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BDF_252

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Circulação Nacional

Uma visão popular do Brasil e do mundo

Ano 5 • Número 252

São Paulo, de 27 de dezembro de 2007 a 2 de janeiro de 2008

R$ 2,00 www.brasildefato.com.br

Claudio/CC

Divulgação

INTERNACIONAL

CULTURA

100 mil pessoas

Para o grupo A Família, o rap modifica a realidade das periferias Pág.12

ruas

contra nas base dos Estados Unidos na Itália Pág.11

Aquecimento global expõe os limites do sistema capitalista Valerie CC

Se as projeções feitas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre o aumento da temperatura global se confirmarem, os problemas ambientais serão significativos, com fortes conseqüências socioeconômicas para a humanidade, já nas próximas décadas. Especialistas afirmam, entretanto, que o discurso

ambientalista está sendo instrumentalizado pelas transnacionais, interessadas em suprir demandas energéticas alternativas ao petróleo, apontando os agrocombustíveis como uma saída milagrosa. Porém, especialistas afirmam que eles não resolverão o problema, que tem como causa principal o modelo insustentável de desenvolvimento capitalista. Págs. 4 e 5

O degelo causado pela mudança climática no Ártico ameaça diversas espécies, com os ursos polares

Roosewelt Pinheiro/ABR

Sem Fidel, Cuba debate novos rumos para revolução Os cubanos têm em suas mãos uma oportunidade histórica. Assim avalia o historiador Ariel Dacal, do Centro Martin Luther King. O presidente Raúl Castro impulsionou um debate para que a população aponte os principais problemas da ilha. E enquanto os cubanos se acostumam a viver sem a liderança de Fidel Castro, ainda afastado, ampliam-se os espaços de intervenção sobre a definição dos rumos da revolução. “A principal demanda que tem aparecido é a de maior participação, em um marco socialista, de compromisso com a revolução cubana”, afirma. Pág. 9

Movimentos mantêm a resistência à transposição Fim da greve de fome de frei Luiz abre nova etapa da luta

Leilão da usina de Santo Antônio, no rio Madeira

Leilão de usina no rio Madeira sob suspeita De acordo com movimentos e especialistas contrários a hidrelétricas no rio Madeira, o leilão da usina de Santo Antônio, realizado no dia 10

Djibuti: um país Heloneida, entre Ocidente uma militante e Oriente da causa feminista Quais seriam os interes-

ses dos EUA no paupérrimo Chifre da África? Linhas marítimas estratégicas. Por aí passam produtos vindos da Europa e da África. Aí navega petróleo vindo do Golfo Pérsico. É o que relata o viajante Yuri Martins Fontes sobre esse país-porto que abriga uma base militar estadunidense com 2 mil soldados. Pág. 10

9 771678 513307

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Jornalista, escritora e teatróloga. Aos 75 anos, a exdeputada do PT, Heloneida Studart, faleceu no dia 3 de dezembro. Como legado, a feminista deixou livros sobre a libertação da mulher, como Mulher brinquedo do homem e Mulher objeto de cama e mesa, que denunciavam a sociedade machista dos anos 70. Na despedida, compareceram amigos e militantes que discursaram diante de seu esquife e entoaram a canção “Maria, Maria”. Pág. 7

No dia 20 de dezembro, o frei Luiz Flávio Cappio anunciou o fim de 24 dias de jejum contra a transposição do rio São Francisco. Ele atendeu a apelos de amigos e familiares, mas garante que continua na luta contra o projeto. Os

movimentos sociais avaliam que o bispo da diocese de Barra (BA) chegou ao seu limite e planejam, agora, uma outra etapa de luta. “O endurecimento do governo não significa que vamos esmorecer”, declara Alzení Thomaz, da Pastoral

dos Pescadores. Sobradinho (BA), local escolhido para a greve de fome, voltará a ser o epicentro da luta contra a transposição em fevereiro, quando mais de 100 dirigentes devem se reunir para traçar a nova estratégia. Pág. 3 João Zinclar

de dezembro, pode ter sido de cartas marcadas. O preço baixo mostraria que alguma negociação foi feita de forma obscura. Pág. 8

Governo errou no processo que enterrou a CPMF O governo Lula cometeu diversos erros no processo que culminou com a derrota da CPMF no Senado. Essa é a análise do jornalista Altamiro Borges. Em artigo, ele aponta que a oposição derrubou a contribuição motivada por interesses eleitoreiros e de classe, considerarando que a “gastança com pobres” é desperdício. Para Miro, o fato de a CPMF combater a sonegação também foi relevante para oposição barrar a prorrogação. Pág. 6

Frei Cappio é conduzido ao hospital após 24 dias de jejum


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de 27 de dezembro de 2007 a 2 de janeiro de 2008

editorial

Jogo empatado entre dois projetos TERMINOU EMPATADO em dois a dois o segundo jogo de um longo campeonato que está em curso, entre o time do capital e o time do povo, na disputa pelo destino dos recursos naturais do Semi-Árido. Frei Luiz Flávio Cappio suspendeu a greve de fome avisando que continuará ainda mais firme na luta. Foi um alívio. E foi um alívio geral, de todas as partes. Do lado de cá, todos queríamos salvar o bispo que, certamente, será muito mais útil ao povo e a suas causas vivo, lutando. Mas foi também um alívio para o governo e a direita, que já não conseguiam esconder seu assombro com o fantasma de ter um bispo mártir na sua conta. O Brasil de Fato passou a priorizar a cobertura da greve de fome de frei Luiz porque acreditamos que essa é uma batalha importantíssima na disputa entre dois projetos de desenvolvimento para o Semi-Árido. A greve de fome do religioso foi, sobretudo, um brado de alerta das forças populares, que, no gesto do bispo, se utilizaram do exemplo

debate

Dois modelos vêm se enfrentando no Semi-Árido desde a ditadura militar. Em certos períodos avança mais o projeto do capital. Outras vezes, fruto da resistência e da mobilização, avança o projeto popular pedagógico para dizer que são contra esse projeto que prioriza o hidronegócio e os interesses do capital. Não havia nem loucura, nem vedetismo, nem interesses partidários e, muito menos, desconhecimento de causa. Muito menos autoritarismo, como apregoaram os neogovernistas Geddel Vieira e Ciro Gomes, cujo passado não inspira confiança. O fato é que está em curso, nesse período de nossa história, uma disputa feroz entre dois projetos de desenvolvimento, da forma de organizar a sociedade e a produção de bens no Semi-Árido. De um lado, o projeto do capital, que se resume em transformar a água em mercadoria e insumo fundamental para a implementação de uma agricultura monocultora, destinada a produzir frutas tropicais para exportação. Esse modelo

ríodos, avança mais o projeto do capital. Outras vezes, fruto da resistência e da mobilização, avança o projeto popular. E a magnitude do problema econômico e social é tão grande – abrange sete Estados, onde vivem mais de 16 milhões de camponeses – que se transformou em um problema nacional. Então, o projeto de transposição do rio São Francisco está inserido nessa disputa. E o governo – a serviço dos interesses das empreiteiras, das grandes empresas, agroindústrias e do agronegócio – para retribuir o apoio eleitoral recebido da oligarquia nordestina, assumiu o compromisso de fazer a obra. E não mediu as conseqüências. Optou por um dos lados: as elites. As igrejas, os movimentos sociais, a Via Campesina, centenas de entidades organizadas na Ar-

recebeu o apelido de agronegócio e hidronegócio. De outro lado, o projeto popular, que prioriza a convivência dos camponeses e do povo com o Semi-Árido e defende soluções locais e alternativas para captação e uso da água. E prioriza também o destino da água para as necessidades humanas e da criação dos pequenos animais que fazem parte do modo de sobrevivência da região. No primeiro modelo, não há espaço para povo, para os camponeses. Seu destino é o êxodo rural; ficariam apenas alguns poucos, e ainda como assalariados das grandes empresas do agronegócio. No segundo modelo, o objetivo é o aumento da renda e a melhoria das condições de vida do povo que já mora por lá. Esses dois modelos vêm se enfrentando no Semi-Árido desde a ditadura militar. Em certos pe-

crônica

Gabriel B. Fernandes

Casa Civil é notificada sobre importação de milho transgênico EM SUA última reunião de 2007, a CTNBio retirou de pauta um pedido de última hora, feito por empresas do setor de rações e criação de frangos e suínos, para a importação de 2 milhões de toneladas de milho transgênico. O presidente da comissão, Walter Colli, decidiu pela votação do pedido em regime de urgência, mas foi aconselhado pela consultoria jurídica do Ministério da Ciência e Tecnologia a retirá-lo de pauta. O Ministério Público Federal também recomendou à CTNBio que fizesse o mesmo, uma vez que não compete à comissão aprovar importações de transgênicos para fins comerciais e que, neste caso, estaria sendo desrespeitada a liminar que suspendeu as liberações de milho transgênico até que a CTNBio estipule regras de biossegurança para o plantio das variedades modificadas. O MPF ainda advertiu Walter Colli de que ele estaria incorrendo em improbidade administrativa caso levasse adiante a votação. No plenário da comissão, mesmo com o pedido fora de pauta, os conselheiros discutiram longamente sobre a natureza do pedido, e se caberia ou não àquela comissão deliberar sobre uma solicitação cujo fundamento é econômico. As requerentes alegam desabastecimento interno e risco econômico para suas atividades. A Companhia Nacional de Abastecimento – Conab/Ministério da Agricultura, por outro lado, afirmou que não falta milho no país e que a medida visa derrubar preços. Finalmente, o plenário da CTNBio decidiu encaminhar o pedido ao Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS. Para ANPA, AS-PTA, IDEC e Terra de Direitos, a decisão da CTNBio foi equivocada e o Conselho de Ministros, presidido pela Casa Civil, também está impedido de julgar a importação.

Organizações advertem ministros da impossibilidade de o Conselho Nacional de Biossegurança deliberar sobre pedido feito pela CTNBio Competência De acordo com a Lei de Biossegurança, a competência para decidir sobre importações é dos órgãos de registro e fiscalização, como Ibama, Anvisa e Ministério da Agricultura. Estes, por sua vez, não decidem sobre a biossegurança dos produtos a serem importados, já que esta seria a função da CTNBio. O pedido de importação protocolado na CTNBio

Luiz Ricardo Leitão

Entre parcas letras e vastos algarismos (I) Gama

Diante disso, fica a pergunta: qual o rigor dos procedimentos adotados pela secretaria da CTNBio uma vez que foi tão longe um processo cujas empresas requerentes não estão habilitadas a executar o pedido? equivale então a um pedido de liberação comercial. Sendo assim, não cabe ao CNBS analisar a conveniência e/ou oportunidade do pedido de importação, uma vez que questões prioritárias de biossegurança, como a elaboração de normas de coexistência e de monitoramento de OGM, ainda não foram resolvidas. Ademais, o CNBS ainda está impossibilitado de analisar o pedido em virtude da decisão judicial vigente por conta das diversas irregularidades que impedem a análise de seu mérito e pela ausência de autorização válida de liberação comercial de milho transgênico no Brasil. As requerentes não especificaram de qual país se pretende importar o milho nem mesmo quais variedades modificadas de milho entrariam no país. Sem essas informações básicas, torna-se impossível qualquer avaliação de biossegurança. Mesmo assim, o presidente da Comissão queria votar o processo em regime de urgência. Outra grave irregularidade diz respeito ao fato de as solicitantes não possuírem Certificado de Qualidade de Biossegurança – CQB, documento indispensável para “o desenvolvimento de atividades com OGM e

ticulação do Semi-Árido (ASA) e muitos técnicos do governo, que trabalham no Dnocs, Conab, Agencia Nacional de Águas, Codevasf, Chesf etc., ficaram do lado do povo. Sabem que, com muito menos recursos, se poderiam desenvolver projetos em cada um dos municípios e eliminar a escassez de água para consumo humano em todos eles. Poderia aumentar enormemente as áreas irrigadas, em pequenas parcelas, através das cisternas da ASA e dos projetos alternativos da Agência Nacional das Águas. O governo pensa que já ganhou essa disputa. Se equivoca. A luta está apenas no início. E o sertanejo é teimoso por natureza. Acostumou-se com a dureza da vida. Certamente, no futuro próximo, serão travadas novas batalhas. E poderá haver uma mobilização cada vez maior dos camponeses do Semi-Árido. Como os movimentos pediram a frei Luiz: “Encerre seu jejum, que já foi suficiente para despertar as consciências. Voltaremos com mais gente no futuro”.

seus derivados em laboratório, instituição ou empresa”, como diz a Lei de Biossegurança. Diante disso, fica a pergunta: qual o rigor dos procedimentos adotados pela secretaria da CTNBio, uma vez que foi tão longe um processo cujas empresas requerentes não estão habilitadas a executar o pedido? A secretaria-executiva da comissão publicou Extrato Prévio no Diário Oficial da União e seu presidente decidiu pela tramitação em regime de urgência. Diante desses motivos, as organizações reforçam que não cabe ao CNBS decidir acerca da conveniência e oportunidade do pedido ao menos que todas estas irregularidades sejam sanadas. Para as organizações que encaminharam a notificação, este pedido de importação de milho transgênico e a tentativa de sua aprovação em regime de urgência representaram tentativa de passar-se por cima da liminar que suspendeu a liberação do milho GM e promover a contaminação massiva do milho brasileiro. Gabriel B. Fernandes é agrônomo e membro da Assessoria e Serviços a projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA).

