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Retratos da cidade: o uso da fotografia para a recuperação de fragmentos históricos de Londrina

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– o uso da fotografia para a recuperação de fragmentos históricos de Londrina –


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– o uso da fotografia para a recuperação de fragmentos históricos de Londrina –


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Editor de texto e fotografia: Paulo César Boni Revisão: Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro Normalização: Laudicena de Fátima Ribeiro / CRB 9 / 108 Programação visual, criação e arte: Heliane Miyuki Miazaki

Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos do Sistema de Bibliotecas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) R437

Retratos da cidade: o uso da fotografia para a recuperação de fragmentos históricos de Londrina / organizador: Paulo César Boni. – Londrina : Midiograf, 2014. 225p. : il. ; 21cm. ISBN 978-85-8396-010-2 1.Londrina (PR) – Fotografia e memória. 2. Londrina (PR) Fotografia - História. I. Boni, Paulo César.

CDU: 77.03(816.22) Elaborada por: Terezinha Batista de Souza


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Agradecimentos A todos que, de forma direta ou indireta, contribuíram para a produção, viabilização e circulação deste livro.

Agradecimentos especiais às coautoras e coautores de capítulos; às fontes consultadas, pela gentileza de nos concederem entrevistas; à direção e funcionários do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, pela atenção, disposição e inestimável ajuda de sempre; à revisora da ABNT, bibliotecária Laudicena de Fátima Ribeiro; ao revisor de língua portuguesa, jornalista Joaquim Francisco G. de Brito Amaro; à programadora visual, Heliane Miyuki Miazaki, e à ex-aluna e coautora Bruna Mayara Komarchesqui, que, mesmo sem saber, foi a inspiradora do título deste livro.

Ao PROEXT/MEC, que, em razão de seu apoio, permitiu a distribuição deste livro para escolas e professores.


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Dedicatória “Um País se faz com homens e livros.” (Monteiro Lobato)

No mês de julho de 2014, no espaço de menos de uma semana, o País perdeu três homens que produziram bons livros: o baiano João Ubaldo Ribeiro, falecido dia 18, o mineiro Rubem Alves, falecido dia 19, e o paraibano Ariano Suassuna, falecido dia 23. A eles, pelo exemplo de cidadania, pelas obras que produziram, e por tudo o que representaram, representam e continuarão representando para o Brasil, dedicamos este livro.


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Sumário A Academia e o uso da fotografia para a recuperação da história de Londrina ............................................................................... 11 Paulo César Boni

Dois “lances de sorte” na relação de Londrina com a fotografia .......................................................................................... 21 Paulo César Boni

O retrato do Norte do Paraná: a fotografia na revista A Pioneira (1948-1954) .............................................................................. 43 Bruna Mayara Komarchesqui e Paulo César Boni

Avenida Higienópolis: um retrato da burguesia londrinense nas décadas de 1930 a 1960 ....................................................................... 61 Paulo César Boni e Sara Hermógenes Silva

Para evitar que o “Leite” fosse derramado: a história da recuperação de um dos mais importantes acervos fotográficos de Londrina ............................................................................ 81 Rosana Reineri Unfried e Paulo César Boni

A fotografia como “recriadora” de fatos desaparecidos da memória: a construção do Estádio do Café em 1976 .................................................... 99 Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro e Paulo César Boni

Londrina revisitada: a fotografia como registro histórico de duas épocas .......................................................................................... 131 Paulo César Boni e Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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Coluna Você conhece este lugar?: um novo modo de olhar Londrina ...................................................................................... 165 Amanda Gonçalves de Santa e Paulo César Boni

A influência das Teorias do Jornalismo na proximidade do pensamento fotográfico: a manifestação no Zerinho ................................................... 185 Bruna Volpini Freire e Paulo César Boni

Retratos da transformação urbana: documentação visual de Londrina antes e depois da Lei Cidade Limpa ........................................................ 205 Fernanda Grosse Bressan e Paulo César Boni


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A Academia e o uso da fotografia para a recuperação da história de Londrina Paulo César Boni *

Aqui estão reunidos trabalhos produzidos por professores e estudantes do Grupo de Pesquisa Comunicação e História, criado na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e certificado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além de metodologias tradicionais, o grupo utiliza jornais e revistas de época e, principalmente, fotografias para pesquisar, organizar, sistematizar e democratizar, por meio de publicações, a história de Londrina e do Norte do Paraná. Em quase uma década de atividades, membros do grupo apresentaram dezenas de artigos envolvendo a imprensa e a fotografia em eventos (congressos, encontros, simpósios e outros) regionais, nacionais e internacionais das áreas de Comunicação e História. Artigos foram publicados em periódicos científicos impressos, online ou de ambas as versões. Quatro livros sobre o uso da imprensa e da fotografia para a recuperação da história de Londrina e região foram publicados: Certidões de nascimento da história: o surgimento de municípios no eixo Londrina-Maringá, em 2009; O papel do ParanáNorte na construção da Santa Casa e o esporte nas ondas do rádio: duas experiências históricas da imprensa londrinense, em 2010; Memórias fotográficas: a fotografia e fragmentos da história de Londrina, em 2013; e Hotéis Históricos do Norte do Paraná, também em 2013. Exemplares dos quatro livros foram distribuídos gratuitamente para as bibliotecas das escolas públicas – municipais e estaduais – e particulares de todos os níveis de ensino. * Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Além destes, o grupo também publicou, em 2011, o livro Fotografia: múltiplos olhares, no qual três capítulos tratam do uso da fotografia para a recuperação de fragmentos da história de Londrina. Nos ensaios acadêmicos deste Retratos da Cidade, a fotografia surge como instrumento prioritário para a recuperação da história de Londrina. Exceto o primeiro, todos os textos foram pesquisados e produzidos em coautoria com estudantes de graduação e pós-graduação sob minha orientação. Ao longo das duas últimas décadas, transformamos Londrina em referência nacional e internacional no estudo, na discussão, produção e difusão de conhecimentos sobre fotografia. Desde o início dos anos 2000, estamos empenhados em “aplicar” os conhecimentos de fotografia em recortes de estudos londrinenses. Com isso, além de consolidarmos teorias sobre fotografia, estamos nos esforçando para ampliar – e aprofundar – as pesquisas sobre a recuperação da história e preservação da memória de Londrina. O texto que abre este livro – Dois “lances de sorte” na relação de Londrina com a fotografia – trata das razões que levaram Londrina em particular, além de toda a região Norte do Paraná, a dispor de um considerável acervo fotográfico de seu desbravamento e início de colonização. Cidades muito mais novas, como as do Norte do Estado de Mato Grosso, por exemplo, fundadas nas décadas de 1970 e 1980, quando as facilidades técnicas eram maiores e os preços de produção de fotografias mais baixos, têm muito menos documentos imagéticos de seus primórdios do que Londrina. Isso se deve, principalmente, a dois lances de sorte. O primeiro foi a necessidade da Companhia de Terras Norte do Paraná de fazer publicidade de seu empreendimento imobiliário, que deflagrou o processo de colonização na região. A mídia fotografia foi fartamente usada como estratégia de publicidade. Com esse intuito, foram contratados profissionais para a produção de fotografias que “vendessem” a seriedade do empreendimento, transmitissem a sensação de segurança para o investidor e, principalmente, mostrassem a fertilidade do solo e sua pronta resposta ao plantio de lavouras, com altíssima produtividade. Da produção de fotografias com esse


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fim, ficaram centenas de registros que documentam todas as etapas dos primórdios de Londrina. O segundo lance de sorte foi a vinda de imigrantes no início da colonização. Normalmente fugindo da pobreza, perseguições étnicas ou religiosas, ou de conflitos em seus países de origem, esses imigrantes chegavam com qualificação profissional para o exercício de ofícios específicos, entre eles o da fotografia. A oferta de serviços fotográficos sempre foi uma constante em Londrina. Mesmo considerando as especificidades das demandas, mais individuais que coletivas, esses fotógrafos produziram registros familiares e sociais importantíssimos para a recuperação da memória e a construção da história da cidade e região. Londrina, como tantas outras cidades, utiliza a fotografia para recuperar dados históricos, preservar a memória e democratizar os conhecimentos sobre sua história. No entanto, esses dois lances de sorte têm permitido que a fotografia se torne uma mídia cada vez mais importante para pesquisadores somarem conhecimentos no processo de construção histórica da cidade de Londrina e da região Norte do Estado do Paraná. Procuramos organizar o livro de forma cronológica, o que não foi fácil, porque alguns textos têm o recorte temporal no início de Londrina e atualizam as informações até os dias de hoje. Optamos, então, por iniciar pelos textos que tratam apenas do passado. O segundo capítulo, intitulado O retrato do Norte do Paraná: a fotografia na revista A Pioneira (1948-1954), fala do uso da fotografia pela revista A Pioneira, a primeira a assumir publicamente seu uso como atrativo visual, registro de eventos sociais, documento das transformações rurais e urbanas da região e ferramenta publicitária. O editorial de seu primeiro número, de maio de 1948, exalta a importância da fotografia como “poderoso meio de educar, instruir e propagar”, assumindo-a como “elemento primordial na confecção desta revista” e justificando sua opção: “Registrando, fixando, retratando enfim, as cousas na sua verdadeira expressão, a fotografia está sempre a serviço da comunidade”. Ao longo de seus sete anos de circulação (com alguns tropeços na periodicidade, que era para ser bimestral), A Pioneira


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usou e abusou da fotografia. Na sexta edição, por exemplo, referente a novembro e dezembro de 1949, a revista circulou com 76 páginas e 180 fotografias, mais de duas por página, em média. Saíram 15 números de A Pioneira, com centenas de retratos de políticos, autoridades, industriais, comerciantes e agricultores bem sucedidos, fotografias de álbuns de família, casamentos, batizados, aniversários e flagrantes de eventos sociais e registros de lavouras, casas comerciais, ruas, avenidas ou inaugurações de residências e estabelecimentos comerciais. O estudo revelou que, hoje, independente da motivação original de seu uso pela revista, as fotografias nela publicadas são vestígios, pegadas, retratos de um tempo perdido, documentos iconográficos imprescindíveis para a recuperação de dados históricos, uma espécie de álbum da história de Londrina e do Norte do Paraná. Na sequência, o texto Avenida Higienópolis: um retrato da burguesia londrinense nas décadas de 1930 a 1960, narra a abertura e a urbanização daquela que nasceu para ser a mais rica e luxuosa avenida de Londrina. A Avenida Higienópolis foi aberta no local mais alto (espigão) e com mais facilidade de ventilação da cidade. Tornou-se um espaço arejado, arborizado e ajardinado, no qual se multiplicavam enormes e confortáveis residências, luxuosas mansões e um glamoroso palacete, o da família Garcia Cid. Além de historiar a trajetória da Higienópolis por quatro décadas, o texto desmistifica um erro conceitual sustentado por muito tempo na escassa bibliografia disponível sobre a avenida. Ela era tida como um reduto aristocrático, mas o estudo da origem da maioria de seus moradores, composta por industriais, comerciantes, profissionais liberais, como médicos e advogados, ou seja, pessoas oriundas da classe burguesa e não da aristocracia, contribui para uma discussão – e, quiçá, revisão – histórica, pois a Higienópolis, na realidade, sempre foi mais um retrato da classe burguesa que um reduto da aristocracia londrinense. Em nossas pesquisas, duas descobertas “arqueológicas”: o acervo do fotógrafo Oswaldo Leite e fotografias nunca publicadas da construção do Estádio do Café.


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Oswaldo Leite foi, sem dúvida, o maior fotógrafo documentador das transformações urbanas de Londrina das décadas de 1950, 1960 e 1970. Ele chegou a Londrina em 1940, com 19 anos de idade. Quando trabalhava como pedreiro na construção da Santa Casa, foi convidado pelo então prefeito Willie Davids (19361940) para outro emprego, na Secretaria de Obras. Aceitou prontamente. Em pouco tempo, assumiu um cargo de chefia na secretaria e passou a acompanhar – e fotografar – o andamento das obras, para registro e produção de relatórios. Aposentou-se na década de 1960, mas voltou à Secretaria de Obras a convite do prefeito Dalton Paranaguá (1969-1973), desta feita só para ser fotógrafo, tornando-se o primeiro fotógrafo oficial da Prefeitura do Município de Londrina. Assim, por mais de 30 anos, Oswaldo Leite registrou, em preto e branco, todas as obras públicas (e algumas privadas) da cidade, construindo um acervo imprescindível para a recuperação, documentação e preservação da história de Londrina, do momento da efervescência econômica (década de 1950, com a grande produção de café na região e sua valorização no mercado internacional), passando pelas ebulições políticas e sociais (Anos Dourados) dos anos 1960 e pelas transformações urbanas e arquitetônicas da década de 1970 e parte da “década perdida”, como ficaram conhecidos os anos 1980. A maior parte desse acervo, no entanto, por pouco não foi incinerada. As fotografias ampliadas e os negativos estavam armazenados em baús, expostos à sujeira e à umidade em um depósito da Prefeitura. No início da década de 1990, iam ser incinerados para desocupar lugar, quando o fotógrafo Hélio Silva, tomando conhecimento do que estava para acontecer, sugeriu a doação ao Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Graças a isso, quase 25.000 imagens, já higienizadas e arquivadas em boas condições de preservação, encontram-se hoje em processo final de catalogação e digitalização para serem disponibilizadas para consulta e pesquisa. As imagens da década de 1950 já deram oportunidade à realização do Trabalho de Conclusão de Curso Muito Leite seria derramado: a história da recuperação de um dos mais importantes acervos fotográficos de Londrina, apresentado pela estudante Rosana Reineri Unfried, sob minha orientação, ao curso de Comunicação Social – Habilitação Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina, em 2013.


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A outra descoberta “arqueológica” está em fotografias inéditas da construção do Estádio do Café. No dia 14 de junho de 1976, já na fase final das obras, o estádio recebeu a inusitada visita dos jogadores do Londrina Esporte Clube, devidamente uniformizados, para a produção de uma fotografia que iria ilustrar a campanha publicitária para a venda de cadeiras cativas. Também compareceram o então prefeito José Richa (1973-1977), acompanhado de alguns funcionários da Prefeitura, e o então presidente do LEC, Jaci Scaff, hoje homenageado com o nome oficial do estádio. Um fotógrafo, cuja identidade ainda não descobrimos, registrou um conjunto de 16 fotografias da visita, a maior parte dos jogadores observando as obras e até mesmo batendo bola no gramado recém-plantado. Todas essas fotografias são inéditas, nunca publicadas em nenhum jornal ou revista. Elas estavam coladas em folhas de papel e foram jogadas no lixo. Uma pessoa, também não identificada, recolheu esse material do lixo e, percebendo o valor histórico das imagens, deixou-as, com um bilhete não assinado, na portaria da Rádio Paiquerê, aos cuidados do cronista esportivo Fiori Luiz. Fiori viu e gostou. Como sabia que outro cronista esportivo, J. Mateus, coleciona documentos e fotografias do esporte em Londrina, repassou-as a ele, que, por sua vez, emprestou-as para o jornalista Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, mestrando em Comunicação na UEL, elaborar, também sob minha orientação, o trabalho A fotografia como “recriadora” de fatos desaparecidos da memória: apresentação e análise de um conjunto de fotografias feitas no Estádio do Café em 1976, do qual resultou o capítulo deste livro. Nos casos do acervo de Oswaldo Leite e do álbum da fase final da construção do Estádio do Café, a história novamente teve sorte, graças à sensibilidade de duas pessoas, uma desconhecida, que foi determinante para que essas fotografias não se perdessem. Aliás, pesquisando o Estádio do Café, descobrimos que Oswaldo Leite participou da escolha do local onde ele foi erguido. Histórias que se entrelaçam e, ricamente ilustradas por fotografias, somam na recuperação e preservação da memória de Londrina.


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Em 1862, o fotógrafo Militão Augusto de Azevedo, recém-chegado a São Paulo, fez uma série de tomadas fotográficas de pontos importantes da capital paulista. Em 1887, 25 anos depois, ele voltou a esses mesmos lugares e fez novas tomadas. Com as tomadas de 1862 e 1887, produziu um álbum comparativo pelo qual tornou-se possível observar as mudanças ocorridas nos locais fotografados, decorrentes do crescimento e urbanização da cidade. A esse processo, mais tarde, a Academia deu o nome de “revisita históricoiconográfica”. As fotografias urbanas de Militão Augusto de Azevedo serviram, inclusive, para que governantes acompanhassem e comparassem as obras realizadas durante suas gestões, e para que planejadores tomassem decisões quanto ao futuro viário e arquitetônico da cidade de São Paulo. Em Londrina, procuramos fazer algo parecido. Tomamos como ponto de partida um álbum fotográfico produzido em 1941, com imagens dos mais importantes prédios e praças da cidade, e algumas outras fotografias da década de 1940, e voltamos aos mesmos locais em 2008 para novas tomadas fotográficas, dos mesmos espaços e com os mesmos ângulos. O resultado foi surpreendente. Algumas construções do álbum de 1941 foram demolidas e cederam lugar a novos prédios (casos da antiga Prefeitura, da Igreja Matriz de duas torres, da Associação Comercial), outras, no entanto, continuam de pé e com as mesmas características de seis ou sete décadas atrás, como o palacete da família Garcia Cid e o Centro de Saúde. Esta revisita histórico-iconográfica foi um importante processo de aprendizagem e apreensão de conhecimentos, pois observamos com mais riqueza de detalhes a memória e as transformações históricas de importantes etapas do desenvolvimento de Londrina. Desde 2007, os moradores de Londrina convivem com uma saudável brincadeira promovida pelo Jornal de Londrina. Trata-se da coluna Você conhece este lugar?, que testa a percepção e a atenção dos londrinenses com relação ao patrimônio arquitetônico da cidade. Às segundas-feiras, o jornal


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publica uma fotografia, em plano fechado, com apenas um detalhe de um espaço da paisagem londrinense e desafia seus leitores a identificar o espaço recortado e escreverem ou ligarem para a redação e apontar a resposta. No dia seguinte, no mesmo espaço (página 2), o jornal publica uma fotografia, em plano aberto, identificando o espaço da véspera e a relação dos acertadores. Alguns espaços são facilmente identificados, recebem muitas respostas e apresentam elevado número de acertadores. Outros são considerados muito difíceis, pouca gente se arrisca a dar “um palpite”. Já houve casos em que ninguém acertou. O texto Coluna Você conhece este lugar?: um novo modo de olhar Londrina apresenta o resultado de um estudo sobre a coluna e aponta que os “lugares de pertencimento” são mais fáceis de acertar que os espaços considerados como “não-lugares” pelos cidadãos. O texto informa o que são lugares de pertencimento e não-lugares. Você saberá também quais foram os lugares campeões de acertos e que essa brincadeira, que já dura oito anos, virou mania e motivo de competição entre alguns acertadores contumazes. Muitas vezes abrimos dois ou mais jornais e nos deparamos com fotografias praticamente idênticas em suas páginas. Lemos o crédito das fotografias e percebemos que foram produzidas por fotógrafos diferentes, o que nos intriga. Normalmente perguntamos a nós mesmos: “Será que não havia um outro momento, um outro ângulo para a tomada dessas imagens?”. Em uma cobertura fotográfica, os fotógrafos produzem dezenas de fotografias do mesmo acontecimento, com planos, ângulos, enquadramentos e recortes diferentes, mas os editores dos diferentes jornais acabam por escolher fotografias muito parecidas. Isso ocorre porque existe uma série de pressupostos (praticamente regras) que orientam as Teorias do Jornalismo. Essas teorias, estudadas na escola e vivenciadas na prática, norteiam os procedimentos de jornalistas e, por vezes, sua observação rigorosa acaba criando resultados similares em diferentes veículos de comunicação. O texto A influência das Teorias do Jornalismo na proximidade do pensamento fotográfico: a manifestação no Zerinho apresenta uma dessas


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situações, ocorrida em Londrina, envolvendo seus dois diários impressos, a Folha de Londrina e o Jornal de Londrina. Trata-se do caso da cobertura fotojornalística do início da preparação do terreno para obras de “revitalização” do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon, no centro da cidade, em novembro de 2011. A Prefeitura queria que a Rua Piauí voltasse a transpassar o bosque. Máquinas e operários começaram a derrubar as árvores do local por onde a via deveria passar, o que gerou descontentamento e manifestações por parte da população e a intervenção do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que embargou a obra. Os dois jornais mandaram seus repórteres fotográficos cobrirem as manifestações contrárias às obras. O resultado, estampado nas páginas de ambos os jornais, nos dias 14 e 17 de novembro de 2011, é praticamente idêntico, apesar de as fotografias terem sido tomadas por três profissionais, uma da Folha de Londrina (Gina Mardones) e dois do Jornal de Londrina (Gilberto Abelha e Roberto Custódio). O texto trata dos porquês da similaridade de resultados. Em 2010, foi sancionada e promulgada a Lei 10.966, conhecida como Lei Cidade Limpa, que impôs regras para a publicidade externa de edifícios e estabelecimentos comerciais. Antes de sua vigência, a publicidade no centro de Londrina era caótica, desordenada, uma briga por ocupação de espaços com placas, fachadas falsas e outros instrumentos propagandísticos. Quando a lei foi aprovada, a queixa por parte dos comerciantes foi geral, pois, além de terem que adequar suas fachadas, diziam que perderiam os chamarizes da visualidade e isso poderia afetar seus negócios. No entanto, tiveram que passar a cumpri-la, para não serem multados. Com a polêmica em evidência, a estudante Fernanda Grosse Bressan, do Curso de Especialização em Fotografia da UEL, e este autor e professor, decidiram registrar os momentos anterior e posterior à entrada em vigor da nova lei. Os registros fotográficos – verdadeiros documentos das transformações urbanas de Londrina – evidenciam, respectivamente, uma Londrina poluída visual-


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mente, antes da lei, e com suas fachadas histórico-arquitetônicas à mostra, depois da lei. Essa é uma maneira bastante simples, e melhor que qualquer outra, de demonstrar quanto a documentação fotográfica pode apoiar decisões que visam à recuperação da cultura (neste caso, constituída pela arquitetura dos edifícios). É a fotografia fazendo história – e ajudando a subsidiar futuras decisões políticas com finalidades semelhantes. Este livro, enfim, procura deixar claro que os ensinamentos da Academia podem – e devem – ser colocados a serviço da pesquisa local e regional. Todos seus capítulos trabalham com fundamentação teórica e procedimentos metodológicos ensinados na Academia, mas focam a recuperação e preservação da memória de Londrina e do Norte do Paraná como objeto de estudo.


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Dois “lances de sorte” na relação de Londrina com a fotografia


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Dois “lances de sorte” na relação de Londrina com a fotografia * Paulo César Boni ** Resumo: Este capítulo trata da história da fotografia em Londrina e de sua importância para a recuperação de dados históricos e a preservação da memória da cidade. Por um viés inédito, narra dois “lances de sorte” de Londrina com relação à fotografia. O primeiro foi o de sua utilização como estratégia de publicidade da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), responsável pelo empreendimento que deflagrou o processo de colonização no Norte do Paraná; o segundo foi o da imigração, pois os estrangeiros chegavam capacitados para o exercício de ofícios especializados, entre eles o da fotografia. Estes dois “lances de sorte” propiciaram a produção de fartos registros fotográficos que documentam os primórdios da história de Londrina. Palavras-chave: História de Londrina (PR). História da fotografia em Londrina. Companhia de Terras Norte do Paraná. Fotografia e Memória.

* Publicado originalmente, com adequações e o título A história de sorte de Londrina com a fotografia, na Revista Brasileira de História da Mídia, v. 2, n. 2, jul./dez. 2013, p. 127-137. Disponível em: http:// www.unicentro.br/rbhm/ed04/dossie/09.pdf * * Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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O início da colonização do Norte do Paraná Até as duas primeiras décadas do Século XX, o Norte do Estado do Paraná, especialmente na região que se estende de Jataizinho (à época Jatahy), às margens do rio Tibagi, até a divisa com os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul e com o Paraguai, na extremidade oeste do Estado, delimitada pelos rios Paranapanema e Paraná, era uma mata virgem, um trecho da então densa Mata Atlântica, que cobria todo o litoral brasileiro. O governo percebia a necessidade de ocupar aquelas terras para assegurar a integridade territorial do Estado, mas isso exigiria tempo, estratégias e, principalmente, investimentos – obstáculos difíceis de serem superados. Essa realidade começou a mudar quando uma comissão de investidores do Reino Unido, denominada Missão Montagu, visitou o Brasil em busca de oportunidades de investimentos. O maior interesse dos componentes dessa missão era a produção de algodão, matéria-prima essencial para movimentar a indústria inglesa, naquele momento trabalhando a todo vapor por conta da Revolução Industrial. Um de seus integrantes, Lord Lovat, visitou o Norte do Paraná (na parte hoje denominada Norte Pioneiro) a convite dos produtores de café que estavam construindo uma estrada-de-ferro entre Ourinhos (SP) e Cambará (PR), para facilitar o escoamento da safra até o porto de Santos (SP). Lovat ficou impressionado com o potencial produtivo da região e começou a pensar em um plano que despertasse o interesse de investidores britânicos na região. Seu projeto: comprar uma larga extensão de terras no inóspito Norte do Paraná para lotear a área e vendê-la para a produção de algodão. Para viabilizar e explorar esse empreendimento, foi criada em 1925, em Londres, a Paraná Plantation Ltd. Os investidores britânicos entraram em contato com o Governo do Estado do Paraná, que respondeu com muito interesse à proposta de compra da área, pois isso significaria a resolução do problema de sua ocupação. Com as negociações adiantadas, para atender a legislação brasileira, que proibia a venda de terras para estrangeiros, foi criada em São Paulo a Companhia de Terras Norte do Paraná, com 99,86% do capital social subscrito pela Paraná Plantation Ltd. e 0,14% de capital nacional. Também para atender a legislação brasileira (Constituição de 1891), a presidência da CTNP teria que ser exercida por um brasileiro.


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Para tanto, foi nomeado Antônio Moraes Barros. Legislação cumprida, negócios efetivados: Em dois anos (de 1925 a 1927), a CTNP comprou 515.000 alqueires paulistas de terras (cada alqueire paulista corresponde a 24.200m2) para dar início ao projeto de colonização. Localizadas entre os rios Paranapanema, Tibagi e Ivaí, a maior parte dessas terras – cerca de 450.000 alqueires eram considerados terras devolutas (desocupadas e desabitadas) – foi adquirida diretamente do governo do estado do Paraná, a preços relativamente baixos. O baixo valor das terras se justificava pelo interesse do governo em ocupar e desenvolver o estado. Para tanto, era necessário desmatar áreas nativas, transformando-as em produtivas, para, com isso, atrair investimentos e desbravadores dispostos a fincar raízes em áreas ainda inóspitas. Outro fator que pesou na negociação foi o compromisso que a compradora assumiu de construir a estrada de ferro que cortaria toda a região, ligando Cambará a Guaíra (BONI, 2004, p. 32).

O projeto de colonização do Norte do Estado do Paraná pela CTNP teve início efetivo em 1929. A primeira providência foi enviar uma caravana para demarcar as terras e começar a construir a infraestrutura necessária para receber os primeiros compradores. A caravana era chefiada por George Craig Smith, brasileiro, filho de ingleses, à época com 20 anos de idade, e trazia um engenheiro agrimensor, o russo Alexandre Razgulaeff, e um auxiliar de agrimensura, Spartaco Principe Bambi, brasileiro, filho de imigrantes italianos. A presença dos profissionais da agrimensura era imprescindível, pois era preciso dar início ao exaustivo trabalho de demarcar as terras adquiridas. Também compunham a caravana dois mateiros, Alberto Loureiro e Joaquim Barbosa, empreiteiros responsáveis pelo início da derrubada da mata e preparo da terra para o cultivo de lavouras, um cozinheiro, Erwin Fröhlich, e um auxiliar de serviços, Geraldo Pereira Maia. George Craig Smith, Alexandre Razgulaeff e Spartaco Principe Bambi partiram de Ourinhos (SP) para Cambará (PR) no dia 20 de agosto de 1929, em um caminhão Ford carregado de ferramentas, arreios, utensílios domésticos e mantimentos. Em Cambará, conhecida à época como a “boca do sertão”, a caravana foi reforçada pelos trabalhadores braçais (mateiros, cozinheiro e auxiliar de serviços) e seguiu no caminhão até Jatahy (hoje Jataizinho), por uma precária estrada de terra, uma “picada” na mata. Jataizinho era o fim da linha. De lá para a localidade onde


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começavam as terras da CTNP (hoje Londrina), era preciso atravessar o Rio Tibagi e seguir os cerca de 20 quilômetros abrindo picada a foice e facão. As cargas foram trazidas em lombo de cavalos e burros. Saíram de Jataizinho na madrugada de 21 de agosto de 1929 e, ao final do dia, chegaram ao local que batizaram de Três Bocas, em razão das três nascentes de água que ali encontraram. Descarregaram as tralhas, amarraram os animais e começaram a abrir uma pequena clareira na mata, na qual construíram dois ranchos de palmito, considerados as primeiras habitações de Londrina. George Craig Smith havia trazido uma câmera fotográfica e fez uma tomada da clareira com os ranchos de palmito (Figura 1). Esta fotografia é considerada a “certidão de nascimento” de Londrina, pois foi a primeira tomada da futura cidade. Figura 1 – A primeira fotografia de Londrina

Fotografia: George Craig Smith Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Com a chegada de mais trabalhadores contratados, a CTNP começou a criar a infraestrutura para receber os interessados em comprar terras na região. Foi preciso abrir uma estrada entre Jataizinho e Londrina, com 22 quilômetros de ex-


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tensão, para possibilitar a chegada dos compradores; construir um hotel, para hospedar e alimentar os clientes e os próprios funcionários (Figura 2); e construir um escritório. Já com a venda de lotes em andamento, tanto no núcleo urbano quanto na zona rural, as obras de infraestrutura prosseguiram. O núcleo urbano foi dotado de alguns serviços, como abastecimento de água, fornecimento de energia elétrica, estruturação de serviços de saúde e outros. Figura 2 – Hotel Campestre, inaugurado em janeiro de 1930

Fotografia: George Craig Smith Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Publicidade da CTNP: primeiro lance de sorte de Londrina com a fotografia No início da colonização, fotograficamente falando, Londrina – e, por extensão, todo o Norte do Paraná – teve seu primeiro lance de sorte. A Companhia de Terras Norte do Paraná precisava dar publicidade a seu empreendimento nos outros Estados e no Exterior. No Brasil, ela queria atingir potenciais compradores de terras em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. No Exterior, notadamente nos países europeus. Para informar sobre o empreendimento, ela adotou a fotografia como principal estratégia de convencimento. Os agenciadores (vendedores) de terras


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que cortavam o país oferecendo “oportunidades de bons negócios” no Norte do Paraná levavam um álbum com fotografias que “comprovavam” a fertilidade do solo da região e sua capacidade de proporcionar altíssima produtividade às lavouras. Uma das primeiras fotografias produzidas com este intuito foi a de uma figueira branca, tão grossa que seria preciso uma dezena ou mais de homens com braços abertos para abraçá-la. Nesta fotografia (Figura 3), tomada por José Juliani, vários homens ao pé da árvore servem de referência para que o leitor tenha uma noção de sua magnitude. Outra fotografia bastante utilizada foi a de um pioneiro, sorridente, segurando duas enormes cabeças de repolho (Figura 4). Imagens como estas, à época, eram “documentos comprobatórios” da fertilidade do solo, um convite irrecusável para investimentos na região. Figura 3 – A magnitude da figueira branca atestava a fertilidade do solo [...]

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Para produzir as primeiras imagens de seus álbuns fotográficos, a CTNP contratava fotógrafos, normalmente vindos de São Paulo. O primeiro foi o alemão Theodor Preising, que havia emigrado para a Argentina, em 1920, depois de ter combatido na Primeira Guerra Mundial e, em 1923, trocou a Argentina pelo Brasil, tendo se estabelecido como fotógrafo e vendedor de equipamentos fotográficos em São Paulo.


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Figura 4 – [....] que, preparado para as lavouras, renderia ótimas colheitas

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Em 1924, começou a produzir cartões postais das principais cidades brasileiras e a qualidade plástica de seu trabalho chamou a atenção dos diretores da colonizadora, que o contrataram para produzir fotografias “tipo cartão postal” do Norte do Paraná. As fotografias de Preising, em geral retratando famílias instaladas (Figura 5), lavouras recém-plantadas e o resultado das primeiras colheitas (Figura 6), foram utilizadas como peças publicitárias para vender a imagem de uma região fértil, próspera e, principalmente, promissora. A formação de lavouras acabou se transformando no grande nicho publicitário. A terra da região era, de fato, muito fértil e assim que as primeiras lavouras começaram a produzir, a produtividade e a qualidade encheram os olhos dos satisfeitos produtores (BONI; SATO, 2009, p. 258).

Depois, Preising fotografou a construção de casas residenciais e comerciais, a abertura de estradas, as benfeitorias em chácaras e sítios, a criação de suínos e bovinos e, sempre, os resultados de colheitas. Tudo o que pudesse representar as potencialidades da região e ser utilizado para a criação de um imaginário coletivo de paz, segurança e oportunidades era fotografado e criteriosamente utilizado como propaganda pela CTNP, que, além da ideia de um novo Eldorado


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e da oportunidade de enriquecimento rápido, vendia sua idoneidade e a segurança do empreendimento, desembaraçado judicialmente, como garantia de bom negócio. Os vendedores sabiam que a idéia de um Éden terrestre atrairia, afinal de contas, compradores desejosos de adquirir um fragmento do paraíso. [...]. Sabiam os vendedores que, em um contexto da vida nacional povoado de conflitos sobre questões de domínio, inclusive no Paraná, a garantia de títulos seguros era um grande atrativo para possíveis compradores (ARIAS NETO, 1998, p. 29).

Figura 5 – Família em sua propriedade rural, produzindo cereais, frutas e verduras

Fotografia: Theodor Preising Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 6 – Resultado da colheita de milho

Fotografia: Theodor Preising Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss


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Garantia de segurança e a visão do Éden. Era isso que a CTNP queria transmitir para seus potenciais compradores. A garantia, pela idoneidade da empresa e pelos documentos em ordem do empreendimento; a visão do Éden, pelas fotografias produzidas especificamente para esta finalidade. Ou seja, no processo de desbravamento e colonização do Norte do Paraná, a fotografia constituiu-se em uma mídia de fundamental importância. O segundo fotógrafo, contratado para serviços esporádicos, foi o austríaco Hans Kopp, sobre quem se sabia pouco, até recentemente, embora tenha vivido muitos anos – e morrido – em Rolândia (PR). Em 2008 e 2009, no entanto, Cássia Maria Popolin, então estudante do Mestrado em Comunicação da Universidade Estadual de Londrina, localizou descendentes seus, que guardavam caprichosamente seus documentos e pertences fotográficos (câmeras, lentes, negativos de vidro e celulose e muitas fotografias impressas). A partir de então, a história de Hans Kopp e a importância de suas fotografias para a recuperação histórica do Norte do Paraná passaram a ser contadas com precisão, exatidão de detalhes e documentação comprobatória. Só as datas de tomada de algumas fotografias continuam imprecisas. A exemplo de Theodor Preising, Hans Kopp também havia combatido na Primeira Guerra Mundial. Durante o conflito, além de matar, passou por muitas agruras e sofrimentos. Decidiu que não queria isso para seus filhos e resolveu emigrar para algum país que não se envolvesse em guerra. Escolheu o Brasil. Hans Kopp, além de fotógrafo, era músico, ou seja, sua sensibilidade era duplamente estimulada. Foi um grande fotógrafo de família e cotidiano e um documentador ímpar do crescimento de cidades norte-paranaenses, especialmente Rolândia e Londrina, pelo fato de haver introduzido o “registro aéreo” na documentação iconográfica. Não se tratava especificamente de fotografia aérea, mas de uma inovação para registros aéreos. Ele subia em árvores para fazer as tomadas. Fazia escadas pregando tábuas no caule e, no alto da árvore, construía uma plataforma de madeira para apoiar o tripé e a câmera fotográfica. Então, fazia seus “registros aéreos”. Foi uma inovação. Não há muitas fotografias de Kopp disponíveis no Museu Histórico de Londrina ou no Museu Municipal de Rolândia. Infelizmente, boa parte de seus registros foram entregues aos contratantes de seus serviços e se perderam. O


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acervo recuperado por Cássia Popolin refere-se mais ao álbum de família, riquíssimo, aliás. De suas imagens de Londrina, provavelmente as mais reproduzidas sejam duas vistas panorâmicas da cidade, tomadas em meados da década de 1930 (Figuras 7 e 8). Tudo leva a crer que essas duas tomadas tenham sido feitas do alto de árvores. Figura 7 – Núcleo urbano de Londrina, provavelmente em 1934

Fotografia: Hans Kopp Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 8 – Vista panorâmica de Londrina, provavelmente em 1935

Fotografia: Hans Kopp Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss


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Porém, o mais produtivo e conhecido fotógrafo contratado pela CTNP para produzir imagens de caráter documental e publicitário do empreendimento foi, sem dúvida, José Juliani. Vindo do interior de São Paulo, Juliani chegou a Londrina em 11 de março de 1933, com 37 anos de idade, casado e pai de cinco filhos. Havia aprendido o ofício em Nova Europa (SP), com um fotógrafo alemão, que lhe vendeu o equipamento ao se aposentar. Juliani veio para Londrina para trabalhar como carpinteiro. Acreditava que haveria muito mais demanda por construção de casas em um lugar que estava crescendo do que por fotografia. Contudo, montou um estúdio em um “puxadinho” em sua casa e afixou um letreiro: Photo Studio. Logo o acaso começou a trabalhar a seu favor: Em 1933, o Sr. Ernest Rosemberg, engenheiro da CTNP, precisava de uma fotografia do salto do ribeirão Cambezinho (nome atual), que fica no Parque Arthur Thomas (nome atual), para enviar à Inglaterra. O escritório de Londrina havia solicitado a construção de uma turbina geradora de energia elétrica para viabilizar, num primeiro momento, o fornecimento de eletricidade para o próprio escritório e as casas de seus diretores. Os estudos para o empreendimento estavam sendo desenvolvidos pela matriz, em Londres, que solicitou uma fotografia do salto do ribeirão para saber da viabilidade – ou não – do projeto (BONI, 2004, p. 253).

