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Tem que conhecer
Do preto em branco às cores do agosto da cultura popular: fotoetnografia por Tayná Almeida
Artigo Francisco Oiticica
Fotografia, transe coletivo. O documental em cor e em preto e branco
“Reisado Bananal”, Tayná Almeida.
EDITORIAL: Inquieta-se a Fotografia entre as cores e o preto & branco? � 02 | 2021 - Setembro
O Grupo de Estudos da CAPh, “Fotografia por vir, o que clicar?”, tem sido, como se esperava, ambiente para boas discussões, provocadas pelo seu coordenador Francisco Oiticica Filho. No terceiro encontro do grupo, em junho, o fotógrafo participante Walter Karwatzki apresentou seu ensaio “Existir atrás das cores”, uma abordagem documental sobre a Parada do Orgulho LGBT em Porto Alegre (2008), construído em P&B, pelo que Walter justifica dizendo que “ao eliminar o elemento cor nos apegamos aos detalhes de expressões e movimentos dos personagens do evento. Chamar a atenção para a percepção das cores a partir da ausência delas; um arco-íris em P&B.”
Esse conceito, que transita recorrentemente como parte dos fundamentos das produções documentais, é ponto de partida para o excelente texto “Fotografia, transe coletivo - o documental em cor e em preto e branco” assinado por Francisco Oiticica Filho, neste número da CAPh Revista.
o lastro conceitual do ensaio fotográfico. Pelo que parece, já avançamos do velho, e raso tratamento do P&B como alternativa para “salvar” fotos, ou ainda para lhes dar aspecto clássico. Como também tudo indica que a fotografia colorida não é mais a preservação ordinária da realidade.
Não se trata de um texto para “simples” leitura, porque é uma bela provocação para se aprofundar no estudo das linguagens de composição fotográfica, no que tange as cores.
Nesse irrequieto diálogo entre o colorido e o P&B na Fotografia, o documental dá sinais de um ardente casamento com o criativo, cujos resultados são a liberdade da expressão de quem usa a câmera para registrar sua leitura dinâmica do mundo e dos quem o fazem.
Nesse cenário, as cores, e o P&B, não se afiguram como mera opção cromática. Antes, são elementos de composição, e a presença de umas ou de outro permeia
Expediente
Sumário
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Colaboraram nesta edição: Anna Sales, Bertrand Moraes, Dilma de Carvalho, Francisco Oiticica, Itawi Albuquerque, João Vitor da Costa, Jorge Vieira, Leonardo Ferreira e Pedro Firmino. Projeto editorial e Diagramação: Ed Gama Jr. Ramatis da Costa
O Rock fotográfico de Pei Fon PÁG: 4
pág: 25
Revisão ortográfica: Dilma de Carvalho Coordenação de comunicação: Anna Sales Os artigos apresentados nesta edição não refletem necessariamente a opinião da CAPh Revista Os artigos apresentados nesta edição não refletem necessariamente a opinião da CAPh Revista
Fotos das andanças de Théo Brandão resgatam o semblante da cultura popular alagoana
Fotografia esportiva: os rostos por trás das lentes que capturam movimentos
Do preto em branco às cores do agosto da cultura popular: fotoetnografia por Tayná Almeida (Seção ‘tem que conhecer’)
pág: 10 PÁG: 31 "Poesia da Sombra II – Diversidade" mostra um novo olhar sobre o nu artístico
Fotografia, transe coletivo. O documental em cor e em preto e branco
pág: 16
pág: 38
O ROCK FOTOGRÁFICO DE PEI FON
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Fotografia Pei Fon
O ROCK FOTOGRÁFICO DE PEI FON Depois de quase um ano e meio de pandemia, o campo dos trabalhadores das artes ainda busca se reinventar em um cenário de muitas adaptações e restrições sanitárias, que são extremamente necessárias, diga-se de passagem. Os shows musicais, por exemplo, não possuem datas ou previsões muito palpáveis, ainda esperam sua volta em um futuro talvez não tão breve. Mas, você pode me perguntar: "Esta não é uma revista sobre fotografia?” E eu te respondo, querido leitor: - É sim. É que nossa entrevistada de hoje só se encantou, de fato, com a oitava arte, depois de assistir a um show de heavy metal. Deve ter sido essa avalanche sensorial frenética, junto com o peso da música, que a fez olhar o movimento das lentes com outros olhos.
Tempos depois, com uma carreira bem consolidada, a fotógrafa Pei Fon também é editora geral e criadora da webzine Rock Meeting, onde mostra muitos dos seus cliques mais especiais e alguns de seus trabalhos importantes, fotografando em alguns dos principais festivais musicais da Europa e muito mais. Vamos acompanhar!
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Por João Vitor da Costa
O que te atraiu para o mundo da fotografia? A paixão pela fotografia vem de família, difícil dissociar. Quando entrei na Faculdade de Jornalismo não era bem para esse lado que iria, queria ir para a TV. Ainda na academia fiz pesquisa em fotografia, mas ainda não havia atuado. Fiz estágios em assessoria e na redação da Gazeta de Alagoas, mas não me encontrei nessas áreas.
Pei Pon @ rockmeeting
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O ROCK FOTOGRÁFICO DE PEI FON
A fotografia nasceu como profissão e paixão após ir a um show de Heavy Metal e encontrar meu primo Antonio Fon. Ele foi o responsável pela minha entrada na área e a partir desse momento que esse mundo me conquistou de verdade. Até então, só havia feito pesquisa, sabia apenas a parte teórica e não entendia nada da prática.
Meses após esse encontro com meu primo, estagiei na redação da Gazeta de Alagoas na fotografia e foi aí que pude aplicar o que conhecia. Foi uma verdadeira escola de Fotojornalismo pra mim. Como e quando você começou a fotografar shows e eventos de música, especificamente? Foi durante o show da turnê conjunta entre Angra, Sepultura e Matanza, em agosto de 2009. Naquela época fiz umas fotografias apenas com uma cybershot, sem muitas pretensões. Um mês depois nascia a Revista digital Rock Meeting e fiz dela um laboratório prático de tudo o que estava aprendendo na graduação. Entrevista, diagramação, reportagem, fotografia. Foi a partir dessa iniciativa da Rock Meeting que passei a cobrir os eventos de Heavy Metal em Maceió. Foi outra escola para mim.