O CONTURBADO ano de 2007 termina em meio à velha cantilena de números e estatísticas tão festejados por Lulinha Paz & Amor e sua tchurma do Planalto. Dizem que os números não falham; contudo, como bom homem de letras, gosto de lançar alguns grãos de dúvida sobre as verdades cristalizadas da aritmética política de Bruzundangas... Agora mesmo, na rede virtual, leio que a taxa de desemprego nas seis maiores regiões metropolitanas reduziu-se para 8,2%, o menor índice desde 2002, segundo nos informa o IBGE. Ou seja: em novembro último, apenas 1.922.000 pessoas estariam desocupadas nas grandes metrópoles da República; já os ‘empregados’ totalizariam 21,449 milhões, uma cifra recorde nos anais do Instituto. “Nunca se viram números como estes”, deverá jactar-se Lulinha com seus pares, enquanto os ímpares, como este cronista que vos escreve, estarão a perguntar-se em que rubrica o IBGE terá lançado os 100 mil bolivianos que vivem de forma ilegal em São Paulo, trabalhando como escravos até 17 h por dia na rede de pequenas confecções da cidade, a troco de cama, comida e, no máximo, “alguns centavos por hora”, como nos informa um repórter fotográfico da grande imprensa paulista. Dois séculos depois da chegada da Família Real à colônia, o Brasil neoliberal atualiza sua vocação imperial e favorece, sem nenhum pudor, o tráfico silencioso de trabalhadores sul-americanos que, acuados pela terrível política migratória de Baby Bush e sem dinheiro para cruzar ilegalmente a fronteira ianque, transferem suas ilusões para o gigante adormecido do Sul. O impávido colosso, porém, está crescendo, informam os dados econômicos. E os institutos de pesquisa anunciam com estardalhaço que, desde 2002, cerca de 20 milhões de brasileiros saíram das classes (?) D e E para ingressar na dita classe C, ou seja, os pobres e miseráveis representariam hoje somente 26% da população (eram 46% há cinco anos), ao passo que a pequena classe média teria crescido de 32% para 49%, isto é, quase metade dos 125 milhões de brasileiros com mais de 16 anos. A confiar nos números, gente que até pouco tempo rodava com carrinho de rolimã pelas ruas de Rio e São Paulo, recolhendo papelão e latas de alumínio talvez já esteja pagando um carnê das Casas Bahia ou, quem sabe, sonhando com a prestação do “carro popular” flex ou a gás...

A violência é hoje uma constante na vida da juventude brasileira, que, seduzida pelos apelos de consumo da era neoliberal e premiada com uma precária educação formal, vaga sem rumo pelos labirintos sociais Como se deu o milagre? Dizem os economistas que boa parte dos recursos injetados no ‘mercado’ veio do crédito consignado que centenas de agentes financeiros oferecem aos pacatos cidadãos de Bruzundangas. Até o PIB nacional cresceu com o “dinheiro fácil” que certos bancos, devidamente autorizados pelo Palácio, repassam aos servidores públicos, os quais, espoliados por anos de salários congelados, acorrem desesperados aos agiotas de colarinho branco. Depois, como todos sabem, as dívidas acumulam-se, o nome fica ‘sujo’ na praça e o pobre barnabé, sem saber o que fazer, recorre ao PROCON ou à Defensoria Pública para safar-se do vil garrote que o asfixia. Há outros dados dignos de nota, como a absurda taxa de assassinatos entre jovens de 15 a 24 anos, que faz do Brasil o 3º colocado em uma larga lista de países liderada (!) por dois vizinhos bem próximos – Colômbia e Venezuela. A pesquisa, recém-divulgada, registra 55 mortes violentas para cada 100 mil pessoas, mas nos Estados de extrema desigualdade social, como o Maranhão, os números superam em muito a sinistra média nacional. Sem privilégio de classe, como atestam os pit boys da Barra da Tijuca, no Rio, ou dos Jardins, em Sampa, a violência é hoje uma constante na vida da juventude brasileira, que, seduzida pelos apelos de consumo da era neoliberal e premiada com uma precária educação formal, vaga sem rumo pelos labirintos sociais. Entre parcas letras e vastos algarismos, o que esperar de 2008, caro leitor? Pelo menos, muitos votos de saúde e paz... Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular).

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Jorge Pereira Filho, Marcelo Netto Rodrigues • Subeditor: Luís Brasilino • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Eduardo Sales de Lima, Igor Ojeda, Pedro Carrano, Renato Godoy de Toledo, Tatiana Merlino • Fotógrafos: Alícia Peres, Alderon Costa, Anderson Barbosa, César Viegas, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga (in memoriam), Gilberto Travesso, Jesus Carlos, João R. Ripper, João Zinclar, Leonardo Melgarejo, Luciney Martins, Maurício Scerni, Renato Stockler, Samuel Iavelberg, Ricardo Teles • Ilustradores: Aldo Gama, Kipper, Latuff, Márcio Baraldi, Maringoni • Editor de Arte: Rodrigo Itoo • Pré-Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Maria Elaine Andreoti • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Salvador José Soares • Endereço: Al. Eduardo Prado, 342 – Campos Elíseos – CEP 01218-010 – Tel. (11) 2131-0800 – São Paulo/SP – redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: FolhaGráfica • Conselho Editorial: Alípio Freire, Altamiro Borges, Antonio David, César Sanson, Frederico Santana Rick, Hamilton Octavio de Souza, João Pedro Baresi, Kenarik Boujikian Felippe, Leandro Spezia, Luiz Antonio Magalhães, Luiz Bassegio, Luiz Dallacosta, Marcela Dias Moreira, Maria Luísa Mendonça, Mario Augusto Jakobskind, Milton Viário, Nalu Faria, Neuri Rosseto, Pedro Ivo Batista, Ricardo Gebrim, Temístocles Marcelos, Valério Arcary, Vito Giannotti • Assinaturas: (11) 2131- 0812/ 2131-0808 ou assinaturas@brasildefato.com.br Para anunciar: (11) 2131-0815


de 27 de dezembro de 2007 a 2 de janeiro de 2008

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brasil

Movimentos preparam nova etapa da luta contra transposição João Zinclar

RIO SÃO FRANCISCO Fim do jejum de frei Luiz não encerra luta;“endurecimento do governo não significa que vamos esmorecer” Luís Brasilino da Redação

Judiciário O fato é que a decepção provocada pela decisão do STF foi preponderante para abalar frei Luiz e encerrar o jejum. O governo federal agiu como um trator. No mesmo dia 19, anunciou a licitação do primeiro lote de obras da transposição. Ainda antes do término do jejum, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tripudiou. Em conversa com jornalistas na manhã do dia seguinte, disse saber como é fazer greve de fome. “Dá uma fome danada”, completou. O plenário do STF analisou um recurso assinado pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando

Carta com a qual frei Luiz encerra o jejum Sobradinho, 20 de dezembro de 2007 Advento do Senhor Aos meus irmãos e irmãs do São Francisco, do Nordeste e do Brasil Paz e Bem! “Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus: é Ele que vem para nos salvar’. Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos”. (Isaías 35, 3-6)

Frei Luiz é conduzido ao hospital após desmaiar

Souza. Para o autor da ação, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) não observou as restrições legais quando a licença de instalação foi concedida, em março. Desse modo, requisitava “a imediata paralisação das obras de transposição do rio São Francisco”. No entanto, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito, relator do recurso, entendeu que o Ibama havia observado quase todas as condicionalidades definidas em dezembro de 2006, quando o ministro aposentado Sepúlveda Pertence suspendeu as liminares que paralisavam a obra. Os ministros Cármen Lúcia Antunes Rocha, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes e Ellen Gracie acompanharam o voto do relator e mantiveram, por 6 votos a 3, a decisão liminar.

Sem audiência pública Um dos ministros que votou contra a liberação da obra foi Carlos Ayres Britto. Na sua justificativa, ele lembrou que, dentre as condicionantes não cumpridas pelo Ibama, está a realização de audiências públicas para debater o projeto. Britto também entende que decisões de tal envergadura deveriam ser discutidas pelo Congresso Nacional. O ministro comparou a situação do rio com a de uma pessoa que tenta doar sangue sem estar em perfeita saúde. “Se formos aplicar o princípio da precaução, as obras teriam que ser paralisadas. Se uma pessoa está doente, não pode doar sangue”, afirmou.

Mesma opinião tem o jurista Fábio Konder Comparato. “Qualquer modificação no escoamento dessas águas (do São Francisco) não pode ser decidida pelo presidente da República, mas sim pelo Congresso Nacional, com a sanção do presidente. Isso está escrito no artigo 48, inciso 5º da Constituição sobre a disposição de bens do domínio da União”, explica o jurista. O mérito da ação, que aponta uma série de ilegalidades no processo de licenciamento ambiental, não foi julgado.

Desmoralização Alzení Thomaz, da Pastoral dos Pescadores, entende que todo esse episódio serviu para desmoralizar toda a estrutura política do país, tanto o Executivo como o Judiciário. “A vitória do governo é a derrota do governo, que sai desmascarado ao mostrar que as estruturas desse país não têm relação com os clamores do povo”, analisa.

Para ela, o outro aspecto relevante dos 24 dias de greve de fome foi a capacidade que o gesto teve de aglutinar não só movimentos sociais, mas também a população do Semi-Árido. “Frei Luiz conseguiu juntar todos os que sofrem as conseqüências dos grandes projetos, que sofrem os desmandos e a degradação do ambiente e das condições de vida”, destaca. Dessa forma, os movimentos contrários à transposição pretendem aproveitar esse acúmulo para iniciar uma nova etapa de luta. “O endurecimento do governo não significa que vamos esmorecer. Continuaremos batendo forte no Judiciário e no governo para barrar essa obra enganosa”, anuncia. Sobradinho deve voltar a ser o centro da luta contra a transposição em fevereiro, quando os movimentos pretendem juntar mais de 100 dirigentes de diversas entidades para debater as novas estratégias de luta. João Zinclar

DEPOIS DE 24 dias em greve de fome contra a transposição do rio São Francisco, o frei Luiz Flávio Cappio, bispo da diocese de Barra (BA), decidiu, no dia 20 de dezembro, encerrar o protesto. De acordo com ele, a decisão foi tomada seguindo um apelo de seus familiares, amigos e companheiros de luta. “Dom Luiz chegou no limite e a gente quer ele vivo para seguir combatendo esse projeto”, afirma Alzení Thomaz, do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP). O anúncio do término do jejum foi feito em missa campal acompanhada por cerca de 700 pessoas, do lado de fora da Capela de São Francisco, em Sobradinho (BA), local escolhido para o protesto. Na presença de frei Luiz, seu assessor e amigo, o sociólogo Adriano Martins, leu uma nota escrita pelo religioso na qual ele explica o encerramento do jejum e faz um balanço desses 24 dias. (veja nesta página a íntegra do comunicado) A saúde do bispo havia se deteriorado muito na tarde do dia 19. Ele já tinha perdido pelo menos nove quilos e sua pressão arterial estava baixa e oscilante. Quando ficou sabendo da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a favor da liberação da transposição, frei Luiz piorou e ficou desmaiado por aproximadamente 30 minutos. “É desalentador saber que a Justiça, que deveria ser o último refúgio da cidadania, se dobra aos poderosos”, dizia o religioso, quando caiu. Agora, ele já está melhor. Fez a primeira refeição na manhã do dia 21 de dezembro e seus sinais vitais, com o tempo, voltam ao normal.