O profissional que havia sido contratado em São Paulo para fazer a fotografia não compareceu na data marcada e o engenheiro Rosemberg foi avisado por um auxiliar que, agora, havia um fotógrafo em Londrina. Foram até a casa de José Juliani e pediram para ele fazer o serviço. Ele foi, fez e agradou. Era 1933 e, a partir de então, a CTNP deixou de procurar fotógrafos em outras cidades e passou a contratá-lo para suas inúmeras demandas. Ele era tão capaz que, logo no primeiro trabalho (Figura 9), suas fotografias tinham atravessado o Atlântico e servido para a tomada de uma decisão de grande importância. Nesse momento, Londrina já era um efervescente núcleo urbano. No final de 1934, emancipou-se como município e ganhou autonomia administrativa. Em decorrência dessa conquista política e econômica, várias obras de infraestrutura – parte de caráter público, parte de caráter privado, pois a colonizadora ainda era responsável por serviços essenciais na cidade – foram contratadas, contribuindo para o sucesso do empreendimento da CTNP. Seria prudente documentar


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toda essa efervescência urbana, econômica e administrativa: inauguração de casas residenciais imponentes, de casas comerciais importantes, de agências bancárias, de hotéis, de serviços coletivos, da organização de segmentos da sociedade, de visitas de políticos e autoridades do Estado e do País, enfim, tudo o que pudesse ser imageticamente utilizado para a construção do imaginário coletivo de região próspera. Figura 9 – Salto do ribeirão Cambezinho, primeiro trabalho de Juliani para a CTNP

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Assim, coube a José Juliani transformar-se, por conta dos serviços prestados à CTNP, no maior fotógrafo documentador das transformações urbanas e rurais de Londrina e do Norte do Paraná nas décadas de 1930 e 1940, seja quanto


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ao crescimento do núcleo urbano (Figura 10), à instalação de indústrias (Figura 11) ou à organização política do recém-emancipado município (Figura 12). Figura 10 – Vista panorâmica de Londrina, provavelmente em 1934

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 11 – Sede de uma madeireira, com seus veículos e trabalhadores

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss


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Figura 12 – Posse do prefeito Willie Davids, em 20 de janeiro de 1936

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

O pioneirismo de George Craig Smith em produzir as primeiras imagens de uma região ainda inóspita – na qual seria plantada e edificada a mais importante cidade do Norte do Paraná –, para documentar a ocupação e desbravamento do empreendimento da Companhia de Terras Norte do Paraná, foi de fundamental importância para a preservação da memória de Londrina. Assim também o foram a competência de Theodor Preising em produzir as primeiras fotografias de caráter “publicitário” do empreendimento – ousado e pioneiro – para torná-lo conhecido no Brasil e no mundo, as aventuras de Hans Kopp em produzir, do alto de árvores, imagens panorâmicas “aéreas” e inéditas para documentar o crescimento das cidades no norte-paranaense e, principalmente, o profissionalismo de José Juliani em documentar as transformações urbanas e rurais para aprovação de projetos, relatórios de gestão e publicidade de duas décadas da história de Londrina e do Norte do Paraná. Esses fotógrafos e essas circunstâncias caracterizam o primeiro lance de sorte da fotografia em Londrina. A vida e a obra desses fotógrafos – e suas importantes contribuições para a preservação da memória do Norte do Paraná – têm sido continuamente recuperadas graças a esforços despendidos pela Universidade Estadual de Londrina, seja por meio de dois de seus programas de pós-graduação, o Mestrado em Comuni-


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cação e o Mestrado em História Social, seja pelo trabalho de dois de seus órgãos suplementares, o Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss e o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH). E não sem justa causa, pois é moeda corrente que “a história de Londrina – tanto quanto a história da maioria dos municípios brasileiros, notadamente os fundados a partir de 1840 – não seria tão consistente sem os importantes documentos iconográficos representados pela fotografia” (BONI, 2008, p. 107). Muitas das imagens da Segunda Guerra Mundial, hoje disponíveis, especialmente as dos campos de concentração e do holocausto, foram obtidas porque os alemães eram instruídos a relatar a evolução (e atrocidades) de sua máquina de guerra para prestar contas, por meio de relatórios minuciosamente detalhados e fartamente documentados fotograficamente, de suas ações ao III Reich, em Berlim. A documentação da evolução do empreendimento da CTNP, longe de ser comparada à disciplina alemã de prestação de contas do desenvolvimento da guerra, também foi de fundamental importância para que imagens dos primórdios do Norte do Paraná, especialmente de Londrina, pudessem, hoje, estar disponíveis para estudantes, professores, pesquisadores e historiadores.

Os imigrantes: segundo lance de sorte de Londrina com a fotografia O segundo – e importante – lance de sorte de Londrina com a fotografia deu-se em razão de sua colonização por imigrantes. A CTNP também fazia propaganda de seu empreendimento na Europa, onde mantinha escritórios de representação em diversas capitais. A publicidade atingia vários países, notadamente Alemanha, Áustria, Espanha, Itália e Portugal, alguns países do Leste Europeu e do Oriente Médio e, timidamente, a Ásia. Na Ásia, por outras circunstâncias, a oportunidade de compra de terras chamou a atenção dos japoneses. Explica-se: os primeiros compradores de terras no Norte do Paraná foram os imigrantes japoneses que já residiam e trabalhavam nas lavouras de café do Estado de São Paulo. Suas economias, no entanto, não eram suficientes para comprar um lote de terras no Estado vizinho, onde, os preços eram muito altos, mas davam para comprar um


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bom pedaço de terras neste novo empreendimento. Foram esses primeiros compradores japoneses os principais responsáveis pela divulgação do projeto no Japão, por meio de correspondências com parentes e amigos. Nos primeiros anos de sua colonização, do início a meados da década de 1930, o Norte do Paraná recebeu imigrantes de mais de 20 nacionalidades. Alguns fugiam da pobreza, muitos fugiam da perseguição que Adolf Hitler havia desencadeado contra os judeus, outros fugiam dos conflitos que estavam por estourar, como a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Um relatório da CTNP, com os dados de venda de lotes entre 1930 e 1935, demonstra o predomínio da presença estrangeira na colonização da região (Quadro 1). Quadro 1 – Venda de lotes de terras pela CTNP de 1930 a 1935


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De meados da década de 1930 ao final da década de 1940, em razão da eclosão de grandes conflitos na Europa, inclusive com o envolvimento da Ásia, por um lado, e da paz e prosperidade que o empreendimento britânico representava no Norte do Paraná, por outro lado, o número de imigrantes cresceu muito. A CTNP, sabendo da vontade ou da necessidade de emigrar, desenvolvia estratégias para atrair alemães, italianos, japoneses e judeus que desejassem fugir da fome, de perseguições e conflitos e se radicar no Norte do Paraná. Como a emigração de alemães era crescente desde a ascensão de Hitler ao poder, em 1933 – e se acentuou com o início do conflito mundial –, a Alemanha, para evitar o êxodo, proibiu a saída do País de cidadãos portando grandes somas em dinheiro ou jóias. Isso provocou um arrefecimento no processo emigratório. Porém, a CTNP encontrou um modo de driblar a lei proibitiva e passou a oferecer permuta aos alemães dispostos a vir para a região: eles comprariam – e pagariam – na Alemanha trilhos e parafusos que a colonizadora precisava para construir a estrada-de-ferro que cortaria o Norte do Paraná no sentido leste-oeste. O valor que os interessados gastassem na compra desses produtos seria transformado em terras no empreendimento. A CTNP se responsabilizava pela retirada das mercadorias na Alemanha e seu transporte até Londrina. Assim, os alemães poderiam emigrar com o pouco dinheiro que a lei permitia que, ao chegarem a Londrina, receberiam suas terras com os documentos de propriedade devidamente regularizados. Até a chegada dos estrangeiros, o Norte do Paraná vinha recebendo pessoas pouco letradas, uma maioria de analfabetos contratada para trabalhos braçais no campo (derrubada de matas e preparo do solo para o plantio de lavouras) ou nos núcleos urbanos nascentes (construção civil). Os estrangeiros representaram um ganho educacional, cultural e profissional para a região, pois vinham de seus países de origem educacionalmente formados, culturalmente talhados e profissionalmente qualificados. Nenhuma estranheza, portanto, em constatar que as duas primeiras escolas construídas em Londrina foram as das colônias alemã e japonesa. Como os estrangeiros chegavam profissionalmente qualificados, coube a eles o exercício de alguns ofícios do âmbito hoje chamado de prestação de serviços. Entre estes, para sorte da memória e da história de Londrina e região, o ofício de fotógrafo. Vários fotógrafos estrangeiros se estabeleceram em Londrina e cidades vizinhas, principalmente alemães e japoneses, entre eles Carlos Stender (alemão,


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Foto Estrela, Londrina), Suejiro Yasunaka (japonês, Londrina, que sucedeu Carlos Stender no Foto Estrela), Antonio José de Mello (espanhol, Foto Mello, Londrina), Mineso Matsuo (japonês, Foto Nippon, Londrina), Haruo Ohara (japonês, fotógrafo amador, cujo acervo, hoje, é administrado pelo Instituto Moreira Salles), Arthur Adolpho Eidam (filho de imigrantes alemães, Foto Arthur, Cambé), Hans Kopp (austríaco, Foto Elegância, Rolândia) e outros que estão sendo pesquisados para a produção do livro cujo título será Fotógrafos pioneiros. O fato de haver fotógrafos estabelecidos em um lugar onde a prioridade era “vencer” ou, no mínimo, “sobreviver” economicamente, foi imprescindível para garantir os registros de família, dos eventos sociais (principalmente festas religiosas e populares, casamentos e formaturas), do cotidiano e do desenvolvimento da cidade (construções, reformas, ampliações, inaugurações). Mesmo produzidos sem essa intenção, e com caráter mais individual que coletivo, os registros fotográficos dos primeiros anos do Norte do Paraná são de suma importância para a recuperação de dados históricos e preservação da memória da região. Esse segundo lance de sorte de Londrina com relação à fotografia – o fato de também haver sido colonizada por imigrantes – ganha relevância se compararmos a riqueza imagética do início de sua colonização (década de 1930) com a pobreza documental de municípios mais recentes, quando as facilidades de fotografar eram muito maiores e os custos muito menores. Alguns municípios do Norte do Estado de Mato Grosso, como Alta Floresta, Colíder, Santa Carmem, Sinop e Sorriso, por exemplo, cerca de 40 anos mais jovens que Londrina, possuem muito menos documentos iconográficos de seus primórdios. O motivo? Não foram colonizados com objetivos de fixação de residência pelos compradores de terras, mas sim abertos como expansão das fronteiras agrícolas para exploração comercial. Os investidores chegavam, tomavam posse das terras, desmatavam, preparavam o solo, plantavam, colhiam, vendiam, lucravam, plantavam novamente e assim sucessivamente. Não havia preocupação em gerar registros para a preservação da memória. A prioridade era lucrar. Sinop é a sigla de Sociedade Imobiliária Norte do Paraná, ou seja, nasceu da iniciativa de um grupo de agricultores paranaenses interessados em expandir suas fronteiras agrícolas. Só anos mais tarde esses municípios deixaram de ser um lugar de passagem e se transformaram em cidades nas quais as pessoas passaram a querer fixar residência e criar raízes.


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Considerações finais Londrina, no Norte do Estado do Paraná, como tantas outras cidades, utiliza a fotografia para recuperar dados históricos, preservar a memória e democratizar os conhecimentos sobre sua história. No entanto, em seu processo de colonização, passou por duas peculiaridades que podem ser consideradas como “lances de sorte” da cidade com relação à fotografia. O primeiro lance de sorte foi a necessidade da Companhia de Terras Norte do Paraná de fazer publicidade do empreendimento imobiliário que deflagrou o processo de colonização no Norte do Paraná, para atrair investidores para uma região ainda inóspita. Para tanto, usou fartamente a mídia fotografia como estratégia. Contratou fotógrafos para a produção de fotografias que “vendessem” a seriedade do empreendimento, a sensação de segurança para o investidor (pois todos os documentos estavam judicialmente desembaraçados) e, principalmente, a fertilidade do solo e sua pronta resposta ao plantio de lavouras, com altíssima produtividade. Da produção de fotografias, em um primeiro momento, com finalidade publicitária, restaram centenas de registros que documentam todas as etapas dos primórdios de Londrina. O segundo lance de sorte foi a vinda de imigrantes no início do processo de colonização. Normalmente fugindo da pobreza, perseguições étnicas ou religiosas, ou de conflitos em seus países de origem, esses imigrantes chegavam com qualificação profissional para o exercício de ofícios específicos, entre eles o de fotógrafo. Graças a essas pessoas, serviços fotográficos foram uma constante em Londrina desde o início da cidade. Mesmo considerando as especificidades das demandas, mais individuais que coletivas, eles produziram registros familiares e sociais importantíssimos para a recuperação da memória e construção da história da cidade e região. Esses dois lances de sorte, portanto, contribuíram decisivamente para a produção de farta documentação do início da colonização de Londrina e de outras cidades da região. Muitos desses documentos imagéticos estão disponíveis para pesquisa em instituições públicas, principalmente o Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Outros tantos estão em processo de higienização, catalogação e digitalização pelo museu e também serão disponibilizados. A fotografia tem


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sido uma mídia fundamental para pesquisadores somarem conhecimentos ao processo de construção histórica da cidade de Londrina e da região Norte do Estado do Paraná.

Referências ARIAS NETO, José Miguel. O Eldorado: representações da política em Londrina 1930-1975. Londrina: Eduel, 1998. BONI, Paulo César. Fincando estacas! a história de Londrina (década de 30) em textos e imagens. Londrina: Edição do autor, 2004. BONI, Paulo César. A fotografia como mídia visual da recuperação histórica de Londrina. Domínios da Imagem, Londrina, v. 1, n. 2, p. 107-128, maio 2008. BONI, Paulo César (Org.). Certidões de nascimento da história: o surgimento de municípios no eixo Londrina-Maringá. Londrina: Planográfica, 2009. BONI, Paulo César; SATO, Larissa Ayumi. A mídia fotografia como estratégia publicitária da Companhia de Terras Norte do Paraná. In: BONI, Paulo César (Org.). Certidões de nascimento da história: o surgimento de municípios no eixo Londrina-Maringá. Londrina: Planográfica, 2009. p. 243-267. POPOLIN, Cássia Maria. Da Áustria ao Paraná: a trajetória imagética de Hans Kopp, primeiro fotógrafo de Rolândia (PR). 2010. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 93p.


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O retrato do Norte do Paraná: a fotografia na revista A Pioneira (1948-1954)


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O retrato do Norte do Paraná: a fotografia na revista A Pioneira (1948-1954) * Bruna Mayara Komarchesqui ** Paulo César Boni *** Resumo: Este trabalho trata do uso da fotografia pela revista A Pioneira, que circulou na região Norte do Estado do Paraná, entre 1948 e 1954. Criada em Londrina por Benedito Barbosa Pupo, proprietário da “Emprêsa de Propaganda e Publicidade A Pioneira”, que veio de São Paulo especialmente para montá-la, a revista nasceu declaradamente para, além de informar, fazer propaganda das terras férteis e do crescimento urbano do Norte do Paraná, visando atrair interessados em investir na região. Desde seu início, utilizou a fotografia como atrativo visual, registro de eventos sociais, documento das transformações rurais e urbanas da região e ferramenta publicitária. No editorial de seu primeiro número, A Pioneira anunciava que, como “poderoso meio de educar, instruir e propagar, a fotografia será o elemento primordial na confecção desta revista”. E justificava sua opção: “Registrando, fixando, retratando enfim, as cousas na sua verdadeira expressão, a fotografia está sempre a serviço da comunidade”. O estudo revela que, independente dos interesses de seu uso pela revista, as fotografias nela publicadas são vestígios, pegadas, retratos de um tempo perdido, uma espécie de álbum da história de Londrina e do Norte do Paraná. Palavras-chave: História de Londrina (PR). História da imprensa em Londrina. Revista A Pioneira. Fotografia e Memória.

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Este trabalho, com adequações, foi apresentado no GT de História da Mídia Impressa do IX Encontro Nacional de História da Mídia, realizado em Ouro Preto (MG), de 30 de maio a 1º de junho de 2013. * * Jornalista. Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e mestre em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atualmente é jornalista da Gazeta do Povo, em Curitiba, e cursa disciplinas como estudante especial no Doutorado em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR). E-mail: bruna.kom@gmail.com *** Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História (CNPq). Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Introdução Londrina se emancipou politicamente em 10 de dezembro de 1934, cinco anos após a chegada dos desbravadores da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP) – empresa de capital majoritariamente inglês que iniciou a colonização da região em 1929. Em outubro de 1934, dois meses antes de ser elevada à condição de município, Londrina viu nascer seu primeiro veículo de comunicação, o jornal Paraná-Norte. Presente desde o início, a imprensa registrou em suas páginas as transformações pelas quais a cidade passou ao longo dos anos, transformando-se, portanto, em importante fonte de recuperação histórica. Na década de 1940, a cidade presenciou o surgimento de uma série de publicações periódicas que, na maioria das vezes, por falta de condições financeiras não duravam muito tempo. Além da precariedade da infraestrutura – frequentes interrupções no fornecimento de energia elétrica e falta de profissionais capacitados –, quem se aventurasse pelo ramo da comunicação escrita naquela época se deparava com outra dificuldade: o analfabetismo. De acordo com o censo demográfico de 19401, dos 75.296 habitantes de Londrina2, apenas 21.895 sabiam ler e escrever. A grande maioria da população se declarava analfabeta. Em meados dos anos 1940, começavam a despontar as revistas londrinenses, um empreendimento considerado audacioso para aquele tempo. Em 1943, circulava pela primeira vez a Revista do Ginásio Londrinense, fruto do trabalho de membros do Grêmio Lítero Esportivo Rui Barbosa (GLERB), fundando em 1941, pela turma pioneira do colégio. Três anos depois, em março de 1946, veio a público a Revista-Jornal, que tinha existido anteriormente em Irati, no Sul do Paraná. Mas foi em 1948 que a cidade viu nascer A Pioneira, uma revista de “porte”, como definem Trigueiros Filho e Trigueiros Neto (1991, p. 120). De acordo com os autores, Benedito Barbosa Pupo veio de São Paulo para Londrina em 1948, “transbordante de ambições”, trazendo na 1

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Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Recenseamento Geral do Brasil (1º de setembro de 1940). Série Regional – Parte XVIII – Paraná. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do IBGE, 1951. Em 1940, o município de Londrina ocupava territorialmente toda a extensão entre os rios Ivaí, Paraná e Paranapanema. Assim, todos os residentes nos locais onde hoje existem as cidades de Tamarana, Cambé, Rolândia, Marilândia do Sul, Faxinal e outras eram contabilizados como habitantes de Londrina.


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bagagem conhecimentos na área da comunicação. Empolgado com o potencial da cidade, ele iniciou contatos e, em maio, começou a circular A Pioneira – O Retrato do Norte do Paraná, uma revista bimestral editada pela “Emprêsa de Propaganda e Publicidade A Pioneira”. Esta pesquisa trata do uso da fotografia pela revista A Pioneira, que circulou em Londrina de 1948 a 1954. O primeiro passo foi o levantamento bibliográfico de informações já publicadas sobre a imprensa local. Na tentativa de escrever uma “versão da história” o mais próxima possível da realidade, recorreu-se, também, à análise documental, descrita por Moreira (2009, p. 272) como aquela que “[...] verifica o teor, o conteúdo do material selecionado para análise”. O passo seguinte foi a análise iconográfica que, para Kossoy (2001), está mais no nível da descrição do que da interpretação do que diz uma fotografia. A análise iconográfica tem o intuito de detalhar sistematicamente e inventariar o conteúdo da imagem em seus elementos icônicos formativos; o aspecto literal e descritivo prevalece, o assunto registrado é perfeitamente situado no espaço e no tempo, além de corretamente identificado (KOSSOY, 2001, p. 95).

Dada a dificuldade de estudar a visualidade dos 16 números da revista, optou-se por escolher uma edição por ano de circulação – portanto, sete – por meio de sorteio randômico. A análise imagética da publicação também se apoiou em referenciais teóricos que tratam das interfaces entre fotografia e história, como Ana Maria Mauad (1996), e de álbuns de família, como Armando Silva (2008).

A Pioneira: O Retrato do Norte do Paraná Com a pretensão de ser uma revista objetiva e não interpretativa, como informava seu primeiro editorial, A Pioneira veio a público em maio de 1948, vendida ao preço de 3 cruzeiros. Pelo expediente era possível perceber o cunho familiar da revista, que era dirigida por seu fundador, Benedito Barbosa Pupo,


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gerenciada por Otaviano Barbosa Pupo e tinha como secretária Jacira G. B. Pupo, esposa do proprietário. Nas páginas impressas em São Paulo, em papel couche, a fotografia merecia posição de destaque, como deixava claro o editorial da primeira edição: Queremos antes de tudo que ela [A Pioneira] seja a fotografia desta civilização [Norte do Paraná]. Será antes de mais nada uma revista de divulgação de tudo quanto há de grande neste abençoado Norte do Paraná. [...]. Poderoso meio de educar, instruir e propagar, a fotografia será o elemento primordial na confecção desta revista. Registrando, fixando, retratando, enfim, as cousas na sua verdadeira expressão, a fotografia está sempre a serviço da comunidade. Graças a ela, pode-se documentar, com precisão, tudo o que nos interessa. A objetiva fotográfica que não se deixa iludir, dános sempre a imagem real dos objetos. Isenta de vícios, ela ‘vê objetivamente’ tudo aquilo que está dentro de seu foco. Ela não interpreta; reproduz, fotografa, retrata... A PIONEIRA será assim: ‘o retrato do Norte do Paraná’ (O RETRATO..., 1948, p. 3).

Apesar de se vender como uma revista que traria informações sobre a cidade, na verdade era um catálogo de propagandas para os empresários do Norte do Paraná. Ao lado do editorial da primeira edição, uma tabela de preços de anúncios deixava claro que a revista também vendia páginas de reportagem, sem possibilitar ao leitor a diferenciação entre propaganda e jornalismo. Quando se autodefinia como “o retrato do Norte do Paraná”, mais do que trazer apenas fotografias, a revista pretendia informar por meio da produção de intelectuais e estudiosos da cidade e da região. Mais do que uma boa apresentação gráfica, a intenção do editor era levar ao público uma publicação com conteúdo de qualidade, o que não poderia prescindir da fotografia. “A PIONEIRA utiliza-se da imagem fotográfica, principalmente, como prova daquilo que vem no texto das reportagens e artigos que publica” (DEPOIS..., 1952, p. 3). A repercussão da publicação foi imediata, não só em Londrina, como em outros Estados e até na Europa. Já no segundo número, relativo a julho e agosto de 1948, são apresentadas cartas de leitores elogiando a qualidade da publicação. Além de cumprimentos de associações rurais, comerciais e de jornais do interior do Brasil, no dia 26 de julho de 1948, Barbosa Pupo recebeu um telegrama do Distrito Federal, assinado pelo secretário particular da Presidên-


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cia da República3, Carlos Alberto de Aguiar Moreira, com o seguinte teor: “Por determinação do Sr. Presidente da República, agradeço o exemplar da revista ‘A Pioneira’ que foi atenciosamente enviado a S. Excia. por V.S. Cordiais saudações” (A PIONEIRA..., 1948, p. 12). Além dos cumprimentos e elogios, expressos sem economia de adjetivos, uma das cartas demonstrava o alcance da revista. Enviada por Antenor Sanches, proprietário de uma livraria no município de Caçador (SC), a carta informava que havia “diversas pessoas” interessadas na publicação. “Portanto, eu ficaria muito grato se V.S. enviasse 1 ou 2 exemplares como amostra, para que eu possa conhecer a publicação e, ao mesmo tempo, para colocar em boa exposição [...]” (A PROCURA..., 1948, p. 4). Mais do que comemorar o alcance e a boa receptividade da revista, a publicação das cartas de leitores tinha como objetivo atestar a força de A Pioneira como veículo de propaganda do Norte do Paraná, o que ficava claro em trechos como o do comerciante paulistano Maércio de Souza e Castro: “Meus mais sinceros parabéns pela brilhante iniciativa; nunca eu imaginei que o progresso aí fosse o que me foi dado a ver em sua revista”. A revista destacou esse tipo de retorno do público como “a mais eloquente prova do valor da propaganda do Norte do Paraná, através das páginas de A Pioneira”. O mineiro Álvaro Brasiliense Fernandes se disse “abismado” com Londrina: [...] que coisa deslumbrante! Mas, acho que o futuro de Maringá é também muito grande e, se não fossem os anos que me embranquecem, teria coragem de me atirar para lá. Mesmo assim, acho que comprar um lote de terras lá, será bom negócio e, por isso peço me informar sobre o preço das matas e modo de aquisição das mesmas (OS FATOS..., 1948, p. 70).

No editorial da terceira e quarta edições – que saíram agrupadas, demonstrando as dificuldades de se manter a periodicidade, apesar do sucesso –, Barbosa Pupo reiterava a missão de “fixar em instantâneos fotográficos, os aspectos e fases da marcha vertiginosa e progressiva desta esplêndida civilização”. Nesse sentido, a imagem, acompanhada de singelo e esclarecedor relato, nas palavras do editor, era preferível às palavras bonitas. “Fazendo, sobretudo, obra de divul3

O presidente da República, em 1948, era o marechal Eurico Gaspar Dutra, que governou o Brasil de 31 de janeiro de 1946 a 31 de janeiro de 1951.


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gação, para o presente, esta revista constitui também um documentário para o futuro” (PUPO, 1948, p. 3). Três anos após o início de sua circulação, a revista começava a dar mostras de que não sobreviveria à década de 1950. O editorial do número 8, publicado em maio-junho de 1951, trazia um desabafo de Barbosa Pupo, que lamentava a falta de apoio financeiro. Vendida a um preço “muito abaixo de seu custo ideal”, dizia, a publicação precisaria de “um volume maior de publicidade” para deixar de dar prejuízo. Infelizmente, repetimos, todos nos incentivam com palavras, mas poucos compreendem que uma revista nos moldes da nossa, necessita também de apoio financeiro para poder realizar sua obra em pról de todos. E nós, quando lançamos a revista, confiávamos, sobretudo, no espírito público da gente norte paranaense, pois tudo nos levava a crer, que essa mesma gente, nos ajudaria a manter uma revista que, no conceito de todos, era necessária para a propaganda da região (PUPO, 1951, p. 4).

A primeira edição de A Pioneira tinha 60 páginas, com capa e contracapa em preto-e-branco. A cor se resumia a um detalhe em vermelho no cabeçalho e nas contracapas internas e externas, padrão que se repetiu até o décimo-quarto número, quando, pela primeira vez, a capa trouxe uma fotografia colorida. Já o miolo, em papel couche e bastante ilustrado, foi produzido em preto-e-branco durante toda a trajetória da revista. A segunda edição, com 72 páginas, circulou em julho e agosto de 1948. Os atrasos começaram no terceiro número, com 72 páginas, publicado de maneira agrupada com o quarto, e valendo para os meses de setembro a dezembro de 1948. Só em setembro/outubro de 1949 a revista voltaria a circular, com 84 páginas. O número seis, com 76 páginas, veio a público em novembro/ dezembro de 1949. As dificuldades de circulação voltaram em 1950, quando o exemplar de número sete, com 108 páginas, ficou pronto somente em julho/agosto. O número oito, composto por 62 páginas, também demorou quase um ano para chegar às mãos dos leitores, circulando em maio/junho de 1951. Em setembro/outubro do mesmo ano, saiu a nona edição, com número mais modesto de páginas: apenas 52, tamanho que se repetiu até a décima-terceira edição. Em novembro/dezembro de 1951 circulou o número 10 de A Pioneira. Curiosamente, mais uma vez, o primei-


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ro semestre do ano seguinte passou sem a revista, que voltou em julho/agosto de 1952 (número 11), seguindo a periodicidade bimestral em setembro/outubro (número 12) e novembro/dezembro (número 13). Dedicado ao café no Paraná, e em comemoração ao 5º aniversário da revista, em maio/junho de 1953 circulou o número 14 de A Pioneira, com 124 páginas, capa e contracapa colorida e edição extra em inglês – que, infelizmente, não consta nos acervos de pesquisa de Londrina. Outra novidade foi que o espaço da página 3 deixou de ser dedicado ao editorial e passou a ser usado como sumário. A capa colorida se repetiu no número seguinte (março/abril de 1954), mas o número de páginas caiu para 44, o menor de toda a vida da publicação. Com falhas na circulação e quedas no número de páginas, a crise era visível e ficou ainda mais explícita no 16º número, quando até mesmo a capa voltou a ser impressa em preto-e-branco. Assim, em novembro/dezembro de 1954, circulava o último número da revista A Pioneira, com 48 páginas.

A presença da fotografia nas páginas de A Pioneira Fortemente ilustrada desde o início, o uso da fotografia como instrumento publicitário nas páginas da revista não se restringia à ilustração de anúncios. Barbosa Pupo vendia reportagens com dezenas de fotografias, muitas vezes nada comerciais, mas que acabavam promovendo os negócios ou o nome do personagem da matéria. Um exemplo é a primeira reportagem de A Pioneira, intitulada “Freya e Londrina: duas jovens que cresceram juntas”, escrita por Barbosa Pupo e pelo repórter José Geraldo. Ao longo de 10 páginas, a matéria conta um pouco da história da jovem Freya Schulteiss, “primeira criança civilizada” (PUPO; GERALDO, 1948, p. 7) a chegar a Londrina, que viria também a ser a “madrinha” da revista. A reportagem é ilustrada com 23 imagens sem autoria citada, mas percebese que são fotografias de álbuns da família de Freya, prática que seria comum nas páginas da revista. Quando a família Schulteiss chegou a Londrina, em 1931, a cidade – que ainda nem havia se emancipado politicamente – era só mato e barro. Casas de madeira, segundo a reportagem, havia apenas duas, a do senhor Alberto Kahl e a


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do comerciante pioneiro David Dequêch. Enquanto aguardavam a construção de um rancho próprio, o que demorou apenas oito dias, a família se hospedou no rancho de uma amiga da mãe de Freya. Tempos mais tarde, Frederico Schulteiss, pai de Freya, construiu uma casa de madeira na Avenida Paraná, onde também instalou a primeira padaria de Londrina. A evolução do espaço e o desenvolvimento de Londrina podem ser constatados pelo exame de duas fotografias do mesmo local em momentos distintos. Na primeira (Figura 1), tem-se a vista externa do prédio de madeira da padaria, construído “no meio do nada”. Atrás das duas construções em madeira, uma delas provavelmente a casa da família Schulteiss, ainda é possível notar a mata fechada. O barracão grande de madeira, identificado como “padaria” por uma placa, aparece em primeiro plano, sobressaindo-se a uma pequena construção de madeira, com telhado em duas águas, ao lado. Na escada à porta do estabelecimento, dois homens – possivelmente Frederico e seu funcionário – posam para as lentes do fotógrafo. Pelo menos mais seis homens, trajando chapéus e roupas de mangas compridas, contrastam com a paisagem descampada onde, mais tarde, seria a Avenida Paraná. Figura 1 – Primeira padaria de Londrina, instalada onde hoje é a Avenida Paraná

Fotografia: Autor desconhecido / Reprodução Fonte: Revista A Pioneira, maio-junho de 1948, p. 5

Conforme a matéria da revista A Pioneira, em razão da prosperidade dos negócios, em 1936, Frederico Schulteiss construiu um prédio em alvenaria ao lado da antiga casa de madeira e, no local onde estava a padaria, ergueu


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uma residência. A padaria já era, também, casa de secos e molhados e loja de materiais de construção. Em uma das fotografias (Figura 2), é possível notar a tranquilidade da rua, ainda de terra, sem calçamento em frente às construções. Ao lado da bela casa, com muro baixo e portãozinho, ficava o grande empório de três portas. Figura 2 – A casa da família de Freya ao lado do prédio do “Empório”, antes da fachada ser transformada

Fotografia: Autor desconhecido / Reprodução Fonte: Revista A Pioneira, maio-junho de 1948, p. 9

As datas precisas das fotografias e seus autores são desconhecidos. Retiradas da ordem cronológica, em que apareciam no álbum da família Schulteiss, elas adquirem novo significado nas páginas da revista. Se no álbum da vida privada, as imagens somente faziam sentido no contexto familiar, publicadas na imprensa, com nova organização, elas passam a contar uma nova história: a do Norte do Paraná. De forma semelhante à lógica do álbum de família, a revista recria, dessa maneira, um álbum da cidade. Nesse sentido, o mesmo significado que a fotografia de um álbum tem para um membro da família que o vê, A Pioneira teria para um pioneiro londrinense, saudoso dos momentos passados, impossíveis de serem revisitados, a não ser pela memória. Com relação à importância dos álbuns de família para a preserva-


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ção da memória individual e construção da história coletiva, Silva (2008, p. 39) afirma: Se aspira algo [o álbum], é marcar com pegadas, olhares, pedaços de lugares, retratos, o que a passagem da vida deixou: o tempo perdido. Quando a família abre o álbum para contá-lo, reinstala ali mesmo seu imaginário de eternidade, evocando o tempo passado em um presente contínuo; como se estivesse ocorrendo agora, sem intervalo entre o antes e o presente. Quando o fecha, retorna à máxima irrevogável e à única verdade possível: todo o tempo passado está perdido para sempre.

Com o objetivo de propagandear Londrina não só para seus habitantes, mas também para os de fora – na tentativa de atraí-los –, a revista não perdia a oportunidade de fazer referências ao bom momento econômico pelo qual a cidade passava. Com o preço do café em alta no mercado internacional, após o fim da Segunda Guerra Mundial, o Norte do Paraná atraía olhares interessados de diversas partes do Brasil e do mundo. Em 16 de fevereiro de 1948, a cidade recebeu a visita do presidente Eurico Gaspar Dutra, assunto que mereceu página espelho (Figura 3), com 11 fotografias, no primeiro número de A Pioneira. Figura 3 – Espelho da revista A Pioneira, com fotografias da visita do presidente Eurico Gaspar Dutra

Fotografias: Autores desconhecidos / Reprodução Fonte: Revista A Pioneira, maio-junho de 1948, p. 30-31


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Se a maneira mais comum de demonstrar o progresso da cidade eram as fotografias de extensos e prósperos cafezais, as cenas urbanas também ajudavam a compor a imagem da bela e desenvolvida Londrina dos anos 1940. Além do conforto das residências das famílias ricas, outra evidência do progresso de Londrina nas páginas da revista era o crescimento do sistema bancário, assunto tratado em sete das 76 páginas da sexta edição (novembro-dezembro de 1949). Assinado por Américo Machado da Luz, jornalista e auxiliar da administração do Banco do Estado do Paraná, o texto “As Casas de Crédito do Norte do Paraná” tinha caráter fortemente propagandístico, evidente no texto e nas imagens. Além de sete fotografias de fachadas, interiores e agências bancárias em construção na cidade, que, segundo o texto, contava com a maior filial do Banco do Brasil no interior do País, a reportagem trazia quatro imagens do cotidiano do atendimento nos bancos. Para reforçar a ideia de crédito fácil e acessível a toda a população, a revista estampava o retrato de um “londrinense comum” (Figura 4), com uma grande quantidade de dinheiro nas mãos. Abaixo, a legenda “Cenas como esta podem ser fotografadas diariamente, às centenas, nos bancos de Londrina”. Além de servir de propaganda às instituições bancárias da cidade, a matéria servia para exaltar o Norte do Paraná, já bastante propagandeado pelas riquezas decorrentes da fertilidade do solo. Se, em 1949, alguém ainda tinha dúvidas sobre se aventurar pela região, textos e imagens como os de A Pioneira poderiam ser um fator a mais de convencimento. Imagens das transformações urbanas de Londrina também eram recorrentes nas páginas da revista. Na penúltima edição, uma das três fotografias relativas à cidade mostrava uma procissão católica das Filhas de Maria (Figura 5), durante a visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima à cidade. Enquanto a presença de carros e de uma placa de sinalização dava pistas sobre o desenvolvimento do trânsito na cidade, a rua coberta por paralelepípedos e a fiação elétrica indiciavam detalhes sobre a infraestrutura de Londrina. Pela fotografia, pode-se afirmar que a visita da imagem foi um grande evento, esperado e comemorado por milhares de católicos londrinenses. A multidão de moças vestidas de branco, usando véus, identificadas na legenda como as Filhas de Maria de Londrina, além das faixas e bandeirinhas festivas


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penduradas de um lado ao outro da rua, mais do que mostrar a força do catolicismo em Londrina na década de 1950, reforçam a ligação da publicação com o catolicismo, única religião a figurar em suas páginas. Ao fazer uma escolha “em um conjunto de escolhas possíveis”, como defende Mauad (1996, p. 12), A Pioneira mostrava que a Londrina de suas páginas não era, necessariamente, a Londrina que de fato existiu, com tantas outras denominações religiosas crescendo e se desenvolvendo nos anos 1930 e 1940. Daí advém, ao se analisar a trajetória da imprensa, [...] a importância em considerar a dimensão de classe da produção simbólica, bem como o papel da ideologia, na composição de mensagens socialmente significativas, e da hegemonia como processo de disputa social que se estende à produção da imagem (MAUAD, 1996, p. 7).

Figura 4 – Londrinense saindo com dinheiro de uma agência bancária

Fotografia: Autor desconhecido / Reprodução Fonte: Revista A Pioneira, novembro-dezembro de 1949, p. 23


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Figura 5 – Procissão das Filhas de Maria durante visita da imagem de Nossa Senhora de Fátima

Fotografia: Autor desconhecido / Reprodução Fonte: Revista A Pioneira, março-abril de 1954, p. 16

Ao longo de seus sete anos, a publicação de imagens pela revista A Pioneira também sofreu significativas modificações quantitativas (Gráfico 1). Se no primeiro número cada página era ilustrada por mais de duas fotografias, em média, na décima-quinta edição essa relação caiu para 1,36 fotografia/página (Gráfico 2). A evolução imagética da publicação é ainda mais significativa quando se analisam as temáticas tratadas pelas fotografias. Em maio de 1948, quando surgiu, A Pioneira privilegiava imagens de Londrina, que correspondiam a 85% do total de fotografias publicadas. No entanto, a cada edição, a cidade foi progressivamente perdendo espaço para outros municípios (Gráfico 3). Na edição especial de número 14, por exemplo, dedicada ao café, das 168 fotografias publicadas, apenas 18 faziam menção clara à cidade, que já era conhecida como “Capital Mundial do Café”. No número seguinte, ainda menos fotografias de Londrina foram publicadas, somente três entre 60 imagens estampadas naquela edição.


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Gráfico 1 – Relação do número de fotografias por página ao longo das edições da revista A Pioneira

Fonte: Gráfico elaborado por Bruna Mayara Komarchesqui

Gráfico 2 – Média de fotografias por página na revista A Pioneira

Fonte: Gráfico elaborado por Bruna Mayara Komarchesqui


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Gráfico 3 – Porcentagem de fotografias de Londrina em relação ao total de fotografias publicadas

Fonte: Gráfico elaborado por Bruna Mayara Komarchesqui

As modificações na visualidade da revista ao longo de sete anos podem ser explicadas não só pelas dificuldades financeiras que acabariam levando à falência e encerramento da publicação, mas também pelo próprio desenvolvimento da cidade e de sua imprensa. Quando Barbosa Pupo chegou a Londrina, em 1948, trazia a proposta de atuar como uma agência de propaganda que ajudasse o empresariado local a divulgar suas ideias e consolidar os negócios. Com o passar dos anos, comerciantes, industriais e agricultores da cidade já contavam com outros veículos de comunicação consolidados, como o rádio e mesmo a Folha de Londrina, jornal fundado em 1948 e em circulação até hoje. Se, no final da década de 1940, muitos faziam propaganda de seu empreendimento nas páginas de A Pioneira, em meados dos anos 1950 esse número certamente era bem menor, uma vez que a demanda estava pulverizada entre dezenas de veículos de comunicação da cidade.

