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Revista OM Line - 35ª Edição

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Livre para Voar

Quando eu vou além das complicações e das confusões deste mundo

Eu consigo transformar a minha atitude e ver tudo com olhar muito profundo

Eu me sinto leve

Eu me sinto puro

Eu me sinto livre pra voar

Livre, livre, livre

Essa liberdade nasce do equilíbrio

entre o dever e o poder

Justiça e igualdade em todas as ações

Essa consciência eu quero ter

Música “Livre para Voar”, de Alex Pochat & Glauber Guimares de Carvalho, do álbum “Criança Vive Cantando”. Clique no ícone acima para ouvir

CARTA AO LEITOR *

Caro(a) leitor(a)

Saudações de paz!

Você sente falta de um tempo em que se sentia leve, livre de culpa e de mágoa? Um tempo em que você era um ser despreocupado e alegre?

A proposta desta edição é uma reflexão sobre como trazer de volta esse estado interno de leveza e liberdade. Sabe por quê? Esse ser leve e livre ainda vive dentro de você, mas está soterrado por culpa e mágoas, que são entulhos espirituais.

Leia, assista, reflita, medite, experimente e ganhe força para libertar-se do entulho e ser LIVRE OUTRA VEZ!

Goreth Dunningham e equipe Om Line

34. MATÉRIA DE CAPA

Leve outra vez: quando culpa e mágoa deixam de definir quem você é

8. OM PRIMEIRA PALAVRA

A experiência de leveza e liberdade por meio do perdão

Ken O’Donnell

14. OM VIRTUDES

Descarregando o peso das emoções, silenciando a mente

Paulo Sergio Barros

20. OM JOVEM

O herói é construído por suas muitas escolhas diárias

Augusto Zimbres

26. OM ATITUDE

“A culpa impede o ser de expandir e a mágoa é corrosiva”

Giane Gatti

50. OM INSPIRAÇÃO

Nuvem passageira

Sandra Costa

54. OM COM O MUNDO

Leveza e equanimidade

Ramon Almeida

60. OM DICA DE LEITURA

Livre, leve e solto de verdade

Katia Roel

64. OM TRANSFORMAÇÃO

Audaciosamente leve!!

Patrícia Cantalino

68. OM COMIDA PURA

Leve outra vez: o sabor de recomeçar

Ana Paula Paixão

70. OM ÚLTIMA PALAVRA

Destemor

Dadi Janki

LEVEZA EM UM MUNDO ACELERADO

Vídeo da palestra de BK Shivani, uma das mais influentes oradoras motivacionais da Índia, realizada em Salvador-BA, no Teatro Faresi, em 13 de maio de 2025. Clique no ícone acima para ver o vídeo

Envie para nós os seus e-mails, dúvidas e sugestões, pelo Facebook e Instagram ou e-mail: revista.omline@br.brahmakumaris.org Facebook.com/omlinebrahmakumaris Instagram.com/omlinebrahmakumaris www.brahmakumaris.org.br/revista

EXPEDIENTE

Editora Goreth Dunningham

Design e diagramação

Felipe Arcoverde Revisão

Josélia Ribeiro

Site

Ricardo Skaf

Mídias sociais

Naiara Rios

Colaboração

Sandra Costa

Ilustrações: Freepik.com

A EXPERIÊNCIA DE LEVEZA E LIBERDADE POR MEIO DO PERDÃO

Muitas vezes, estamos em conexão com pessoas com as quais temos uma ligação íntima, membros da família, relações próximas. Podemos, às vezes, também estar com pessoas com as quais não estamos acostumados ou não queremos estar, na verdade, tanto tempo juntos.

Pode ser que tenhamos algumas pessoas próximas ou do passado que precisamos perdoar, é bem possível. Se olhar para todas as pessoas ao seu redor, pode lembrar algumas situações do passado que geraram decepção, rancor, amargura. A falta de perdão pode ter se tornado uma prisão de percepção negativa.

Uma boa metáfora é o anzol: eu sou o primeiro a ser fisgado e, por causa da barbela, difícil sair. O próximo no anzol é a pessoa da situação que não consigo perdoar. Sempre que o anzol se mexe, por qualquer motivo, ambos os “peixes” são afetados. Aonde quer que eu vá, estamos pendurados nesse mesmo anzol: eu, diretamente; e o outro, indiretamente, afetado por meus pensamentos negativos, mesmo a distância. Assim, tenho que remover o outro do anzol primeiro, e depois eu.

“Eu

dou liberdade ao outro para que possa ser o que tem que ser e dou liberdade a mim

mesmo dos pensamentos inúteis de tempo desperdiçado”

E a falta de perdão atua como um veneno lento. Muitas vezes, sustenta uma percepção equivocada, uma mentira. Agora... perdoar não é desculpar qualquer erro que tinha sido cometido. Como a palavra perdonar sugere, em latim, é algo que tenho que dar ao outro e dar a mim mesmo. Eu dou liberdade ao outro para que possa ser o que tem que ser e dou liberdade a mim mesmo dos pensamentos inúteis de tempo desperdiçado. Também dou a mim mesmo a lição de entender mais a vida, pois, do ponto de vista espiritual, ambos fomos apanhados por nossos processos cármicos e estamos tentando sair.

Assim, é possível perdoar e entender o que é experimentar a liberdade. Podemos usar nosso tempo para fazer algo muito útil para o agora e também para o futuro,

de modo que nos tornemos livres e leves por meio de exercícios como o seguinte:

Escolho uma situação do passado em que sinto que fui injustiçado por outra pessoa e, provavelmente, já senti muitas vezes que gostaria de estar livre desse fardo.

Preciso continuar com a minha vida e a outra pessoa também. Mentalmente, sinto-me na última fileira do teatro e reproduzo, na tela da

minha mente, essa cena que criou tanta dor, tanta confusão; e descrevo a situação objetivamente, como se eu fosse um repórter. Vejo a outra pessoa e acrescento passado e futuro a essas cenas.

Eu posso ver o quanto o outro foi apanhado nas próprias circunstâncias, o que provavelmente o levou a agir daquela forma. E me vejo e reconheço a expectativa que eu também tinha em relação ao outro, algo que eu precisava e não recebi. Considerando minhas circunstâncias e as do outro, posso ver como era irreal esperar o que não recebi.

Agora, tenho que me dar liberdade para seguir em frente. Vejo que o outro é um ser espiritual de luz, igual a mim. Eu envio bons votos e retiro o freio de mão que a falta de perdão me impôs. Assim, sinto-me livre e leve. *

Ken O’Donnell é praticante de meditação Raja Yoga desde 1975. É autor de 18 livros sobre desenvolvimento pessoal e de organizações. Atua profissionalmente como consultor internacional nas áreas de planejamento e gestão. É o atual coordenador da Brahma Kumaris para a América do Sul

* OM VIRTUDES * por Paulo Sergio Barros

DESCARREGANDO

O PESO DAS EMOÇÕES, SILENCIANDO A MENTE

"A

VERDADE SÓ PODE SER TOLERADA SE

DESCOBERTA POR CONTA PRÓPRIA"

[FRITZ PERLS]

Permanecer leve, despreocupado e positivo em um mundo marcado por intensos barulhos externos e internos é, de fato, um grande desafio. Toda sorte de ruídos nos influenciam emocionalmente. Dentre as emoções que emergem deles, sobretudo dos barulhos internos, estão a culpa e a mágoa. Elas nos atravessam com frequência, visto que emergem das relações conosco mesmo e com os demais, pois são inerentes ao viver.