Fiéis e militantes aguardam notícias de Cappio

No dia de ontem completei 36 anos de sacerdócio – 36 anos a serviço dos favelados de Petrópolis (RJ), dos trabalhadores da periferia de São Paulo e do povo dos sertões sem-fim do nordeste brasileiro. Ontem, vimos com desalento os poderosos festejarem a demonstração de subserviência do Judiciário. Ontem, quando minhas forças faltaram, recebi o socorro dos que me acompanham nesses longos e sofridos dias. Mas nossa luta continua e está firmada no fundamento que a tudo sustenta: a fé no Deus da vida e na ação organizada dos pobres. Nossa luta maior é garantir a vida do rio São Francisco e de seu povo, garantir acesso à água e ao verdadeiro desenvolvimento para o conjunto das populações de todo o semi-árido, não só de uma parte dele. Isso vale uma vida e sou feliz por me dedicar a esta causa, como parte de minha entrega ao Deus da Vida, à Água Viva que é Jesus e que se dá àqueles que vivem massacrados pelas estruturas que geram a opressão e a morte. Uma de nossas grandes alegrias neste período foi ter visto o povo se levantando e reacendendo em seu coração a consciência da força da união, crianças e jovens cantando cantos de esperança e gritos de ordem com braços erguidos e olhos mirando o futuro que almejamos para o nosso Brasil querido. Um futuro em que

todos, todos sem exceção de ninguém, tenham pão para comer, água para beber, terra para trabalhar, dignidade e cidadania. Recebi com amor e respeito a solidariedade de cada um, próximo ou distante. Recebi com alegria a solidariedade de meus irmãos bispos, padres e pastores, que manifestaram de forma tão fraterna a sua compreensão sobre a gravidade do momento que vivemos. Através do seu posicionamento corajoso, a CNBB nos devolveu a esperança de vêla voltar a ser o que sempre foi em seus tempos áureos: fiel a Jesus e seu Evangelho, uma instituição voltada às grandes causas do Brasil e do seu povo e com uma postura clara e determinada na defesa da dignidade da pessoa humana e de seus direitos inalienáveis, principalmente se posicionando ao lado dos pobres e marginalizados desse país. Ouvi com profundo respeito o apelo de meus familiares, amigos e das irmãs e irmãos de luta que me acompanham e que sempre me quiseram vivo e lutando pela vida. Lutando contra a destruição de nossa biodiversidade, de nossos rios, de nossa gente e contra a arrogância dos que querem transformar tudo em mercadoria e moeda de troca. Neste grande mutirão formado a partir de Sobradinho, vivemos um momento ímpar de intensa comunhão e exercício de solidariedade. Depois desses 24 dias encerro meu jejum, mas não a minha luta que é também de vocês, que é nossa. Precisamos ampliar o debate, espalhar a informação verdadeira, fazer crescer nossa mobilização. Até derrotarmos este projeto de morte e conquistarmos o verdadeiro desenvolvimento para o semi-árido e o São Francisco. É por vocês, que lutaram comigo e trilham o mesmo caminho que eu encerro meu jejum. Sei que conto com vocês e vocês contam comigo para continuarmos nossa batalha para que “todos tenham vida e tenham vida em abundância”. Dom Luiz Flávio Cappio


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Wilsom Dias

saiu na agência Anulado julgamento do assassino de Dorothy Stang Arquivo Brasil de Fato

Com o dinheiro da CPMF, foram investidos, entre 2003 e 2006, R$ 46,6 bilhões na área da Saúde

A derrota da CPMF

Fora da escola

ANÁLISE Lula atenderá as demandas dos ricaços, reduzindo os recursos dos programas sociais, ou terá coragem para reduzir o superavit primário? Altamiro Borges NUMA SESSÃO tensa, que varou a madrugada de 13 de dezembro, o governo Lula sofreu uma de suas piores derrotas políticas. O Senado rejeitou a proposta de prorrogação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) até 2011. A votação terminou com 45 votos favoráveis e 34 contra, mas, para garantir a continuidade deste tributo, eram necessários 49 votos. Com essa decisão, o governo deixará de arrecadar cerca de R$ 42 bilhões, o que põe em risco alguns programas sociais e inúmeras obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). Passado o calor da refrega, agora vêm à tona as discussões sobre as formas de compensar a enorme perda – e aí mora o perigo para as camadas mais pobres da sociedade. A oposição liberal-conservadora encarou esta batalha como decisiva – incomodada com os altos índices de popularidade do presidente, com os sinais de crescimento da economia e com o próprio desfecho do caso Renan Calheiros, ex-presidente do Senado. Daí toda a sua fúria e intransigência. De nada adiantou o recuo do governo, que, numa última cartada, apresentou a proposta de renovação da CPMF por apenas um ano e concordou com o repasse integral dos seus recursos para a Saúde. Também não valeram os apelos de alguns governadores tucanos, bem mais pragmáticos, preocupados com os repasses para os Estados – com o fim da CPMF, o governo José Serra deixará de contar com quase R$ 4 bilhões nos cofres de São Paulo.

As razões do desastre O governo cometeu vários erros na condução da batalha – desde a ingênua tentativa de seduzir o PSDB, alijando as forças aliadas, até a rejeição inicial da proposta de alocar seus recursos na Saúde. Da parte da oposição de direita, o que predominou foi a lógica eleitoreira, visando derrotar o governo Lula, sabotar os programas sociais e o PAC e agradar empresários e as camadas médias – partidários do “Estado mínimo”. Ao final da votação, os líderes do PSDB e do Demo, eufóricos, ainda tentavam despistar. “Não votamos contra os pobres”, esbravejou o raivoso tucano Artur Virgílio, temendo o efeito bumerangue dessa decisão impopular nas camadas mais sofridas do povo. “Quando morrer um velhinho num hospital do Nordeste, muitos vão se lembrar dos votos contrários à CPMF dos tucanos e dos demos”, fustiga um analista.

Além da mesquinhez eleitoreira, outra razão da rejeição foi a de classe. Tanto que a batalha forjou sólida unidade entre os partidos da direita e os barões da indústria (Fiesp) e dos bancos (Febraban), que fizeram campanha de rua contra a CPMF e acionaram parte da mídia venal. A elite burguesa enxerga no “imposto do cheque” um mecanismo incômodo de combate à sonegação e discorda da aplicação dos seus recursos. Do dinheiro arrecadado, 72% provém das pessoas jurídicas, sobretudo das grandes empresas; o restante incide sobre os assalariados. Mesmo sendo uma tributação regressiva, que afeta o conjunto da sociedade, ela onerava mais as empresas e coibia a roubalheira. Muitas das ações recentes da Polícia Federal tiveram como estopim os dados da CPMF. O seu fim é motivo de festa para os sonegadores! Para o economista José Carlos de Assis, “mesmo considerando que a carga tributária do Brasil é injusta, a CPMF é o menos injusto dos tributos. Ela atinge, sobretudo, os ricos, por isso esse lobby dos ricos e de seus afluentes”.

Os efeitos perversos Quanto à aplicação de seus recursos, a elite burguesa considera desperdício a “gastança com os pobres”, e os tucanos e demos temem seus efeitos eleitorais. Um minucioso artigo de Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior, mostra que “nos últimos quatro anos, a arrecadação da CPMF permitiu investimentos de R$ 91,6 bilhões na Saúde, Previdência Social e no combate à pobreza. Na área da Saúde, foram investidos R$ 46,6 bilhões entre 2003 e 2006. Já o atendimento hospitalar e ambulatorial no Sistema Único de Saúde (SUS) recebeu R$ 32 bilhões. O SUS é responsável, hoje, por 1 milhão de internações e por 116 milhões de atendimentos ambulatoriais por mês. O sistema público é o único acesso à saúde para quase 80% da população brasileira, o que representa um universo de 150 milhões de pessoas”. Nas políticas de combate à pobreza, foram investidos R$ 21,8 bilhões. “Os programas de transferência de renda foram responsáveis pela retirada de cerca de 7 milhões de pessoas da situação de pobreza extrema. Somente no Bolsa Família, a aplicação do dinheiro da CPMF foi de R$ 15,4 bilhões, entre 2004 e 2006. No total, o imposto financiou 75% do programa neste período. O número de famílias beneficiadas subiu de 3,6 milhões, em 2003, o equivalente a 15 milhões de pessoas, para 11 milhões em 2006, ou 46

milhões de pessoas. Já em 2007, foram investidos no Bolsa Família R$ 7,5 bilhões com recursos da CPMF, o que corresponde a 88% do programa”. Já na Previdência, o maior programa social do país – paga 21 milhões de benefícios mensais e beneficia mais de 82 milhões de brasileiros – foram destinados R$ 23,1 bilhões entre 2003 e 2006. O dinheiro da CPMF também é usado na agricultura familiar. “De 2004 a 2006, foram destinados R$ 660 milhões na compra de alimentos provenientes da agricultura familiar”, conclui o autor.

Remédios neoliberais Da alíquota de 0,38% descontada no cheque pela CPMF, 0,20% ia para a Saúde, 0,10% para a Previdência e 0,08% para o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza. Agora, com sua abrupta extinção, os abutres neoliberais já apontam suas “saídas”. Logo após a votação, economistas ortodoxos, vinculados ao capital financeiro, deram inúmeras entrevistas à mídia venal propondo quatro remédios amargos: cortes drásticos nos programas sociais, redução das “despesas correntes” do governo (ou seja, demissões e congelamento dos salários dos servidores), queda no ritmo de recuperação do salário mínimo e outra contra-reforma da previdência, com aumento da idade da aposentadoria e redução dos benefícios. Mais discretos do que os poderosos capitalistas, que não titubeiam em defender seus interesses, os seus serviçais tucanos e demos falam genericamente em reduzir os “gastos públicos” para compensar a CPMF – o que dá no mesmo. Já dá parte do governo Lula, marcado pelo hibridismo e pela conciliação, a celeuma está instalada. Num primeiro instante, indignado com a decisão do Senado, o presidente ameaçou reduzir a meta do superavit primário – a reserva de caixa do governo para pagar os banqueiros.

Uma decisão da Justiça do Pará anulou, no dia 17, a condenação aplicada no mês de outubro a Rayfran das Neves Sales, condenado a 27 anos de prisão pelo assassinato da missionária Dorothy Stang, no município de Anapu, em 2005. A Justiça acatou um pedido do advogado do réu, alegando que o juiz deixou de colocar em votação uma das teses da defesa, que considerava o crime como homicídio privilegiado – quando a pessoa mata por influência de um sentimento (emoção, compaixão ou desespero). Novo julgamento deve ocorrer no primeiro semestre de 2008.

“Segundo um auxiliar direto, Lula diminuiria a meta anual do superavit, (hoje em 3,8% do PIB), manteria o montante previsto para o PAC e deixaria para o futuro presidente a realização de um ajuste fiscal”, noticiou, alarmado, o jornal Folha de S.Paulo. “Não vou cortar programas sociais”, afirmou o presidente em discursos, nos quais também fez duras críticas aos senadores que “não dependem do SUS”. Na seqüência, porém, o tom oficial passou a ser mais moderado. O ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, entrou em cena para pedir calma e para se contrapor à redução do superavit, sempre com a retórica ortodoxa da rigidez fiscal.

