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Espelho

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E S P E L H O


XV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015

E S P E L H O

ANDRÉ SEVERO GALERIA BOLSA DE ARTE Bolsa de Arte - Porto Alegre Rua Visconde do Rio Branco, 365 Floresta, Porto Alegre-RS - CEP 90220-231 Tel +55 51 33326799 / 33316459 bolsadearte@bolsadearte.com.br PINACOTECA RUBEN BERTA Rua Duque de Caxias, 973 Centro Histórico, Porto Alegre - RS, 90010-28 Tel + 55 51 32246740 / 32898292 acervo@smc.prefpoa.com.br 16 de março a 30 de abril de 2017

Porto Alegre, 2017


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ABERTURA PARA O INCERTO ESPELHO [EL MENSAJERO] 140

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APRESENTAÇÃO

SOBRE O AUTOR

NOTAS / AGRADECIMENTOS


APRESENTAÇÃO

possa alcançar um tipo híbrido de expressão poética – que busca, sobretudo, conjugar as potencialidades específicas das associações entre as pinturas selecionadas e as imagens fotográficas e videográficas de que se utiliza para transformar o espaço e o tempo reais da apresentação em novas possibilidades de representação.

Projeto contemplado com o XV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015 e compondo as comemorações do cinquentenário da Pinacoteca Ruben Berta, a exposição Espelho de André Severo tem a imagem, o tempo e a memória como elementos latentes de sua estruturação e busca dar sequencia às pesquisas do artista sobre a imponderabilidade da experiência criativa e de sua eminente relação com os condicionantes espaciais e temporais que definem algumas de suas possibilidades de apresentação.

Desenvolvida através de uma compilação de textos, fotografias e de vídeos

(produzidos a partir de imagens fotográficas) articuladaos com uma seleção de pinturas dos acervos das Pinacotecas Ruben Berta e Aldo Locatelli, a instalação insere-se na dinâmica de questionamento entre as instâncias processuais e os suportes de registro dos trabalhos poéticos que André Severo vem realizando (através, principalmente, de projetos artísticos e curatoriais, de produções audiovisuais e do registro fotográfico de performances e ações vivenciadas diretamente na paisagem), e passa a ser também uma investigação sobre as possibilidades associativas e dissociativas de imagens pictóricas, fotográficas, audiovisuais e textuais dentro do ambiente expositivo.

Realizada simultaneamente na Galeria Bolsa de Arte de Porto Alegre e na Pi-

nacoteca Ruben Berta, neste exposição fotografia, filme, texto, pintura, espaço de articulação, tempo e memória trabalham em conjunto para que a proposta de apropriação, desconstrução e reelaboração de imagens evidencie o processo associativo de criação e

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Da mesma maneira que a instalação Metáfora, realizado em parceria com Paula

Krause, no ano de 2015, este projeto almeja um desdobramento das dimensões locais e específicas da galeria para a dimensão inexprimível da subjetividade; e aposta no imperativo da relação entre imagem e memória (mais especificamente na justaposição entre lembranças próprias e imagens de lembranças alheias) como possibilidade de criação de uma noção particular de tempo e espaço – onde o lembrar não figura ser somente voltar-se para as experiências passadas, reevocando e reordenando imagens pessoais reminiscentes, mas, também, um vergar-se sobre rastros de imagens de outrem para entender certas (ou incertas) circunstâncias da própria vida.

Delineado a partir de uma entrega vertical para o processo criativo e do desejo

de trabalhar com imagens apropriadas de fontes variadas e mesclá-las com uma seleção de pinturas (que representam também diferentes temporalidades), Espelho intenta extrapolar o contexto imediato de sua instauração – apostando nos espaços concentrados de duas salas de exposição distintas como lugares singulares de projeção para o processo poético. Ao migrar em direção a uma experiência estética de duração o projeto sustenta-se na rememoração descontinuada da ordem temporalizada e anela a criação de um ambiente eutópico – onde a conciliação final da instalação somente pode se dar através da articulação dos diversos modos com que as fotografias, os filmes, os textos e as pinturas são apreendidos nos dois espaços em que se instaura.

