Circulação Nacional
Uma visão popular do Brasil e do mundo
Ano 7 • Número 338
São Paulo, de 20 a 26 de agosto de 2009
R$ 2,50 www.brasildefato.com.br João Zinclar
Cartas-bomba tumultuam a política boliviana Duas bombas explodiram no dia 12, em La Paz, na Bolívia. Uma delas tinha como alvo Fidel Surco, um dos principais dirigentes sociais do país. No entanto, foi sua esposa que sofreu as consequências, ficando em estado grave. O presidente Evo Morales pediu que os movimentos sociais tomem cuidado, mas tenham coragem de enfrentar o que considera uma tentativa de amedrontamento. Pág. 9
No Chile, prefeituras suburbanas e socialistas Administrações de esquerda nas periferias de Santiago desafiam a hegemonia política da aliança que governa o país há duas décadas e que tenta maquiar os problemas sociais do povo. Em entrevista, o professor José Cademartori fala sobre o que acontece no país a partir da derrota da ditadura em 1990 e da crise do neoliberalismo. Págs. 10 e 11
Trabalhadores em marcha: unidade em bandeiras comuns que representam conquista de direitos
Unida, esquerda faz jornada contra crise e se fortalece para novas lutas
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Milhares de pessoas do campo e da cidade participaram, entre os dias 10 e 14, da jornada nacional de lutas convocada pelos movimentos populares, sindicais, estudantis e pastorais sociais. Para os dirigentes, acumular forças para as lutas no segundo semestre e construir a unidade da esquerda foram as principais conquistas. “Foi um momento importante para manter a unidade e
tentar avançar ainda mais em algumas lutas”, avalia Luis Basségio, do Grito dos Excluídos. Para o secretário-geral da CUT, Quintino Severo, a jornada afinou entre os movimentos sociais e centrais sindicais a urgência de algumas pautas, como a redução da jornada de trabalho e a luta para que as riquezas da camada do pré-sal não caiam nas mãos das transnacionais. Págs. 2, 4, 5 e 6 Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Crise no Senado “revela” o clientelismo de José Sarney
Toca Raul! Pág. 7
O senador José Sarney ouve discurso de colega no plenário do Senado Divulgação
Reprodução
Festival suíço dá destaque à imigração Mais uma vez, Locarno sediou um dos festivais de cinema independentes mais renomados. A temática das imigrações ilegais ganhou destaque em filmes como o vencedor Ela, a Chinesa, que mostra a história de uma chinesa que emigra depois de uma vida sem futuro num lugarejo de seu país. Pág. 8 ISSN 1978-5134
A atriz Lotte Verbeek, vencedora do Leopardo de Ouro
A oposição, capitaneada por PSDB e DEM, parece ter descobrido agora quais são as práticas do presidente do Senado, José Sarney (PMDB). Com uma vida pública de 55 anos, o ex-presidente da República está sendo acusado de nepotismo e clientelismo, métodos que marcaram toda sua carreira política. A atual crise suscitou o debate sobre a reformulação do legislativo brasileiro, com a adoção do unicameralismo. Pág. 3
Em Honduras, golpistas fecham o cerco contra camponeses O governo golpista de Honduras segue investindo pesado na repressão. Na comunidade de Guadalupe Carney, militares cercam diariamente os camponeses em busca de supostos colaboracionistas venezuelanos. Os trabalhadores rurais da região foram beneficiados por uma desapropriação feita por Manuel Zelaya e recebiam auxílio de um dos projetos da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba). Pág. 12
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editorial POR NÃO ESTAREM dispostos a pagar, mais uma vez, pela crise causada exatamente pelos que enriqueceram com esse modelo econômico, trabalhadores do campo e da cidade participaram, entre os dias 10 e 14, da jornada nacional de lutas convocada pelos movimentos populares, sindicais, estudantis e pastorais sociais. Os trabalhadores exigem que a burguesia pague pela crise que ela mesma criou, reivindicam mudanças na economia do nosso país e reclamam a garantia de todos os direitos sociais e trabalhistas já conquistados. O fato é que a crise atingiu a economia brasileira, como era previsto. A burguesia, mais uma vez, teve a capacidade de recorrer às suas fórmulas clássicas: acentuar e agilizar a transferência do capital da periferia para o centro do sistema capitalista; destruir parte do capital acumulado; aumentar a exploração da classe trabalhadora; e recorrer aos cofres públicos, em busca de socorro às empresas falidas. No entanto, a população, de modo geral, manteve-se distante dos debates e das discussões. É necessário fazer maiores e aprofundados estudos sobre as verdadeiras causas que levam a população a esse distanciamento da política que diz respeito aos destinos do país. Para alguns,
debate
Unidade e acúmulo de forças a causa reside na manipulação das informações que a mídia faz. Outros restringem as razões ao conformismo promovido pelas políticas assistencialistas do governo Lula. Ou é o somatório das duas. Entretanto, é impreterível que a classe trabalhadora, suas organizações e dirigentes reconheçam que o imobilismo da sociedade se deve, em grande parte, ao rebaixamento do nível de organização e de formação política que ocorreu em duas décadas de neoliberalismo. O poder dos meios de comunicação da burguesia se deve, principalmente, à ausência de uma política de meios de comunicação da classe trabalhadora com a sociedade. O possível imobilismo promovido por políticas assistenciais, seja do governo que for, só ocorre devido à falta de um projeto popular que sinalize para a população a distribuição da riqueza, justiça social e a radicalização da democracia. Foi nesse cenário que ocorreu a mobilização no dia 14. Infelizmente, não foi dessa vez que a sociedade se sentiu sensibilizada e foi às ruas. Mas foi importante sua realização, numa perspectiva de acumular for-
ças para novas jornadas de lutas. Essa mobilização deu mais um passo em direção a consolidar a unidade dos movimentos sociais e das centrais sindicais. Serviu para externar à sociedade brasileira pontos programáticos – como a redução da jornada de trabalho, os direitos dos trabalhadores e a reforma agrária – caros à classe trabalhadora. E, ainda, sinalizou a capacidade de mobilização da classe trabalhadora em nível nacional. Nestes tempos, uma capacidade pequena, ainda. Nenhuma luta nasceu grande.
Mobilização camponesa No campo, os trabalhadores também se mobilizaram e fizeram uma jornada de lutas que extrapolou a data unitária do dia 14. Desde o dia 10, mais de 3 mil trabalhadores rurais – principalmente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – acamparam em Brasília (DF). Em ação conjunta com o acampamento da capital federal, outros 12 estados fizeram marchas,
ocupações de prédios públicos e de latifúndios e manifestações nas capitais em defesa da agricultura familiar e da reforma agrária. No dia 18, em audiência com os ministérios do Desenvolvimento Agrário, da Fazenda, do Planejamento e representantes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), atendeu-se a algumas reivindicações importantes. Houve o descontingenciamento de cerca de R$ 340 milhões, reincorporados ao orçamento do Incra e destinados à aquisição de terras para fins de reforma agrária. Também foi conquistada uma bandeira histórica dos camponeses: a atualização dos índices de produtividade da terra, que estavam inalterados desde 1975 e que serviam para acobertar a baixa produtividade das grandes propriedades rurais e dificultar a obtenção de terras para reforma agrária. Na área da educação, além do compromisso da construção de 200 novas escolas nos assentamentos rurais, foi assegurada a continuidade do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e dos cursos de nível superior, em convê-
crônica
Raúl Zibechi
O irresistível declínio do progressismo
nios com universidades federais em diversos estados. O financiamento para construção de casas passou de R$ 10 para R$ 15 mil. Mas uma das mais importantes e simbólicas conquistas foi a desapropriação da fazenda Nova Alegria, em Felizburgo (MG), onde, em 2004, o proprietário e seus jagunços assassinaram cinco sem-terra – enquanto outros 13 ficaram feridos. Mas, sobretudo, a jornada de lutas e o acampamento em Brasília serviram para mostrar o apoio da sociedade, dos sindicatos, dos movimentos sociais e estudantis e das igrejas à luta pela reforma agrária. Enquanto persistir a atual concentração fundiária, haverá lutas, e haverá os porta-vozes do atraso dizendo que a reforma agrária já é coisa do passado. A sociedade saberá distinguir os dois campos em disputa. A jornada do dia 14 e os dez dias de lutas do campo tiveram um significado importante no momento atual do país. No entanto, persistem os desafios da classe trabalhadora: qualificar seu trabalho de base, aumentar o nível de organização e consciência política da população, construir seus próprios meios de comunicação e avançar na construção de uma unidade programática e de um projeto popular para o país.
Luiz Ricardo Leitão
Um imbróglio mui democrático... Gama
O PROGRESSISMO, corrente política governamental que deu continuidade ao modelo neoliberal utilizando um discurso semelhante ao das esquerdas, está a acelerar o seu declínio. O resultado das eleições legislativas na Argentina, que registrou um retrocesso do kirchnerismo, pode representar o início da contagem regressiva de uma corrente distinta dos processos de Bolívia e Venezuela, que visam implementar mudanças em uma direção oposta ao neoliberalismo. Nos próximos meses serão realizadas eleições nos outros três países que completam o grupo de governos progressistas: em outubro será eleito o presidente no Uruguai e em dezembro, no Chile, enquanto em outubro de 2010 haverá eleições no Brasil. No Chile, é muito provável triunfar a direita, pela primeira vez desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. No Uruguai, o candidato do Frente Amplio, o tupamaro José Mujica, um representante das camadas populares atingidas pelo ajustamento estrutural, terá problemas para vencer o ex-presidente neoliberal Luis Alberto Lacalle. No Brasil, o candidato social-democrata José Serra mantém ampla vantagem, embora ainda falte um ano para as eleições. Muito provavelmente, a região vai completar uma virada à direita de grande impacto, que afeta já os principais países. Algo refletido nas urnas argentinas, cristalizando uma virada que se expressou já durante os protestos do campo contra o governo de Cristina Fernández, na primeira metade de 2008. Estamos diante de tendências fundamentais que não serão interrompidas, embora no Chile voltasse a vencer a Concertação e a Frente Amplio do Uruguai o fazer também. O giro conservador, por sua vez, tem raízes profundas e é projetado como uma sombra negra sobre toda a região, e muito particularmente sobre os movimentos sociais e os processos de mudança que ocorrem na Bolívia e Venezuela. O avanço da nova direita, em que alguns observadores intuem um estilo semelhante ao de Berlusconi, foi incentivado, em primeiro lugar, pelas políticas promovidas pelos governos progressistas. A continuação e o aprofundamento do modelo neoliberal que comandaram Lula, Kirchner, Bachelet e Vázquez expandiram a base social conservadora sobre a que repousa uma direita cada vez mais impaciente para multiplicar os seus lucros. Hoje, o modelo é chamado mineração de céu aberto na região andina, monocultivos de soja nas planícies da Argentina e do Uruguai, cana-de-açúcar para os biocombustíveis e agronegócio no Brasil, além de desmatamento, especulação fi-
nanceira e de livre comércio em economias orientadas para os mercados mundiais . É o modelo da soja que derrotou Kirchner nas urnas, da mesma forma como a aliança dos capitais brasileiros com o capital global afastará o Partido dos Trabalhadores do governo em Brasília. Nestes quatro países do Cone Sul nunca existiu nada parecido com o pós-neoliberalismo que alguns acreditavam ver, mas a continuidade e o aprofundamento do modelo. Sob Lula, o capital brasileiro escalou os lugares mais altos do capitalismo global graças a fusões e expansões abençoadas pelo Planalto. É o caso da Petrobras, dos grandes bancos ItaúUnibanco e Bradesco, que já foram colocados entre os 20 maiores do mundo, ou o da Brasil Foods, um produto da fusão das empresas alimentares Sadia e Perdigão. Lula acabou de aprovar o último disparate neoliberal: legalizou a privatização de 67 milhões de hectares da Amazônia, uma parte da sua contrarreforma agrária para aumentar a produção de soja e carne. Em segundo lugar, as políticas progressistas fraturaram a frente antineoliberal que contribuiu para converter as mobilizações em governo. O Psol (Partido Socialismo e Liberdade) foi criado diante da transformação à direita do PT no Brasil; no Chile está surgindo com força a candidatura de Marco Enríquez Ominami, filho do fundador do MIR, frente ao possível retorno do setor mais à direita da Concertação na Argentina. Uma parte substancial da esquerda optou pela abstenção ou voto nulo, por não apoiar o governo. As políticas sociais, obrigações, subsídios e transferências em dinheiro contribuem para aliviar a pobreza, mas substituem os direitos universais dos quais são marginalizadas as pessoas mais pobres. Enfraquecem e neutralizam os movimentos sociais, e é essa a terceira característica de governos progressistas. Portanto, a curto prazo não é possível uma saída à esquerda. Anulada a capacidade de mobilização popular, as direitas revitalizadas estão prontas para tirar vantagem do desgaste do progressismo. O declínio do progressismo e o ascenso das direitas – algumas delas vincula-
das com as máfias, como a argentina – fecham um ciclo que teve início em meados da década de 1990 com mobilizações massivas, que foram reconduzidas para o espaço institucional por uma camada de políticos profissionais que tiveram êxito em atrair e cooptar os movimentos sociais ao seu domínio. Também aqui o progressismo cortou a grama sob os seus pés, já que apenas a mobilização popular é capaz de inverter a ofensiva de direita em curso. O novo cenário coloca os processos boliviano e venezuelano num maior isolamento internacional, o que pode fortalecer a direita desses países a retomarem os seus ataques aos governos populares. O maior ponto de inflexão será o que acontecer no Brasil, único país que pode por si marcar tendências. Embora o Brasil, potência emergente, tem um rumo que é compartilhado por esquerda e direita, as nuances entre as duas pode se revelar crucial na hora de insuflar vida em projetos como o Banco do Sul, o Conselho Sulamericano de Defesa ou uma moeda regional. Não haveria que se chamar de engano, no entanto o império se beneficia dessas alterações, são as opções do progressismo que as propiciaram.