Governo na berlinda Dessa forma, a fragorosa derrota da CPMF coloca novamente o governo Lula na berlinda. Ele atenderá as demandas dos ricaços, reduzindo os recursos dos programas sociais e empacando o PAC, ou terá coragem para enfrentar a ditadura do capital financeiro, reduzindo o superavit primário? Usará os 20% das verbas da Desvinculação das Receitas da União (DRU) para compensar as perdas da CPMF nas áreas sociais, ou penalizará ainda mais as camadas populares? O ex-ministro José Dirceu, que mantém sua forte influência em áreas do governo federal, percebeu o novo dilema. “O presidente e seu governo têm duas alternativas: diminuir o superavit fiscal, já que o país tem as suas contas ajustadas e reservas extraordinárias, com uma inflação sob controle, ou cortar gastos e investimentos, que é a opção preferida dos conservadores”. Como se observa, os reflexos da votação do Senado ajudarão a definir os rumos futuros do governo Lula. Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro As encruzilhadas do sindicalismo (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição). Wilsom Dias

Entre 2004 e 2006, aplicação no BF foi de R$ 15,4 bilhões

Cerca de 53% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos não estudam em qualquer modalidade de ensino. Esta informação faz parte de um estudo elaborado pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana, que mostra também que a situação é preocupante entre aqueles que estudam. Destes, mais da metade não está nas séries correspondentes às suas respectivas idades. Apesar de haver cerca de 2% dos jovens analfabetos, o estudo reforça que o analfabetismo funcional ainda é muito grande no país.

Alfabetização na Bolívia

Em 21 meses, 55% da população iletrada da Bolívia foi alfabetizada por meio do Programa Nacional de Alfabetização (PNA), informou, no dia 18, a ministra de Educação e Culturas, Magdalena Cajías. Tal porcentagem indica que 453.935 pessoas, de um total de 823.256 analfabetos, aprenderam a ler e a

fatos em foco

escrever. A população boliviana é de aproximadamente 9 milhões de habitantes. Do total, 6 mil foram alfabetizados em aymara e 9 mil, em quéchua.

Zapatistas denunciam repressão do exército mexicano

Os participantes do Colóquio Internacional em memória de Andrés Aubry, que ocorreu entre os dias 13 e 17 de dezembro em San Cristóbal de las Casas (Chiapas), no México, denunciaram e condenaram uma nova onda de repressão do movimento zapatista. Intelectuais fizeram um manifesto de apoio aos povos zapatistas e condenaram a postura repressora dos governos; entre os apoiadores estão os escritores John Berger, Naomi Klein e o sacerdote belga François Houtart. No documento, afirmam que 56 acampamentos militares, unidades de forças especiais e grupos paramilitares agridem e ameaçam, há meses, os povos zapatistas.

Hamilton Octavio de Souza

Educação superior Tramita no Superior Tribunal Eleitoral o processo contra o deputado federal Paulo Renato Souza (PSDB), ex-ministro da Educação do governo FHC. As contas de sua campanha eleitoral de 2006 foram rejeitadas pelo TRE porque tinham “irregularidades insanáveis”, como a realização de despesas pagas com recursos que não transitaram pela conta bancária, existência de doações que não foram lançadas e ausência de contabilização de despesas do candidato. Tudo muito educativo. Sem futuro Pesquisa do Ibope sobre os candidatos mais cotados para a Prefeitura de São Paulo, em 2008, deu Marta Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Gilberto Kassab (DEM) e Paulo Maluf (PP). Nenhum deles tem compromisso com os movimentos sociais e com as demandas populares. Todos já foram testados e aprovados como políticos das elites. Só pode ser maldição contra os pobres.

Editora predadora Não bastassem os danos informativos que tem causado à sociedade brasileira, principalmente com a revista Veja, a Editora Abril está agora tentando lesar o público infantil com campanha enganosa de promoção do Livro Ilustrado Disney Star Prêmios. Segundo denúncia do Projeto Criança e Consumo ao Procon, a campanha da Abril promete “um milhão de prêmios” nas figurinhas da editora.

Insegurança total É cada vez mais freqüente a indústria automobilística entregar carros novos com defeitos de fabricação, muitas vezes com problemas que causam acidentes e colocam em risco a vida dos usuários. Está na cara que a ganância das montadoras estimula a baixa qualidade dos componentes – o que dá certo no Brasil, porque faltam fiscalização e testes do poder público sobre esses produtos.

Imperialismo A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) está bastante ativa na articulação de empresários da Argentina, Brasil, Paraguai e Chile com empresários e autoridades da província de Santa Cruz, na Bolívia – o principal centro de oposição ao presidente Evo Morales e que defende a autonomia em relação ao governo central de La Paz. A conspiração está em marcha!

Antagonismo Governistas fanáticos tentaram de tudo para caracterizar a greve de fome de Dom Luiz Flávio Cappio como sendo um gesto individualista e suicida. No entanto, várias personalidades respeitadas saíram em defesa do bispo de Barra, entre eles o geógrafo Aziz Ab’ Saber e o jurista Fábio Konder Comparato, que relacionaram o gesto à ausência de democracia real e de respeito ao povo.

Presente federal Considerado o farol da moralidade pela imprensa burguesa, o Supremo Tribunal Federal aprovou hábeas corpus para 18 presos na Operação Furacão, entre os quais estão os principais bicheiros do Rio de Janeiro, que, por coincidência, são também os grandes patrocinadores de algumas escolas de samba. Natal na cadeia, nem pensar! Carnaval, menos ainda! A máfia dos caça-níqueis está livre!


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brasil

Adeus a Heloneida, autora de livros sobre a libertação da mulher HOMENAGEM Feminista cearense, autora de Mulher Brinquedo do Homem e Mulher objeto de cama e mesa, faleceu aos 75 anos Reprodução

Vito Giannotti do Rio de Janeiro (RJ) NO DIA 3 deste mês, morreu a jornalista e ex-deputada do PT Heloneida Studart. Ela nasceu no Ceará em 1932, ano em que as mulheres brasileiras ganharam o direito a voto. Ao final do seu velório, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, uma das canções entoadas pelos amigos foi uma adaptação de “Ô abre alas”, de Chiquinha Gonzaga. A letra improvisada rendia uma homenagem à atividade de Heloneida como escritora feminista: “Ô abre alas, que eu quero passar / Sou feminista, não posso negar / Sou feminista, não posso negar”. O Portal da Associação Brasileira de Imprensa deu um grande destaque à sua morte, e assim descreveu a emoção da despedida: “À vigília compareceram muitos trabalhadores e trabalhadoras com os quais Heloneida trabalhou por uma visão feminista, socialista e libertária. Também estiveram presentes colegas parlamentares, jornalistas e, sobretudo, militantes do movimento feminista, que discursaram diante de seu esquife cantaram “Maria Maria”.

Mulher brinquedo Seus livros formaram uma geração de lutadores. Jornalista, escritora e teatróloga, Heloneida destacou-se por seus escritos sobre a libertação da mulher. Ao final dos anos 1960, sobretudo após 1968, o Brasil vivia a onda mundial de contestação dos costumes e o auge da luta de libertação das mulheres. No mundo inteiro,

Heloneida: jornalista, escritora e teatróloga dedicada à libertação da mulher

a luta contra o machismo em todas as suas manifestações, da casa ao local de trabalho, se misturava à luta por uma sociedade justa e socialista. Seu primeiro livreto foi Mulher Brinquedo do Homem, de 1971. O título já dizia a que vinha: denunciava a sociedade machista dos anos de 1970, que via a mulher como um objeto para a diversão do macho. Em 1975, publicou, pela editora Vozes, Mulher objeto de cama e mesa, uma versão atualizada do primeiro livreto, com a mesma visão de igualdade entre homens e mulheres e da necessidade de superação do machismo. Desse último, foram publicados mais de 220 mil exemplares. Foi lido e usado

em escolas, fábricas e escritórios. Em muitas reuniões era lido e discutido coletivamente. Despertou e formou milhares de jovens, homens e mulheres, e pessoas de todas as idades. Suas idéias centrais eram as do movimento feminista daquela década que foi declarada pela ONU, de 1975 a 1985, como a década da mulher. Foram anos de grandes mobilizações das mulheres, no mundo e também no Brasil. Nosso país vivia debaixo de uma ditadura assassina que prendia, torturava, matava e exilava milhares de pessoas que lutavam pela liberdade e por uma sociedade justa. Essa situação de ditadura não impediu que as

mulheres se organizassem e lutassem pelos seus direitos. Grandes congressos, com até 4 mil pessoas se realizaram, a partir de 1975, em São Paulo, Rio e em vários outros Estados. Nesses, as bandeiras levantadas diziam respeito aos direitos, à igualdade e à participação das mulheres na sociedade.

A luta não terminou Há muita gente que acha que a luta da mulher saiu de moda. Aliás, dizem que a mulher “chegou lá”: é respeitada na sociedade, em casa e no trabalho. Hoje, teria os mesmos direitos dos homens, por isso a luta feminista seria anacrônica. Bonito, se fosse verdade, mas sabemos que é

pura ilusão. Quem ainda aparece de olho roxo é a mulher, e não o homem. Para cair na realidade, é só passar em qualquer banca de jornal para ver que a mulher ainda é tratada como carne de açougue. Centenas de revistas mostram-nas expondo “seus dotes”, ao lado de revistas sobre churrascos e restaurantes que ostentam picanhas no espeto. Carne igualzinha à das revistas femininas colocadas, sem querer, uma ao lado das outras. Igualdade? Procuremos uma mulher no meio de mil fotos que aparecem no jornal Valor, típica publicação para executivos. De cada mil machos, é capaz que apareça até uma mulher. Ou, é só contar

quantas mulheres viajam, nos vôos matutinos da ponte aérea Rio-São Paulo e vice-versa. É só olhar a machista Veja naquelas páginas nas quais são colocadas notícias curtíssimas ou frases em destaque. De todos os homens que aparecem nas fotos, é mostrada a cara, falam alguma coisa e, detalhe, estão vestidos. Mas, 99,99% das mulheres que aparecem mostram tudo, menos a cabeça. Pra que a mulher precisa cabeça? É só mostrar os tais dotes! Claro que já foi pior! Mas isso não é consolo. Heloneida e eu estávamos planejando fazer uma edição atualizada do livreto Mulher objeto de cama e mesa. Iria falar de mil coisas de hoje. Do Big Brother e seus valores, dos programas à la Ana Maria Braga, Gugu, Faustão ou da atualíssima violência contra as mulheres (...) Lei Maria da Penha etc., etc. Iríamos falar das mulheres de todas as novelas da Globo, que só falam de um assunto: homem, marido, namorado, amante, caso, qualquer coisa, mas é daquilo. E dessas mulheres das novelas da Globo que dificilmente passam mais de meia hora sem chorar. Haveria muita coisa a escrever sobre a necessidade de continuar a luta das mulheres. Ela não teve tempo. Outros e outras o farão. Por enquanto, só nos resta procurar nos sebos ou em estantes empoeiradas de amigos seu livreto Mulher objeto de cama e mesa. Vale a pena lê-lo e relê-lo. A morte da Heloneida nos relembra que o caminho é longo, muitíssimo longo, e “a luta continua”.


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nacional

Destino de usina no rio Madeira pode ter sido selado nos bastidores ENERGIA Venda de hidrelétrica para o consórcio liderado por Furnas e Odebrecht é no mínimo estranha, dizem especialistas Roosewelt Pinheiro/ABr

Silvia Alvarez de Brasília (DF) NO DIA 10 de dezembro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) amanheceu ocupada por cerca de 300 atingidos por barragens, semterra, pequenos agricultores e militantes urbanos. O protesto contra “a venda do rio Madeira” atrasou em mais de três horas o leilão que concedeu o aproveitamento hidrelétrico da usina de Santo Antônio, em Rondônia, a grupos privados nacionais e internacionais. Em apenas sete minutos, o consórcio Madeira Energia, liderado por Furnas e Odebrecht, tornou-se dono dos 3.150 megawatts (MW) – quantidade pouco superior ao consumo residencial de eletricidade em Pernambuco – de energia que serão gerados pela primeira das quatro usinas que formam o projeto do Complexo Madeira. Até aí nenhuma surpresa. O que não era esperado pelo governo e por outros consórcios que disputavam o leilão foi o preço acordado, R$ 78,87 por MW. Um preço aparentemente baixo frente ao teto de R$ 122 estipulado pela Aneel.