“Dentre as emoções que emergem deles, sobretudo dos barulhos internos, estão a culpa e a mágoa. Elas nos atravessam com frequência, visto que emergem das relações conosco mesmo e com os demais, pois são inerentes ao viver”

* OM VIRTUDES * por Paulo Sergio Barros

Culpa e mágoa são emoções complexas, fortes, envolvem outros e quase sempre agem silenciosamente. Elas frequentemente nos mantêm atados ao passado, impedindo-nos de criar um contato autêntico com o momento presente. Elas advêm de situações vividas, inacabadas e que precisam ser reconhecidas, expressas e manejadas de maneira que não atinjam um estágio de distúrbio e se convertam em impulsos para mudanças e processos de autorregulação. Quando não conseguimos a energia para interagir ou mudar o nosso próprio mundo, entendendo o que se passa internamente e no ambiente, potenciamos pensamentos e sentimentos que propiciam mecanismos de punição e agressividade voltadas ao eu. Culpa

e mágoa são pesos do passado que tornam o presente inerte e a mente, o corpo e os relacionamentos entremeados por dores, ressentimentos, tristezas, raivas etc.

Quando essas emoções atingem um estado de incômodo mental, físico e relacional, devemos buscar ajuda (psicoterapia, autoajuda etc.). A meditação raja yoga ensinada pela Brahma Kumaris se inclui no campo de práticas espiritualistas, uma ferramenta de concentração mental e de foco no presente que aprofunda a auto-observação, o desenvolvimento de nossas virtudes e potencialidade espiritual. Trata-se, portanto, de uma técnica efetiva para a autorregulação de emoções e potencialização de pensamentos positivos para desenvolver autoestima, autorrespeito e autoamor.

“A meditação raja yoga ensinada pela Brahma Kumaris se inclui no campo de práticas espiritualistas, uma ferramenta de concentração mental e de foco no presente que aprofunda a auto-observação, o desenvolvimento de nossas virtudes e potencialidade espiritual”

* OM VIRTUDES * por Paulo Sergio Barros

É IMPORTANTE QUE FORTALEÇAMOS UMA CONSCIÊNCIA ESPIRITUAL QUE NOS AJUDE

A COMPREENDER, LIDAR E TRANSFORMAR MOMENTOS MARCADOS POR EMOÇÕES QUE NOS

DESRREGULAM AO:

• reconhecermos as causas das nossas mágoas e culpas;

• percebermos os desconfortos mentais e físicos causados por elas;

• identificarmos o efeito negativo nos relacionamentos;

• criarmos uma rotina que ressignifique a vida;

• aceitarmos ajuda (diálogo e escuta, por exemplo);

• procurarmos ajuda de profissionais habilitados;

• aceitarmo-nos, perdoarmo-nos e perdoar os demais;

• reconhecermos nossa potencialidade espiritual (virtudes).

TAMBÉM É IMPORTANTE INCLUIRMOS

ATITUDES MEDITATIVAS NO COTIDIANO COM MOMENTOS PARA:

• pararmos e observarmos os pensamentos, ficarmos calmos e silenciosos;

• silenciarmos os pensamentos indesejáveis com paciência e gentileza;

• reconhecermos uma virtude pessoal e apoderarmo-nos dela para mudar situações;

• centrarmo-nos no presente e seguir adiante com a certeza de que faremos o melhor para aquele momento ou situação;

• reconhecermos virtudes nas pessoas com quem nos relacionamos;

• aceitarmos que somos responsáveis por nossos sentimentos e as consequências deles em nossas vidas e na vida dos outros;

• entrarmos em profundo silêncio e conexão com a fonte divina de paz, sabedoria e poder.

Paulo Barros é educador, escritor e professor da Brahma Kumaris em Fortaleza-CE

O HERÓI É CONSTRUÍDO POR SUAS MUITAS ESCOLHAS DIÁRIAS

Recentemente, li duas autobiografias de amigos que nasceram em famílias pobres do interior, viveram distantes de seus pais biológicos e avançaram na vida com fé para aproveitar as poucas oportunidades que surgiam até se tornarem empresários bem-sucedidos e referências de famílias bem-estruturadas.

COMPARTILHO AQUI UMA REFLEXÃO

EXTRAÍDA DE CADA LIVRO:

“As dificuldades não definem quem somos, são apenas parte de uma narrativa muito maior.” “As marcas não me aprisionam, me orientam. Elas lembram de onde vim e apontam para onde posso ir com sabedoria.”

Não consigo enxergar, nas duas histórias, um evento específico que tenha determinado o destino deles. Mas observo, sim, que cada fato narrado é seguido de uma reflexão, de um aprendizado que os acompanha até hoje. Olho para a minha história e até consigo identificar marcos importantes, mas percebo como a construção do meu caráter é um processo contínuo, com aprendizados que precisam ser digeridos e exercitados.

* OM JOVEM * por Augusto Zimbres

“É

comum valorizarmos um insight como aquilo que nos fez superar um trauma, mas é o que fazemos a partir dele e, principalmente, com que frequência, o que cria toda diferença”

Heróis e vilões não são determinados em um único momento, eles são construídos por um longo período de tempo. Batman e Coringa carregam traumas, mas um encontra forças para construir um propósito benéfico e o outro reage com raiva a circunstâncias não digeridas. Não se trata de uma única escolha sobre ser herói ou vilão, mas uma longa sequência de decisões que fazem isso acontecer. É comum valorizarmos um insight como aquilo que nos fez superar um trauma, mas é o que fazemos a partir dele e, principalmente, com que frequência, o que cria toda diferença. O momento em que sou classificado de um lado ou de outro é somente uma consequência, que pode ser verdadeira ou não, de acordo com o viés de quem me classifica. Mas isso não me define.

O que realmente me define são as minhas muitas escolhas diárias. Como, por exemplo, a de não culpar o meu irmão mais novo por algo que juntos quebramos em casa, ou de desistir de uma vingança contra aquele colega que me humilhou publicamente. Em “pequenas” escolhas como essas, o meu caráter é moldado, a consciência do herói é semeada. Portanto, o que chamamos de herói é o resultado de uma jornada de aprendizado, na qual se assume a responsabilidade por cada decisão.

* OM JOVEM * por Augusto Zimbres

“Este é o tempo de não apenas semear, mas também de preparar o terreno, regar, proteger, monitorar e apreciar o crescimento. Cada etapa é valiosa, do início ao fim”

Quando as dificuldades e as marcas dos eventos se tornam experiências que me fazem avançar na minha jornada, em vez de circunstâncias que carimbam o meu destino.