NÃO POSSO furtar-me a meter minha caneta digital neste imbróglio entre as duas maiores ‘redes’ de TV aberta do país, que alguns parlamentares e figuras da mídia, com a desfaçatez que lhes é peculiar, julgam ser uma ótima demonstração da “liberdade de expressão” que existe hoje em Bruzundanga (assim declarou Nelson Hoineff, presidente do Instituto de Estudos de Televisão). Os menos cínicos lamentam o episódio e se consternam com a situação do público, decerto a maior vítima da suposta ‘guerra santa’: “Triste é o país que deve escolher entre a liderança da Globo e as ameaças da Record”, sentenciou Antonio Brasil, diretor do IET. É óbvio que a ética é um conceito ausente nesta querela midiática, mas, ironicamente, graças ao fogo cruzado das duas emissoras, acendem-se as lamparinas do juízo e boa parte do público poderá tomar ciência do que existe por trás das telas platinadas. A roupa sujíssima que o roto e o esfarrapado estão lavando na rua não é nenhuma novidade. Há mais de duas décadas o gaúcho Daniel Herz já nos contava com detalhes, no livro A história secreta da Rede Globo, as origens mais que nebulosas da empresa do clã Marinho. A longa série de escândalos se inicia com um ‘empréstimo’ de 6.090.730,53 de dólares que o grupo estadunidense Time-Life efetua à emissora entre 1962 e 1966, violando o artigo 160 da Constituição vigente, que vedava a participação de capital estrangeiro na mídia. O próprio Banco Central, ainda no governo de Jango, desautorizou os contratos firmados entre Globo e Time-Life, que seriam investigados por uma CPI do Congresso em 1966. A ditadura militar de 1964, porém, abafou o caso, já que a Globo lhe caíra como luva no projeto de expansão das telecomunicações no país. A partir daí, a história da Vênus platinada é mais do que conhecida: ela se vale da extensa rede de micro-ondas que a Embratel estende sobre o nosso território para estabelecer o novo conceito de transmissão em rede (network), cobrindo quase 98% do país-continente. Satisfaz, assim, uma exigência básica dos oligopólios que dominam a economia, ao promover a integração nacional, singular eufemismo sob o qual se disfarça a expansão do mercado na fase corporativo-monopolista da evolução capitalista tupiniquim. E eleva à máxima potência seus próprios lucros, já que a maior audiência diminui os custos dos anunciantes (em 1983, um anúncio divulgado para mil espectadores pela Globo custava Cr$ 134,70 – nas redes B e C, de menor penetração, as cifras eram Cr$ 467,00 e Cr$ 256,00). Por fim, a afilhada da ditadura, que hoje se diz um esteio da “democracia”, contou também com um rol privilegiado de padrinhos para amortecer o escândalo com a Time-Life, viabilizar sua “legalização” e consolidar a liderança comercial: o marechal Castelo Branco (1964-67) e seus ministros Otávio Bulhões e Roberto Campos; o marechal Costa e Silva (196769), sucessor de Castelo; o general Orlando Geisel (1974-79) e o ministro Euclides de Oliveira; o general Figueiredo, chefe do SNI e sucessor de Geisel. Isso sem falar no cérebro do regime, general Golbery, e do eterno Ministro das Comunicações, ACM, sinistro coronel que fez da concessão de canais aos clãs aliados um dos negócios mais prósperos do regime. Os tempos, é claro, mudaram (para pior, não resta dúvida), e a emersão da era neoliberal trouxe consigo o fenômeno midiático neopentecostal, que se vale das transmissões radiotelevisivas para ampliar sua base social. Edir Macedo e sua Record são apenas uma entre várias experiências bem-sucedidas nessa área, as quais fariam corar até Max Weber, o célebre autor de A ética protestante do capitalismo. De fato, as igrejasempresas como a IURD já nem se preocupam em justificar o lucro, um conceito que ainda é capaz de gerar sentimento de culpa na antiga ética do catolicismo. Afinal de contas, vive-se a era pós-moderna em que o mercado é o deus supremo e a prosperidade individual é a única meta válida. De resto, a tal balela do padrão de qualidade, que um ou outro costuma invocar para o produto que nos empulha, não resiste a um domingo na frente da telinha. O curioso é que, se na disputa entre a Globo e o SBT vivíamos sob a égide de Faustões, Gugus e Sílvios Santos, agora, nesta guerra santa (?), as duas redes adotaram de vez o estilo BBB em sua programação. Ou seja: o coquetel de voyeurismo e completa banalização mercantil das relações humanas visto nos reality shows (A Fazenda, No Limite etc.) torna-se cada vez mais a tônica em toda a grade, como atesta o pseudoprograma de variedades Fantástico ou o próprio jornalismo de Globo e Record, a cada dia mais autocentrado e antiético. Enfim, tudo “mui democrático” e à altura das instituições de Bruzundanga, como ilustra o Senado do coronel Sarney e dos cangaceiros Calheiros, Távora, Jereissati & Cia.
Raúl Zibechi é jornalista, escritor uruguaio e editor do semanário Brecha (Uruguai).
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Extranjeros: reflexões, crônicas e ficções de um brasileiro em Cuba no “Período Especial”.
Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Cristiano Navarro, Igor Ojeda, Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Eduardo Sales de Lima, Leandro Uchoas, Mayrá Lima, Patricia Benvenuti, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo • Assistente de Redação: Michelle Amaral • Fotógrafos: Carlos Ruggi, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), João R. Ripper, João Zinclar, Joka Madruga, Leonardo Melgarejo, Maurício Scerni • Ilustradores: Aldo Gama, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editora de Arte - Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Francisco Szermeta • Endereço: Al. Eduardo Prado, 676 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800/ Fax: (11) 3666-0753 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alipio Freire, Altamiro Borges, Anselmo E. Ruoso Jr., Delci Maria Franzen, Dora Martins, Frederico Santana Rick, José Antônio Moroni, Hamilton Octavio de Souza, Igor Fuser, Ivan Pinheiro, Ivo Lesbaupin, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Otávio Gadiani Ferrarini, Pedro Ivo Batista, Ricardo Gebrim, Sávio Bones, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131– 0800 ou assinaturas@brasildefato.com.br • Para anunciar: (11) 2131-0800
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brasil José Cruz/ABr
Agora, oposição “descobre” clientelismo de Sarney CRISE NO SENADO Debate de 2010 é antecipado e maranhense vira principal alvo; para Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, Sarney é meramente um símbolo das evidentes irregularidades que ocorrem no Senado e são praticadas por muito mais gente Renato Godoy de Toledo da Redação A CRISE INSTAURADA no Senado Federal tem circundado a figura do mandatário da casa, José Sarney (PMDBAP), ex-presidente da República e detentor de monopólios nos estados do Maranhão e Amapá. Práticas clientelistas e oligárquicas, além do amplo trânsito nas esferas de poder, não são novidades no curriculum do maranhense – tal como a biografia de muitos de seus acusadores e apoiadores. Pode se dizer que, em nível nacional, Sarney nunca soube o que é ser oposição. Iniciou sua carreira pública discretamente, elegendo-se 4º suplente de senador em 1954, pelo getulista PSD. Durante a ditadura militar, chegou a ser líder do diretório nacional da situacionista Arena. Às vésperas do colégio eleitoral, trocou de “lado” e foi para o PMDB disputar as eleições indiretas para presidência da República como vice de Tancredo Neves, que venceu o pleito, mas morreu antes de assumir. Sarney foi “obrigado” a abandonar sua discrição na carreira política e foi o primeiro civil a governar o país depois de 21 anos de domínio militar, entre 1985-1989. Seus cinco anos de governo foram marcados pela inflação exorbitante e pelos planos econômicos fracassados, como o Bresser e Verão. Para aumentar seu mandato de 4 para 5 anos, distribuiu concessões de rádio e TV para parlamentares. No governo Fernando Henrique Cardoso, foi um importante cabo-eleitoral e articulador político do tucano no norte-nordeste, sendo premiado com a presidência do Senado entre 1995-1997. Foi a primeira das três vezes que Sarney comandou a casa. As demais foram entre 2003-2005 e a que se iniciou em fevereiro deste ano e persiste em continuar – ao menos até o fechamento desta edição. 2010 é agora
Se já está há 55 anos na vida pública com os mesmos métodos, por que somente agora Sarney vira o inimigo público número 1? Uma análise recorrente dá conta de que os escândalos políticos só estampam as manchetes dos grandes jornais quando não há um acerto de bastidores; ou seja, quando as arestas não são aparadas, grupos poderosos revelam os “podres” de inimigos pontuais. A vociferação do PSDB e do DEM, por exemplo, contra o ex-presidente da República pode ser considerada efêmera, pois este comportou-se como aliado durante os oito anos do mandato de FHC. Este, aliás, mandou sinais à bancada tu-
cana para que apoiasse a eleição do atual presidente do Senado, em fevereiro de 2009. Para o cientista político José Antonio Moroni, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), o que está por trás da ofensiva contra o senador do Amapá é o início da corrida eleitoral de 2010. De um lado, a base aliada sabe da importância de ter o apoio do PMDB para deslanchar a candidatura de Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil. Mesmo desmoralizado e com a pecha de fisiologista, o PMDB continua sendo o maior partido do país, com maior bancada legislativa e número de prefeituras. A oposição, por sua vez, busca minar esse apoio, tentando dividir ainda mais o partido.
“Esses escândalos só surgem quando as elites não conseguem se acertar. Quando se acertam, essas coisas não aparecem”, avalia José Antonio Moroni, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) “Sarney se construiu com base no poder criado através do uso do espaço público com interesse privado. Agora, o fato de a imprensa elegê-lo como inimigo não pode ser desvinculado do processo eleitoral de 2010, pois tentam colar a imagem dele à do presidente Lula. É um contexto eleitoral que surge por conta desse passado do Sarney e esse presente de apoio a Lula”, analisa Moroni. Segundo ele, os escândalos que movimentam a rotina de Brasília são frutos de desacordos nos bastidores, não de investigações aprofundadas. “Esses escândalos só surgem quando as elites não conseguem se acertar. Quando se acertam, essas coisas não aparecem. E é vergonhoso o papel da grande mídia. Ela não repercute apenas esses escândalos, ela faz parte da construção deles”, avalia. Um símbolo
Na análise de Cláudio Weber Abramo, diretor executivo da Transparência Brasil, o foco excessivo sobre o sena-
O senador José Sarney: há 55 anos na vida pública com os mesmos métodos
dor maranhense deixa de revelar as irregularidades praticadas por seus pares. “Sarney é meramente um símbolo das evidentes irregularidades que ocorrem no Senado e são praticadas por muito mais gente. Mas é claro que isso não o torna inocente. O foco sobre Sarney tem a desvantagem de tirar atenção para o fato de dezenas de senadores terem se beneficiado ao longo dos anos”, opina Abramo. A saída do presidente da casa de seu cargo, como clama opinião pública e oposição, não resolveria os problemas éticos da instituição de forma efetiva, de acordo com Abramo. “Achar que simplesmente a saída de Sarney do cargo resolveria tudo é um absurdo. Existe um problema sistemático que não se resolve com a saída dele. Ele tem que ser responsabilizado, inclusive criminalmente. Numa situação em que agentes públicos se aproveitam do cargo para praticar corrupção, o Ministério Público tem que agir”, aponta. Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor-geral do instituto Cultiva, a saída de Sarney responderia a um problema apenas conjuntural do Congresso. “[A saída] aliviaria a pressão sobre o governo federal e sobre a bancada do PT no Senado. Seria uma solução conjuntural, momentânea. Mesmo porque a cassação de Sarney renderia uma forte reação da tropa de choque que o apoia no Senado e, talvez, de parte do PMDB, colocando em risco a coalizão presidencialista”, afirma. A pauta do “Fora, Sarney” que ganhou as galerias do Senado, capitaneada por grupos heterogêneos, causaria uma alternância na casa sem muito efeito em termos nacionais. “A substituição teria mais efeito sobre o Maranhão do que sobre o Senado ou a mudança da política nacional. Poderia dar fôlego à oposição ao governo Lula, principalmente PSDB e DEM, já que PSOL e PV aparecem como coadjuvantes”, conclui.