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O ROCK FOTOGRÁFICO DE PEI FON
Esses shows nem sempre dispunham de boa iluminação, então tive que aprender nas dificuldades existentes a lapidar as técnicas que estava aprendendo. Foi um verdadeiro desafio fotografar as apresentações sem luz adequada. No entanto, isso me fez crescer e enxergar possibilidades. Mais tarde aproveitei
essas fotografias para apresentar o meu TCC, o primeiro em Alagoas a falar sobre Fotografia e Heavy Metal.
Você pode citar algum momento especial ao fotografar em grandes shows/ festivais?
Quais desafios você enfrentou até conseguir atingir seus sonhos nesse ramo musical?
São tantos momentos que fica até difícil apontar qual. Todos eles têm suas particularidades que os faz únicos. Se for para destacar, diria que ser a fotógrafa oficial do Festival Abril Pro Rock não foi apenas um sonho, foi a certeza de que o meu trabalho está bem feito e reconhecido e isso me traz muito orgulho, ao mesmo tempo que responsabilidade.
O desafio é fazer os contatos certos, graças a Rock Meeting esse caminho foi encurtado. Quanto mais a revista ganhava destaque, mais oportunidade tinha de estar nos principais shows nacionais e internacionais do Heavy Metal. No entanto, não é ter uma revista digital que vai abrir portas. É muito trabalho até conseguir isso. Comecei pela cidade, fazendo os contatos por aqui, depois abri e fui procurar nos Estados próximos. Quanto mais a revista ia avançando, os contatos iam surgindo e assim fui buscando conhecer as pessoas do meio. Já são 12 anos atuando nesse ambiente.
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O ROCK FOTOGRÁFICO DE PEI FON
Depois ser a fotógrafa oficial da banda Age of Artemis no Rock in Rio, em 2015. Outro ótimo momento foi poder fotografar um dos ícones da música pesada, King Diamond, em 2017. Shows individuais do Epica, Within Temptation, Amon Amarth, Powerwolf, Nightwish, Abbath e tantos outros. Cobrir o maior Cruzeiro do Metal para a Rock Meeting, o 70000 Tons of Metal, nos EUA, em 2018, foi o ápice, a realização de um sonho, uma verdadeira montanha russa de emoções. Mas não só fotografei o Heavy Metal. Fiz show dos artistas dos outros estilos. Em 2018, cobri oficialmente o Réveillon Celebration e tive a oportunidade de fotografar os artistas mais populares do forró até a música eletrônica. Sem contar os artistas que participaram das diversas festividades em Maceió quando estive como Repórter Fotográfica na Secretaria de Comunicação Social entre 201 – 2020.
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Depois de tantas experiências, o que te motiva a seguir buscando novos cliques perto dos palcos? Primeiro que é um fascínio a dança das luzes quando estão em sintonia com a música. É fascinante capturar os momentos de maior emoção, independente do estilo musical. Claro que o fato de você gostar de algum estilo musical traz ainda mais proximidade e gera ainda mais cobrança por isso, de fazer um material
O ROCK FOTOGRÁFICO DE PEI FON
Cuidado e cautela. Nesse momento de pandemia ser prudente não é o bastante, mas com o avanço da vacinação nos traz mais ânimo. É o setor que primeiro parou e será o último a voltar. É muito estranho um show sem público, sem o calor humano. Por hora, é continuar com os cuidados e torcer para que possamos retomar nossas atividades, nossas rotinas e nossos objetivos.
É uma cadeia imensa que aguarda por esse retorno. E ainda mais agora, após estarmos longe desses eventos é que terá um significado mais especial: aproveitar cada segundo!
impecável para que veja amanhã e tenha orgulho do que fez. Segundo, capturar o instante decisivo e gravar aquele momento é muito interessante do ponto de vista estético, histórico e imagético. O que você imagina para esta área nos concertos pós-pandemia?
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Fotografia Alisson Frazão
FOTOGRAFIA ESPORTIVA: OS ROSTOS POR TRÁS DAS LENTES QUE CAPTURAM MOVIMENTOS a exemplo da captura de Jonne Roriz, por repórteres cinematográficos e fotógrafos que vivenciaram o suprassumo do esporte num cenário incomum e em arquibancadas vazias.
Fotografia Jonne Roriz
A imagem da medalhista de ouro, Ana Marcela Cunha, nadando enquanto um peixe salta ao seu lado retrata a beleza da “fotografia-movimento”. Sem público em razão da pandemia, a Olimpíada de Tóquio teve seus momentos históricos eternizados,
Trazendo para o contexto alagoano, apesar das dificuldades e sem o glamour olímpico, a ala da fotografia esportiva é uma das mais fortes. Nomes como Thiago Parmalat, Alisson Frazão e Célio Júnior são alguns rostos por trás das lentes que registram instantes memoráveis em Alagoas, ao passo que se desdobram para cobrir eventos Brasil afora. São eles que perseguem - no bom sentido, claro, - astros e protagonistas, mantém a concentração e buscam
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Por Leonardo Ferreira
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o ângulo ideal para capturar os lances decisivos durante a partida.
dificuldades. “Não é fácil fotografar em movimento, mas também, não é fácil fotografar festas e casamentos, porque você não pode deixar passar nada. Fora que, no Nordeste, é muito ruim para a área esportiva, pois são poucos eventos”, disse, revelando ainda que os valores dos trabalhos normalmente ficam abaixo de outras regiões.
Amor advém do Amor O primeiro deles atua desde 2012 e descobriu sua paixão pela fotografia a partir de outro amor. “Eu sempre fui ligado ao esporte, fui atleta e professor de educação física. Minha esposa que me apresentou à fotografia, pois ela é formada em jornalismo”, contou Parmalat. A partir dessa luz, Thiago mergulhou na área e acumula diversos eventos no currículo, a exemplo de mundiais de handebol e vôlei de praia, olimpíadas universitárias, campeonatos sulamericanos de basquete, torneios de tênis, entre outros. Essa bagagem proporcionou, não somente trabalhos, mas, experiências de vida, como viagens à Coreia do Sul e Itália. Para Thiago, a carreira, porém, carrega consigo
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Fotografia Thiago Parmalat
Thiago Parmalat
Também, há aproximadamente dez anos no ramo, Alisson Frazão já teve sua máquina espalhando flashes em finais de Copa do Brasil e Copa América. Era estudante de administração quando se encantou pelo jornalismo durante estágio como menor aprendiz num veículo de comunicação do Estado. Hoje, o fotojornalista trabalha de forma independente, cobrindo o cotidiano, pessoas e, claro, esportes, sobretudo, relacionados ao futebol. Como quase todo brasileiro, Alisson fomentou o amor pelo esporte desde a infância. “Fiquei encantado com a grandeza dos eventos maiores e o nível de organização, mas quando o jogo começa, a concentração e o foco ficam na partida. O mais importante até hoje foi a final da Copa América de 2019”, afirmou.