E cada noite é uma oportunidade de revisar o quanto estou exercitando o semear das escolhas que me conduzem ao destino do herói. Cada semana ou cada mês ou cada ano é uma oportunidade de observar que tipo de frutos está crescendo com elas, para ajustar a minha trajetória. O herói entrega isso tudo ao seu Mentor, aberto a captar os toques para que os seus próximos passos sejam conscientes e leves.

Este é o tempo de não apenas semear, mas também de preparar o terreno, regar, proteger, monitorar e apreciar o crescimento. Cada etapa é valiosa, do início ao fim. Então, será o tempo de colher. Quando todos os seres humanos viverem apenas no presente, pois as lições do passado já foram totalmente assimiladas. *

Augusto Zimbres é apresentador do canal Inspira Saúde Plena no YouTube. Lidera o movimento jovem da Brahma Kumaris para a América Latina com muito ânimo e entusiasmo

“A impedeculpa o ser de expandir e a mágoa é corrosiva”

DIZ LUSCLEIA SANDERS, FISIOTERAPEUTA DE PESSOAS COM DORES CRÔNICAS

Em seu livro Virtudes divinas, a escritora e professora da Brahma Kumaris

Kiran Coyote afirma que “Leveza dá brilho à alma. Esta doce virtude anda lado a lado com a facilidade e ajuda a alma a manter-se ágil e flexível”. Se sabemos o quanto a leveza é benéfica, por que não a cultivamos regularmente em nossa vida e ainda deixamos que sentimentos nocivos se façam presentes?

Nesta entrevista, Luscleia Sanders explica como a culpa e a mágoa afetam a nossa saúde física e mental.

Ela é fisioterapeuta há mais de 27 anos e atua, também, no acompanhamento de pessoas com dores crônicas e adoecimentos psicossomáticos, com técnicas como a microfisioterapia, leitura biológica e psicogenealogia.

OL: Como a culpa age na gente?

LS: A pessoa fica pesada, tensa, ela trava o próprio ser de expandir,

porque fica presa em algo que não processou, que está mal resolvido. Um dos grandes problemas da culpa é essa paralisação do ser e, muitas vezes, é o inconsciente. (...) Você pode ter magoado a pessoa, deixado de fazer algo pelo outro, mas, no fundo, é algo dentro de você que não está resolvido, porque, às vezes, a mesma pessoa faz a mesma coisa com outro e ela não se sente culpada. Quando a pessoa está resolvida e ela consegue deixar o que o outro sente com o outro, ela está ali plena, segura, ela não se sente culpada. Então, a culpa está relacionada a algo mal resolvido, e ela, infelizmente, fica ali presa, processando, e não resolve, e aí vêm outras consequências.

OL: Explica melhor essa paralisação e as consequências que ela gera.

LS: A pessoa deixa de fluir, não desenvolve a sua potencialidade.

Como profissional da saúde, vejo que, se a pessoa está se sentindo culpada por algum movimento que deixou de fazer, dependendo do contexto em que ela está vivendo, como isso é um pensamento negativo, ele fica registrado no corpo e não dá fluidez àquela região onde ela está guardando esse sentimento. Por exemplo, eu fico pensando, buscando solução e, rapidamente, vem uma dor de cabeça, que tensiona. Ou o meu sentimento de culpa me paralisou no momento de realizar alguma coisa ou de afastar alguma coisa. E vêm dores, aquela sensação de peso, como se carregasse realmente alguém ou alguma coisa. (...) Ou estou teimosa, aquela culpa que não resolve, fico com um sentimento de resistência, fico resistindo, isso vai impactar o quadril. Sempre o contexto do que estamos vivendo vai impactar alguma parte do corpo. Tanto

que, quando você resolve aquela coisa, fez as pazes, ou eu soltei, todo mundo se sente mais leve, mais fluido. Ou você solta da mente, porque, no fundo, tudo é o que a gente pensa. Então, se para mim fica resolvido, para o outro, de repente, nem fica, mas eu tiro aquele peso. Daí a importância do perdão a si mesmo primeiramente.

OL: Como soltar as culpas?

LS: Na verdade, essa receitinha vale para todos os sentimentos negativos dentro da gente. Se a gente realmente desenvolve a nossa espiritualidade, ou seja, volta-se para si, entendendo que tem que se cuidar, ser responsável por si mesmo, que primeiro temos que ter para poder dar ao outro; então, quando a gente aumenta a consciência, consegue ter um pensamento mais lúcido, mais coerente, mais claro. Consegue estar mais fortalecido na própria

* OM ATITUDE * por Giane Gatti

“Eu gosto muito de trazer, junto com o se perceber e se escutar, o sentimento de não se julgar e não se culpar”

essência, no próprio ser, consegue desapegar desses sentimentos com mais facilidade, porque o problema é o apego, pois a pessoa fica ali remoendo. (...) Se eu puder só olhar para mim com mais esse autorrespeito: "o que está pesado aqui?", "por que está desse jeito?", então ganhar essa consciência, sentir-se responsável por você mesma: "o que eu sinto é meu" e saio do vitimismo de que o outro que me causou.

OL: Qual a importância de você se perceber?

LS: Eu gosto muito de trazer, junto com o se perceber e se escutar, o sentimento de não se julgar e não se culpar. É uma escuta muito mais saudável quando sinto que não tem culpado e não cabe julgar ninguém. Ser o observador desapegado de você mesmo e do outro, então é essa escuta mais profunda, limpa, da essência do ser.

OL: Vamos falar agora da mágoa, que também é nociva.

LS: A mágoa é muito nociva, ela já é destrutiva. Ela é corrosiva, como se fosse uma ferrugem que vai entrando nos sistemas do corpo como um todo, então já traz uma repercussão direta no nível dos órgãos. Por exemplo, doenças no sistema digestório: uma gastrite, intestino irritável, a vesícula que vai embora... esse intestino preso, esse refluxo. Ela é silenciosa. E, se a pessoa não parar para ter consciência, essa água tóxica vai corroendo mais e mais. Muitas vezes, as pessoas têm esses sintomas, fazem uma limpeza de fígado, de parasita, tiram o glúten, a lactose, mas elas não pararam para pensar no sentimento de raiva e de contrariedade que está lá dentro e que não foi resolvido. E isso vem muito nas relações.

* OM ATITUDE * por Giane Gatti

OL: E para isso é preciso coragem?

LS: Precisa de muita coragem porque, quando a pessoa está na raiva, na mágoa, achando que a culpa é da lactose, do não sei o quê, da artrose que está gerando dor. (...) que a culpa é do clima, da medicação... Acho muito importante que as pessoas realmente tomem consciência e queiram experimentar que tudo é um processo, que a dor vai vir mesmo, mas, para se transformar, é preciso ter a coragem de acreditar, ter paciência e confiar no processo. E sabemos que a espiritualidade é um remédio, um nutriente, que, quando a gente está desenvolvendo, consegue ter essa paciência para entender que vai vir outra coisa.

OL: É o exercício de não me identificar com o sentimento?