Considerações finais As mencionadas dificuldades de se fazer uma revista na cidade podem ser tomadas como razão para as mudanças quantitativas observadas em A Pioneira ao longo dos anos em que ela circulou. No penúltimo número, por exemplo, havia 60 fotografias distribuídas nas 44 páginas da publicação. Além do menor número de imagens em relação à estreia, o tamanho das fotografias também era menor no


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final da trajetória da revista. Se antes, quando não havia uma página sequer sem fotografia, era possível dizer que a imagem se sobressaía ao texto, na fase final da revista as reportagens eram de caráter muito mais textual, com pequenas fotografias – por vezes retratos em uma coluna –, com caráter meramente ilustrativo. “Desempenhando a tarefa de divulgar a progressividade da zona norte do Paraná”, como definiu seu papel em uma das edições, a análise imagética realizada neste trabalho mostra que A Pioneira cumpriu bem o objetivo a que se propôs. De alguma forma, todas as fotografias separadas para análise tocavam na temática do crescimento urbano, da riqueza gerada pelas terras férteis e do desenvolvimento econômico e social do município. Com o duplo objetivo de ser um meio de comunicação para o empresariado crescente em 1948, quando a revista surgiu, e de documentar as transformações da região, por meio da fotografia, Benedito Barbosa Pupo, proprietário de A Pioneira, tinha consciência da contribuição que sua atividade deixaria à memória da cidade. Embora carregadas de valor histórico, não se pode tomar as imagens ingenuamente como provas de uma realidade anterior, mas, sim, como a visão dos dirigentes da publicação sobre aquela realidade. Ao olhar para essas imagens deve-se, portanto, como afirma Armando Silva (2008), compreender que são vestígios, pegadas, retratos de um tempo perdido, deixados pela passagem da vida. Assim, como abrir um álbum e ver a narração da vida familiar evoca o tempo passado em um presente contínuo e reinstala um imaginário de eternidade, o mesmo efeito acontece quando alguém ligado afetivamente a Londrina – quer por nascimento, quer por outros motivos – se depara com as fotografias da cidade nos álbuns do tempo que são as páginas da imprensa pioneira.

Referências A “PIONEIRA” recebida pelo Presidente da República. A Pioneira, Londrina, ano 1, n. 2, p. 12, jul./ago. 1948. A PROCURA de “A PIONEIRA” ultrapassa as fronteiras do estado. A Pioneira, Londrina, ano 1, n. 2, p. 4, jul./ago. 1948.


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DEPOIS de 4 anos... A Pioneira, Londrina, ano 5, n. 11, p. 3, jul./ago. 1952. KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia, história e interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, p. 73-98, 1996. MOREIRA, Sonia Virgínia. Análise documental como método e como técnica. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2009. p. 269-279. OS FATOS comprovam a eficiência de A Pioneira como veículo de publicidade. A Pioneira, Londrina, ano 1, n. 2, p. 70, jul./ago. 1948. O RETRATO do Norte do Paraná. A Pioneira, Londrina, ano 1, n. 1, p. 3, maio/jun. 1948. PUPO, Barbosa. A valorização do homem pela sua obra. A Pioneira, Londrina, ano 1, n. 3 e 4, p. 3, set./dez. 1948. ______. Quer o norte do Paraná divulgar o seu esplendor? A Pioneira, Londrina, ano 3, n. 8, p. 4, maio/jun. 1951. PUPO, Barbosa; GERALDO, José. Freya e Londrina: duas jovens que cresceram juntas. A Pioneira, Londrina, ano 1, n. 1, p. 7, maio/jun. 1948. SILVA, Armando. Álbum de família: a imagem de nós mesmos. São Paulo: Senac, 2008. TRIGUEIROS FILHO, Marinósio; TRIGUEIROS NETO, Marinósio. História da imprensa de Londrina: do baú do jornalista. Londrina: UEL, 1991.


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Avenida Higienópolis: um retrato da burguesia londrinense nas décadas de 1930 a 1960


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Avenida Higienópolis: um retrato da burguesia londrinense nas décadas de 1930 a 1960 * Paulo César Boni ** Sara Hermógenes Silva *** Resumo: Este trabalho tem como objeto de estudo a Avenida Higienópolis, uma das mais antigas, extensas, importantes e glamourosas de Londrina. A Higienópolis foi inspirada na Avenida Paulista, de São Paulo, e, assim como a sua fonte de inspiração, foi criada para ser estritamente residencial. Entre as décadas de 1930 a 1960, reuniu mansões e palacetes da burguesia londrinense e despertava a curiosidade de visitantes de outras localidades. Com o passar do tempo foi perdendo sua característica residencial e passou a receber estabelecimentos comerciais. Para a realização deste trabalho, foram adotadas as seguintes metodologias: pesquisa bibliográfica, história oral e pesquisa documental, calcada na coleta de documentos – especialmente fotografias – e textos de jornais e revistas de época. Ele recupera e organiza uma parte da história da Avenida Higienópolis e, com esta publicação, busca torná-la conhecida e acessível aos cidadãos londrinenses. Palavras-chave: História de Londrina (PR). Avenida Higienópolis. Fotografia e Memória. Burguesia londrinense.

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Uma prévia, com resultados parciais deste trabalho, foi apresentada no GT – História da Mídia Audiovisual do VII Encontro Nacional de História da Mídia, realizado em Fortaleza (CE), de 19 a 21 de agosto de 2009. * * Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História (CNPq). Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br *** Jornalista. Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: pessara@hotmail.com


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Introdução Londrina se emancipou politicamente em 10 de dezembro de 1934, menos de uma década depois da chegada de seus desbravadores e dos primeiros moradores. Planejada e empreendida pelos ingleses da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP), e colonizada por brasileiros de vários Estados e estrangeiros de diversas etnias, a cidade viveu rápido crescimento e enriquecimento, impulsionado principalmente pelo café, chamado de “ouro verde”, principalmente nas décadas de 1940, 1950 e 1960. Na década de 1950, Londrina tornou-se informal e mundialmente conhecida como a “Capital Mundial do Café”. Com o seu crescimento e expansão, a cidade foi sendo planejada e construída para atender aos anseios de um grupo dominante: os burgueses. Dessa forma, nos anos 1930, a Avenida Higienópolis era um projeto de transposição do estilo de vida de São Paulo para o hinterland (interior) do Paraná. Nos anos 1940, mas, sobretudo, nas décadas de 1950 e 1960, ela espelhava o aburguesamento da vida citadina. As casas de muros baixos com jardins bem cuidados criavam um cenário em que as pessoas ainda não se escondiam do mundo público por motivos de segurança. Contudo, era um território exclusivo de algumas famílias abastadas da cidade.

A concepção da Avenida Higienópolis O traçado original da Avenida Higienópolis foi definido por Mr. Arthur Thomas – diretor presidente da Companhia de Terras Norte do Paraná –, inspirado em um bairro aristocrático (Higienópolis) e na avenida mais famosa de São Paulo, a Paulista. Mr. Thomas cedeu à insistência de seu secretário particular, o russo Eugênio Victor Larionoff, também diretor da CTNP e cuja família residia no bairro paulista, e de George Craig Smith, que reivindicavam sua abertura. Como Londrina, na época, só possuía avenidas estreitas, a ideia foi projetar uma mais larga, com alamedas e jardins. O local escolhido foi, não por acaso, o ponto mais alto da cidade, o mais arejado, livre das epidemias que ocorriam no centro do núcleo urbano, portanto o local mais “higiênico” (BONI; UNFRIED; BENATTO, 2013).


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Ao contrário das ruas projetadas na planta inicial da cidade, elaborada pelo agrimensor russo Alexandre Razgulaeff, em 1932, a Avenida Higienópolis, projetada e aberta em 1936, desde o início era um espaço diferenciado. Com duas pistas, separadas por um canteiro central, era a via mais larga, arborizada e ajardinada de Londrina. As quadras que a compunham, em sua extensão inicial, receberam a seguinte numeração: 84-A, 85-A, 86-A, 123 e 126 (o “A” como complemento foi necessário para diferenciá-las de quadras já existentes com os mesmos números). A primeira construção de alvenaria data de 1936, de propriedade de Eugênio Victor Larionoff (Figura 1), o maior incentivador da avenida, na esquina com a Rua Sergipe. A construção era uma imitação dos modelos existentes no bairro paulista. Em seu plano original, a Higienópolis selecionava o setor centrosul, entre as atuais ruas Sergipe e Alagoas, como área nobre. Nesse trecho, o valor dos terrenos era considerado caro, acessível apenas aos mais abastados, normalmente industriais, comerciantes e profissionais liberais, representantes da classe burguesa. Nela, não era permitido construir edificações de madeira, uma vez que era “reservada” à elite, embora, nesse momento (fim da década de 1930), tanto o Paço Municipal quanto as igrejas da cidade ainda fossem de madeira. De acordo com Ana Cláudia Gimenez Mesquita Zangirolani (2001, p. 46), arquiteta londrinense que defendeu dissertação de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) sobre a Avenida Higienópolis, “nos arquivos do Cadastro da Prefeitura Municipal de Londrina [...] foram encontrados apenas três registros de construções de residências em madeira, desde o início da Avenida”. O principal idealizador da avenida, Eugênio Victor Larionoff, deixou Londrina em 1947, mas permaneceu ligado à CTNP (mais tarde com a razão social alterada para CMNP – Companhia Melhoramentos Norte do Paraná), em São Paulo, até falecer, em 1994. Assim que surgiu, a Higienópolis tornou-se referência de luxo e status na cidade. Era comum famílias comprarem dois ou três terrenos na avenida, um ao lado do outro. Algumas, inclusive, optavam por construir suas casas no centro desses terrenos, ocupando os largos espaços que sobravam na frente e nas laterais para plantarem amplos e vistosos jardins. Assim o fez, por exemplo, a família do Sr. Carlos Rottmann, também funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná.


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Figura 1 – Primeira casa de alvenaria da Avenida Higienópolis, de propriedade de Eugenio Victor Larionoff (à frente da casa, com sua esposa), na esquina com a Rua Sergipe

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Cronologia da ocupação da Avenida Higienópolis Os primeiros terrenos ocupados foram os das quadras situadas entre as ruas Sergipe e Pio XII, ainda na década de 1930. Até 1941, praticamente todos os lotes dessas quadras estavam ocupados, restando apenas três, que receberam alvará de licença para construção nos anos seguintes. Apesar do elevado número de construções em alvenaria, para a época, o piso da avenida era de terra batida. Os meiosfios, paralelepípedos e canteiros seriam colocados apenas no início da década de 1950. Em 1936, o agrimensor e funcionário da CTNP, Carlos Rottmann, requereu autorização de construção para as datas 4, 5 e 6 da quadra 124, esquina com a Rua Tupi. Em 24 de outubro de 1939, o engenheiro Alexandre Burjan obteve a aprovação do projeto de sua residência, nas datas 7 e 8 da quadra 125, esquina com a Rua Piauí. Em 1940, Júlio Fuganti aprovou o projeto e, em 23 de maio de


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1941, obteve o habite-se de sua residência, construída nas datas 7 e 8 da quadra 124, esquina com a Rua Tupi. Também em 1941, o empresário Fioravante Bordin requereu autorização para construir sua residência, nas datas 1 e 2 da quadra 125, entre as ruas Pio XII (que, na época, era Rua Jatahy) e Piauí. Em março de 1941, o agricultor Nicolau Lunardelli, que viria a presidir a Sociedade Rural do Paraná de 1948 a 1950, construiu sua casa na quadra 123, esquina com a Rua Sergipe, imóvel no qual, anos mais tarde, moraria o Dr. Newton Leopoldo da Câmara, médico oftalmologista e proprietário do Hotel Londrina. Em 1942, o engenheiro Ernesto Rosemberg obteve habite-se da construção nas datas 3 e 4 da quadra 84-A, entre as ruas Pará e Goiás. Em 1943, o russo Vladimir Revensky, que trabalhava como almoxarife na CTNP, solicitou o habite-se de uma residência na data 5 da quadra 84-A. Em março de 1945, o empresário Celso Garcia Cid demoliu a construção que havia nas datas 6, 7 e 8 da quadra 123, na esquina com a Rua Tupi, para construir seu palacete assobradado, que seria inaugurado em 1947. Em julho de 1946, o empresário Horácio Sabino Coimbra (dono da Companhia Cacique de Café Solúvel) deu entrada no alvará de licença para a construção de sua residência, na data 5 da quadra 86-A, entre as ruas Espírito Santo e Alagoas. Nos anos 1940, especialmente depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a Higienópolis foi sendo cada vez mais ocupada (Figura 2). “Foi na década de 40 que a Avenida Higienópolis se tornou um grande canteiro de obras. Surgiam projetos em todas as quadras, desde a Sergipe até a Alagoas” (ZANGIROLANI, 2001, p. 59). As quadras que ficam entre as ruas Goiás e Alagoas começaram a ser ocupadas em 1945. Ainda de acordo com Zangirolani (2001, p. 87), “a Avenida Higienópolis chega ao fim da década de 40 com 82,35% de seus lotes ocupados por residências de alvenaria de tijolos prontas ou em fase de construção”. As residências que aparecem nesta montagem fotográfica de Oswaldo Leite (Figura 2) são, no sentido horário, a do comerciante Júlio Roberto Roehrig (onde hoje existe uma agência do Banco do Brasil, na esquina com a Rua Tupi), a que ficava ao lado (ainda não identificamos o então proprietário1, mas ela ficava onde hoje é o edifício Comercial Higienópolis, ao lado do Londrina Trade Center), e o 1

Se algum leitor souber quem era o proprietário desta residência, favor entrar em contato com a Sra. Célia Rodrigues de Oliveira, no Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, pelo telefone (43) 3324-1990.


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palacete do agricultor e empresário Celso Garcia Cid, todas no início do primeiro trecho da avenida. Figura 2 – Montagem fotográfica com casas imponentes construídas no trecho inicial da Avenida Higienópolis

Fotografias: Oswaldo Leite Montagem fotográfica: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Em outubro de 1950, o médico Aroldo Marques Sardenberg reformou e construiu uma garagem na propriedade que antes era de Aleksander Zygfryd Englisch, na data 1 da quadra 86-A. Em 1953, a Prefeitura do Município de Londrina emitiu o habite-se da residência do agrônomo Lúcio Pereira Barbosa, construída na data 2 da quadra 85, entre as ruas Goiás e Espírito Santo. Em junho de 1960, o Dr. Fernando Barros Pinto obteve o habite-se de sua residência, construída na data 4 da quadra 85-A. Em abril de 1962, o agricultor Francisco Antonio Sciarra, que também viria a ser presidente da Sociedade Rural do Paraná, de 1969 a 1970, recebeu o habite-se de sua casa, construída na data 7 da quadra 126, entre as ruas Piauí e Pará. Gilberto Soares Santos, vice-prefeito de Londrina, na gestão de José Hosken de Novaes (1963-1969), lembra de alguns ilustres moradores da Higienópolis na


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época de sua criação e de uma família que, em nada, lembra a burguesia. Em uma crônica de 1996, publicada no jornal Folha de Londrina, ele descreve uma família de ciganos que residia na avenida: Os homens usavam grossas correntes de ouro no pescoço e pulseiras de alto valor. As mulheres usavam vistosas e compridas saias coloridas. Na cabeça, o característico lenço zíngaro. Era uma família comandada pelo Lazinho, conhecido comerciante cigano e chefe de todos os outros da região norte. O comportamento dessa família sempre foi exemplar e respeitoso (SANTOS, 1996).

Santos lembra também alguns moradores que possuíam casas logo após o cruzamento da Sergipe: o médico Newton Câmara, que empresta o nome ao edifício que foi erguido onde antes se localizava sua residência; Celso Garcia Cid, fundador de uma das maiores empresas de transporte rodoviários do país, a Viação Garcia; Nelson Rosário, que foi chefe do posto de saúde, deputado federal e secretário de Estado; Vivi Xavier, que empresta seu nome para um dos maiores conjuntos habitacionais do município; Fioravante Bordin e Atílio Bizato, empresários do grande conglomerado comercial de Londrina, a Casas Fuganti S.A. Em 1945, a família do empresário Roberto Júlio Roehrig se mudou para a casa construída nas datas 1, 2 e 3 da quadra 124, na esquina da Higienópolis com a Rua Tupi. O valor da obra, considerado vultoso para a época, foi de 80.000 cruzeiros. Esta residência ficou conhecida como a Casa dos Anões, em razão da presença de estátuas dos anões da história da Branca de Neve e os Sete Anões em seu jardim frontal. Hoje no local existe uma agência do Banco do Brasil. Entre 1946 e 1948, foi construída na então última quadra da Avenida Higienópolis, entre as ruas Espírito Santo e Alagoas, uma obra sui generis, que passou para a história de Londrina como “Castelinho” (Figura 3). Era majestosa como o palacete de Celso Garcia Cid, e lá residia a família do Dr. Jurandyr e dona Neyde Reichert Moraes Silva. Esta imagem (Figura 3) mostra o final do primeiro trecho da Avenida Higienópolis, que encerrava na Rua Alagoas. À direita da mulher vestida de branco, que desce a avenida, hoje fica a Churrascaria Galpão Nelore. Um pouco mais abaixo, ainda à direita, mas fora da imagem, ficava a propriedade do Sr.


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Shinquichi Agari. À esquerda, do outro lado da avenida, ficava a propriedade do Sr. Domingos Lourenço, o “bodero”, onde hoje fica o Jardim Canadá. Figura 3 – Última quadra do primeiro trecho da Avenida Higienópolis, entre as ruas Espírito Santo e Alagoas. À direita vê-se o “Castelinho”

Fotografia: Oswaldo Leite (11 de julho de 1953) Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

As grandes transformações da Avenida Higienópolis Além da continuidade acelerada de construções em seu primeiro trecho, entre as ruas Sergipe e Alagoas, e de benfeitorias, como balizamento (meiosfios ou guias), calçamento com paralelepípedos, arborização e jardinagem (Figura 4), as décadas de 1950, 1960 e 1970 foram marcantes para a Avenida Higienópolis.


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Figura 4 – Vista parcial do final do primeiro trecho da Avenida Higienópolis, na década de 1950, já com meios-fios, paralelepípedos, arborização e canteiro central ajardinado

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Transformações da década de 1950 A primeira grande transformação teve início na década de 1950, quando o então prefeito Milton Ribeiro de Menezes (1951-1955) determinou que os proprietários de terrenos e imóveis doassem uma parte do terreno para obras de ampliação (aumentar a largura) da avenida entre as atuais ruas Alagoas e Dulcídio Pereira, na direção do atual Lago Igapó. Seria uma espécie de “desapropriação amigável”, pois o prefeito, em um primeiro momento, se recusava a pagar indenizações por achar a medida injusta. Ele defendia que a ampliação da avenida valorizaria os imóveis e embelezaria a cidade, com ganhos para ambas as partes. Alguns moradores não aceitaram e exigiram pagamento na Justiça, como a família do imigrante japonês Shinquichi (Paulo) Agari e Domingos Lourenço, conhecido como “bodero”, porque criava caprinos, em especial bodes, em grande quantidade. Mas a maioria dos proprietários compreendeu a magnitude da obra e doou parte de seus terrenos sem reclamar, como foi o caso da família de Margarida Marx, que havia se mudado para Londrina em 1935. Fugindo da perseguição semita de Hitler, por ser descen-


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dente de judeus, o pai de Margarida, Sr. Jacob Marx, comprou uma chácara onde hoje a Higienópolis faz esquina com a Avenida Juscelino Kubitschek. Dos 24.200m² de sua propriedade, cerca de 6.000m² foram doados à Prefeitura, para o alargamento da avenida. Figura 5 – Obras de alargamento da Avenida Higienópolis

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Esta fotografia (Figura 5) do início da década de 1950 mostra as obras de alargamento da avenida no trecho entre a atual Avenida Juscelino Kubitschek e o local onde mais tarde seria construído o Lago Igapó. O engenheiro José Augusto de Queiróz2, ao olhar esta fotografia, disse que esse trecho era conhecido por “Bambuzal”, em razão da existência de duas grandes moitas de bambu. Esse local, segundo ele, fica entre as atuais ruas Meyer e Henrique dos Santos, onde hoje existem duas revendedoras de automóveis e um posto de gasolina. “Eu nunca me esqueci desse local porque meu pai se envolveu em um acidente de trânsito exatamente em frente ao bambuzal”, justifica Queiróz. A fotografia seguinte (Figura 6), tomada por Oswaldo Leite, em 1963, mostra a Higienópolis já alargada e prolongada e em processo de pavimentação. À 2

José Augusto de Queiróz. Entrevista concedida a Paulo César Boni, dia 14 de julho de 2014, em seu local de trabalho, situado à Avenida Juscelino Kubistcheck, 350, em Londrina.


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direita, ao fundo, pouco antes do Colégio Estadual José de Anchieta, vê-se homens trabalhando na pavimentação da avenida. A pequena rotatória, na qual aparece um homem de camisa branca se agachando para apanhar alguma coisa no chão, ficava no mesmo local onde fica hoje a rotatória na esquina das avenidas Juscelino Kubistchek e Higienópolis. À esquerda da camionete branca, subindo a avenida no sentido bairro-centro, fica hoje o Colégio Estadual Vicente Rijo – Ensino Fundamental Médio e Profissional3, inaugurado em 1966. À direita, onde aparece o muro em alvenaria, fica hoje uma unidade da Farmácia Nissei. O homem, em primeiro plano, de camisa branca e com uma mala sobre o ombro esquerdo, percebeu – e não se importou com – a presença do fotógrafo Oswaldo Leite. Figura 6 – Esquina das avenidas JK e Higienópolis, tomada em 20 de maio de 1963

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss 3

O Colégio Estadual Vicente Rijo – Ensino Fundamental Médio e Profissional, na realidade, foi fundado em 1945 com o nome de Ginásio Estadual de Londrina e começou a funcionar em 1946, no prédio do então Grupo Escolar Ministro Osvaldo Aranha, situado à Rua São Salvador, 998, na região central de Londrina. Mudou seu nome diversas vezes ao longo dos anos até chegar ao atual, em 2003. O colégio ganhou sede própria (na esquina das avenidas Juscelino Kubistchek com Higienópolis) apenas em 1966.


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De meados para final da década de 1950, a transformação mais importante da avenida foi sua adequação para a construção e represamento do Lago Igapó, cuja inauguração deu-se em dezembro de 1959, como parte das comemorações do Jubileu de Prata de Londrina (1934-1959). Para tanto, foi preciso construir uma ponte na Higienópolis. Figura 7 – Construção da primeira ponte sobre o Ribeirão Cambezinho

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Esta imagem (Figura 7), tomada entre 1950 e 1951, mostra a construção da primeira ponte sobre o Ribeirão Cambezinho, no mesmo local onde fica hoje a ponte atual. Esta ponte foi construída durante a administração do prefeito Hugo Cabral (1947-1951). Segundo o engenheiro José Augusto de Queiróz, a ponte sobre o ribeirão é a que fica em primeiro plano. A obra que se vê ao fundo, em segundo plano, é a construção de um bueiro para a coleta das enxurradas que desciam no sentido sul-norte, ou seja, da atual Avenida Madre Leônia Milito para o local onde mais tarde seria construído e represado o Lago Igapó. Entre essas duas obras, à esquerda, hoje fica o Lago Igapó I, à direita (onde nessa época


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existia o curtume da família Dequêch), fica o Lago Igapó II. As novas pontes, uma para cada pista da avenida, foram construídas entre 1957 e 1959. A ponte de jusante4, no sentido sul-norte (bairro-centro) segundo Queiróz, fica três metros acima da soleira do lago e a de montante (a mais alta), no sentido norte-sul (centrobairro) fica cerca de cinco metros acima da soleira do lago. Figura 8 – Tomada em plano aberto da Avenida Higienópolis próximo ao local onde seria construída a ponte sobre o Lago Igapó

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

A figura 8, tomada provavelmente em meados da década de 1950, da atual Avenida Aminthas de Barros, sentido norte-sul, ou seja, do centro para o bairro, mostra como era a avenida pouco antes do início das obras de construção do lago e da ponte. O barracão branco, à esquerda, mais tarde seria a oficina de veículos da Prefeitura. No meio da fotografia, também à esquerda, um pouco abaixo da tabuleta, fica hoje o Lago Igapó I e, na altura da tabuleta, fica o Iate Clube de Londrina, inaugurado na década de 1960. Logo acima, onde se vê algumas casas, ficava o Parque Guanabara (desde o início, o bairro tem esse nome), mais acima, onde se vê uma plantação de eucaliptos, ficava a “Chácara do Suiço”, como todos 4

Jusante: sentido da correnteza em um curso de água; a parte mais baixa, a que fica abaixo.


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chamavam o local por ser de propriedade de um senhor suíço. Provavelmente, em razão disso, o bairro que hoje existe neste local tenha sido denominado de Bela Suiça. À direita, logo abaixo da ciclista e do transeunte, ficava o curtume da família Dequêch. Ao fundo, praticamente em frente à avenida, em cor clara, ficava o Lar Santo Antônio, conhecido como Lar das Meninas Órfãs, uma série de casas, construídas uma ao lado da outra, com cerca de 100 metros de recuo da avenida, que atendia, à época, cerca de 100 meninas órfãs em regime de internato. Foi nesse local, com as obras ainda em andamento, que a Madre Leônia Milito se instalou assim que chegou a Londrina, em 31 de julho de 1957. No local onde hoje está construída a igreja da Paróquia São Vicente de Paulo ficava a Escola Municipal Frederico Ozanan5. No entorno do Lar Santo Antônio, onde hoje existem o Asilo São Vicente de Paulo e o Santuário Eucarístico Mariano, ficava a Vila Vicentina, constituída por algumas casas de madeira, nas quais famílias carentes eram mantidas pela Sociedade Vicentina de Londrina.

Transformações da década de 1960 A partir da inauguração do Lago Igapó, em dezembro de 1959, a Avenida Higienópolis passou a ser mais utilizada pela população, principalmente para o acesso ao lago. O movimento de carros e pedestres crescia a cada ano, especialmente depois da fundação do Iate Clube de Londrina, na década de 1960. Diante deste cenário, as autoridades municipais perceberam a necessidade de obras de urbanização e embelezamento do que era então conhecido como “prolongamento” da Higienópolis. A instalação de meios-fios (guias), calçamento e implantação e ajardinamento do canteiro central foram as prioridades da década de 1960. A fotografia tomada por Oswaldo Leite (Figura 9), provavelmente no final de 1963, mostra as obras para o calçamento da avenida na altura da Rua Riachuelo. Ao fundo, o Colégio Estadual José de Anchieta, inaugurado em 1950. Retornando ao início da avenida (Figura 10), as transformações das décadas de 1950 e 1960 ficam mais visíveis, pois, praticamente, todos os terrenos estão ocupados e exibem construções luxuosas. 5

Frederico Ozanan (1813-1853), beato italiano, foi o principal fundador da Sociedade São Vicente de Paulo (Vicentinos), em 1833.


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Figura 9 – Pavimentação da Avenida Higienópolis, no trecho entre a Avenida Juscelino Kubistcheck e a Rua Dulcídio Pereira

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 10 – Vista aérea da Avenida Higienópolis, provavelmente em 1956 ou 1957

Fotografia: Oswaldo Leite Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss


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Esta fotografia (Figura 10), tomada provavelmente em 1956 ou 1957, por Oswaldo Leite, então chefe da Secretaria de Obras da Prefeitura do Município de Londrina, mostra o trecho da Avenida Higienópolis na esquina com a Rua Tupi, à esquerda, e com a Avenida Paraná, à direita. Infelizmente, o fotógrafo não datou a fotografia, mas, pelo estágio da construção do reservatório de água na esquina da Higienópolis com a Paraná, foi possível deduzir tratar-se de 1956 ou 1957, pois ele começou a ser construído no final de 1955 e foi concluído em 1959. À esquerda de quem olha para a fotografia, estão, em primeiro plano, a residência de Roberto Júlio Roehrig, a Casa dos Anões, onde hoje funciona uma agência do Banco do Brasil, e o palacete de Celso Garcia Cid, onde hoje funciona uma agência do Banco Santander. À direita, em primeiro plano, três residências (hoje estabelecimentos comerciais) e o terreno onde estava sendo construída a caixa d’água, inclusive com uma das pistas da avenida interditada por conta das obras.

Transformações da década de 1970 A maior mudança, no entanto, teve início na década de 1970: a avenida, que até então era estritamente residencial, passou a ceder espaço ao comércio. A tendência foi registrada pelo periódico londrinense Panorama. Em uma reportagem, o jornal reproduz o depoimento de um morador preocupado com as transformações da avenida: O tradicionalismo da avenida é o argumento mais utilizado pelos que defendem a permanência das suas características. O médico radiologista Guilherme Rizzi, morador há 15 anos da avenida, organizador que reuniu mais de 300 assinaturas contra a construção de edifícios na redondeza, é um deles: ‘Esta aqui é a avenida mais bonita da cidade, como ficará virando um centro comercial? Não quero e falo mesmo contra o meu interesse, pois meu terreno valorizará muito com esta mudança. Eu pergunto: como ficará o estacionamento para os carros? Como as crianças vão para a escola com o aumento de movimento por aqui? Acho que só é a favor de uma coisa dessas quem tem interesse na valorização de seus terrenos’ (PANORAMA, 1975).


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Mas o médico e os 300 signatários do abaixo-assinado perderam a demanda. A Higienópolis, gradativamente, passou a verticalizar-se e a abrigar cada vez mais estabelecimentos comerciais. Porém, apesar da entrada de salões de beleza, consultórios, lojas de roupas, calçados e sorveterias nas décadas de 1970 e 1980, o perfil social da avenida não foi totalmente modificado. Todos os estabelecimentos comerciais que nela se instalavam tinham como público-alvo a classe alta. A Higienópolis era procurada pelos empresários por causa do seu glamour, constituído, entre outros fatores, pelo clima mais tranquilo, ao contrário do ritmo frenético do centro, o maior número de vagas para estacionamento e o alto poder aquisitivo dos moradores. As mudanças continuaram na década de 1990 e nos primeiros anos do Século XXI. Algumas antigas residências cederam seu lugar para edifícios residenciais; outras foram transformadas em centros de compras, bancos, farmácias, consultórios, escritórios, agências de turismo, cafés, bares e restaurantes. Hoje, o perfil social da avenida é outro: de exclusivamente residencial, até a década de 1970, passou a amplamente comercial. Mas não perdeu totalmente o glamour. Para a maioria dos londrinenses, a Avenida Higienópolis continua sendo uma referência de luxo e elegância. Este inevitável processo de transformação foi percebido, ao longo dos anos, pelos moradores, que acabaram se conformando o novo destino da avenida. Os que mais resistiram a vender seus imóveis para novos empreendimentos imobiliários ou a alugá-los para estabelecimentos comerciais, retardando sua saída, passaram a sentir na pele as dificuldades de continuar morando em um espaço que outrora havia sido unicamente residencial. Foi o caso do Sr. Edvir Alves dos Santos6, entrevistado em 2009, data em que comemorava 47 anos como morador da avenida. “Quando chegamos aqui era tudo mato. Só passava cavalo, carroça, boiada. O Lago Igapó não tinha ponte, só uma passagenzinha para cavalos. Hoje, fica difícil morar na Higienópolis por causa do barulho dos carros, tem muito movimento. Realmente a tendência é ficar só o comércio”, pondera. 6

Edvir Alves dos Santos. Entrevista concedida a Sara Hermógenes Silva, dia 20 de maio de 2009, em sua residência.


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Higienópolis: reduto da burguesia londrinense A ocupação da Avenida Higienópolis pelas famílias mais abastadas de Londrina, gerou uma confusão conceitual para sua definição. Alguns autores classificam a avenida como um reduto aristocrático de Londrina. As definições de aristocracia7 no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, por si só são suficientes para derrubar essa classificação, pois a Higienópolis, na realidade, abrigava casas de profissionais liberais, industriais, comerciantes e prestadores de serviços, profissões muito mais ligadas à burguesia8 que à aristocracia.

Considerações finais A Avenida Higienópolis foi planejada e concebida como um espaço diferenciado, de luxo, de privilégios, um lugar restrito às famílias mais abastadas. Em um primeiro momento, nas décadas de 1930 a 1960, foi uma avenida estritamente residencial. Ao longo de suas quadras, exibia as mais caras, imponentes e luxuosas residências de Londrina. Tornou-se atração turística, uma referência de glamour, um ícone da cidade. Esta pesquisa apurou que a maioria de seus moradores advinha do comércio, da indústria e da prestação de serviços (profissionais liberais, especialmente médicos e advogados), ou seja, representantes da burguesia e não da aristocracia, como por muito tempo se acreditou, principalmente em razão de, na década de 1950, Londrina ser informalmente conhecida como a “Capital Mundial do Café”. A avenida passou por diversas transformações ao longo de sua existência. A mais importante começou na década de 1970, quando ela foi, aos poucos, mas 7

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Aristocracia: 1 – Organização sociopolítica baseada em privilégios de uma classe social formada por nobres que detêm, geralmente por herança, o monopólio do poder; 2 – Grupo ou classe dos que, por berço ou por concessão, detêm o prestígio dos títulos nobiliárquicos que outrora significavam poder político, nobreza, classe nobre, fidalguia; 3 – Estado governado por nobres ou fidalgos (HOUAISS; VILLAR, 2001, p. 288). Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, os significados e/ou denominações de burguesia são: 1 – Qualidade ou condição do burguês (habitante livre na Idade Média); 2 – Classe social surgida na Europa, com o desenvolvimento dos burgos medievais e o influxo do comércio na sociedade feudal, e que principia a gozar, com o seu enriquecimento, de crescente liberdade e poder, passando a dominar sociopolítica e economicamente as outras classes, a partir da Revolução Francesa (1789); 3 – Conjunto dos burgueses, vale dizer, os que exercem profissões liberais, estando mais ou menos ligados às esferas dirigentes e detentoras da economia; classe média (HOUAISS; VILLAR, 2001, p. 531).


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continuamente, deixando de ser residencial para tornar-se comercial. Ao analisar as transformações sofridas pela Higienópolis ao longo do tempo, percebe-se que essas transformações sempre expressaram – e continuam expressando – diferentes fases do crescimento econômico e desenvolvimento social de Londrina. Porém, independente do glamour inicial do reduto da burguesia londrinense e da invasão comercial dos anos mais recentes, é possível inferir que a Avenida Higienópolis sempre se caracterizou como um “cartão de visitas”, uma referência iconográfica da cidade.

Referências BONI, Paulo César; UNFRIED, Rosana Reineri; BENATTO, Omeletino. Memórias fotográficas: a fotografia e fragmentos da história de Londrina. Londrina: Midiograf, 2013. HOUAISS, Antônio (1915-1999); VILLAR, Mauro (1939- ). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. SANTOS, Gilberto. Crônicas. Folha de Londrina, Londrina, 19 ago. 1996. p. 2. ZANGIROLANI, Ana Cláudia Gimenez Mesquita. A Avenida Higienópolis de Londrina nos anos 30 e 40. 2001. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade de São Paulo, São Paulo.


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Para evitar que o “Leite” fosse derramado: a história da recuperação de um dos mais importantes acervos fotográficos de Londrina


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Para evitar que o “Leite” fosse derramado: a história da recuperação de um dos mais importantes acervos fotográficos de Londrina * Rosana Reineri Unfried ** Paulo César Boni *** Resumo: O “Leite” do título deste trabalho é o sobrenome do ituano Oswaldo Leite, que pode ser considerado um dos mais importantes fotógrafos documentadores de Londrina. Na condição de funcionário da Secretaria de Obras, registrou fotograficamente cenas que marcaram o desenvolvimento da cidade nas décadas de 1950, 1960 e 1970. Fotografava para registrar e documentar as obras desenvolvidas pela secretaria, sem qualquer preocupação propagandística ou midiática. Parte dessas imagens estava guardada na casa do fotógrafo e foi doada, por seu filho, ao Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. A maior parte do acervo, no entanto, foi encontrada precariamente armazenada em um depósito da Prefeitura e estava prestes a ser incinerada, quando foi salva pela sensibilidade histórica de Hélio Silva, fotógrafo que substituiu Oswaldo Leite em seu ofício na secretaria. Hélio Silva intermediou a transferência desse acervo para o museu, onde está em fase final de processamento catalográfico para ser disponibilizado para consultas e pesquisas, evitando-se, assim, a perda destes documentos de inestimável valor histórico. Pelo menos este “Leite” não será derramado... Palavras-Chave: História de Londrina (PR). Fotografia e Memória. Oswaldo Leite.

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Texto derivado do Trabalho de Conclusão de Curso (Comunicação Social – Habilitação Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina) de Rosana Raineri Unfried, sob orientação do Prof. Dr. Paulo César Boni, defendido em 25 de novembro de 2013. * * Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo e mestranda em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Coautora do livro Memórias fotográficas: a fotografia e fragmentos da história de Londrina. E-mail: rosanareineri@gmail.com *** Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Introdução A fotografia é uma ferramenta de extrema importância no processo de construção, preservação e recuperação histórica. Em termos de documentação imagética, Londrina foi privilegiada por ter sido colonizada por ingleses da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). A colonização começou em 1929 e os ingleses fizeram uso da fotografia para registrar e divulgar a fertilidade do solo norte-paranaense para impressionar possíveis compradores de seus lotes, das mais diversas nacionalidades. Por essa razão, desde muito cedo, a cidade se acostumou a ser fotografada. Muitos foram os registros de época e muitos foram os fotógrafos responsáveis pela documentação do nascimento, crescimento e desenvolvimento da cidade. Uma pessoa de fundamental importância para a documentação imagética de Londrina foi o fotógrafo Oswaldo Leite (Figura 1). Considerado um dos mais antigos fotógrafos da cidade, fez importantes registros de obras realizadas pela Secretaria de Obras da Prefeitura do Município de Londrina, da qual era funcionário.

Quem foi Oswaldo Leite? Vindo de Itu, Estado de São Paulo, aos 19 anos, Oswaldo Leite chegou a Londrina em 1940. Seu primeiro emprego na cidade, de acordo com seu filho mais novo, Otacílio Leite1, foi na máquina de beneficiamento de café e venda de sacarias do Sr. Soiti Taruma, localizada na Rua Rio Grande do Norte, 1.324, próximo à atual Avenida Arcebispo Dom Geraldo Fernandes (Avenida Leste-Oeste). Depois trabalhou na construção da Santa Casa (inaugurada em 7 de setembro de 1944), como pedreiro. Estava ali quando surgiu a oportunidade de ingressar na Secretaria de Obras, a convite do prefeito Willie Davids (1936-1940)2. Convite que ele aceitou prontamente. 1

2

Otacílio Leite. Entrevista concedida a Rosana Reineri Unfried, na residência do entrevistado, no dia 29 de agosto de 2013. Os anos que aparecem entre parênteses referem-se ao período do mandato dos políticos citados.


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Figura 1 – Oswaldo Leite

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo da Família Leite

Competente e esforçado, Oswaldo Leite logo passou a ocupar o cargo de chefe do Departamento de Obras. A partir de então, conforme o relato de seu filho, quando ia verificar o andamento das obras, aproveitava para fotografá-las, como forma de registro do trabalho desenvolvido pela Prefeitura. Otacílio conta que o pai trabalhou na Prefeitura o resto da vida. Aposentou aos 25 anos de serviço, mas retornou à Secretaria de Obras a convite do prefeito Dalton Paranaguá (19691973) para, desta vez, assumir exclusivamente o cargo de fotógrafo. Oswaldo Leite foi o primeiro fotógrafo oficial da Prefeitura de Londrina, função na qual se aposentou novamente, desta vez por idade. Como fotógrafo, Oswaldo Leite (Figura 2) documentou, em preto-e-branco, muitas das cenas que marcaram o desenvolvimento de Londrina nas décadas de 1950 a 1970. Imagens que conservou com muito carinho, durante toda a vida.


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Figura 2 – Oswaldo Leite exercendo a função de fotógrafo da Secretaria de Obras da Prefeitura do Município de Londrina

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo da Família Leite

De acordo com a técnica em assuntos universitários do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, Célia Rodrigues de Oliveira3, parte das imagens tomadas por Oswaldo Leite permaneceu esquecida em um depósito da Prefeitura e por pouco não se perdeu. Elas estavam prestes a ser incineradas, mas o fotógrafo da Prefeitura à época (1990), Hélio Silva, sensibilizado com o prejuízo à história da cidade que este ato iria causar, entrou em contato com o museu para intermediar a doação do precioso acervo. Fruto desse contato, em 7 de junho de 1990, foi assinado um convênio de cooperação cultural entre a Universidade Estadual de Londrina, por meio do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, e a Prefeitura do Município de 3

Célia Rodrigues de Oliveira. Entrevista concedida a Rosana Reineri Unfried, no Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss, no dia 28 de agosto de 2013.