Durante essa cobertura, inclusive, aproveitou e realizou um ensaio com uma das modelos mais populares do continente, a paraguaia Larissa Riquelme. Indagado acerca das especificidades do nicho esportivo, comentou: “É uma área bem mais tranquila em que você não interfere e está ali somente para registrar a partida ou contar a história de um atleta específico. Casamento, por exemplo, é mais complexo porque você tem que dirigir, interferir etc." Fotografia esportiva é identidade Identidade. É assim que o fotógrafo Célio Júnior classifica sua relação com o esporte. Figura carimbada nos jogos de CSA e CRB no estádio Rei Pelé, o profissional também carregou sua câmera para circuitos de vôlei, tênis,
Alisson Frazão
O encanto por futebol, fotografia e jornalismo
Fotografia Alisson Frazão
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Fotografia Célio Júnior
futevôlei, futebol, todas as modalidades jogadas na praia, honrando o que há de melhor na cidade de Maceió. Ainda é professor de futebol e futsal, atualmente comandando um grupo feminino de futebol de salão. Na vida de Célio, o esporte surgiu como diversão de criança e que o acompanha desde então, agora como meio de vida.
Célio Júnior
“Agora, então, fica mais fácil de saber os motivos de ter seguido na fotografia
esportiva. Já vivenciei outros nichos da fotografia e ainda hoje desenvolvo trabalhos além da fotografia esportiva, mas posso afirmar que a fotografia esportiva é minha identidade”, declarou o fotógrafo. Além disso, Célio tem se aventurado dirigindo imagens aéreas através de drone. Sobre os percalços da caminhada, citou a questão do investimento. Para ele, custo dos equipamentos, inserçãono mercado, valorização do produto, além dos estudos são “dificuldades que quem está de fora não costuma ver, e só consegue enxergar as conquistas”. “Vejo a fotografia esportiva em Alagoas como um nicho em crescimento. Crescimento em número de fotógrafos, como também o crescimento da valorização da fotografia esportiva. Eu sou um dos que brigam muito pela valorização e um bom posicionamento profissional
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Fotografia Thiago Parmalat
no mercado. Acredito que se cada um fizer sua parte, a fotografia esportiva ainda vai crescer muito em todos os aspectos”, afirmou Célio, ao ser perguntando sobre o cenário alagoano.
Fotografia Thiago Parmalat
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"POESIA DA SOMBRA II – DIVERSIDADE"
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Fotografia Itawi Albuquerque
‘POESIA DA SOMBRA II – DIVERSIDADE’ MOSTRA UM NOVO OLHAR SOBRE O NU ARTÍSTICO No último dia 11 de Agosto, o fotógrafo Hugo Taques, que é um dos fundadores da Casa Alagoana da Photografia (CAPh), lançou a exposição POESIA DA SOMBRA II – DIVERSIDADE, no Complexo Cultural Teatro Deodoro. A CAPh Revista conversou com o artista sobre seu processo criativo, a escolha do tema, a seleção das fotos, a curadoria de Fredy Correa e sua expectativa em relação às reações que essas 50 fotos de nu artístico-feminino provocarão no público. Hugo Taques já aproveitou e soltou um spoiler: POESIA DA SOMBRA será uma trilogia. O artista já se prepara para uma próxima temporada de ensaios. Mas, antes de partir para a terceira temporada, ele convida o público maceioense, alagoano e brasileiro a fazer um tour (físico ou virtual) pela POESIA DA SOMBRA II.
Fotografia Itawi Albuquerque
Ele nos confessou que seu grande desejo é ser visto, não só pelo público em geral, mas, principalmente, prestigiado pelos/as colegas fotógrafos/as, não para levantar o ego, mas para ver que foi feito por um companheiro, para mostrar o que somos capazes de fazer, além de reforçar que a fotografia alagoana é capaz de expor bons trabalhos aqui, em Maceió. Hugo quer fazer com que o público se inspire, mexa nas suas histórias de vida, se encorajando a fazer também.
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Por Dilma de Carvalho
Hugo, o que te inspirou a fazer essa série intitulada Poesia da Sombra – Diversidade? Eu sou um fotógrafo que desde o começo não saía por aí fotografando cenários, ambientes. Eu sempre gostei de fotografar gente. E a mulher sempre foi a minha inspiração, desde muito cedo, porque a mulher é uma fonte inesgotável
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"POESIA DA SOMBRA II – DIVERSIDADE"
Depois da repercussão aqui eu recebi convites para expor fora de Alagoas, em Goiás, Mato Grosso, Brasília. Até que este ano, em férias, recebi o convite para reeditar essa exposição. Mas a POESIA DA SOMBRA II tem uma proposta diferente da primeira. O que difere?
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Sim, quando recebi o convite aceitei de pronto. Mas, ao desligar o telefone pensei que se posso produzir algo novo, porque não fazê-lo? Liguei de volta para os proponentes e eles se encantaram com a nova ideia, que era: as mulheres iriam mostrar a cara como forma de confrontarem essa ditadura de uma beleza imposta e mostrarem que cada estética, cada corpo tem sua beleza, e essa série é inclusiva. Eu estou trabalhando aqui com questões que causam grandes reflexões como a da mulher trans, a preta, a plus size, a portadora de deficiência física, a idosa, que foi apaixonante fazer, a mais magra, a gestante, que parece fora do contexto, mas que eu achei interessante colocar porque é muito bonita a mulher nesse momento. Eu me inspiro nelas e acredito que o nu feminino não tem que ser erótico. Fotografia Itawi Albuquerque
de inspiração física, emocional, interior. E a ideia do nu partiu de uma pessoa que pediu para fazer um ensaio e quando eu fui entregar o material eu optei por fazê-lo em preto e branco e ela se encantou, se surpreendeu. Isso me fez querer fazer uma série em estúdio, com modelos, mas, eu explorei só as nuances do corpo, as sombras, sem mostrar o rosto e disso resultou a minha primeira exposição em Maceió, no MISA, POESIA DA SOMBRA I, em 2009.
"POESIA DA SOMBRA II – DIVERSIDADE"
Como foi convidar essas mulheres a posar para essa série?
que há no corpo, na alma, no espírito de cada uma.