LS: Sim, o estado de se sentir rancoroso, magoado não define o ser. Então, se a pessoa começar a

mudar esse verbo “eu sou assim”, entender que “ela está assim”, já é um grande passo. Eu pergunto ao paciente: “Você está assim desde quando?” e ele fala: “Estou assim a vida inteira, desde a infância”. Quando a gente faz a reflexão olhando para dentro, consegue entender por que está assim e consegue ficar mais leve. Porque você entende que é você carregando esse sentimento... Então, eu falo:

- “Vamos tirar essa mochila?”

- “Ah, eu posso tirar?

- “Sim, é uma decisão sua. Porque, no fundo, você não é o rancor, você é um ser de luz, um ser livre, amoroso. Então, que tal trabalhar o desapego desse estado?”

Cem por cento das pessoas ficam mais leves. (...) então, eu vou me escutar, vou conhecer o meu fluxo, o que realmente é importante para mim, o que é meu e o que é do outro. *

Giane Gatti é jornalista e palestrante sobre sustentabilidade, e lançou o livro Mudeoumude-separa Marte–Umempurrãozinho paraumavidacomhábitos mais sustentáveis. É aluna da Brahma Kumaris desde 2010 e voluntária da Iniciativa ambiental e da campanha Escolha a calma

QUANDO CULPA E MÁGOA DEIXAM DE DEFINIR QUEM VOCÊ É

* MATÉRIA DE CAPA * por Tatiana Di Lucia

Há pesos que não aparecem no corpo, mas mudam até o nosso jeito de respirar! Este texto é um convite para olhar a culpa e a mágoa sem se confundir com elas, até que a alma possa dizer, com serenidade: “posso ser leve outra vez”.

O PESO QUE CHEGA

SEM FAZER BARULHO

Nem todo peso faz ruído quando entra em nossa vida. Alguns chegam devagar, quase educados, como quem pede licença para ficar só um pouco. Eles podem vir na forma de uma lembrança mal resolvida, uma palavra que dissemos sem cuidado, uma palavra que ouvimos e nunca conseguimos devolver ao vento, ou, até mesmo, uma escolha que, vista de hoje, parece estreita demais para a consciência que amadureceu depois.

Assim nascem muitas culpas e muitas mágoas: não como grandes tempestades, que fazem tanto alarde, mas como pequenas pedras guardadas no bolso da alma. A princípio, seguimos caminhando.

Trabalhamos, sorrimos, cumprimos tarefas, respondemos mensagens, cuidamos dos outros. Mas, por dentro, alguma coisa começa a pesar e esse peso, quando não é olhado com verdade e delicadeza, vai se confundindo com a nossa identidade.

É como se a mente dissesse: “eu errei, portanto eu sou o meu erro”; ou: “fui ferida, portanto sou a minha ferida”. Nesse instante, a dor deixa de ser uma experiência e passa a ocupar o lugar de definição. A culpa deixa de ser um sinal de consciência e se transforma em sentença. A mágoa deixa de ser uma dor legítima e se transforma em moradia.

Mas será que somos mesmo aquilo que nos aconteceu? Será que somos apenas aquilo que fizemos em um momento de imaturidade, medo, descontrole ou ignorância? Será que uma ferida tem o direito de escrever sozinha o nome inteiro de uma pessoa e condená-la à dor eterna?

A LETRA QUE COSTURAMOS

POR DENTRO

Vez ou outra, meu intelecto navega pela mensagem explícita na obra literária A letra escar-

late, do autor Nathaniel Hawthorne. Em relação ao drama em questão, me comove, especialmente, a imagem da personagem Hester Prynne, obrigada a carregar no peito uma marca pública de vergonha - uma letra “A” bordada em tecido vermelho em seu peito -, acusada de adultério por ter tido uma filha fora do casamento. A letra costurada em sua roupa deveria reduzi-la ao seu erro, como se dissesse ao mundo: “é isto que ela é”. Mas a literatura, quando é grande, não nos deixa ficar na superfície. Ela nos mostra que a marca visível, aparentemente a mais óbvia, nem sempre é a mais dolorosa.

Hester, a protagonista, carregava a letra diante de todos, em um misto de vergonha e coragem. Já o reverendo Dimmesdale - o coprotagonista puritano que participou da acusação de Hester, figura acima de suspeitas, mas tão pecador quanto ela porque era ele o amante de Hester e pai de sua filha - carregava a própria letra por dentro, como uma marca na consciência. E há algo muito humano, quase insuportável, nessa diferença. A culpa exposta pode humilhar, mas a culpa escondida pode corroer. A vergonha revelada pode ferir, mas a vergonha negada e regada de hipocrisia pode adoecer e até levar à morte. Quando a alma precisa sustentar uma máscara por muito tempo, ela começa a perder o ar.

A respeito desse drama, Jossi Borges – autora independente e colaboradora do Blog Amor e Livros -, ao refletir sobre essa obra, escreve uma frase que toca exatamente esse pon-

to: “A verdadeira ‘letra escarlate’ talvez não seja costurada no peito, mas impressa na alma — tanto de quem erra quanto de quem julga” (BORGES, 2023).

Talvez todos nós, em alguma medida, tenhamos letras invisíveis. Algumas foram colocadas por julgamentos externos; outras, porém, nós mesmos bordamos com fios de autocondenação. Existem pessoas que passam anos se apresentando ao mundo com aparente normalidade, enquanto por dentro repetem: “eu não mereço”, “eu devia ter feito diferente”, “eu estraguei tudo”, “eu nunca vou ser perdoada”.

Todavia, a leveza começa quando percebemos que uma letra pode contar uma parte da história, mas não pode substituir o livro inteiro. Afinal de contas, um erro pode pedir reparação, mas não precisa virar identidade; e uma dor pode pedir cuidado, mas não precisa virar destino.

QUANDO FAZEMOS DEMAIS PARA NÃO SENTIR

Existe outra forma de peso que se disfarça muito bem: o excesso de fazer. Às vezes, a pessoa não se permite parar porque, quando para, sente. E sentir pode trazer à tona aquilo que foi cuidadosamente empurrado para o fundo: a tristeza, a culpa, a mágoa, o arrependimento, o medo de não ser suficiente e tantas outras mazelas que a alma esconde de si mesma.

Para ilustrar a questão, cito uma reflexão de Jacqueline Berg - diretora da Brahma Kumaris na Holanda - publicada em um

artigo na página da Brahma Kumaris Brasil. No artigo em questão, Berg apresenta a imagem do leão que foi criado entre ovelhas e se esqueceu da sua verdadeira natureza. Em função disso, ele aprendeu a viver como ovelha, a temer como ovelha e a se mover como ovelha. Essa imagem me parece preciosa porque muitos de nós também entramos em uma espécie de transe, um estado em que esquecemos quem somos, como o leão, e passamos a acreditar apenas nos papéis que desempenhamos, como o papel de ovelha.