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Londrina, para a transferência do acervo de Oswaldo Leite para as dependências e cuidados do museu. No entanto, Célia explica que, por este convênio, a Prefeitura – agora consciente da importância histórica e valor documental daquelas imagens – não doou o acervo em definitivo ao museu; apenas concedeu a permissão de uso por tempo indeterminado. Em contrapartida, cabe ao museu guardar, conservar e manter o acervo, sem transferi-lo a terceiros, e permitir ao Município, sempre que necessário, o livre acesso ao material. Segundo a funcionária, as imagens (ampliadas em papel fotográfico ou em negativos) estavam armazenadas em baús no depósito da Prefeitura, expostas à sujeira e à umidade. Em razão disso, muitas chegaram ao museu manchadas pela ação de fungos e tiveram de ser descartadas. No entanto, as fotografias em papel que foram descartadas tinham negativos em bom estado de conservação. A outra parte do acervo de Oswaldo Leite permaneceu guardada por ele próprio, em sua casa, até sua morte, em 28 de agosto de 1995. Este acervo também quase foi perdido. Isso porque, segundo Otacílio Leite, sua irmã mais velha, Maria de Lourdes Leite Lima, sem se dar conta do valor histórico que aquelas fotografias representavam, iria jogar a maioria delas no lixo. Otacílio conta que pegou as fotografias e as guardou. Tempos mais tarde, convicto de que elas, no presente ou no futuro, poderiam ter serventia para a recuperação de dados históricos e para a preservação da memória de Londrina, decidiu doá-las ao museu. Desta forma, em 26 de março de 2006, pouco mais de dez anos após a morte de seu pai, fez a doação de cerca de 800 imagens. E isso não é tudo. Otacílio Leite mantém guardadas fotografias de pessoas, que ninguém da família soube identificar, e rolos e mais rolos de negativos, dos quais ele sequer imagina o conteúdo, mas que, segundo ele, no futuro será tudo doado ao museu.

Recuperação e preservação Em maio de 2003, teve início o demorado e trabalhoso processo de higienização, catalogação, digitalização e disponibilização para pesquisa do acervo de Oswaldo Leite. Esse processo continua sendo desenvolvido pelos poucos funcionários do Setor de Audiovisual do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. No início, o processo era supervisionado pelas servidoras Célia Rodrigues


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de Oliveira e Áurea Keiko Yamani, técnica em assuntos culturais, que se aposentou recentemente (2013). Para o início dos trabalhos, relata Célia, tiveram o incentivo financeiro do Promic (Programa Municipal de Incentivo à Cultura). Segundo ela, o dinheiro recebido foi utilizado para a compra de equipamentos (scanner e computadores), materiais e produtos usados na higienização do material e a contratação temporária de auxiliares. Para o ano de 2004 conseguiram, novamente, aprovar um projeto no Edital do Promic, do qual obtiveram recursos que possibilitaram significativo avanço no trabalho, mas, até o momento (2014), apenas parte da recuperação do acervo está concluída. Trata-se de 2.278 imagens (fotografias e negativos) referentes à década de 1950, já devidamente higienizadas, catalogadas e disponibilizadas para pesquisa. Das décadas de 1960 e 1970 são mais de 20 mil imagens – já higienizadas – em processo de catalogação e digitalização para depois serem disponibilizadas para pesquisa. Ao manusear o acervo de Oswaldo Leite, as funcionárias do museu notaram uma peculiaridade do trabalho do fotógrafo: ele tinha o hábito de fazer anotações atrás de cada fotografia (data, assunto e, na maioria das vezes, o local onde a imagem foi tomada e o nome dos fotografados). Outro costume, no entanto, prejudicou a catalogação de suas fotografias: ele as colava em folhas de cartolina, depois dessa identificação, e parte das informações se perdeu no momento em que os responsáveis pela organização do acervo precisaram descolar as fotografias. Por isso, foi preciso chamar contemporâneos do fotógrafo para fazer a identificação de alguns lugares e pessoas fotografadas. João Baptista Bortolotti, que trabalhou como arquiteto da Prefeitura, tem sido um grande colaborador nessa tarefa. As fotografias aqui analisadas, todas da década de 1950, evidenciam a magnitude do trabalho e o talento do fotógrafo Oswaldo Leite. Elas estão organizadas na ordem das categorias (descritores) criadas pelas funcionárias do museu para facilitar a pesquisa do material. Célia explica que, para facilitar o trabalho, tanto dos organizadores do acervo quanto o dos pesquisadores que vierem a utilizá-lo, as imagens foram agrupadas por décadas – 1950, 1960 e 1970 – e divididas em categorias – que variam de acordo com o material (assuntos retratados). Os títulos das fotografias aqui mostradas são os mesmos que o fotógrafo escreveu em cada uma. Entre parênteses encontra-se a categoria e subcategoria classificatórias em que se enquadram.


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Figura 3 – Colocação de cancela na passagem de nível da Rua Pernambuco (Ferrovia – Passagem de nível)

Fotografia: Oswaldo Leite – Década de 1950 Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

A inauguração da primeira estação ferroviária de Londrina ocorreu em 28 de julho de 1935, com a chegada de um trem lotado de autoridades e convidados ilustres. A chegada da rede ferroviária foi muito festejada, uma vez que não havia estradas asfaltadas na região. Segundo informações contidas no livro Memórias fotográficas: a fotografia e fragmentos da história de Londrina, a instalação da rede ferroviária que passava pela cidade ficou a cargo da Rede de Viação ParanáSanta Catarina (RVPSC), que administrava as estradas-de-ferro nesses dois Estados. Foi essa empresa que optou pela construção, mais tarde, da nova estação ferroviária, mais ampla e confortável, que atualmente abriga o Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. Os trilhos por onde passavam os trens cortavam a cidade de fora a fora no sentido leste-oeste, dividindo-a em duas. Ao mesmo tempo, a cidade, que antes contabilizava poucas casas, foi crescendo ao redor da estrada-de-ferro. Na década de 1950, começaram a ocorrer acidentes de trânsito, em razão do intenso fluxo de veículos que precisavam atravessar os trilhos constantemente. De acordo com o relatório oficial intitulado Dois anos de um governo que realiza, preparado pela Prefeitura de Londrina em 1957, e disponível para consulta


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no museu, a solução encontrada pelo então prefeito Antônio Fernandes Sobrinho (1955-1959) foi a construção de cancelas metálicas nos cruzamentos entre as ruas e os trilhos, com o objetivo de proporcionar segurança a veículos e pedestres. Esta fotografia (Figura 3), tomada por Oswaldo Leite, retrata a instalação de uma cancela na Rua Pernambuco. O reclame escrito no muro “Para Presidente da República – Adhemar de Barros” faz menção ao político Adhemar Pereira de Barros, que foi governador do Estado de São Paulo por duas vezes (1947–1951 e 1963–1966) e que se candidatou à Presidência da República em duas oportunidades (1955 e 1960), sendo derrotado por Juscelino Kubitschek de Oliveira, na primeira, e Jânio da Silva Quadros, na segunda. A rua que se vê à direita de quem olha para a fotografia é a Fernando de Noronha. No sobrado branco morava a Família Fabrini, cujo patriarca José Fabrini era proprietário da Serraria Fabrini, uma das mais importantes de Londrina, que ficava na Rua Acre, 992. Do outro lado da rua, em uma casa que está escondida por uma pequena árvore na imagem, moravam Oswaldo Leite e sua família. No início da década de 1970, a Administração Municipal elaborou projeto para a construção de uma variante para que os trens passassem distante da área urbana. Esta variante começou a funcionar em 1973, deslocando a linha férrea do centro da cidade para a zona norte. Em 10 de março de 1981, partiu de Londrina o último trem de passageiros (BONI, 2004). O desmonte das cancelas e dos trilhos começou a ser feito no final de 1982, na gestão do prefeito Antônio Casemiro Belinati (1977-1982), mas ficou a cargo da administração seguinte, a de Wilson Rodrigues Moreira (1983-1988), a retirada e a armazenagem dos trilhos e parafusos, que eram patrimônio da concessionária da ferrovia. O Sistema de Abastecimento de Água (SAA) de Londrina começou a ser implantado em 1933, pela Companhia de Terras Norte do Paraná. De acordo com Luiz Alberto Niero (2009, p. 19), a água era captada de nascentes existentes no Córrego Água Fresca, próximas à Rua Alagoas. A água era levada por meio de sistemas hidráulicos até um reservatório instalado entre a Praça Gabriel Martins e a Igreja Matriz (hoje Catedral Metropolitana). Inicialmente eram abastecidas apenas as casas dos diretores da CTNP, localizadas na região central, próximas ao reservatório. No entanto, com o crescimento da população e do número de edificações, foi necessária a ampliação do sistema de


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captação e abastecimento de água. Para suprir essa necessidade, foi instalado outro reservatório, com maior capacidade, ao lado da Igreja Matriz. Essa iniciativa da CTNP permitiu que fossem abastecidas cerca de 450 residências. No entanto, por razões culturais e econômicas, muitos moradores não aderiram de imediato ao sistema público de abastecimento. Alguns preferiram continuar utilizando água de poços abertos nos quintais, sem se preocupar com o fato de que os quintais também tinham fossas. Segundo Niero (2009), o fornecimento de água à população foi regulamentado em 20 de janeiro de 1937, por meio de Decreto-Lei Municipal assinado pelo então prefeito em exercício João Wanderley, que estava substituindo temporariamente Willie Davids. A regulamentação tornou obrigatória a ligação dos imóveis à rede de distribuição nas ruas que contavam com a rede pública de abastecimento. A administração do serviço continuava a ser de responsabilidade da CTNP, sob supervisão da Prefeitura, que somente admitia a falta de água em casos extremos, como os de secas prolongadas, enxurradas ou desastres. Caso contrário, caberia à CTNP o pagamento de multas. À medida que a população crescia era preciso aumentar a capacidade de atendimento do sistema público de abastecimento de água e o tamanho do reservatório. No início da década de 1940, o Córrego Água Fresca já não supria mais, sozinho, o fornecimento de água para a cidade. Assim, o Córrego Bom Retiro começou a ser explorado e passou a fazer parte do sistema de abastecimento. Ao mesmo tempo, um reservatório maior, de concreto, foi instalado no mesmo lugar onde estava o anterior. Em 1948, o SAA de Londrina era composto por quatro unidades de captação (Água Fresca, Bom Retiro, Água das Pedras e Córrego das Pombas) e já havia reservatórios em outros pontos da cidade, além do da Igreja Matriz. Estes ficavam na Rua Pio XII esquina com a Avenida Higienópolis; na praça da Rua Quintino Bocaiúva esquina com a Rua Mossoró; e na Rua Souza Naves, junto à Santa Casa (NIERO, 2009, p. 25). No final de 1950, Milton Ribeiro de Menezes foi eleito prefeito de Londrina para a gestão 1951-1955. Seu slogan de campanha havia sido “Uma torneira com água em cada casa”. Uma de suas primeiras providências foi assumir a administração dos serviços de captação e abastecimento de água. Em 1953, teve


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início a construção do novo SAA de Londrina. Visando à melhoria do abastecimento, teve início, em 1955, a construção de um novo reservatório de água na Avenida Higienópolis, concluído em 1959 e que entrou em operação no início da década de 1960. Esta fotografia (Figura 4), segundo o engenheiro João Baptista Bortolotti4, retrata a retirada do reservatório de água do lado da Igreja Matriz, uma vez que o reservatório da Avenida Higienópolis (que funciona até os dias atuais) já havia ficado pronto. Figura 4 – Retirada da Caixa d’água que ficava ao lado da Igreja Matriz (Infraestrutura urbana – Caixa d’água)

Fotografia: Oswaldo Leite – Final da década de 1950 Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

O homem de roupa branca, que aparece na fotografia, com as mãos na cintura é o funcionário da Prefeitura Nilo Gonzalez Vicente. O caminhão utilizado 4

João Baptista Bortolotti. Entrevista concedida a Rosana Reineri Unfried, no Foto Clube de Londrina, no dia 14 de setembro de 2013.


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para fazer o transporte da caixa d’água ainda faz parte da frota da Prefeitura do Município de Londrina, no entanto só é utilizado em desfiles comemorativos. Figura 5 – Alameda Manoel Ribas (Logradouros – Alamedas)

Fotografia: Oswaldo Leite – Década de 1950 Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Esta fotografia (Figura 5) da Alameda Manoel Ribas, no centro, indicia o crescimento econômico e o desenvolvimento social pelos quais a cidade estava passando na década de 1950, por conta, principalmente, dos bons preços do café. Nesse momento, Londrina já era uma cidade movimentada, com muitos automóveis transitando por suas ruas e avenidas e muitos “biribas5” estacionados no ponto de táxi. Da esquerda para a direita (de quem olha para a fotografia), veem-se o prédio do Centro de Saúde, inaugurado em 20 de março de 1949; a obra da futura sede do Grêmio Recreativo e Literário Londrinense (anteriormente instalado em um salão da Associação Comercial de Londrina); o prédio da Companhia Telefônica Paranaense, construído em 1947 para atender a crescente demanda por serviços telefônicos (antes desta sede, a central estava provisoriamente instalada no prédio da Companhia de Terras Norte do Paraná); o Fórum Municipal (atual Biblioteca Pública Municipal), construído em 1950, e a Igreja Matriz de duas torres, construída entre 1938 e 1942. 5

Biriba: como eram chamados os táxis na década de 1950 em Londrina.


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Do lado direito da Igreja Matriz (para quem olha para a fotografia), na alameda, ficava a residência do engenheiro Aristides de Souza Melo, funcionário da CTNP. No local hoje está instalada a agência central da Caixa Econômica Federal. Em seguida está o edifício das Casas Fuganti, onde atualmente funciona uma agência do banco HSBC. De acordo com o jornal Correio do Norte, de 25 de janeiro de 1947, à época da construção da Companhia Telefônica Paranaense, a alameda levava o nome de Rua Santa Catarina, rua esta que seguia até a linha férrea. Depois, na gestão do prefeito Hugo Cabral (1947-1951), foi desenvolvido pelo Departamento de Obras e Viação, um projeto de criação de jardins e alamedas na cidade, o qual, de acordo com Humberto Yamaki (2006), consistia na colocação de calçadas de concreto, ajardinamentos, postes ornamentais, arborização e bancos. A partir de então, este trecho da Rua Santa Catarina passou a ser chamado Alameda Manoel Ribas em homenagem ao interventor que administrou o Paraná entre 1932 e 1945. O calçamento das ruas de Londrina teve início em 1940, no final do mandato do prefeito Willie Davids (1936-1940). Aos poucos, as ruas do centro passaram a ser pavimentadas com paralelepípedos. Hoje superados, os paralelepípedos eram símbolo de progresso e significavam um alívio para a população que, até então, suportava a poeira e o barro da terra vermelha. Uma década mais tarde, o rápido crescimento da cidade e o desenvolvimento de sua capacidade comercial, visíveis na década de 1950, exigiam a pavimentação com massa asfáltica nas ruas. Foi assim que, em 1957, o prefeito Antônio Fernandes Sobrinho (19551959), por meio da imprensa local, lançou um anúncio de concorrência pública para pavimentação asfáltica de algumas ruas e avenidas. “Pelo edital Nº 001 do D.O.P. [Departamento de Obras e Planejamento] acaba a prefeitura de abrir concorrência pública para a execução de um trecho de 40 mil metros quadrados de pavimentação asfáltica nesta cidade”. Quem tivesse interesse em participar da licitação, deveria se manifestar até o dia 10 de junho de 1957. Na nota, a Prefeitura deixava claro que os proprietários de imóveis de alguns trechos haviam se comprometido a arcar com os custos da pavimentação asfáltica, devendo, conforme descrito no jornal, “depositar previamente a importância correspondente ao valor das obras, de acordo com arbitramento do D.O.P.”.


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Wagnez Sambatti6, funcionário aposentado da Prefeitura, diz que essa prática era comum à época. A Prefeitura cuidava das vias de maior importância para o município e oferecia os serviços às outras áreas mediante pagamento dos proprietários de imóveis dessas áreas. Atualmente isto não é mais permitido. Segundo ele, agora toda obra de abertura de ruas, pavimentação e construção de meios-fios de um bairro novo, que não seja uma obra da Prefeitura, é de responsabilidade da loteadora. Figura 6 – Pavimentação da Avenida Paraná (Logradouros – Avenidas)

Fotografia: Oswaldo Leite – 7 out. 1958 Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Esta fotografia (Figura 6), tomada em 1958, mostra a pavimentação asfáltica da Avenida Paraná (atual Calçadão). A imagem corresponde ao trecho entre a Praça Gabriel Martins e a Rua Professor João Cândido. No centro da fotografia, está o edifício Raimundo Durães, que foi demolido para a construção da loja Riachuelo. Na faixa de pano, podemos ler um nome: “Rafael Rezende”. Segundo Otacílio Leite, Rafael Rezende era o engenheiro proprietário da Construtora Brasil, que ficava na atual Rua Maestro Egídio Camargo do Amaral. Esta, segundo ele, era a 6

Wagnez Sambatti. Entrevista concedida a Rosana Reineri Unfried, em sua residência, no dia 11 de outubro de 2013.


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construtora responsável pela pavimentação em andamento naquele trecho. Rafael Rezende era candidato a deputado estadual à época em que a fotografia foi tomada. Otacílio Leite, no entanto, não soube precisar se essa faixa era de sua campanha política ou se era para propagandear os serviços de pavimentação asfáltica realizados por sua construtora.

Consideração finais Vale lembrar que, apesar de este importante acervo encontrar-se, agora, recuperado e preservado, existe, ainda, uma carência no tocante às informações referentes às imagens que dele fazem parte. Em algumas imagens constam a data e o local da tomada, em outras, essas informações foram perdidas. Portanto, são necessárias novas pesquisas que venham somar mais informações e conhecimentos ao trabalho realizado pelo museu. Neste sentido, parte do acervo da década de 1950 – 21 imagens analisadas, pesquisadas e contextualizadas, seguindo o critério de importância do fragmento retratado para o desenvolvimento de Londrina, bem como seu impacto no cenário urbano da cidade – foi objeto de estudo do Trabalho de Conclusão de Curso para graduação em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo da coautora deste trabalho (Rosana Reineri Unfried), na Universidade Estadual de Londrina, sob orientação do coautor (Prof. Dr. Paulo César Boni). Essas imagens, e mais 29 – a serem pesquisadas –, farão parte de um livro a ser publicado em 2015. Por sua vez, as imagens do acervo de Oswaldo Leite relativas à década de 1960 serão o objeto de pesquisa da Dissertação de Mestrado em Comunicação da estudante Rosana Reineri, também sob orientação do Prof. Paulo Boni. Ambos, em coautoria, planejam transformar o resultado desse próximo trabalho em livro, com publicação estimada para 2016. Outro aspecto relevante que este trabalho traz à tona é a existência de pessoas preocupadas em registrar, colecionar e doar imagens do cotidiano e das transformações do local onde vivem. Estes registros são de extrema importância não somente para a preservação da história desses locais como para nortear novas pesquisas e assim democratizar as informações armazenadas. Mais que


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isso, por meio deles torna-se possível transformar o que era apenas uma história individual em história coletiva. No caso do acervo de Oswaldo Leite, a história individual, presente nas imagens tomadas como registro dos feitos da Secretaria de Obras, até então de interesse exclusivo da Prefeitura do Município de Londrina, anos mais tarde se transformaram em importantes ferramentas de preservação da história da cidade. As obras capturadas pelas lentes do fotógrafo retratam o cenário de transformação urbana pelo qual Londrina passava naquele período. Por sua importância histórica, as imagens de Oswaldo Leite transitam livremente entre as Ciências Humanas (Comunicação e História, por exemplo) e as Ciências Exatas (Arquitetura e Engenharia Civil), podendo ser utilizadas como objeto de estudo em vários campos do conhecimento.

Referências BONI, Paulo César. Fincando estacas! a história de Londrina (década de 30) em textos e imagens. Londrina: Edição ao autor, 2004. BONI, Paulo César; UNFRIED, Rosana Reineri; BENATTO, Omeletino. Memórias fotográficas: a fotografia e fragmentos da história de Londrina. Londrina: Midiograf, 2013. BORTOLOTTI, João Baptista. Entrevista oral. Concedida a Rosana Reineri Unfried em 14 de setembro de 2013. Dois anos de um governo que realiza. Folha de Londrina, Londrina, 1957. A imprensa e o prefeito, p. 42. Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss. LEITE, Otacílio. Entrevista oral. Concedida a Rosana Reineri Unfried em 29 de agosto de 2013. NIERO, Luiz Alberto. História do saneamento básico em Londrina. Londrina: Sanepar, 2009.


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OLIVEIRA, Célia Rodrigues de. Entrevista oral. Concedida a Rosana Reineri Unfried em 28 de agosto de 2013. SAMBATTI, Wagnez. Entrevista oral. Concedida a Rosana Reineri Unfried em 11 de outubro de 2013. SERVIÇO telefônico em Londrina. Correio do Norte, Londrina, 25 jan. 1947. YAMAKI, Humberto. Labirintos da memória: paisagens de Londrina. Londrina: Humanidades, 2006.


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A fotografia como “recriadora” de fatos desaparecidos da memória: a construção do Estádio do Café em 1976


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A fotografia como “recriadora” de fatos desaparecidos da memória: a construção do Estádio do Café em 1976 Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro * Paulo César Boni ** Resumo: Este trabalho apresenta um conjunto de 10 fotografias feitas no dia 14 de julho de 1976, no Estádio do Café, em Londrina, quando, ainda em obras, o estádio recebeu a visita do grupo de jogadores do Londrina Esporte Clube devidamente uniformizados. São fotografias cuja existência não era do conhecimento público até a publicação deste livro. E só estão se tornando conhecidas por um lance de sorte. Um cidadão, que preferiu manter-se no anonimato, achouas no lixo e as levou para a Rádio Paiquerê AM, deixando-as na portaria aos cuidados de um cronista esportivo. Assim, puderam chegar às mãos dos autores para a realização deste trabalho. As fotografias foram analisadas com base em duas propostas metodológicas, ambas desenvolvidas na Universidade Estadual de Londrina: a da intencionalidade de comunicação do fotógrafo e a do uso da fotografia como disparadora do gatilho da memória, a qual alia o registro fotográfico à história oral para recuperação e preservação da memória. A partir de depoimentos de personagens que aparecem nas fotografias – e com o apoio de outras fontes – é feito ainda um relato das razões pelas quais o Estádio do Café é uma obra com lugar de destaque no imaginário da população londrinense. Palavras-Chave: História de Londrina (PR). Fotografia e Memória. Estádio do Café. Londrina Esporte Clube (LEC).

* Jornalista. Graduado em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo, especialista em Comunicação Popular e Comunitária e mestrando em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Email: chicamaro@sercomtel.com.br * * Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Introdução O conjunto de fotografias que vem a público neste estudo traz uma contribuição à História porque se soma a muitas razões que os londrinenses têm para associar a construção do Estádio do Café1 – inaugurado em 1976 – a uma era de notáveis conquistas esportivas para a cidade, as quais tiveram significativos reflexos econômicos e sociais, cujo relevo ainda está para ser quantificado. O imaginário londrinense ficou marcado pela espetacular campanha do Londrina Esporte Clube no Campeonato Nacional de 1977, quando a equipe chegou a disputar uma das semifinais, e pela sucessão de boas razões pelas quais o estádio recebeu grandes públicos para ver importantes jogos protagonizados pelo time da cidade. O Estádio do Café ficou lotado com frequência por cinco anos seguidos – de 1976 a 1981 – e depois de forma mais esporádica. Não é exagero atribuir a um gosto de “voltar àqueles tempos” parte da mobilização dos torcedores quando o time realiza boas campanhas na atualidade. Neste trabalho são apresentadas 10 fotografias feitas no dia 14 de julho de 1976, por ocasião de uma visita dos jogadores ao estádio então ainda em construção (viria a ser inaugurado pouco mais de um mês depois). O valor desse material, para além da razão histórica, está no inusitado das cenas e no fato de terem ficado fora da vista dos londrinenses por tanto tempo, vindo trazer só agora uma contribuição à memória da cidade. São inusitadas porque os jogadores, titulares e reservas, num total de 23, surgem vestidos com o uniforme completo, como se fossem disputar uma partida, em um cenário onde, exceto pelo gramado que parece pronto, seria natural encontrar apenas pessoas com roupas de operário, mestre-de-obras ou engenheiro. As fotografias mostram os jogadores ao lado (e em cima) de montes de pedras; em trilhas que têm o chão manchado do branco da cal; junto a um caminhão carregado com terra. No gramado, formam pequenos grupos, conversam, lançam olhares de admiração ao que encontram à sua volta, alguns recebem explicações de responsáveis pelas obras, outros simulam um “bate1

Oficialmente denominado, desde os anos 1980, Estádio Municipal “Jacy Scaff”, mas cujo nome original – Estádio do Café – se mantém em uso não apenas entre a população, mas também na imprensa de Londrina, razão pela qual é adotado também neste trabalho.


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bola”. Em algumas fotografias, também figuram dirigentes do clube, autoridades municipais, cronistas esportivos e repórteres de jornais, que acompanharam a visita. E há a pose clássica dos times de futebol, com parte dos jogadores agachados e os demais de pé. Este estudo traz uma breve fundamentação teórica sobre a importância da fotografia como documento histórico; prossegue com explicações sobre as providências e metodologias utilizadas no sentido de enriquecer a apresentação do conjunto de fotografias, com informações de contexto de diferentes origens; e se completa com a apresentação propriamente dita das fotografias, acrescida dessas informações.

A fotografia como documento histórico Sem dúvida, uma das razões determinantes da associação entre fotografia e História é o que alguns autores chamam de “proteção contra a passagem do tempo”. Desde que foi inventada, há quase 200 anos, a fotografia tornou-se uma importante fonte histórica, porque funciona como uma extensão do olho e como extensão da memória (HERAS, 2009, p. 19). Assim se explica sua relevante presença na constituição da memória coletiva e a grande utilidade da fotografia para os estudos de História. No caso tratado neste trabalho, sua importância é ainda maior. Em primeiro lugar, porque estamos diante de fotografias cuja existência, de quase 40 anos, era desconhecida. Mas não são apenas fotografias inéditas. Dizem respeito a um fato até então desconhecido, que só pôde ser “recuperado”, “restabelecido”, “re-conhecido”, graças ao testemunho de personagens presentes nas cenas, a quem elas foram mostradas; sem ver as fotografias, essas pessoas só por razões muito remotas poderiam se lembrar do próprio fato, trazendo-o de volta à memória. Ou seja: do ponto de vista histórico, sem essas fotografias, o fato havido nunca teria existido, mas, graças a elas, pôde existir “novamente” e ocupar seu lugar na História.


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Duas metodologias que enriquecem o “achado fotográfico” No presente caso, é natural olhar para o conjunto de fotografias, com imagens de um fato de que ninguém se lembrava, como quem está diante de um achado arqueológico. Heras (2009, p. 21) tem orientações ao pesquisador que se deparar com um acervo de fotografias: O historiador, ao tratar a imagem como documento histórico, deve se portar como quem está diante de um achado arqueológico: é uma peça que se encontra, se resgata, se limpa de possíveis restos que impedem de apreciar o documento, se determinam os elementos que o constituem e se detectam as informações que contém para, finalmente, juntá-lo a outros fragmentos de informação que nos permitam reconstruir esse passado na forma de um mosaico.

São providências que ultrapassam a mera apresentação das fotografias como “objetos históricos”. Duas metodologias serão usadas aqui com esse fim. A primeira é a da intencionalidade de comunicação do fotógrafo, centrada na análise da composição das fotografias, da cena em si. Proposta por Boni (2000), esta metodologia permite inferir, pelas características técnicas e estéticas de uma fotografia, qual era a intenção do fotógrafo ao optar por determinado recorte espaço-temporal da realidade. A observação de que ele lançou mão deste ou daquele recurso, com esta ou aquela finalidade, pode resultar na valorização do seu fazer autoral. Optar pelo melhor plano, escolher o melhor ângulo, selecionar o plano de foco, atentar às regras de composição, decidir pela forma, conferir as condições de luminosidade, inserir ou preterir elementos de significação, contrastar mais ou menos acentuadamente os tons, acentuar ou não a textura, abrir perspectivas, explorar a profundidade de campo, gerar efeitos de tridimensionalidade, criar aberrações, e tantas outras possibilidades, são atitudes que podem conferir um bom arranjo visual na composição e destacar o(s) elemento(s) priorizado(s) pelo fotógrafo, em particular (BONI, 2000, p. 102).

As fotografias deste estudo são analisadas sob esses aspectos, na expectativa de, com isso, se extrair delas uma informação mais completa.


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No segundo caso, este trabalho inspirou-se na metodologia da fotografia como disparadora do gatilho da memória para obter novas informações, que serão acrescentadas às já existentes e formarão o mosaico referido por Heras (2009). A proposta metodológica do uso da fotografia como disparadora do gatilho da memória consiste em aliar “[...] o registro fotográfico à história oral, como um instrumento para obter novas informações, que em depoimentos comuns poderiam não ser rememoradas” (HOFFMANN, 2010, p. 19). É preciso ressalvar que as entrevistas realizadas para este trabalho não cumpriram o rigor das formalidades próprias dos depoimentos aceitos como registros da história oral. A oportunidade de realização deste estudo foi dada pela “descoberta” das fotografias. O resultado desse esforço é narrado a seguir. A única intervenção foi a escolha da ordem de apresentação das fotografias. Todas contêm uma legenda – com os nomes dos personagens retratados – e um texto que se inicia com uma descrição da imagem, com base na metodologia da intencionalidade da comunicação, e prossegue abordando aspectos da construção e do significado do Estádio do Café para a cidade. Os textos foram produzidos a partir de pesquisa bibliográfica e em arquivos de jornais, além de entrevistas feitas com personagens que aparecem nas imagens e outras pessoas que acompanharam aqueles acontecimentos.

Um time em campo em um estádio em obras Por que os jogadores do Londrina Esporte Clube teriam ido, devidamente uniformizados, visitar as obras do Estádio do Café cerca de um mês antes de sua inauguração? Eles foram exatamente... posar para fotografia. Não para as fotografias aqui apresentadas, mas para uma específica, de cunho profissional – a que viria a ilustrar um anúncio publicitário de venda de cadeiras cativas. Até então, a publicidade de venda de cadeiras cativas pela Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel), empresa de economia mista responsável pelo empreendimento, era feita em anúncios sem ilustração fotográfica. Mas, nesse momento, o estádio já tinha gramado e a construção das arquibancadas e demais instalações corria em ritmo acelerado. Então, para estimular o arranque final da venda das 5.000 cadeiras cativas, foi veiculado um anúncio com a intenção de documentar o estado avançado das obras. Daí a produção,


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no estádio, de uma fotografia posada do time em campo, com grande visão do anel das arquibancadas ao fundo, para o anúncio que tomou quase uma página inteira das edições da Folha de Londrina e do jornal Panorama dos dois domingos seguintes, 18 e 25 de julho de 1976. Pode-se perguntar: outras fotografias que tenham sido feitas na mesma ocasião, no mesmo ambiente, com os mesmos personagens, não constituem parte do mesmo fato? Entendemos que, neste caso, não. A fotografia do anúncio (que não está entre as apresentadas aqui) já tem seu lugar na História, sua existência está documentada pelos jornais da época, o que a tornou “fato conhecido”. Mas somos levados a considerar que as fotografias que este trabalho traz à tona se configuram como outro fato, principalmente pelo que suas cenas têm de inusitado, por terem estado até agora ausentes da memória coletiva e porque, sem olhar para elas, os próprios participantes das cenas dificilmente teriam meios de rememorá-las, conforme se verá em alguns depoimentos. O conjunto encontrado no lixo e deixado na portaria da Rádio Paiquerê AM é composto por 16 fotografias, todas inéditas. Por questão de limitação de espaço, visto que enriquecemos o texto com depoimentos de personagens fotografados, neste trabalho são apresentadas, analisadas e comentadas dez fotografias.

1 – Bem mais alto que o “morrinho artilheiro”... Bem mais alto que um “morrinho artilheiro” é o monte de pedras no qual alguns jogadores subiram, em nada sugerindo que estejam em um estádio de futebol. Nesta tomada em plano geral (Figura 1), os elementos vivos – os jogadores – trazem o fator surpresa à cena que, propositalmente, valoriza o terreno e os sinais de obra. A fotografia apresenta bom equilíbrio na composição, e o fato de os personagens estarem voltados para diversas direções causa uma sensação de movimento, convidando o leitor a observar todos os campos da imagem. A perspectiva, provocada pelo caminho no chão, conduz a atenção do leitor em direção ao grupo de jogadores. Além da grande profundidade de campo, o ângulo de contramergulho, com a câmera abaixo da altura do motivo fotografado, valoriza os sujeitos fotografados. A fotografia exibe boa textura – quase se pode “tocar” os torrões de terra na parte inferior.


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Figura 1 – Jogadores do LEC nas obras do Estádio do Café2

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

A propósito da origem destas fotografias, certo dia, poucos anos atrás, o cronista esportivo Fiori Luiz encontrou uma surpresa ao chegar à Rádio Paiquerê, onde trabalha: alguém havia deixado na portaria um pacote endereçado a ele, com um álbum de fotografias e um bilhete sem assinatura. Dizia que aquele álbum estava jogado no lixo, mas o autor do bilhete, percebendo o valor das imagens, o tinha recolhido e o entregava então a quem com certeza haveria de conservá-las em bom lugar. Eram 16 fotografias, todas em cores, todas quadradas e do mesmo tamanho. Fiori admirou-se com a qualidade e a originalidade das imagens. Não tinha lembrança de que pudesse ter havido uma oportunidade para que fossem feitas, no distante julho de 1976. Seu colega de trabalho J. Mateus, veterano como ele, esta2

Da esquerda para a direita: Nino, Anderson, William (encobrindo Fio), Milton do Ó, Dirceu, um jogador encoberto, Toquinho, Lauro, Plínio, Villalba, Robertinho, Canhoto, o preparador físico Pelúcio, Paulo Rogério (encoberto) e, depois do homem de costas, o treinador Gerson dos Santos.


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va por perto quando Fiori desembrulhou o álbum e ficou igualmente surpreso. Pediu para ficar com uma cópia digital. Fiori acabou lhe entregando a guarda do álbum. O Mateus é a nossa enciclopédia. Já escreveu dois livros. Tem o maior arquivo do futebol londrinense e sempre ajuda quem precisa de uma informação do passado do Londrina, de uma estatística. Era justo que também guardasse as fotos3.

Uma façanha de J. Mateus, que se deve ao seu prazer de juntar documentos relativos ao futebol, foi ter se antecipado e percebido que o Londrina Esporte Clube estava perto de disputar o milésimo jogo de sua história, em 1976. “Conheci um torcedor que, como eu, também anotava todos os resultados do LEC. Confrontei os dados, fizemos a soma e pude ter a certeza4”. Precedido de grande promoção, o milésimo jogo foi disputado no Estádio Municipal Vitorino Gonçalves Dias, no dia 7 de março de 1976, contra o União Bandeirante, pelo Campeonato Paranaense. O União venceu por 3 a 1. Quem terá sido o autor destas fotos? Não se sabe (até agora). A fotografia publicitária feita naquele dia e local foi produzida por Airton Procópio dos Santos, o Caximbo, falecido em 2 de fevereiro de 2013. Pedro Scucuglia, então diretor da agência CGD, diz que “nessa época, o Caximbo produzia todas as fotos dos nossos anúncios5”. Os dois jornais então existentes em Londrina – Panorama e Folha de Londrina – mandaram fotógrafos para documentar a visita dos jogadores ao estádio e, no dia seguinte, estamparam fotografias em ângulo semelhante ao da utilizada no anúncio publicitário. As do jornal Panorama estão creditadas: Nani Góis. Mas, consultado a respeito, Nani disse que não fez as fotografias do álbum e nem sabe dizer quem pode tê-las feito. Já a Folha de Londrina não creditou a fotografia publicada. Dois fotógrafos que trabalhavam lá àquela altura também foram consultados: Dorico da Silva e José Pedro de Lima. Eles não 3

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Esta e todas as demais falas do cronista esportivo Nelson Malaguido, o Fiori Luiz, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, na Rádio Paiquerê AM, no dia 12 de junho de 2013. Esta e todas as demais falas do cronista esportivo José Mateus de Lima, o J. Mateus, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, na Rádio Paiquerê AM, no dia 12 de junho de 2013. Esta fala do publicitário Pedro Scucuglia é originária da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, em sua residência, no dia 7 de junho de 2013.


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estiveram no estádio naquele dia. Outros fotógrafos da Folha daquela época já faleceram. Podemos tomar o fato de as fotografias serem coloridas como indício de que seu autor foi ao estádio com a missão específica de documentar a visita dos jogadores para fins particulares, não visando à sua divulgação. Sendo isso verdade, é mais difícil descobrir quem as fez. Mas, observando sua qualidade, era pessoa experiente, acostumada a tomar decisões rápidas e eficazes com uma câmera na mão, como se exige de um fotógrafo da imprensa.

2 – Dispersar, porque há mais para ver Figura 2 – Jogadores do LEC nas obras do Estádio do Café6

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus 6

Da esquerda para a direita: Canhoto, Milton do Ó, William, Fio, Plínio, Décio, Paulo Rogério, Robertinho (encoberto), Carlos Alberto Garcia, Luizinho, Arenghi, Bosco e Carlos Alberto Silva.


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Tomada em plano médio, a fotografia (Figura 2) ganha em textura, especialmente as pedras, pela maior proximidade do tema fotografado. Ao fundo, à esquerda, aparece um elemento novo: um ônibus. O projeto de construção do Estádio do Café esteve associado à hipótese de participação do Londrina Esporte Clube no Campeonato Nacional (como era chamado o atual Campeonato Brasileiro). Isto é: o LEC só teria chance de ser convidado pela Confederação Brasileira de Futebol a disputar o Nacional se pudesse dispor de um grande estádio. Naquela época, em pleno regime militar, o presidente da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD), predecessora da atual Confederação Brasileira de Futebol (CBF) era um almirante – Heleno Nunes. O sistema de convites a clubes para entrar no Campeonato Nacional tinha fundo político. A cada ano, o campeonato inchava mais. Na imprensa, usava-se o bordão “Onde a Arena7 vai mal, um time no Nacional”. Em Londrina a Arena ia mal: a cidade tinha o segundo prefeito seguido eleito pelo MDB8, de oposição. E era certo que, por seu porte, a cidade seria lembrada. Questão de tempo – e de construir um grande estádio. A primeira iniciativa no sentido de conquistar uma vaga no Campeonato Nacional foi do então presidente do Londrina, Fernando Agudo Romão, tomada em 1974. J. Mateus conta, em um de seus livros: Foi na gestão de Fernando Agudo Romão, em 74, que o Londrina deu o primeiro passo para entrar no Campeonato Nacional. Romão foi à CBF na companhia do prefeito José Richa e do Presidente da Federação (Paranaense de Futebol), José Milani, e fez os primeiros contatos (MATEUS, 1996, p. 66).