Debate sobre unicameralismo ganha força Senado não cumpre função original e desequilibra representação da Redação As práticas fisiologistas e nepotistas no Senado, que têm tomado conta do noticiário, suscitaram o debate em torno das funções da chamada Câmara Alta do legislativo brasileiro. O Senado brasileiro foi instituído pela Constituição de 1824, inspirado na Câmara dos Lordes inglesa e, posteriormente, com a República, espelhou-se no Senado dos Estados Unidos da América. O papel desta casa, a princípio, é revisar as propostas formuladas pela Câmara dos Deputados para que a matéria seja enviada para a sanção do Executivo. Quando o Executivo formula, a lei passa pela Câmara Baixa, onde recebe emendas, e posteriormente pela Alta. Enquanto a Câmara Federal tem bancadas estaduais proporcionais ao número de eleitores de cada unidade federativa, no Senado, cada Estado tem três representantes. Teoricamente, ela asseguraria o pacto federativo, evitando uma tirania dos estados mais populosos. No entanto, hoje o Senado já legisla e produz sua própria agenda e, longe de assegurar o equilíbrio, a instituição tornou-se reduto das oligarquias que têm na Casa uma sobrerrepresentação. Em meio a essa crise, alguns setores defendem o fim do Senado, incluindo membros do governo. “A extinção do Senado me parece razoável, não há nada que o Senado faça que a Câmara não possa fa-
zer. Mas não há uma relação lógica entre os problemas éticos e o fim do Senado, até porque nesse aspecto a Câmara não é melhor. Teria vantagem política, porque ele desequilibra a representatividade eleitoral. Não há sentido que a bancada do Amapá tenha mais representatividade do que São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, por exemplo. Há uma distorção brutal na representação”, ressalta Cláudio Weber Abramo, da Transparência Brasil. Reduto das oligarquias
Rudá Ricci, diretor do instituto Cultiva, também defende a extinção do Senado Federal como forma de diminuir o espaço de atuação das oligarquias regionais e diminuir o custo do legislativo, já que cada senador custa R$117 mil mensais. “O Senado brasileiro nunca foi instrumento de equilíbrio federativo, como alguns poucos propalam. Pelo contrário. Foi sempre instrumento das oligarquias regionais, com raras exceções. O Senado gera tanto desequilíbrio político em nosso país que um senador pode se candidatar a um cargo executivo e, mesmo sendo recusado pelas urnas, voltar ao seu mandato”, comenta. . O cientista político do Inesc, José Antonio Moroni, aponta que o Senado tem a função de realocar lideranças regionais, evitando “insatisfações”. “O fato é que hoje o Senado não cumpre o seu papel. Ele é um espaço onde as elites políticas se ajeitam. Quem não consegue ser candidato ao governo do Estado recebe apoio
do governador para o Senado”, explica. Ainda que simpático à ideia do unicameralismo, Moroni salienta que é necessária a reflexão sobre o equilíbrio entre os estados. “Para pensarmos em termos apenas uma Casa, teríamos que pensar na questão do peso eleitoral dos diferentes estados. Atualmente, temos uma distorção muito grande, tendo os estados mais populosos menos representação, mas precisamos equacionar isso para que os mais populosos não tenham mais poder [num eventual unicameralismo]”, defende. Participação popular
Além dessa alteração quanto às Câmaras, Moroni defende a criação de dispositivos de controle da sociedade sobre o Congresso. “É necessária uma reforma política radical que repense a representação e dê instrumentos à população como a revogação de mandatos. Não é possível que esses escândalos surjam e não haja nenhum instrumento institucional, a não ser o protesto. Quando esse político não representa mais os cidadãos, eles deveriam ter o direito de convocar outras eleições. No caso do senador é um absurdo ainda maior, pois o mandato dele é de 8 anos”, diz. Rudá Ricci acredita que, após a adoção do unicameralismo, poderiam ser criados mecanismos de controle externo do parlamento. “Se conseguíssemos avançar neste debate do sistema unicameral, poderíamos dar um passo na direção de um maior controle sobre o parlamento. Penso em criarmos estruturas de cogestão como ocorre no Executivo: conselhos de direitos e temáticos”, sugere. (RGT)
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brasil
A pressa dos trabalhadores JORNADA Em São Paulo, movimentos destacam a integração; mídia se preocupa com o trânsito Mariana Raphael
Eduardo Sales de Lima da Reportagem AO CABO DA manifestação do Dia Nacional de Lutas realizado em São Paulo (SP), o jornal Folha de S. Paulo aliviou seus leitores com o título: “Lentidão diminui após fim de manifestação na Avenida Paulista”. Um dia antes, em entrevista coletiva com os organizadores do protesto, uma repórter do mesmo veículo havia perguntado se a marcha ocorreria em duas ou em uma via da avenida. Lentidão para a Folha e para alguns motoristas à parte, os trabalhadores organizados reivindicavam pressa na reforma agrária. “Que os sindicalistas nos ajudem a pressionar Lula. Ao invés de pagar o FMI”, afirmou na passeata, em frente ao Masp, o integrante da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) João Paulo Rodrigues. Mas antes dele falar, o apoio já estava patente para quem observava a marcha na margem oposta da avenida. A reportagem quis saber de dois “engravatados”, personagens típicos da região, qual o motivo daquela marcha. O mais velho, de cerca de 55 anos, afirmou, convicto, que a passeata era do MST em prol da reforma agrária e que “tem uns sindicatos apoiando eles”. O outro brincou: “ vai lá, você está de vermelho, se mistura”, disse à reportagem. Defesa de direitos Segundo a organização, mais de 20 entidades sindicais, estudantis e populares reuniram 10 mil pessoas em ato em defesa dos direitos dos trabalhadores. Uma das principais pautas levantadas no ato foi pressionar os deputados federais pela aprovação da proposta de emenda constitucional (PEC) 231/95, que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, em tramitação na Câmara. O protesto começou por volta das 11 horas na praça Oswaldo Cruz. Misturada na paisagem, entre “engravatados”, executivas, motoboys e operadores de telemarketing, no percurso da passeata, da praça Oswaldo Cruz até o vão livre do Masp, dezenas de pedintes, a maioria, pessoas de terceira idade. “Eles estão pedindo mais emprego, né? Se eu estivesse em condições, estaria lá”, afirmou uma pedinte que somava pouco mais de um real em moedas, numa pequena bacia. Pré-sal A manifestação reforçou o estabelecimento da soberania nacional
Jonathan Constantino de Campinas (SP) O dia ainda não havia clareado quando, às 4h50 do dia 14, o Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região (SMCR), com apoio da Intersindical e da Consulta Popular, organizou um piquete na portaria da planta de Campinas (SP) da empresa Samsung, ao lado da rodovia Dom Pedro I. O complexo industrial possui cerca de 3 mil trabalhadores metalúrgicos nas empresas Samsung, Cellcom e Costech, sem contar os químicos e os trabalhadores do telemarketing. Na planta são produzidos celulares, monitores LCD e impressoras multifuncionais. Os metalúrgicos que entrariam para o 1º turno (5h da manhã) ficaram parados do lado de fora da empresa, onde organizaram uma assembleia. Na pauta, exigiam o fim das demissões, a manutenção dos direitos trabalhistas, redução da jornada de trabalho, sem redução de salários, e o fim do fator previdenciário. Levantaram também a discussão sobre reforma agrária e inves-
Economia pública
O governo federal está vacilando sobre a proposta de reativação da Telebrás para operar o sistema de banda larga exclusivamente para os órgãos públicos nas principais capitais do país. Se esse sistema for controlado por uma empresa estatal, representará uma economia mínima de R$ 150 milhões por ano aos cofres públicos, já que atualmente o governo desembolsa mais de R$ 500 milhões para as empresas privadas.
Dinheiro liberado
Acusados de receber da empresa francesa Alstom 1 milhão de dólares de propina na compra de equipamentos do metrô de São Paulo, os tucanos Robson Marinho e Jorge Fagali Neto negam que sejam donos de contas bancárias bloqueadas na Suíça. Como mais ninguém reclamou sobre o bloqueio dessas contas, significa que o dinheiro da corrupção não tem dono e pode ser repatriado sem problema. Simples!
Maluf Serra
Em sua coluna na revista Carta Capital, Walter Maierovitch lembra uma história de 1988, quando José Serra foi comparado a Paulo Maluf. Na época, o procurador Flávio Bierrenbach falou sobre o tucano na TV: “Entrou pobre na secretaria de Planejamento do governo Montoro, saiu rico. Fez uma campanha para deputado federal milhardária. Prejudicou a muitos de seus companheiros”. A sucessão presidencial está nas ruas!
Vaia nele!
Sob o coro de “Gilmar Mendes, cara de pau, arruma as malas e vá cantar no seu quintal”, o presidente do Supremo Tribunal Federal foi recebido com uma grande manifestação de protesto em Aracaju (SE), no dia 14 de agosto. Os manifestantes – estudantes, jornalistas, trabalhadores rurais e trabalhadores sem-teto – lembraram, com faixas e palavras de ordem, as proezas do jagunço do STF. Entrou para a história!
Tentáculos podres
Manifestantes “atrapalham trânsito” pela reforma agrária e defesa do pré-sal
Quanto
10 mil pessoas compareceram ao ato na avenida Paulista
com o pré-sal. Essa foi a pauta da jornada que mais chamou atenção da estudante do segundo colegial, Bruna, de 17 anos. “Para mim, isso é a maior esperança do Brasil”, afir-
mou a estudante, coberta com uma bandeira do Brasil. De volta ao trânsito. Elaborada por uma repórter da agência Estado, a terceira questão da entrevista coletiva com os organizadores da passeata tentava desvendar como se daria a articulação da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) com as centrais sindicais e movimentos sociais para que o
trânsito fluísse bem no dia 14. João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical, atestou, em sua resposta, o direito de ir e vir, que consta na Constituição. Às 14h33, 54 km de lentidão em 6,4% dos 835 km monitorados da cidade. Questionado em relação à morosidade do trânsito na região, um motoboy tratou de tranquilizar: “Ah, de moto tá sossegado”.
Metalúrgicos realizam piquete no interior paulista Em Campinas, sindicato atrasa produção da Samsung por duas horas
fatos em foco
Hamilton Octavio de Souza
timentos públicos em saúde, educação, moradia e saneamento. Denilza Aparecida Silva, da diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região (SMCR), chamou atenção também para as pautas específicas das mulheres, como a ampliação do auxílio-creche, licença-maternidade de seis meses, licença para mãe adotante e estabilidade no emprego para quem sofre aborto. Precariedade no trabalho Andréa*, de 29 anos, funcionária da Samsung, disse concordar com a paralisação e a pauta. Ela conta que o trabalho que realiza é insalubre, pois fica muitas horas de pé, correndo o risco de desenvolver varizes e vasinhos nas pernas, além de tendinites e estresse. Cadeiras ajudariam, afirma. Além disso, Eliezer Mariano da Cunha, também do SMCR, denunciou os abusos de horário que têm ocorrido na empresa e a pressão que a mesma exerce para que os funcionários façam horasextras. “Há trabalhadores que têm feito jornadas de 12 a 15 horas”, declarou. Dificuldades O clima no início da paralisação foi tenso. Alguns pequenos grupos de funcionários e indivíduos isolados tentaram furar o piquete, encontrando resistência por parte dos sindicalistas que tentavam explicar as razões da paralisação.
“Estão achando que estão com o emprego garantido. Nosso emprego não está garantido, nós temos que lutar pelos nossos direitos”, afirmou Andréa, funcionária da Samsung Para Denilza, os furos estão relacionados à grande rotatividade de funcionários que tem ocorrido na empresa, principalmente com relação à Cellcom e à Costech. Para Andréa, as pessoas que furaram o piquete se põem do lado do patrão e não compreendem as razões da paralisação. “Estão achando que estão com o emprego garantido. Nosso emprego não está garantido, nós temos que lutar pelos nossos direitos”, afirmou. Segundo Patrícia dos Santos, funcionária da Samsung e membro da diretoria do SMCR, ações encabeçadas pela empresa também estariam dificultando a mobilização dos trabalhadores. Dentre elas, a transnacional estaria espalhando boatos dizendo aos funcionários que o sindicato estaria aceitando acordos com a empresa sem consultá-los, o que não seria verdade. Jornada de lutas A militante da Consulta Popular Olívia Pires alertou ainda para a necessidade de associar a paralisação na Samsung às demais lutas e mobilizações que estavam sendo
realizadas por todo Brasil, organizadas tanto por categorias sindicais como pelos movimentos sociais. “É importante registrar que nós não estamos isolados, que neste dia estamos em maior número do que este coletivo que está aqui na fábrica, mas neste dia é importante colocarmos nossa pauta específica porque numa unidade maior essa pauta vai ganhar voz”, concluiu. Para Eliezer, a paralisação complementa a função de outros atos. O sindicalista ressaltou a importância de a jornada de lutas mexer com a produção para conseguir maiores efeitos e o significado da articulação sindical junto aos trabalhadores. “Não há por que se prender a brigas entre centrais [sindicais]”, enfatizou. Em todo o Estado, além do ato na Paulista e do piquete em Campinas, houve manifestações em Paulínia, na Baixada Santista, no Vale do Paraíba e no Vale do Ribeira. * A entrevistada preferiu dizer apenas seu primeiro nome por ser recémcontratada e temer represálias por parte da empresa.
O Estadão continua pegando no pé da família do senador José Sarney. No dia 16, revelou que os apartamentos usados pelo clã do velho oligarca em São Paulo foram comprados pela empreiteira Aracati Construções, que opera na área de energia. Puxaram o fio da meada de esquema quentíssimo. Na mesma edição do jornal, o candidato a presidente do PT, José Eduardo Dutra, afirma que, se fosse senador, absolveria José Sarney. Pirou?
Saudade russa
Comentário do jornalista português Miguel Urbano Rodrigues sobre a vida em Moscou: “A falta de perspectivas é real e transparente. Mesmo aqueles que no paralelo entre o presente e o passado esboçam um quadro sombrio da vida atual não acreditam numa mudança em tempo previsível. Recordam com saudade os anos da segurança no trabalho, da ausência do desemprego, das pensões, saúde e ensino garantidos, das férias pagas”.
Bandeira branca
Empenhado na candidatura de Dilma Rousseff, o governo Lula articula a rendição do Grupo Abril, em especial a revista Veja, com o esquema governamental. Pode parecer completamente estranho ver a revista semanal, que tem sido portavoz da direita mais babona, mudar a linha editorial e retirar as baterias do alvo petista. Obviamente o Grupo Civita vai ter de segurar o esquadrão pittbull em troca dos bons negócios.
Gafe palaciana
O núcleo duro do Palácio do Planalto já identificou na assessoria do ministro da Fazenda o responsável pelo vazamento de informações desencontradas para a imprensa sobre a demissão de Lina Maria Vieira da Secretaria da Receita Federal. Essas versões transformaram a ex-secretária em heroína da direita e criaram problemas sérios para a candidatura Dilma Rousseff. A mentira nasceu dentro do governo.
Esquecimento não!