Similarmente, assumimos papéis como a mulher competente, a profissional que resolve, a filha que sustenta, a mãe que não pode falhar, a pessoa espiritualizada que não deveria sentir raiva, a pessoa forte que não deveria precisar de colo. Dessa forma, aos poucos, o “fazer” ocupa todo o espaço do “ser” e nos colocamos voluntariamente - mesmo sem perceber - aprisionados na condição de manter personas com comportamentos desadaptativos, na ilusão de que isso nos “salva do sofrimento”, quando, na verdade, estamos sofrendo muito.

Complementarmente, a própria Berg confessa: “Por tanto tempo vivi com a ideia: ‘Eu faço, portanto eu sou’. Tinha receio de que os

vizinhos pensassem que eu não estava fazendo nada” (BERG, 2022). Essa frase da autora é simples, mas abre uma janela enorme. Afinal, quantas vezes continuamos atolados no pântano de um fazer doentio e incessante, para não sermos vistas como inúteis, fracas, paradas, egoístas ou insuficientes? Quantas vezes o ativismo vira esconderijo, um refúgio ilusório que o ego impõe a si mesmo para não precisar se enfrentar?

No entanto, esse esforço torna-se inútil e frustrante, pois a alma não recupera sua leveza ao aumentar sua lista de tarefas. Na verdade, ela se alivia quando encontra um lugar interno onde não precisa provar nada. Um lugar onde pode simplesmente existir, respirar, observar e reconhecer: “eu tenho papéis, mas não sou apenas os meus papéis; eu faço muitas coisas, mas meu valor não nasce do meu desempenho”.

A CORAGEM DE OLHAR

PARA A PRÓPRIA SOMBRA

Falar de leveza verdadeira não é falar de fuga. Entretanto, também há uma leveza falsa, feita de negação, que repete frases bonitas para não encostar na verdade. Essa não cura nem liberta, apenas perfuma a prisão, e, consequentemen-

te, o sujeito aprisionado acaba acusando, condenando e até mesmo aprisionando muitos que vivem no seu entorno. A leveza verdadeira, por sua vez, nasce quando temos coragem de olhar para aquilo que, em nós, ainda é imaturo, reativo, egoísta, vaidoso, agressivo ou carente de reconhecimento. O sujeito que vivencia a leveza verdadeira não apenas está livre da prisão como também inspira a libertação daqueles com quem convive.

Complementarmente, muito me inspira o autor José Saramago, em sua obra Ensaio sobre a cegueira, um drama que nos obriga a encarar uma pergunta incômoda: o que aparece em nós quando as estruturas externas caem? O que fazemos quando ninguém está olhando? O que emerge quando a cultura, a aparência e a conveniência já não conseguem conter nossos impulsos?

Ao analisar a obra de Saramago a partir de uma perspectiva psicanalítica, Santana (2023) discute a presença da agressividade, do narcisismo e da maldade como possibilidades humanas, não como acidentes distantes de nós. E essa é uma reflexão necessária porque, enquanto acreditamos que a sombra está sempre no outro, ela continua governando silenciosamente algumas das nossas escolhas.

A respeito disso, Saramago, citado por Santana, afirma: “Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso” (SARAMAGO apud SANTANA, 2023).

À primeira vista, essa frase pode parecer dura. Entretanto, para mim, ela soa como um chamado à humildade. Afinal de contas, no estado atual em que nos encontramos, não somos bons o tempo todo, não somos puros o tempo todo nem somos lúcidos o tempo todo. Podemos ferir, manipular, omitir, nos defender atacando, julgar para não sentir vergonha, nos vitimizar para não assumir responsabilidade. Aliás, essas são algumas das estratégias de defesa de um ego frágil mediante a angústia de uma suposta desintegração iminente.

Mas reconhecer isso não precisa nos esmagar. Pelo contrário, esse confronto com o nosso lado sombrio pode nos devolver a liberdade. Quando admito a minha sombra, deixo de ser governada por ela. Quando aceito que também posso errar, começo a escolher com mais consciência. Quando paro de fingir santidade, abro espaço para uma ética mais real, menos teatral, mais silenciosa e mais verdadeira.

Em suma, eu diria: a perfeição só pode ser alcançada por aqueles que admitirem a sua imperfeição, pois quem já se acha perfeito não se moverá em direção alguma. Portanto, não se trata de fomentar a culpa ou a raiva contra si mesmo, mas de se abrir para a luz que dissipará as sombras.

CULPA NÃO É CONSCIÊNCIA; MÁGOA NÃO É PROTEÇÃO

A culpa tem uma função quando nos desperta para reparar, pedir perdão, corrigir uma rota, aprender uma lição.

Mas, quando continua nos punindo depois que a lição já foi compreendida, ela deixa de ser consciência e vira prisão.

A mágoa também tem uma função. Ela mostra que algo doeu, que um limite foi atravessado, que uma confiança se rompeu, que uma parte de nós precisa ser ouvida. Mas, quando permanece endurecida por muito tempo, começa a nos convencer de que nunca mais devemos nos abrir. Então, aquilo que parecia proteção se transforma em isolamento e desamparo.

Por isso, perdoar não é minimizar o que aconteceu. Não é dizer “não foi nada”, quando, de fato, foi. Não é absolver irresponsabilidades sem discernimento. Não é abrir novamente a porta para quem ainda nos fere. Perdoar, especialmente no sentido mais profundo, é retirar a própria alma do cárcere do episódio. É deixar de entregar ao passado o poder de decidir a temperatura do nosso coração.

Ademais, o autoperdão talvez seja uma das formas mais delicadas desse processo, porque há pessoas que conseguem ser compassivas com todos, menos consigo mesmas. Elas acolhem a dor do outro, compreendem a limitação do ou-

tro, justificam a fraqueza do outro, mas, quando olham para si, tornam-se juízas implacáveis.

Complemento essa ideia citando novamente Jacqueline Berg. A autora define o ato de perdoar de uma forma muito assertiva, segundo ela: “Perdoar-se significa curar seu coração. Se você continuar se punindo, ainda estará atrás das grades. Ainda estará na prisão” (BERG, 2022).

Essa frase me parece uma chave que destranca o intelecto da prisão que a mágoa nos impõe. Afinal, a punição contínua não repara o passado, ela apenas prolonga a dor. Da mesma forma, a culpa que não amadurece em responsabilidade se transforma em autoagressão, e a autoagressão não nos torna melhores, apenas nos mantém menores e infelizes.

A ALMA NÃO PERDE SEU OURO

Na consciência espiritual ensinada pela Brahma Kumaris, há uma lembrança que sempre me toca: antes dos papéis, antes das feridas, antes das etiquetas, somos almas, seres de luz, estrelas vivas. E a alma, em sua natureza original, carrega qualidades como paz, amor, pureza, verdade e poder interior. A consciência

de alma nos convida a lembrar que a nossa essência não desaparece quando atravessamos a lama das experiências humanas (BRAHMA KUMARIS, 2025).

Gosto de imaginar essa essência como uma moeda de ouro. A moeda pode cair no chão, pode ser esquecida, pode se sujar, pode ficar coberta de pó, mas a lama não transforma ouro em barro. Ela apenas cobre, temporariamente, o seu brilho dourado.