Uma fonte cita 1º de agosto de 1974 como o dia em que se iniciou a construção do Estádio do Café, “mas em ritmo lento” (BUBNIAK, 2010). O nome havia sido dado pelo jornalista Délio César e “pegou”. Só em 1976, ante a “iminência” do anúncio do convite da CBD ao LEC, é que a obra ganharia ritmo acelerado: o campeonato começava em agosto. O local escolhido para a construção do estádio também está cercado de simbolismos. Existiam então muito poucos bairros no lado externo da Avenida Brasília (em relação ao centro da cidade), na hoje importante e urbanizada Zona Norte. O 7 8

Arena – Aliança Renovadora Nacional, partido do governo. MDB – Movimento Democrático Brasileiro, partido de oposição ao governo.


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terreno onde o estádio foi construído já pertencia à Prefeitura do Município de Londrina e estava limpo. A gestão anterior o havia reservado para a instalação da estação de passageiros de uma futura variante ferroviária da qual ainda não existia projeto, mas que era certo que seria feita. Então, decidiu-se fazer ali o estádio – e a variante ferroviária passaria um pouco mais ao norte. A escolha trouxe vantagens econômicas e tornou a obra mais rápida. “O terreno já era um platô. Bastou tirar parte da terra do centro e colocá-la nas bordas, para fazer o anel das arquibancadas”, explica o então presidente da Codel, João Bespalhok9. Naquele local, foi possível fazer um estádio em que todo o público, mesmo com as arquibancadas lotadas, tem uma bela vista da cidade, graças ao formato em ferradura; e a presença do estádio tornou-se uma espécie de razão definitiva para a cidade voltar sua atenção para a Zona Norte, dirigindo para ali o seu desenvolvimento nas décadas seguintes.

3 – O prefeito também veio ver as obras Nesta tomada em plano médio (Figura 3), o personagem do centro monopoliza a atenção por ser o único que está de frente para a câmera; os outros três estão de costas. A presença do ônibus ao fundo mostra que está havendo um “evento”. A composição é equilibrada e a noção de perspectiva é grande: o personagem central parece vir “crescendo” em direção à câmera, enquanto lá muito ao fundo está uma cidade “inteira”. O mais curioso: a fotografia parece contradizer a definição segundo a qual o ângulo de mergulho, com a câmera acima do motivo fotografado, desvaloriza o sujeito, diminuindo-o. É certo que a figura central é menor que a do homem à direita, mas, por estar de frente e caminhando em direção à câmera, a uma distância pequena, saiu amplamente valorizada. Sabendo que os jogadores do LEC iriam ao estádio, o prefeito José Richa também compareceu. Estaria querendo apenas conquistar alguns votos, ligando sua imagem ao futebol, o esporte mais popular do Brasil? Nada mais falso, segun-

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Esta fala de João Bespalhok é originária da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, por telefone, no dia 8 de junho de 2013.


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do depoimentos tomados para este trabalho. A paixão de José Richa pelo futebol era autêntica. J. Mateus chega a dizer: “Se o prefeito de Londrina não fosse José Richa, talvez o Estádio do Café sequer tivesse sido construído”. Fiori Luiz, que atuava na política ao lado de José Richa, corrobora essa afirmação: “O Londrina queria disputar o Campeonato Nacional. O Richa entrou em contato com a CBF: ‘Mas vocês não têm campo...’ Ele disse: então nós vamos construir um estádio”. Figura 3 – Autoridades e jornalistas em visita às obras do estádio10

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

J. Mateus observa que José Richa acompanhava a vida do time como torcedor desde muito antes de se cogitar a construção do estádio: Faço esta afirmação: não conheci um prefeito de Londrina que gostasse mais de futebol que o José Richa. Mas não digo isso por causa da construção do Estádio do Café. Ele ia assistir jogos do Londrina em União da Vitória, em Curitiba, em Apucarana, no Estádio do Café... Eu vi, eu estava lá, trabalhan10

Prefeito José Richa (de frente), presidente da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel), Manuel Machado (atrás de Richa), repórter Chiquinho de Assis (de calça clara) e o cronista esportivo Francisco Natal (de costas, à direita).


112 do. A motivação dele não podia ser política. Ir a União da Vitória para ver jogo do Londrina? Isso era um gesto anônimo. Depois outros prefeitos tentaram associar sua imagem ao sucesso do Londrina, mas aí já era por interesse político mesmo.

Não bastasse, o testemunho do ex-jogador Toquinho, um dos que estiveram no Estádio do Café no dia das tomadas fotográficas, tem caráter definitivo: O José Richa era um apaixonado pelo nosso time. Mesmo quando prefeito, ele vinha até nós frequentemente. Vinha conversar, saber da nossa vida. Em 73 fiz uma cirurgia, ele foi ao hospital me visitar. Não fez isso só comigo. Não esqueço, porque ele era londrinense e realmente nos incentivava. Nunca dizia nada que fosse crítica aos jogadores11.

4 – Ver de perto, quase “sentir”: o estádio está nascendo O plano médio, embora preserve a importância das figuras humanas nesta fotografia (Figura 4), deixa clara a intenção de mostrar o cenário de obra, não só graças aos elementos que estão à frente, mas também aos do fundo. Plasticamente, a imagem é muito bonita. Os dois homens que dão explicações aos outros dois gesticulam, fato que dá movimento à cena. A fotografia também transmite a impressão de textura e a noção de perspectiva. Jaci Scaff era o presidente do Londrina Esporte Clube em 1976; estava no estádio, naquele dia, para participar da recepção ao time e ao prefeito. Não era engenheiro, mas, na imagem, parece estar dando alguma “informação técnica” a José Richa. De pé, aparece Amador Bortoletto, então chefe do setor de obras urbanas da Prefeitura, dando explicações ao diretor de futebol, Ismael Salim. Jaci Scaff é hoje o nome oficial do Estádio do Café – Estádio Municipal “Jaci Scaff”. Morreu em 1986. A associação de seu nome ao estádio lhe faz justiça por uma razão relevante: ele montou um time muito mais caro e com jogadores muito mais qualificados, no preciso momento em que a construção 11

Esta e todas as demais falas de José Rubens Bernardo, o Toquinho, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, em seu local de trabalho, no dia 15 de junho de 2013.


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do estádio precisava da mobilização da cidade. Jogadores de grande nome vieram para cá naquele ano. Para citar alguns: Natal e Lauro, do Cruzeiro; Paraná, do São Paulo e com passagem pela Seleção Brasileira; Arenghi, da Portuguesa de Desportos; Marco Antônio, do Corinthians. Outros menos famosos também jogavam muito bem. Formou-se um time de vitórias seguidas e grandes goleadas, dentro e fora de casa, no Campeonato Paranaense disputado no primeiro semestre de 1976. O time ganhou o apelido de Tubarão, termo utilizado pela primeira vez pelo cronista esportivo Rubens Fernando Cabral, sob inspiração do filme homônimo de Steven Spielberg, sucesso de bilheteria nos cinemas no ano anterior. Eram muitas as razões para o entusiasmo. A torcida londrinense “se acostumou” a ter bons times, e os teve em muitas ocasiões desde então, graças a Jaci Scaff. Figura 4 – De pé: uma pessoa não identificada, Amador Bortoletto e Ismael Salim; agachados: Jaci Scaff e o prefeito José Richa

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus


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É fato notório, muitas vezes noticiado em jornais antes desse período, que Jaci Scaff atuava no jogo-do-bicho, do que se pode deduzir que era essa a origem das boas quantias de dinheiro que foram aplicadas na formação do time de 1976. A associação entre jogo-do-bicho e futebol é histórica no Brasil. Ismael Salim, outro diretor do clube, que era fazendeiro, também colocava a mão no bolso. Fiori Luiz acredita, porém, que o clube tinha boa arrecadação própria: O Londrina tinha a sede campestre, com piscina, que os sócios frequentavam, chegou a ter 12.000 sócios pagantes. Havia receita. Hoje isso não existe mais, nem aqui nem em outros lugares, os grandes clubes estão todos endividados. Mas naquela época havia dinheiro.

O ex-jogador Toquinho dá um depoimento a respeito de Jaci Scaff no qual se vê um elevado grau de informalidade nas relações do presidente com os jogadores: Eu era jovem e o Jaci Scaff era o meu segundo pai. Eu ficava mais na casa dele do que na minha. Ganhávamos pouco. Não passávamos dificuldades, mas não sobrava. Eu sabia a hora que ele estava em casa, a hora que ele ia ao campo, tudo. Geralmente eu ia de manhã à casa dele, acabava almoçando lá e depois pedia um vale. Ele nunca deixou de me ajudar e não descontava os vales no pagamento.

5 – Para o craque entender o que está sendo feito Esta é uma das cenas (Figura 5) mais interessantes da série, por mostrar, em plano médio, o jogador uniformizado recebendo explicações do mestre-deobras, em um terreno lamacento e diante de um caminhão de terra. Fica clara a presença de espírito do fotógrafo, sua compreensão de que estava registrando um evento raro e inusitado. Como os dois personagens estão olhando para o horizonte, a fotografia passa a ideia da grandiosidade da obra. A composição é boa: como os personagens estão um pouco mais à direita, o caminhão ao fundo também ganhou status de “personagem”. Existe noção de perspectiva e de movimento, no gesto do personagem da direita.


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Figura 5 – O jogador Marco Antonio e Amador Bortoletto, chefe do setor de obras urbanas da Prefeitura

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

Marco Antônio era um ídolo da torcida, ponta-esquerda endiabrado, driblador, que tinha feito sucesso no Corínthians antes de vir para o Londrina. Carismático e dado a encenações, como se pode ver nesta imagem, na qual saiu com ar preocupado, como se tivesse responsabilidades sobre a obra e estivesse recebendo explicações. Quem lhe dá explicações é Amador Bortoletto, então chefe do setor de obras urbanas da Prefeitura. “Abaixo dos engenheiros, era eu. Pavimentamos e empedramos muitas ruas da cidade”, disse Bortoletto12". Quando a obra do estádio entrou na reta final, ele foi chamado e levou boa parte do maquinário e cerca de 100 operários (metade do seu contingente) para lá, para acelerar o trabalho. 12

Esta e todas as demais falas de Amador Bortoletto, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, em sua residência, no dia 13 de junho de 2013.


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Atropelado pelas recordações ao ver estas fotografias, cuja existência desconhecia, informa que levou para lá “dois tratores de esteira, duas motoniveladoras e duas pás carregadeiras”. Empreiteiras também trabalhavam no local. O estádio, prossegue Bortoletto, foi “uma obra rápida, mas para isso trabalhávamos até às 11 horas da noite muitas vezes. E íamos até mais tarde, quando era preciso”. Amador Bortoletto foi uma das pessoas que mais se emocionou ao se ver nas fotografias deste trabalho.

6 – Finalmente em campo: jogadores, bola e, ao fundo, a arquibancada Figura 6 – William, o mascote Fábio Scaff, Paraná, Carlos Alberto Garcia, Robertinho, Dirceu, Canhoto, Carlos Alberto Silva, Plínio, Décio, Nino e Anderson

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus


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Esta fotografia (Figura 6), em plano geral, é uma das poucas em que se pode observar que as arquibancadas, ao fundo, já estão em construção. Também é a primeira em que se vê o gramado. Com o destaque que ganhou, o gramado adiciona a impressão de textura no primeiro plano. A imagem mostra a descontração dos jogadores, simulando um bate-bola. O ângulo em que a tomada foi feita contribui para abrir a noção de perspectiva. Três dos jogadores que aparecem neste conjunto de fotografias deram depoimentos para este trabalho. Só esses três, e mais um que não se interessou pelo convite para conhecê-las ao ser contatado, moram em Londrina hoje. O que manifestou maior surpresa e admiração ao olhar para as fotografias foi Carlos Alberto Garcia, aquele que se prepara para chutar a bola, na figura 6, um dos maiores ídolos que o Londrina já teve, o primeiro nome que qualquer torcedor com mais de 50 anos associa à grande campanha do time no Campeonato Nacional de 1977. “Como a minha memória é fraca... Eu não lembro disto, do dia destas fotos”, diz Garcia13. Ele nunca teve a disciplina de guardar recordações relacionadas ao futebol. Mas a visão das fotografias feitas naquele 14 de julho de 1976 dispara-lhe o “gatilho da memória”: Olha o Fio, meu compadre, fui padrinho do filho dele... O Arenghi já faleceu, e o Anderson também, em acidentes de trânsito. O Marco Antônio acho que faleceu. O Salim (diretor de futebol) gostava muito de mim. O Jaci (presidente) aparecia com ‘um bolo’ de dinheiro vivo no bolso e distribuía para a gente ao fim dos treinos, era um extra que não era descontado do salário.

“Olha como era a grama”, diz Garcia, quase sob feitiço. Ele lembra que “o gramado era muito fofo e tinha muitas ondulações”. Isso causou estranheza nos jogadores no jogo de inauguração do estádio, contra o Flamengo. “A bola vinha mas você tinha que esperar para ver se ela ia chegar mesmo em você. O gramado era mais pesado, enquanto o do [Estádio] Vitorino era durinho”. Ante o comentário do entrevistador de que o autor das fotografias parecia ter uma predileção por Marco Antônio, Garcia responde: “Ah, mas ele era o melhor do time. Quando ele pegava na bola, a torcida levantava”. 13

Esta e todas as demais falas de Carlos Alberto Garcia, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, em seu local de trabalho, no dia 15 de junho de 2013.


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Dos jogadores que seriam titulares na grande campanha do Londrina no Nacional de 1977, apenas quatro já estavam em Londrina em julho de 1976 e aparecem no conjunto de fotografias: o goleiro Paulo Rogério, o zagueiro Arenghi, o lateral Dirceu e Carlos Alberto Garcia, que era meia e se transformaria em artilheiro da equipe. Com o sucesso, Garcia foi vendido ao Vasco da Gama e depois jogou em outros times. Mas voltaria a viver em Londrina ao encerrar a carreira, aos 31 anos. Garcia era o “queridinho” da torcida, porque, a partir de certa altura, passou a jogar beijos em direção às arquibancadas, na comemoração de seus gols. Tornou-se o “Carlos Alberto Beijinhos”. Especulando sobre as razões que levaram o Estádio do Café a um patamar tão alto no imaginário coletivo londrinense, como momento de realização e sucesso, Garcia dá a seguinte explicação: A união das pessoas em torno da construção do estádio para o time entrar no Nacional fez toda diferença. Vieram os políticos todos, numa época em que a política não tinha a rejeição de agora. Não tínhamos medo de estar com o prefeito, secretários e outros, vivíamos o clima junto com a cidade. Quando saiu a notícia do convite oficial da CBF, eu posei para um fotógrafo de jornal soltando foguete, no treino. Saiu na primeira página. Nunca suportei fogos estourando perto de mim. Mas naquele dia eu soltei um foguete porque sabia que aquilo era importante para nós, jogadores. A gente estava feliz de verdade.

7 – O “anfitrião” Marco Antônio mostra “a casa” a Toquinho Esta é uma fotografia (Figura 7) em que os personagens recebem grande destaque, e suas expressões têm grande importância. Tomada em plano médio, traz uma cena bem humorada. Talvez Marco Antônio esteja transmitindo a seus companheiros as explicações que recebeu de Amador Bortoletto, e Toquinho acha graça. O ponta-esquerda Marco Antônio morreu em outubro de 1994, aos 43 anos. Iniciou carreira em Sorocaba, foi para o Corinthians, onde ganhou notoriedade, mas sofreu uma grave contusão e ficou meses sem jogar. Recuperado, era ambicionado pelo Flamengo, mas desentendimentos no Corinthians o obrigaram a aceitar ir para um clube bem mais modesto – o Londrina. Não ficou aqui muito


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tempo, mas deixou saudades pela qualidade de seu futebol e pela empatia com a torcida. Figura 7 – Plínio (de costas, ao fundo), Dirceu, William, Marco Antônio e Toquinho; caminhando, o repórter Nadinho Trindade, do jornal Panorama

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

Toquinho, que jogava de médio volante, concorda com Garcia quanto às qualidades de Marco Antônio, mas as fotografias lhe despertam outro comentário: “Olhando para estas fotos, posso afirmar que o time de 1977 era bom, como todos dizem, mas este, de 1976, era melhor”. Com um sorriso discreto e permanente nos lábios, Toquinho diz que gosta de recordar sua vida no futebol: “O futebol foi um sonho de criança realizado. Joguei contra jogadores de nome, contra grandes times”. Começou no Londrina aos 16 anos, em 1971. Vendo o mascote (Fábio Scaff, filho do presidente Jaci Scaff) nas fotografias, comenta: “Tenho muitas fotos em casa em que aparece um monte de meninos junto com a gente. Hoje são pais de família”. Volta às fotografias com


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frequência. “Tenho aqui um livro que saiu quando o Londrina fez 50 anos, em 2006. Forneci muitas das fotos publicadas com o time formado. Gosto de curtir porque, anos seguidos, apareço em todas como titular do Londrina”. Toquinho não participou da grande campanha de 1977, embora estivesse no Londrina. Disputou três vezes o Campeonato Nacional – em 1974 e 1975 pelo Atlético Paranaense, emprestado, e em 1976 pelo Londrina. Em 1977 não jogou porque um diretor do Londrina o proibiu de treinar ao longo de todo o ano. “É um problema que não esqueço, porque eu podia ter sido titular naquela campanha, como fui todos os anos em que estive no Londrina”, afirma. Do primeiro Nacional do Londrina, em 1976, embora o time tenha tido um desempenho fraco, Toquinho guarda boas recordações. “Faltou-nos experiência”. Mas um jogo contra o Cruzeiro de Palhinha e Dirceu Lopes, em Belo Horizonte, está vivo em sua memória. Era nosso último jogo e eles precisavam ganhar por 2 a 0 para se classificar. Se perdêssemos por 1 a 0, passava a Portuguesa. Pois nós não ganhamos aquele jogo por infelicidade. Perdemos de 1 a 0 e eu ganhei o prêmio de melhor jogador entre os 22 em campo. O Cruzeiro quis me contratar, a Portuguesa também. Mas um diretor falou que o Toquinho não estava à venda. E eu vendo que aquele era o momento certo para sair, ganhar algum dinheiro, eu era novo... Mas não fui vendido. A vida é feita de tristezas e alegrias.

Toquinho viria a jogar em clubes do interior de São Paulo, mais tarde. Mas encerrou a carreira ainda jovem, como reconhece, aos 28 anos. O atleta não tinha muito valor na época. Ao fim de um belo campeonato, te ofereciam o mesmo que você já ganhava para reformar o contrato. Eu tive a graça de Deus de aprender a fazer outra coisa depois do futebol, sou corretor de seguros.

8 – Os jogadores brincam, mas o mascote está compenetrado do seu papel Uma cena (Figura 8) com equilíbrio e boa composição: as nuvens lhe dão beleza. Os jogadores se apresentam em formação semelhante à de um time que acaba de entrar em campo para cumprimentar a torcida antes de um jogo, mas é


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tudo informal – este time tem 12 jogadores, e três são goleiros. Embora os sinais de obras não estejam nítidos, encobertos pelos jogadores, um detalhe brinca com a imaginação do leitor: o holofote à direita está de costas para o campo. Figura 8 – William, Anderson, Dirceu, Plínio, Villalba, Robertinho, Marco Antônio, Fio, Paulo Rogério, Carlos Alberto Silva, Toquinho, Luizinho e o mascote Fábio Scaff

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

O mascote é Fábio Scaff, filho do presidente Jaci Scaff. Tinha 9 anos quando estas fotografias foram feitas, e já tinha completado 10 um mês depois, quando novamente entrou com os jogadores do Londrina em campo nos dois primeiros jogos disputados no novo estádio: dia 22 de agosto, domingo à tarde, contra o Flamengo, placar de 1 a 1 (Paraná, de pênalti, fez o gol do Londrina) e dia 25 de agosto, quarta-feira à noite, contra o Corinthians, na inauguração dos refletores, Londrina 1 a 0, gol de Carlos Alberto Garcia. Público superior a 50.000 pessoas em cada jogo.


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Fábio guarda lembrança do desejo do pai de ver o estádio concretizado para que o Londrina pudesse participar do Campeonato Nacional. “Era um sonho dele14”. Orgulha-se de saber que o nome do pai foi dado ao estádio. “Uma homenagem que guardamos com carinho”. Na infância, com frequência ele era levado pelo pai para assistir aos jogos, mesmo em outras cidades, onde a rivalidade era grande. “Eu estava sempre junto com ele, em Maringá, Bandeirantes, aquelas ‘pauleiras’, mas não fui vítima de nenhum tipo de violência, nem eu nem meu pai”. Lembra também que nem precisava ir ao campo para viver e respirar futebol: “Todo dia, havia três ou quatro jogadores na minha casa, almoçando, jantando, pegando vale com o meu pai. O futebol não era tão profissional como hoje, os atletas viviam lá. E aquilo era a paixão da minha vida”. Mas o fato associado ao Estádio do Café com maior relevo na memória Fábio Scaff, e que ele cita espontaneamente, ao ver as fotografias aqui apresentadas, é a pressa com que a obra foi terminada. Não lembro de detalhes, mas sei que na época foi uma correria para aprontar o estádio para o Londrina entrar no campeonato. A toque de caixa, o prefeito José Richa conseguiu terminar o estádio. Aquilo ficou marcado para mim, a forma como o Londrina entrou nos seus mais áureos tempos.

Entre os três jogadores entrevistados para este trabalho, o que tem maior afinidade com a imagem como registro e como objeto que produz recordação é Robertinho, um aficcionado por fotografias e filmes. Atualmente, aliás, ele é empresário do ramo: organiza campeonatos de futebol amador, futebol de salão e futebol suíço e faz filmagens dessas competições. Também tem um programa regular na televisão. Robertinho espantou-se ao ver as fotografias deste trabalho. Não sabia que existiam. Mas, diferentemente de Carlos Alberto Garcia, tinha lembrança da data em que, com seus companheiros, compareceu ao Estádio do Café em obras para posar para a imagem publicitária. Toquinho também se lembrava. Robertinho foi mais longe: ele detém, desde então, uma cópia, em papel fotográfico, da fotografia em preto-e-branco publicada pela Folha de Londrina no dia seguinte à ida dos jogadores ao estádio, ilustrando a notícia da visita. 14

Esta e todas as demais falas de Fábio Scaff, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, em sua residência, no dia 17 de junho de 2013.


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“Quem me deu foi o Orozimbo Novaes [já falecido], que era fotógrafo da Folha. Não sei quem foi ao estádio pela Folha naquele dia, mas eu conhecia o Orozimbo e lhe pedi que me arrumasse uma foto”, conta15. Por que pediu? “Pedi porque gosto de ter comigo essas lembranças. Tenho vários álbuns com fotos e recortes de jornais”, conta. “As fotos do time no Estádio do Café nesse dia, que saíram nos jornais, eu recortei e guardei. Uma saiu no Diário do Paraná, de Curitiba”, complementa. Seu apego a imagens como objetos vinculados à memória e à História faz com que ele fale como um acadêmico: Você se identifica com tudo aquilo. Guardar uma imagem no cérebro é uma coisa, mas ver de novo o que se passou preenche muito mais os vazios da nossa memória. Sempre me liguei em preservar a história para curtir depois. Filmo jogos. Na hora os participantes não dão valor, mas depois vêm me pedir as imagens para recordar. E muitas vezes eu as tenho guardadas.

Robertinho encerrou muito cedo a sua carreira no futebol, aos 21 anos, de forma abrupta. Prata da casa, sua posição era o meio de campo. Chegou ao time profissional do Londrina em 1975. Em 1976, Carlos Alberto Garcia foi contratado para a mesma posição e se tornou o titular. No entanto, quando ia começar o Campeonato Nacional, Garcia foi embora. Ao ser procurado para renovar contrato, tinha pedido aumento e ouvido uma negativa, acompanhada do seguinte argumento: “Nós temos um jogador tão bom quanto você para a sua posição, o Robertinho, não sentiremos sua falta”. Era a grande oportunidade do reserva. Mas Robertinho não perdera o hábito de disputar peladas com os amigos no campo da Vila Recreio, onde crescera. Para seu azar, quebrou um tornozelo em uma dessas peladas e ficou três meses andando de muletas. Quando completou sua recuperação, Carlos Alberto Garcia já havia voltado para o Londrina (seria a grande estrela da campanha do Nacional de 1977) e ele teve que amargar o banco de reservas. Segundo ele: Aquilo me desestimulou. Me desgostei de tal maneira com a oportunidade perdida por causa de uma besteira que não consegui me recuperar mental15

Esta e todas as demais falas de Roberto Maria Bruce, o Robertinho, neste texto, são originárias da entrevista que ele concedeu a Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, em seu local de trabalho, no dia 17 de junho de 2013.


124 mente. Continuei jogando na Vila Recreio... Tive uma oportunidade de jogar showbol, mas me machuquei de novo. Futebol profissional não era para mim mesmo.

A mágoa parece evidente, mas quem cultiva recordações através de imagens como Robertinho, não vive de mágoas. “Graças a Deus, tenho muitas amizades dessa época e posso dizer que o futebol só me deu alegrias”. Quanto ao Estádio do Café, ele referenda as palavras de Carlos Alberto Garcia ao falar do clima vivido pela cidade durante a sua construção e compartilhado pelos jogadores: Vivia-se uma euforia muito grande. O estádio era enorme, comparado com o [Estádio] Vitorino. Todos nós queríamos jogar lá. E então, com a confirmação de que o Londrina ia mesmo disputar o Campeonato Nacional, o entusiasmo cresceu. A empolgação era geral, dos jogadores e da cidade.

9 – Finalmente, a pose para a posteridade Enfim, em plano geral, o fotógrafo registra uma imagem (Figura 9) tipo formação oficial do Londrina Esporte Clube no Estádio do Café. A composição apresenta bom equilíbrio visual e adequação às finalidades da encenação. Pelo ângulo escolhido, os jogadores surgem em uma formação côncava, imitando o formato das arquibancadas ao fundo. O grande espaço ocupado pelo gramado à frente, a grande distância das arquibancadas ao fundo, tudo sugere a grandiosidade do ambiente e remete ao futuro, aos “grandes espetáculos” que ali seriam apresentados. O Estádio do Café traz lembranças gratas a muitos jogadores que ali passaram momentos de realização pessoal e profissional, mas a mente é capaz de associações que levam do passado com ar encantador aos eventuais percalços que a vida reservou para depois. Robertinho disse que sua desilusão com uma contusão grave em uma pelada foi tão grande que não se recuperou psicologicamente e abandonou a carreira aos 21 anos. Mesmo assim, encontrou motivos para viver de outra forma e guarda na mente (e nas fotografias e documentos nas gavetas) as alegrias daquela época.


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Figura 9 – Fotografia “oficial” dos jogadores e comissão técnica do Londrina Esporte Clube16

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

Toquinho também é grato ao passado, mas declara que foi “uma graça de Deus” ter tido oportunidade de aprender a fazer outra coisa depois de encerrar a carreira de jogador. “Quando estamos jogando, nos prometem muito, mas quando precisamos mesmo não encontramos suporte”, diz. “Ao voltar para Londrina, passei por dificuldades, mas tive a sorte de poder aprender a ser corretor de seguros. Já estou nesta atividade há 15 anos”. No entanto, o depoimento mais contundente sobre as dificuldades com que um jogador de futebol se depara para fazer a transição do papel de atleta para o de pessoa comum é dado por Carlos Alberto Garcia. Talvez por ser, 16

Em pé, da esquerda para a direita: Lauro, Pontes, Dirceu, Paulo Rogério, William, Anderson, Plínio, Diaz, Luizinho, Arenghi, Milton do Ó, Villalba, o preparador físico Pelúcio e o treinador Gerson dos Santos; agachados, no mesmo sentido: Leitão (massagista), Nino, o mascote Fábio Scaff, Carlos Alberto Silva, Carlos Alberto Garcia, Toquinho, Paraná, Robertinho, Bosco, Canhoto, Marco Antônio, Fio e Décio.


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entre os três, o que cumpriu, por um bom período, o papel de ídolo. Garcia diz que o choque do fim da carreira (para ele, aos 31 anos) foi grande. Não deve passar de 10 por cento o número de jogadores que não sofrem com depressão e saudades e não precisam da ajuda de terceiros ao abandonar o futebol. Eu entendo os que sofrem. O olhar das pessoas muda em relação a você. A saudade é enorme e a depressão vem. Senti isso durante um ano, mas consegui reagir, tinha que me sustentar. Quando era jogador, eu andava de táxi sem pagar, comia em restaurante sem pagar. Depois do fim da carreira, temos que pagar tudo.

Garcia voltou para Londrina e não saiu mais daqui. Foi vereador e até presidente do Londrina Esporte Clube, por breve período. Mas o mais curioso, nessa recordação dos primeiros tempos de ex-jogador, é o que ele diz de sua relação com o Estádio do Café: Saiba que, depois que parei de jogar futebol, fiquei 10 anos sem ir lá. Sumi, passei a me dedicar ao novo trabalho e não apareci mais lá. Até hoje me emociono. Só voltei para levar meu filho pequeno para conhecer. Não é fácil relembrar. Outro dia estive no vestiário do [Estádio] Vitorino e digo que até o cheiro é o mesmo de quando a gente jogava e treinava lá. No Estádio do Café, os azulejos do vestiário são os mesmos de 40 anos atrás. É difícil enfrentar a saudade.

Garcia acha que tudo o que viveu no futebol valeu a pena. Mas “gostaria de estar jogando até hoje...”. Como não pode, contenta-se em agradecer pelas amizades que fez na vida, graças ao futebol.

10 – Outro ângulo e a mesma expectativa de sucesso O fotógrafo moveu-se para a esquerda. Obteve o mesmo efeito geométrico da fotografia anterior, mas colocou dois detalhes relevantes – ou que fazem diferença em relação ao padrão seguido até aqui: o lance de arquiban-


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cadas já cimentadas aparece com grande nitidez ao fundo (ocupam metade do barranco) e, no alto, vê-se uma construção já com cobertura, isto é, adiantada. Há também, na fotografia (Figura 10), a presença de duas crianças à direita, que não aparecem nas anteriores. Figura 10 – Jogadores e comissão técnica do Londrina Esporte Clube

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo pessoal do cronista esportivo J. Mateus

Considerações finais A fotografia tem este valor inesperado: devolve a vida a fatos que já haviam sido apagados da memória de uma pessoa. Reencontrar a fotografia antiga, que há muito não se via, já é uma emoção. Deparar-se com fotografias que sequer se sabia que foram feitas, e lá encontrar-se a si próprio, 40 anos mais tarde, cria um feitiço ainda maior – acrescenta imagens novas ao repertório que dá o alicerce ao que pensamos da nossa própria trajetória de vida.


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As imagens do dia em que os jogadores do Londrina Esporte Clube visitaram o Estádio do Café em obras, aqui apresentadas, trouxeram, para várias pessoas, toda sorte de satisfações oferecidas pela fotografia antiga. Uma imagem não traz apenas uma lembrança, mas muitas. É essa avalanche de lembranças conexas com aquilo que se vê, em uma fotografia específica, ou em uma sequência de fotografias (como neste caso), que reativa a memória e pode produzir ou reorganizar a história. Os “efeitos” das fotografias, portanto, extrapolam muito as cenas que elas retratam, mostram muito mais que aquilo que se vê nelas. Tudo isso se constatou neste trabalho. A metodologia da “intencionalidade de comunicação” teve importante papel: ajudou a referendar a boa qualidade do trabalho realizado pelo fotógrafo. Quanto melhor a fotografia, melhor a sua condição de documento, mais eficaz o seu efeito como disparadora do “gatilho da memória”. Se houver restrição a fazer ao uso da fotografia como instrumento capaz de produzir História, pode ser esta: diante de uma fotografia “velha”, afloram emoções que interferem na fidedignidade de um depoimento a respeito dos fatos relacionados àquela cena. O real e o imaginário se misturam. Não se deve, porém, conferir a esta questão importância exagerada. A confusão entre real e imaginário é relevada quando se lhe dá o nome de experiência – experiência humana. E não é da narração da experiência humana que trata a História?

Referências BONI, Paulo César. O discurso fotográfico: a intencionalidade de comunicação no fotojornalismo. 2000. Tese (Doutorado em Ciências da Comunicação) – Universidade de São Paulo, São Paulo. ______. Linguagem fotográfica: objetividade e subjetividade na mensagem fotográfica. Formas & Linguagens, Ijuí, ano 2, n. 5, p. 165-187, jan/jun 2003. BUBNIAK, Geraldo. Estádio do Café completa 34 anos. 22 ago. 2010. Disponível em: <http://www.futebolparanaense.net/not.php?id=9265&titulo= estadio-do-café-completa-34-anos> Acesso em: 25 jun. 2013.


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HERAS, Beatriz de las: Imágenes de una ciudad sitiada: Madrid 1936-1939. Madrid: Ediciones JC, 2009. HOFFMANN, Maria Luisa. Guardião de imagens: “memórias fotográficas” e a relação de pertencimento de um pioneiro com Londrina. 2010. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina. MATEUS, Jorge. Londrina Esporte Clube 40 anos: do Caçula Gigante ao Tubarão. Londrina: Midiograf, 1996. NÓS já estamos aqui: agora só falta você. Jornal Panorama, Londrina, 18 jul. 1976. QUINTELLA, Sérgio. Que fim levou? Marco Antônio Visgo: Ex-ponta esquerda do Corinthians. 2010. Disponível em: <http://terceirotempo.bol. uol.com.br/quefimlevou/ qfl/sobre/marco-antonio-visgo-4347.html>. Acesso em: 31 jul. 2013. TEIXEIRA, Juliana de Oliveira. A proposta metodológica da fotografia como disparadora do gatilho da memória: aplicação à história de Telêmaco Borba-PR (1950-1969). 2013. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina.


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Londrina revisitada: a fotografia como registro histórico de duas épocas


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Londrina revisitada: a fotografia como registro histórico de duas épocas * Paulo César Boni ** Jocelia Rosa da Silva Vitachi *** Resumo: Este trabalho discute a importância dos registros fotográficos para a construção da história. Atualmente, muitos historiadores usam a imagem como instrumento de apoio à pesquisa e produção de informação e conhecimento de épocas passadas. Nesta direção, este estudo utiliza a fotografia como registro histórico para mostrar Londrina em duas épocas, comparando imagens da década de 1940 com outras, dos mesmos locais, tomadas em 2008 (algumas foram tomadas em 2014 apenas para atualizar o leitor, porque os espaços fotografados estavam em construção ou reformas em 2008), processo que se convencionou chamar de “revisita histórico-iconográfica”. A escolha da década de 1940 se deu pelo expressivo desenvolvimento sócio-econômico vivido na época, o que propiciou, inclusive, a produção de álbuns com fotografias de vários pontos “importantes” da cidade. Na maioria das vezes, no entanto, esses registros não foram feitos com o intuito de preservar a memória, mas sim como mero produto vendável em bancas e papelarias, uma espécie de souvenir de Londrina. Com a revisita históricoiconográfica – e a comparação das imagens – foi possível recuperar dados históricos importantes das duas épocas, e contribuir com a construção da história, ao evidenciar o progresso ocorrido nesse interstício. Palavras-chave: História de Londrina (PR). Fotografia e Memória. Revisita histórico-iconográfica. José Juliani.

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Este trabalho, com algumas adaptações, foi apresentado no II Eneimagem – Encontro Nacional de Estudos da Imagem, realizado na Universidade Estadual de Londrina (UEL), de 12 a 14 de maio de 2009. * * Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br ***Especialista em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: jocelia_vitachi@yahoo.com.br


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Introdução A cada dia, mais e mais historiadores utilizam imagens como instrumentos de apoio à pesquisa e produção de informação e conhecimento de tempos passados. Nesta direção, este trabalho ressalta a importância dos registros iconográficos para a construção da história. A fotografia foi muito importante para a recuperação de dados históricos da cidade de Londrina. A certidão de nascimento de Londrina é uma fotografia tomada por George Craig Smith, no início de sua colonização. Funcionário da Companhia de Terras Norte do Paraná, fez algumas tomadas para demonstrar como era a região e a chegada da colonizadora ao local. Anos mais tarde – e ao longo de quase duas décadas – o fotógrafo José Juliani fez muitos outros registros, da colonização, das culturas e da cidade emergente, utilizados pela CTNP como estratégia mercadológica, para divulgar no Brasil e no Exterior a fertilidade das terras e a riqueza do lugar. Em sua maioria, as primeiras fotografias de Londrina foram tomadas para o registro de algum fato relevante – inaugurações, conquistas, comemorações – sem a pretensão consciente de registrar a história. Estes registros, no entanto, tornaramse imprescindíveis para a construção histórica da cidade. Boni (2004, p. 248) afirma que os fotógrafos, “mesmo sem saberem de sua importância histórica, à época”, produziram centenas de fotografias que “se transformariam em peças fundamentais na engrenagem narrativa da história de Londrina”. A proposta deste trabalho é utilizar a fotografia como registro iconográfico para recuperar dados e contar a história de Londrina em duas épocas: a década de 1940 e o final da primeira década do Século XXI. O objetivo é, além de obter elementos que contribuam para a construção histórica, mostrar o desenvolvimento da cidade nesses dois recortes temporais. Na década de 1940, Londrina viveu expressivo crescimento econômico, pois o café começou a se firmar como importante fonte de renda em todo o Norte do Paraná e muitos migrantes e imigrantes vieram em busca de fortuna. Foram utilizadas imagens produzidas pelos fotógrafos Yutaka Yasunaka e José Juliani. Este, inclusive, produziu um álbum com imagens que mostravam a beleza e a pujança da cidade, comercializado como “recordações de Londrina”, no


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início da década de 1940. Como referências bibliográficas foram utilizados Boni (2004), Kossoy (1989,1999, 2001 e 2007) e outros pesquisadores e historiadores da cidade e da fotografia, que proporcionaram dados valiosos para o desenvolvimento deste trabalho.

A importância da fotografia como registro histórico A invenção da fotografia, no século XIX, se deu em um contexto de marcantes transformações sociais, econômicas e culturais, referenciadas pela Revolução Industrial. A fotografia tinha papel fundamental como possibilidade inovadora de informação e conhecimento histórico (KOSSOY, 2001, p. 25). Sua popularização, especialmente a partir de 1860, segundo Kossoy (1989, p. 14), trouxe novas possibilidades de produção de informação e conhecimento, além de servir como instrumento de apoio à pesquisa, e ser uma forma de expressão artística. A imagem fotográfica é o relê que aciona nossa imaginação para dentro de um mundo representado (tangível ou intangível), fixo na sua condição documental, porém moldável de acordo com nossas imagens mentais, nossas fantasias e ambições, nossos conhecimentos e ansiedades, nossas realidades e nossas ficções. A imagem fotográfica ultrapassa, na mente do receptor, o fato que representa (KOSSOY, 1999, p. 46).

As imagens iconográficas do início de Londrina, apesar de enriquecedoras como registros históricos, em sua maioria foram tomadas de forma espontânea, sem pretensões documentais. Boni (2004) observa que pessoas comuns, independente do objetivo histórico, registram momentos e modificações ocorridas em sua cidade. Mas destaca a importância dos fotógrafos anônimos do passado, salientando que, não fossem eles, parte da história de Londrina estaria perdida. Não fossem os fotógrafos, independente dos seus objetivos ou vínculos, haverem fotografado as transformações urbanas e rurais, hoje seria muito mais difícil recuperar e contar a história de Londrina. Imprescindíveis fontes


135 de consultas, os acervos fotográficos são de fundamental importância para recuperação e compreensão da história (BONI, 2004, p. 247).

As fotografias podem, sobretudo, servir como suporte para o conhecimento coletivo dos indivíduos, na medida em que registram imagens que ocorrem no diaa-dia. Elas se tornam peças fundamentais para recuperar e compreender a história, pois imortalizam o momento do registro e podem ser conduzidas para outros tempos, mediante uma mistura de passado e presente.

