Quarta-feira, 21 de setembro de 2022
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Valor
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F11
Especial | Florestas Silvicultura Greentech Radix e Courageous Land têm foco em áreas degradadas pela agropecuária
Agroflorestais recuperam a paisagem em RR DIVULGAÇÃO
Timóteo Camargo Para o Valor, de Boa Vista O Estado de Roraima sancionou, em 2 de agosto, uma lei reduzindo a área de reserva legal de floresta em propriedades rurais de 80% para 50%. Essa lei que instituiu o zoneamento ecológico-econômico (ZEE) foi inicialmente aprovada em uma sessão especial da Assembleia Legislativa, em 20 de julho, realizada na cidade de Rorainópolis (260 quilômetros ao sul de Boa Vista). O município é o líder no desmatamento em Roraima, com mais de 5,7 mil hectares de cobertura nativa retirados só em 2021, conforme o MapBiomas. Em várias glebas, Rorainópolis e municípios vizinhos registram taxas de desmatamento que superam os 2% de avanço ao ano. É nesse cenário de extrema vulnerabilidade ambiental que dois projetos de preservação e reflorestamento avançam no contrafluxo da degradação. A agroflorestal Courageous Land (CL) pretende reflorestar 5 mil hectares e proteger outros 20 mil hectares de mata nativa na região de Rorainópolis. A empresa investiu R$ 4 milhões na primeira fase do projeto para plantar cerca de 60 hectares e criar um viveiro com capacidade para 140 mil mudas. A CL pretende captar cerca de R$ 500 milhões para investir em Roraima até 2030, entre linhas de crédito para reflorestamento, financiamentos internacionais para empreendimentos de seques-
Philip Kauders, da Courageus: “Estamos combatendo as mudanças climáticas com um modelo que gera renda e é mais eficiente no sequestro de carbono”
o plantio para 150 hectares/ano. A Radix já plantou 100 hectares de mogno africano e 40 hectares de agroflorestas com espécies frutíferas nos municípios de Mucajaí e Iracema, centro-sul de Roraima. A empresa se apresenta como uma “greentech” e trabalha por meio de crowdfunding. Em seis anos de existência, captou R$ 5 milhões e, com o projeto em Roraima, pretende avançar para um aporte médio de R$ 10 milhões por ano nessa modalidade. Assim como a Courageous Land, a Radix foi selecionada pelo
tro de carbono e o Fundo Vale. “Estamos literalmente na fronteira, combatendo as mudanças climáticas com um modelo que gera renda e é mais eficiente no sequestro de carbono do que a agricultura tradicional”, diz Philip Kauders, CEO e fundador da CL. A startup Radix, por sua vez, tem como meta plantar 1 milhão de árvores em Roraima até 2030, o que representa 1.200 hectares em área recuperada. Para isso pretende cultivar anualmente 100 hectares nos próximos três anos e, a partir de 2025, ampliar
Corredor ecológico vai conectar áreas isoladas no Cerrado
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Fundo Vale, que responde pela meta florestal da mineradora de recuperar e proteger mais 500 mil hectares de florestas até 2030. De 69 iniciativas contempladas pelo edital do programa da Vale este ano, três estão em Roraima. Os projetos de reflorestamento da Courageous Land e Radix devem proporcionar, além do ativo ambiental, rentabilidade para os investidores. A CL trabalha com um gasto por hectare de reflorestamento que varia de R$ 30 mil a R$ 60 mil, com taxa interna de retorno presumida aci-
ma de 25% ao ano. O empreendimento está desenhado para gerar lucro perene a partir do terceiro ano e o retorno total do investimento em cinco anos. Giba Derze, CEO da Radix, afirma que a rentabilidade para os investidores da startup, via crowdfunding, é de 12% a 16% ao ano. A segurança deve ser um atrativo para os novos investidores, que podem participar com cotas a partir de R$ 700. Mesmo que espécies florestais, plantadas sozinhas ou em sistemas agroflorestais, sejam destina-
DIVULGAÇÃO
Ameaça no Cerrado Região abrange quase 25% do teritório nacional Desmatamento - em mil km2 15