Assim também acontece conosco: a culpa, a mágoa, a raiva, o medo, o ciúme, a inveja, a insegurança e tantos outros estados internos podem cobrir a nossa luz por algum tempo, mas não têm o poder de destruir a identidade original da alma. Consequentemente, o trabalho espiritual não é inventar uma luz que não existe. É remover, com paciência e verdade, aquilo que impede essa luz de aparecer.

Por isso, talvez a pergunta mais libertadora não seja: “como posso me consertar?”. Talvez seja: “o que em mim precisa ser lembrado?”. Porque existe uma diferença profunda entre viver tentando se corrigir como se fosse defeituosa e viver recordando-se de sua dignidade original. A primeira postura nasce da vergonha, a segunda nasce da verdade.

Quando me lembro de quem sou, não preciso negar o que fiz. Posso reparar sem me odiar. Posso pedir perdão sem me humilhar. Posso reconhecer a dor que causei sem me reduzir a ela. Posso reconhecer a dor que recebi sem permitir que ela organize a minha vida inteira e o meu destino.

LEVE OUTRA VEZ

Talvez ser leve outra vez não signifique esquecer tudo. Talvez não signifique voltar a ser quem éramos antes da culpa, antes da mágoa, antes da queda, antes da perda. Sabemos que algumas experiências nos transformam para sempre, mas elas não precisam nos aprisionar para sempre.

Ser leve outra vez pode ser algo mais simples e mais profundo: deixar de carregar o passado como uma identidade, como uma letra escarlate bordada no peito. É olhar para a própria história e dizer: “isso aconteceu comigo, isso aconteceu através de mim, isso me feriu, isso me ensinou, isso me mostrou algo que eu precisava ver; mas isso não é tudo que eu sou”.

A leveza não nasce da perfeição. Nasce da integração. Nasce quando a pessoa para de dividir a si mesma entre uma parte aceitável e uma parte escondida. Nasce quando a verdade deixa de ser ameaça e torna-se caminho. Nasce quando a alma consegue respirar sem máscara.

Então, talvez hoje seja um bom dia para perguntar: que letra eu ainda carrego no peito? Que letra eu escondo na alma? Que culpa já cumpriu sua função e agora precisa ser transformada em aprendizado? Que mágoa já revelou uma dor importante, mas agora precisa deixar de governar meus passos?

Sabemos que nem tudo se resolve de uma vez, pois algumas libertações são lentas. Algumas curas acontecem

em camadas. Mas há um instante, mesmo pequeno, em que a alma percebe que não precisa continuar ajoelhada diante do próprio passado. Ela pode se levantar, pode respirar e, acima de tudo, pode escolher um pensamento mais justo sobre si mesma.

Consequentemente, nesse instante, algo se abrirá por dentro. O peso ainda pode estar ali, mas já não manda sozinho. A história ainda existe, mas já não define o nome da protagonista. A ferida ainda pede cuidado, mas já não ocupa o trono.

É assim que, devagar, a vida nos devolve ao essencial. Não como quem apaga a memória, mas como quem retira dela o excesso de castigo e transforma esse peso na leveza de um anjo que voa como uma pluma que dança ao vento. Não como quem nega as sombras, mas como quem acende uma luz maior. Não como quem foge da responsabilidade, mas como quem aprende a caminhar com verdade, dignidade e amor.

Leve outra vez não é voltar a ser intocada. É descobrir que, mesmo tocada pela vida, pela dor, pelo erro e pela imperfeição, a alma continua tendo direito ao céu.

“Leve

outra vez não é voltar a ser intocada. É descobrir que, mesmo tocada pela vida, pela dor, pelo erro e pela imperfeição, a alma continua tendo direito ao céu”

REFERÊNCIAS

BERG, Jacqueline. Convivendo comigo. Brahma Kumaris, 2022. Disponível em: <https://brahmakumaris.org.br/convivendo-comigo/ >. Acesso em: 19 maio 2026.

BORGES, Jossi. A Letra Escarlate: o peso da culpa e da redenção. Amor e Livros, 2023. Disponível em: < https://amorelivros.com. br/a-letra-escarlate-o-peso-da-culpa-e-da-redencao/>. Acesso em: 19 maio 2026.

BRAHMA KUMARIS. Soul Consciousness: Fundamental Truths to Rediscover Your True Self. Rajasthan: Brahma Kumaris Literature Department, 2025. Disponível em: < https://bkstrapiapp.blob. core.windows.net/strapi-uploads/assets/Soul_Consciousness_ Book_7c11b9f30c.pdf>. Acesso em: 19 maio 2026.

SANTANA, Marcos Celso Prado. A maldade humana na obra Ensaio sobre a cegueira de José Saramago a partir de uma perspectiva psicanalítica. Dissertação (Mestrado em Psicologia) — Faculdade de Educação, Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia, 2023. Disponível em: <https://sei.ufg.br/sei/controlador_externo.php>. Acesso em: 19 maio 2026.

Tatiana Di Lucia (CRP 04/33151) é psicóloga, psicodramatista, consultora em saúde mental organizacional e inteligência artificial. Voluntária na ONG Brahma Kumaris

* OM INSPIRAÇÃO * por Sandra Costa

NUVEM PASSAGEIRA

Há pessoas que carregam o passado como quem atravessa a vida com pedras nos bolsos.

Pedras invisíveis: culpas antigas, palavras não ditas, mágoas repetidas em silêncio, arrependimentos que se tornaram identidade.

Com o tempo, muitos deixam de dizer: “Eu sinto culpa” e passam a acreditar: “Eu sou culpado”.

Deixam de pensar: “Eu fui ferido” para concluir: “Eu sou a própria ferida”.

Mas a consciência humana não nasceu para viver aprisionada ao

peso emocional. Existe, dentro de cada ser, uma possibilidade silenciosa de retornar à leveza original. Na visão espiritual ensinada pela Brahma Kumaris, a alma é originalmente pacífica, pura e luminosa. A culpa e a mágoa são experiências adquiridas ao longo da jornada, mas não constituem a essência do ser.

Isso muda profundamente a maneira como olhamos para nós mesmos.

Quando alguém acredita que “é” a sua dor, qualquer tentativa de mudança parece artificial. Mas, quando compreende que a dor é uma nuvem passageira diante de uma consciência mais profunda, abre-se espaço para a transformação verdadeira.

* OM INSPIRAÇÃO * por Sandra Costa

A culpa pode ter um papel importante quando desperta responsabilidade e consciência. Porém, quando se transforma em condenação permanente, ela deixa de iluminar e começa a aprisionar.

Muitas pessoas permanecem emocionalmente presas não ao erro em si, mas à necessidade inconsciente de continuar punindo-se. Como se sofrer continuamente fosse uma forma de compensar o passado.

No entanto, sofrimento prolongado não corrige o que passou. Apenas prolonga a distância entre a

pessoa e a própria paz. Algo semelhante acontece com a mágoa.

Inicialmente, ela nasce como reação legítima a uma dor. Mas, alimentada diariamente pela memória, pode endurecer a mente e consumir a energia interior.

