceiro evento, em julho de 2007, aconteceu no momento mais forte da direita no país desde 2000. À época, circulavam “listas de traidores de Santa Cruz”, na qual estavam os nomes de pessoas que, supostamente, apoiavam o processo. De acordo com Martin, bastava ser ligeiramente de esquerda para se enquadrar na lista. “Havia uma campanha para boicotar os negócios e atividades de quem estivesse na lista, o que chegou a levar algumas pequenas empresas à falência. O autoritarismo era tão grande que decidimos fazer o

encontro na cidade de Santa Cruz outra vez e, agora, no meio da praça, só para dizer: vocês são uns fachos de merda e nós apoiamos sim o processo de mudanças”, lembrou Martin. Integração No quarto encontro, em março de 2008, também realizado na cidade de Santa Cruz, a prioridade era discutir o estatuto autonômico proposto pela oligarquia boliviana e organizar a luta pela retomada da bandeira da autonomia pelos movimentos populares. Com o processo de mudanças mais estabilizado, a tam-

bém organizadora do encontro, Guadalupe Perez, da organização feminista Coletivo Rebeldia, aponta que o quinto encontro, em Vallegrande, foi pensado para compartilhar a experiência boliviana e avançar na integração dos movimentos sociais do continente. “Pelo menos dez países estiveram representados aqui, nessa região que é o símbolo mais perfeito do internacionalismo e da entrega por uma causa. Uma vez que o processo boliviano virou referência, optamos por uma convocatória latino-americana”, concluiu. (VM)

Na tarde do dia 8 de outubro, ao lado do mausoléu de Che Guevara e de seus guerrilheiros, o encontro foi encerrado com a leitura da Declaração de Vallegrande e a entrega desse documento ao presidente Evo Morales. Após ser saudado pela representação palestina por “ter tido coragem de ser o primeiro presidente a romper relações com o governo genocida de Israel”, Morales deu início ao discurso no qual afirmou que “a mudança na Bolívia é uma homenagem a Che Guevara” e que o processo político latino-americano atual certamente o alegraria. O presidente chamou a unidade de todos contra “o grande inimigo da humanidade que se chama capitalismo” e alertou para a urgência de nos solidarizarmos e apoiarmos a luta do povo hondurenho. (VM)


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américa latina

Veja e Folha defendem a ditadura NewsHour/CC

ANÁLISE Meios de comunicação da elite brasileira mostram sua vocação golpista na cobertura da volta de Zelaya a Honduras Altamiro Borges NA MESMA EDIÇÃO (de 30 de setembro) em que reafirmou a sua simpatia pelos golpistas hondurenhos e que criticou o “imperialismo megalonanico” da diplomacia brasileira por garantir refúgio ao presidente deposto Manuel Zelaya, a revista Veja desferiu um ataque primitivo contra vários partidos de esquerda do Brasil. A exemplo do fascista Roberto Micheletti, que disse em entrevista recente que o golpe em Honduras foi dado “porque Zelaya colocou comunistas no seu governo”, a famíglia Civita, dona deste panfleto rastaquera, também parece que perde o sono com medo do “fantasma comunista”. “O socialismo não morreu (para eles)”. Com este título jocoso, a revista retomou um dos bordões que inaugurou a onda neoliberal no final dos anos 1980. Na época, Francis Fukuyama, consultor do governo dos EUA, decretou o “fim da história”, argumentando que o socialismo estava morto e que não haveria mais alternativas à democracia burguesa e ao livre mercado. Mas essa bravata não durou muito tempo. O neoliberalismo aguçou as contradições do capitalismo, resultando na queda de Wall Street (o muro dos rentistas) e numa das piores crises desse sistema. Apesar disso, a Veja insiste na sua cegueira ideológica, talvez apavorada com o avanço das ideias marxistas. Um patético tucaninho O texto reflete esse temor inclusive nas suas ironias tro-