O fotógrafo tem que ter uma abordagem cuidadosa, pois tem gente que se sente agredida, desrespeitada, quando é convidada para um projeto como esse. Eu tive duas recusas, mas as demais eu tive um aceite com muita empatia. Levo o projeto bem estruturado, bem explicado, há que se conversar muito, as dez que aceitaram estabeleceram comigo uma relação de confiança e aí eu tive que prepará-las para ir para um estúdio, eu não as conhecia, fui ouvindo muito suas histórias, me despindo das minhas preparações, fui com a cabeça vazia, apesar de ter minhas referências, ter estudo sobre arte, para que eu fosse retratar mais as histórias delas e cada uma tem uma história incrível.
Foi fácil fazê-las interagir com a câmera?
Elas já entraram no estúdio empoderadas, confiantes na beleza que têm, na beleza
Eu não sou o fotógrafo que costuma dirigir a fotografada. Gosto de deixar primeiro a pessoa apresentar seu potencial. Com algumas conversei, disse o que poderia fazer. Outras, fui deixando fluir, vimos o que tinha ao nosso dispor. Por exemplo: uma das séries foi feita num teatro em Cuiabá, então vi um manequim, vi que dava para interagir com a modelo e fomos fazendo e dando certo, sugeri que brincasse, ficasse à vontade, construímos juntos: fotógrafo-fotografada. E como tem sido a reação do público? Tem sido muito bom receber amigos e interagir com os espectadores. As pessoas fazem leituras incríveis, que nem passavam pela minha mente.
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Há uma foto da mulher trans em que as unhas dela alguém viu como garras de uma pantera. Isso enriquece o trabalho, a mostra e a mim como profissional, artista e pessoa. E está sendo muito aceito. Tiveram alguns probleminhas porque nossa sociedade tem sim, ainda, preconceitos, está passando por um momento de volta ao passado nebuloso, mas, no geral, a receptividade tem sido muito boa. Há que salientar a receptividade também da equipe da DITEAL, desde a Direção aos demais funcionários, todos têm tido um cuidado e um encantamento com a mostra. Como foi feita a curadoria da exposição? A curadoria é do Fredy Correa. Eu o deixei muito à vontade para montar da forma como achasse melhor. E ele fez essa montagem maravilhosa. Escolheu o que
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melhor representava a mostra e dispôs da melhor maneira. Não quis interferir no trabalho de curadoria, afinal, sabia que estava em boas mãos.
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"POESIA DA SOMBRA II – DIVERSIDADE"
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FOTOS DAS ANDANÇAS DE THÉO BRANDÃO RESGATAM O SEMBLANTE DA CULTURA POPULAR ALAGOANA
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FOTOS DAS ANDANÇAS DE THÉO BRANDÃO RESGATAM O SEMBLANTE DA CULTURA POPULAR ALAGOANA Por Pedro Firmino
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Como as fotografias do folclorista servem de mergulho na identidade cultural do Estado
Em suas caminhadas por Alagoas, o folclorista Théo Brandão retratou diversas faces da cultura popular. Nascido em 26 de janeiro de 1907 em Viçosa, ele foi membro fundador da Comissão Nacional do Folclore. Além disso, recebeu prêmios da Academia Brasileira de Letras por sua obra Folclore de Alagoas. E por que seu trabalho foi reconhecido ao ponto de ganhar tantos prêmios? “Acredito que Théo Brandão foi o primeiro alagoano a ter consciência da relevância da imagem como documento de época”, afirma a museóloga e administradora cultural Carmen Lúcia Dantas sobre ele.
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E acrescenta que Théo, enquanto estudante, já valorizava as manifestações culturais, embora não soubesse o valor sociológico ainda. Théo Brandão começa nessa época seus registros em Viçosa, onde faz a maioria deles também. Quando vinha de férias para o engenho de seus pais, ele fotografava os festejos e atividades que ocorriam nos arredores. A pesquisadora e professora Fernanda Rechenberg comenta sobre isso: “Toda fotografia é um documento histórico, mas também, uma possibilidade de exercício imaginativo para arte e pesquisa em diferentes áreas”. Sobre essas fotografias, Carmen Lúcia afirma: “Todo o foco do olhar de Théo Brandão foi para a temática alagoana. Suas fotografias retratam a cultura popular do Estado pelos idos da década de 1950 até os anos 1980”. Théo observou Alagoas e seu povo igualmente.
FOTOS DAS ANDANÇAS DE THÉO BRANDÃO RESGATAM O SEMBLANTE DA CULTURA POPULAR ALAGOANA
Isso se percebe na questão do significado das imagens para a pessoas de classe baixa. Para elas, as fotografias são importantíssimas, não só porque gravam sua cultura como também suas vidas. As fotos de pessoas de classe alta são delas, enquanto as das pessoas de classe baixa pertencem a museus e coleções. Rechenberg completa: “Em um dos projetos que fizemos no museu, começamos a compartilhar algumas destas imagens com mestres, mestras e coordenadoras de grupos em atividade aqui em Maceió. Ainda que algumas fotografias sejam muito antigas, o que dificultava um reconhecimento imediato, percebemos como desse contato com as imagens surgem outras narrativas sobre a arte, as condições de vida, a participação das mulheres, enfim, aspectos dos folguedos que ficavam de fora da narrativa dos folcloristas”.
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Ainda sobre os registros, eles foram musealizados e estão no acervo no Museu Théo Brandão, localizado no Jaraguá, na Avenida da Paz. Na última contagem e identificação de 2019, contabilizouse 3700 fotografias em papel e 800 em negativos e diapositivos. “As coleções musealizadas, como é o caso do acervo fotográfico de Théo Brandão, oportunizam revisitar modos de viver, de documentar, de conhecer uma época, uma arte, um território”, reitera Rechenberg.
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TEM QUE CONHECER: FOTOETNOGRAFIA POR TAYNÁ ALMEIDA
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DO PRETO EM BRANCO ÀS CORES DO AGOSTO DA CULTURA POPULAR: FOTOETNOGRAFIA POR TAYNÁ ALMEIDA
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Por Bertrand Morais Tudo começou enquanto bolsista à pesquisa e iniciação científica em projetos de estudo sobre fotografia e memória de folguedos populares, entre 2017 e 2019, no Museu Théo Brandão, de Antropologia e Folclore. Nele, Tayná exercia a função de organizar, digitalizar, pesquisar e compartilhar com mestres(as) da cultura popular, acervos fotográficos do folclorista que dá nome ao respectivo Museu, sob orientação da Profª Fernanda Rechenberg. Um dos primeiros contatos de Tayná com grupos da cultura popular foi com o Reisado Virgem dos Pobres, no povoado Bananal, cidade de Viçosa/AL. Lá, ela pôde conhecer seus integrantes e fazer registros atualizados da brincadeira popular. Posteriormente, tal grupo foi objeto de estudo de quem vos escreve, mas não teve como foco análise fotográfica. Também não nos conhecíamos à época; coisas do acaso.