A Universidade Federal do Rio de Janeiro debaterá nos dias 26, 27 e 28 de agosto os 30 anos da Lei de Anistia. Participam do evento vários ex-presos políticos no período da ditadura militar (1964-1985), entre os quais, os ministros Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, e Dilma Rousseff, da Casa Civil da Presidência da República. Os torturadores continuam impunes!
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cultura Reprodução
À sombra de Raul ou Let me
sing my rock and roll CRÔNICA Um olhar sobre a influência que a obra do cantor e compositor Raul Seixas ainda exerce sobre nós, mesmo 20 anos após sua morte Aldo Gama da Redação NORMALMENTE, cumprir o percurso do Terminal Princesa Isabel ao Paraíso, de ônibus, às seis horas da tarde, numa sexta-feira comum, consome cerca de 75 minutos da vida do morador da capital paulista. A irritação e o cansaço das pessoas espremidas é quase tangível. A cada parada, desafiando as leis da física, sobem mais passageiros do que descem. Entalado entre a parede do coletivo e a passageira do lado, uma “ligeiramente” muito acima do peso, Sandrinha, caixa do Mercado Campos Elyseos, Carlos Alberto conseguiu retirar seu violão da capa. Colocando o braço do instrumento na vertical, único movimento possível, juntou os dedos da mão esquerda sobre as cordas de aço enferrujadas e, com uma palhetada seca, arrancou um quase Lá do instrumento. – Eu prefiro sê-êr... Apertados dentro do coletivo, tripulantes e passageiros reagiram de formas distintas. Sandrinha separou as bochechas rechonchudas com um sorriso. Algumas meninas em roupa de colégio riram e aplaudiram. Chico, cobrador do ônibus, fechou os olhos sem forças para pedir silêncio. Adalberto, eletricista, se desesperou e pensou na morte.
* ...juntou os dedos da mão esquerda sobre as cordas de aço enferrujadas e, com uma palhetada seca, arrancou um quase Lá do instrumento. – Eu prefiro sê-êr... Ana Carolina e Isabela, as meninas de uniforme, não conheciam aquela música. Também é correto afirmar que não conheciam Raul Seixas. Muito menos sabiam que ele a havia gravado em O dia em que a Terra parou, de 1978, seu sexto álbum solo. A seu favor, verdade seja dita, as duas podiam utilizar como argumento, no caso de acusadas de ignorância, que a obra havia sido lançada “muito tempo” antes delas terem nascido. E “muito tempo”, nesse caso, significa os 15 anos que separam 1978 de 1993, ano do nascimento das duas. Assim, mesmo evitando
eufemismos para a palavra ignorância, é possível afirmar com segurança que as duas desconheciam a música, seu autor e, sem qualquer sombra de dúvida, o voluntarioso, mas desafinado, intérprete. Também desconheciam o significado da palavra “voluntarioso”, o que não afeta em nada os resultados da última rodada do campeonato capixaba de futebol, mas diz algo sobre a qualidade do ensino médio nas escolas públicas paulistas. – ...Essa metamorfose ambulante...
* Ainda com os olhos fechados, Chico viu chegar à sua mente, lutando contra a foto da Juliana Paes que havia visto em uma banca de jornal na avenida Angélica, a imagem de um homem todo vestido de branco, com bigode e cavanhaque mal aparados, em pé, diante de uma praia, tendo ao horizonte o nascer ou pôr-do-sol. Mas isso durou poucos segundos, porque logo a bela atriz de pele morena expulsava o barbudo de cena e reinava absoluta em sua imaginação.
Não eram íntimos, mas ele conhecia uma canção ou outra. Aquela que estava sendo assassinada no ônibus, por exemplo, se chamava “Metamorfose Ambulante” Desconsiderando os intrincados caminhos do inconsciente, se fosse o caso de esclarecer o mistério, Chico poderia facilmente encontrar os botões que haviam acionado as engrenagens que, mesmo sem sucesso, haviam colocado um cara de barba onde só deveria estar uma morena de sarongue, como ele equivocadamente chamava o sari, traje tradicional das mulheres indianas. Ao contrário das meninas, Chico sabia quem era Raul Seixas. Não eram íntimos, mas ele conhecia uma canção ou outra. Aquela que estava sendo assassinada no ônibus, por exemplo, se chamava “Metamorfose Ambulante”. Assim, mesmo sem se dar conta, os impulsos elétricos de seu cérebro conduziram as coisas à revelia do dono da cabeça, numa cadeia de associações: chato tocando violão, metamorfose ambulante, Raul Seixas, férias, tia Lourdes, Florianópolis, frescobol, prima Ana Maria, primeiro beijo, toca-discos, capa de disco e Raul Seixas. E de fato existe uma capa de disco de Raul com essa imagem. Chama-se Abre-te, Sésamo, e é de 1980, ano anterior às férias em que lascou um beijo na prima desprevenida. “Metamorfose Ambulante” não é desse álbum, mas “Rock das Aranhas” é. Hoje, com alguma malícia, Chico diria que a música inspirou o beijo. Hoje, sem
qualquer malícia, Ana Maria diria que o primo é uma besta. – ...Do que ter aquela velha opinião...
* Por conta do destino, a música que para uma geração significa uma das mais animadas do musical televisivo “Plunct Plact Zuuum”, para Adalberto representa a pior desilusão amorosa de sua vida Adalberto não podia dizer que havia sido vítima dos desvios da vida. Não podia porque, de uma maneira geral, gostava da vida que levava. Era eletricista porque queria. Entre fios, multímetros e soquetes, sua vida se completava. Mas detestava ônibus cheio. Detestava mais ainda gente que falava alto em ônibus cheio. Cantar ultrapassava qualquer limite de bom senso. Cantar Raul, então, era uma ofensa. E nesse último caso, pelo menos, tinha alguma razão. Numa tarde fria de um sábado perdido no meio de outros dias do mês de julho de 1995, Adalberto caminhava com Regina pelo Parque da Água Branca, onde sempre iam porque era perto da estação Barra Funda do metrô. Ele bebericava uma cerveja e ponderava entre comprar um saquinho de pipocas ou comer um sanduíche de calabresa no bar ao lado do parque. Não conseguia se decidir porque estava preocupado com o silêncio da noiva. Silêncio quebrado impiedosamente pelas palavras “preciso te contar uma coisa”. O drama, embora novela das seis, deixou marcas de especial de Roberto Carlos. Ali, sozinho, sentado em um banco do parque, vendo um pato passar rebolando, debochando de sua tristeza, Adalberto ouvia a música que vinha do radinho de pilha do pipoqueiro. Era o “Carimbador Maluco”, canção que fazia parte do álbum DDI, lançado por Raul em 1983. Por conta do destino, a música que para uma geração significa uma das mais animadas do musical televisivo “Plunct Plact Zuuum”, para Adalberto representa a pior desilusão amorosa de sua vida. E Raul Seixas era o cara que tinha contado que a Regina estava apaixonada pelo Almeidinha. – ...Sobre o que é o amor...
* Sandrinha sorriu para Carlos Alberto porque Sandrinha sorria para tudo e para todos. Dizer que ela era uma pessoa de bem com a vida não reproduzia com veracidade seu estado de espírito normal. Se, para a maioria das pessoas, o céu estava azul, para Sandrinha era o dia mais lindo do ano. Se diziam que aque-
la criança era bonita, Sandrinha retrucava que era um anjinho caído céu, que, aliás, estava maravilhoso. Em resumo, Sandrinha era feliz. Tão feliz que irritava. E nada abatia seu bom humor. Nem horas-extras forçadas, nem a briga perdida para a balança. Era “gordinha sim, e daí?”, como costumava dizer. Apesar da figura roliça, sentia-se cobiçada por todos os homens. E de fato o era. Se não por todos, por boa parte. Entre eles Peixoto, representante de vendas de laticínios. Desde que a conhecera, em uma de suas visitas de trabalho, Peixoto ficara tão loucamente apaixonado que não fazia nenhum plano que não a incluísse. Chegou mesmo a se afastar da turma do futebol, do dominó no clube, do grupo de caminhadas... Bom, se não tinha muito para abandonar não era culpa da Sandrinha. Era dele. E se existisse algo do que pudesse vir a sentir falta em sua vida ele deixaria de lado. Pelo menos foi o que jurou a ela, que, no entanto, duvidou que ele alguma vez teria algo emocionante em sua vida.
Cinismo à parte, Sandrinha gostava de verdade de Peixoto. Ela havia caído por ele desde o dia em que foram ao cinema e, na volta, ele cantou, acompanhando o rádio do carro, a música “Gita” Cinismo à parte, Sandrinha gostava de verdade de Peixoto. Ela havia caído por
ele desde o dia em que foram ao cinema e, na volta, ele cantou, acompanhando o rádio do carro, a música “Gita”, que Raul gravou no disco de mesmo nome lançado em 1974. “Às vezes você me pergunta/ Por que é que eu sou tão calado/Não falo de amor quase nada/Nem fico sorrindo ao teu lado”, dizia a canção – o que pareceu irônico, já que Peixoto falava de amor a toda hora. Mas, mesmo assim, ela gostava dele. O que não a impedia de gostar dos outros namorados que tinha. – ...Se hoje eu sou estrela...
* Carlos Alberto era tão fã de Raul que tinha até lido os livros do Paulo Coelho. Todo o pouco dinheiro que ganhava como auxiliar de escritório era gasto com coisas relacionadas ao ídolo. Seu sonho secreto que todo mundo conhecia era ser cantor. Um desses bem famosos que canta na tevê e no carnaval baiano. É claro que ele sabia que Raul não era de samba, carnaval ou axé. Mas ele era. E pronto. Deus deu a Carlos Alberto muita saúde, astúcia e pais amorosos, mas esqueceu de dar ao jovem qualquer talento musical. Ele era ruim cantando, tocando violão ou mesmo batucando numa caixa de fósforos. O que não o impedia de torturar todos à sua volta com suas interpretações entusiasmadas. Quando começava a praticar, o que fazia na sala da casa para ter plateia, Carlos Alberto se perdia no mundo das cifras musicais das revistas. Tanto que não percebia que seu pai corria para a padaria da esquina e a mãe ia colocar a conversa em dia com a vizinha do outro lado da rua. Isso porque o relacionamento com a comadre da casa ao lado se estremecera desde que ela dera o violão para o filho. O maior tesouro de Carlos Alberto era o compacto Krig-Ha, Bandolo!, de 1973, que ele ganhara de sua tia Elza. Na capa, Raul aparece
sem camisa, com os braços abertos levantados e um medalhão no peito. Essa imagem, associada aos versos de “Metamorfose Ambulante”, que ele agora esquartejava no ônibus, queimaram algum fusível em sua cabeça e ele nunca mais foi o mesmo. Nem a relação de sua mãe com a irmã dela. – ...Se hoje te odeio...
* Seu sonho secreto que todo mundo conhecia era ser cantor. Um desses bem famosos que canta na tevê e no carnaval baiano. É claro que ele sabia que Raul não era de samba, carnaval ou axé. Mas ele era. E pronto Chico seguiu a viagem com o pensamento ancorado na Juliana Paes. Adalberto desceu logo que o ônibus apontou na avenida Paulista. Preferia esperar por outro que, mesmo lotado, não traria lembranças tão cruéis. Sandrinha desceu no ponto da Brigadeiro, onde foi recebida calorosamente por Calixto, muito amigo de Peixoto, mas também muito canalha. No Masp, as meninas desceram e gritaram “toca Raul!” sem nem mesmo perceber que aquilo não fazia o menor sentido. Carlos Alberto continuou massacrando acordes e versos até descer, no Paraíso. – ...É fácil chegar...
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cultura Divulgação
Imigração
foi o tema em Locarno CINEMA Tradicional palco de filmes independentes, festival suíço priorizou, em 2009, produções sobre as pessoas que tentam a sorte em outros países Rui Martins de Locarno (Suíça) FIEL AO SEU renome de festival independente e por oferecer suas telas aos filmes do terceiro mundo, este ano o Festival de Locarno – realizado entre 5 e 15 de agosto – exibiu uma maioria de produções ligadas à imigração, mostrando que a globalização não solucionou os problemas sociais, mas agravou a miséria e a pobreza, forçando muitos a tentarem a sorte em outros países. A apenas alguns quilômetros da Itália, onde impera Silvio Berlusconi, rodeado de neofascistas, Locarno mostrou em imagens diversas, vindas de longe ou da própria Europa, o que consiste migrar de cidade em cidade ou emigrar para outras nações, em busca de uma vida melhor. Enquanto isso, ali ao lado, a lei italiana e de outros países europeus transformou em crime a imigração irregular. Nos aeroportos europeus, à saída dos aviões, policiais e, geralmente, até cachorros, controlam os documentos dos passageiros logo depois de desembarcarem, dando preferência aos não-brancos, vindos da África, da Ásia ou de aparência árabe. O mundo rico aceitou a independência das antigas colônias, mas se negou a desenvolvê-las, para que continuem sendo as fornecedoras de matéria-prima, compradoras de equipamentos superados pela tecnologia do primeiro mundo, plantadoras dos cereais, frutas e legumes arrematados por preços vis e vendidos nos supermercados europeus por preços elevados.