Hondurenhos protestam: mídia corporativa brasileira é simpática aos golpistas

gloditas. “Um fantasma ronda a América Latina: o fantasma do comunismo. Pelo menos é o que acreditam os militantes de um punhado de partidos nanicos de esquerda que ainda sobrevivem na política brasileira. Para esse pessoal, não há nada mais importante do que impedir que as ideias de Karl Marx sejam devoradas pelo fungo e pelo bolor. Os esquerdistas radicais formam um grupo tão curioso quanto inofensivo”, dispara. O próprio uso de duas páginas da revista, que renderiam uns R$ 420 mil em publicidade, evidencia que a família Civita teme a crescente influência do marxismo na América Latina. Para confundir seus leitores mais tacanhos, a matéria mistura partidos de diferentes concepções, como PCdoB, Psol, PSTU, PCO e PCB. Para todos, ela abusa nos adjetivos hidrófobos e pinça frases fora do contexto. Afirma que o Psol

é “um balaio de gatos”, que o PCB é comandado por Ivan Pinheiro, “o terrível”; e que o PSTU prevê que “[a revolução] está chegando e nós estamos preparados”. Quanto ao PCdoB, ela tenta ridicularizar um sensato pensamento do seu presidente, Renato Rabelo. “Quando a União Soviética desabou, houve quem achasse que o socialismo tinha morrido. Que nada. Só alguém sem visão histórica pode pensar assim… O capitalismo levou 300 anos para superar o feudalismo. O marxismo tem pouco mais de 100 anos de existência”. A “reporcagem” da Veja não apresenta qualquer informação jornalística. É pura ideologização de direita. O seu objetivo é desqualificar as esquerdas. “As ideias disparatadas desses partidecos dão certo colorido à democracia brasileira, nada mais. Ao sonharem com o pesadelo da restauração socialista, seus militantes conseguem

apenas criar para si próprios uma imagem folclórica… O socialismo não voltará à vida. Está morto e enterrado”, decreta o repórter Fabio Portela, o mesmo que, numa edição de agosto, bajulou o governador tucano Aécio Neves. Este patético e folclórico “jornalista”, seguidor de Diogo Mainardi, deve realmente temer o avanço das ideias socialistas! A Folha e a “ditabranda” A família Frias, que comanda com mão de ferro o jornal Folha de S.Paulo, sempre desprezou a democracia. As campanhas publicitárias do periódico, que exaltam o pluralismo e a diversidade, têm objetivo puramente mercadológico. Elas visam seduzir os ingênuos e estancar sua queda de tiragem. No editorial intitulado “Um passo atrás” (de 29 de setembro), a Folha deixou novamente cair a sua máscara, dando novo tiro no pé – o que pode

SIP reúne os golpistas de Honduras Entidade historicamente ligada aos interesses estadunidenses condena censura, mas seus membros apoiam golpe de Buenos Aires (Argentina) A Sociedad Interamericana de Prensa (SIP), que reúne a máfia da mídia no continente, publicou, no dia 28 de setembro, nota de repúdio à censura imposta pelo governo golpista de Honduras. Entrevistado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, do sítio Conversa Afiada, Enrique Calderón, presidente da entidade, argumentou que, ao fechar a Rádio Globo de Tegucigalpa e a emissora de TV 36, “o governo cruza uma fronteira perigosa”. A nota da SIP e as declarações de Calderón são positivas, já que ajudam a isolar internacionalmente os “gorilas” de Micheletti, mas causam justa surpresa. Afinal, essa entidade empresarial, historicamente manietada pela CIA, sempre apoiou os golpes na América Latina e, na fase recente, faz de tudo para demonizar os governos progres-

sistas da região. Seus alvos principais são os presidentes da Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina. No início deste ano, ela inclusive incluiu o presidente Lula no “eixo do mal” dos que atentam contra a chamada “liberdade de imprensa”. Mas Enrique Calderón, dono do diário colombiano El Tiempo, nunca criticou os assassinatos de jornalistas perpetrados pelo narcotraficante Álvaro Uribe, seu aliado. Acionistas do golpe

Como denuncia o jornalista argentino Jean-Guy

Allard, a SIP deveria ser mais consequente nas críticas aos ditadores de Honduras. De imediato, ela precisaria criticar seus associados no país, que apoiam os golpistas. “Ela evita recordar que dois dos principias conspiradores da quartelada que levou à expulsão do presidente Manuel Zelaya são também seus principais membros hondurenhos… A SIP atua como se ignorasse por completo que seus sócios pariram o regime de Micheletti”, nota Allard. Carlos Flores Facussé, ex-presidente de Honduras