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ABERTURA PARA O INCERTO (excertos preliminares de uma tentativa de entendimento da imagem) André Severo

Imitação de uma forma; representação visual; impressão de um objeto no espírito; reprodução na memória; reflexo subjetivo de percepções passadas; concepção mental que corresponde a algo visto; retrato de uma sensação na ausência da causa que a produziu; símbolo, suspensão, iminência. Ao que se afigura, são poucas as certezas a respeito da imagem; questão filosófica ainda a ser mais bem compreendida e objeto durante muito tempo excluído do logos do pensamento ocidental, a imagem determina hoje, mais do que nunca, parcela significativa de nossa relação com o real, com o outro e com o mundo. De fato, sustentando-se como uma ferramenta de conhecimento (algo inédito em sua história) a imagem, além de haver se tornado matéria de investigação e ensino – em um plano, diriam alguns, similar ao da escrita – vem, gradativamente, transformando-se em um meio de comunicação (cotidiano, maleável, fluído, complacente) que parece começar já, em diversos níveis e em múltiplas instâncias, a rivalizar – e, em alguns casos, a suplantar – a linguagem discursiva.

A despeito de já haver se tornado quase vulgar a constatação de nos encontra-

mos submersos em um mundo imagético, de estarmos sendo incessantemente invadidos por imagens de toda espécie (imagens estas, que, quer queiramos ou não, cada vez

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mais povoam nosso ambiente, constroem nosso imaginário e definem o horizonte de

seguros de reflexão. Ainda assim, para não me esquivar da tarefa de tentar rascunhar

compartilhamento de nossas sensações e ideias nos âmbitos social e interpessoal), have-

alguma ponderação sobre tais questões, penso ser prudente, ao menos neste momento,

mos de assentir que a múltipla proliferação de imagens no mundo contemporâneo tem

manter-me restrito a meu terreiro mais imediato de operações e conduzir esta redação

se mostrado inversamente proporcional – e, segundo pondera Emmanuel Alloa, talvez

como uma indagação sobre o tipo de imagem que se produz na esfera da arte – campo

aí resida seu principal paradoxo – à nossa faculdade de dizer com exatidão ao que elas

sem dúvida pantanoso e dentro do qual, conforme acredito, qualquer pontuação sobre

correspondem.

o estatuto da imagem figura ser, de antemão, bem vindo.

Justifico esta opção (alguns diriam restrição) não apenas como maneira de me

poupar o esforço de disfarçar o diletantismo que se poderia entrever neste texto caso (...)

optasse aqui por um âmbito diferente de reflexão; mas principalmente porque, conforme acredito, traçar interrogações sob a ótica da produção imagética em arte afigura-se, de imediato, uma tentativa de tornar mais evidentes algumas questões – questões estas

Com efeito, ainda que hoje estejamos o tempo todo expostos às imagens, ainda que

que, sem embargo, por suas potenciais extensões e por extrapolarem o circunscrito

interajamos com elas (mesmo involuntariamente) e as utilizemos – associadas ou não

universo da arte, não poderão ser encerradas aqui – que considero importantes abordar

ao discurso – como instrumento de expressão de ideias e sentimentos, se alguém nos

(ou, ao menos tangenciar) em uma reflexão sobre a imagem – sobretudo no que se re-

colocasse diretamente na situação de explicar o que é uma imagem, não há dúvida de

fere ao princípio de variabilidade contido na apreensão de objetos visuais (que exigem

que teríamos dificuldade em elaborar uma resposta imediata.

do espectador outras formas de movimento e atenção); ou mesmo no que tange às

O que seria, pois, a imagem? O que a imagem evocaria? O que a imagem indica-

hipóteses interpretativas, como as formuladas por Jacques Aumont, por exemplo, que

ria? Ao que ou a quem uma imagem remeteria? Seria a imagem uma forma de expressão

invertem a noção corrente (de que a pesquisa artística se alimenta das imagens produzi-

estruturada como uma linguagem? Haveria uma lógica das imagens diferente da lógica

das no cotidiano) ao postular que as imagens que se disseminam no mundo contempo-

do discurso? As questões são plurais e as respostas que poderiam ser imediatamen-

râneo talvez não sejam mais do que mera repetição, contrafação e eventual diluição das

te esboçadas aqui, além de incertas, não garantiriam, de qualquer forma, parâmetros

imagens produzidas na esfera artística.