Estranho Surpresa para o governo e para as empresas, desconfiança para os setores populares. Afinal, se o negócio não fosse lucrativo, grandes consumidores de energia, como a Companhia Vale do Rio Doce, a Gerdau e a Votorantim não estariam negociando a participação no consórcio vencedor, nem a Cemig brigando por uma fatia maior nas ações. De acordo com Luis Fernando Novoa, professor da Universidade Federal de Rondônia, não dá pra comemorar o “baixo” preço da energia gerada pela usina Santo Antônio e vendida às distribuidoras. Esse valor será compensado na venda dos 30% de energia – limite máximo estipulado no leilão – destinada ao mercado livre. “O preço diz muito. Mostra que algum acordo foi feito de forma obscura. As negociações no mercado livre não têm regras claras, nem no plano do mercado, nem no plano da lei”, afirma Novoa. Liberdade? O mercado livre é formado por grandes indústrias (como as de alumínio e celulose, que consomem muita energia) ou shoppings, que são “livres” para comprar energia diretamente das usinas. “Eles são livres às custas dos nossos recursos naturais, do deslocamento do nosso povo, do ataque à nossa sabedoria”, lembra Novoa. O consórcio Madeira Energia ainda não revelou qual será o preço do megawatt vendido no mercado livre. Já o mercado cativo é formado pelas distribuidoras que revendem a energia para os consumidores residenciais ou para pequenas indústrias e estabelecimentos comerciais. Natureza ameaçada Outro fator que contribuiu para o deságio de 35% em relação ao preço estipulado no leilão foi a promessa de aceleração da obra. O governo permitiu que a usina entrasse em operação antes de 2012. Com isso, toda a energia gerada antes dessa data poderá ser vendida também ao mercado livre. Segundo Novoa, com a aceleração das obras, haverá um atropelamento no cumprimento das 33 condicionantes estabelecidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) na ocasião da licença prévia do Complexo Madeira. “Portanto, essa diminuição do preço do megawatt tem a ver também com a diminuição dos custos com os compromissos socioambientais do consórcio”, conclui.

Policiais contêm manifestantes na porta Aneel durante a realização do leilão

Ele ainda acrescenta: “Isso é desastroso, tendo em vista o que significa a Amazônia e seu caráter estratégico para o país”.

O que não foi surpresa O consórcio vencedor do leilão já era esperado. “Já é comum que as empresas que fazem o relatório de impacto ambiental (Rima) da obra, nesse caso, Furnas e Odebrecht, ganhem a concessão do aproveitamento hidrelétrico”, critica Josivaldo Oliveira, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Formam o consórcio vencedor: Construtora Norberto Odebrecht (1%), Odebrecht Investimentos em Infra-estrutura (17,6%), Andrade Gutierrez Participações (12,4%), Cemig Geração e Transmissão (10%), Furnas Centrais Elétricas (39%) e Fundo de Investimentos e Participações Amazônia Energia, composto pelos bancos Santander e Banif (20%). Acordo de bastidores Além disso, as “brigas” que antecederam o leilão de-

ram algumas dicas a respeito de seu resultado. Depois de muita pressão, a construtora Odebrecht “abriu mão” da cláusula de exclusividade com geradores de turbinas. As únicas empresas com unidades no Brasil que têm tecnologia para fabricar turbinas bulbo (as que serão usadas em Santo Antônio) estavam com acordo de exclusividade firmado com a Odebrecht. São elas: Alstom, VA Tech e Voith Siemens. A Odebrecht também teve que desfazer o acordo de exclusividade com repassadores de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES, instituição responsável pelo financiamento da construção de até 75% das hidrelétricas do Madeira). A Camargo Correa e a Energy Suez, empresas que também disputaram o leilão em outros consórcios, reclamaram publicamente que quase todos os bancos se recusavam a conversar com os demais consórcios sobre financiamento, pois ficaram amarrados com acordos de exclusividade com a Odebrecht.

“Apagão para os lucros” Movimento contesta destino da energia que será gerada pela usina no rio Madeira de Brasília (DF) A grande justificativa do governo para a construção do Complexo Madeira é a suposta falta de energia, necessária ao desenvolvimento do país, e a possibilidade de um novo apagão. “Apagão para quem? Só se for para os lucros dos consórcios”, reclama Luis Fernando Novoa, professor da Universidade Federal de Rondônia. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que recentemente lançou a Campanha em defesa da Amazônia e das comuni-

dades atingidas pelo Complexo Madeira, questiona o atual modelo energético. “O que temos que pensar é para onde vai e a quem serve essa energia gerada no país. O governo claramente se submete aos interesses privados e do capitalismo internacional. O Complexo Madeira não é um projeto nacional, soberano. É fruto da pressão das grandes indústrias, nacionais e transnacionais, que consomem muita energia”, analisa Josivaldo Oliveira, da coordenação do MAB. O fato de o governo estar pensando em aumentar o limite da energia destina-

da ao mercado livre no próximo leilão ilustra esse argumento. Os grandes consumidores defendem que a cota passe para 50% no leilão de Jirau, a próxima usina a ser construída no rio Madeira. A manifestação ocorrida na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) no dia do leilão, 10 de dezembro, e que foi reprimida violentamente pela polícia, é um exemplo de como os movimentos sociais pretendem resistir a esse tipo de empreendimento que, segundo eles, não favorece a população, e sim as grandes empresas. (SA)

Bolivianos protestam contra represas Os principais aspectos do complexo O que é O plano prevê a construção das hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau, Guajará e Cachoeira Esperança; a construção de eclusas, hidrovias e de uma grande linha de transmissão de energia que vai de Porto Velho (RO) até São Paulo (SP). Os custos totais Estima-se que sejam necessários R$ 43 bilhões. Somente as duas hidrelétricas (Santo Antônio e Jirau) mais as eclusas custarão R$ 28 bilhões. Rondônia possui uma população de cerca de 1,5 milhões de pessoas. Só os R$ 28 bilhões equivalem a um investimento de R$ 18.500 por habitante do Estado. Área inundada Serão inundados mais de 500 quilômetros quadrados de terras (mais de 50 mil hectares) Número de atingidos As hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau afetarão mais de 50 povoados e atingirão, de forma direta, cerca de 5 mil famílias. Capacidade de geração de energia Somente as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau terão uma potência de 6.500 MW. Algo em torno de 4.000 MW médios de energia firme. Faturamento com a venda da energia gerada nas duas primeiras hidrelétricas Os donos das barragens vão faturar em média: – Por hora: mais de R$ 328 mil – Por dia: mais de R$ 5,5 milhões – Por ano: mais de R$ 1,9 bilhões

Movimentos da Bolívia entendem que construção das usinas vai degradar o meio ambiente, prejudicar a economia e provocar doenças em seu país da Redação Após o resultado do leilão da usina Santo Antônio, realizado no dia 10 de dezembro, os movimentos socioambientais da Bolívia e do Brasil começaram a protestar. O Fórum Boliviano sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Fobomade), conjuntamente com outras organizações, solicitou à Comissão Interamericana de Direitos Humanos que o governo brasileiro suspenda o empreendimento, com o objetivo de impedir os impactos ambientais e sociais que a instalação da usina pode provocar. “O que os movimentos podem fazer é apresentar uma solicitação de demandas cautelares ou uma denúncia diante da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, acusando o governo brasileiro de destruir a Amazônia e violar os direitos humanos dos povos indígenas e camponeses”,

afirma Lucy Chacolla, do Fobomade. Em manifesto, as organizações bolivianas denunciam que o “Brasil pretende implementar as represas violando o direito de consulta a nossos povos, estabelecido no Convênio 169 da OIT, que devia ter sido implementado por meio da consulta entre Estados. Os próprios estudos realizados no Brasil determinam os impactos transfronteiriços dessas represas”. Os movimentos querem que o governo boliviano exija do governo do Brasil a paralisação do processo de licitação ou, em sua falta, denuncie o governo brasileiro diante da Corte Internacional de Justiça.

Problemas Os estudos que chegaram ao conhecimento do Fobomade revelam a gravidade da construção de uma represa no rio. Segundo especialistas, a implantação do complexo causará elevação do nível de água do rio e

mudanças na velocidade da água, provocando perdas severas na diversidade aquática e na qualidade da água pela falta de oxigenação. No aspecto econômico, a inundação ocasionada pela sedimentação crescente provocará a perda permanente das terras de cultivo nas margens dos rios, impedindo o cultivo de produtos necessários às comunidades, principalmente as bolivianas. A inundação impossibilitará o crescimento dos pastos, gerando crise econômica em pequenas e grandes propriedades. Os impactos sociais também provocarão sofrimento aos povos ribeirinhos. Por causa da redução da velocidade das correntes de água, criam-se condições para o incremento da malária, dengue, febre amarela e outras doenças, principalmente as que se propagam por falta de saneamento, drenagem, urbanização e aumento da população nos arredores. (Agência Adital)


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américa latina Nele

Uma chance histórica para a revolução CUBA Em entrevista, o historiador cubano Ariel Dacal analisa os desafios do atual processo de debates na ilha Jorge Pereira Filho de Fortaleza (CE) UMA NOTÍCIA aos que alardeiam o fim da revolução cubana com o afastamento do presidente Fidel Castro: os moradores da ilha caribenha querem defender seu futuro de forma autônoma, sem os vícios autoritários do passado, sem cair também nas ilusões propagandeadas por seu vizinho imperialista que, há 45 anos, impõe um bloqueio econômico e comercial contra os cubanos, condenado pela Assembléia Geral das Nações Unidas. Esse é o cenário que foi aberto com a decisão do presidente Raul Castro de, em julho deste ano, impulsionar um amplo debate com o povo sobre os rumos da revolução. Para o historiador Ariel Dacal, trata-se de uma oportunidade histórica. “Não é um momento casual. É a hora em que Cuba precisa fazer uma substituição rápida e total dos velhos dirigentes revolucionários que começam a cair pelas leis da vida, da biologia”, avalia. E nesse processo, a maior reivindicação do povo cubano tem sido questionar as estruturas burocráticas e cobrar, justamente, maior poder de decisão sobre os rumos de seu destino. “A principal demanda que tem aparecido é a de maior participação. De maior controle dos poderes do Estado. De legitimar que se repasse potencialidade e recurso aos poderes locais, poderes populares. É a maior reivindicação. É um marco socialista de compromisso com a revolução cubana”. Há uma consulta popular em Cuba sobre os rumos da revolução. Como tem se configurado esse processo? Em 26 de julho, em discurso oficial, Raul Castro elencou um grupo de problemas no país. Grosso modo, apresentou algumas soluções e algumas medidas em curso. Este documento virou um texto de discussão nos núcleos do partido, e depois foi ampliado para os bairros e centros de trabalhadores. Dias depois, Raul vem aos meios de comunicação e afirma que essas propostas discutidas pelo povo cubano vão ser encaminhadas diretamente aos municípios e às províncias, para evitar deturpações nas propostas populares. Isso está ótimo: ao menos, as pessoas podem falar. E Raul está insistindo muito para que a população fale com honestidade, com franqueza, sem medo. E que esse processo será um insumo para a tomada de decisões. Disse também que tampouco deve-se esperar que surgirão soluções imediatas de tudo, mudanças gerais, que serão conquistadas com o tempo.

Há um setor intelectual que está analisando estruturalmente o problema; de outro lado, há uma demanda popular, da vida cotidiana. O grande problema é que estes não dialogam entre si, e muito menos com a visão oficial De que forma a população recebeu a proposta? Para alguns, sobretudo os mais velhos, é mais do mesmo. Crêem que, ao final, ninguém vai se dar conta do que pensa a população. Imaginam que as decisões serão tomadas de forma muito limitada, distantes da vontade do povo. Essa é uma preocupação de um setor. Há outro grupo que coloca justamente o contrário: que agora há uma oportunidade para um diálogo mais importante, mais substancial. Para ele, essa é a última oportunidade. Há um consenso sobre isso. E com essa visão, de que se trata de algo fundamental para a continuidade do processo cubano, e a preocupação de que não seja mais do mesmo, é que estão sendo realizados esses debates. E como os meios de comunicação estão tratando esse processo? Há uma crítica muito forte. Ninguém sabe o que o povo está dizendo. Não há um meio de comunicação que informe o que está ocorrendo nos debates. A imprensa oficial segue surda e muda. Para os meios, esse processo não existe, e isso cria uma ansiedade geral, pois Cuba não tem possibilidade de saber como pensa a si mesma.

