Universidade Federal de Minas Gerais – Ano 25 – N° 8 – Novembro de 2021
Quem é?- p. 3
Hora da leitura - p. 6
Receita - p. 7
LITERATURA AFROBRASILEIRA Na edição do mês de novembro de 2021, em lembrança ao Novembro Negro, escolhemos o tema "Literatura Afro-brasileira". Aqui você vai descobrir o que é esse tipo de literatura e os principais temas que são abordados nela. No "Quem é?", conhecerá a autora mineira Conceição Evaristo, grande poeta, romancista e contista do país. Por fim, um poema de Thiago Cervan acompanhado de uma receita de cocada branca para ler com muito sabor! O BOLETIM DO CARRO BIBLIOTECA DA UFMG PARA SUA COMUNIDADE!
Para saber mais:
Instagram: @carrobiblioteca / site: carrobib.eci.ufmg.br
Expediente Projeto Boletim Bairro a Bairro
EXPRESSÃO DO MÊS
Edição: Alan Francisco de Paula Bárbara Vitória Fernandes dos Reis Projeto gráfico e diagramação Alan Francisco de Paula Bárbara Vitória Fernandes dos Reis Coordenação e Revisão Evaldo Alves
Carro-Biblioteca Coordenação do Carro-Biblioteca Profª Maria Guiomar da Cunha Frota. Bibliotecário Responsável Evaldo Alves Coordenadora e Secretária do Cenex Gilma Pereira Funcionário administrativo Edson Lucide do Nascimento (motorista) Bolsistas Alan Francisco de Paula Bárbara Vitória Fernandes dos Reis
Projetos associados - coordenadores/cocoordernador Projeto Conto e Reconto Prof. Eduardo Valadares da Silva Projeto Rádio Janela Prof. Marina Cajaíba da Silva Horta Profª Maria Guiomar da Cunha Frota
"VÃO-SE OS ANÉIS, FIQUEM OS DEDOS" X "VÃO-SE OS DEDOS, FIQUEM OS ANÉIS. Essa expressão é uma dica da Marcília Aparecida Martins, moradora de Ribeirão das Neves. No primeiro exemplo, o ditado popular quer dizer que em momentos de crise, a prioridade não são os bens, mas sim sobreviver, preservar o seu corpo, seus dedos. O contrário, "vão-se os dedos, fiquem os anéis", podemos relacionar com a ganância. Aplicase muito à políticos que não estão preocupados com o bem-estar do povo, mas sim com a acumulação de dinheiro e bens.
3 Estreou na literatura em 1990. Seus contos vêm sendo estudados em universidades brasileiras e do exterior, tendo, inclusive, sido objeto da tese de doutorado de Maria Aparecida Andrade Salgueiro, publicada em livro em 2004, que faz um estudo comparativo da autora com a americana Alice Walker.. (LITERAFRO)
Conceição Evaristo Maria da Conceição Evaristo de Brito (1946-) nasceu em Belo Horizonte e passou a maior sua infância aqui. Morou com a tia para aliviar as despesas de seus pais, que eram muito humildes. Com essa tia, teve melhores condições de estudo. Na década de 70 mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de emprego, já que em Belo Horizonte não poderia exercer sua função de magistério. Naquela época, em BH, os professores eram recomendados por outras pessoas que não necessariamente sabiam avaliar um bom professor. Por isso e devido ao racismo praticado pela escola desde que era aluna, escolheu migrar para o Rio, longe de suas 2 irmãs e seus pais, que nunca deixaram de incentivá-la. Então, Conceição Evaristo formouse em Letras na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ingressou na rede pública de ensino da capital fluminense. Hoje, é mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afrobrasilidade (1996), e doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense, com a tese Poemas malungos, cânticos irmãos (2011), na qual estuda as obras poéticas dos afro-brasileiros Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira em confronto com a do angolano Agostinho Neto.
Por fim, a sua escrita coloca a figura feminina como símbolo de resistência à pobreza e à discriminação. Em suas obras, de acordo com o LITERAFRO, “há denúncia da condição social dos afrodescendentes, porém inscrita num tom de sensibilidade e ternura próprios de seu lirismo, que revela um minucioso trabalho com a linguagem poética”.