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– ou ainda, na tendência que as imagens da arte têm de se disseminar de maneira alotró(...)

pica; em suas possibilidades de declinarem-se delas mesmas em formas plurais, incertas; no condão de se multiplicarem a partir das interpretações multíplices que evocam; na circunstância de se manterem suspensas, iminentes, no devir e no fluxo do instante de

Isto posto (e instaurado o deslocamento momentâneo da possibilidade de uma reflexão

seus contextos imediatos de compartilhamento.

mais ampla sobre a imagem para uma breve e, por enquanto, bem pontual ponderação

sobre sua derivação no ambívio das experiências com a arte), vale acrescentar, de saída,

ção da imagem no terreno da arte, o que impulsiona sua instauração, o que nela subjaz,

que, conforme acredito, as indagações que nos fazem arguir sobre o que seria isto que

o que dá a singularidade de sua condição, não é nenhum porto seguro de interpretações,

a imagem artística evoca, o que ela indica, o que ela visa, aquilo a que ela remete, não

não é também algo legível (e muitas vezes, nem mesmo visível); talvez não seja alguma

podem ser respondidas senão através da nução consciente de que estamos detendo

coisa que se mostra evidente na própria imagem; ou mesmo algo que se poderia dizer

atenção em algo fugidio, quase impalpável – algo que se mantém em constante estado

que está efetivamente ali – a não ser como qualquer coisa de contingente, como algo

de suspensão, em um modo de persistente abertura para o incerto, em firme distinção de

pendente, quase a ocorrer.

Quero pontuar com isso, simplesmente, que, para mim, o que move a constru-

iminência.

Considerando-se tais menções como pontos de partida, vale já destacar que

– ainda que seus contornos possam permanecer introvertidos aqui – tais noções apare-

(...)

cerão e reaparecerão no texto apenas como tentativa de sublinhar minha convicção de que algumas das características mais importantes das imagens artísticas (características estas que, quiçá, seriam justamente aquilo o que as tornam distintas de outros tipos de

Insisto em falar das imagens em termos eminentemente abstratos (abusando de vocá-

imagem – imagens publicitárias, recordações turísticas, fotografias e filmagens pessoais,

bulos fugidios como iminência, abertura, suspensão e contrapondo oblóquios não necessa-

registros funcionais, etc. –) podem ser entrevistas justamente nesta qualidade de desim-

riamente excludentes como legibilidade e visibilidade), sobretudo porque estou tentando

pedimento para um partido de incerteza que, acredito, as imagens artísticas sustentam

conduzir a reflexão para uma tentativa de pensar sobre um tipo de imagem (ou uma

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situação específica de encontro com a imagem) no mínimo ambígua, que, sem jamais

vinculações não programadas (inclusive com quem as assiste) – que geram uma espera

ser exaustiva no instante de sua exibição, todavia, não pode ser traduzida em termos

cujo desenrolar é, no entanto, infinitamente referido, adiado, suspenso; trata-se de uma

discursivos e muitas vezes se dá a ver apenas em uma única e rápida olhada – nos limites

imagem que não se prende em desdobramentos lineares; uma imagem que, de forma

físicos e temporais de relação de um espectador hipotético com um objeto visual pen-

muito evidente, não representa, mas apresenta; uma imagem latente sem início, meio

durado, disposto ou projetado na parede.

ou fim e que não é passível de ser reduzida às bordas materiais ou medida pelos tempos

específicos de duração.