Mas o que se tem falado, nas ruas, sobre as reivindicações apresentadas? Há algumas pessoas, por sua conta e risco, dedicadas a levantar informações sobre esses debates. E a principal demanda que tem aparecido é a de maior participação e controle dos poderes do Estado. Que se repasse capacidade de decisão e recursos aos poderes locais, poderes populares. É um marco socialista, de compromisso com a revolução cubana. Mas a idéia é: Quem vai decidir? Quem vai implantar o que se decide? A burocracia quer que o processo continue? Porque é justamente a burocracia que está sendo questionada. Essa parece ser a última oportunidade. Não é um momento casual; é a hora que Cuba precisa fazer uma substituição rápida e total dos velhos dirigentes revolucionários que começam a cair, pelas leis da vida, da biologia. Uma crítica feita aos meios oficiais, em Cuba, é o de que não fomentam o debate, dialogam pouco com a vida cotidiana... Hoje, os meios de comunicação social são um dos focos centrais de críticas do povo. Há uma desconexão com a realidade. Cuba vive hoje um processo intenso de debates, e um dos mais importantes é justamente esse: a função dos meios de comunicação social e oficial. Mas há um segundo debate, uma pseudo-reflexão que não leva em conta a complexidade do momento histórico que vive Cuba. São discussões mais de caráter moralista, que não abordam questões estruturais. E isso é um problema. Porque não há espaço para referendar todo esse imaginário, todo esse debate. Tem ocorrido também algo que se chama “a guerra dos e-mails”. É uma certa catarse coletiva sobre os problemas dos meios de comunicação, de transporte, sobre que tipo de socialismo queremos, mas que ainda não se infiltra no corpo social cubano. Há um setor intelectual que está analisando estruturalmente o problema; de outro lado, há uma demanda popular, da vida cotidiana. A questão é que esses dois setores não dialogam entre si, e muito menos com a visão oficial. São leituras que precisam se complementar para criar algo superior ao que queremos. Ou seja, não há canais de comunicações. E o tempo corre. Por que você avalia que o Estado cubano está distante da vida cotidiana? Há uma tarefa revolucionária que é diluir esse Estado no corpo social, fazer com que seja o Estado do povo, do trabalhador, e não da burocracia. E o debate segue mais no sentido de avançar no socialismo ou regressar a formas capitalistas? A discussão segue mais no marco socialista, mas, no imaginário social, as práticas tendem mais ao capitalismo. Pode parecer contraditório, mas é assim. Há um grupo pensando no socialismo, mas a própria dinâmica e o referente individual das pessoas têm muita força. E alguns setores, em minoria, querem a social-democracia. Mas não é possível que os Estados Unidos se intrometam nesse processo? Não, os grupos e os setores asquerosamente estadunidenses não têm legitimidade nesse processo. As pessoas os desprezam. Os Estados Unidos não são um modelo, há uma consciência geral de que são uma merda. O problema é mais sutil, está relacionado com a iminência de se reproduzirem lógicas liberais, de produção capitalista, mesmo entre as pessoas comprometidas com a revolução. Isso pode ser ocasionado pela falta de debate. Você poderia dar um exemplo disso? Sim, o reordenamento empresarial em Cuba. As empresas estatais em Cuba estão incorporando as técnicas empresariais capitalistas. Mas o essencial, para que permaneça uma referência socialista, é dar o poder aos trabalhadores. E ninguém fala disso. Há hoje uma preocupação com a juventude cubana, sobretudo a que cresceu no

Carros estacionados diante do Capitólio de Havana

As empresas estatais em Cuba estão incorporando as técnicas empresariais capitalistas. Mas o essencial, para que permaneça uma referência socialista, é dar o poder aos trabalhadores. E ninguém fala disso período em especial, conviveu com os momentos mais difíceis, de carências. Essa juventude é muito influenciada pelos valores capitalistas, do consumismo? Em Cuba, não há consumismo. Pelo contrário, há uma história do não-consumo e, neste contexto, a projeção do consumismo é muito atrativa. É uma porta muito tentadora para a juventude e até para os que não são tão jovens. Mas eu não reduzo o tema da cultura aqui. Digo que precisamos de uma cultura superior na compreensão da política. Que o povo tenha seus processos de equívocos e criação coletivos. É um processo longo e já perdemos muito tempo. Para mim, a mudança está aí. Está na perspectiva de como os cidadãos se organizam, se educam e superam culturalmente esse individualismo. Como superam a idéia de que “eu sou o sujeito que vou resolver o meu problema isoladamente”, e caminhem para o sentido de como “eu participo, dialogo e me reconheço em um trabalho coletivo”. A questão não é reprimir o consumismo, mas superá-lo culturalmente. Por que você afirma que é necessário estudar três tipos de Estado – o de bem-estar social, o fascista e o do socialismo real – para criarmos algo novo? O que eles têm de essencial? Porque é a experiência acumulada, sobretudo no século 20, para enfrentar o neoliberalismo. Ao fracassar em três experiências, veio a etapa neoliberal, que é igual às velhas formas de dominação do capital em um contexto sem resistência. É importante resgatar porque fracassaram essas experiências para saber que não estamos reinventando nada. Claro, há muita criatividade no contexto atual, mas é fundamental estudarmos esse legado histórico, sobretudo vislumbrando um movimento que vai resultar no enfrentamento com o capitalismo. Vocé acredita que há espaço hoje para um Estado fascista na América Latina? Sim, por conta da própria condição extrema de miséria na região e também devido à expansão do conservadorismo e das visões reacionárias no continente. São dois traços que me preocupam: que se combinem esses fatores, no sentido do nacionalismo, ainda que contra o imperialismo, e que reproduzam uma lógica de dominação também capitalista. Os níveis de organização da violência social na América Latina são um nutriente para um regime parecido ao fascismo.

De qualquer forma, o Estado de bem-estar social, ou algo parecido, segue como um modelo que se contrapõe ao neoliberalismo... O capitalismo nacional tende a isso. O que digo sobre estudar essas experiências históricas é para compreender que há limites. E que há um ciclo e, em algum momento, atentará contra a lógica mesmo do sistema. A acumulação e um Estado que distribui não podem compor um Estado de bem-estar. Que condições materiais teria uma burguesia nacional para desenvolver um processo nacionalista com uma visão mais social? É preciso fazer perguntas. E o socialismo real? A pergunta que se faz é que, se pelo fato de o socialismo real fracassar, será que não há nada o que resgatar dessa experiência? Não houve nada de positivo ou negativo? Não há princípios invioláveis do que não se deva fazer em nome de uma sociedade socialista? É preciso estudar isso porque serve para nossa organização. O que fracassou em 1991? O regime de dominação e opressão burocrática, a ditadura burocrática soviética, foi isso o que fracassou. O socialismo não fracassou. Que aspectos você ressaltaria em um esboço de análise sobre o fracasso soviético? Impossível responder brevemente, mas podemos dizer que, essencialmente, é a própria complexidade de criar uma sociedade superior em um país atrasado material e culturalmente. Um país assediado pela burguesia de forma atroz. Um país onde o sonho libertário encontrou muitas dificuldades, que incluíam mortes e guerras cruéis. E a renúncia de um setor ao processo revolucionário, assumindo a reprodução de uma lógica de dominação política não superada, que tinha como base um desapreço à capacidade real de o povo se governar. Mas foi evidentemente um processo muito mais complexo do que isso. Arquivo Pessoal

Quem é Ariel Dacal Diaz é historiador, cientista político e trabalha no Centro Martin Luther King (CMLK). Foi Chefe de Redação da Publicação de Ciências Sociais. Especializou-se em estudos sobre a crise da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).


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áfrica Fotos: Yuri Martins Fontes

Vista do porto de Djibuti, que concentra toda a base econômica do país

Djibuti, um país-porto sob controle CHIFRE Devido a sua estratégica localização geográfica, o país abriga uma base militar estadunidenses com 2 mil soldados Nesta edição e na próxima, o Brasil de Fato publica textos e fotos do viajante Yuri Martins Fontes sobre sua passagem pelo Djibuti e pela Etiópia – ambos ao norte do continente africano, na região conhecida como Chifre da África. No total, Yuri percorreu 42 países em duas etapas, ambas por meio de transportes públicos locais, por via terrestre e fluvial. A primeira, no período de 2001 a 2002, da Bolívia ao México. E a segunda, terminada há alguns meses, com duração de pouco mais de um ano, de Portugal à Índia, cruzando o sul europeu, o norte africano e o Oriente Médio. Para colocar no papel suas experiências, Yuri contou com a colaboração de Waldo Lao Fuentes, editor do jornal A Palavra Latina. Yuri Martins Fontes APÓS CRUZAR por semanas o território etíope, decido seguir ao Djibuti, caminho natural para as Arábias. Sigo num ônibus precário e superlotado – já que o famoso trem das Linhas Férreas EtíopesDjibutianas tardaria ainda alguns dias para partir. Somente ao embarcar me daria conta de que o ônibus era clandestino e que a sua grande procura era devida ao contrabando das folhas de tchat. A Etiópia é grande produtora desse estimulante legalizado e levemente alucinógeno, bastante popular nos países do Chifre da África e também no Iêmem. Contudo, as taxas alfandegárias são caras. Aliás, tudo no Djibuti é caro. De madrugada, o motorista percorre velozmente as curvas da estrada de terra entre os dois países. Masca incansavelmente o tchat e pisa alucinado a 100 km/h. Os demais passageiros também mascam a folha e fumam cigarros. As brasas voam por sobre três galões de gasolina que cheiram forte no interior do veículo. Já é de manhã quando adentramos o território djibutiano. Em mais duas horas de paisagens desérticas-rochosas, chegamos à capital. Uma grande avenida asfaltada atravessa ruazinhas de terra até o centro – mais comercial e militar do que turístico. Dali, são 30 minutos a pé até o porto. E se acabou o país. A falta de estrutura da cidade pode ser observada pelos

preços exorbitantes – quase europeus. Dentre os poucos quartos de pensão, consigo um menos caro, que, apesar de não ter janelas, fornece-me abrigo perante o sol de 48ºC de julho. O Djibuti é um dos menores e mais pobres países do mundo. Sua população, de cerca de 600 mil pessoas – maioria muçulmana –, se concentra na baía da região do porto, onde está sua capital, Vila de Djibuti, e mais alguns vilarejos-dormitório. Todo o país vive em função do porto. Nada mais os ex-colonizadores franceses permitiram que se construísse, em sua ânsia por perpetuar esse domínio estratégico – à semelhança do que ocorre hoje na Guiana Francesa, uma colônia unicamente especializada em lançamento de foguetes. No Djibuti, há somente um importante porto, à entrada do Mar Vermelho. Rota marítima entre o Ocidente e o Oriente. Sua economia é totalmente baseada nas atividades portuárias. Não se trata de uma cidade-nação, mas de um país-porto. E de fato não é uma nação, mas um território artificialmente tecido pelos seus colonizadores – a partir de terras e povos divididos a partir da Etiópia, Eritréia e Somália, que, por sua vez, também são nações divididas a lápis pelos europeus. De uns anos pra cá, quando a vizinha Etiópia perdeu sua saída ao mar – após a guerra de secessão da Eritréia, que terminou em 1993 – o Djibuti tornou-se a principal via comercial para o escoamento dos produtos etíopes e também de outros países da África Sub-Saariana (aos quais o Djibuti se conecta por via ferroviária. E vale aqui uma ressalva: a situação melhorou, mas nada que tenha modificado substancialmente seus índices de subdesenvolvimento – o desemprego, por exemplo, atinge a impressionante marca de 40% dos habitantes).