Obras individuais Romance ·Ponciá Vicêncio (2003) (TEMOS NO ACERVO DO CARRO BIBLIOTECA!) ·Becos da Memória (2006) Poema ·Poemas da recordação e outros movimentos (2017) Contos ·Insubmissas lágrimas de mulheres (2011; 2ª edição pela Editora Malê, 2016 ) ·Olhos d`água (Editora Pallas, 2014) . ·Histórias de leves enganos e parecenças (Editora Malê, 2016)
Ponciá Vicêncio, Editora Pallas (2003)
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A LITERATURA AFROBRASILEIRA Graças à luta por parte do movimento negro brasileiro durante décadas em relação ao racismo estrutural, que apaga sistematicamente desde a vida à produção artística e científica de pessoas negras, podemos notar nas últimas décadas uma tomada de consciência em relação ao universo artístico e cultural afro-brasileiro. Por “tomada de consciência”, referimo-nos ao fato de que a posição subalterna de obras e artistas negros nos cânones tem sido cada vez mais problematizada e questionada. Quando pensamos na literatura brasileira, tal problemática é ainda bastante evidente, uma vez que, em geral, associa-se literatura à produção de homens brancos. Ao menos é o que observa a escritora Eliana Alves Cruz que, ao realizar dinâmicas com crianças de escolas públicas, perguntando como elas imaginam escritores, normalmente recebe respostas como “branco”, “velho”, “homem” e “morto”. Esse tipo de associação por parte das crianças pode revelar a falta de exposição que elas recebem na escola do universo literário afrobrasileiro. Mas, afinal, o que seria esse universo? O que categoriza a “literatura afro-brasileira”? Quem a escreve? Sobre o que escreve? Essas são algumas das questões que serão abordadas no presente texto. Um conceito em formação Definir a literatura afro-brasileira, assim como qualquer literatura, não é algo fácil. Há diversas
Cadernos Negros é uma série que publica desde 1978 textos de literatura afro-brasileira
maneiras de categorizar tal literatura, maneiras que podem até se polemizar. Seria a literatura afro-brasileira aquela que apresenta o universo dos afro-brasileiros no Brasil, podendo ser escrita por pessoas negras ou brancas? Ou é qualquer tipo de literatura escrita por e somente uma pessoa negra? Para o professor e especialista em literatura afro-brasileira Eduardo de Assis Duarte, trata-se de um conceito "em construção"; contudo, é possível elencar algumas características temáticas, formais e estilísticas para o que aqui cunhamos de "literatura afro-brasileira" Aspectos da literatura afro-brasileira Ainda conforme o professor citado acima, um dos primeiros aspectos para a identificação do texto literário afro-brasileiro é o tema. Nesse sentido, tal texto irá se debruçar sobre a pessoa afrodescendente no âmbito individual, social e cultural. Assim, a temática da literatura afro–
5 -brasileira se mostra bastante ampla, podendo contemplar, por exemplo, tradições culturais e religiosas africanas que resistem em solo brasileiro, a problemática questão social do sujeito negro na sociedade brasileira contemporânea ou a questão da escravidão que até hoje inflige a situação social dos afrobrasileiros. No entanto, a simples tematização da questão afro-brasileira não é suficiente para demarcarmos um texto como afro-brasileiro. A questão da autoria e ponto de vista da obra são de suma importância. Segundo Duarte, o simples fato de quem escreve ser uma pessoa negra não torna o texto afro-brasileiro – isso seria inclusive negar a liberdade dessas pessoas em suas criações literárias. Haveria, então, a necessidade da junção de uma autoria afrodescendente em que, dentro do texto, apresentasse um ponto de vista consciente da questão racial ali tematizada, não necessariamente sempre num tom engajado e militante, mas também de forma alusiva e sutil, como fazia Machado de Assis, por exemplo.
Outros aspectos dignos de nota são a linguagem e o público. Percebe-se que, na literatura afrobrasileira, há uma procura de ressignificação de palavras, signos, que normalmente possuem sentido pejorativo ou negativo. Também pode-se notar uma maior utilização de vocábulos afins à cultura afro-brasileira, como faz Conceição Evaristo até mesmo na criação dos nomes de suas personagens. Agora em termos de recepção das obras, ou seja, sobre o público que irá lê-las, a literatura afro-brasileira tende a direcionar sua voz aos próprios afro-brasileiros que constantemente ficam em posições subalternas na literatura brasileira. É uma forma, então, de dar holofote a quem não é frequentemente representado de formas não estereotipadas ou para além do segundo plano de personagens. Brasileira sim, mas não somente isso A partir da verificação desses aspectos, que são características que se pode utilizar para análises literárias em geral, podemos notar que há na produção literária brasileira uma literatura que, ao contrário da tentativa totalizadora que apreenderia uma literatura "nacional". Essa produção procura pôr em cheque discursos que tendem a um universalismo, evidenciando vozes que muitas vezes foram caladas ou desprestigiadas por não serem aquilo que o discurso hegemônico valoriza. A literatura afrobrasileira nos mostra um dos "brasis" que existem no Brasil que, graças ao esforço e organização desses vários afro-brasileiros, tem sido cada vez mais discutido, valorizado e representado.