E isto é importante, pois, como já deve ter se feito evidente, não é meu foco

aqui, ao menos não neste momento, pensar sobre o tipo de imagem artística na qual a relação com o espectador se dá a partir de uma situação de repouso (a imagem produ(...)

zida para o cinema ou mesmo para filmes de artista, com teor narrativo, exibidos em salas dedicadas, por exemplo); mas sim sobre as imagens que se ativam e se dão ao compartilhamento a partir de um contexto expositivo tradicionalmente aberto (penso aqui, principalmente, em exposições ou instalações – instaurações, talvez fosse um termo

Quiasmas formais compostos de camadas subjetivas não estanques e evocativas de en-

melhor – em que fotografias e filmes encontram-se dispostos no espaço em situação de

trelaçamentos temporais, as imagens que procuro entender a partir destas disquisições

vinculação com outras fotografias, filmes, sons, objetos, pinturas, desenhos ou textos e

não podem propriamente ser localizadas nem aqui, nem lá, nem além, nem aquém do

exigindo de espectador, como condicionante de apreensão, um papel ativo, um desloca-

instante de sua apreensão – mas constituem, precisamente, este entre que mantém a

mento, uma dinâmica de posicionamento e reposicionamento).

relação com o espectador em suspensão, em contexto circunstancial de iminência.

Justifico o recorte, mais uma vez, não apenas para pontuar a diferença entre

Não parece haver ao que se obstar; todavia, quando pondero que as imagens

os tipos de imagens – ou de objetos visuais – que podem ser produzidos e apresenta-

artísticas são iminentes, estão suspensas, abertas para a incerteza da recepção que se tor-

dos na esfera da arte (diferença esta, a ser, se possível, mais profundamente explorada

na também instante de instauração, é preciso que tais constatações sejam entendidas de

adiante), mas principalmente porque, conforme acredito, ao demandar serem percor-

forma ampletiva: o que as imagens (neste caso, talvez fosse melhor já começar a dizer as

ridas, são principalmente este segundo tipo de imagem – as imagens que se expõem às

obras) dão a ver está realmente suspenso – sem que esta suspensão possa ser objeto de

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uma tentativa de codificação restritiva ou de substituição sintética. E isto, simplesmente porque, em se tratando de uma obra visual (ou mesmo de um conjunto de obras visu(...)

ais dispostas em um espaço, vinculadas por vetores heteróclitos não necessariamente visíveis), o que aí aparece em imagem – ou o que assim decodificamos – está sempre resistindo à generalização, ou a uma simples redução ao artefato visual individual (ao mesmo tempo em que excede, sempre, em sua iminência, no seu aparecer a um espec-

Encaradas, pois, não como matrizes representativas de pensamentos ou ideias passíveis

tador, os códigos linguísticos, as categorizações predicativas e os acordos discursivos

de ordenações narrativas mais ou menos evidentes – mas como possibilidade de reve-

proloquiais).

lar alguma coisa, de tornar visível algo que muitas vezes não pode ser descrito –, estas

Dito isto, vale frisar que as imagens de que estamos tratando aqui, de fato,

imagens aproximam (e tornam indissociáveis) poesia e reflexão como forma de acesso

requerem uma forma de abordagem diferente – que suspenderia as certezas de uma

e produção de conhecimento. Dito de outra forma; é preciso aceder que o que encon-

recepção calcada na tentativa de traduzibilidade –, e, além disso, elas requerem também

tramos em uma obra visual, muitas vezes, não somente não representa alguma coisa,

um espectador (neste caso, melhor talvez fosse dizer um participante, um co-realizador)

como sequer trata-se de algo que está, necessariamente, presente na gênese original (ou

que aceite se expor, sem restrições, às dimensões de incerteza, às condições de não saber

mesmo no universo do desenvolvimento, estruturação e divisamento) de tal visualidade.

que implica toda experiência imaginal. Trata-se, quiçá, para que possamos nos relacio-

Se formos mais fundo, veremos que talvez nem faça parte desta ou daquela obra aquilo

nar com tais imagens, de encontrarmos um modo de realizar rupturas epistemológicas

que elas dão primeiramente a ver, aquilo que elas aparentemente evidenciam (ou, em

(como as já propostas por pensadores como Georges Didi-Huberman); e estabelecer

determinadas situações, nem mesmo aquilo o que elas tornam presente) – sobretudo

maneiras próprias de operar e interrogar o visível – maneiras estas, que não apenas re-

porque, em verdade, se pensarmos com cuidado, veremos que mesmo quando tentamos

pisem as sendas abertas pela história da arte, pela filosofia, pela antropologia visual ou

abordar tais instaurações imagéticas de forma mais direta (e talvez principalmente aí),

pela teoria estética; que não almejem simplesmente codificar as imagens, reduzir o visí-

nossa atenção não consegue, de qualquer forma, ultrapassar o horizonte daquilo o que

vel ao legível; que não se contentem em tentar dar novas respostas às velhas questões;

a imagem coloca em suspensão.