A mágoa tem um estranho mecanismo: ela mantém viva a presença emocional daquilo que desejamos esquecer.

Perdoar não significa negar injustiças nem fingir que nada aconteceu. Significa recusar-se a continuar carregando dentro de si aquilo que já feriu demais.

NESSE ESPAÇO

• a culpa pode se transformar em aprendizado;

• a mágoa pode amadurecer em compaixão;

• o passado pode deixar de comandar o presente.

Na meditação, aprendemos a observar pensamentos e emoções sem nos confundirmos totalmente com eles. Aos poucos, percebemos que existe um espaço interior mais amplo do que nossas histórias pessoais. *

Ser leve outra vez não é voltar a ser ingênuo. É recuperar a liberdade interior.

Talvez a verdadeira cura espiritual comece quando deixamos de perguntar: “Como apago tudo o que vivi?” e passamos a perguntar: “O que em mim permanece intacto apesar de tudo?”

A resposta talvez surja em silêncio: a paz original da alma.

E, quando essa paz volta a ser lembrada, culpa e mágoa deixam de definir quem somos.

Sandra Costa é uma tradutora gaúcha porto-alegrense, membro da Brahma Kumaris há 43 anos

* OM COM O MUNDO * por Ramon Almeida

e equanimidade

Leveza

Certa vez, o líder pacifista indiano Mahatma Gandhi foi conduzido à prisão sem justo motivo, o que fez um repórter perguntar, pouco tempo depois, no momento de sua libertação, se ele ficou constrangido ou magoado com aquela atitude incompreensível. Ele afirmou categoricamente que não lhe fizeram nada e que os guardas foram muito gentis ao lhe entregar papéis e lápis, com os quais adiantou sua autobiografia. Na história da humanidade, é notável observar a atitude de grandes personagens diante das situações cotidianas, ao se comportar com equanimidade mesmo diante de cenas indesejáveis. Eles não se lamentam, não se aborrecem, não indicam culpados, mas seguem adiante, depuram as oportunidades e sustentam o propósito, na suave fragrância do autorrespeito.

OBSTÁCULOS

No percurso do objetivo definido, as dificuldades se manifestam desde o início, o que não deve prejudicar a caminhada, desde que os obstáculos sejam considerados como cenas laterais incapazes de paralisar ou preocupar o andarilho. É possível manter o estágio de leveza

OM COM O MUNDO * por Ramon Almeida

e sustentar a meta diante de si, como um direito que lhe é devido - uma herança a alcançar -, ciente de que, muitas vezes, será preciso superar adversidades ou embaraços, com a persistência necessária para retomar o destino logo em seguida. Os rios existem porque sabem contornar montanhas sem se acomodar nos vales, seguindo seu fluxo até o destino, quando cada gota d’água realizará o sonho de se tornar oceano. As turbulências descortinam habilidades. Portanto, mantenha a integridade e siga, com olhos abertos, retidão, leveza e equanimidade: virtudes que animam e dão o suporte necessário.

RENÚNCIA

As experiências engendradas pelas realizações pessoais e profissionais no âmbito material estimulam um desconforto ou angústia diante da percepção de que pode haver (e há) algo que ainda não foi encontrado, fazendo emergir uma maior atenção ao que está além das leituras sensoriais. Essa vereda requer um amoroso desapego a um conjunto de convicções - sedimentadas no subconsciente – e o cultivo de novas práticas capazes de dilatar o objeto da

*

busca, as virtudes essenciais, a própria grandeza humana. Será possível evitar pensamentos excessivos, negativos e inúteis, bem como avaliações, significados e conceitos inoportunos, abrindo espaço às habilidades que se caracterizam pelo comportamento pacífico, compreensivo e cooperativo. Se a carga é pequena não ficamos tão cansados. Podemos ir mais longe com uma mochila mais leve. A leveza é virtude de quem pensa menos e pensa melhor, fala

menos e diz o essencial, age menos e acerta com precisão. A leveza gera o espaço de serenidade onde é possível enxergar a si e aos outros como Deus vê e, assim, nada ver senão a amplitude fascinante do bem.

PERDAS

Com leveza, é mais fácil para todos a compreensão e aceitação do fato de que, por estar em movimento, o mundo material sempre se transforma

* OM COM O MUNDO * por Ramon Almeida

Ramon Almeida é engenheiro e voluntário do Centro de Meditação Raja Yoga Brahma Kumaris

e isso espalha um convite para evitar a estagnação e se harmonizar com o ritmo da vida. A âncora será lançada ao atingir o propósito maior, revigorados e estáveis no universo espiritual, sem sofrer com as perdas, os finais e os recomeços, todos necessários e inevitáveis. Lembre-se que a juventude vem com a perda da infância e a vida adulta surge com a perda da juventude e, ainda, que o mesmo casulo faz a lagarta chamar de morte o que a borboleta chama de vida.

TRANSFORMAÇÃO

Neste momento de transformação, é preciso renunciar antigos registros de memória com os quais nos identificamos e que decretam a conveniente e ilusória noção do “eu separado”, “eu menor” ou ego. Porém, o autoconhecimento, a apreciação do silêncio e a prática regular da meditação oferecem um promissor sentido à existência. Mesmo inseridos no caos e limitações, dois poderes engradecem a trajetória: saber quem eu sou e cultivar uma saudável conexão com Deus, que, ao irradiar amor e leveza, alivia as nossas cargas. Isso ocorre quando a consciência do corpo é sucedida pela consciência de alma. Om shanti. *

* OM DICA DE LEITURA * por Katia Roel

Livre, leve e solto de verdade

O que carregar/levar na mente? O que soltar? Saber a resposta para estas perguntas faz toda a diferença na nossa vida. É necessário clareza, discernimento e valores humanos para usarmos muito bem a caneta de escrever nossa história. É necessário reconhecer que “eu sou responsável em escrever”. Queremos escrever uma história linda para nós mesmos, e para isso precisamos daquela energia forte e sensível em cada escolha.

O que gera a força de eu ser capaz de carregar/levar apenas o que é útil e soltar aquilo que pesa? Seria inteligência? Sensatez? Clareza? Força de vontade? Ou talvez tudo isso junto. Como podemos conseguir melhorar em tudo

“É

necessário clareza,

discernimento e valores

humanos

para usarmos

muito bem a caneta de escrever nossa história”

* OM DICA DE LEITURA * por Katia Roel

isso? Certo, todos nós temos essas qualidades, mas podemos melhorar em todas. Na minha experiência, percebo que é necessário o cultivo diário do nosso estágio interior forte e saudável. Isso ocorre a partir de uma rotina que insira não apenas ações de sustento físico, como trabalho e alimento, mas temos que inserir momentos que nutram os valores eternos. Momentos de silêncio e contemplação são essenciais para ativar a sabedoria e riqueza interior. Para que, no momento em que as pressões surgirem na forma de conflitos, perdas, doenças..., tenhamos energia suficiente para lidar e superar bem. Se eu carregar o que me fortalece e abandonar o que me pesa, isso será muito possível de experimentar, ser livre, leve e solto de verdade.