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De Boa Vista O Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, cobrindo quase um quarto do território nacional, presente em 12 Estados. Sua vegetação rasteira e árvores de raízes profundas protegem mananciais de oito das 15 bacias hidrográficas do país. Entre 1985 e 2021, o bioma perdeu quase metade da sua cobertura nativa. Só em 2021 o equivalente a 3,2 vezes a área da cidade de São Paulo foi derrubado, segundo relatório do MapBiomas. A ONG Black Jaguar Foundation (BJF) foi criada com o objetivo de fomentar a implantação de um grande corredor ecológico, com 2,6 mil km de extensão e 40 km de largura, às margens do rio Araguaia. O rio, que banha quatro Estados, é a principal fronteira natural entre o Cerrado e a floresta Amazônica e uma das regiões mais ameaçadas de ambos os biomas. O “Corredor do Araguaia” visa conectar bolsões de floresta isolados e recuperar as terras degradadas dentro das Áreas de Proteção Ambiental (Apas) e Áreas de Proteção Permanente (APPs ) de propriedades rurais. A estratégia é oferecer aos proprietários rurais apoio técnico e financeiro para a regularização das áreas com déficit ambiental. A Fazenda Bela Vista, em Caseara (TO), é uma das primeiras parceiras da BJF. Cerca de 3 hectares de APP estão sendo recuperados com o plantio de 10 mil árvores nativas. Carlos Félix, dono da fazenda, explica que a parceria consiste em abrir as áreas degradadas para que a Black Jaguar assuma o processo de revitalização: preparo do solo, plantio das mudas, instalação de cercas e o acompanhamento posterior. “A proteção dessas áreas contribui para o aumento das águas na fazenda e para a preservação da fauna e da flora”, afirma. Um estudo encomendado pela ONG em 2019 e assinado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Illinois (EUA) prevê um custo total de US$ 2,2 bilhões, com retorno possível de US$ 2,7 bilhões em re-
ceitas para os proprietários. A restauração completa do corredor deve promover o sequestro de mais de 320 milhões de toneladas de carbono equivalente (t/CO2eq) e gerar mais de 20 mil postos durante a implantação. A iniciativa prevê o plantio de 1,7 bilhão de árvores para recuperar 1 milhão de hectares em mais de 13 mil propriedades. A meta é ousada: a área sozinha representa 8% de todo o compromisso brasileiro para reflorestamento e proteção firmado no Acordo de Paris. “O ser humano destruiu em 50 anos mais do que nos 200 anos anteriores, mas quando os humanos ajudam a terra, a natureza pode renascer totalmente em cinco, seis anos”, diz Ben Valks, empresário holandês criador da Black Jaguar Foundation. Valks entende que o Brasil tem a seu favor uma boa legislação ambiental que possibilita que ações de recuperação sejam realizadas em parceria com proprietários rurais. A fase piloto do projeto da Black Jaguar Foundation foi realizada nos municípios de Santana do Araguaia (PA) e Caseara (TO), com o plantio de 120 mil árvores e a instalação de viveiros de mudas. Atualmente, a restauração do Corredor do Araguaia dá seus primeiros passos com dezenas de parceiros nacionais e internacionais, entre eles a Movida Aluguel de Carros e a ONG One Tree Planted, que assumiram a meta de plantar 1 milhão de árvores até o fim deste ano. O fundo socioambiental da Caixa entrou como parceiro financiador do segundo milhão de árvores. A próxima meta é chegar a 10 milhões de árvores até 2026. A Black Jaguar Foundation foi criada em 2009 na Holanda com o objetivo de produzir um documentário sobre a onça-preta na natureza brasileira. Em várias viagens ao Brasil, Ben Valks não avistou o felino e testemunhou a degradação da natureza. A BJF expandiu então sua missão e em 2016 fundou a Black Jaguar Brasil. A onça-preta passou a ser o ícone e inspiração para a organização. (TC)
das à produção de madeira, ao fim do processo, elas melhoram a qualidade do solo e a resiliência dos ecossistemas, explica Gilberto Terra, diretor técnico e co-fundador da Courageous Land. “Se eu plantar uma árvore que alcança a maturidade aos seis anos, por exemplo, mesmo que eu a corte com 30 anos, vai haver frutificação, dispersão de sementes e, por décadas, uma paisagem mais amigável para o deslocamento de espécies animais entre áreas protegidas”, diz. Apesar de modelos de negócio diferentes, as duas agroflorestais têm em comum o foco na aquisição e recuperação de terras degradadas. Enquanto setores tradicionais do agronegócio se interessam por propriedades pouco exploradas, especialmente as que ainda têm madeira para ser cortada, a Radix e a Courageous Land miram em terras onde predomina a vegetação secundária — conhecida como juquira — degradada pelo uso em atividades agropecuárias anteriores. Um estudo da Embrapa Roraima mostra que essas áreas raramente são reflorestadas e costumam se tornar pasto ou roças. Rodrigo Ciriello, diretor comercial da Futuro Florestal e vice-presidente da Associação Brasileira de Sementes e Mudas Nativas, afirma que Roraima é uma nova fronteira para a silvicultura nacional, e não apenas pela oferta de terras. “Como está praticamente sobre a Linha do Equador, o Estado tem uma grande taxa de insolação e as regiões ao sul contam ainda com umidade significativa da floresta Amazônica”, diz.