mas que, ao contrário, formulem perguntas inteiramente novas e calcadas em outros

parâmetros de indagação.

em sintomia, não são mais do que outras imagens – novas metáforas, distintas figuras

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Quero dizer com isso, simplesmente, que o que a imagem artística produz,

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poéticas associativas, não legíveis, não necessariamente decodificáveis –, apoiadas em rupturas e deslocamentos que conformam a possibilidade de abertura para o incerto. (...)

E é talvez por isso – por nos oferecer oportunidade de desvencilhamento dos códigos discursivos que imediatamente dão a configuração formal de nosso pensamento (nada obstante, para que possamos entrar no território da incerteza, na dimensão suspensa da iminência) – que se pode ponderar que aquilo o que o espaço entre a imagem e o olhar

Alheias ao mundo, contingentes, as imagens artísticas estão sempre reagindo com as

que ela provoca forma (entre a imagem e o sujeito que se absorve nela) é não mais do

imagens que, de antemão, já existem em nós: as imagens do sonho, as memórias, as

que uma atmosfera pensativa, um meio de reflexão imagético capaz de desenvolver uma

fantasias e as representações mentais contidas em nossa imaginação. Ademais, ao que

força de subversão nos códigos-base do discurso objetivo (sobretudo quando esta rela-

parece, de onde quer que a miremos, a imagem é sempre momentânea – sendo sua imi-

ção não almeja mais realçar um sujeito ou decifrar um objeto visual em si, mas quando

nência não mais do que um equilíbrio, ao mesmo tempo precário e perfeito, que dura o

se difunde para além da codificação dedutiva e, a partir dos parâmetros estatuídos para

que dura um instante. Além disso, a iminência remete, outrossim, ao mistério e à graça

sua apresentação, se liberta da lógica da representação).

de um porvir que se torna evento imprevisível – e isto é importante, sobretudo porque

Conforme acredito, tal meio e tal espaço potencial (indeterminados ainda nas

sem a imprevisibilidade contida na iminência, o que a imagem (o que a obra) colocaria em

suas atualizações singulares), semelham ser, efetivamente, esferas de encontro com

suspenso seria apenas uma espera inerte, uma inquietude passiva sem capacidade de nos

aquilo o que penso ser a instância crucial de toda experiência artística: que é a possibili-

abrir para a possibilidade de a percebermos como instauração provisória e passível de

dade de nos fazer vislumbrar (ou, no mínimo, de projetar como imaginação) o instante

ser reconstruída, a cada instante de apreensão, em nova forma intermediária, em novo

primordial – ao qual, por conta, sobretudo, do legado discursivo de que somos benefi-

vetor de deslocamento dos códigos imediatos da linguagem.

ciários, já não temos mais acesso –, que precederia todo pensamento formalizado pela

linguagem – um instante de suspensão que encerraria o pensamento ainda não pensado

parecem estar, como bem pontua Gottfried Boehm, em um grau ao mesmo tempo infe-

e que, por isso mesmo, tornar-se-ia pensatividade relativa, iminência capaz de fundir a

rior e superior em relação à linguagem discursiva – inferior, porque elas não podem pre-

operação de inteligência do sujeito com os reflexos não sistemáticos da imagem.

tender à generalização descontextualizada da linguagem; superior porque elas tornam

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E isto também se assoma aqui, pois, na sua dimensão circunstancial, as imagens

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evidente uma lógica que não é mais restrita à dimensão impositiva dos signos – distin-

é inegável, sem obrigação de fazer uso das regras da predicação; elas dão acesso a um

ções estas que, de toda forma, não se encontram nem onde as imagens se apresentam e

pensamento em iminência (que, não obstante, se poderia invocar ou perceber também em

nem no lugar para o qual, eventualmente, podem remeter; pois, operando por vincula-

outras formas expressivas, não predominantemente imagéticas, como a música, a dança,