Locarno funciona como uma zona franca do cinema, porém, muitas dessas produções, mesmo se aplaudidas e premiadas com o troféu Leopardo de Ouro, nunca passarão em outro lugar Cinema social Locarno funciona como uma zona franca do cinema – ali pode-se ver de tudo, desde filmes sobre o tráfico de órgãos até a exploração do trabalho –, porém, muitas dessas produções, mesmo se aplaudidas e premiadas com o troféu Leopardo de Ouro, nunca passarão em outro lugar. Assim como seus personagens, a quase totalidade dos filmes sofrerão exclusões e serão vítimas dos monopólios de distribuição, que privilegiam as grandes produções do cinema estadunidense. Essa preocupação do Festival de Locarno pelo cinema mais social, à diferença das preocupações individuais ou psicológicas do cine-
ma hollywoodiano, se deve à feliz sequência de seus diretores – David Streiff, Marco Müller, Irene Bignardi e Frédéric Maire. Porém, para chegar ao formato atual e a sua importância de quarto festival no ranking mundial – disputando com os de San Sebastián, na Espanha, e Sundance –, houve um longo caminho. A criação do Festival de Locarno, em 1946, logo depois da Segunda Guerra, foi obra de alguns cinéfilos quase sem recursos – só em 1963 vieram algumas ridículas subvenções locais e federais. O encontro tinha uma dimensão pequena e recursos técnicos limitados. Muitos anos teriam de passar para que as projeções deixassem de ser em tendas de lona, como de circo, limitandose o acesso do público sem ingresso com cordas facilmente transponíveis. Filmes “comunistas” Nessa época, não havia prêmios. Só em 1949 houve uma tentativa de se criar uma competição, na qual O Ladrão de Bicicleta, de Vittorio de Sica, recebeu o Prêmio Especial do Júri. A seguir, o festival continuou sendo só projeções de filmes, sem competições e prêmios, até 1958. Julgava-se absurdo contrapor películas de Ingmar Bergman, Federico Fellini, Luchino Visconti, Luis Buñuel ou Stanley Kubrik. Na época da Guerra Fria, muitas dissensões entre políticos, imprensa e público foram causadas pela exibição de filmes soviéticos ou de países do leste europeu, a tal ponto que um dos diretores do festival, Vinicio Beretta, foi obrigado a se demitir. Novas brigas estouraram em 1968, ano da revolução estudantil francesa, pelo mesmo motivo: a programação de filmes do leste. O fato chegou a provocar demissões de jurados. Foi nessa época que se exibiu o filme esquerdista do argentino Fernando Solanas, La Hora de los Hornos, um apelo à luta armada na América Latina. No entanto, de nada adiantaram esses sobressaltos de uma sociedade capitalista construída sobre uma rendosa neutralidade e que usufrui dos lucros do sigilo bancário. Em 1969, foi o filme do comunista Alain Tanner, um dos maiores cineastas suíços, o agraciado com o maior prêmio de Locarno, com seu filme Charles, Morto ou Vivo, uma vibrante crítica do sistema suíço ainda sob os ventos da revolução francesa de maio de 1968. Grandes temas Durante a época do cinema novo brasileiro, que coincidia com a ditadura civilmilitar, a maioria dos filmes nacionais era ali exibida em mostras diversas. O apogeu foi com a premiação de Terra em Transe, de Glauber Rocha, em 1967. Seguiu-se, em 1968, o Leopardo de Prata para Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Campos. Treze anos depois, em 1981, foi a vez de um Leopardo de Prata para Pixote, e de um Leopardo de Bronze para Ozualdo Candeias, com o filme A opção, ou As Rosas da Estrada. Depois da ameaça de não se fazer projeções ao ar livre, sob a direção de Freddy Buache,
Cena do filme Ela, a Chinesa, vencedor do Leopardo de Ouro do 62º Festival de Locarno
o Festival de Locarno passou a ser dirigido por David Streiff, responsável pela revalorização das projeções na Piazza Grande de filmes premiados em Berlim, Cannes e outros festivais, numa garantia de bons espetáculos para o grande público. Marco Müller, hoje dirigindo Veneza, trouxe sua experiência de Roterdã, um pequeno festival de terceiro mundo, e internacionalizou Locarno, caminho seguido pela italiana Irene Bignardi, cuja formação de esquerda permitia o debate dos grandes temas da época. O retorno à direção de um suíço, Frédéric Maire, marcou a consolidação de Locarno, que, em 2002, teve reconhecida sua condição de festival Categoria A, ao lado de Cannes, Veneza e Berlim.
Durante a época do cinema novo brasileiro, que coincidia com a ditadura civilmilitar, a maioria dos filmes nacionais era ali exibida em mostras diversas. O apogeu foi com a premiação de Terra em Transe, de Glauber Rocha, em 1967 Crise? Ao deixar Locarno para dirigir a Cinemateca suíça, Frédéric Maire entregou, ao francês Oliver Père, exresponsável pela Quinzena dos Realizadores de Cannes, um festival que reúne diariamente, em suas diversas salas e na Piazza Grande, cerca de 20 mil pessoas. A atual crise provocou uma ligeira baixa na frequência, considerada temporária. Apenas uma incógnita: o maior patrocinador de Locarno nesses últimos anos tem sido o banco UBS. Porém, suas perdas com os subprimes americanos e o atual processo por fraude nos EUA poderão reduzir ou anular seu suporte. O Brasil não ganhou mais nenhum prêmio na competição internacional depois do cinema novo, e a qualidade de seus filmes tem variado. Marco Müller, apesar de ter origem brasileira por parte da mãe, programou poucas produções do país por não considerá-las, naquela época, à altura das exigências da competição. Em contrapartida, alguns cineastas brasileiros passaram a evitar Locarno. Hoje, dirigindo Veneza, Müller escolhe para si os melhores do cinema do Brasil.
Leopardos para
migrantes e imigrantes de Locarno (Suíça)
Em 2009, os filmes premiados em Locarno tratam todos da migração, em lugares e de modo diversos, de maneira cômica ou trágica. O ambicionado Leopardo de Ouro foi para uma cineasta chinesa, Xiaolu Guo, cujo filme, Ela, a Chinesa, mostra a história de uma chinesa que emigra depois de viver uma vida sem futuro num lugarejo de seu país. O filme mostra a realidade do interior chinês, com suas limitações e seus trabalhos precários. A personagem do filme, Mei, acaba sendo violada, o que a leva a tentar a sorte em outra cidade, numa fábrica de camisas de exportação. Sem boa formação, comete erros e é demitida, passando a trabalhar num salão de cabeleireiro, onde encontra Spyke, capanga da máfia local, logo abatido por um grupo rival.
Porém com o dinheiro de Spyke, escondido numa caixa debaixo do colchão, Mei vai para Londres, torna-se imigrante, casa com um idoso para obter a documentação legal, mas fica grávida de um imigrante muçulmano, entregador de pizzas. Seu amante se torna fundamentalista e, sob a influência de suas leituras do Corão, manda embora a chinesa, que deveria ser tão impura como a carne de porco que ela comia. Outros prêmios O Leopardo de prata de melhor direção foi para o filme russo de Alexei Mizgirev, Buben Baraban, vivido na fase de transição da economia comunista planificada para a economia de mercado, na qual as pessoas lutam para sobreviver. Uma bibliotecária tem uma vida de privações numa decadente cidade mineira para onde migrara após deixar a cidade de seus pais e irmãos. Seus fins de mês
são difíceis, pois seu salário é pago geralmente com atraso. Para ganhar alguma coisa a mais, ela vende livros da biblioteca numa cidade vizinha. E, assim, encontra outro migrante, com uniforme da marinha, que, sem reconhecê-la, vem devolver um livro da biblioteca comprado no trem. O prêmio de melhor ator foi para o grego Antonis Kafetzopoulos, da comédia Praça Academia Platonos, uma visão alegre sobre as relações dos gregos com os imigrantes albaneses, dirigida por Filippos Tsitos, um dos filmes mais apreciados pela crítica e pelo público do festival (leia box nesta página). A melhor atriz foi Lotte Verbeek, do filme Nada Pessoal, da cineasta polonesa Urszula Antoniak, que mora na Holanda. Ela vive a personagem de uma emigrante holandesa que, num clima de extrema solidão, vai viver pobremente na Irlanda com um eremita. (RM) Divulgação
A atriz Lotte Verbeek beija o prêmio que recebeu pelo filme Nada Pessoal
Filme trata preconceito com humor de Locarno (Suíça)
O filme grego Praça Academia Platanos conta a história de quatro donos de pequenos comércios praticamente sem movimento que passam o dia sentados diante de suas lojas, bebericando ou falando mal dos albaneses e dos chineses que por ali passam. Na verdade, são
uns comerciantes pés-dechinelo, mas têm pelo menos uma coisa da qual se orgulham – descendem da grande civilização grega. Mas um deles é, de repente, chamado à dura realidade. Um dos operários albaneses do qual todos riam é, provavelmente, seu irmão. Ou seja, por tabela, ele é também albanês. Foi uma foto que fez sua mãe, já velhinha, lembrar-se de ter deixado, na Albânia, um de seus dois filhos, hoje reconhecido por ela como o tal albanês. A Europa ainda não conseguiu digerir seu multi-
culturalismo, nem as relações próximas com seus vizinhos. A Albânia ainda não faz parte da União Europeia, mas logo fará, elevando à situação de cidadão europeu os imigrantes que invadiram a Grécia na época precedente e posterior à queda do comunismo albanês. Para tornar ainda mais divertida a comédia grega, um dos quatro comerciantes tem um cachorro, chamado Patriota e dotado de um faro especial: ele late toda vez que se aproxima um albanês da pequena praça da Academia. (RM)
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Terrorismo tumultua ambiente pré-eleitoral BOLÍVIA Explosão de duas cartas-bomba em La Paz aumenta a tensão entre governo e oposição a quatro meses das eleições presidenciais Vinicius Mansur correspondente em La Paz (Bolívia) NO DIA 12, duas cartas-bomba, entregues pelos Correios, explodiram em La Paz. A primeira, endereçada ao arquiteto Juan Carlos Antequera Soliz, estourou às 11 horas da manhã na sede da Construtora Engenheiros Civis Associados (ICA) e deixou dois bombeiros feridos. Graças a uma denúncia anônima, os funcionários da empresa conseguiram escapar do atentado e acionaram o Corpo de Bombeiros.