(1998-2002) e dono do jornal La Tribuna, e Jorge Larach, o multimilionário chefão dos diários La Prensa e El Heraldo, foram os pivôs do golpe militar de junho. As principais redes de televisão e rádio também sustentam esse regime golpista e tirânico. “Em Honduras, os circuitos de televisão, rádio, TV a cabo e internet estão inteiramente nas mãos de poucos indivíduos – Rafael Ferrari, Miguel Andonie Fernández, Rodolfo Navas –, todos entre os primeiros acionistas do golpe de Micheletti”, afirma Allard. (AB) NewsHour/CC

Policiais e militares em ação realizada em Tegucigalpa, capital do país

lhe custar mais cancelamentos de assinaturas, como quando rotulou de “ditabranda” a cruel ditadura que torturou e matou muitos brasileiros. No mesmo dia em que rádios e TVs eram fechados pela ditadura de Honduras, a Folha procurou abrandar o papel dos golpistas. “O regime chefiado por Roberto Micheletti ocupa categoria bem mais tênue de ilegalidade democrática. Violou a Constituição ao expulsar do país um presidente eleito, quando a ordem da Corte Suprema era de prender Zelaya por afronta a essa mesma Carta. O governo interino, contudo, respeitou a linha sucessória constitucional, assegurou o poder em mãos civis e manteve o calendário das eleições presidenciais”, afirmou o monstruoso editorial. Ataques à diplomacia Na linha da “ditabranda”, a família Frias se esforçou pa-

ra relativizar o golpe militar nessa sofrida nação latinoamericana, que até hoje serve de base militar dos EUA e é saqueada por meia dúzia de ricaços. A derrubada violenta de um presidente eleito pela maioria do povo é considerada uma “tênue ilegalidade democrática”. A decisão da Corte Suprema, cujos juízes nunca foram eleitos e representam as elites do país, é elogiada. E a convocação de novas eleições, num país sob estado de sítio – com prisões, censura e toque de recolher – é tratada com “respeito à linha sucessória”. Além de explicitar a sua simpatia pelos golpistas, a Folha usou o editorial para criticar a política externa do governo Lula, alvo de recorrentes e raivosos ataques. “O Brasil se intromete mais do que deve em Honduras e toma atitude estranha de negar-se ao diálogo com o governo de fato”, afirmou. Para o jornal, que mais se parece um escritório de interesses dos EUA, a diplomacia brasileira seria intransigente, o que “não contribui para a dissolução do impasse e cai como luva para o objetivo do chavismo”. O regime golpista é tratado de “interino”, de “governo de fato”; já a diplomacia brasileira e o fantasma do chavismo são os obstáculos à saída do impasse. O editorial da Folha não causa surpresa, a não ser para os que ainda acreditam no falso ecletismo do jornal e esquecem o passado da família Frias. Ambiciosa e direitista, ela ajudou a orquestrar o golpe militar de 1964; na sequência, deu total apoio à ditadura, inclusive cedendo as peruas de transporte de jornais para conduzir presos políticos aos campos de tortura; pela íntima ligação com os torturadores, a Folha da Tarde ficou conhecida como o jornal de maior “tiragem” do país – não pelo número de exemplares, mas pelo contingente de tiras (policiais) na redação. Não é de se estranhar, portanto, que trate as ditaduras do Brasil e de Honduras de “ditabrandas”.

Sem expectativas de diálogo Juan Barahona, representante zelayista na mesa de diálogo, não acredita que um acordo possa ser alcançado nos próximos dias de Buenos Aires (Argentina) “Nas negociações, não se vê nenhuma posição política por parte dos golpistas que permita chegar a um acordo. Não acreditamos que daí sairá algum acordo, não é a vontade e o interesse deles”, afirmou Juan Barahona, presidente da Federação Unitária de Trabalhadores de Honduras (FUTH) e coordenador do Bloco Popular, horas antes do reinício das negociações em Tegucigalpa. As delegações retomaram no dia 13 o diálogo iniciado com o apoio de uma missão de chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA), o que evidencia a desconfiança e a falta de expectativas por parte das autoridades constitucionais. Para o líder zelayista, “o apoio, a pressão da comunidade internacional, da OEA, é fundamental neste momento em que está o diálogo. Porque, se fracassa, terá fra-