ção, ligação e conjunção, a imagem sempre nos carrega em direção a uma justaposição

a performance, etc.) capaz de nos conduzir, inclusive, a questionar o real por caminhos que

das cargas subjetivas (nada obstante, já contidas antecipadamente em quem a assiste) e

não o da linguagem discursiva direta.

daquilo o que, na imagem, não pode estar nem presente, nem ausente (somente iminen-

te) no instante de sua instauração.

de imagem que vimos aqui interrogando) parece efetivamente significar, em última ins-

Desta feita, ainda que os parâmetros de transformação sejam distintos, assim

tância, pensar a unidade sempre em tensão entre aquilo o que a imagem deixa iminente

como o discurso, a imagem – em iminência – é algo que perpetuamente está se produzin-

e o modo como o espectador recebe e assoma – pela intuição sensível – este instante de

do. Ou seja, também no que tange à relação da imagem com a escritura, há, efetivamen-

suspensão.

te, que se apostar em uma espécie de desvio, instaurado na própria gênese da imagem,

mas almejado também pela linguagem discursiva (e desde sempre entrevisto como pos-

o modo como as imagens se engendram chegaremos perto de definir sua natureza. E

sibilidade nas camadas tropológicas e imagéticas da composição poética) que seja capaz

isto porque, segundo creio, entender a gênese da imagem artística não parece significar

de nos fazer perceber que nosso acesso ao conteúdo da imagem se dará, sempre, quer

se interrogar imediata ou diretamente sobre sua essência, sua forma ou sua diferença

queiramos ou não admitir, a partir e através de uma intuição sensível.

em relação às demais imagens do cotidiano – trata-se, antes, de indagarmo-nos de onde,

Preleva-se disso, que questionar-se sobre a imagem (ou, ao menos, sobre o tipo

Resulta disso, ao que se afigura, que nem mesmo observando cuidadosamente

através de que instrumentos, a partir de que contextos e condições as imagens (artísticas ou não) podem se sustentar nesse mundo. (...)

As imagens existem, efetivamente, graças a uma gênese que ainda não nos é

possível descrever. Entretanto, conforme pondera Emanuele Coccia, se é possível que se coloque a questão da imagem como tal, da gênese do sensível como tal, talvez seja De fato, há uma carga (em deriva) de sentidos que se pode entrever com as imagens e

porque a gênese das imagens não coincida nem com a gênese das coisas nem com a gê-

que não seria acessado, inteiramente, na linguagem. As imagens produzem sentido, isto

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nese do sensível – sendo as imagens, geneticamente diferentes dos objetos conhecidos e também dos sujeitos do conhecimento que nelas projetam sua intuição sensível.

Não sendo, pois, uma estética, nem sequer uma disciplina, a imagem artística

instaura, através da visibilidade, a possibilidade de compartilhar os foros abertos de sua própria não existência. Ao tornar visível aquilo o que não existe para nossa percepção imediata (aquilo o que, por herança cultural já não temos mais acesso direto), aquilo o que está suspenso, iminente, em condição de abertura para o incerto, ela se desvencilha das malhas da linguagem instituída e se vincula – como ponte entre sujeito e objeto – à gênese do sensível, às formas anteriores ao princípio racional que, ao menos por enquanto, ainda segue desenvolvendo (e governando) as estruturas que dão forma ao nosso pensamento.

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Sem título Impressão digital por sublimação 100 cm x 160 cm 2016


ELSA VALLARINO Paisagem รณleo sobre tela 38,5 cm x 48,5 cm 1972 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2015


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 164 cm 2016


AFFONSO SILVA Paisagem com รกrvore รณleo sobre papelรฃo 40 cm x 32 cm sem data Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli

AFFONSO SILVA Paisagem รณleo sobre tela 65,5 cm x 43,2 cm 1922 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2016


OSCAR BOEIRA ร rvore Seca รณleo sobre tela 55 cm x 81,5 cm 1917 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem título Impressão digital por sublimação 100 cm x 180 cm 2015


DAKIR PARREIRAS Paisagem รณleo sobre tela 105 cm x 140 cm 1917 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2015