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De toda forma, Tayná Almeida optou por enveredar nas cores do Guerreiro São Pedro Alagoano, localizado na periferia de Maceió, como estudo fotoetnográfico de conclusão do curso de Antropologia, na Universidade Federal de Alagoas, (UFAL). Tratou-se de uma imersão em visitas, ensaios e até viagens interestaduais para fazer uma releitura fotográfica a fundo do respectivo folguedo popular. O trabalho foi premiado na Lei Aldir Blanc e, até o fim do ano, será lançado como fotolivro. Por isso, achamos importante trazermos uma pessoa como Tayná, que tem tido nas manifestações populares sua trajetória fotográfica, em um mês tão simbólico: 22 de agosto é dia do folclore brasileiro e, antes, 19, é dia mundial da fotografia.
FOTOETNOGRAFIA POR TAYNÁ ALMEIDA
Por que escolheu a cultura popular para seu trabalho fotoetnográfico? Bom, a fotoetnografia com o Guerreiro São Pedro Alagoano, grupo de folguedo popular daqui de Maceió/AL, na verdade é desdobramento da minha trajetória de pesquisa no acervo fotográfico do Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore, desde 2017, como parte de uma equipe formada por Iara Souza e Tamara Caetano, orientada por Fernanda Rechenberg. Em nossos estudos, buscávamos acionar memórias coletivas sobre o folclore em Alagoas, sobretudo de Reisado e Guerreiro, a partir do compartilhamento de fotografias do acervo, registradas aproximadamente entre as décadas de 1930 e 1960, com descendentes dos brincantes retratados nas imagens. Esse processo de intensa proximidade com a temática, pelo viés da pesquisa acadêmica em Antropologia, foi fundamental para meu interesse.
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não apenas a memória do folclore, como no início da pesquisa, mas também, o funcionamento cotidiano do grupo, a forma como se organizam e representam.
Acredito que minha escolha pela fotoetnografia ocorreu, principalmente, porque no acervo tínhamos contato com fotografias delimitadas a um passado situado no Movimento Folclórico Brasileiro, o qual por um lado era pautado na militância pela valorização das culturas populares, mas também as pensava essencialmente pela lógica da perda, como uma atividade constantemente ameaçada de desaparecimento.
Como equilibrou perspectivas de imagens dos brincantes e seu olhar fotográfico?
O contato com os integrantes dos grupos ativos foi fundamental para um giro interpretativo na pesquisa e, consequentemente, em minha produção fotográfica. Percebi que não era possível refletir sobre as manifestações populares em atividade hoje, no presente, apenas pela ótica da ausência. Nesse sentido que assumi o compromisso de uma fotoetnografia com o Guerreiro São Pedro Alagoano, buscando compreender,
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Foi um processo longo e colaborativo com o Guerreiro São Pedro Alagoano, uma parceria. Desde o início dessa caminhada, em 2017, frequentei os ensaios e apresentações do grupo, visitei suas moradias, participei das reuniões em que eles se articulavam com instituições públicas, viajamos juntos à Romaria do Padre Cícero Romão em Juazeiro do Norte/CE... Tudo isso, acredito eu, contribuiu para uma proximidade com os integrantes do folguedo e, também, para a construção conjunta das imagens fotográficas. Nesse processo, pensado a partir de uma antropologia compartilhada, na medida em que eu os fotografava,
FOTOETNOGRAFIA POR TAYNÁ ALMEIDA
entregava para cada um dos participantes do grupo suas fotografias em mãos, assegurando que não apenas eu, fotógrafa e pesquisadora, as possuísse, mas também as pessoas fotografadas, os brincantes. Essa prática de restituição das fotografias, ainda que tenha diversas limitações, foi importante para uma compreensão da autoimagem dos brincantes, de como eles gostariam de ser representados, uma vez que verbalizando suas impressões, era possível alterar o modo de retratá-los. É difícil falar sobre um equilíbrio entre nossas perspectivas, uma vez que um grupo como o de Guerreiro apresenta muitas pessoas, mas construir essa relação, esse processo de negociação, foi um dos caminhos que encontramos. Você comenta em sua tese sobre uma frustação com as fotos preto e branco do acervo do Museu Théo Brandão, as quais retratam esses folguedos
em outrora. Neste caso, suas fotos precisaram ser com cores para uma nova perspectiva? Por quê? Sem dúvidas. Como a pesquisa sobre memória no acervo do Museu Théo Brandão demandava o compartilhamento de fotografias dos folguedos populares com os grupos em atividade hoje, percebi uma necessidade desses grupos, diante das fotografias mais antigas, mostrarem como as manifestações populares se encontram atualmente, no aqui e no agora. Na verdade, minha frustração não se deu em relação às fotografias do acervo serem em preto e branco, mas ao fato de que essas imagens restritas a um período, de brincantes muitas vezes anônimos, quando compartilhadas com os grupos ativos não evocavam narrativas biográficas da mesma forma como seus acervos pessoais evocam. Foi esse o motivo de começar a registrá-los fotograficamente. É preciso compreender
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que as imagens fotográficas não são reproduções fiéis de uma realidade, nelas estão contidas as intenções e escolhas de quem fotografou, nesse sentido que o uso das cores foi uma alternativa para pensar a atividade do grupo, driblando o imaginário de que são manifestações restritas puramente ao passado, coisa que o uso do preto e branco poderia colocar em questão, uma vez que carrega a dimensão de atemporalidade. Tratando-se de uma pesquisa na qual é importante a forma como eles se autorrepresentam, ainda que eu faça essa mediação, optei por trabalhar com as cores considerando também o grande investimento que eles fazem delas em seus trajes, na decoração dos ambientes das apresentações, etc.