O presidente Evo Morales pediu que as lideranças de movimentos sociais e partidárias tomem cuidado, mas que tenham coragem de enfrentar o que considera uma tentativa de amedrontamento Já a segunda, cujo destinatário era Fidel Surco, presidente da instância que articu-
la os movimentos sociais que apoiam o governo nacional – a Coordenadora Nacional pela Mudança (Conalcam, na sigla em espanhol) – não contou com aviso prévio. Explodiu por volta das 15 horas da tarde, nas mãos de Arminda Colque, 33 anos, esposa de Surco, no Sindicato Volantes a Yungas. A bomba quase a levou à morte, além de deixar outros quatro feridos. Os atentados não provocaram nenhum falecimento. O caso de Colque é o mais grave de todos. Ela será levada aos Estados Unidos ou a Cuba para poder tratar os ferimentos. Até o fechamento desta edição (dia 18), a única conclusão divulgada pelos investigadores sobre os atentados diz que as bombas foram fabricadas por profissionais. Porém, em um momento em que outras ações terroristas no país estão sob investigação, o episódio das cartas-bomba foi rapidamente politizado. “Coragem” O presidente Evo Morales, após listar uma série de atentados cometidos durante o seu governo (leia box nesta página), pediu que as lideranças de movimentos sociais e partidárias tomem cuidado, mas que tenham coragem de enfrentar o que considera uma tentativa de amedrontamento. Morales afirmou que a direita está perdida e, por isso, adotou o terrorismo como tática. “O melhor programa da direita são os atentados. O melhor programa da oposição e do neoliberalismo é o terro-
Policial boliviano no local do atentado que feriu gravemente a esposa de Fidel Surco, líder do Conalcam
No dia 16 de abril, um grupo terrorista foi desmantelado pelas forças de segurança nacional em um pesado confronto no Hotel das Américas, em Santa Cruz de la Sierra, no oriente boliviano rismo Eles não aceitam que o movimento popular possa assumir a condução do país. Esses atos são puramente políticos”. A oposição retrucou. O presidente do Senado, Óscar Ortiz, afirmou que “os terroristas, aqueles que puseram bombas no passado, estão no Palácio de Governo”, referindo-se aos ex-guerrilheiros de esquerda que optaram pela luta armada no passado, entre eles, o vice-presidente Álvaro García Linera. Para o sociólogo e professor da Universidad Mayor de San Andrés (UMSA) e especialista em Segurança Pública, Antonio Moreno, é preciso calma e esperar a apuração para que se evite uma politização exagerada dos fatos. “O país vive um momento extremamente delicado. Já está provado que Rózsa estava aqui para promover uma convulsão so-
Justiça de Santa Cruz briga para controlar a investigação do correspondente em La Paz (Bolívia) Há poucos dias, a Corte Suprema de Justiça (CSJ) decidiu que o caso Rózsa deverá ser passado para o judiciário do departamento de Santa Cruz. O ministro de Governo, Alfredo Rada, reagiu rapidamente à mudança, acusando a elite crucenha [de Santa Cruz] de tentar encobertar o ocorrido. “Os mesmos que financiaram a aventura terrorista estão investindo para garantir que haja falhas judiciais que entorpeçam as investigações”. O promotor responsável pelo caso em La Paz, Marcelo Soza, também afirmou que a decisão da CSJ é um “claro favorecimento aos implicados”, e que vai esgotar todos os mecanismos legais para reverter a resolução dada pelo juiz Luis Tapia Pachi. Já o senador do MAS, Ricardo Díaz, atacou Pachi diretamente, a quem acusou de ser um juiz militante da direita. “Ele responde pela Falange Socialista Boliviana, que esteve operando a tomada e o saque de instituições públicas que a oposição tentou fazer há um ano. Esse mesmo partido tentou forjar um debate sobre qual de-
O promotor responsável pelo caso em La Paz, Marcelo Soza, também afirmou que a decisão da CSJ é um “claro favorecimento aos implicados”, e que vai esgotar todos os mecanismos legais para reverter a resolução veria ser a capital do país para impedir o processo constituinte. E ele também foi responsável por livrar o latifundiário Branko Marinkovic de qualquer culpa por suas terras ilegais”, disparou. Recurso O governo já apresentou na CSJ um recurso pedindo a impugnação dessa decisão, alegando que não foram respeitados os atos e formalidades judiciais necessários. Segundo o vice-ministro de Coordenação Governamental, Wilfredo Chávez, os atropelos denunciam um desespero de quem quer tomar uma medida às pressas. De acordo com o recurso do governo, o tribunal que definiu o translado do processo era inválido. Ele deveria ter sido convocado com pelo menos 24 horas de antecipação, e não com apenas
três, como ocorreu. Chávez ainda alega que a participação da magistrada Rosario Canedo na decisão foi irregular. O governo já tinha emitido seu veto ao nome de Canedo entre os magistrados. Para não acatar essa posição, a legislação diz que a Sala Plena da CSJ tem que ter, pelo menos, sete votos contrários ao pedido do Executivo. Porém, apenas seis magistrados se opuseram. Os três detidos por conta das investigações – Mario Francisco Tadic, Elod Toazo e Alejandro Gelafio Santiesteban – vão pedir suas transferências para a jurisdição crucenha. Segundo o advogado de Santiesteban, Oswaldo Soto, “seu cliente deve ser julgado por Santa Cruz, onde foram presos e onde as autoridades são imparciais”. (VM)
cial. Ele não veio a passeio. Porém, a politização extrema da violência pode servir para aqueles que querem impedir o processo de mudanças”. O caso Rózsa No dia 16 de abril, um grupo terrorista foi desmantelado pelas forças de segurança nacional em um pesado confronto no Hotel das Américas, em Santa Cruz de la Sierra, no oriente boliviano. Uma bomba explodiu no local e 30 quartos de um dos andares foram destruídos. Na operação, morreram o romeno Mayarosi Ariad, o irlandês Duayer Michael Martin e o croata-boliviano Eduardo Rózsa Flores. O boliviano Mario Fardig Astorga e o húngaro Iedad Votel Toazo foram presos. As investigações descobriram que Rózsa era o líder da quadrilha e desvendaram seu
passado sinistro e seus projetos de promover uma guerra separatista na Bolívia. Nascido em 1960, em Santa Cruz, Rózsa foi combatente da Guerra dos Bálcãs, em 1991, quando lutou pela independência da Croácia. Mercenário de profissão, Rózsa fez parte do grupo de ultradireita Movimento de Libertação Croata, fundado em 1956 por apoiadores do regime nazista de Adolf Hitler. Sua tarefa era promover, no leste europeu, o que chamava de “guerra suja”, incitando conflitos civis através de grupos paramilitares. Até 1995, ele dirigiu 380 homens que formavam a Brigada Internacional Croata. A atuação do grupo liderado por Rózsa na Bolívia passou a ser investigada pela Justiça de La Paz e, segundo o promotor responsável pelo caso, Marcelo Soza, os documentos encontrados no computador do mercenário denunciam planos para promover uma guerra separatista no país. Financiadores De acordo com Soza, alguns financiadores da quadrilha já haviam sido desvendados. “Alejandro Melgar Pereyra e Hugo Antonio Achá Melgar são dois dos
três financiadores da milícia. E eles têm vínculos com quatro entidades empresariais crucenhas [de Santa Cruz] e uma fundação internacional”, apontou. As organizações são o Instituto Boliviano de Comércio Exterior (IBCE); a Câmara Agropecuária do Oriente (CAO); a Câmara de Indústria, Comércio, Serviços e Turismo de Santa Cruz (Cainco); e a Human Rights Foundation (HRF). Durante as investigações, o representante da Confederação de Empresários Privados da Bolívia (CEPB), Gabriel Dabdoub Álvarez, foi chamado para depor. Grupos empresariais de Santa Cruz são, juntamente com setores latifundiários, os principais financiadores do Comitê Cívico local, entidade que impulsiona as ações próautonomia (alguns as classificam de separatistas) do departamento em relação a La Paz. A HRF, por sua vez, chegou ao país em maio de 2008 para legitimar o referendo autonômico crucenho, considerado ilegal pelo governo Morales. Desde então, produz relatórios e comunicados com críticas severas ao presidente aymara e às medidas de sua administração.
Ações terroristas durante o governo Evo Morales: 21 e 22 de março de 2006 – Com dois meses de governo Morales, duas bombas em dois hotéis em La Paz deixam dois mortos e onze feridos. O estadunidense Lestat Claudius, de Nova Orleans, é condenado a 30 anos de prisão pelo atentado. 22 de outubro de 2007 – Duas bombas explodem em Santa Cruz. Uma em uma casa vizinha ao consulado da Venezuela e outra em instalações de uma brigada médica cubana. 5 de novembro de 2007 – A sede da representação presidencial em Santa Cruz sofre um atentado a bomba. 28 de novembro de 2007 – A sede do MAS é incendiada na província de Cercado, no departamento de Tarija. Em Cobija, no departamento de Pando, o senador do Poder Amazônico Social, Abraham Cuéllar, apoiador de Morales, tem sua casa queimada. 12 de dezembro – A casa do presidente da Associações de Moradores do Plano Três Mil, em Santa Cruz, Nicanor Muñoz, sofre um atentado com dinamite. O Plano Três Mil é um bairro de periférico da cidade de Santa Cruz, onde há forte apoio ao presidente. 15 de dezembro de 2007 – A Corte Suprema do Distrito de Santa Cruz sofre um atentado com explosivos. 22 de dezembro de 2007 – Uma bomba explode próxima ao hotel Casa Blanca, em Santa Cruz, onde Morales estava em reunião. No mesmo dia, o deputado constituinte pelo MAS, Carlos Romero, agora ministro da Autonomia, denuncia uma tentativa de incêndio de sua casa, em Santa Cruz. 24 de dezembro de 2007 – Instalações da Central Obrera Boliviana (COB) sofrem um atentado a bomba. 19 de junho de 2008 – Dois jovens são detidos nas proximidades do aeroporto El Trompillo, em Santa Cruz, portando uma arma com mira telescópica e 300 balas. Eles foram liberados pela Justiça local. 21 de junho de 2007 – O canal 4, da opositora Unitel, em Yacuiba, em Tarija, é vítima de explosões. No mesmo dia, um helicóptero presidencial sofre um misterioso acidente, matando três venezuelanos e dois membros da Força Aérea Boliviana. 5 de agosto de 2008 – O carro do ministro da Presidência Juan Ramón Quintana é atingido por vários disparos na cidade de Trinidad, no departamento de Beni. 13 de agosto de 2008 – O Centro de Estudos Jurídicos e Ação Social (Cejis), que assessora movimentos sociais em Santa Cruz, é atacado com quatro coquetéis molotov. 1º de novembro de 2008 – Uma bomba explode em casa vizinha ao domicílio do promotor-geral do Ministério Público, Mario Uribe, em Sucre. 30 de março de 2009 – Uma granada explode na casa do ex-constituinte Saúl Ávalos, em Santa Cruz. 14 de abril de 2009 – Uma bomba explode na casa do cardeal Julio Terrazas, opositor de Morales. 24 de julho de 2009 – A casa do governador de Potosí, Mario Virreira, aliado de Morales, sofre um atentado. 12 de agosto de 2009 – Explodem duas cartas-bomba em La Paz, deixando sete feridos. Uma estava endereçada ao arquiteto Juan Carlos Antequera Soliz; a outra, ao presidente da Conalcam e líder social, Fidel Surco.
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Nas prefeituras, renasce a aliança entre socialistas e comunistas Reprodução
CHILE Administrações de esquerda nas periferias da capital Santiago desafiam a hegemonia política da aliança que governa o país há duas décadas Achille Lollo de Santiago (Chile) DE MAIO A setembro, o centro da capital do Chile, Santiago, oferece um tratamento especial para os turistas estadunidenses e europeus se “sentirem em casa” e, assim, gastarem seus dólares em restaurantes, lojas de artesanato mapuche, joias de prata com os raros lapilazuli e excursões a Viña del Mar ou outros balneários do oceano Pacífico. Um circuito bem programado que, segundo a vereadora comunista, Claudia Pascual, “foi ensaiado durante os últimos 20 anos, com o objetivo de confirmar nos visitantes a sensação de modernidade, de bem-estar e, sobretudo, de perfeição de um modelo econômico que respeita somente os interesses dos bancos e dos empresários”. Por isso, a “Comuna de Santiago” – uma espécie de prefeitura que administra os bairros residenciais e o centro comercial da capital – é o balão de ensaio da capacidade dos políticos da Concertação – aliança dominada por partidos social-democratas e democratas cristãos que ocupam a presidência do país desde 1990 – de manterem a chamada maquiagem socioeconômica da capital.
Tanto que, à noite, equipes de carabineiros (policiais militares) vasculham as ruas que cruzam o rio Mapocho à procura de mendigos, drogados e todos aqueles que, com suas atitudes, são considerados os novos “inimigos da sociedade”. Ou, como o agente carabineiro Jorge Díaz diz, aqueles que “comprometem a imagem serena de Santiago, cidade da qual prostitutas, homossexuais e marginais se tornaram donos, diferentemente do que acontece nas capitais dos outros países sul-americanos”. Mas, para conhecer a capital real, é necessário sair da luxuosa avenida Vicuña Mackena e, no fim da tarde, ir aos terminais rodoviários e ferroviários para descobrir que uma “outra Santiago” percorre a tangencial avenida Carrascal para voltar aos subúrbios, onde se concentram 75% da população da cidade. Prefeituras suburbanas
A ditadura militar que Augusto Pinochet liderou, de 1973 até 1990, não só reprimiu e dizimou a esquerda, os sindicatos e os organismos populares, mas, também, reformulou a forma de governar e de administrar as cidades e o Estado, para evitar que os candidatos do Par-
Estação de metrô de Santiago: luxo que não alcança a periferia
La Victoria, centro de resistência Prefeita comunista mantém viva a história de lutas populares da comuna localizada na periferia da capital de Santiago (Chile) Quando em Santiago se fala da comuna La Victoria, imediatamente há duas reações. Se o interlocutor é um governista conservador, com ar severo, corrige dizendo que o verdadeiro nome é “Comuna de Pedro Aguirre Cerda”. Se estamos falando com alguém de esquerda, a resposta é uma só: “É o centro de nossa resistência, sob a liderança da prefeita comunista Claudina Nuñez. Foi em La Victoria que, em 18 de setembro de 1986, Claudina liderou um movimento popular desafiando o estado de sítio, proclamado após o atentado a Pinochet!”. A Comuna de Pedro Aguirre Cerda será a que, nas eleições de novembro, certamente elegerá o primeiro representante do Partido Comunista ao Parlamento, Guillermo Teillier. Leia a seguir a entrevista da “Alcaldesa” Claudina Nuñez ao Brasil de Fato: Brasil de Fato – Muitos moradores dizem que, se em novembro conseguirem eleger Teillier, pedirão a troca do nome da prefeitura por “La Victoria”. A senhora pode explicar por que a prefeitura de Pedro Aguirre Cerda se tornou o símbolo da esquerda e, sobretudo, dos comunistas chilenos?
Claudina Núñez – Hoje, os bairros de nossa prefeitura estão bonitos, temos jardins, escolas, creches e hospitais que funcionam. Mas, 30 anos atrás, após o golpe, tudo o que o governo de Unidade Popular [de Salvador Allende] havia criado foi desmantelado. Aqui o povo sofreu a fome nos anos da primeira crise da ditadura [1981/87]. Nas casas
de madeira, não havia aquecimento. A maioria dos homens estava desempregada e qualquer protesto era considerado ato subversivo. Mas o povo não se calou e, aos poucos, começou a se organizar, para depois sair à rua para se manifestar pelas pequenas coisas que poderiam mudar sua qualidade de vida. E foi assim que os comunistas, os socialistas, os progressistas em geral, reconquistaram o território, conseguindo mobilizar o povo apesar daquele clima de repressão política, e repetindo o que foi feito nos anos 1930, quando essa comuna foi centro de grandes lutas populares. Uma herança histórica que deixou sua chancela na ocasião do plebiscito contra Pinochet, em 1990. Aí, vimos que nossos moradores queriam construir uma nova La Victoria, que, finalmente, veio em 28 de outubro de 2008. A ditadura criou uma nova legislação eleitoral, que excluía, a priori, o Partido Comunista e outras forças políticas consideradas subversivas. Depois, com a Concertação, os socialistas
mantiveram essa lei. Agora, uma parte deles apoia a ideia do PCC de apresentar uma lista própria que concorreria junto a dos socialistas. Outra parte espera que a direita levante a voz para justificar sua falsa solidariedade. Acha possível quebrar essa contradição da Concertação?