A trajetória da fotografia no contexto histórico Toda fotografia tem uma história. Olhar uma fotografia antiga é refletir a longa trajetória por ela percorrida. Para Kossoy (2001, p. 45), é possível estabelecer pelo menos três estágios que marcam sua existência. No primeiro, houve um propósito para que ela existisse, que pode ter partido do próprio fotógrafo, motivado a registrar determinado tema, ou de alguém que o incumbiu de realizar tal tarefa. O segundo estágio refere-se ao lugar onde foi realizada a fotografia; e o terceiro, aos caminhos por ela percorridos, às transformações passadas, às emoções e muitas outras sensações que uma imagem pode fornecer. Muitos registros históricos são relatados através de imagens iconográficas por apresentarem segurança na informação transmitida. A leitura dos documentos fica mais clara, de fácil visualização, quando se tem a imagem como referência. [...] as imagens que contenham um reconhecido valor documentário são importantes para os estudos específicos nas áreas de arquitetura, antropologia, etnologia, arqueologia, história social e demais ramos do saber, pois representam um meio de conhecimento da cena passada, e, portanto, uma possibilidade de resgate da memória visual do homem e do seu entorno sociocultural. Trata-se da fotografia enquanto instrumento de pesquisa, prestando-se à descoberta, análise e interpretação da vida histórica (KOSSOY, 2001, p. 55).

O registro fotográfico é considerado um artefato visual que contém uma fração da realidade, com informações importantes para pesquisadores de diversas


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áreas do conhecimento, visto que as informações coletadas fazem parte daquele exato fragmento de espaço e tempo retratado, como destaca Paiva (2006, p. 19): [...] não é a realidade histórica em si, mas traz porções dela, traços, aspectos, símbolos, representações, dimensões ocultas, perspectivas, induções, códigos, cores e forma nela cultivadas. Cabe a nós decodificar os ícones, torná-los inteligíveis o mais que pudermos identificar sem filtros e, enfim, torná-los como testemunhos que subsidiam a nossa versão do passado e do presente.

Seja para um historiador, pesquisador ou leigo, a imagem é reconstituída a cada época. As percepções sofrem alterações comportamentais de leitura. Por isso se deve ter o cuidado, como bem ressalta Paiva (2006, p. 19), de “filtrar a imagem recebida, para que realmente sirva de subsídios históricos para a sociedade”. Canabarro (2005 p. 25) enfatiza que as imagens fotográficas permitem ampliar a visão do historiador, colocam em cena personagens sociais em diferentes situações de atuação e permitem que se distingam os lugares em que as atividades cotidianas se desenvolvem. Nesse sentido, de ampliar a visão do historiador sobre seu objeto de estudo, Kossoy (2007, p. 35) ressalta que: A iconografia fotográfica diz respeito a partes ou ao conjunto da documentação pública ou privada que abrange um largo espectro temático, produzida em lugares e períodos determinados. As fontes que as compõem são os meios de conhecimento: registros visuais que gravam microaspectos dos cenários, personagens e fatos; daí sua força documental e expressiva, elementos de fixação da memória histórica individual e coletiva. Em função de tais características, constituem documentos decisivos para a reconstrução histórica.

A imagem fotográfica contém elementos históricos para a memória individual e coletiva dos indivíduos, visto que nela foram reproduzidos lugares e períodos determinados. Nas fotografias são registrados cenários, personagens e fatos. O registro desses elementos faz com elas tenham força de documento histórico.


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Os primeiros registros fotográficos de Londrina A colonização de Londrina iniciou-se em 21 de agosto de 1929, com a chegada da primeira expedição da Companhia de Terras Norte do Paraná (CNTP). Os primeiros registros fotográficos foram realizados por George Craig Smith, que, em 1929, fotografou uma clareira aberta no meio da mata, a fonte de água que abastecia os primeiros ranchos, construídos com caules de palmito para abrigar e proteger os componentes da expedição. São esses, segundo Boni (2004, p. 248), os mais antigos documentos iconográficos de Londrina. A CTNP fazia muita propaganda de seu empreendimento, e, após a construção de um escritório em Londrina, passou a utilizar a fotografia como publicidade para impressionar os possíveis compradores. Uma estratégia adotada era organizar álbuns e distribuí-los aos corretores de terras, que viajavam por diversos Estados e utilizavam essas imagens para mostrar a exuberância da mata – as frondosas árvores, como perobas, figueiras-brancas, paus d’alho e outras espécies, que existiam em abundância na região –, a fertilidade das terras e a infraestrutura que a emergente cidade já oferecia. Para isso, registros produzidos pelo fotógrafo José Juliani foram fundamentais. E também contribuíram objetivamente para o desenvolvimento da região. Maria Juliani de Arruda (1999, p. 31), filha do fotógrafo, relata que a CTNP precisava de uma fotografia do salto do ribeirão Cambezinho (no local onde hoje fica o Parque Arthur Thomas) e solicitou a seu pai a realização do serviço. A intenção era enviar a imagem a Londres, para que especialistas verificassem a viabilidade de construção de uma usina hidrelétrica no local. A fotografia agradou pela qualidade técnica e pela beleza estética, além de ter subsidiado, ao lado dos relatórios escritos, a decisão da construção da usina devido à boa capacidade geradora do salto. Além das fotografias que realizava para CTNP, Juliani registrou o crescimento e as transformações ocorridas na cidade: as matas que se tornaram lavouras, a derrubada de árvores, a edificação de casas, a ascensão da cafeicultura, a construção de edifícios e grandes mansões, as estradas de terra que se tornaram vias pavimentadas e muitos outros acontecimentos que fizeram a história de Londrina (BONI, 2004, p. 253).


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Fotografia e cidade Além de delinear a história, a fotografia se enquadra como instrumento para registrar o desenvolvimento de lugares e cidades, enquadrando-se como apoio geográfico, estratégico e político dos governos. O fotógrafo Militão Augusto de Azevedo foi um dos pioneiros do uso da fotografia com essa finalidade. Ele organizou um álbum comparativo com fotografias da cidade de São Paulo em dois momentos. Registrou as mudanças ocorridas nos locais fotografados com o crescimento e a urbanização da cidade. Suas fotografias também serviram de base para que os governos comparassem as obras realizadas durante suas gestões. Em suas imagens, além das características citadas, estão presentes os olhares ousados dos governos estadual e municipal paulista para transformar a cidade de São Paulo em uma grande metrópole moderna. Esses registros ocorreram em 1862 e 1887 (BONI; SATO, 2009). Nas imagens registradas por Militão é possível fazer um passeio imaginário pelas ruas de São Paulo e, diante delas, desvendar os detalhes capturados por seu olhar atento ao registrar a cidade em vários planos. Rubens Fernandes Junior lembra que: É como se fosse possível realizar um passeio imaginário através de São Paulo, entre 1862 e 1887, para tentar descobrir as chaves que permitiram dar os sucessivos passos desse caminho. E como se estivéssemos resgatando o mesmo percurso feito por Militão, fotografando em planos gerais, sóbrios e elegantes, mas ao mesmo tempo, possibilitando-nos a percepção dos detalhes com muita precisão [...]. Militão soube transformar seus tímidos logradouros em referências obrigatórias para compreensão do espaço urbano paulistano (FERNANDES JUNIOR, 2001, p. 8).

Os registros realizados por Militão Augusto de Azevedo transformaram-se em referências imprescindíveis para compreensão dos espaços urbanos de São Paulo. Sem esses registros, muito da história da cidade teria se perdido. Em Londrina, até o momento, pouco se produziu em termos de imagens comparativas de diferentes épocas para visualizar o desenvolvimento da cidade. No entanto, as fotografias do início da colonização – e do decorrer de sua consolidação –


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contribuíram para recuperar muito de sua história. Ao comparar fotografias tomadas na década de 1940 com outras tomadas recentemente é possível constatar um grande crescimento, considerando que Londrina tinha proposta original para abrigar cerca de 30 mil habitantes na área urbana. No planejamento de Londrina, a CTNP traçou uma faixa de terras no entorno da cidade para ser dividida em lotes de um a três alqueires, para o plantio de hortas, construção de granjas e pequenas culturas de abastecimento. Com o tempo, o crescimento da cidade exigiu espaço e, pouco a pouco, a maioria desses lotes foi novamente loteada e neles surgiram subúrbios em várias regiões da cidade (IPPUL, 2009). Em 2007, a população de Londrina era de 497.833 mil habitantes (IBGE, 2007), muito maior que a perspectiva da época em que foi projetada.

Revisita histórico-iconográfica de Londrina Londrina, apesar de jovem e moderna – inspirada na arquitetura de Vilanova Artigas e no planejamento de Prestes Maia (ALMEIDA, 2006) –, por seu desenvolvimento comercial e cultural, e crescimento em diferentes setores, é considerada uma das cidades emergentes mais progressistas do Brasil. Retomando a história, observa-se um grande crescimento na década de 1940. O café se firmou como força econômica do Norte do Paraná. Com a perspectiva de fazer fortuna, um expressivo número de pessoas migrou de diferentes partes do País e do mundo para Londrina. Januzzi (2005, p. 87) cita que as primeiras fortunas e a fama da terra roxa “atraíam milhares de pessoas atrás de riqueza. Entre os anos 40 e 50, a população aumentou 73,26%, uma taxa expressiva comparada com a taxa nacional do mesmo período, de 25,69%”. O crescimento acelerado, na década de 1940, teve, em parte, contribuição da fotografia. José Juliani, estabelecido com o Photo Studio, fotografou vários pontos de Londrina para demonstrar seu desenvolvimento e encantos e comercializou fotografias como “lembranças”. Muitas pessoas as compravam para presentear os amigos e parentes distantes. Neste sentido, o de propagandear as belezas, potencialidades e oportunidades da região, a fotografia contribuiu muito para o desenvolvimento da cidade.


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Ao analisar uma imagem é possível perceber a relação viva entre o passado e o presente (ARANTES, 1984, p. 8), pois elementos presentes remetem a fatos ocorridos no passado. As cidades promovem constantes diálogos entre épocas, constituem e nomeiam seus espaços sociais e culturais, “laços de continuidade entre passado e presente” (ARANTES, 1984, p. 8). Ao observar esses elementos entre épocas distintas, é possível alcançar a relação dinâmica a partir de um elemento atual que remete a algo que aconteceu no passado. O trabalho realizado por Militão Augusto de Azevedo na cidade de São Paulo, por meio dos registros fotográficos, foi um importante referencial para o desenvolvimento deste trabalho em Londrina. Ele e tantos outros tiveram interesse em registrar as transformações ocorridas em determinados lugares em épocas distintas. Militão realizou registros em 1862 e em 1887. Neste intervalo de tempo, constatou a ocorrência de diversas mudanças em seus cenários. As imagens tiveram um intervalo de vinte e cinco anos, talvez motivadas pelo interesse político em mostrar as obras realizadas, talvez por iniciativa própria, apenas pela curiosidade de registrar as modificações que ocorreram. Este texto trabalha com um espaço temporal maior que o registrado em São Paulo. Na revisita histórico-iconográfica de Londrina, o intervalo entre as tomadas fotográficas passa de seis décadas. Naturalmente, muitas mudanças foram constatadas neste interstício. Como ponto de partida, foram selecionadas imagens da década de 1940: Prefeitura do Município de Londrina (Paço Municipal), Alameda Manoel Ribas, Agência dos Correios, Associação Comercial de Londrina, Centro de Saúde, as residências das famílias de Celso Garcia Cid e Roberto Júlio Roherig (ambas localizadas no alto da Avenida Higienópolis), Avenida Paraná, Alameda Miguel Blasi, Casas Fuganti, uma fotografia noturna com vista da Avenida Paraná (local onde se concentrava grande número de pessoas para o footing) e uma vista panorâmica da cidade. Estas imagens foram comparadas com tomadas recentes, nos mesmos locais, mais de seis décadas depois, em 2008 (de algumas foram feitas novas tomadas em 2014, porque estavam em processo de construção ou reforma em 2008).


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1 – Prefeitura do Município de Londrina Figura 1 – Edifício da Prefeitura do Município de Londrina (Paço Municipal) na década de 1940

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 2 – Atual agência bancária (2008) no local onde estava instalada a antiga Prefeitura, na esquina das ruas Minas Gerais e Santa Catarina

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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Figura 3 – Sede da atual Prefeitura do Município de Londrina (2008), no Centro Cívico, localizada no final da Avenida Duque de Caxias, próximo à barragem do Lago Igapó I

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

Na década de 1940, a sede da Prefeitura do Município de Londrina (Figura1) ficava na esquina das atuais ruas Minas Gerais e Santa Catarina, ao fundo da Alameda Manoel Ribas. No alto do edifício de dois pavimentos, havia um letreiro que identificava o local: Paço Municipal. Também era possível ver, à esquerda de quem olha para a fotografia, parte do prédio da Associação Comercial. Em primeiro plano, um ponto de charretes. Ao revisitar o local, em 2008, são perceptíveis as modificações: o antigo prédio de esquina foi demolido para dar lugar a uma agência bancária (Figura 2). A atual sede da Prefeitura (Figura 3) localiza-se na Avenida Duque de Caxias, 635. Este local, aliás, concentra os prédios dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, constituindo o Centro Cívico de Londrina. Inaugurado em 1982, o atual prédio da Prefeitura já não é suficiente para o atendimento das demandas administrativas: algumas atividades da administração pública estão distribuídas em autarquias e secretarias espalhadas por diversos pontos da cidade.


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2 – Alameda Manoel Ribas Figura 4 – Alameda Manoel Ribas, na década de 1940, com a Catedral de duas torres (inacabada) ao fundo

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 5 – Alameda Manoel Ribas (2008), com a nova Catedral ao fundo

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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Figura 6 – Vista aérea da Alameda Manoel Ribas (2008), com a Catedral ao fundo

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

A fotografia registrada em 2008 (Figura 6) é uma tomada aérea da Alameda Manoel Ribas. Nela, constata-se que a antiga Catedral, a de duas torres, construída na década de 1940, foi demolida para a construção de uma nova, de linhas modernistas, na década de 1970. A imagem da alameda tomada em 2008 (Figura 5) é visualmente mais poluída que a da década de 1940 (Figura 4). As frondosas árvores do canteiro central da alameda escondem quase totalmente a igreja. Carros e motocicletas estacionados nas laterais do canteiro indicam tráfego intenso de veículos durante o dia. Na fotografia da década de 1940 a imagem é limpa, sem árvores, a Catedral aparece inteira ao fundo; na lateral esquerda da alameda havia um ponto de charretes e poucos carros estacionados. Os pedestres transitavam pelo meio do canteiro e era possível uma visão ampla do local. Na vista aérea de 2008 é possível observar que, além do canteiro arborizado, o número de edifícios e casas comerciais ao redor da Catedral aumentou consideravelmente. Na entrada principal da igreja, observa-se um vitral com medidas que vão do telhado ao batente da porta.


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3 – Agência dos Correios e Telégrafos Pela imagem da agência dos Correios e Telégrafos, tomada em 2008 (Figura 8), é possível perceber que o prédio mantém a arquitetura original da construção concluída no final da década de 1940 (Figura 7). No entanto, hoje existem grandes edifícios ao redor da agência e, na frente do prédio, um emaranhado de fios de eletricidade e cabos de transmissão das companhias de telecomunicações, que parecem formar uma teia. Neste edifício, hoje, funciona a agência central dos Correios e Telégrafos de Londrina, mas o aumento da demanda de serviços obrigou a abertura de diversas agências menores em outros pontos da cidade.

Figura 7 – Agência dos Correios e Telégrafos, na década de 1940

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss


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Figura 8 – Agência dos Correios e Telégrafos, em 2008

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

4 – Associação Comercial [e Industrial] de Londrina O prédio da Associação Comercial de Londrina (ACL) foi inaugurado em 31 de janeiro de 1942. A construção de uma sede própria começou a ganhar corpo em 1940, quando a Companhia de Terras Norte do Paraná doou à Associação um terreno de 1.252,80m2., na área central da cidade. O primeiro presidente eleito da ACL foi o Sr. David Dequêch, que antevia uma construção imponente, o “prédio mais alto e bonito do sertão paranaense” (ASSOCIAÇÃO..., 2007, p. 12), não como forma de ostentação, mas como reflexo benéfico que sua construção refletiria tanto dentro como fora de Londrina. Na imagem da década de 1940 (Figura 9) vê-se que o prédio possuía três pavimentos e, ao alto, sobre o relógio, uma estátua de bronze do deus Mercúrio (para os romanos, ele é o deus regente das comunicações e do comércio). Até hoje, a Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL) permanece no mesmo endereço, porém a antiga construção deu lugar ao edifício Palácio do Comércio (Figura 10), com vinte andares. A ACIL ocupa apenas o primeiro andar e seu principal símbolo, a estátua de bronze do deus Mercúrio, está no andar térreo, na entrada do edifício.


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Figura 9 – Sede da Associação Comercial de Londrina, na década de 1940

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 10 – Edifício onde fica a sede da ACIL, tomada em 2008

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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Figura 11 – Estátua do deus Mercúrio (regente e protetor do comércio), na entrada do Edifício Palácio do Comércio, onde fica a ACIL

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

5 – Centro de Saúde de Londrina Neste local, na década de 1940, funcionava o Centro de Saúde de Londrina (Figura 12), importante referência na área médica. A imagem tomada em 2008 (Figura 13) revela que o prédio permanece praticamente inalterado, mas nele hoje funciona o CIDI – Centro Integrado de Doenças Infecto-Contagiosas. Na comparação das duas imagens, percebem-se mudanças sensíveis no entorno do prédio. Na década de 1940 ele era ponto de referência para quem passasse pelo local; representava uma das maiores e mais imponentes construções do centro da cidade. A imagem atual revela a construção de grandes edifícios residenciais e comerciais nas proximidades do prédio. A arborização ao seu redor, hoje, também contribui para que o prédio fique parcialmente escondido. Para manter o mesmo ângulo da década de 1940, a fotografia de 2008 foi tomada junto ao canteiro da rotatória que foi construída em frente ao prédio, para fluir melhor o tráfego dos automóveis.


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Figura 12 – Imagem do Centro de Saúde de Londrina, tomada na década de 1940

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 13 – Imagem do Centro de Saúde, tomada em 2008, onde funciona o CIDI – Centro Integrado de Doenças Infecto-Contagiosas

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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6 – Residência da família de Celso Garcia Cid Figura 14 – Etapa final da construção da residência de Celso Garcia Cid, em 1947

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 15 – Imagem tomada em 2008: a antiga residência virou uma agência bancária

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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Figura 16 – Imagem tomada em 2014: parcialmente restaurada em 2013, para recuperar aspectos da arquitetura e do mobiliário originais, o espaço continua sendo ocupado por uma outra agência bancária

Fotografia: Paulo César Boni Fonte: Acervo pessoal de Paulo César Boni

A casa da família do empresário Celso Garcia Cid (Figura 14), fundador da Viação Garcia, foi construída na década de 1940, no alto da Avenida Higienópolis. Em 2008, na revisita histórico-iconográfica ao local (Figura 15), observou-se a preservação da arquitetura original, inclusive das floreiras na parte da frente. Porém, pode ter havido pequenas transformações na parte interna, posto que, em 2008, no local, funcionava uma agência bancária. Uma mudança externa visível é a existência de uma grade de proteção de ferro. Em 2013, o edifício passou por nova reforma, na qual foram recuperados aspectos originais da arquitetura, do mobiliário e da decoração (especialmente os lustres e os vitrais). Contudo, o espaço continua sendo ocupado por uma agência bancária (Figura 16). 7 – Residência da família de Roberto Júlio Roehrig A figura 17 mostra a casa da família de Roberto Júlio Roehrig, construída na década de 1940 no alto da Avenida Higienópolis (esquina com a Rua Tupi, a mesma esquina da residência de Celso Garcia Cid), que ficou conhecida como


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“A Casa dos Anões”. Esta construção foi demolida “da noite para o dia”, em 2007. Em entrevista ao Jornal de Londrina, em 19 de junho de 2007, Júlio Roehrig (filho de Roberto Roehrig) expôs que os problemas com a casa foram tantos que superaram as boas lembranças que tinha do lugar onde cresceu. Seu pai, que era comerciante, veio de Curitiba na década de 1940 com a esposa, Mercedes Roehrig e quatro filhos. Ao comparar os três registros fotográficos, o da década de 1940, o de de 2008 (Figura 18) e o de 2014 (Figura 19), fica evidente a transformação histórica e arquitetônica no local: na primeira imagem, o imponente e belo casarão, de estilo arquitetônico alemão, com jardim bem cuidado; na segunda imagem, a frieza da construção de um novo prédio, de linhas retas, horizontais e verticais, que viria a abrigar as instalações de uma agência bancária; na terceira e última fotografia, tomada em 2014, a agência do Banco do Brasil. Neste caso, mais uma vez, a voz do dinheiro falou mais alto. Londrina perdeu mais um de seus referenciais históricos. Figura 17 – Residência da família de Roberto Júlio Roehrig, na década de 1940

Fotografia: Autor desconhecido Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss


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Figura 18 – Imagem tomada em 2008: a antiga residência havia sido demolida e em seu lugar estava sendo construída uma agência do Banco do Brasil

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitach Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

Figura 19 – Imagem tomada em 2014: Agência do Banco do Brasil, construída no local da antiga Casa dos Anões, na esquina da Rua Tupi com a Avenida Higienópolis

Fotografia: Paulo César Boni Fonte: Acervo pessoal de Paulo César Boni


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8 – Avenida Paraná Figura 20 – Imagem da Avenida Paraná, esquina com a Avenida São Paulo, tomada na década de 1940. Ao fundo, uma residência construída em madeira

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 21 – Imagem do mesmo local, tomada em 2008. No local da antiga residência em madeira, um prédio em alvenaria, no qual funciona uma agência do Banco do Brasil

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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Figura 22 – Fotografia, em plano geral, da Avenida Paraná, tomada na década de 1940

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 23 – Mesmo ângulo, mesmo local e mesmo plano de tomada, desta feita em 2008

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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As imagens das figuras 20, 21, 22 e 23 são da esquina da Avenida São Paulo com a Avenida Paraná. As imagens das figuras 20 e 21 foram tomadas com visão da praça para a rua. Na imagem da década de 1940 (Figura 20), vê-se uma residência em madeira, que mais tarde foi demolida. No local, hoje existe um edifício que, no primeiro andar, abriga uma agência do Banco do Brasil (Figura 21). Já nas imagens das figuras 22 e 23, o fotógrafo estava na rua e usou a praça para abrir a perspectiva. Na imagem tomada na década de 1940 (Figura 22), existe uma perspectiva da Avenida Paraná, no sentido leste, em direção à esquina com a Avenida Rio de Janeiro; na tomada de 2008 (Figura 23), a perspectiva ficou prejudicada em razão de árvores que fecham parte da visão do fotógrafo. Mas é possível visualizar modificações na escada que dá acesso à Praça Marechal Floriano Peixoto e uma parte do atual Calçadão, ainda com o piso em petit pavet. Com a revisita histórico-iconográfica, em 2008, foram observadas mudanças significativas no local. Na década de 1940, havia tráfego de veículos pela Avenida Paraná e o Calçadão ainda não havia sido construído. Nas imagens de 2008 entram, inclusive, parte do Calçadão, inaugurado em 1977. O Calçadão fez parte do projeto de reurbanização das praças Willie Davids, Marechal Floriano Peixoto e Gabriel Martins, elaborado pelo arquiteto curitibano Jaime Lerner, o mesmo que havia projetado o Calçadão da Rua XV de Novembro, na capital do Estado. Em razão do Calçadão, alguns trechos do centro de Londrina foram interditados para o tráfego de veículos. Neste espaço ocorrem, com frequência, apresentações teatrais, musicais e outras atividades culturais e educativas, como exposições, feiras e campanhas de saúde. Com maior ou menor frequência, normalmente em razão de novas leis ou da intensidade da fiscalização, o Calçadão sempre foi palco de venda de artesanatos, comércio informal e manifestações políticas. 9 – Alameda Miguel Blasi A comparação das imagens da Alameda Miguel Blasi permite visualizar um crescimento notável. Na fotografia da década de 1940 (Figura 24) viam-se o Colégio Hugo Simas, a Rua Prefeito Hugo Cabral, com a qual o colégio fazia esquina, as construções da Avenida Higienópolis, a caixa d’água e a mata ao fundo. A alameda ainda não era pavimentada. Na fotografia tomada em 2008 (Figura 25), existem vários edifícios construídos em ambos os lados da alameda, aglomeração de lojas,


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restaurantes e árvores que até dificultam ver o seu final. Há, também, uma intensa movimentação de veículos, que conota a atual efervescência da cidade e contrasta com a calma de outrora, na qual foi registrado um único ciclista na alameda. Figura 24 – Fotografia, em plano geral, da Alameda Miguel Blasi, em 1941

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 25 – Fotografia, em plano geral, da Alameda Miguel Blasi, em 2008

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitach Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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10 – Casas Fuganti Figura 26 – Casas Fuganti, em 1941, na esquina das atuais Rua Santa Catarina e Avenida Celso Garcia Cid

Fotografia: José Juliani Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Figura 27 – Imagem tomada em 2008 do Centro Empresarial Oscar Fuganti, construído no mesmo local da antiga Casas Fuganti

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

A Casas Fuganti foi uma das primeiras grandes lojas a se instalar em Londrina. Era uma espécie de loja de departamentos e tornou-se referência para a cidade e região. Na imagem tomada em 2008 (Figura 27), vê-se um imponente edifício, construído no exato local onde, na década de 1940, funcionava a Casas Fuganti (Figura 26).


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11 – Vista noturna da Avenida Paraná Figura 28 – Vista noturna, em plano aberto, da Avenida Paraná, tomada na década de 1940. Ao fundo, o São Jorge Hotel

Fotografia: Yutaka Yasunaga Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Na revisita à Avenida Paraná, para a tomada fotográfica – vista noturna – do mesmo trecho fotografado na década de 1940, percebem-se sensíveis alterações. Na década de 1940 (Figura 28) havia movimento intenso de pessoas e carros no local no período noturno. Tratava-se de um ponto de encontro para a população daquela época, que utilizava as áreas públicas para lazer: andar, descansar, conversar e namorar no bosque e nas praças. Veículos trafegavam pela avenida em ritmo de paquera. Na imagem de 2008 (Figura 29) temos o Calçadão, com seus mosaicos de pedras portuguesas, vasos e luminárias que o decoram por toda sua extensão. Hoje existem bancos onde, durante o dia, as pessoas podem sentar-se para descansar, conversar e se descontrair. No entanto, no período noturno o local fica quase vazio. Ao contrário da década de 1940, a população não utiliza mais essa área pública do centro da cidade para lazer. O movimento noturno só é intenso nos finais de ano, quando o comércio permanece aberto até às 22h00.


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Figura 29 – Vista noturna do mesmo trecho da Avenida Paraná (entre a Avenida Rio de Janeiro e Avenida São Paulo), tomada em 2008

Fotografia: Jocelia Rosa da Silva Vitachi Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi

Figura 30 – Vista panorâmica da cidade de Londrina na década de 1940

Fotografias: José Juliani

Figura 31 – Vista panorâmica da cidade de Londrina em 2008

Fotografias: Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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12 – Vista Panorâmica da Cidade de Londrina Na figura 30, tomada na década de 1940, é possível perceber que José Juliani fez várias tomadas fotográficas sequenciais – provavelmente da antiga igreja de madeira (situada no mesmo local da atual Catedral) – e as colou depois de reveladas e ampliadas. Com a sequência, foi obtida uma vista panorâmica de Londrina. Só mesmo um mestre do ofício e da arte de fotografar conseguiria tão expressivo resultado em condições pré e pós-fotográficas tão precárias naquela época. Não podemos dizer com segurança se esta montagem de José Juliani é a única panorâmica de Londrina na década de 1940, mas, com certeza, é a única largamente difundida ontem e hoje pela imprensa – jornais e revistas, de época e atuais – pelos álbuns e exposições fotográficos e pelos livros de história. Na revisita histórico-iconográfica de 2008 (Figura 31), não foi possível fazer a mesma tomada de José Juliani, em razão do elevado número de edifícios construídos naquela região (proximidades da Catedral). Como o intuito era fotografar uma panorâmica da cidade para demonstrar seu crescimento durante as mais de seis décadas que sepa-

Fonte: Acervo do Museu Histórico de Londrina Padre Carlos Weiss

Fonte: Acervo pessoal de Jocelia Rosa da Silva Vitachi


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ram um registro do outro, optou-se por uma tomada com o ponto-de-vista da Gleba Palhano, ou seja, da região sudoeste para o centro da cidade. A fotografia de 2008 é apenas uma parcial da cidade. Desta feita, a montagem das diversas tomadas fotográficas foi feita por um programa de computador, muito mais fácil e rápido que a montagem da década de 1940. Na década de 1970, Londrina foi a cidade que, proporcionalmente ao seu tamanho, mais se verticalizou no país. É considerada a terceira cidade mais verticalizada do Brasil, depois de Balneário Camboriú (SC) e Vitória (ES).

Considerações finais As fotografias da década de 1940 trazem à lembrança a cidade que estava esquecida por muitos e que outros – os mais novos – sequer tiveram oportunidade de conhecer. Em Londrina, cidade relativamente nova, muito de sua história inicial pôde ser contada graças às imagens registradas. A comparação das fotografias antigas com as atuais permitiu, em alguns casos, verificar alterações significativas em suas paisagens. As fotografias da década de 1940 foram selecionadas porque mostram os pontos mais importantes da cidade à época. Durante a tomada de novas imagens dos mesmos locais, na revisita histórico-iconográfica de 2008 (e, em dois casos, uma nova revisita em 2014), observou-se que, em determinados lugares, houve mudanças significativas, e em alguns sequer há vestígios das construções antigas, substituídas por outras. Em contrapartida, há locais que ainda preservam a arquitetura original, como a antiga residência da família de Celso Garcia Cid e os prédios dos Correios e Telégrafos e do Centro de Saúde. Com a revisita histórico-iconográfica constatou-se o grande valor da fotografia como mídia imprescindível para a recuperação, preservação e democratização da história.

Referências ALMEIDA, Maria Chiarotti de. História, memória e cotidiano: os sentidos dos espaços da cidade. In: ENCONTRO SOBRE PATRIMÔNIO


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CULTURAL: Cidade Revelada, 2006, Itajaí. Anais... Itajaí: Maria do Cais, 2006. Disponível em <http://cidadereveladaadm.itajai.sc.gov.br/arquivos/MESA03%20A.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2008. ARANTES, Antônio Augusto. Produzindo o passado: estratégias de construção do patrimônio cultural. São Paulo: Brasiliense, 1984. ARRUDA, Maria Juliani de. Juliani: um homem, sua máquina e a história de Londrina. Londrina: Eduel, 1999. ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL DE LONDRINA - ACIL. Setenta anos de união e luta. Londrina: Midiograf, 2007. BONI, Paulo César. Fincando estacas! a história de Londrina (década de 30) em textos e imagens. Londrina: Edição do autor, 2004. 394 p. BONI, Paulo César; SATO, Larissa Ayumi. A mídia fotografia como estratégia publicitária da Companhia de Terras Norte do Paraná. In: BONI, Paulo César (Org.). Certidões de Nascimento da História: o surgimento de municípios no eixo Londrina-Maringá. Londrina: Planográfica, 2009. p. 243-267. CANABARRO, Ivo dos Santos. Fotografia, história e cultura fotográfica: aproximações. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 31, n. 2, p. 23-39, 2005. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/ iberoamericana/article/viewFile/1336/1041> Acesso em: 22 jan. 2009. FERNANDES JUNIOR, Rubens. Militão: um olhar simples e desconcertante. In: LAGO, Pedro Correa do. Militão Augusto de Azevedo. Rio de Janeiro: Capivara, 2001. p. 8-15. JANUZZI, Denise de Cássia Rossetto. O desenvolvimento de Londrina e as transformações nos espaços públicos da região central. Semina: Ciências


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Sociais e Humanas, Londrina, v. 26, p. 87-97, set. 2005. Disponível em: http://www.uel.br/proppg/semina/pdf/semina_26_1_21_39.pdf> Acesso em: 20 fev. 2009. IBGE. Cidades. Paraná Londrina, Rio de Janeiro, 2007. Disponível em: <http:/ /www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1> Acesso em: 20 fev. 2009. Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina - IPPUL. Histórico. Disponível em: <http://www.londrina.pr.gov.br//historico.php> Acesso em: 22 fev. 2009. KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Ática, 1989. ______. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editorial, 1999. ______. Fotografia e história. 2. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2001. ______. Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007. LONDRINA. Prefeitura do Município. Pontos turísticos: calçadão. Disponível em: <http://home.londrina.pr.gov.br/homenovo.php?opcao=ponto sturisticos&item =calcadao> Acesso em: 18 dez. 2008. PAIVA, Eduardo França. História e imagem. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.


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Coluna Você conhece este lugar?: um novo modo de olhar Londrina*

* Os autores deste capítulo o dedicam à memória de Elias Eiki Otaguiri, um dos mais frequentes “acertadores” da coluna, falecido em 11/12/2013, aos 39 anos.


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Coluna Você conhece este lugar?: um novo modo de olhar Londrina* Amanda Gonçalves de Santa ** Paulo César Boni *** Resumo: Desde 2007, o Jornal de Londrina mantém a coluna intitulada Você conhece este lugar? Às segundas-feiras, publica uma fotografia em plano fechado que recorta um detalhe arquitetônico de espaços públicos ou privados da cidade e desafia seus leitores a identificar esse lugar. Às terças-feiras, publica a fotografia em plano aberto do mesmo espaço e enumera os acertadores. Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa com o objetivo de identificar as variáveis que fazem com que os leitores acertem mais determinados espaços em detrimento de outros. Para tanto, utiliza as noções de lugar e não-lugar (AUGÉ, 1994) e de memória e identidade, utilizados por Hoffmann (2010), para entender por que determinados espaços da cidade são mais identificados e lembrados que outros pelos londrinenses. Palavras-chave: Lugar e não-lugar. Fotografia e Memória. Jornal de Londrina. Coluna Você conhece este lugar?

*

Publicado originalmente, com adequações e o título Memória e identidade: a experiência da coluna Você conhece este lugar?, na Revista Líbero, ano XVII, n. 33-A, jan./jun. 2014, p. 59-70. * * Especialista em Fotografia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela Universidade Norte do Paraná (Unopar). Editora do Jornal de Londrina online. E-mail: amandagdesanta@hotmail.com ***Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Introdução Uma saudável brincadeira de observação visual, lançada em 2007, virou mania entre os leitores do Jornal de Londrina. Trata-se da coluna Você conhece este lugar? Às segundas-feiras, no rodapé da página 2, o jornal publica uma fotografia que recorta algum detalhe de espaços públicos (preferencialmente) ou privados de Londrina e desafia seus leitores a, com base apenas no detalhe, identificar o espaço recortado e escreverem ou ligarem para a redação e apontar a resposta. Como se fosse um prêmio, na terça-feira, o jornal nomeia os acertadores, ao lado de uma fotografia em plano aberto do espaço questionado. No início da coluna, entre 2007 e 2008, o jornal priorizou espaços públicos bastante conhecidos – que se tornaram ícones – e o número de respostas e índice de acertos foram muito altos. Com o passar dos anos, esgotaram-se essas possibilidades e, vez ou outra, o jornal se vê obrigado a questionar espaços privados ou fora do centro da cidade e, naturalmente, o número de respostas e de acertos cai drasticamente, chegando, em alguns casos, a zero de acerto. Em razão do número de respostas e acertos tão baixos, quando desses casos, o jornal se vê na contingência de repetir espaços (com outro detalhe) já questionados em edições anteriores. Com mais de sete anos de circulação, a coluna desperta a curiosidade de muitos leitores e instiga alguns a participarem da brincadeira. A maioria responde por impulso, quando identifica de imediato o lugar. Alguns, contudo, transformaram a brincadeira em uma espécie de competição e saem às ruas para identificar o espaço questionado e acertar a resposta. É comum nomes se repetirem semanalmente entre os acertadores. Por ocasião de um dos aniversários da coluna, o jornal publicou um ranking com os principais acertadores, que, além da satisfação de acertar, confirmaram considerar a coluna uma espécie de competição. Independente dos que “competem” e dos que esporadicamente “participam”, o objetivo deste trabalho é entender os porquês de determinados espaços receberem um número elevado – e outros um número pequeno – de respostas e acertos. Para tanto, partindo do pressuposto de que alguns espaços são mais conhecidos que outros, foram adotados os conceitos de lugar e não-lugar, propostos por Augé


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(1994), e de memória e identidade, utilizados por Hoffmann (2010), para identificar variáveis e buscar possíveis respostas. Este estudo trabalha com dois recortes temporais. O primeiro, de 26 de março de 2007 a 31 de março de 2008, ou seja, o primeiro ano de publicação da coluna, quando os espaços públicos mais conhecidos foram predominantes. O segundo, de 18 de janeiro de 2011 a 19 de dezembro de 2011, em que, por força das circunstâncias (evitar repetições), o uso de espaços privados foi mais explorado pela coluna. A identificação da coluna com os leitores do Jornal de Londrina é tão longeva e saudável que, antes de trabalhar as variáveis de respostas e acertos, ela merece explanações de suas origens, objetivos e resultados.

Você conhece este lugar? A coluna foi criada em março 2007, com o objetivo de promover a interatividade com os leitores. O exercício de identificar determinado aspecto ou detalhe de algum espaço da cidade, seja de um monumento histórico, prédio público, igreja, praça ou prédio privado, desperta a curiosidade de muitos leitores. Durante o levantamento realizado para este estudo, foi possível constatar a participação frequente das mesmas pessoas na coluna. É o caso do imobiliarista Abílio Medeiros, do servidor público Elias Eiki Otaguiri e do médico Jorge Tadeu de Assis. Os três contam que passaram a olhar a cidade de forma diferente desde que a coluna passou a ser publicada. Para Medeiros1, participar é um desafio prazeroso. “Já me envolvi mais; e não aceitava errar”, admite. No começo, confessa, costumava pegar o jornal nas manhãs de segunda-feira e sair pela cidade para pesquisar sempre que estivesse em dúvida ou não fizesse ideia de qual lugar era aquele trazido pela coluna. “Tinha segunda-feira de manhã que eu nem trabalhava direito”. O fato de ser um participante assíduo faz com que as pessoas ao seu redor o cobrem pelos resultados. “Minha memória fotográfica é boa”, afirma, mas ele não 1

Todas as falas de Abílio Medeiros neste texto são oriundas da entrevista que ele concedeu, por telefone, a Amanda Gonçalves de Santa, no dia 14 de setembro de 2012.


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se esquece de um dos poucos palpites errados. “Publicaram um detalhe da Casa do Papai Noel, que eu ajudei a construir, pois era um projeto da ACIL (Associação Comercial e Industrial de Londrina), da qual eu era presidente. Passei batido”, lembra. Por outro lado, se orgulha de ter sido o único acertador em uma das edições. Tive oportunidade de uma vez acertar sozinho um detalhe da Delegacia de Trânsito, na Rua Tupi. Foi de um ângulo impossível. Consegui acertar porque, no fundo [da fotografia], tinha a sombra de um prédio. Sabia que era na região das ruas Santos e Paranaguá. Saí para andar por ali. Estava subindo a Rua Tupi e, do lado direito, tem um colégio. Estava procurando o ângulo do edifício atrás. Por meio do edifício achei o ponto. Acabei mandando e acertando sozinho. É um desafio contra você mesmo.