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É como diz Dona Marlene, coordenadora do Guerreiro São Pedro Alagoano: “O Guerreiro dá força pra viver”, título da fotoetnografia, assim, busquei através das cores demonstrar essa vitalidade. O que você precisou ajustar de tecnicidade como fotógrafa às suas perspectivas enquanto pesquisadora durante a imersão no Guerreiro São Pedro Alagoano? Acho importante dizer que minha prática fotográfica foi se desenvolvendo na medida em que eu fotografava as pessoas do Guerreiro São Pedro Alagoano, e que fui sendo reconhecida por eles como fotógrafa do grupo. De acordo com as demandas apresentadas por eles para que eu pudesse melhor representálos, eu refletia sobre erros
e outras possibilidades no ato fotográfico. Então as escolhas do porquê fotografar em cores citada anteriormente, a exemplo, o uso de uma baixa velocidade em alguns enquadramentos para registrar o movimento do grupo, fotografar em grande parte das vezes a partir de um “contra-plongeé” (fotografia de baixo para cima), de forma a sugerir maior autonomia das pessoas fotografadas, tudo isso fui aprendendo e aprimorando na medida em que nos conhecíamos. Uma vez como fotógrafa/pesquisadora e agora espectadora das imagens, como você avalia suas descobertas e resultado final? O processo de pesquisa no acervo fotográfico, bem como a construção do estudo fotoetnográfico com o Guerreiro São Pedro, foi muito dialógica. Acredito que o giro interpretativo na pesquisa, a busca por compreender o funcionamento
FOTOETNOGRAFIA POR TAYNÁ ALMEIDA
dos grupos atuais e não apenas a memória do folclore, foi essencial para a criação de imagens menos estigmatizantes dos grupos que retratei, como é comum na abordagem das culturas populares. O resultado final, mas também todo o processo, é uma tentativa de pensar a fotografia através da pesquisa e do compromisso ético com as pessoas que são fotografadas. Théo Brandão em seu livro “O Reisado Alagoano” cita que os grupos de Guerreiro nasceram dos grupos de Reisado e, de alguma forma, ganhou até mais espaço em Alagoas. Visando a sua fotoetnografia no Guerreiro, e também o fato de ter pesquisado o Reisado, quais observações você faz? Théo Brandão em O Reisado Alagoano já apontava o Guerreiro como expressão urbana do Reisado, isso é interessante para pensar as transformações, adaptações e reinvenções dos folguedos populares ainda
naquela época, em meados dos anos 1950, da mesma forma que nos dias de hoje. Na visão romântica que permeia o imaginário social, é comum as manifestações populares serem associadas a um passado mais autêntico em relação às manifestações atuais, acusadas de menos tradicionais, mas existe algum grupo social que resista estaticamente ao tempo, às dinâmicas sociais? Outra coisa instigante é pensar que se as culturas populares há muito têm sido vistas como em processo de desaparecimento, a atividade dos grupos atuais, seja de Reisado ou Guerreiro, ainda que em meio a processos de rupturas, permanências e resistências, não seria contraditória? Nesse sentido, considero importante antes refletir criticamente sobre como as noções de “folclore”, “cultura popular” e “folguedos populares” foram construídas, para então conferir dignidade a forma como esses grupos são representados.
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FOTOGRAFIA, TRANSE COLETIVO O DOCUMENTAL EM COR E EM PRETO E BRANCO Por Francisco Oiticica Filho
Em decorrência da ideia de participação nas manifestações que abarca, farei, por fim, a caracterização do transe em certo tipo de documentação fotográfica em cor e em preto e branco realizada.
Preto e branco, reverso da cor Tomei conhecimento do ensaio fotográfico "Existir atrás das cores", de Walter Karwatzki – fotógrafo alagoano radicado no Rio Grande do Sul –, depois de publicado “A fotografia construída” no Grupo de Estudos da CAPh. Realizadas em preto-e-branco, as fotografias de Walter sobre a Parada LGBT de Porto Alegre, de 2008, foram expostas em Porto Alegre, Florianópolis, Brasília e Maceió.
� 02 | 2021 - Setembro
F1
“Existir atrás das cores”. Walter Karwatzki, Porto Alegre-RS, 2008.
O presente artigo discute o que ficou em aberto no terceiro encontro do Grupo de Estudos “Fotografia por vir, o que clicar?”, iniciativa da Casa Alagoana da Photografia (CAPh), por mim coordenado. A fotografia documental foi pensada no âmbito da componente identitária presente no registro do rico folclore alagoano, apresentada não apenas como veículo de informação, mas como espaço de atuação do fotógrafo, das pessoas fotografadas, para envolvimento do público ao qual a documentação é destinada. As fotografias F1 e F2, aproveitei das que foram levadas ao Grupo pelos participantes durante os nossos encontros.
Especialmente na apresentação de seu ensaio, Walter retoma algumas ideias que eu já havia apresentado ao Grupo sobre o emprego do preto e branco no lugar da cor, quando se tratasse de fotografias documentais1 . Sobre as intenções para registrar em preto e branco uma celebração tão justificadamente associada ao colorido visual, vejamos as mensagens do próprio autor:
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“Existir atrás das cores”. Walter Karwatzki, Porto Alegre-RS, 2008.
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Preto e branco, reverso da cor Tomei conhecimento do ensaio fotográfico "Existir atrás das cores", de Walter Karwatzki – fotógrafo alagoano radicado no Rio Grande do Sul –, depois de publicado “A fotografia construída” no Grupo de Estudos da CAPh. Realizadas em preto-e-branco, as fotografias de Walter sobre a Parada LGBT de Porto Alegre, de 2008, foram expostas em Porto Alegre, Florianópolis, Brasília e Maceió. Especialmente na apresentação de seu ensaio, Walter retoma algumas ideias que eu já havia apresentado ao Grupo sobre o emprego do preto e branco no lugar da cor, quando se tratasse de fotografias documentais1 . Sobre as intenções para registrar em preto e branco uma celebração tão justificadamente associada ao colorido visual, vejamos as mensagens do próprio autor:
“As imagens são o resultado do acompanhamento da Parada do Orgulho LGBT realizada em Porto Alegre no ano de 2008. O propósito de registrar a Parada surge como um desafio de fazê-la sem usar o recurso da cor. O elemento cor atrai o olhar. E este atrair o olhar, trai o olhar. A presença da cor nos faz perder determinados detalhes das cenas. Assim, ao eliminar o elemento cor nos apegamos aos detalhes de expressões e movimentos dos personagens do evento. Chamar a atenção para a percepção das cores a partir da ausência delas; um arco-íris em P&B.” (Walter Karwatzki, TRT-RS, 2019). Num jogo de linguagens que não se resume ao “atrás das cores” do título, Walter optou pelo preto e branco na fotografia documental. São duas faces da mesma moeda, porém, e a cada vez que um dos lados se revela, me vem à mente o lado oposto. Portanto, é por aí
1 Em consequência da discussão a respeito da cor e do preto e branco, ocorrida durante os três primeiros encontros do Grupo de Estudos, percebo que a documentação fotográfica de folguedos
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e manifestações populares, até de maneira paradoxal, se notabilizou pelo descarte da cor. Não poucos fotógrafos que desejam enveredar pela fotografia autoral se mostram insatisfeitos com o resultado em cor de seus trabalhos, ou dispostos a debatê-lo. Com significativas exceções, me parece existir uma dificuldade de incorporar a cor ao repertório da fotografia tradicional.