AUGUSTO LUIZ DE FREITAS Da cidade antiga รณleo sobre madeira 28 cm x 39 cm 1917 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 164 cm 2016


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2017


AFFONSO SILVA Paisagem รณleo sobre madeira 22c m x 30,5 cm 1916 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli

AFFONSO SILVA Paisagem com arvore รณleo sobre papelรฃo 40 cm x 32 cm sem data Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2016


OTAVIANO FURTADO Canhoneira Marajรณ รณleo sobre cartรฃo 26 cm x 33,5 cm 1940 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 480 cm 2017


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2015


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 164 cm 2016


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2016


ÂNGELO GUIDO Marinha - Ilha Porchat óleo sobre tela 63 cm x 89,5 cm sem data Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli

ÂNGELO GUIDO Paisagem óleo sobre tela 55 cm x 70,5 cm 1949 Acervo Pinacoteca Ruben Berta


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2016


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 166 cm 2016


PEDRO AMร RICO A cascata รณleo sobre madeira 21,5 cm x 15 cm sem data Acervo Pinacoteca Ruben Berta


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 174 cm 2017


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 200 min. PB. MP4 - loop 2015


OSCAR CRUSIUS Paisagem rio-grandense รณleo sobre aglomerado 81,5 cm x 121,5 cm 1965 Acervo Pinacoteca Ruben Berta


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 166 cm 2017


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 350 cm 2016


ELISEU VISCONTI Morro do castelo รณleo sobre madeira 27 cm x 34 cm sem data Acervo Pinacoteca Ruben Berta


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 350 cm 2017


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2014


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 350 cm 2017


Sem título Impressão digital por sublimação 100 cm x 180 cm 2017


OSCAR CRUSIUS Paisagem campeira รณleo sobre chapa de aglomerado 50 cm x 60 cm 1965 Acervo Pinacoteca Ruben Berta


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 350 cm 2016


JOร O BATISTA DA COSTA Paisagem รณleo sobre tela 39 cm x 56 cm sem data Acervo Pinacoteca Ruben Berta


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 164 cm 2016


TORQUATO BASSI Vista da serra óleo sobre tela colada em cartão 23,2 cm x 28 cm sem data Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli

OSCAR CRUSIUS Lago e Vegetação óleo s/ tela colada em chapa aglomerado 52 cm x 71 cm 1952 Acervo Pinacoteca Aldo Locatelli


Sem tĂ­tulo Filme em arquivo digital 60 min. PB. MP4 - loop 2014


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 166 cm 2016


Sem título Impressão digital por sublimação 110 cm x 164 cm 2016


Sobre o artista

Nascido em 1974, André Severo é mestre em poéticas visuais pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Iniciou, em 2000, com Maria Helena Bernardes, as atividades de Areal, projeto que se define como uma ação de arte contemporânea deslocada que aposta em situações transitórias capazes de desvincular a ocorrência do pensamento contemporâneo dos grandes centros urbanos e de suas instituições culturais. Em 2004 publicou Consciência errante, quinto volume da série Documento Areal, que busca contribuir com o eixo das reflexões contemporâneas sobre o estabelecimento de um intenso diálogo a respeito das fronteiras que conformam os processos de conhecimento que possibilitam a existência da arte. Em 2007 elaborou, conjuntamente com Cláudia Vieira, Grady Gerbracht e Paula Krause, o projeto Lomba Alta, um programa de residência que se utilizava do espaço físico de uma fazenda, em plena atividade, na região central do estado do Rio Grande do Sul e buscou oferecer o espaço e os meios para a realização de investigações artísticas que colocassem em foco a experiência do fazer criativo e reflexivo compartilhado. Em 2008 inaugurou, com Marcelo Coutinho, o projeto Dois vazios, que almeja alcançar não somente o encontro de duas linguagens artísticas (cinema e artes plásticas), mas também o embate entre duas vastas paisagens brasileiras: os pampas da região Sul e o sertão da região Nordeste. Em 2009 publicou, Histórias de península e praia grande/Arranco, trabalho realizado em parceria com Maria Helena Bernardes e que consiste em um livro reunindo pequenas histórias orais colhida na metade sul do estado do Rio Grande do Sul e em um filme que traduz em imagem, tempo e símbolo a amplidão e o imaginário da região. Em 2010 lançou Soma, uma experiência audiovisual que trata do encontro de indivíduos movidos pelo impulso da errância; e foi responsável, também em parceria com Maria Helena Bernardes, pela curadoria da mostra Horizonte expandido, proposta expositiva que almejou propiciar um maior contato do público brasileiro com obras e registros de experiências artísticas radicais que inauguraram um importante debate sobre as formas de compartilhamento da arte. Em 2012, convidado por Luis Pérez-Oramas, foi curador associado da XXX Bienal de São Paulo - A Iminência das Poéticas e publicou o livro Deriva de sentidos - nono volume da série Documento Areal e segunda parte da tetralogia Nômada - que corporifica uma reflexão sobre o físico e o metafísico, viabilizada por uma radical experiência artística de convergência entre pensamento e gesto. Em 2013, também com Luis Pérez-Oramas, foi responsável pela co-curadoria da exposição Dentro/fora que compôs a representação brasileira na 55ª Bienal de Veneza. Entre suas principais premiações destacam-se o Pro-