Acredito que sim, porque o projeto da Concertação, que conquistou a maioria dos parlamentares do PS, está afundando. Hoje, aquela maioria parlamentar do PS que, durante 18 anos, fez o jogo da direita para se manter na área do poder, além de não ser mais majoritária no próprio PS, sabe que seus eleitores não querem mais essa indefinição. Por outro lado, as bases do Partido Socialista não rejeitaram a experiência da Unidade Popular de Allende. Nós, do Partido Comunista do Chile, durante 18 anos, fizemos de tudo para reformar a Constituição de Pinochet e, sobretudo, essa lei que põe os comunistas à margem do processo eleitoral nacional. Não conseguimos. Por isso vamos fazer esse acordo específico e eleitoral, para terminar com a exclusão do PCC. Hoje, amadureceram as condições para mudar essa lei; inclusive o setor da democracia cristã, liderado por Eduardo Frei, concorda com a mudança. (AL) Ariel Cruz Pizarro/CC
Rua na Comuna de Pedro Aguirre Cerda
tido Comunista, com o apoio dos sindicatos, se tornassem majoritários, sobretudo nas prefeituras. Para tal, foi introduzido um projeto de descentralização administrativa que, no caso da capital Santiago, dividia a cidade em diferentes áreas administrativas, transformadas em “Comunas”. Uma divisão que legitimava a separação dos guetos operários e proletários – tendencialmente opositores ao regime – dos bairros residenciais, onde se concentra a classe média, que, juntamente da Igreja Católica, foi o principal polo social de sustentação política da ditadura. Na prática, isso implicou um diferente planejamento dos recursos públicos. Por exemplo, no centro da cidade (Comuna de Santiago) funciona uma linha de metrô que faz lembrar a linha principal do metrô de Paris, na França. Porém, na suburbana comuna de Pedro Aguirre Cerda, mais conhecida por “PAC - La Victoria”, os transportes representam o drama diário de seus moradores, que, diariamente, gastam até quatro horas para ir e voltar do trabalho. Com a privatização da maioria dos serviços públicos, a vida nas administrações da periferia piorou notavelmente. Tanto que, logo após os primeiros anos sangrentos da ditadura, foi no bairro de PAC - La Victoria que as lutas para uma vida melhor recomeçaram, desafiando a ditadura de Pinochet e sua metodologia orçamentária.
Em La Florida, uma administração “de esquerda, popular e participativa” Militantes de esquerda integram o governo de socialista que adota o “Orçamento Participativo” das administrações petistas de Porto Alegre de Santiago (Chile) A comuna La Florida é a maior do Chile, seja em número de habitantes, seja em extensão, superando, inclusive, a de Santiago. Em outubro de 2008, essa prefeitura suburbana rompeu com a arquitetura política da Concertação e elegeu Jorge Alfredo Gajardo García, um socialista que não pensou duas vezes em compor as secretarias e os departamentos da prefeitura com militantes da esquerda, inclusive do próprio Partido Comunista. Alguns consideraram tal atitude uma ousadia política que rompeu com a diplomacia oportunista da turma da presidente Michelle Bachelet. Para outros, Gajardo García se aproveitou de sua popularidade na televisão chilena para implementar um projeto político que mistura a antiga Unidade Popular com o Orçamento Participativo petista. Gajardo, além de exercer firmemente o cargo de prefeito, continua a participar diariamente seu programa de TV, no qual representa um pai de uma família chilena de classe média. Há vinte anos, o programa mantém um índice de popularidade inatacável. A seguir, a entrevista com Gajardo: Brasil de Fato – Em seu programa de TV, você interpreta uma personagem que – no meio de ironias e piadas – debate os grandes problemas da sociedade chilena, em particular o gradual empobrecimento
“Eu penso que devemos chamar o povo de La Florida para ele dizer que tipo de cidade quer, dandolhe, também, os instrumentos para fiscalizar nosso trabalho e nos ajudar nas correções dos erros” da classe média e a incompreensão geracional. Afinal, por que entrou na política?
Jorge Alfredo Gajardo García – Antes de tudo, estava convencido de que o processo da Concertação tinha perdido sua originalidade e que, portanto, era o momento de propor algo de novo para o povo, que, por sua parte, quer algo de novo. Então, entrei nessa eleição sabendo que, se perdesse, colocaria em risco minha carreira profissional de ator. Ganhamos, e bem. Por isso, estamos ensaiando fazer funcionar uma administração de esquerda, popular e participativa. Você por acaso importou o projeto do Orçamento Participativo do PT de Porto Alegre?
Quero ser sincero. Gostei do conceito, mas tenho muitas dúvidas sobre a maneira de como em Porto Alegre se implementou esse projeto, ao dar demasiada prioridade e poderes à burocracia. Eu penso que devemos chamar o povo de La Florida para ele dizer que tipo de cidade quer, dando-lhe, também, os instrumentos para fiscalizar nosso trabalho e nos ajudar
nas correções dos erros. Como prefeito, criei uma equipe de governo que, ao mesmo tempo, é competente do ponto de vista político e capacitada nas práticas administrativas. Enfim, um grupo que sabe o que o povo quer e também como realizar isso tudo. Acredita que essa sua administração de esquerda vai contribuir para a definitiva aceitação em todo o PS do acordo com o PCC para que este participe, nas eleições de novembro, da mesma chapa?
Eu não sou tão pretensioso. Nosso projeto é, apenas, um projeto político local, que quer fazer uma administração eficiente e de esquerda nessa prefeitura. Portanto, estamos trabalhando para isso. É muito cedo dar-lhe demasiada importância. O problema real é fazer com que o acordo político sirva para construir uma maioria que mude essa lei eleitoral, pois, no momento, sem isso não existem as condições para se fazer uma frente eleitoral de nível nacional. Hoje, a prioridade da esquerda é derrotar a direita pinochetista. (AL)
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ENTREVISTA Para José Cademartori, último ministro de Economia do governo de Salvador Allende, a proclamada blindagem da economia chilena é mais marketing político que realidade Achille Lollo de Santiago (Chile) COM MEDO DA recessão, a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, tentou vincular a economia do seu país ao Mercosul (Mercado Comum do Sul). Os resultados foram poucos, visto que a economia chilena depende dos mercados estadunidense e japonês, e sua legislação comercial favorece as empresas estrangeiras com matriz no Chile. Para entender o que acontece na economia local a partir da derrota da ditadura em 1990 e da crise do neoliberalismo, a reportagem entrevistou o professor José Cademartori, último ministro de Economia do governo de Salvador Allende e o principal crítico da gestão econômica dos governos da Concertação, ampla aliança política dominada por partidos social-democratas e democratas cristãos.
“Apesar da recuperação desses últimos 10 anos de ‘democracia’, os trabalhadores e o povo em geral ainda não conseguiram igualar o nível de bem-estar que tinham durante o governo Allende” Brasil de Fato – O golpe militar de 1973 serviu para impor o modelo neoliberal que entrou no Chile com cheiro de sangue. O senhor pode resumir o que aconteceu no setor industrial nos anos que sucederam? José Cademartori – O golpe de Estado introduziu um novo modelo, que modificou o sistema econômico, o contexto social e a própria organização da sociedade, com a retirada de quase todas as conquistas sociais e salariais do governo Allende. Hoje, os trabalhadores ainda não recuperaram todas as perdas salariais que sofreram. Portanto, a primeira conclusão é que, apesar da recuperação desses últimos 10 anos de democracia – a colocaria entre aspas –, os trabalhadores e o povo em geral ainda não conseguiram igualar o nível de bem-estar que tinham durante o governo Allende. Inclusive porque, com as privatizações, houve um retrocesso que, do ponto de vista social, não tem comparações com nenhum lugar do mundo.
Qual foi o motivo de tão lenta recuperação? O custo social das mudanças que a ditadura introduziu no sistema econômico foi pago exclusivamente pelos trabalhadores. Por exemplo: para rentabilizar algumas empresas, os interventores militares, além de cortar benefícios trabalhistas e silenciar os sindicatos, reduziram bastante os salários, o que transformou o trabalho fabril em semiescravo, visto que quem protestava era logo preso como subversivo comunista. Por outro lado, Augusto Pinochet endividou o país a tal ponto que, em 1981, quando explodiu a crise financeira internacional, a dívida externa implodiu. Uma dívida que o governo militar extrapolou para financiar joint ventures com empresas estrangeiras e, sobretudo, para financiar as importações destinadas à classe média. Quem pagou o preço dessa dívida, de 1981 até 1987, foi o povo trabalhador. A cada quatro chilenos, um era desempregado, e quase meio milhão de desempregados chilenos emigrou para sustentar os familiares que ficavam. Uma situação que ficou ainda mais desastrosa no interior, onde os camponeses, para não morrerem de fome, chegaram a comer as folhas das árvores frutíferas que cultivavam. Porém, foi essa situação que fez explodir as lutas, em 1990, na ocasião do plebiscito contra Pinochet [através do qual os chilenos disseram “não” à sua proposta de se manter no poder até 1997]. Com o plebiscito, os trabalhadores se vingaram de Pinochet ou foi um processo mediado pelos socialistas? A verdade é que a maioria do povo estava perdendo o medo dessa ditadura, por isso é que o projeto de governo de Pinochet foi rejeitado. Como você disse, os trabalhadores se vingaram de tudo aquilo que sofreram. O acordo com os socialistas veio depois, quando, com a derrota de Pinochet, conservadores e moderados reconheceram o risco de uma explosão popular. Por isso, a prioridade era se associar com alguém capaz de gerenciar o “controle social”, isto é, o próprio Partido Socialista de Allende, que contribuiu para a legitimação, diante do povo, da chamada Concertação, que, por sua vez, criou diferentes jaulas para separar e fechar nelas o movimento social. Porém, foi a partir desse novo contexto político que o movimento social chileno reformulou sua personalidade política para recuperar as conquistas sociais. Como a ditadura e os governos da Concertação se relacionavam com os sindicatos? Quando os militares esgotaram o furor repressivo, se
Bachelet e Obama: economia chilena depende do mercado estadunidense e japonês
deram conta de que não haviam conseguido quebrar a representatividade dos sindicatos. Então, passaram a adotar o modelo do sindicalismo amarelo [peleguismo] estadunidense enquanto instituíam várias leis que anulavam os direitos de organização sindical. Quem mais danos provocou foi o aparelhamento do sindicalismo amarelo nas principais fábricas, ao ponto que, em uma unidade, havia três ou quatro sindicatos, e mais uma série de associações que, aparentemente, travavam lutas entre elas, mas, na verdade, tinham por objetivo a desarticulação dos sindicatos históricos de esquerda, além de confundir as mobilizações das bases operárias.
“Com a derrota de Pinochet, conservadores e moderados reconheceram o risco de uma explosão popular. Por isso, a prioridade era se associar com alguém capaz de gerenciar o ‘controle social’” Por exemplo, o governo militar introduziu tantas normas burocráticas que era praticamente impossível promover a negociação coletiva de uma categoria na própria fábrica. Às vezes, os operários renunciavam a oficialiReprodução
Santiago: minoria com poder de compra está longe dos subúrbios
“A partir de 1990, com a volta dos governos civis, é que as transnacionais entram com peso no Chile, para comprar as empresas do setor minerador e energético, porque eram estas que davam mais lucro” zar a abertura de uma negociação em função das exigências burocráticas. Os governos da Concertação mantiveram a linha política dos governos militares, dificultando as tentativas de restabelecer a negociação coletiva nacional das categorias. Porém, nestes últimos quatro anos, os trabalhadores temporários dos principais setores que alimentam as exportações (cobre, florestas e salmão) começaram uma luta heroica para efetivar seu contrato de trabalho. Esse fato reacendeu todo o movimento sindical, e nessa onda os professores e os estudantes do ensino público entraram em greve para impedir que o governo renovasse uma lei de Pinochet, que priorizava o financiamento ao ensino privado. Se o golpe contra Allende foi feito para privatizar, por que as transnacionais começaram a investir no Chile somente no fim da década de 1980? A sangrenta repressão entre 1973 e 1975 não eliminou as dúvidas nas diretorias das transnacionais sobre a estabilidade nas fábricas. Elas viviam com medo de uma explosão popular. Por isso, limitaram o apoio que deviam ao regime militar, em função dos benefícios que Pinochet lhes oferecia com a exportação de minérios a preços mais baixos. Em que período as transnacionais entraram em setores da economia que o regime militar havia desnacionalizado e preparado para a privatização? A partir de 1990, com a volta dos governos civis, é que as transnacionais entram com peso no Chile, para comprar as empresas do setor minerador e energético, porque eram estas que davam mais lucro. Diferentemente, os investimentos na indústria ligeira [que fabrica bens de uso e consumo particular] foram limitados, inclusive as joint ventures com indústrias
ram para criar uma nova forma de desenvolvimento econômico, conforme os teóricos de Chicago alertavam. Os empréstimos foram concedidos para sustentar a ditadura de Pinochet e sua economia, que artificiosamente sempre foi apresentada como algo de rentável. Uma moldura que, depois, serviu para garantir a continuidade do pacote constitucional do regime militar com os governos da Concertação. Como lembrei, a crise entre 1981 e 1987 foi a mais grave, se não parecida, desde a dos anos 1929/30. Mas, a seguir, tivemos a crise asiática. Para nos livrarmos dos seus efeitos, demoramos sete anos, até 2004. Depois, tivemos três anos de crescimento, com a alta dos preços do cobre e de outras commodities, mas, a partir de março deste ano, estamos novamente com a ameaça de recessão, visto que o preço do cobre em apenas três meses caiu de 4 dólares para 1,50, lembrando que o cobre é o principal produto de nossa exportação.
chilenas. O poder de consumo dos chilenos era tão baixo que era mais vantajoso financiar a criação de novas empresas importadoras de produtos industriais que investir para criar novas indústrias. Outro empecilho era, inclusive, a legislação dos militares que retirava os impostos às importações. Nos últimos anos, as transnacionais pulverizaram suas propriedades, enquanto que, com os ativos financeiros obtidos, formavam empresas com grupos financeiros chilenos para investir na Argentina, nos Estados Unidos. Por exemplo, no Brasil, um desses grupos comprou muita terra para plantar eucaliptos para abastecer futuramente as indústrias de papel da região, visto que na Europa e nos EUA não se pode mais instalar esse tipo de fábricas poluidoras. Para entender bem esse processo, basta ir aos subúrbios de Santiago, onde você não encontra McDonalds, não há os luxuosos Toyota 4x4 ou as poderosas BMW, não há centros comerciais com lojas de grife. O motivo é o de sempre: o povo do subúrbio ou do interior camponês não tem renda para comprar produtos que em Santiago apenas uma minoria adquire.