cassado a ideia da restituição; por isso, a pressão dos países e dos povos é fundamental”, enfatizou. Barahona contou que a ordem do presidente golpista Roberto Micheletti é suspender o diálogo no dia 15, “com ou sem acordo”. Diante das poucas expectativas, Barahona afirmou que “a resistência continuará com a luta nas ruas para retirar os golpistas, e o que vai acontecer é a agudização da crise política”. No dia 13, a chanceler do governo deposto, Patricia Rodas, instigou os Estados Unidos a aplicar sanções econômicas ao país caso até dia 15 as negociações não avancem. “A comunidade regional e internacional deverá exigir e revisar a necessidade de sanções mais profundas”, disse Rodas durante coletiva de imprensa na sede das Nações Unidas em Nova York. O eixo das conversas tem sido o Acordo de San José, proposto pelo mediador e presidente de Costa Rica, Oscar Arias, que estabelece o retorno condicionado de Zelaya, cujo mandato constitucional deverá ser concluído no dia 27 de janeiro de 2010. Barahona reiterou que, se até o dia 23 uma proposta que inclua a restituição de Zelaya não for acordada, a Frente de Resistência “chamará o povo à desobediência civil e a ignorar absolutamente todo o processo eleitoral”, previsto para 29 de novembro. (do Página 12)


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cultura

Exposição mostra o lado B das cidades EXPOSIÇÃO Exclusão social, transgressão, imigração e inventividade para sobreviver são os temas principais que perpassam projetos da mostra Post-it City Cidades Ocasionais

La Salada, Argentina Maior feira informal da América Latina, a La Salada ocorre no município de Lomas de Zamora, grande Buenos Aires. Os feirantes – imigrantes bolivianos, peruanos, paraguaios e argentinos do interior – comercializam roupas “truchas”, ou seja, imitações de grandes marcas.

Dafne Melo da Reportagem EM 1991, IMIGRANTES bolivianos na Argentina começaram a armar barraquinhas às margens do rio Riachuelo, no bairro de Ingeniero Budge, em Lomas de Zamora, cidade da província de Buenos Aires, ao sul da capital. Dezoito anos depois, o local cede espaço, todas quartas e domingos, para a maior feira informal da América Latina, a La Salada. Os números da feira impressionam. Por semana, movimenta 9 milhões de dólares e recebe cerca de 100 mil pessoas. Emprega 6 mil trabalhadores, entre argentinos, bolivianos, paraguaios e peruanos que tiram, em média, 500 pesos (R$ 226) por dia de feira. São cerca de 15 mil postos de venda, 90% deles com produtos têxteis que falsificam marcas famosas e que juntos ocupam uma área equivalente a 20 estádios do Maracanã. Por 30 pesos, é possível sair da feira com um tênis Nike no pé, por exemplo. O caso de “La Salada” é um dos 70 abordados na exposição Post-it City Cidades Ocasionais, em cartaz em São Paulo (SP) até final de novembro. Pedro Sales, arquiteto e urbanista, curador da mostra no Brasil, explica que o projeto nasceu há alguns anos em Barcelona, organizado por Martin Peran, professor e crítico de arte da Universidade de Barcelona, com objetivo de capturar experiências “post-it” pela cidade catalã. O projeto cresceu e desenvolveu uma re-

Diablos rojos, Panamá Diante da falta de transporte público, trabalhadores desempregados da cidade do Panamá apostaram no transporte informal como meio de sobrevivência, aproveitando o vácuo deixado pelo poder público. Os ônibus são conhecidos por suas pinturas chamativas, ao gosto do dono do veículo.

Assentamento de refugiados, Grécia Em Farkadona, Trikala, foram repatriados gregos que haviam sido deslocados para a União Soviética. Sem lugar, montaram campos de refugiados, vivendo até hoje em condições degradantes. Grupos sociais têm procurado desenvolver trabalhos de reabilitação dessas comunidades.

Arquitetura da reciclagem, EUA e México A fronteira entre as cidades de San Diego e Tijuana é a mais concorrida do mundo. Cerca de 60 milhões de pessoas a cruzam todo ano. Um estudo das cidades revela as desigualdades que motivam tantos mexicanos a cruzarem a fronteira. Do lado de San Diego, casas ricas. Em Tijuana, pobreza que se revela nos materiais usados para as construções dos barracos.