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grama Petrobrás Artes Visuais - ano 2001 -, em 2001; o Prêmio Funarte Conexões Artes Visuais, em 2007; o Projeto Arte e Patrimônio 2007, em 2007; o Programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais 2009, em 2009; o V Prêmio Açorianos de Artes Plásticas, em 2010; o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça - 6ª Edição, em 2013; o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2014, em 2014; e o XV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015, em 2015.

Notas

O texto Abertura para o incerto (excertos preliminares de uma tentativa de entendimento da imagem) é uma adaptação de um texto de mesmo título, também de autoria de André Severo, publicado originalmente no catálogo da exposição Abertura para o incerto de Nelton Pellenz. Os textos de El mensajero foram produzidos a partir de extratos do livro El monogramático de Octávio Paz. A maior parte das obras produzidas para esta exposição foram realizadas a partir de apropriações e manipulações de arquivos familiares, de arquivos digitais e de fotografias, documentários e vídeos produzidos por André Severo, Paula Krause, Bald Eagle Bluff, Imgur, Timothy O’Sullivan, Pierre Coulibeuf e Kalev Kevad. Algumas obras foram realizadas a partir de imagens sem referência, cujos autores não puderam ser identificados.

Agradecimentos:

Andrea Luiza Paes, Adriana Boff, Adriana Martorano, Alexandre Navarro Moreira, Anete Abarno, Camila Krause Correa, Carlos Eduardo Corrêa Severo, Eduarda Saldanha, Egon Kroeff, Elida Tessler, Flávio Krawczyk, Francisco de Assis Chaves Bastos, Ivone Schulz, Jailton Moreira, João Henrique Corrêa Severo, José Agnelo Franzen Corrêa, José Roberto Severo, Lou Borguetti, Marga Pasquali, Maria Helena Bernardes, Marília Panitz, Melissa Schulz, Nelton Pellenz, Osvaldo Alves Silva Junior, Teresa Poester. Agradecimento especial:

Nelson Azevedo

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© 2017 André Severo Direção e produção de obras André Severo Produção executiva Paula Krause Técnico de Montagem Nelson Azevedo Projeto gráfico André Severo Revisão e tradução Paula Krause Fotografias da exposição Paula Krause

Severo, André Espelho Porto Alegre: Arena, 2017. 240p: 210 x 210 mm ISBN: 978-85-64996-02-1 1. Artes visuais. 2. Humanidades. I. Severo, André. II. Título. CDD: 73

CDU: 709

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA, PROIBIDA A VENDA www.andresevero.com


Presidenta da República Michel Miguel Elias Temer Lulia Ministro de Estado da Cultura Roberto Freire

FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES Presidente Humberto Ferreira Braga Diretor Executivo Reinaldo da Silva Veríssimo Diretor do Centro de Artes Visuais Francisco de Assis Chaves Bastos Coordenadora do Centro de Artes Visuais Andrea Luiza Paes Coordenadora do Prêmio Marc Ferrez de Fotografia Osvaldo Alves Silva Júnior


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