Guantánamo na África? O Djibuti foi parte da Somália Francesa por quase 100 anos, até 1977. Hoje, a língua mais falada é o árabe, e depois o francês – embora também seja significativa a presença das línguas nativas dos povos vizinhos que compõem a população. Apesar disso, entre os mais jovens, a língua inglesa ganha maior espaço. De fato, atualmente a influência france-

Djibuti em números Território: 22.000 km2 (que caberia 386 vezes no Brasil). Religião: aproximadamente 95% da população é muçulmana sa é cada vez menor, substituída pela dos Estados Unidos – como prova do fracasso secular da nação européia em trazer qualquer prosperidade ao local. Desta forma, com o pretexto clássico de lutar contra os “novos focos terroristas controlados pela Al-Qaeda”, o governo de Washington, há alguns anos, investiu em uma grande base militar neste pequenino país do Chifre da África – que hoje alberga perto de 2 mil soldados ianques. O surgimento de novas bases militares em todo o globo faz parte da nova geografia mundial desenhada pelo Pentágono. As bases militares e as novas formas estratégicas de controle político-militar dos EUA são o novo argumento para “salvaguardar” sua soberania frente aos supostos ataques inimigos. Seus discursos, permeados de palavras como “Deus” e “liberdade”, foram o argumento para invadir países como Afeganistão e Iraque, claros desastres dos jogos de guerra no novo século. A tática da militarização não é fato recente. Somente na América, os estadunidenses contam com bases em Cuba, Guatemala, Equador, Peru, Paraguai, Haiti e Colômbia. Além dessas, há também bases em Israel-Palestina, Kuwait, Quirguistão, Catar e Uzbequistão, entre outras. Agora, chegou o turno da África. E quais seriam os interesses dos EUA no paupérrimo Chifre da África? Linhas marítimas estratégicas. O Djibuti é um porto importantíssimo para a região, e ainda está localizado na estreita saída que une o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, no Oceano Índico. Por aí passam diversos produtos vindos da Europa e África. Aí navega muito petróleo vindo do Golfo Pérsico. Além disso, desde esse reduto, pode-se vigiar inimigos ferozes, como o Sudão, por exemplo – país com grandes reservas de petróleo... inclusive. (Colaborou Waldo Lao Fuentes, editor do jornal A Palavra Latina)

Curiosidades da estratégia militar dos EUA Um novo projeto militar dos EUA pretende agora instalar radares marítimos na ilha lusófona de São Tomé e Príncipe, a fim de centralizar as operações de vigilância da região, especialmente no tocante à Nigéria – primeira potência petrolífera da África.

A partir do topo, artesãos nativos, militares estadunidenses e mercado central


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internacional

Prodi se divorcia dos operários; e namora o sedutor neoliberalismo ANÁLISE O acordo entre o “democrático” Veltroni e o conservador Berlusconi para uma reforma eleitoral mais bipartidária, seguido pela trágica morte de operários nas fábricas de Torino e nos canteiros de obras de Cassino e Caserta completam o lúgubre pano de fundo do atual cenário político italiano. Enquanto uma greve de motoristas de carretas aguçava o apetite especulativo dos comerciantes com aumentos de até 30%, o presidente Giorgio Napolitano – acompanhado pelo ministro D’Alema – desembarcava em Washington para se encontrar com o presidente Bush e com Condolezza Rice, como dizia manchete do jornal New York Times, com explosiva reportagem de seu correspondente em Roma, Jan Fischer. Laboratorio sociale occupato Buridda-CC

Achille Lollo de Roma (Itália) O PRESIDENTE Giorgio Napolitano e o primeiro-ministro Romano Prodi fizeram de tudo para minimizar as críticas do jornalista estadunidense, que literalmente desmontou a imagem do “Bel Paese” (lindo país) italiano. Talvez por isso o presidente e o ministro das Relações Exteriores italianos tenham bajulado Bush e Rice para garantir a ampliação da base aérea estadunidense na cidade italiana de Vicenza. Aliás, Napolitano (ex-comunista do PCI) extravasou diante dos jornalistas e sentenciou: “Não voltaremos atrás, a decisão esta tomada!”. Para os movimentos, partidos de esquerda e a poderosa federação sindical CGIL, que integram a coalizão do governo Prodi, a decisão foi uma ducha de água fria, visto que, após a manifestação de 17 de novembro em Gênova, os quatro ministros da esquerda haviam mandado uma carta a Napolitano e Prodi pedindo para que postergassem a decisão sobre a tal base. Depois, foi a vez do ministro D’Alema mostrar-se obsequioso e servil com Condolezza Rice, a quem deu a entender que a Itália estaria pronta para participar da divisão de novas tarefas “para a defesa da democracia”. Sofismas diplomáticos explicáveis se analisarmos a nova Lei Financeira, na qual o governo Prodi aumentou as despesas com a Defesa (compra de sofisticados equipamentos militares), diminuindo vários itens “sociais”. Diante disso, a mobilização cresceu em todo o país para ocupar a cidade de Vicenza e, assim, manifestar abertamente um profundo dissenso entre o “Movimento” e o governo Prodi, que pode constituir a motivação central da ruptura política. De fato, o relacionamento com Bush será o principal tema da reunião de balanço que o governo Prodi terá no dia 15 de janeiro com os partidos de esquerda (Rifondazione Comunista, Comunisti Italiani, Sinistra Critica e Verdi) para manter viva uma coalizão dita centro-esquerda que, na realidade, programa reformas e projetos de leis autenticamente neoliberais que nada têm a ver com o programa eleitoral que permitiu a Prodi e Veltroni ganharem as eleições em 2006. Pois, sem os quatros pequenos partidos de esquerda, o governo Prodi cai, como aconteceu em 1998.

Base militar Durante os anos da Guerra Fria, os Estados Unidos utilizaram a OTAN para instalar, nos principais países europeus (Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, Turquia), poderosas bases aéreas e navais que, em tempos recentes, foram utilizadas massivamente para sustentar – em termos logísticos e estratégicos – as operações que o Pentágono planejava para resolver os conflitos que surgiram no cenário mediterrâneo (Líbia, Bósnia, IugosláviaKosovo) e no Oriente Médio (Líbano, Iraque). É, portanto, nessa lógica que – com a complacência do governo Berlusconi – a base aérea que o Pentágono mantém em Vicenza, desde 1948, foi “promovida” para tornar-se a maior base aérea da OTAN, sendo também predisposta à aterrisagem de super-bombardeiros estraté-

“Yankee go home”: cerca de 100 mil italianos protestam nas ruas de Vincenza

No dia 15 de dezembro, para dizer “Não a ampliação da base de Vicenza” e, sobretudo, “Não ao acordo entre Napolitano e Bush”, Vicenza foi tomada pelos manifestantes. Uma manifestação de 100 mil pessoas que, apesar do silêncio da mídia, estremeceu verticalmente a relação entre o Movimento e as “instituições políticas”, uma vez que a “Traição de Vicenza” ampliou o fosso, já existente, entre ambos gicos (F-38) equipados com ogivas nucleares. Durante a campanha eleitoral, Romano Prodi, Walter Veltroni e Massimo D’Alema – para ganhar o voto do Movimento e dos partidos de esquerda – vestiram a carapuça do pacifismo, que logo tiraram, ao ensaiar as personagens da maléfica novela “Nós Cumprimos os Contratos”. Isto é, os contratos que Berlusconi assinou com Bush em 2004! No dia 15 de dezembro, para dizer “Não à ampliação da base de Vicenza” e, sobretudo, “Não ao acordo entre Napolitano e Bush”, Vicenza foi tomada pelos manifestantes. Nas ruas da cidade veneta estavam seus 25 mil moradores, apoiados por quase 70 mil militantes vindos de toda a Itália, mais milhares de jovens franceses, suíços, alemães, espanhóis e até estadunidenses pacifistas representando os movimentos contra a guerra. Uma manifestação de 100 mil pessoas que, apesar da nevasca, do silêncio da mídia, do imobilismo das centrais sindicais (CISL, UIL e CGIL) e da indecisão das direções dos partidos

de esquerda que integram o governo, estremeceu verticalmente a relação entre o Movimento e as “instituições políticas”, uma vez que a “Traição de Vicenza” ampliou o fosso, já existente, entre ambos. Dario Fo, Prêmio Nobel da Literatura em 1997, exclamou, ao finalizar o comício dos 100 mil: “Queridos políticos, vocês não querem escutar o povo e isso será o vosso fim, seus idiotas!”

Varredura ideológica Apesar do desinteresse que a maioria dos italianos manifesta pela política e pelos políticos, os 30 jornais italianos e os noticiários de 18 canais de televisão (14 privados e 4 públicos) enfatizaram as negociações que o ex-comunista Walter Veltroni – líder do novo Partido Democrático, juntamente com Prodi – finalizou com Silvio Berlusconi – dono de 70% da mídia italiana e do partido conservador Forza Itália – para aprovar, em primeira instância no Parlamento, a nova reforma eleitoral. Uma reforma que, por ser uma cópia do modelo alemão, desencantou os eleito-

res, visto que elimina os partidos que ficam abaixo de 5% dos votos e impõe um sistema bipartidário representado, por um lado, pelo Partido Democrata, de Veltroni e, por outro, pelo Partido da Liberdade, de Berlusconi. A única alternativa que sobra aos pequenos partidos é juntaremse aos dois grandes, tentando sobreviver neles como sub-legenda. Com essa reforma, o cenário político italiano mudaria radicalmente. De fato, apenas dois grandes partidos ocupariam o centro: o Democrata, considerado mais progressista, e o da Liberdade, como grande partido conservador que unificaria todas as correntes da direita, inclusive grande parte dos herdeiros do neofascismo. Praticamente, o acordo entre Veltroni e Berlusconi não é apenas uma opção de pragmatismo eleitoreiro, Mas a fase conclusiva de um processo de assimilação política que está se desenvolvendo na União Européia, que persegue dois objetivos centrais: 1) impor os conceitos políticos da sociedade de mercado; 2) promover a Chica 85

Protesto evidencia dissenso entre o “Movimento” e o governo Prodi

varredura ideológica dos antigos conceitos marxistas, isto é: partidos socialistas, comunistas, luta de classe, autonomia operária, hegemonia, sindicalismo classista, revolução. É claro que, nesse âmbito, não haveria mais sentido falar em antagonismo entre direita e esquerda. Argumentos que, na Itália, conquistaram, sobretudo, os ex-dirigentes comunistas que teorizaram primeiro a extinção do PCI e sua transformação em PDS; depois, outra movimentação em direção ao centro, criando os DS (Democráticos de Esquerda); enfim, em novembro deste ano, Walter Veltroni, Massimo D’Alema, Prodi e Rutelli lançaram o Partido Democrático, com o conseqüente “expurgo democrático” do que sobrou da chamada esquerda comunista reformista. Parece uma casualidade, mas também no campo da direita ocorreram importantes modificações. Berlusconi transformou a Casa da Liberdade (uma espécie de federação das componentes conservadoras) em Partido da Liberdade, entrando em choque com todos seus os aliados. Praticamente, a política italiana – tal como nos EUA – ficaria limitada a dois grandes partidos que podem ficar donos do Estado, visto que, na ausência de uma maioria absoluta, possam “dividir” o poder entre si e, assim, esmagar qualquer tipo de oposição. É o mesmo que aconteceu na Alemanha, entre conservadores e socialdemocratas, e também na França, onde o conservador Sarkozi convidou representantes do PS francês a serem ministros no seu gabinete, que, evidentemente, aceitaram.

“Acidentes de trabalho ” Em Torino, no dia 6 de dezembro, ocorreu a explosão de uma caldeira no complexo metalúrgico da trasnacional alemã Thyssen Krupp, provocando a morte de quatro operários e o ferimento grave de mais seis. De repente, os italianos – adormecidos por medíocres televisões públicas e privadas – descobrem que, a cada dia, morrem quatro trabalhadores por “acidentes”. São as chamadas “mortes brancas”, que, em 2006, foram 1.350. A construção civil é a recordista, com 378 vítimas fatais. Desses trabalhadores, apenas cinco eram italianos, enquan-

to que os outros 373 eram imigrantes “extracomunitários”, na maioria romenos e albaneses. Por isso – visto a onda racista que existe no norte e centro do país – poucos se importaram. Agora, os quatro operários queimados em Torino mexeram com o coração dos italianos, que desvendaram a outra face do lema “Trabalhar mais e Trabalhar bem”. Algo que implica em novas regras de trabalho, a fim de atender às exigências da concorrência perfeita do mercado e, portanto, realizar ciclos de produção com custos menores para obter lucros maiores. Isto, na prática, significou a introdução da flexibilização das normas trabalhistas associadas, agora, a uma maior precarização do trabalho; ou seja: trabalhar sem contratos, empregando trabalhadores despreparados e com ritmos mais acelerados, mais horas “extraordinárias” de trabalho e normas de segurança dos anos 80. Quem são os culpados? Os empresários afirmam que eles aceitaram os regulamentos de segurança, mas não dizem se cumprem com as normas. Por exemplo, na Thyssen Krupp, os extintores não funcionaram e os equipamentos que explodiram eram obsoletos. Os sindicalistas das três confederações replicam lembrando que o governo Berlusconi retirou das fábricas mil inspetores. Porém, não dizem que o governo Prodi nada fez para reintegrá-los. Também não dizem que muitos sindicatos, apesar da implementação generalizada da precarização, ficaram calados “para evitar dispensas”. Depois dos discursos, dos minutos de silêncio e dos lindos funerais das vítimas, parece que tudo voltou ao que era antes. O trabalho é apenas um custo que, para o mercado, deve ficar cada vez menor, enquanto que, para os partidos (progressistas, evidentemente), os trabalhadores são apenas uma fonte inesgotável de votos e, assim, flexibilização e precarização avançam, transformando os trabalhadores nos novos escravos do século 21. Achille Lollo é jornalista italiano, editor da TV Adia e autor dos DVDs: RCTV, fim de um império midiático e Por que o MST é contrário aos Transgênicos e ao Biodiesel