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que eu vejo a utilização do preto e branco nesse ensaio: uma abordagem reversível do arco-íris, para mostrar a força do movimento LGBT ainda que mantenha a cor implícita. Os valores do preto e branco em suas nuances de cinza resguardam a cor que o notabiliza. Assim, o ensaio de Walter quereria apresentar o preto e branco como requisito da fotografia em cor. Segundo entendo, a cor continuaria presente nessa apresentação, subjacente à afirmação do valor estratégico do preto e branco como rechaço. O preto e branco extrairia da fotografia em cor os elementos não descritivos para neles se concentrar, condensando a mensagem, com vistas à ulterior retomada explosiva da cor. Com isso, “atrás das cores”, mas não sem elas, a fotografia LGBTQIAP+ em preto e branco mostra o quão eficaz pode ser a simbologia do arco-íris. Debatendo-se com o fato de a sua presença ser preterida, e a sua ausência,
às vezes, falar mais alto, a fotografia em cor oferece respostas não no sentido de se acomodar às restrições miméticas que a desautorizariam a funcionar como um correspondente fiel no plano bidimensional dos fenômenos visuais. Ela acentua a propriedade cosmética da imagem, pois que é com a aparência das coisas que lida a visão. A condenação é menos desse efeito (à perda de controle sobre o que está em constante modificação, sob o manto das aparências), e mais acentuada quanto à crença na existência de uma essência que não poderia ser desafiada no preto e branco2 . Quando se fala numa cor construída em fotografia, não se está pensando na cor refletida pelos corpos, nem na cor vista isoladamente na natureza. Essa cor resulta da interpretação que damos à luz que incide sobre os objetos, atinge a vista e é processada pelo cérebro. A percepção não é universal, mas de caráter subjetivo
e individual. Ademais, a cor na fotografia não é a cor que vemos ao natural, mas a cor recriada pelo fotógrafo. Nesse ponto, a fotografia possui a sua própria cor. Assim, a cor construída é uma cor conquistada. Cor conquistada no plano sensorial da imagem, cor buscada pelo fotógrafo ao longo de sua vivência com o meio. Os fatores ambientais que cercam o ato fotográfico seriam dentro do possível combinados aos recursos técnicos e expressivos do autor para a obtenção de determinados objetivos. A foto construída é uma “poética”. Ela confere uma marca autoral à fotografia. Não se trata da transposição das cores uma a uma. A fotografia põe em relação fenômenos luminosos, naturais e artificiais, condicionantes psicológicos, atribuição de valores simbólicos culturalmente comunicáveis. A cor construída é mais do que a simples soma das cores avistadas.
2 O fotógrafo Roger Silva comprovaria o poder desafiador do p&b em seu projeto “Guerreiro Alagoano: Muito além das cores”. Nele, Roger realizou retratos que também abdicam do colorido, de modo a nos chamar atenção sobre a apropriação ideológica “das cores que compõem as vestes dos personagens envolvidos nessa cultura tão ancestral e simbólica, dentro da cultura alagoana” (...), porque “Precisamos olhar para além da estética da cor, que de certa maneira mascara os universos de dores, medo e abandono” (Roger Silva, in Projeto Guerreiro Alagoano, Lei Aldir Blanc, 2021.).
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O arrebatamento da cor Sobre o funcionamento da fotografia em cor e da fotografia em preto e branco, e a repercussão na autoimagem da pessoa no gênero documental da fotografia folclórica e antropológica, o TCC de Tayná Almeida de Paula me chamou a atenção. Em “O Guerreiro dá força pra viver”: uma fotoetnografia compartilhada com o “Guerreiro São Pedro Alagoano”, por ela apresentado ao Instituto de Ciências Sociais da UFAL, em 2019, Tayná se viu diante de um dilema, que a levou a uma guinada metodológica: os brincantes, integrantes do grupo de folguedo Guerreiro São Pedro Alagoano e participantes de sua pesquisa, não se interessaram pelas fotografias em preto e branco que Tayná lhes apresentou3 . Desdobramento de sua experiência em grupo de pesquisa com memória e fotografia no folclore alagoano
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no acervo fotográfico do Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (MTBAL), entre os anos de 2017 e 2019, e fundamento do método de “foto-elicitação” de que se utilizou, no qual a fotografia é mostrada ao participante da pesquisa de forma a estimular o processo reflexivo dos sujeitos face à rememoração da experiência vivida, as fotografias em preto e branco de antigos folguedos, pelo caráter histórico que apresentavam, pareciam revestidas de uma importância que lhes assegurava eficácia na consecução dos objetivos de seu Trabalho de Conclusão de Curso. Mas, essas fotografias não foram validadas pelos praticantes do Guerreiro aos quais Tayná procurou. Ela, com isso, ao invés de distribuir fotografias antigas em preto e branco, optou por fotografar em cor o grupo durante a prática da folia. Não só, porém, gradativamente, Tayná se apercebeu que as fotografias em preto
e branco não só remetiam a um tempo “morto” – distante e referente a pessoas já desaparecidas –, quanto não davam conta do “excesso de cores presentes no folguedo, que contrastavam com as fotografias em preto e branco do acervo de Théo Brandão”. Assim, diz Tayná, “todas as fotografias produzidas por mim foram registradas em cores”. Não só pelo excesso de cores, mas pela quantidade de pessoas (...) o olhar do observador, seja presenciando o ensaio, ou mesmo na observação de fotografias, é facilmente dispersado. Além daquilo que quero demonstrar a partir de meu olhar na fotografia, lido com o fato de Dona Marlene (informante de Tayná) fazer um grande investimento nas cores, seja na preparação dos ensaios e apresentações, nas vestes dos brincantes e, por todo lado, nos enfeites de sua casa, multicoloridos. É nesse sentido que justifico o uso cromático
3 “Nessa perspectiva, percebi que parecia não fazer tanto sentido para alguns brincantes olhar apenas a fotografia do “morto”, digo, fragmentos do passado, se estão vivos para “fazer acontecer”. As fotografias do acervo MTB por mais que representassem algo familiar aos sujeitos – o Guerreiro –, por outro lado, também demonstravam um anonimato com o qual eles não se identificavam” (Idem, ibidem, p. 13).