Depois da coluna, o funcionário público Elias Otaguiri2 diz olhar a cidade com outros olhos. “Ando muito pelo centro de Londrina. Não ando olhando para o chão, fico observando os prédios”, conta. Em sua opinião, é mais fácil identificar os espaços públicos que os privados. O médico Jorge de Assis3 concorda. Ele conta que costuma levar o jornal para a clínica onde trabalha para discutir com os colegas a identificação do lugar. “Quando o jornal começou a perguntar ‘que lugar é este?’, passei a andar pela cidade e observar os detalhes”. Inspirada em uma coluna do jornal norte-americano Bluffton Today, da Carolina do Sul, Você conhece este lugar? tornou-se uma das principais formas de participação do leitor do Jornal de Londrina. A participação é tão significativa que quando a coluna não é veiculada por algum motivo, o jornal recebe diversas reclamações dos leitores. Roberto Custódio4, fotógrafo responsável pela maioria das imagens publicadas, diz que busca destacar a melhor referência ou a primeira coisa que lhe chama atenção no espaço fotografado. No caso de prédios, por exemplo, ele tenta explorar as peculiaridades dos aspectos arquitetônicos. Com quase uma 2

3

4

Todas as falas de Elias Eiki Otaguiri neste texto são oriundas da entrevista que ele concedeu, por telefone, a Amanda Gonçalves de Santa, no dia 17 de setembro de 2012. Elias Oitaguiri, infelizmente, faleceu dia 11 de dezembro de 2013. Todas as falas de Jorge Tadeu de Assis neste texto são oriundas da entrevista que ele concedeu, por telefone, a Amanda Gonçalves de Santa, no dia 17 de setembro de 2012. Todas as falas de Roberto Custódio neste texto são oriundas da entrevista que ele concedeu a Amanda Gonçalves de Santa, na redação do Jornal de Londrina, no dia 14 de novembro de 2012.


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década de existência, a coluna se vê na contingência de repetir locais já publicados anteriormente. “Faço um detalhe diferente”, explica Custódio. O fotógrafo conta que alguns participantes assíduos da coluna costumam sair pelas ruas com o jornal nas mãos para encontrar o local fotografado. “Uma vez eu fiz um detalhe da AREL [Associação Recreativa e Esportiva Londrinense] e quando saí na segunda-feira para cumprir uma pauta, próximo da sede da associação, vi um rapaz com o JL na mão, olhando em direção ao prédio”, conta. O jornalista Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro5, desde o início, acompanha atentamente a coluna todas as semanas. Para ele, “a responsabilidade do fotógrafo é muito grande, pois é seu interesse e criatividade que dá força ao jogo”. Não raro, se surpreende ao descobrir, na fotografia da terçafeira, “que um local no qual já nem prestamos atenção, de tanto que passamos por lá, contém as linhas e a beleza do detalhe que vimos na fotografia da segunda-feira”. Nesse sentido, destaca a importância do fotógrafo para o sucesso do que chama de “jogo”. “Ele pode propor visões originais de paisagens conhecidas e isso sempre será uma contribuição muito interessante”.

Espaços e participações Para a análise proposta neste estudo, foram realizados dois levantamentos. Um, referente ao primeiro ano da coluna (Quadro 1), abrange o período de 23 de março de 2007 a 31 de março de 2008, no qual foram publicadas 51 fotografias6 e jornal contou com a participação de 3.583 leitores. O segundo levantamento (Quadro 2) refere-se às 48 fotografias publicadas entre 18 de janeiro e 19 de dezembro de 2011. Nesse ano, a participação dos leitores foi mais tímida: o jornal recebeu 1.058 respostas de leitores que tentaram acertar quais eram os espaços publicados na coluna.

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Todas as falas de Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro neste texto são oriundas da entrevista que ele concedeu a Paulo César Boni, em sua residência, no dia 19 de março de 2014. Os anos analisados (2007/2008 e 2011) não fecham exatamente de 1º de janeiro a 31 de dezembro, ou exatas 52 semanas, em razão da circulação do jornal (que nos finais de ano faz pequenos recessos), e/ou da veiculação da coluna (que costuma não ser veiculada nas duas últimas semanas de dezembro e primeira semana de janeiro). No caso do Quadro 1 também é preciso considerar que a coluna começou a circular em 23 de março de 2007.


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Quadro 1 – Primeiro ano da coluna (23/03/2007 a 31/03/2008)


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Quadro 2 – Quinto ano da coluna (18/01/2011 a 19/12/2011)


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Lugar e não-lugar: espaços de pertencimento e de passagem Os lugares de uma cidade podem ter diferentes significados para seus habitantes. O que eles representam para cada um depende do tipo de relação que se tem com determinado espaço. Para entender por que alguns espaços são mais identificados que outros pelos londrinenses é preciso compreender primeiro os conceitos de lugar e não-lugar. Partindo do pressuposto de que as pessoas criam afinidades e desenvolvem identidade com alguns lugares e não com outros, Marc Augé (1994, p. 73) afirma que “se um lugar pode se definir como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico definirá um nãolugar”. Com base nos conceitos de Augé, Maria Luisa Hoffmann (2010, p. 28) explica que o lugar, na acepção da Antropologia, é tido como um local de pertencimento, onde o sujeito se reconhece, tem enraizamento e vivência. Já o não-lugar é um local de passagem, impessoal, que aparentemente não significa nada para ele. Pode ser considerado lugar, portanto, o local onde o sujeito reside, trabalha, estuda ou frequenta com assiduidade, como igrejas, clubes, bares, restaurantes ou monumentos, prédios ou espaços públicos que façam parte da história da cidade ou de sua infância e de suas lembranças, assim como algum prédio ou logradouro pelos quais ele passa diariamente em seus deslocamentos. Como as pessoas são diferentes, os significados para cada uma delas também podem ser diferentes. O que é familiar ou altamente remissivo para o sujeito, de modo que ele construa uma identidade, pode ser considerado lugar. Um exemplo de lugar para muitos londrinenses, mesmo fugindo dos tradicionais cartões-postais, é o Edifício Comendador Júlio Fuganti, localizado na Rua Senador Souza Naves esquina com a Avenida Celso Garcia Cid, no centro da cidade, um prédio histórico, construído entre 1959 e 1965 em plena prosperidade da economia cafeeira, que abriga dezenas de salas comerciais em seus 12 pavimentos.


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Por conta de sua expressividade e importância histórica, a imagem detalhe do Edifício Comendador Júlio Fuganti foi reconhecida por 123 dos 140 leitores que enviaram respostas ao Jornal de Londrina, no dia 26 de junho de 2007. Por estar localizado no centro histórico da cidade e abrigar escritórios comerciais por onde circulam centenas de pessoas diariamente, o prédio pode ser considerado como um lugar para muitos londrinenses. “Assim como os cenários, a cidade e sua arquitetura podem criar espaços que geram no sujeito sentimento e relações de afeto” (HOFFMANN, 2010, p. 28). Outro exemplo de lugar para os londrinenses, que obteve expressivo número de respostas e alto índice de acertos na coluna publicada dia 9 de julho de 2007, é o Lago Igapó, criado com o represamento do Ribeirão Cambezinho, no final da década de 1950. Segundo Carlos Alexandre de Bortolo (2010, p. 11), o principal objetivo de sua construção, na época, era ampliar as áreas de lazer e promover o embelezamento paisagístico de Londrina. O lago é rodeado por imóveis de grande valor no mercado imobiliário e utilizado pela população para a prática de esportes, exercícios físicos, entretenimento e lazer. O fato de ser considerado um dos mais importantes cartões-postais da cidade pode ter sido a justificativa para que um detalhe da barragem do Lago Igapó (Figura 1) fosse reconhecido por 103 das 112 pessoas que participaram da coluna enviando suas respostas. Mesmo quem não reside em suas proximidades ou não passe com relativa frequência pelo lago o reconhece com um ícone de Londrina (Figura 2). Com 110 acertos nas 115 respostas enviadas ao Jornal de Londrina, a Concha Acústica (Figuras 3 e 4), localizada na região central, também figura entre os espaços públicos mais reconhecidos pelos londrinenses durante o primeiro ano de publicação da coluna semanal. Projetada pelo arquiteto Henrique Mindlin, a obra foi construída como uma variação dos tradicionais coretos que estavam em voga em todo o país na década de 1950. Desde sua inauguração, o local tem sido palco de apresentações culturais e manifestações populares. O lugar, portanto, é constituído a partir de nossas vivências, identidades e experiências de mundo. Assim como o lar, alguns espaços da cidade podem adquirir características de familiaridade e se tornar íntimos para certas pessoas. “Humanizado, o lugar pode ser o lar, a casa, a rua, o bairro, a cidade ou a nação. Enfim, qualquer ponto de referência, identidade, estabilidade e segurança” (HOFFMANN, 2010, p. 29).


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Figura 1 – Detalhe da barragem do Lago Igapó

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina

Figura 2 – Plano geral da barragem do Lago Igapó

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina


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Figura 3 – Detalhe da Concha Acústica

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina

Figura 4 – Plano geral da Concha Acústica

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina


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Por outro lado, os não-lugares não geram identidade nem relação de pertencimento. São locais de passagem. [...] por ‘não-lugar’ designamos duas realidades complementares, porém, distintas: espaços constituídos em relação a certos fins (transporte, trânsito, comércio, lazer) e a relação que os indivíduos mantêm com esses espaços (AUGÉ, 1994, p. 87).

Um exemplo de não-lugar para muitos londrinenses, como demonstrou o resultado da coluna publicada no dia 12 de setembro de 2011, é o Lar dos Vovozinhos e Vovozinhas. Apenas quatro pessoas enviaram suas respostas ao jornal e nenhuma delas acertou que o detalhe fotografado era uma parte da sede da entidade. O espaço questionado pela coluna foi fundado em 1953, por iniciativa das sociedades civil, espírita e maçonaria. No início, a instituição funcionava como albergue e atendia a população itinerante de todas as idades. Em 1959 foi criado o Lar das Vovozinhas, para atender mulheres idosas e, em 2006, foi suspenso o atendimento a itinerantes e surgiu a ala para homens idosos. Ainda hoje, apesar dos relevantes serviços de assistência aos idosos que presta à sociedade, a instituição depende de donativos e trabalho voluntário. Localizado na Rua Araguaia, na Vila Nova, o lar oferece 60 vagas para idosos sem condições físicas ou psíquicas de se manterem sozinhos, encaminhados por meio da Secretaria Municipal do Idoso. A rua onde fica a entidade tem importância comercial, mas é uma rua de bairro, não fica no centro da cidade. Por se tratar de uma entidade que acolhe apenas idosos em condição de vulnerabilidade, o lar não atrai a atenção de boa parte da população londrinense. O baixo número de respostas (quatro) e o fato de ninguém haver acertado poderia caracterizá-lo como um não-lugar, ou seja, um espaço que não faz parte das lembranças, da memória ou da identidade dos londrinenses. Algumas percepções e constatações com relação ao Lar dos Vovozinhos e Vovozinhas talvez sejam importantes para entendê-lo como um não-lugar. Não se trata de um espaço identitário: ninguém se vê no lar. Todos almejam uma velhice melhor para si e para os seus. Por suas características, o lar é considerado um local de exclusão, a última alternativa para não morrer abandonado e à míngua. Seus residentes são, na maioria, pessoas sem família, abandonadas pelos parentes ou recolhidas das ruas.


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Os londrinenses não o reconhecem como um espaço histórico, de importância cultural ou de identidade. O conceito de não-lugar, no entanto, não se estende a todos. Isso porque os 40 funcionários que lá trabalham – e os 60 idosos que lá residem – provavelmente tenham construído uma relação de pertencimento com aquele espaço. O conceito de não-lugar se tornou mais evidente nos espaços publicados na coluna durante o ano de 2011. Dezesseis fotografias detalhes, que questionavam algum espaço, divulgadas no período, tiveram entre zero e cinco acertos. Alguns dos espaços questionados, apesar de conhecidos pela maioria, não possuem características suficientes para a construção de uma identidade com a população. Um dos exemplos é a Clínica Psiquiátrica de Londrina. Quando um detalhe (Figura 5) do prédio (Figura 6) foi publicado em 25 de maio de 2011, 32 leitores participaram da coluna. Apenas três acertaram a resposta, ou seja, menos de 10% dos participantes. Figura 5 – Detalhe da Clínica Psiquiátrica de Londrina

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina


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Figura 6 – Plano geral da Clínica Psiquiátrica de Londrina

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina

Apesar de estar localizada em uma região movimentada da cidade (Jardim Shangri-lá, na zona oeste) é possível dizer que, assim como o Lar dos Vovozinhos e Vovozinhas, os londrinenses não reconhecem a Clínica Psiquiátrica como um espaço identitário. Ninguém se vê precisando de tratamento psiquiátrico, menos ainda internado nesta clínica. O local também não faz parte de roteiros históricos ou culturais da cidade, portanto, não é capaz de evocar ou despertar lembranças do passado. Se a ideia do não-lugar passa pela falta de referências em relação a determinados espaços da cidade, a memória, por outro lado, é um dos fatores determinantes para a construção de identidade. Conhecedor da história de Londrina, com mais de 40 anos dedicados ao jornalismo, Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro arrisca que a coluna é um espaço midiático interessante para o cidadão exercitar a noção de lugar e nãolugar. A fotografia da terça-feira, quando se desvenda o enigma, passa a integrar o imaginário dos leitores. O eventualmente suposto ‘não-lugar’ vira lugar, porque é bonito. E nem importa que vire lugar, importa que o leitor olhe e diga (e dirá, sempre): ‘Este lugar bonito pertence à minha cidade’. Toda semana se tem um pouquinho mais de combustível nessa sensação. Isso tem grande valor, gera o que chamamos de pertencimento.


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Por esse motivo, o jornalista aceita e justifica a repetição de espaços na coluna, desde que o fotógrafo explore novos ângulos que despertem a curiosidade dos londrinenses. Devemos encarar com naturalidade a hipótese de que o fotógrafo faça várias tomadas do mesmo local para a coluna, desde que em ângulos diferentes, sempre interessantes, sempre originais, coisas que acrescentem novidade ao repertório visual do leitor. Isso é até bom para apimentar a discussão de lugar e não-lugar. O Lago Igapó é um lugar de pertencimento? É. Mas o Lago Igapó é um conjunto de lugares: a pista de caminhadas, a barragem, a água, o arvoredo, o gramado, o grupo dos gansos que moram ali. Alguns não prestam atenção aos gansos, até rejeitam o convívio com eles – mas só até o dia em que o fotógrafo fizer o joguinho com os leitores de forma criativa, interessante, plástica, com os gansos. A partir desse dia, todo mundo que tiver achado graça no jogo proposto pelo fotógrafo poderá passar a olhar para eles até com certo amor.

Memória e identidade: espaços de referência e identificação A construção da identidade de determinados espaços urbanos depende da vivência que cada indivíduo experimenta em algum momento de sua vida. Essa identificação com um lugar se dá a partir da memória que as pessoas têm dele. A lembrança de uma brincadeira de infância, por exemplo, pode estar relacionada com uma praça próxima à casa em que o sujeito viveu quando criança. Era ali que as brincadeiras aconteciam e, portanto, o espaço está vivo e presente na memória daquele indivíduo como algo que lhe é familiar. É dessa forma que os cidadãos passam a identificar a cidade e a si próprio com suas memórias. A memória é indispensável para a formação da identidade. Dificilmente um cidadão gravará a imagem de um espaço que não costuma frequentar, por onde não passa todos os dias ou que não lhe traga lembranças de momentos do passado. É por isso que a formação da identidade está ligada à memória. A ausência de referências torna difícil a identificação de determinados espaços urbanos. A imagem fotográfica é uma disparadora do “gatilho da memória”, posto que pode trazer à tona sentimentos e histórias, como se apresentasse vestígios do


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real. Isso explica por que as fotografias de detalhes de espaços públicos ou privados de Londrina podem ser decifradas pelos leitores do jornal. A imagem remete à memória individual que cada londrinense possui daquele determinado lugar. Para alguns, certo prédio ou área de lazer faz parte de sua rotina diária, ou do caminho para o trabalho, ou está consolidado em sua memória por ser um ponto de referência da cidade. É por isso que espaços considerados cartõespostais de Londrina, como a Catedral, o Lago Igapó e a Concha Acústica, por exemplo, são campeões no que diz respeito à identificação pelos leitores. O Cine Teatro Ouro Verde, localizado no Calçadão, é um exemplo da relação de pertencimento que o cidadão constrói com determinados lugares de sua cidade. Um detalhe do teatro rendeu à coluna a maior participação dos leitores durante seu primeiro ano de publicação. A fotografia veiculada em 7 de maio de 2007 recebeu 204 respostas de leitores. Destes, 180 acertaram que se tratava do teatro. O Ouro Verde, projetado pelos arquitetos João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi – tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual em 1999 –, completou 60 anos no final de 2012. Porém, dia 12 de fevereiro de 2012, o prédio foi destruído por um incêndio. Ambientes ou espaços relacionados a histórias e lembranças, como é o caso do Ouro Verde, ajudam na formação da identidade. O teatro, que no passado funcionava como cinema, está presente na memória de muitos londrinenses desde a infância. A simples lembrança de um filme visto quando ainda criança pode ligar o momento ao teatro, espaço em que a história do longa-metragem foi vivenciada. Dessa forma, o espaço, que no passado era novo e desconhecido, se transformou em lugar de pertencimento e de identidade para a população londrinense. Para Yi-Fu Tuan (1983, p. 151), o espaço transforma-se em lugar à medida que adquire definição e significado. Segundo o autor, o significado de espaço frequentemente se funde com o de lugar. “O que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor” (TUAN, 1983, p. 6). A vivência diária em determinados espaços contribui para que eles se tornem lugares de pertencimento.


182 Um objeto ou lugar atinge realidade concreta quando nossa experiência com ele é total, isto é, através de todos os sentidos, como também com a mente ativa e reflexiva. Quando residimos por muito tempo em determinado lugar, podemos conhecê-lo intimamente, porém a sua imagem pode não ser nítida, a menos que possamos também vê-lo de fora e pensemos em nossa experiência (TUAN, 1983, p. 20-21).

Considerações finais Mais do que um exercício divertido e desafiante, a coluna Você conhece este lugar?, do Jornal de Londrina, foi capaz de modificar a forma com que muitos londrinenses observavam a cidade – como este estudo comprovou por meio de entrevistas com seus participantes mais assíduos. As fotografias publicadas semanalmente pelo jornal, como forma de promover interatividade com os leitores, são capazes de despertar lembranças do passado relacionadas com os diferentes espaços da cidade, independente de serem públicos ou privados. Por meio desta pesquisa parcial e dos conceitos de lugar e não-lugar de Marc Augé foi possível entender por que determinados espaços são mais facilmente identificados que outros. O principal fator é a relação desses espaços com o passado e o presente dos londrinenses. Entre os locais mais identificados pelos leitores e participantes da coluna estão pontos turísticos, monumentos históricos, locais de passagem ou de lazer e entretenimento. O levantamento realizado para este trabalho também apontou que os londrinenses são capazes de identificar com mais facilidade os espaços públicos que os privados. Isso ficou demonstrado pelo número de participações e acertos no total de 99 fotografias analisadas no primeiro ano (2007) e no quinto ano (2011) de publicação da coluna. A identificação dos espaços também passa pelos conceitos de memória e identidade. A imagem fotográfica é capaz de disparar o “gatilho da memória”, uma vez que pode trazer à tona sentimentos e histórias sobre determinados lugares ou acontecimentos do passado, motivos pelos quais os londrinenses foram capazes de acertar muitos dos espaços questionados pela coluna. Cada um possui uma vivência ou lembrança particular de cada ponto da cidade e isso faz diferença na hora de identificá-lo por meio de uma fotografia com apenas um detalhe do todo.


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O Jornal de Londrina, na opinião do jornalista Joaquim Francisco Gonçalves de Brito Amaro, deveria dar mais importância a esta coluna, “porque ela cria e recria o imaginário cotidianamente”. Além de considerar todos esses conceitos, é possível afirmar que a aceitação e longevidade da coluna também dependem da atenção e capacidade de observação da cidade pelos leitores do jornal. Mais que estimular a memória e a trazer à tona a relação de pertencimento que cada cidadão possui com Londrina, a coluna Você conhece este lugar? despertou, em centenas de londrinenses, o desejo de conhecer mais a própria cidade e dela sentir orgulho.

Referências AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994. (Coleção Travessia do Século). BORTOLO, Carlos Alexandre de. O Lago Igapó em Londrina – do idealizado e construído: uma análise sobre os diferentes agentes produtores do espaço urbano. In: ENCONTRO NACIONAL DOS GEÓGRAFOS, 16, 2010, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: Associação de Geógrafos Brasileiros, 2010. HOFFMANN, Maria Luisa. Guardião de imagens: “memórias fotográficas” e a relação de pertencimento de um pioneiro com Londrina. 2010. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina. TUAN, Yi-fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: Difel, 1983.


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A influência das Teorias do Jornalismo na proximidade do pensamento fotográfico: a manifestação no Zerinho


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A influência das Teorias do Jornalismo na proximidade do pensamento fotográfico: a manifestação no Zerinho Bruna Volpini Freire * Paulo César Boni ** Resumo: Neste texto são analisadas fotografias publicadas nos dois principais jornais impressos de Londrina, a Folha de Londrina e o Jornal de Londrina, referentes à cobertura jornalística que ambos fizeram sobre a tentativa de “revitalização” do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon, no centro da cidade. A “revitalização” tinha por objetivo transpassar o bosque com uma rua, para “melhorar o tráfego de veículos”. O início das obras acarretou no corte de 20 árvores, o que provocou manifestações populares contrárias e ganhou as páginas dos diários londrinenses. Este estudo, baseado nas Teorias do Jornalismo – Teoria do Espelho, Teoria do Gatekeeper, Teoria Organizacional e Teoria do Agendamento – apresenta os fatores que representam o papel do fotojornalismo e suas implicações na aproximação e escolha das fotografias, bem como suas ideologias explícitas, nas edições de 14 de novembro de 2011 e 17 de novembro de 2011 de ambos os jornais, corpus deste objeto de estudo. As imagens da cobertura deste evento evidenciam uma perceptível aproximação do pensamento – e da mensagem – fotográfico dos repórteres Gina Mardones (Folha de Londrina), Gilberto Abelha e Roberto Custódio (Jornal de Londrina), o que permite concluir que eles se utilizaram dos mesmos mecanismos, escolhas e conceitos para informar o leitor. Palavras-chave: Fotojornalismo. Teorias do Jornalismo. Folha de Londrina. Jornal de Londrina.

* Jornalista e fotógrafa. Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela Faculdade Pitágoras de Londrina. Especialista em Fotografia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: brunafreire.fotografia@gmail.com * * Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História (CNPq). Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Introdução Com o objetivo de analisar a proximidade da mensagem fotográfica entre os dois jornais impressos de Londrina – Folha de Londrina e Jornal de Londrina –, este trabalho analisa fotografias publicadas nas edições de 14 de novembro de 2011 e 17 de novembro de 2011, referentes à cobertura de um mesmo assunto. Essas imagens complementaram as notícias sobre o projeto da Prefeitura do Município de Londrina para revitalização do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon, no centro da cidade, que gerou protestos da população e resultou no impedimento da obra. As notícias relacionadas à operação serviram como um parâmetro para demonstrar a proximidade fotográfica entre os jornais, bem como o processo de produção das fotografias em estudo. Para identificar o pensamento e o ato fotográfico, assim como os padrões e a influência das teorias do jornalismo em suas tomadas fotográficas, foram entrevistados os repórteres fotográficos Gina Mardones (Folha de Londrina), Gilberto Abelha e Roberto Custódio (Jornal de Londrina). Esta análise expõe o modo como os jornais e seus repórteres fotográficos investigaram, registraram e divulgaram as informações. Com ela, é possível considerar que, neste caso, as imagens publicadas pelos jornais correspondem a uma mesma ideologia, pois expressaram as mesmas opiniões, selecionaram informações semelhantes e depositaram nas imagens os mesmos valores e conceitos. Assim como o texto de uma notícia, a fotografia também permite ser “lida”, interpretada e analisada. Mas na fotografia nem sempre se pode afirmar, muito menos, concluir. Dela se extrai apenas algum sentido a partir da visão e do pensamento de quem a lê, ou seja, do receptor da mensagem. Fotografias não são isentas de sentido, informação ou valor. Ao contrário – e no fotojornalismo, especialmente –, são produzidas e existem para transmitir algo para alguém, uma mensagem, um sentimento, uma sensação. Elas ‘falam’, ou, como a própria etimologia da palavra diz, ‘escrevem com a luz’. Assim, partindo da premissa de que são ‘escritas’, subtende-se que podem ser ‘lidas’ [...]. Se as palavras, compostas por códigos definidos e aprendidas no bê-a-bá das escolas, despertam diferenças, o que poderíamos afirmar a respeito das imagens? Elas são um convite à imaginação, a um despertar de


188 emoções, a uma magia; uma fonte rica de informação (BRESSAN; BONI, 2011, p. 29).

O processo de seleção no fotojornalismo De modo geral, assim como a notícia, a fotografia – e mais especificamente o fotojornalismo – também possui a finalidade de informar, com veracidade e objetividade. Também como a notícia, em diversos casos, apresenta ideologias, conceitos, técnicas e responsabilidades, pois, assim como a notícia, a imagem passa por padrões e processos de seleção. As ideologias presentes nas fotografias advêm do próprio repórter fotográfico, que nelas deposita suas técnicas, escolhas e ideias, sempre à procura do quê informar, para tornar o fato o mais próximo possível da realidade. É o que explica o pesquisador Boris Kossoy (1999, p. 42): A produção da obra fotográfica diz respeito ao conjunto dos mecanismos internos do processo de construção da representação, concebido conforme uma certa intenção, construído e materializado cultural, estética/ideológica e tecnicamente, de acordo com a visão particular de mundo do fotógrafo.

Nesse mesmo sentido, Philippe Dubois classifica a fotografia como um corte (cut) da realidade. Ele afirma que o ato fotográfico é responsável por um único instante de tempo e espaço. Temporalmente de fato, a imagem-ato fotográfica interrompe, detém, fixa, imobiliza, destaca, separa a duração, captando dela um único instante. Espacialmente, da mesma maneira, fraciona, levanta, isola, capta, recorta uma porção de extensão. A foto aparece dessa maneira, no sentido forte, como uma fatia, uma fatia única e singular de espaço-tempo, literalmente cortada ao vivo (DUBOIS, 1994, p. 161).

Outro processo de seleção ocorre no trabalho do editor do veículo de comunicação. Entre suas inúmeras funções, cabe a ele determinar qual a melhor imagem a “complementar” a notícia. É através do “filtro” do editor que a fotografia, assim como a notícia, é selecionada. Desse modo, pode-se dizer que a imagem, além de representar apenas uma parcela da realidade, é composta de concepções de quem a constrói, do fotógrafo ao editor. Portanto, apesar de ser considerada uma parte do real, a fotografia pode ser repleta de ideologias.


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Assim como o jornalismo consiste em ser objetivo, claro e fiel ao “povo”, o fotojornalismo também possui essa obrigação e a ele se aplicam as teorias do jornalismo que esclarecem sobre os padrões das notícias e seu processo de produção e seleção.

Teoria do Espelho A teoria do espelho é a mais antiga a explicar por que as notícias são como são. Seu fundamento está em esclarecer o dever que a imprensa tem em refletir a realidade, como um espelho. Essa teoria diz que o jornalismo tem a função de informar com verdade e objetividade. Verdade em transmitir informações precisas e objetividade em separar fato de opinião. Essa premissa existe para garantir a confiança e o direito que o leitor tem de se informar, posto que é através da realidade que o jornalismo garante a sua credibilidade. Até hoje, a comunidade jornalística defende a teoria do espelho com base na crença de que as notícias refletem a realidade. Isso acontece porque ela dá legitimidade e credibilidade aos jornalistas, tratando-os como imparciais, limitados por procedimentos profissionais e dotados de um saber de narração baseado em método científico que garante o relato objetivo dos fatos (PENA, 2005, p. 126).

Felipe Pena (2005) afirma que os jornalistas julgam que a informação é a realidade através de suas representações e que obedece os limites permitidos pelos veículos de comunicação e que, com isso, comprometem a neutralidade. Lembra que a falta de neutralidade é o suficiente para corromper a teoria do espelho. O jornalismo, a simples argumentação de que a linguagem neutra é impossível já bastaria para refutar a teoria do espelho, pois não há como transmitir o significado direto dos acontecimentos [...]. Na verdade, os próprios jornalistas estruturam representações do que supõem ser a realidade no interior de suas rotinas produtivas e dos limites dos próprios veículos de informação. Enfim, cuidado com os reflexos da realidade. O que você vê pode não passar de uma ilusão de ótica. E não adianta limpar o espelho (PENA, 2005, p. 128).


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Neste mesmo sentido, Kossoy (1999) observa que a fotografia também possui ideologias originadas de quem a criou e que ela não pode ser considerada como um espelho fiel da realidade. Acrescenta que a fotografia deve ser considerada uma segunda realidade. A fotografia tem uma realidade própria que não corresponde necessariamente à realidade que envolveu o assunto, objeto do registro, no contexto da vida passada. Trata-se da realidade do documento, da representação: uma segunda realidade, construída, codificada, sedutora em sua montagem, em sua estética, de forma alguma ingênua, inocente, mas que é, todavia, o elo material do tempo e espaço representado, pista decisiva para desvendarmos o passado (KOSSOY, 1999, p. 22, grifos do autor).

Teoria do Gatekeeper A teoria do gatekeeper analisa a responsabilidade que o jornalista possui em selecionar aquilo que deve ser noticiado. Ele trabalha como uma espécie de “porteiro”, que decide quais informações devem ser noticiadas. Funciona como filtro da informação. Segundo essa teoria, as notícias são definidas pela ação pessoal e individual do repórter ou do editor. Portanto, a visão, a cultura e a crença do profissional podem influenciar na notícia porque, em alguns casos, ele pode deixar de informar fatores consideráveis ao receptor da mensagem. Porém, como assinala Pena (2005, p. 134), “as decisões do gatekeeper estão mais influenciadas por critérios profissionais ligados às rotinas de produção da notícia e à eficiência e velocidade do que por uma avaliação individual de noticiabilidade”. Isto significa que o processo de seleção de notícias está, parcialmente, relacionado a critérios da organização em que o jornalista trabalha. Conforme Nelson Traquina (2001), a preferência na escolha de notícias pode limitar a divulgação de assuntos importantes para o conhecimento da coletividade. O autor explica que a teoria do gatekeeper é uma visão limitada do processo de produção de notícias, isto é, as informações, quando selecionadas, deixam, muitas vezes, de divulgar fatos que sejam importantes para a sociedade. A teoria do gatekeeper avança igualmente uma concepção bem limitada do trabalho jornalístico, sendo uma teoria que se baseia no conceito de seleção,


191 minimizando outras dimensões importantes do processo de produção das notícias (TRAQUINA, 2001, p. 70).

Kossoy (1999) intitula essa espécie de filtro como pós-produção de editoração, quando a fotografia passa por adaptações pelo editor, que acaba por depositar na fotografia uma nova realidade. Não é nenhuma novidade que a produção da representação, tal como é empreendida pelo fotógrafo, tem sequência ao longo da editoração da imagem. É o que poderíamos chamar de pós-produção, isto é, quando a imagem se vê objeto de uma série de ‘adaptações’ visando sua inserção na página do jornal, da revista, do cartaz etc. Trata-se de alterações físicas em sua forma, como por exemplo, os ‘cortes’ em determinado espaço da página, ou que mostre apenas parte do assunto, segundo algum interesse determinado do editor (KOSSOY, 1999, p. 54, grifos do autor).

Teoria Organizacional A teoria organizacional é direcionada à instituição em que o jornalista trabalha. Com ela, é possível sustentar a ideia de que, além do código de ética e função da profissão, o jornalista precisa adaptar-se às regras de seus editores. Regras essas que, geralmente, não trazem benefício algum para o verdadeiro objetivo da profissão; pelo contrário, dissimulam a verdadeira característica do jornalismo. Citando W. Breed, Traquina (2001, p. 71) alerta que “o jornalista conforma-se mais com as normas editoriais da política editorial da organização do que com quaisquer crenças pessoais que ele ou ela tivesse trazido consigo”. Ainda citando Breed, Traquina (2001, p. 71) considera que a submissão diante de seus editores ocorre porque “o jornalista acaba por ser socializado na política editorial da organização através de uma sucessão sutil de recompensa e punição”. É diante dessas recompensas e punições que o jornalista desvia-se do seu verdadeiro papel – um legítimo colaborador a serviço da sociedade –, para se transformar em uma “ferramenta” agregada aos interesses da organização. Complementando esse raciocínio, Felipe Pena (2005) lembra que o jornalismo é um negócio e tem como fator principal o lucro. Portanto, o setor comercial é o


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mais importante para a empresa jornalística, pois é através dele que o jornal é sustentado. Pela teoria organizacional, o trabalho jornalístico é dependente dos meios utilizados pela organização. E o fator econômico é exatamente o mais influente de seus condicionantes [...]. O jornalismo é um negócio. E, como tal, busca o lucro. Por isso, a organização está fundamentalmente voltada para o balanço contábil. As receitas devem superar as despesas. Do contrário, haverá a falência da empresa e seus funcionários ficarão desempregados. Então, qual será o setor mais importante de uma empresa jornalística? Fácil: é o setor comercial. Esse setor é o responsável pela captação de anúncios para sustentar o jornal. E eles interferem na produção das notícias (PENA, 2005, p. 135).

É através do interesse econômico e, portanto, organizacional, que o jornalismo deixa de ser independente e torna-se cada vez mais submisso a fatores que colocam em risco sua verdadeira função.

Teoria do Agendamento (Agenda Setting) Esta teoria explica que as notícias veiculadas pela imprensa são as consideradas mais importantes “para” o público-receptor, ou seja, a teoria sugere que é a imprensa quem pauta as discussões, conversas, opiniões, debates e ações da coletividade. Pena (2005, p. 142) esclarece: A teoria do agendamento defende a idéia de que os consumidores de notícias tendem a considerar mais importantes os assuntos que são veiculados na imprensa, sugerindo que os meios de comunicação agendam nossas conversas. Ou seja, a mídia nos diz sobre o que falar e pauta nossos relacionamentos.

Assim, as notícias possuem a característica de “agendar” o público. Em relação à fotografia ocorre o mesmo. Kossoy (1999) alerta que qualquer imagem atrelada aos meios de informação possui o intuito de direcionar e conduzir as mentes dos receptores. De uma forma geral – e, mais especificamente, em matérias políticas ou ideológicas – a imagem que será aplicada em algum veículo de informação é


193 sempre objeto de algum tipo de ‘tratamento’ com o intuito de direcionar a leitura dos receptores. Ela é reelaborada – em conjunto com o texto – e aplicada em determinado artigo ou matéria como comprovação de algo ou, então, de forma opinativa, com o propósito de conduzir, ou melhor dizendo, controlar ao máximo o ato da recepção numa direção determinada: são, enfim, as interpretações pré-construídas pelo próprio veículo que irão influir decisivamente nas mentes dos leitores durante o processo de construção da interpretação (KOSSOY, 1999, p. 55, grifos do autor).

A teoria do agendamento esclarece sobre a influência da imprensa nas discussões da sociedade e explica que, entre os meios de comunicação, um acaba por pautar o outro. O fotojornalismo, por extensão, passa por esses mesmos processos.

O fotojornalismo e a revitalização do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon Esta análise estuda imagens do episódio da revitalização do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon, planejada pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) e iniciada pela Prefeitura de Londrina, em novembro de 2011. A “revitalização” tinha por objetivo transpassar o bosque com uma rua, para “melhorar o tráfego de veículos” no centro da cidade. A obra ocasionou o corte de 20 árvores, fato que provocou manifestações populares e a criação de uma organização não-governamental (ONG) chamada Ocupa Londrina1, com o intuito de impedir a continuidade das obras, em razão de o bosque ser considerado um espaço de lazer. O caso gerou investigações sobre a legitimidade do projeto por segmentos organizados da sociedade, inclusive pelos dois jornais diários, a Folha de Londrina e o Jornal de Londrina, que classificaram o episódio como um acontecimento que mobilizou a cidade. As imagens publicadas pelos dois jornais – e que constituem o corpus analítico deste trabalho – são dos repórteres fotográficos Gina Mardones, da Folha de Londrina, e Gilberto Abelha e Roberto Custódio, do Jornal de Londrina. A 1

O nome Ocupa Londrina faz alusão ao movimento norte-americano Occupy Wall Street que, desde 17 de setembro de 2011, promove protestos e manifestações em diferentes cidades dos Estados Unidos contra a crise econômica, o desemprego e a influência empresarial na sociedade norte-americana.


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metodologia de análise será a da desconstrução analítica, para aferição da intencionalidade de comunicação dos produtores e editores das imagens. Figura 1 – Página 5 (Seção Geral) da Folha de Londrina

Fotografia: Gina Mardones Fonte: Folha de Londrina, 14 de novembro de 2011, p. 5

Figura 2 – Capa do Jornal de Londrina

Fotografia: Gilberto Abelha Fonte: Jornal de Londrina, 14 de novembro de 2011, capa


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As duas primeiras imagens deste trabalho (Figuras 1 e 2) foram tomadas durante uma manifestação de cidadãos londrinenses de pesar pelo corte de árvores e contrária à passagem da Rua Piauí pelo meio do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon, o Zerinho. A primeira imagem analisada (Figura 1) é da repórter fotográfica Gina Mardones, publicada na seção Geral da Folha de Londrina, do dia 14 de novembro de 2011, com a legenda: “Crucifixos, flores e velas ocuparam o espaço dos ipês erradicados na sexta-feira”. A segunda imagem (Figura 2) é do fotógrafo Gilberto Abelha, publicada na capa do Jornal de Londrina, na mesma data, com a legenda: “Cruzes e velas contra a derrubada de árvores no Bosque”. Vale destacar, primeiro, a similaridade nas fotografias, principalmente nos elementos em primeiro plano. Esses objetos indiciam um fato: o sentimento de perda por parte da população, que, com o intuito de impedir a continuidade da obra e o corte de mais árvores, realizou um funeral para representar a derrubada de árvores no bosque. Em suas tomadas fotográficas, Gina Mardones e Gilberto Abelha, classificaram esses elementos como importantes: a cruz adornada com um girassol, as velas e as flores. Existe apenas uma distinção entre as fotografias: o ângulo de tomada, que altera o “fundo” da imagem. Enquanto Gina Mardones (Figura 1) optou por um ângulo que valorizasse os manifestantes, ao fundo, que representavam pássaros e árvores, Gilberto Abelha (Figura 2) preferiu um ângulo mais lateral, para mostrar prédios e situar espacialmente os leitores. Em entrevista concedida por e-mail, a repórter fotográfica Gina Mardones (Folha de Londrina) destaca que não estava a trabalho no dia do episódio e explica que fotografou sem pensar na veiculação das imagens no jornal. O curioso é que nesse dia, se não me engano um domingo, eu não estava de plantão no jornal, eu não estava trabalhando. Logo que soube da formação do grupo (Ocupa Londrina), já simpatizei com a causa e percebi que isso renderia, dali pra frente, boas imagens. No dia dessa foto especificamente, eu fiz muitas outras para mim, para arquivo pessoal e também para o grupo. O fato é que alguém do jornal ficou sabendo que eu estava por lá e como o bosque fica ao lado da Folha, pediram-me para que eu cedesse uma daquelas fotos para publicar na edição do dia seguinte. Claro que cedi, afinal não custaria nada, já que estava por lá mesmo.