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cultura

Rap, instrumento de transformação

Divulgação

HIP HOP Grupo A Família, que se prepara para lançar seu segundo álbum, afirma que a música pode trazer mudanças “não só dentro das periferias, mas fora também” Tatiana Merlino da Redação DEMIS PRETO Realista, Gato Preto, Crônica e Dj Bira são os integrantes de A Família. O grupo de rap, nascido há seis anos em Sumaré, interior de São Paulo, prepara seu segundo álbum, com previsão de lançamento em março de 2008. Desde 2000, quando começaram a viajar pelo país com o rapper GOG fazendo shows, palestras e debates, os quatro integrantes do grupo não pararam mais com os trabalhos sociais, apresentações para comunidades carentes e movimentos sociais. No final de 2004, lançaram o primeiro álbum Cantando com a Alma. Uma das faixas, a música “Castelo de Madeira”, que trata da importância de se ter uma moradia digna, se destacou e foi premiada no maior festival de hip hop da América Latina, o Hutúz, como melhor música de 2005. Demis Preto Realista e Crônica foram entrevistados pelo Brasil de Fato e falaram sobre sua preocupação com a qualidade da letra das músicas e contaram que o rap tem ajudado a modificar a realidade das periferias. “Com o rap, muita coisa mudou dentro das comunidades. Em prol do rap, através do rap e por causa do rap”. Brasil de Fato – Como que se deu a relação de vocês com o movimento hip hop? Crônica – Eu nasci na periferia de Hortolândia (SP), num meio onde era impossível a gente não ter contato com a cultura hip hop. Eu sempre fui amante da escrita de denúncia. O hip hop estava entre os estilos de música que mais se assemelhavam com a denúncia, o cotidiano que eu vivia e as pessoas que estavam à minha volta. Não digo que entrei no hip hop, digo que nasci nele, ele faz parte da minha vida. Demis Preto Realista – Eu nasci em Campinas (SP), em 1977, e, aos quatro anos de idade, fui para Minas Gerais. Voltei aos oito para estudar e, assim que cheguei, a primeira música com a qual me identifiquei foi o rap, a música black. Esse tipo de música começou a ter muita força entre o pessoal da periferia, no gueto. Naquele momento, o maior grito que a gente tinha era aquela música. O hip hop chegou com uma nova proposta, de unir a juventude na dança, na poesia. O fato de estarmos hoje na linha de frente do rap nacional é resultado de uma caminhada de muita luta do passado, de vários caras como o GOG, os Racionais, o Thaíde, o DJ Hum, o Câmbio Negro. Esses caras fortaleceram muito a jornada.

A gente vem do sonho de um cara chamado Genival Oliveira Gonçalves, o GOG. Ele queria encontrar jovens de comunidades carentes que tinham talento para fazer música. Por felicidade do destino, teve todo um processo que resultou nesses quatro caras, nós, de a A Família Nas letras das músicas, em especial na premiada “Castelo de Madeira”, vocês falam dos sem-terra e dos sem-teto. Como é a relação do grupo com os movimentos sociais? Demis – Eu penso da seguinte forma: não é uma relação que a gente tem com os movimentos sociais. Nós somos o social. A gente vem do sonho de um cara chamado Genival Oliveira Gonçalves, o GOG. Ele queria encontrar jovens de comunidades carentes que tinham talento para fazer música. Por felicidade do destino, teve todo um processo que resultou nesses quatro caras, nós, de a A Família. Isso já foi um grande trabalho social desenvolvido por ele. A princípio, não éramos um grupo de rap, e sim um grupo de estudo. Acho que nosso grupo também é o resultado do sonho de várias pessoas do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), porque muitas vezes aquele cara que está lá no campo queria vir aqui para São Paulo e gritar para ver se a sociedade escuta. Quando a gente mostra a bandeira do MST no clipe, é mais ou menos esse grito. Em que vocês se inspiram para compor? Crônica – Musicalmente falando, é uma lista imensa, mas gosto de compor pensando na vida, como eu gostaria que as coisas fossem, como vejo e imagino as coisas. Nas minhas letras, gosto

A Família: na estrada desde 2000 para modificar a realidade das periferias do país

de falar bastante de mim. E se falar de mim nas minhas letras, da minha realidade, da minha verdade, sei que essa verdade vai ser contemplada por milhões de pessoas que vivem a mesma realidade. Eu me canto nas letras porque sei que as pessoas se inspiram bastante nisso. Demis – Esse ano eu fui à Bahia e conheci um cantor de reggae. No dia seguinte, já em São Paulo, lembrando dele, fiz um reggae chamado “Meninos são soldados”, que vai sair no CD novo. Muitas vezes, a inspiração vem do choro de uma criança, do olhar triste de uma senhora que levanta cedo e sabe que o filho está preso e ela não tem dinheiro para comprar comida para levar lá. Em quais projetos sociais vocês atuam? Crônica – Fazemos um trabalho na área de saúde na região de Sumaré, nos bairros Matão e Jardim Glicério, sobre prevenção e DST/Aids. O objetivo era trabalhar com adolescentes que estavam fora da escola. O modo que a gente encontrou de levar essa informação sem que fosse encarado como uma palestra chata foi utilizando a palavra do grupo. A gente sabe que fala e a juventude acompanha, pára para ouvir justamente porque somos próximos deles. A gente acredita que nossa colaboração foi essencial para romper com essa barreira que existe com os jovens que não querem participar de palestra porque é chato. Hoje, temos na periferia de Sumaré 70 jovens que são agentes multiplicadores e que estão distribuindo essa informação. Também temos um projeto social nosso, chamado “Razão Para Viver”, que visa levar entretenimento, cultura, informação, alimento e diversão para as crianças da periferia. Fazemos shows em praça pública, em vários bairros e até Brasília (DF). Demis – Fora as visitas nas quebradas, arrecadação de livros para colaborar com o enriquecimento das bibliotecas do MST, a gente está fazendo a nossa parte. Teve um episódio, que foi o show das crianças, em março de 2005, lançamento do primeiro álbum do grupo. Fizemos um mutirão de limpeza na comunidade, um monte de gente falava que a gente era louco porque estávamos com vassoura na rua. Naquela época, estava saindo nos jornais do país inteiro que Sumaré era a cidade mais violenta do Brasil, e que exatamente onde eu moro, que é a região da Área Cura, era o local da violência. E a gente fez o lançamento do nosso disco lá, numa praça onde a própria Polícia Militar falava que era uma loucura a gente levar 10 mil pes-

soas, que poderia morrer um monte de gente. Ficamos numa luta de seis meses, juntamos várias lideranças e assinamos documentos de responsabilidade. Enfim, fizemos um evento com 10 mil pessoas e naquela noite não foi registrado um boletim de ocorrência na região. Era um evento aberto no qual a gente pedia que as pessoas levassem um quilo de alimento. Não era obrigatório, ainda mais porque era ao ar livre, mas a gente conseguiu a proeza de arrecadar uma tonelada de alimento. Três dias depois, aconteceu uma enchente que deixou 300 fa-

Mudou muita coisa. Estamos muito mais maduros, com conhecimento maior e a nossa musicalidade está mais forte. Estamos fazendo música da melhor qualidade possível mílias desabrigadas na região e distribuímos os alimentos entre eles. Vocês estão lançando o segundo álbum do grupo. O que mudou no trabalho de vocês, de três anos para cá? Crônica – Nesse intervalo, a gente também conseguiu colocar na rua um disco ao vivo que é um agradecimento ao público que compareceu sempre nos shows do grupo, lotou as casas, ao público que transformou o “Castelo de Madeira” em hino nacional. Gravamos esse CD ao vivo na cidade de Limeira (SP), com casa cheia e participação de grandes nomes do hip hop nacional. Agora vamos lançar esse segundo disco, com 16 faixas. Mudou muita coisa. Estamos muito mais maduros, com conhecimento maior e a nossa musicalidade está mais forte. Estamos fazendo música da melhor qualidade possível. Demis – Eu acho que nosso comportamento diante do trabalho mudou bastante, porque antes de gravar o CD a gente sonhava em cantar rap nos palcos, e depois veio a fase de gravar o disco, a música ir para as rádios, e aconteceu da gente subir nos palcos e cantar e as pessoas cantarem junto. Depois, vieram as premiações: ganhamos o prêmio Hutúz 2005 de melhor música do ano, com “Castelo de Madeira”; o Atuação Social, pela Cooperifa. Todo esse trajeto trouxe coisas importantes para o crescimento. Achamos que esse disco novo é resultado de todas as ações positivas que fizemos ao longo desses últimos anos. Divulgação

Integrantes vêem o grupo como resultado de um processo

Crônica, em uma entrevista você disse que se preocupa muito com o conteúdo das letras do rap. Por quê? Crônica – Pela falta de compromisso nas letras. Muitas vezes, a pessoa fala “sou músico, canto rap e não preciso explicar as coisas nas minhas letras”. Tudo bem que a gente que faz música sabe que nem sempre ela vem com um significado só. Mas a gente tem que entender que, no caso do rap, cantamos para as pessoas que vão se espelhar na gente. Temos que saber que tem crianças que ouvem a música, porque tem a batida legal, tem um refrão que elas também cantam. Então, a falta de compromisso no rap é muito grande. A maioria das músicas é egoísta e não tem preocupação com a forma que vai ser interpretada nas ruas. O rap influencia muita gente, e se ele não tiver seriedade naquilo que está cantando, vamos perder um espaço popular nas periferias, que possa fortalecer o povo, unir essa massa. Sou sonhador mesmo e acredito que o rap pode fazer uma mudança, não só dentro das periferias, mas fora também. Vocês acham que o rap pode ajudar na transformação da realidade social das periferias? Crônica – O rap tem atuado dentro das comunidades, mudado muito o comportamento dos jovens, falando que estudo é estudo, falando “você é negro e se aceite como é, porque não é inferior a ninguém”. Muita coisa mudou dentro das comunidades com o rap. Em prol do rap, através do rap e por causa do rap. Qual é a opinião de vocês sobre rappers que assinam contratos com grandes gravadoras? Demis – Bom, primeiro tem que ver o que foi oferecido a ele e o que ele quer da vida. Tem cara que acha que através da gravadora de grande vai ter um bom resultado para fazer show na beira da praia, andar de jet ski, mas nem sempre isso é resultado de uma boa caminhada. Hoje a gente é de gravadora independente, mas, se amanhã um empresário das transnacionais fizer uma proposta na qual a gente veja possibilidade de evoluir e conseguir trazer benefício para o nosso trabalho, para a nossa base de resistência, a gente vai sentar e tentar negociar para ver até onde estamos juntos. Tudo depende do jeito que é conversado. Todos esses caras que vão para a TV e depois se lascam no cenário da música são exatamente aqueles que não estavam preparados para conversar. Depois, o cara chega na quebrada e a molecada não pira com ele, taca pedra. A minha caminhada é diferente, mas eu não vou falar que não vou na TV. No momento não vejo que a gente necessite disso, a gente tem mais a aprender com o nosso povo, aprender escutar pessoas que tem o que dizer a nós. O que acham das críticas de que rap é musica americanizada? Demis – pode ser importada se eu me inspirei na favela de Jundiaí (SP), nas favelas do Rio de Janeiro? Mas eu acho que o hip hop nacional está precisando olhar para a música brasileira e descobrir um espaço positivo para trabalhar. Dentro da música brasileira, e não separadamente, dentro de um movimento. E dentro da música brasileira, o hip hop tem uma expressão forte, mas ela se desgasta a partir do momento que tem muito grupo sem qualidade. A gente está passando por uma fase difícil no hip hop.


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