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12,3 mil espécies de plantas, sendo
47,5% da produção
4,4 mil endêmicias da região
de grãos do país
890 espécies de aves 251 mamíferos 800 espécies de peixes Fase piloto teve plantio de 120 mil árvores e instalação de viveiros de mudas
2017
2021
70% da produção de bovinos 8 das 12 bacias hidrogáficas do páis nascem no Cerrado
Fonte: Terra Brasilis Prodes-INPE,ISPN e Mapbiomas-Mapeamento Anual de Cobertura e Uso da Terra no Cerrado - coleção 6
Biomassa de acácias abastece usinas e gera energia elétrica para o Estado De Boa Vista Uma das maiores florestas plantadas na Amazônia está sendo usada para gerar 20% da energia elétrica consumida em Roraima. Cerca de 30 mil hectares de acácia (Acacia mangium Willd) foram cultivados no Estado no fim dos anos 1990 e nos anos 2000, para um grande empreendimento de produção e exportação de celulose. A BrancoCel, comandada por investidores suíços, na época chegou a buscar recursos do BNDES e a anunciar em 2006 investimentos na casa dos US$ 300 milhões. O projeto foi a pique, sobretudo, pela falta de uma matriz energética confiável no Estado. Em 2022, as árvores já adultas plantadas para a BrancoCel passaram a produzir justamente o que faltou para que o empreendimento de celulose prosperasse: energia elétrica. A Oxe Energia, que tem como sócios os fundos XP Infra III, Siguler Guff Emerging Markets Energy Opportunities e Lyon Capital I, está gerando, a partir da biomassa de acácia, 32 megawatts de energia em quatro unidades
termelétricas na região de Boa Vista, capital do Estado. Roraima é o único Estado totalmente isolado do Sistema Interligado Nacional (SIN). Até 2019, recebia energia da Venezuela, que interrompeu o fornecimento devido ao agravamento da crise econômica e energética naquele país. Após o desligamento da rede internacional, conhecida como Linhão de Guri, o Estado passou a queimar em termelétricas antigas e pouco eficientes entre 700 mil e um milhão de litros de óleo diesel por dia para não ficar no escuro, segundo a Roraima Energia, distribuidora do Estado. Conforme a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) , o custo diário dessa queima é de R$ 3,5 milhões, somando R$ 1,2 bilhão ao ano. No mesmo ano, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) contratou, por meio de leilões, 294 megawatts de energia para cobrir a demanda de consumo estimada em 250 megawatts do Estado, priorizando produções mais eficientes e limpas. Enquanto a geração por combustíveis fósseis, contratada em
outro leilão pelo ONS, custa R$ 1.287 por megawatt-hora, as usinas da Oxe Energia ofertaram um preço médio de R$ 777/Mwh. A existência de um maciço florestal já plantado e maduro foi determinante para um preço altamente competitivo. “Uma floresta leva de seis a sete anos para ser desenvolvida e explorada, sendo que a existência de uma área plantada viabilizou o projeto, com entrada em operação no curto prazo”, diz Luiz Perea, diretor industrial da Oxe. A empresa adquiriu dos antigos investidores em celulose uma área de cerca de 21 mil hectares plantados com acácia, o que corresponde a cerca de dois milhões de toneladas de madeira. É o suficiente para abastecer as usinas por seis anos. Comprou também áreas menores, plantadas por outros proprietários que apostaram na instalação da BrancoCel nos anos 2000. Para suprir suas termelétricas com biomassa até 2037, a Oxe Energia está plantando mais 10 mil hectares de eucalipto, que tem maturação mais rápida que a acácia. “Nesse sentido, se houver oferta de madeira de floresta não nativa, dentro
de um raio de ação competitivo, pode ser interessante para avaliarmos”, afirma Luiz Perea. Para sair do isolamento energético, Roraima ainda depende da solução de um longo impasse na construção do Linhão de Tucuruí, que cruza a terra indígena Waimiri-Atroari. A linha de transmissão vai ligar Manaus (AM) a Boa Vista (RR) com mais de 715 km de rede, dos quais 122 km cruzam o território indígena. Está orçada em R$ 1,5 bilhão (US$ 290 milhões ao câmbio atual), foi contratada em 2011 e tinha o início das operações previsto para 2015. Em maio, o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o governador de Roraima, Antonio Denarium (PPS), assinaram o repasse de R$ 133 milhões como compensação ambiental aos povos WaimiriAtroari. As obras são de responsabilidade da Transnorte Energia, consórcio da Alupar (51%) com a Eletronorte (49%). Hoje 165 sistemas elétricos de serviço público estão isolados do Sistema Interligado Nacional (SIN), a maioria na região Norte. Vinte e nove estão em Roraima. (TC)