Jardins comunitários, EUA No começo dos anos 70, a população do bairro nova-iorquino do East Village começou a montar jardins em locais abandonados. Hoje há cerca de 60 desses espaços, que se converteram em centros que reúnem uma série de atividades da comunidade. Entretanto, estão sob constante ameaça devido à forte especulação imobiliária da cidade.

de entre artistas de diversos países que passaram a documentar – em fotos, textos e vídeos – casos em diversos lugares do mundo, organizados depois em exposição que, além de Barcelona, passou por Santiago do Chile e depois de São Paulo segue para Buenos Aires. O conceito

Pedro Sales explica que o conceito “post-it” remete a experiências urbanas que se dão à margem da lógica dominante, alterando o espaço urbano e público de uma forma que não está prevista pelo sistema – e aí encontra seu potencial crítico – ainda que, em alguns casos, ela possa vir a ser incorporada pelo capitalismo. Outro ponto do conceito é a questão da temporalidade, já que, a princípio, esses casos seriam efêmeros e, após seu fim, não deixariam rastros, assim como um post-it não deixa marcas em um livro. Pedro opina que a questão da temporalidade talvez se encaixe mais nas experiências europeias. Um exemplo são as fotos feitas pela artista Francisca Benítez nos arredores do Garde L’Est, em Paris. Ela flagrou, em 2005, diversas trouxas de roupas de imigrantes afegãos que, sem lugar para deixar seus pertences, os colocavam em cima das árvores, apoiadas entre os galhos, enquanto saíam para o trabalho ou em busca de um. Os projetos realizados sobretudo na América Latina, entretanto, acabaram trazendo um questionamento ao conceito, uma vez que, aqui, o que era para ser temporário torna-se, frequentemente, permanente. Prova disso são as favelas, ocupações e cortiços que, se a rigor deveriam ser uma saída temporária para os sem-teto – até que o poder público se encarregue de viabilizar moradia –, viram habitações permanentes, como no caso dos jovens que vivem embaixo de pontes, à beira do rio Mapocho, em Santiago do Chile.

América Latina

Se o modelo de cidade planejada, com crescimento controlado e uso democrático do espaço público, já é impossível dentro dos moldes de desenvolvimento capitalista, aqui se torna ainda mais utópico. “As cidades são pensadas de maneira que parte das pessoas são excluí-

das e então elas se apropriam de espaços ou numa lógica de sobrevivência ou de transgressão”. Dentro dessa última perspectiva, há o exemplo do documentário São Paulo City Tellers, que aborda, dentre outros temas, a atividade de grafiteiros que arriscam a vida – pela dificuldade dos lugares a serem grafitados e pela perseguição da polícia – para deixar suas marcas no espaço público. No sentido de viabilizar a sobrevivência, há o projeto Street Economy Archive, que documenta o comércio informal em grandes metrópoles, como Cidade do México, São Paulo (SP), Rio de Janeiro (RJ), Veneza, Istambul, Madri e Skopje (Macedônia). Boa parte dos trabalhadores que se dedicam à atividade é de imigrantes, tanto estrangeiros como compatriotas que vão para as capitais em busca de melhores condições de vida. Entretanto, ainda que os casos abordados na exposição surjam sempre à margem do sistema capitalista, muitos são incorporados justamente porque se tornam permanentes, além de trazerem potencial de lucro. Pedro Sales cita a Feira do Pari, em São Paulo, na praça Kantuta, realizada por trabalhadores de origem boliviana – muitos subempregados em indústrias têxteis dos bairros do Bom Retiro e da Luz e frequentemente explorados em regime semiescravo. “Essa feira entrou para o calendário oficial dos eventos turísticos da cidade. Mandaram padronizar as barracas, obedecer regras de higiene e hoje a Western Union – uma empresa que faz remessas de dinheiro pelo mundo – patrocina a feira, e os bolivianos mandam o dinheiro que arrecadam aqui para seus familiares, deixando uma taxa de 5% para a empresa.”

Serviço Post-it City Cidades Ocasionais Onde: Centro Cultural São Paulo - Piso Flávio de Carvalho Rua Vergueiro, 1.000 - Paraíso (próximo ao metrô Vergueiro) Quando: Até 29 de novembro. Terça a sexta, das 10h às 20h Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h Entrada franca. Mais informações: www.centrocultural.sp.gov.br ou (11) 33974002


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