“Momentos de silêncio e contemplação são essenciais para ativar a sabedoria e riqueza interior. Para que, no momento em que as pressões surgirem na forma de conflitos, perdas, doenças..., tenhamos energia suficiente para lidar e superar bem”

PRÁTICAS ESSENCIAIS

• Nutrir a mente (meditação diária): pensamentos do ser original e conexão com Deus;

• Ações de benefício amplo: arrumar tempo para gerar prosperidade sutil, a de ganhar bons sentimentos de muitos;

• Cuidar da saúde física: alimento e exercícios que realmente gerem disposição para a mente e o corpo.

No livro Quem medita transforma e se transforma , vemos vários exemplos de pessoas que obtiveram sucesso por meio da meditação.

Inspire-se ao ler essas experiências fortalecedoras! *

Katia Roel é professora de meditação Raja Yoga em Serra Negra-SP

* OM TRANSFORMAÇÃO * por Patrícia Cantalino

leve!! Audaciosamente

Pense no seu dia a dia... Quando carrega consigo a energia da culpa, leva isso para os outros também, de forma mais clara - buscando culpados - ou disfarçada, não se sentindo digno. Leva para a vida... sentindo-se menos, amuado ou fingindo ser grande demais... É ou não é?

Quando a culpa é revisitada, o tropeço é continuado, a mágoa é retroalimentada, quer seja no nível consciente ou ao próprio eu, velada. Culpa, mágoa e vergonha, de mãos dadas, minam a energia do Ser e o ciclo recomeça, quase que ininterruptamente, mesmo inconscientemente... Bom, e como não se identificar com a culpa? Quando a leveza vem? Nesse universo de dois lados, mesmo a culpa, a momentânea, traz algo muito bom e poderoso, a semente da mudança!

* OM TRANSFORMAÇÃO * por

A MUDANÇA VEM...

• Quando você integra tudo! Quando assume a autoria dos tropeços, com dignidade. Afinal, a pessoa que teve a irreverente atitude de errar, neste mundo que clama pela perfeição, é a mesma que pode consertar de ilimitadas formas, a partir da autorresponsabilidade!

• Quando você se desconstrói um pouco e aprende a sorrir com os erros! Não o riso do deboche ou da indiferença, o do entendimento, o da holotropia de si mesmo. Assim, você abre espaço interno, vai conhecendo-se melhor e cresce, bem diante de si. Você já deve ter experimentado isso, não é mesmo?

• Quando olha para trás com cabeça erguida, braços fortes, olhos bem abertos e semblante, com rugas, talvez, mas de aura suave!

Pois é, bem ali, meu(minha) amigo(a), por baixo dos falsos eus, esculpidos pelas inúmeras camadas de enganos, das palavras erradas, atos impensados e das mágoas acumuladas - por você para você mesmo e pelos outros para você -, por baixo de tudo isso, reside uma força, literalmente extraordinária, a da autoconsciência pura. A essência legítima de quem você é, de quem todo ser humano está predestinado a ser, uma fortaleza de si mesmo - Luz! Então, mergulhe nela!!

Simplificando a vida, basicamente, há duas opções: culpa, mágoa e letargia OU luz, responsabilidade e ousadia. E toda luz é leve... audaciosamente leve!

Patrícia Cantalino é professora de meditação na Brahma Kumaris desde 1998. Atua como assistente da coordenação da BK na região Nordeste

* OM COMIDA PURA * por Ana Paula Paixão

Leve outra vez

O SABOR DE RECOMEÇAR

Culpa e mágoa são pesos silenciosos. Muitas vezes, seguimos vivendo, trabalhando, sorrindo e cuidando de tudo ao redor, mas, por dentro, carregamos lembranças, arrependimentos e dores que continuam ocupando espaço na mente e no coração. Aos poucos, essas emoções passam a definir a maneira como nos enxergamos. A alma perde a leveza natural e a vida se torna cansativa.

No Raja Yoga, aprendemos que somos almas originalmente puras, pacíficas e amorosas. Nenhum erro,

experiência ou decepção define nossa essência. Culpa e mágoa pertencem às experiências vividas, não à identidade verdadeira do ser.

Quando cultivamos silêncio interior e praticamos a meditação na lembrança de Deus, começamos a nos enxergar com mais compaixão. Surge, então, a possibilidade do recomeço.

“Leve outra vez” não significa esquecer tudo o que aconteceu, mas deixar de carregar o passado como identidade. Significa compreender, aprender e seguir adiante.

*

ARROZ DE FORNO RECOMEÇO

Ingredientes

• 2 xícaras de arroz já cozido

• Legumes que tiver na geladeira (cenoura, abobrinha, milho, ervilha, tomate, brócolis)

• Folhas que precisam ser usadas (couve, espinafre)

• Azeite, sal e ervas a gosto

• 1/2 xícara de leite vegetal ou creme de castanhas

• Farinha de rosca para gratinar

Modo de preparo

Pique os legumes e cozinhe-os rapidamente, preservando textura e sabor. Misture o arroz, as folhas e o leite vegetal até formar uma mescla cremosa. Tempere com ervas frescas, sal e coloque em um refratário. Finalize com farinha de rosca e azeite e leve ao forno até dourar.

Ana Paula Paixão pratica meditação Raja Yoga há mais de 15 anos. É designer, culinarista e encantada com a natureza

* OM ÚLTIMA PALAVRA * por Dadi Janki

Destemor

Dadi Janki, yogini indiana, líder espiritual da Brahma Kumaris, foi considerada pelo Instituto de Pesquisa Médica do Texas como a mente mais estável do mundo. Deixou o corpo físico e ascendeu ao mundo espiritual em março de 2020

RESUMO DO VÍDEO

A coragem vem do Divino: A verdadeira força interior e o destemor não vêm do ego, mas sim de uma profunda conexão e fé inabalável em Deus.

Superação das inseguranças: O sentimento de desamparo e o medo desaparecem quando nutrimos nossa espiritualidade e nos enchemos de poder e estabilidade mental através dessa relação divina.

Transformação interior: Ao nos mantermos conectados ao plano espiritual, adquirimos coragem suficiente para enfrentar qualquer obstáculo e desafio do mundo físico de forma serena e pacífica.

Vídeo “Destemor”, com Dadi Janki. Clique no ícone acima para ver o vídeo

* MEDITA BK *

Luz e leveza

Nesta meditação você poderá se conectar com sua essência de paz bem como com o lar original de paz e luz. Text e Voz: Luciana M. S. Ferraz

Clique no ícone abaixo para fazer o download do APP MeditaBK

Presente para a alma

Paz é a natureza original da alma, mas, ao longo do tempo, ela se perdeu em um mar de desentendimentos, decepções e angústias.

Raiva, frustação e irritação tornaram-se suas companheiras constantes.

Volto-me ao meu interior e, com coragem e determinação, solto todas as coisas que perturbam minha paz de espírito e emerjo revigorado.

brahmakumaris.org.br/revista

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