“O motivo é o de sempre: o povo do subúrbio ou do interior camponês não tem renda para comprar produtos que em Santiago apenas uma minoria adquire”
Os teóricos da economia neoliberal dizem que as crises econômicas não podem atingir o modelo chileno. Porém, parece que a dita blindagem é mais um conceito de marketing político que uma realidade econômica real. Qual é sua opinião? Foi e é um conceito de marketing político para justificar os ataques do mercado globalizado nos mercados dos países em via de desenvolvimento. De fato, ao analisar o volume de empréstimos internacionais assinados por Pinochet com o FMI, o Clube de Paris, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e inúmeros bancos privados dos EUA, Japão e Europa, reparamos que eles não servi-
Dessa vez o Chile se salva da recessão ou esta vai engolir também a Concertação? A recessão está cada vez mais perto, porque Estado e grupos privados estão, praticamente, descapitalizados, pois, em vez de investir no Chile, e acreditando nos teóricos de Chicago, foram investir massivamente nas bolsas estadunidenses e europeias. Em dois meses, perderam quase todos os seus ativos acumulados. Para não perder esses capitais, têm que permanecer nas bolsas, para tentar uma recuperação dos títulos desvalorizados. Por isso, os elementos da crise estão se somando em quantidade e com rapidez e, certamente, esse fato vai enterrar, de vez, a Concertação.
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Um povoado sozinho e cercado Reprodução
HONDURAS Comunidade camponesa de Guadalupe Carney sofre assédio de empresários, paramilitares e do exército do governo golpista María Laura Carpineta de Buenos Aires (Argentina) ELES ESTÃO sozinhos e cercados. As patrulhas da polícia hondurenha e os caminhões do exército rodeiam dia e noite a comunidade camponesa de Guadalupe Carney. Dia sim, dia não, paramilitares, à paisana e com armas de guerra, se aproximam da entrada do povoado no norte hondurenho para exigir que entreguem os supostos militares venezuelanos que, segundo a ditadura, os moradores escondem. Semanas atrás, uma missão internacional de direitos humanos visitou as mais de 600 famílias que vivem ali. Em breve, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) fará o mesmo. “Se ninguém intervier, haverá um massacre com incontáveis perdas de vidas humanas”, avisou a missão em seu relatório. Na semana do golpe que derrubou o presidente constitucional Manuel Zelaya a Câmara de Comércio do departamento (Estado) de Colón, onde fica Guadalupe Carney, difundiu pela rádio e televisão locais um discurso pedindo uma imediata intervenção militar na comunidade camponesa. Como confirmou a missão internacional, os empresários alegavam que era um “bastião da resistência” ao regime de fato, que tinha de ser controlado. “Se as autoridades não o fizerem, nós faremos”, foi a ameaça, que consta do relatório lido recentemente perante a CIDH. Os moradores de Guadalupe Carney estão habituados a ameaças de fazendeiros da região, e sabem que não são palavras vazias. A história dessa comunidade rural, rodeada por montanhas e vales verdejantes e pelos desertos do norte hondurenho, é de luta e mártires. É, como explicou pelo telefone o líder camponês Lorenzo Cruz, a história da reforma agrária inatingível.
Os empresários alegavam que a comunidade era um “bastião da resistência” ao regime de fato, que tinha de ser controlado. “Se as autoridades não o fizerem, nós faremos”, foi a ameaça Conflito agrário
Durante os violentos anos de 1980, o Estado utilizou esses 5.700 hectares para instalar o Centro de Formação Militar, onde forças estadunidenses preparavam soldados hondurenhos para combater as guerrilhas de países vizinhos: a Frente Sandinista, da Nicarágua, e a Farabundo Martí, em El Salvador. O campo de treino durou apenas alguns anos. O governo hondurenho fechou-o e entregou as terras ao Instituto Nacional Agrário para que fossem distribuídas entre os camponeses da região. Os hectares margeando o rio Aguán são os mais produtivos. Em 2000, 700 agricultores tomaram aquelas terras, ilegalmente ocupadas por latifundiários de Trujillo, capital do departamento de Colón, e batizaram a gleba em homenagem ao padre Guada-
lupe Carney, um jesuíta estadunidense morto pelos militares em 1983 por liderar movimentos rurais. Algumas famílias latifundiárias se foram, mas outras ficaram para brigar pelas terras. Mais de uma dezena de camponeses foram mortos em conflitos com os pecuaristas ao longo dos anos. O caso mais recente foi na última noite de Natal. Dois homens invadiram a rua principal da comunidade, onde centenas de pessoas festejavam, e metralharam duas delas. “Depois disso, o presidente Zelaya enviou o exército para nos proteger”, contou Cruz, que é membro da Central Nacional de Trabalhadores do Campo. “O presidente ajudou muito”, recordou.
Desde o golpe de 28 de junho, os moradores bloqueiam a estrada e, consequentemente, o comércio durante dois ou três dias, quase todas as semanas Avanços freados
No ano passado, Zelaya conseguiu que o Congresso finalmente aprovasse a lei para a desapropriação dos 5.700 hectares e entregou os primeiros títulos a moradores da comunidade. Além disso, selecionou-os para receber subvenções para o desenvolvimento agrícola da Alba, o bloco regional liderado por Venezuela e Cuba, ao qual Zelaya ingressou em 2008. Entregou-lhes tratores, fertilizantes e sementes, todos comprados com petrodólares venezuelanos. “Agora, os mesmos soldados que cuidaram de nós durante seis meses, e que conhecem a comunidade, dizem que estamos escondendo soldados venezuelanos e armas”, disse Cruz. Apesar da sua raiva, ele não perde a voz doce e calma. “Estamos num local estratégico para os militares, empresários e narcotraficantes”, acrescentou. A comunidade fica a poucos passos da estrada que conduz a Puerto Castilla. Por ali, saem os carregamentos de bananas da americana Standard Fruit Company e, como denunciaram sucessivos governos hondurenhos, passa uma das principais rotas do narcotráfico no país. Desde o golpe de 28 de junho, os moradores bloqueiam a estrada e, consequentemente, o comércio durante dois ou três dias, quase todas as semanas. Eles podem sair da comunidade, mas apenas em grupos numerosos. E, exceto em casos urgentes, não à noite. “Puseram barreiras na estrada e passam todo o tempo patrulhando a entrada do povoado. Com toda a atenção que as organizações internacionais atraíram, eles não se animam a entrar, mas nos fustigam constantemente”, disse o líder camponês de 54 anos e pai de 11 filhos. Cruz fala todos os dias com os companheiros na capital Tegucigalpa e aguarda ansioso pela visita da Corte Interamericana. Mas ele sabe que, apesar da solidariedade, estão sozinhos, num remoto vale do norte, sem governo nem justiça a quem recorrer (Página 12 – www.pagina12.com.ar. Traduzido pelo Portal Vermelho).
Polícia hondurenha em ação: repressão nunca vista na história do país
“Pequenos empresários e maioria liberal estão contra os golpistas” ENTREVISTA Integrante do Partido Liberal diz que base do partido apoia o presidente deposto, Manuel Zelaya, e que seus “traidores” serão expulsos da agremiação Jennifer Moore de Tegucigalpa (Honduras) Já são mais de 50 dias depois do golpe contra o presidente Manuel Zelaya, e Carlos Eduardo Reina, que pertence ao Partido Liberal e é dirigente da Coordenadora de Liberais Contra o Golpe de Estado, afirma que o mandatário conta com 70% de respaldo dos liberais em nível nacional. Diz, também, que a base do partido repudia os deputados que têm traído Zelaya e que estes, uma hora ou outra, serão expulsos da agremiação, começando pelo presidente golpista Roberto Micheletti e todos que estão ao seu redor. Na entrevista a seguir, abordamos alguns temaschave, como a fragmentação política, o repúdio ao regime de fato por parte de pequenos e médios empresários, os problemas internos das Forças Armadas e a posição da Coordenadora em relação à questão eleitoral. Sob circunstâncias normais, a campanha eleitoral oficial deveria iniciar-se em 29 de agosto. Quão fragmentados estão os partidos tradicionais, especialmente o Partido Liberal, depois do golpe de Estado de 28 de junho?
Carlos Eduardo Reina – O Partido Liberal foi a força política do país que mais ficou dividida depois do golpe. Quase todo o Partido Nacional, por exemplo, é golpista, então não se dividiu. Em relação ao Liberal, a direção do partido se mostrou golpista. Entretanto, a grande base, a grande estrutura, em nível nacional, condena o golpe e respalda o presidente Zelaya. Então, nós assumimos a função de organizar os liberais contra o golpe. Essa organização foi espontânea e, imediatamente, recebeu o apoio de dirigentes de todo o país nos 18 departamentos e nos 298 municípios. Isso se consolidou muito fortemente. O que significa essa fragmentação política
frente a um governo de fato que quer demonstrar que tem seu poder consolidado? O poder do Estado só se sustenta pela força das armas e da repressão. E este é um governo típico em uma situação revolucionária, que só se sustenta pela força. Esperamos que o presidente Zelaya seja restabelecido ao cargo antes que o povo reprimido tome a iniciativa e comece a realizar ações revolucionárias que trariam sangue ao país, o que nós, como coordenadores da frente central e dos liberais contra o golpe, temos que evitar, porque o sangue de nenhum hondurenho deve correr neste país para restabelecer a democracia. Queremos fazê-lo em paz, em manifestações e marchas sempre pacíficas.
“É a grande base social do país. Sete de cada dez hondurenhos apoiam a resistência” O senhor pode comentar sobre seus aliados do setor empresarial? Há alguns setores, mas não é o grande empresário. O grande empresariado, quase todo, está com o golpe. É a pequena e média empresa que veem com perigo o golpe, porque essa oligarquia que o financiou quer assumir o controle de todos os negócios do país. E fazer alianças com as quais vão poder deixar fora de competição a média e a pequena empresa, que sustentam a economia aqui em Honduras. Quais impactos esse setor tem sofrido com o golpe de Estado? Os primeiros impactos vieram quando os países vizinhos fecharam suas fronteiras. Recorde-se da primeira semana depois do golpe: as
fronteiras estiveram fechadas, e geralmente o que transita entre fronteiras são artigos e mercadorias que os pequenos e médios empresários comercializam. Ali teve um primeiro impacto. Um segundo impacto foi quando se restringiu a cooperação regional, e quando diminuíram as remessas do exterior. Enquanto isso, os grandes empresários estão repartindo todos os contratos do Estado. Eles financiam o golpe e o que investem querem sacar com lucros de mil, dois mil ou cinco mil por cento. Quantos pequenos e médios empresários existem no país? Podemos falar de cerca de 50 mil. É muita gente. São aqueles que são donos de pequenos comércios no município, são os que têm a farmácia pequena no bairro, são os que têm o pequeno centro comercial em cada comunidade. Os cafeicultores, os produtores de milho e os produtores de outros tipos de coisas. Esta é a pequena e média indústria hondurenha. Esta é a que gera o capital que circula no país. Este é o dinheiro que se gera para que a economia cresça. Porque o dinheiro da grande oligarquia não está em Honduras. Portanto, é melhor 1 milhão de lempiras [a moeda hondurenha] nas mãos de 100 médios empresários que 1 milhão em mãos de um empresário. Porque esse empresário o coloca no banco e o guarda nos EUA ou na Suíça. O pequeno empresário, imediatamente, investe em seu negócio, gerando um movimento econômico mais forte no país e movendo a economia. Eles estão organizados e vêm tomando uma posição contra o golpe de Estado? Estão organizados, mas temerosos. Se eles saem falando neste momento, o departamento de impostos pode cair em cima deles, podem fazer coisas que podem prejudicar seus negócios . Porque há uma grande repressão no país. As coisas que temos visto nesses últimos 51 dias nunca vimos na história de Honduras. Mesmo em épocas de governos militares, da ditadura dos anos 1930 e 1940, não chegaram aos extremos de hoje, de uma repressão tremenda. Porque só se pode sustentar pela força. Se o Exército reti-
ra o apoio que dá neste momento a Micheletti, ele dura 20 minutos no governo. Então, como estamos vendo cada vez mais gente nas ruas, o senhor diria que há um respaldo à Frente contra o Golpe muito mais amplo e difuso na população? Claro. O grosso dos manifestantes é de diversas origens sociais, de diversas condições. Temos classe média, classe baixa. Temos empregados públicos, pequenos produtores. Temos empregados do comércio. É a grande base social do país. Neste momento, sete de cada dez hondurenhos apoiam a resistência. Dois de cada dez não opinam e só um apoia o regime golpista. Quão sólido é o respaldo das Forças Armadas ao regime de fato? As Forças Armadas, neste momento, têm, internamente, sérios problemas. Há cerca de 200 presos dentro dos batalhões, entre soldados e oficiais, porque eles não aceitaram e não acataram as ordens de reprimir. Há uma crise interna. E essa crise é evidente quando se está propondo, no Congresso Nacional, a volta do serviço militar obrigatório. Isso quer dizer que o Exército não tem capacidade. Estão contratando empresas de segurança privada para que lhes ajudem a conter ou manter sua suposta ordem. Mas não têm capacidade. Ademais, é um Exército que nunca foi organizado e treinado para defender a pátria. Tudo o que fizeram desde sua formação foi golpear os pobres, dar golpes de Estado e fazer negócios ilícitos, como encobrir o narcotráfico. Cinco generais repartem entre si 250 milhões de lempiras. Como fica a patente seguinte? O que está pensando o oficial que é tenente, capitão? Esses generais se vão, o que acontece? Como ficam eles? Como fica a instituição? O povo hondurenho está manifestando neste momento que quer que o Exército desapareça. É a responsabilidade deles agora, eles têm o comando direto da tropa. Devem saber que, se eles não reverterem o golpe, as Forças Armadas vão desaparecer. Porque o povo não as tolerará mais. (Alai http://alainet.org) Tradução: Eduardo Sales de Lima.