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Questionada sobre sua intencionalidade de comunicação nesta fotografia, Gina Mardones declarou que, mesmo estando no local como cidadã e não como repórter fotográfica, acabou por fotografar com características de linguagem fotojornalística. Acho interessante porque naquele dia eu estava lá por mim mesma, fotografando da forma que eu achava que deveria fotografar, com a intenção de apenas registrar o momento. Mas quando essa foto é colocada no jornal, escolhida, editada, ela adquire outra ‘cara’, ela assume um fato jornalístico, algo que aconteceu e que deve ser noticiado. A impressão que se tem é que eu, como repórter fotográfica, tive intenção de passar o maior número de informações numa foto só: as cruzes e as velas representando as árvores que dali haviam sido arrancadas, o grupo performático logo ao fundo, enfim, tudo o que demonstrasse de que maneira essa manifestação estava sendo realizada. Talvez de fato eu tenha feito isso sem perceber, afinal como fotojornalista há algum tempo, acabei adquirindo alguns vícios de linguagem da profissão, mas de fato eu não estava ali como a repórter fotográfica da Folha de Londrina, mas como a cidadã e fotógrafa Gina Mardones.

O depoimento da repórter fotográfica evidencia uma característica que pode ser chamada de “vício” profissional: na execução de seu trabalho, o profissional raciocina pensando nas normas de sua profissão. Neste caso, nas normas do jornal ou em algumas linguagens do próprio jornalismo. Deduz-se, então, que a escolha de Gina Mardones está plenamente voltada para as teorias do jornalismo, pois na pretensão de transmitir o fato o mais próximo possível da realidade (teoria do espelho) e seguir os princípios da organização em que trabalha (teoria organizacional), mesmo estando no local como cidadã e não como profissional, ela acabou se deixando levar pelo “vício”. E mais: explica que sua imagem, depois de selecionada, editada e veiculada, passou a ter características jornalísticas (teoria do gatekeeper), que designa os processos de seleção da notícia. Gilberto Abelha, do Jornal de Londrina, também questionado sobre sua intencionalidade na fotografia, em entrevista por e-mail, descreve o que percebeu de imediato, quando chegou ao local, e revela que, além de tentar transmi-


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tir o sentimento dos envolvidos no caso, pensou na estética fotográfica. Ao contrário de Gina Mardones, ele tinha uma pauta para cumprir. Tínhamos uma pauta sobre o protesto da derrubada de árvores no bosque. Ao chegar lá o clima era de indignação e tristeza. Havia o lamento dos manifestantes e o silêncio. O que se via eram as árvores deitadas no solo, cruzes espalhadas, velas sendo acesas e a tristeza no olhar das pessoas. Todo esse conjunto me remeteu a um velório. E foi com esse propósito que tentei contextualizar o que estava presenciando. A morte do espaço de convivência do bosque, a morte do ‘Zerinho’. A escolha da cena e do ângulo desta foto, em particular, foi feita para realçar a estética.

Assim, conforme o próprio fotógrafo, o intuito da imagem (Figura 2) foi o de transmitir o sentimento e a estética do fato. Para tanto, Gilberto Abelha priorizou o registro de elementos marcantes como a cruz, o girassol e as velas. A partir de sua declaração é possível identificar que a imagem é de extremo sentimento, pois, de imediato, ele identificou o clima de tristeza no local e, ao invés de simplesmente fotografar, depositou na imagem seu próprio sentimento (teoria do gatekeeper). Gina Mardones, da Folha de Londrina, agora questionada sobre a similaridade das imagens, explica que as fotografias passam por dois processos de seleção no jornal: primeiro pelo editor de fotografia e logo após pelo editor chefe. Ela acredita que a similaridade ocorreu porque, na busca de informar o fato da melhor maneira possível, ambos os jornais acabaram por publicar imagens semelhantes. Creio que isso se explique pelo simples fato de o jornal querer adotar sempre uma postura informativa. Além do texto, a ideia é sempre publicar a fotografia que contém o maior número de informações possível. E o que era a informação naquele dia? A manifestação com cruzes, velas e o grupo performático. Fiz outras inúmeras fotos, talvez que não interessaram ao jornal, visto que eram mais pessoais, mais artísticas e menos noticiosas. Noventa e nove por cento dos jornais pensam nisso ao publicar uma foto, por isso no dia seguinte elas saem todas parecidas. Daí você nota a diferença entre a intencionalidade da empresa e do fotógrafo. Existe sempre o antes e o depois na produção de uma foto. E isso muita gente não leva em consideração.


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Relevantes os comentários da repórter fotográfica da Folha de Londrina, que busca explicar a proximidade das imagens nos dois jornais. Em suas falas “pelo simples fato de o jornal querer adotar sempre uma postura informativa” e “daí você nota a diferença entre a intencionalidade da empresa e do fotógrafo. Existe sempre o antes e o depois na produção de uma foto”, podese entender que toda notícia, seja ela em texto ou imagem, antes de ser publicada, passa não só pelas escolhas do repórter como também do editor (teoria do gatekeeper). Deste modo, a notícia é produzida sempre voltada para algumas regras de linguagens jornalísticas, seja através de padrões que formam as características do jornal como uma empresa (teoria organizacional), seja relacionada diretamente às teorias da informação, de modo geral, ou ao próprio jornalismo, em particular. Neste sentido, Gilberto Abelha, do Jornal de Londrina, explica a similaridade entre as imagens. Para ele, a cena da fotografia em análise (Figura 2) era muito chamativa e, ao mesmo tempo, bastante informativa como representação do fato. Assim, ele acredita que os elementos que compõem a fotografia, de certo modo, chamaram a atenção do editor. O que posso dizer é que escolhi essa cena porque tinha uma cruz com um girassol pendurado, um terço, flores e muitas velas. Era a cruz mais enfeitada. Do ponto de vista que foi escolhida a cena, era o lugar do qual mais se podia ver troncos caídos em segundo plano, também havia uma moça que sua posição passava a impressão de reflexão. Além da escolha do fotógrafo, as imagens também passam pelos editores, e são eles que escolhem quais publicar.

Analisando comparativamente as descrições, é possível supor que a cena transmitida em ambas as fotografias foi a que mais despertou interesse ao ponto de vista dos fotógrafos porque nela havia um conjunto de elementos em um único ângulo de tomada. E na procura pela transmissão do episódio o mais próximo possível da realidade, ambos os repórteres fotográficos fizeram a mesma escolha ideológica. Um segundo exemplo de aproximação fotográfica pode ser visto nas imagens publicadas pelos dois jornais, dia 17 de novembro de 2011. Trata-se de uma


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continuidade do mesmo assunto, com imagens dos repórteres fotográficos Gina Mardones, da Folha de Londrina, e Roberto Custódio, do Jornal de Londrina. Figura 3 – Capa da Folha de Londrina

Fotografia: Gina Mardones Fonte: Folha de Londrina, 17 de novembro de 2011, capa

Figura 4 – Página 6 do Jornal de Londrina

Fotografia: Roberto Custódio Fonte: Jornal de Londrina, 17 de novembro de 2011, p. 6


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Nota-se novamente nas figuras 3 e 4 a semelhança nas tomadas e no pensamento fotográfico. Desta vez, até mesmo a escolha do ângulo é similar. Os objetos da informação – máquina escavadeira e os indivíduos no local – indiciam a similaridade, com uma leve diferença de enquadramento: a fotografia da Folha de Londrina (Figura 3) mostra o episódio de forma um pouco mais aberta que o Jornal de Londrina (Figura 4). Porém, ambos valorizam o mesmo elemento informativo: o manifestante abraçado ao tronco da árvore, para impedir a continuidade dos trabalhos. Esse momento foi registrado, selecionado e valorizado de forma idêntica pelos fotógrafos. Mas foi valorizado de forma diferente pelos editores, afinal, a fotografia foi publicada na capa da Folha de Londrina (mais valia) e em uma página par do Jornal de Londrina (menos valia). Gina Mardones explica como foi o processo de seleção da sua fotografia (Figura 3): Nesta foto a única coisa que eu não queria era perder o momento. Minutos antes, o Guto Rocha [jornalista abraçado à árvore] e outros membros do Ocupa Londrina estavam lá para tentar intimidar o trabalho da Prefeitura. Como a obra naquela altura já havia sido embargada, as escavadeiras não poderiam estar trabalhando. Quando uma das máquinas se aproximou da área onde o grupo havia replantado algumas árvores, o Guto foi o único que, tomado pelo impulso, imediatamente se colocou embaixo da escavadeira. Foi tudo muito rápido! Aquilo era a informação do dia! O Guto conseguiu parar as escavadeiras e os funcionários da Prefeitura foram embora. Eu não poderia perder essa foto, já que essa era a principal notícia do dia com relação ao bosque. Minha única intenção foi a de não perder aquele momento.

Roberto Custódio, do Jornal de Londrina, também comenta como ocorreu seu ato fotográfico (Figura 4). Assim como Gina, ele explica que o acontecimento foi muito rápido e quase não foi possível pensar no quê fotografar. Quanto à fotografia escolhida, não houve intenção alguma além de registrar o fato. A cena aconteceu muito rápido. As máquinas da Prefeitura estavam trabalhando na remoção de entulhos quando o operador da escavadeira resolveu remover um tronco de árvore. Foi quando o jornalista Guto Rocha abraçou o tronco, impedindo sua remoção.

Quanto à similaridade, Gina Mardones revela que foi a relevância do acontecimento que provocou a proximidade das imagens, pois ele foi “o episódio do dia”.


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Do mesmo modo, acrescenta, foi a escolha dos editores de ambos os jornais, pois os dois imaginavam, acredita, ser um “furo” de reportagem. A informação do dia era: grupo sai em defesa do bosque e impede que funcionários da Prefeitura continuem as obras. O fotógrafo do JL também estava lá e, pelo visto, também percebeu que essa seria a foto do dia. As redações de jornal costumam pensar da mesma maneira. Tanto eu quanto o Roberto Custódio fizemos inúmeras fotografias no dia, e a mais interessante certamente era essa, e os editores concordaram.

Com o intuito de esclarecer a aproximação das imagens, Roberto Custódio lembra que se trata de um fato inusitado. Ele acredita que a escolha desta imagem pelo editor do jornal se deu justamente por este mesmo motivo. A pauta estava monótona e nada acontecia além do trabalho das máquinas. O ato do Guto Rocha, manifestante do grupo Ocupa Londrina, foi único e não podíamos deixar de registrar a cena. Eu e a Gina estávamos bem próximos naquele dia. A Folha de Londrina tem editor de fotografia, aqui no JL não. Cada fotógrafo edita o máximo possível de seu material e deixa disponível na rede. No final do dia cada editor escolhe o que quer publicar. E mesmo com o processo de edição, acredito que os jornais publicaram imagens semelhantes porque o ato foi único e rápido. Não tive muito no que pensar naquele momento, a não ser fotografar.

Pelos esclarecimentos de Gina Mardones e Roberto Custódio, é possível identificar que o motivo para a aproximação fotográfica foi a relevância do episódio. O impacto que as imagens iriam causar no leitor e a busca pela transmissão da realidade (teoria do espelho), adicionada com a procura pelo inusitado, inédito, pelo “furo”, foram fatores fundamentais para a credibilidade do jornal (teoria organizacional). Essa busca pelo “novo” ocasionou um agendamento entre os veículos, que, para mostrar o que, segundo eles, foi considerado a melhor notícia do dia (teoria do agendamento), colaborou para a proximidade das fotografias. As quatro imagens utilizadas neste estudo revelam também que a Folha de Londrina e o Jornal de Londrina, assim como seus repórteres fotográficos, defenderam os mesmos valores e critérios de noticiabilidade diante do episódio. Identificaram a mesma realidade e atribuíram às imagens fotográficas a mesma estética fotográfica e o mesmo formato. Portanto, neste caso, as fotografias apontaram a proximidade ideológica entre os jornais, os repórteres fotográficos, e os editores


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em suas escolhas. Considerando essa semelhança, pode-se refletir que as informações contidas nas imagens possuem características relacionadas às Teorias do Jornalismo e seus princípios dentro da prática jornalística. Sendo assim, nota-se que os repórteres fotográficos buscaram transmitir a mesma realidade do fato (teoria do espelho); as fotografias, em ambos os casos, passaram pelo filtro dos editores, que, na intenção de melhor noticiar o episódio, optaram por publicar fotografias similares (teoria do gatekeeper). Outro fator predominante foi o agendamento. Na disputa pela audiência, com a preocupação de não ser “furado” pelo concorrente, os veículos e seus repórteres fotográficos se pautaram entre si, resultando na escolha das mesmas imagens (teoria do agendamento).

Considerações finais O fotojornalismo possui o mesmo poder de informação que o texto. Sendo assim – e por extensão –, a fotografia jornalística carrega consigo as mesmas ideologias enquanto meio de informação. Ideologias originadas de quem as criaram, produziram ou selecionaram. É relevante observar que os repórteres fotográficos dos dois jornais – Folha de Londrina e Jornal de Londrina – tiveram percepções similares da realidade e se sensibilizaram a partir das mesmas intenções, interesses e ideologias. Buscaram informar o episódio através de elementos próximos e, como profissionais responsáveis pela mensagem fotográfica, transmitiram ao leitor o mesmo pensamento acerca do episódio fotografado. A proximidade de comunicação das imagens publicadas em ambos os jornais indicia que elas trazem consigo características e padrões das Teorias do Jornalismo, seja em sua criação ou produção, seja em sua seleção ou veiculação. Enfim, ambos os veículos de comunicação impressa de Londrina, quanto à proposta de revitalização do Bosque Municipal Marechal Cândido Rondon, no centro da cidade, evidenciaram por suas manchetes e, principalmente, por suas fotografias, os mesmos interesses ideológicos diante do episódio. Afinal, coletaram dados, entrevistaram, fotografaram, editaram e divulgaram o fato a partir dos mesmos parâmetros ideológicos.


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Referências BRESSAN, Fernanda Grosse; BONI, Paulo César. A intencionalidade de comunicação no fotojornalismo: análise das imagens do latrocínio de Isabella Garcia Lopes. In: BONI, Paulo César (Org.). Fotografia: múltiplos olhares. Londrina: Midiograf, 2011. p. 27-49. DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 1994. KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editorial, 1999. PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005. TRAQUINA, Nelson. O estudo do jornalismo no século XX. São Leopoldo: Unisinos, 2001.


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Retratos da transformação urbana: documentação visual de Londrina antes e depois da Lei Cidade Limpa


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Retratos da transformação urbana: documentação visual de Londrina antes e depois da Lei Cidade Limpa * Fernanda Grosse Bressan ** Paulo César Boni *** Resumo: Este trabalho demonstra a importância dos registros fotográficos para a documentação das transformações urbanas e preservação da memória. O objeto de estudo é Londrina e os recortes temporais abrangem o centro da cidade antes e depois da Lei Municipal Nº. 10.966/10, sancionada em 2 de agosto de 2010, que ficou conhecida como “Lei Cidade Limpa”, por regulamentar o uso de publicidade externa e fachadas de lojas, indústrias, estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, inclusive a área médica. A lei deu prazo de 180 dias para que os lojistas adequassem suas publicidades de modo a devolver aos cidadãos a visão de fachadas arquitetônicas históricas, transformando a paisagem urbana. O trabalho utiliza referenciais teóricos de fotografia e memória e registra dois momentos do centro da Londrina: o imediatamente anterior à vigência da lei, quando a publicidade não era regulamentada e as fachadas estavam encobertas por painéis, e o imediatamente posterior, com as fachadas descobertas. Palavras-chave: História de Londrina (PR). Fotografia e Memória. Lei Cidade Limpa. Publicidade Externa.

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Este texto, com algumas adequações, foi apresentado no III Encontro Nacional de Estudos da Imagem (Eneimagem), realizado na Universidade Estadual de Londrina (UEL), de 3 a 6 de maio de 2011. * * Jornalista e fotógrafa. Graduada em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Especialista em Comunicação Jornalística pela Faculdade Cásper Líbero (FCL). Especialista em Fotografia e Mestre em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: fgbressan@yahoo.com.br ***Doutor e pós-doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Coordenador do Curso de Especialização em Fotografia: Práxis e Discurso Fotográfico da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Líder do Grupo de Pesquisa Comunicação e História do CNPq. Bolsista Produtividade da Fundação Araucária. E-mail: pcboni@sercomtel.com.br


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Introdução Como se conta a história? Como se comprovam fatos, transformações, invenções, vitórias e derrotas ocorridas ao longo do tempo? Como se recupera a memória de um lugar, de uma cidade? Durante um longo período, a história se valeu de recordações contadas oralmente, documentos escritos e achados arqueológicos. As imagens também, de longa data, servem de norte para delinear fatos, hábitos e acontecimentos. Pintadas, desenhadas ou gravadas em pedras, elas ilustraram e imortalizaram conquistas, bem como a cultura e a forma de pensar de um tempo que não existe mais. Parafraseando Samaran, o pesquisador Boris Kossoy (2001, p. 31) lembra que: “Não há história sem documento [...]. Há que tomar a palavra ‘documento’ no sentido mais amplo, documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, a imagem ou de qualquer outra maneira”. A fotografia surgiu oficialmente em 1839, e com ela nasceu uma nova forma de registrar a história. Traço do real, ela apareceu como um espelho, uma cópia fiel da realidade, congelada em um pedaço de papel. A verossimilhança com o objeto retratado fez dela um documento, um instrumento com alta carga informativa e grande potencial para narrar fatos. A fotografia logo passou a ser vista como uma “testemunha” confiável, que havia congelado fidedignamente um recorte espaçotemporal da realidade. Atualmente, mesmo passados mais de 170 anos de sua invenção, a imagem capturada por uma câmera fotográfica tem importante papel no registro dos acontecimentos. “São as imagens documentos insubstituíveis cujo potencial deve ser explorado” (KOSSOY, 2001, p. 32). Guerras, campeonatos esportivos, eleições, catástrofes, descobertas. Tudo o que sabemos vem não só das informações transmitidas oralmente ou em livros, mas também de imagens gravadas em papel fotográfico, que resistiram ao tempo. Em uma época em que sequer imaginavam a fotografia digital, filmes e papéis fotográficos se uniram para contar a história e deixar para a posteridade uma memória visual dos tempos passados. Pelas fotografias guardadas podemos ver, hoje, como se vestiam as mulheres na década de 1930, como era a arquitetura de São Paulo nos idos anos de 1940, qual era o estilo de vida em Paris na década de 1960. Por isso, a fotografia é, a um só tempo, documento e memória, representação e objeto de recuperação, que


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revela aos atores ausentes à cena o que aconteceu, e rememora aos que estiveram presentes o que foi, como foi, quem estava lá. Há mais de 100 anos a fotografia já era alçada ao status de documento, de registro imagético para servir de prova material para o que ali estava antes de ser transformado. No Brasil do início do século XX, o fotógrafo Augusto Malta tornou-se o primeiro profissional da área contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro para registrar as transformações da então capital federal. Reconhecendo a magnitude do trabalho de Malta na documentação das transformações urbanas para a revitalização do centro do Rio de Janeiro, o pesquisador e colecionador George Ermakoff (2009, p. 18) justifica sua contratação: A prefeitura necessitava de alguém que pudesse registrar fotograficamente as obras de remodelamento da cidade e principalmente os imóveis a serem desapropriados, para fins de indenização.

Ermakoff (2009) chama a atenção para a riqueza do acervo fotográfico produzido por Malta, que contém mais de mil chapas. O trabalho de Malta é de enorme importância para a preservação da memória da cidade, pois legou às gerações futuras imagens da sucessão de mudanças que ocorreram [no Rio de Janeiro e Niterói] nas quatro primeiras décadas do século XX (ERMAKOFF, 2009, p. 26).

Hoje, as “chapas” de Augusto Malta são documentos de uma história real vivida há mais de um século. Podemos traçar um paralelo entre o Rio de Janeiro do início do século XX e a Londrina do início do século XXI. Como a capital carioca, há um século, Londrina vive hoje um intenso processo de transformação em sua paisagem urbana, mudança provocada, principalmente, pela Lei Cidade Limpa.

Lei 10.966/10 – Lei Cidade Limpa Aprovada em julho de 2010 na Câmara de Vereadores, e sancionada dia 2 de agosto de 2010 pelo prefeito Homero Barbosa Neto, a Lei 10.966/10, batizada de Lei Cidade Limpa, veio transformar a paisagem urbana de Londrina. Em seus artigos estão regras e normas a serem seguidas em publicidades externas e facha-


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das de lojas, indústrias, estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, incluindo a área médica. Todo e qualquer tipo de anúncio indicativo precisa seguir normas estabelecidas pela legislação. No quesito publicidade externa entram outdoors, backligths, faixas, cartazes, totens, painéis, adesivos de vitrine e demais anúncios com cunho propagandístico, publicidades e objetos que se multiplicavam pelas ruas sem qualquer padrão e agora têm normas a ser cumpridas. A Lei Cidade Limpa traz uma nova forma de pensar a cidade em termos de propaganda, fachadas e publicidade nas ruas. Estabelece limites entre o que pode e não pode estar nas vias públicas. Dessa forma, a partir de 2011 os cidadãos londrinenses passaram a ver ruas mais “limpas”, fachadas de lojas e prédios comerciais com poluição visual minimizada. A legislação deve ser obedecida por quem realiza novos projetos arquitetônicos e inclui novas mídias nas ruas. Em fevereiro de 2011, seis meses após ser publicada e entrar em vigor, boa parte das mudanças previstas na legislação deveria estar efetivada também nas construções antigas, sob pena de multa. O dia 2 de fevereiro de 2011 foi a data limite fixada para que fachadas das edificações tivessem os indicativos – letreiros – adequados ao tamanho estabelecido pela lei: no máximo 1,5 metro quadrado de letreiro para imóveis com testada inferior a 10 metros; e letreiros de até 15% da área da fachada para testadas maiores de 10 metros, com limite máximo de 20 metros quadrados de letreiro. A lei, praticamente, decretou o fim das placas gigantescas que cobrem edifícios e casas, maquiando, disfarçando ou escondendo completamente suas fachadas. E não só isso. A lei trouxe outras determinações: apenas um anúncio indicativo por imóvel, proibição das empenas cegas – anúncios pintados nas laterais dos edifícios – e de propaganda na cobertura das edificações. Também proibiu outdoors no centro da cidade, que são admitidos nas demais localidades em até duas unidades juntas, sendo que os dois mais próximos devem estar instalados a 110 metros de distância dos dois primeiros. No prazo estipulado pela lei, a grande maioria dos comerciantes não havia se adequado à nova legislação, mesmo com a Prefeitura prometendo que iria multar a todos que estivessem irregulares. Como muitos deixaram para fazer tudo nos últimos dias, faltou mão-de-obra para atender a demanda. A Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL), representando a classe, inicialmente tentou estender o prazo. Ante a falta de acordo com a Prefeitu-


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ra, a entidade foi à Justiça e conseguiu uma liminar prorrogando o prazo, que passou de 2 de fevereiro de 2011 para 2 de agosto de 2011. O mesmo prazo passou a valer para a regularização dos outdoors. Dessa vez, temerosos com as multas, todos se preocuparam em se adequar à lei, mas, mesmo antes do término deste embate jurídico, já era possível ver, nas ruas, as fachadas históricas que renasciam com a saída das placas de publicidade.

A fotografia e o registro das transformações paisagísticas de Londrina A memória do ser humano é volátil. Se perguntarmos a alguém como era a rua da casa em que morava quando criança, alguns aspectos lhe virão à mente, especialmente os ligados a momentos afetivos e vividos com emoção. Outros, porém, já fugiram de suas lembranças. Acostumamo-nos com as novas paisagens e, quase automaticamente, nos esquecemos do que havia antes naquele espaço. Diante dessas circunstâncias, como será que os londrinenses registrarão na memória a Londrina de antes e após a Lei Cidade Limpa? A memória humana é imprecisa. A memória do poeta é fantasiosa e imprecisa. A memória da câmera fotográfica, ao contrário, é precisa, porém sempre carrega a subjetividade do olho que enquadra, seleciona e filtra (FERNANDES JUNIOR, 2009, p.18).

A fotografia é um suporte importante como documento e como registro da história. Traço do real, a imagem congela um momento e um espaço no tempo. Como diz o pesquisador Rubens Fernandes Júnior (2009, p. 16), sobre a obra fotográfica de Aurélio Becherini, no livro Lições e demolições do olhar, “fotografar é olhar e registrar as coisas antes que elas desapareçam”. As “coisas” surgem e desaparecem cotidianamente. A história acontece todos os dias. E a história de Londrina passou – e continua passando – por mudanças significativas com a Lei Cidade Limpa. Muitos elementos desapareceram de sua paisagem urbana, o que torna esse evento um momento histórico ímpar, digno de registro fotográfico. No futuro, com certeza, as fotografias desse processo de transformação urbana serão usadas como documentos para a recuperação da história


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da cidade. Afinal, “a paisagem urbana congelada no documento fotográfico eterniza a memória do cidadão” (BECHERINI, 2009, p. 27). Para facilitar os aspectos comparativos e usar a fotografia como documento de registro histórico, escolhemos dois dos principais pontos do centro de Londrina: a Rua Sergipe e o Calçadão, ambos com grande concentração de lojas comerciais. Esse recorte espacial – uma consagrada rua comercial e o icônico calçadão de pedestres – representa duas fontes privilegiadas para o registro documental de como era e como ficou a paisagem urbana londrinense, antes e depois da Lei 10.966/10. Em um primeiro momento a paisagem desses dois pontos – como a de todo o centro da cidade – sofreu grandes modificações, pois, nessa fase, os lojistas apenas cumpriram a lei, ou seja, retiraram o excesso de publicidade, expondo o mau estado de conservação das fachadas de prédios antigos. Em um segundo momento, eles deverão recuperar as fachadas e torná-las mais aprazíveis ao olhar1. Acreditase que farão isso por dois motivos, um de caráter comercial, ou seja, embelezar o estabelecimento para satisfazer as exigências da clientela, e o outro de incentivo fiscal: a Prefeitura concederá descontos no IPTU – Imposto Territorial e Predial Urbano para os lojistas que recuperarem e preservarem as antigas fachadas. As primeiras imagens foram registradas em agosto e setembro de 2010. Em agosto, o Projeto de Lei 186/2009, aprovado pela Câmara Municipal, foi sancionado pelo prefeito Homero Barbosa Neto, transformando-se na Lei 10.966/ 10, que passou a ser chamada Lei Cidade Limpa. Em setembro de 2010, a lei entrou em vigor. Mas, nesse momento, lojas e estabelecimentos comerciais não mostravam interesse em se adequar às novas regras. As figuras 1 e 2 mostram fachadas de lojas e estabelecimentos comerciais com placas invadindo calçadas, atrapalhando a mobilidade dos cidadãos e escondendo as belezas arquitetônicas da cidade. Eram as cenas mais comuns, principalmente no centro. Cabe lembrar que Londrina não é pioneira nessa ação. São Paulo foi a primeira cidade a aprovar uma Lei Cidade Limpa. O jornalista Leão Serva acompanhou os bastidores da aprovação do projeto na capital paulista. Lá a proposta também partiu do Poder Executivo, que era comandado pelo prefeito Gilberto Kassab. Serva afirma que o que parecia sonho tornou-se realidade. 1

Este texto preserva os dados de quando foi escrito, em 2011. Apenas uma ou outra palavra ou tempo verbal foi adequado para a versão do livro, em 2014. Porém, para atualizar o leitor, vale lembrar que praticamente todos os prédios do centro de Londrina, depois de retiradas as placas de publicidade externa, tiveram suas fachadas recuperadas e/ou revitalizadas.


212 Aos poucos os cidadãos iam redescobrindo a arquitetura real de São Paulo. Ou descobrindo, pois muitos daqueles outdoors estavam há décadas à frente de fachadas que grande parte da população simplesmente ignorava (SERVA, 2008, p. 58).

Figura 1 – Calçadão antes da lei

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 2 – Rua Sergipe antes da lei

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Em 2010, Londrina estava na fase de “ignorar” as fachadas de seus prédios e construções. Até 2 de fevereiro de 2011, não se sabia o que as placas e painéis escondiam. Fachadas históricas estavam escondidas por placas enormes. Muitas fachadas, inclusive, estavam deterioradas. Com o tempo, não se sabe quando, acredita-se que elas serão restauradas inaugurando uma nova cidade para quem a vê. No transcorrer desse processo, as fotografias servirão como um instrumento comparativo importante para acompanhar as mudanças. Registrar e preservar dois diferentes momentos históricos vividos por uma cidade, é preservar sua memória e narrar sua história. Há que se ponderar que a fotografia não é o real exato e verdadeiro com todos os seus aspectos, mas representação desse real com múltiplas significações. Isso, no entanto, não diminui seu valor como documento, pois “o fato de sabermos que a fotografia é efeito de radiações partidas do objeto, torna-a um índice altamente informativo” (SANTAELLA, 2005, p. 69). As fotografias traduzem fatos, informação, “enviam” mensagens. Elas “falam” e nós “ouvimos pelos olhos”, cada qual com seu repertório. Diferentes culturas, idiomas, políticas e ideologias recebem a mensagem pela fotografia. “Uma foto só tem uma língua e se destina potencialmente a todos” (SONTAG, 2003, p. 21). Mesmo sendo traço do real, a fotografia é um suporte importante na produção de registros históricos. [...] a documentação iconográfica é uma das fontes mais preciosas para o conhecimento do passado; trata-se, porém, de um conhecimento de aparência: as imagens guardam em si apenas indícios, a face externa de história que não se mostram, e que pretendemos desvendar (KOSSOY, 2007, p. 31).

Para Sontag (2004, p. 79), “a fotografia saqueia e também preserva, denuncia e consagra”. O registro fotográfico de Londrina antes e após a Lei Cidade Limpa pode ser considerado, ao mesmo tempo, um suporte de registro histórico, denúncia em caso de não cumprimento das novas normas e falta de cuidado com o patrimônio, e consagração caso as mudanças sejam efetivadas. Servirá para refrescar a memória quando tudo estiver transformado e também para mostrar às futuras gerações o que acontece quando não há regras para o uso da publicidade e indicativos de lojas.


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Kossoy (2001, p. 36) vai além: “A imagem do real retida pela fotografia (quando preservada ou reproduzida) fornece o testemunho visual e material dos fatos aos expectadores ausentes da cena”. Eis a fotografia evidenciando o seu potencial como documento, como memória, como uma “contadora de histórias”. No caso deste trabalho, como testemunha ocular das transformações que a paisagem urbana de Londrina sofreu em decorrência da aplicação da nova lei. De posse das imagens com o registro de dois diferentes momentos da paisagem urbana de Londrina, o cidadão perceberá efetivamente a magnitude das transformações paisagísticas, percepção que seria menos precisa sem o uso de fotografias. Na documentação deste caso, a memória visual é tão ou mais importante que as palavras ou os escritos que se disserem ou escreverem a respeito. Um evento conhecido por meio de fotos certamente se torna mais real do que seria se a pessoa jamais tivesse visto as fotos – pensem na Guerra do Vietnã (Para contra-exemplo, pensem no arquipélago de Gulag, do qual não temos nenhuma foto). Mas, após uma repetida exposição de imagens, o evento também se torna menos real (SONTAG, 2004, p. 30-31).

É claro que não estamos falando de uma guerra. Pelo menos não de uma guerra contra pessoas, mas de uma “luta” contra a poluição visual. E com o ensaio fotográfico nas mãos cada qual poderá analisar e contextualizar a cidade. Avaliar se a lei foi uma medida importante ou não. Além de facilitar a contextualização, as fotografias serão um convite à reflexão. Elas, por si só, não têm o poder de emitir juízo de valor sobre o projeto de reurbanização visual do centro de Londrina. E mais. Sua leitura é polissêmica, ou seja, provavelmente será mais – ou menos – aprofundada de acordo com o olhar de quem as “decifre”. O significado da imagem encontra-se na superfície e pode ser captado por um golpe de vista. No entanto, tal método de deciframento produzirá apenas o significado superficial da imagem. Quem quiser ‘aprofundar’ o significado e restituir as dimensões abstraídas, deve permitir à vista vaguear pela superfície da imagem. Tal vaguear pela superfície é chamado de scanning (FLUSSER, 2002, p. 7-8).

Nessa interpretação de imagens, nesse olhar aprofundado e cauteloso das fotografias, os londrinenses terão em mãos um documento visual da transformação


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da cidade de alta carga informativa. Uma forma de linguagem acessível a todos, mesmo que não tenham aprendido a “ler imagens”. Um documento forte, único e “mágico”, como classificam alguns pensadores da fotografia. Visões diferentes que fundamentam a importância da imagem nesse processo de transformação. Neste sentido, Kossoy (1999, p.139) alerta que: “De todo o processo, somente a fotografia sobrevive. Os assuntos nela registrados atravessaram os tempos e são hoje vistos por olhos estranhos em lugares desconhecidos”. Sontag (2004, p. 196) destaca a força comunicacional da fotografia: A força das imagens fotográficas provém de serem elas realidades materiais por si mesmas, depósitos fartamente informativos deixados no rastro de quem quer que as tenha emitido, meios poderosos de tomar o lugar da realidade – ao transformar a realidade numa sombra. As imagens são mais reais do que qualquer um poderia supor.

Já Flusser (2002, p. 8) lembra de seu caráter “mágico”: O caráter mágico das imagens é essencial para a compreensão das suas mensagens. Imagens são códigos que traduzem eventos em situações, processos em cenas. Não que as imagens eternizem eventos; elas substituem eventos por cenas. E tal poder mágico, inerente à estruturação plana da imagem, domina a dialética interna da imagem, própria a toda mediação e nela se manifesta de forma incomparável.

Mágicas, fortes ou “sobreviventes”, as fotografias de Londrina mostram a trajetória visual da cidade. As duas imagens incluídas neste trabalho são agora repetidas, ao lado de tomadas feitas nos mesmos locais logo depois da retirada das placas de publicidade (Figuras 3, 4, 5 e 6), para permitir ao leitor uma percepção comparativa de como estava o centro da cidade antes da lei e como ficou depois. Observando essas fotografias, fica evidente que as imagens possuem alto poder informativo e se tornam documentos importantes para a recuperação e preservação da memória. Mesmo sendo observadores privilegiados das transformações, por conta do Curso de Especialização em Fotografia da UEL e da realização deste trabalho, em alguns momentos, durante as tomadas posteriores à retirada das publicidades, foi difícil para os autores lembrar que loja ou que publicidade estava exatamente naquele local. Essa experiência mostrou como a memória é falível e ressaltar, em razão disso, a importância dos documentos imagéticos. Em quase todas as tomadas fotográficas da segunda etapa deste


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trabalho, para recordar como era aquela fachada, foi preciso “refrescar” a memória com as primeiras fotografias. Figura 3 – Calçadão em 8 de agosto de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 4 – Calçadão em 3 de fevereiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Figura 5 – Rua Sergipe em 8 de agosto de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 6 – Rua Sergipe em 30 de janeiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Vistas assim, lado a lado, as fotografias mostram o impacto das primeiras transformações provocadas pela Lei Cidade Limpa. Impacto que, provavelmente, não atingiria a mesma magnitude se fosse descrito apenas por palavras ou lembranças. A fotografia, nesse caso, revelou o valor do ditado que diz “uma imagem vale mais que mil palavras”. Outro ditado referendado pelos fatos no caso da Lei Cidade Limpa foi o de que “brasileiro deixa tudo para a última hora”. Ao longo dos 180 dias concedidos para a adequação das fachadas, muito pouco foi feito. A 15 dias de a lei entrar em vigor, a grande maioria dos estabelecimentos mantinha as fachadas cobertas por publicidades. Nos últimos dias, com a correria de todos para se adequar às exigências da nova lei, faltou mão-de-obra e tempo. Como a lei apenas determina multa para os casos de indicativos de loja fora dos padrões, a grande maioria de empresários e prestadores de serviços optou por tirar as placas e deixar as fachadas como estavam, muitas delas feias e sem manutenção. Dessa forma, onde antes havia enormes placas, ficou um corredor aberto, como mostram as figuras 7, 8, 9 e 10. Figura 7 – Rua Sergipe em 8 de agosto de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Figura 8 – Rua Sergipe em 30 de janeiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 9 – Avenida Rio de Janeiro (esquina com Rua Sergipe) em 8 de agosto de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Figura 10 – Avenida Rio de Janeiro (esquina com Rua Sergipe) em 30 de janeiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Apesar do descaso inicial, a lei possibilitou a recuperação de parte da memória arquitetônica da cidade, principalmente na Rua Sergipe, permitindo o despertar de fachadas com sacadas e contornos antes escondidos. Alguns lugares, ainda em 2011, receberam retoques e pinturas; outros revelaram o que estava atrás das placas, como pode ser observado nas figuras de 11 a 18. Figura 11 – Calçadão em 8 de agosto de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Figura 12 – Calçadão em 3 de fevereiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 13 – Rua Sergipe em 8 de agosto de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Figura 14 – Rua Sergipe em 30 de janeiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 15 – Rua Sergipe em 11 de setembro de 2010

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Figura 16 – Rua Sergipe em 30 de janeiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Figura 17 – Rua Sergipe em 11 de setembro de 2010

Figura 18 – Rua Sergipe em 30 de janeiro de 2011

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan

Fotografia: Fernanda Grosse Bressan Fonte: Acervo pessoal de Fernanda Grosse Bressan


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Considerações finais Estudiosos da fotografia já chamaram a atenção para o seu valor como documento e objeto de alta carga informativa. Os acervos de Augusto Malta, no Rio de Janeiro, e Aurélio Becherini, em São Paulo, são exemplos da importância do registro fotográfico urbano para a preservação e democratização da memória das cidades. Foi possível perceber neste trabalho a relevância da fotografia como instrumento de preservação da memória, documento histórico. Os primeiros registros mostram uma Londrina que já não existe mais. O ensaio fotográfico realizado na Rua Sergipe e no Calçadão, em agosto e setembro de 2010, mostram paisagens urbanas que não podem mais ser vistas pelo simples fato de que desapareceram do centro da cidade, em decorrência da Lei Cidade Limpa. Se não houvesse o registro, as cenas ficariam apenas na memória humana, que é imprecisa. Outro exercício possível é o jogo da comparação. As imagens ganham força quando colocadas lado a lado, permitindo uma visualização mais aprofundada das transformações. Essas mudanças passam a ter forma, cores, texturas e espaços intensificados justamente porque existem tais imagens. Esse exercício não teria o mesmo poder sem o uso das fotografias. Por ser altamente visual, o ser humano tem nos registros imagéticos um poderoso instrumento para fazer com que a lembrança ressurja na memória para a comparação. No futuro essas mesmas imagens poderão servir de exemplo para outras cidades que desejem vivenciar o mesmo processo; para cidadãos londrinenses que ainda nem nasceram e poderão ver a “cidade do tempo de seus pais”; como objeto de estudo sobre a paisagem urbana; sobre a publicidade e sua interação com o meio ambiente, enfim, como um documento da Londrina que se transformou pela Lei Cidade Limpa.


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Referências BECHERINI, Aurélio. Aurélio Becherini. São Paulo: Cosac Naify, 2009. ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro 1903-1936. Rio de Janeiro: Ermakoff Casa Editorial, 2009. FERNANDES JÚNIOR, Rubens. Lições e demolições do olhar. In: BECHERINI, Aurélio. Aurélio Becherini. São Paulo: Cosac Naify, 2009. p. 8-18. FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. Cotia: Ateliê Editoral, 1999. ______. Fotografia e história. 2. ed. Cotia: Ateliê Editorial, 2001. ______. Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007. SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 2005. SERVA, Leão. Cidade Limpa: o projeto que mudou a cara de São Paulo. São Paulo: Clio Editora, 2008. SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. ______. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


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