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na produção das fotografias do Guerreiro (Tayná, idem, p.17). A minha questão é saber o quão o Guerreiro é bem representado nas fotografias coloridas solicitadas pelos brincantes do folguedo. A cor, necessária e não acessória, e dispersa pelo ambiente, não carece de justificativa para o documental, pois que eu a vejo como elemento de promoção do estado de fusão afetiva, espécie de veículo de transformação da pessoa física em brincante, junto com a música, os cantos e a dança: a cor acentua o valor sensorial da reunião, compondo os trajes, integrando o ambiente no movimento dos participantes. Parece-me ser esse um dos objetivos da cor, qual seja, a profusão/mistura de corpos e os demais estímulos, com o rompimento dos limites normalmente fixados no espaço de convivência
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diária, que no folguedo se dilata e se metamorfoseia. Sem a cor do Guerreiro, haveria menos “força pra viver” disponível, e as lembranças da pesada rotina voltariam. A cor construída/organizada no investimento de Dona Marlene, acima, teria que atender, acredito eu, junto com a fotografia, a uma vontade de desligamento e resgate, de esquecimento seletivo em acréscimo à função gregária do folguedo. A fotografia como transe, o transe da fotografia Outro ponto é o do funcionamento da cor (em particular, e não somente) não como veículo de informação, mas como fagulha detonadora do estado de estupefação próximo de um transe coletivo que seria vivenciado pelos praticantes do folguedo. A cor faria ecoar essa força para se converter ela também em fator de desencadeamento da sensação de
pertencimento ao grupo. Penso que a cor tem força para tanto, podendo acentuar a função do rito popular, reconhecimento que interessa enfatizar. Existiria, intensificando a sociabilidade própria à atividade – que é da ordem do encontro –, um transbordamento para outras esferas de organização social que ao mesmo tempo reforçam a coesão, preparam e canalizam as emoções para fins de encorajamento pessoal e afirmação de uma identidade coletiva4 . Nas manifestações folclóricas, a função ritual do agrupamento se sobressai, cuja culminância estaria na afirmação do senso comunitário e na intensificação do potencial transformador da realidade só possível de se dar com o agenciamento dos sentidos e desejos, de ordem eminentemente estética, emotiva, capaz de produzir festas, folias e congraçamentos. Sob o ponto de vista de sua significação, a fotografia seria,
4 As sementes do urucum, das quais se extrai um vermelho forte quando trituradas, tingem os corpos dos indígenas, desde antes de Pero Vaz de Caminha, que em 1500 escreveu: “Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo (...) e a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho” (Carta do escrivão da armada de Cabral ao rei português Dom Manuel).
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assim, responsável em não apenas exaltar essa atmosfera com a cor, senão, também, materializar no preto e branco da imagem o transe criativo de quem a vê e executa.
criativa essa abertura para o sentimento da cor, ainda que em preto e branco. O preto e branco como concretude, a cor como possibilidade. A estrutura correspondente ao jogo de claro-escuro confere hierarquia – ou seja, materialidade –, através dos contornos que criam, ao espaço e aos corpos, no preto e branco. Ela é fundamental na comunicação da mensagem visual. A cor nos mostra existirem outras camadas não objetivas da representação, muito eficazes no dirigir a investigação para os níveis de manifestação de afetos, conteúdos desviantes e não domesticáveis do visível, nos quais os limites entre as formas e seus significados variam e mudam de lugar, tornando mais complexa e indeterminada a compreensão de até onde podemos ir. Da ordem da transgressão, liberadora de forças psíquicas que atestariam um inconformismo como mais uma justificativa da festa, a cor não atenderia apenas a um impulso social
Nesse afã, ao invés de pensarmos numa oposição entre a documentação fotográfica historicamente associada ao preto e branco ou aquela em cor, seria bom pensar numa fotografia que não se abalasse em razão dessa oposição, nem ficasse refém do compromisso de reprodução de uma veracidade constatável. Ambas são representações visuais de fenômenos aos quais temos poucos meios de acesso, de onde não devermos abdicar dos que modestamente dispomos. As fotografias em preto e branco, a partir dos exemplos aqui tomados, latejam em cor. As fotografias em cor se estruturam em preto e branco, sem o que a imagem não se manteria em pé. Vejo como destino da fotografia
“Bloco Tudo Azul”. Alberto Lima, Murici-AL, 2020.
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“Festa das Yabás”. Marília Brito, Terreiro de Pai Manoel do Xoroquê, Maceió-AL, 2009.
integrador – hierarquizante –, porém ligado ao prazer do impulso para o “fora de si”.
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Não existindo neutralidade na documentação, o envolvimento emocional do fotógrafo é, portanto, desejado, em contato com o tema. Da mesma maneira, o sucesso da documentação estará muito mais assegurado se o fotógrafo renunciar à autoridade, e, ao contrário, perceber que o que está sendo documentado é portador de muito mais incertezas do que presume. Renunciar ao controle sobre a situação, e à exatidão de sua descrição, pode ser um primeiro passo para captar a atmosfera do lugar. Para bem se realizar, essa fotografia que escaparia ao mero registro teria de ser experimentada pelo fotógrafo tal qual os demais participantes experimentam a celebração.
escapa porque depende de associações entre indícios fracos e dispersos, da conjugação de elementos provenientes de fontes diversas, do que precisa ser intuído, imaginado. Isso a que chamo de transe, em fotografia5 , não está visto isoladamente na cor, mas na disponibilidade para tudo considerar, absorver e irradiar, mesmo na fotografia em preto e branco. A fotografia não existiria apenas para registrar o transe, mas para provocá-lo.
Também no nível interpretativo, o sentido conferido pela fotografia nos
5 “Essa situação de estar envolto em um código pautado por elementos técnicos que organizam a imagem, atuam de forma subjacente, e o fotógrafo pode entrar em uma espécie de “transe fotográfico”, atingindo um estado alterado de consciência que lhe permite um olhar diferenciado das pessoas comuns” (Fernando de Tacca , in Imagem fotográfica: aparelho, representação e significação. Universidade de Campinas: Psicologia & Sociedade, 17 (3), 09-17; set/dez: 2005).
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