Maria Firmina dos Reis com Úrsula (1859) publicou o primeiro romance abolicionista de autoria feminina em língua portuguesa
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HORA DA LEITURA
POEMA BRASILEIRO REMIX Thiago Cervan no brasil de cada 100 indígenas mortos 40 são crianças no brasil dos 30 mil jovens assassinados por ano 77% são pretos No brasil a polícia mata mais do que em qualquer outro lugar no mundo no brasil é onde há mais assassinatos de travestis e transexuais [embora os casos subnotificados sejam incontáveis] no brasil ocorrem 527 mil estupros por ano [embora os dados oficiais sejam sempre menores do que os números reais]
no brasil a população carcerária é a terceira maior do planeta no brasil 70% dos alimentos são contaminados por agrotóxicos [o maior índice Do mundo] no brasil 52% das casas não possuem tratamento de esgoto no brasil muitas crianças indígenas pretas pobres morrem todos os dias antes de completar 8 anos de idade antes de completar 8 anos de idade antes de completar 8 anos de idade antes de completar 8 anos de idade
Thiago Cervan é um poeta de São Bernardo , SP (1985). Seu trabalho se volta à experimentação poética em diversos meios.
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CHARGE DO MÊS
RECEITA DO MÊS
A receita do mês é um delicioso doce de origem afro-brasileira! Cocada branca INGREDIENTES 2 ½ xícaras (chá) de coco fresco ralado grosso (cerca de 500 g) 1 ½ xícara (chá) de açúcar 1 xícara (chá) de água
MODO DE PREPARO 1. Numa panela média, misture o açúcar e a água com a ponta do dedo para não espirrar na lateral da panela – isso evita que a calda queime até atingir o ponto de fio.
2.Leve a panela ao fogo médio e deixe cozinhar sem mexer, por cerca de 20 minutos, até a calda atingir o ponto de fio – para verificar, mergulhe uma colher e levante um pouco da calda, se formar um fio fino entre as gotas, está pronta. 3. Adicione o coco e misture apenas para envolver os flocos com a calda (evite mexer em excesso para não açucarar). Deixe cozinhar por mais 5 minutos em fogo médio, sem mexer. A cocada deve estar bem úmida neste momento. 4. Transfira a cocada (com a calda) para uma tigela e deixe descansar por 5 minutos. Enquanto isso, unte uma assadeira grande com manteiga (se preferir, utilize uma assadeira antiaderente). 5. Com 2 colheres de sobremesa, modele a cocada em queneles e transfira para a assadeira, uma ao lado da outra (se preferir, modele em montinhos para ficar mais rústico). Deixe em temperatura ambiente por cerca de 1 hora ou até as cocadas se-
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-carem. Elas ficam durinhas por fora mas ainda úmidas por dentro. Sirva a seguir ou conserve num pote com fechamento hermético por até 1 semana.
REFERÊNCIAS
Biografia de Conceição Evaristo: Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/188conceicao-evaristo>.
Charge: Disponível em: <https://www.plural.jor.br/charges/alexandre/arman dinho-69/>. POEMA BRASILEIRO REMIX: In: _____. Não existem rotas conciliatórias de fuga [2016].
Por um conceito de literatura afro-brasileira: Disponível em: <http://www.letras.ufmg.br/literafro/artigos/artigosteorico-conceituais/148-eduardo-de-assis-duartepor-um-conceito-de-literatura-afro-brasileira> Receita cocada branca : Disponível em: <https://www.panelinha.com.br/receita/Cocadabranca>. Vão-se os anéis e ficam os dedos- Ana Beatriz: Disponível em: <https://www.youtube.com/watch? v=xyTBeebZ_hw>.