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Arquitetura Agudá no Bénin e no Togo – MILTON GURAN e ROBERTO CONDURU

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Milton Guran

Remerciements, Les recherches menées au Togo ont pu être réalisées grâce à la collaboration inestimable de l’EAMAU – Ecole Africaine des Metiers de l’Architecture et de l’Urbanismo de Lomé, nous lui adressons ici nos remerciements. Nous remercions également son directeur, M. Thierry Ngomo et les architectes Aimé Paul Gonçalves et M. Ambroise Adjamabo Agradecimentos As pesquisas na República do Togo contaram com a colaboração inestimável da l’EAMAU – Ecole Africaine des Metiers de l’Architecture et de l’Urbanismo de Lomé, aqui expressamos os nossos agradecimentos, em particular a Thierry Ngomo e aos arquitetos Aimé Paul Gonçalves e M. Ambroise Adjamabo.

Roberto Conduru

Architecture Agouda au Bénin et au Togo


Apresentação Velhos casarões, muros e pórticos que perdem a cor com o tempo mas ainda conservam algo do vermelho-ocre original, com suas venezianas em madeira e balaustradas bem desenhadas em cimento. São certamente os elementos mais visíveis do importante fenômeno histórico e social que constituiu o retorno à Costa ocidental da África de alguns milhares de africanos e seus descentes após longa permanência no Brasil. Um legado que une Brasil e África deforma permanente e emocionante.

D’anciennes villas, des murs et des portiques qui perdent leur couleur avec le temps, mais qui conservent encore l’ocre rouge original, avec leurs fenêtres en bois et des balustrades bien dessinés en ciment.Ce sont certainement les éléments les plus visibles de l’important phénomène historique et social qui a constitué le retour à la côte occidentale de l’Afrique de quelques milliers d’Africains et de leurs descendants après un long séjour au Brésil. Un héritage qui unit le Brésil et l’Afrique d’une manière permanente et émouvante.

Ao visitar localidades do Togo e do Benin, sobretudo alguns bairros antigos de Lomé e as cidades de Aného, Uidá e Porto Novo, o visitante depara-se com um conjunto vasto e quase homogêneo de edificações que fazem lembrar cidades brasileiras da segunda metade do século XIX ou das primeiras décadas do século passado.

En visitant les localités du Togo et du Bénin, notamment certaines anciens quartiers de Lomé et les villes d’Aného, de Ouidah et de Porto Novo, le visiteur tombe sur un large éventail et presque homogène de bâtiments qui font évoquer les villes brésiliennes de la seconde moitié du XIXème siècle ou des premières décennies du siècle passé.

O hábito de viver em casas difundiu-se em pontos ligados ao comércio atlântico no decorrer do século XIX, seja por meio dos mercadores portugueses que se estabeleceram na região, seja pelos afro-brasileiros que, ao adquirirem liberdade e meios financeiros, retornaram à África, onde reproduziram o modo de vida que conheceram no Brasil. De datas posteriores são as implantações urbanas alemã e francesa na região. No entanto, em publicações européias dedicadas à arquitetura e à urbanização do Oeste africano raramente ou apenas de maneira superficial se menciona o pioneirismo e as contribuições essenciais da presença luso-brasileira. A rápida deterioração física desses marcos arquitetônicos, artísticos e históricos, no entanto, alertou para a urgência de registrar a memória de uma fase relevante da história comum do Brasil e da África que está a se perder.

L’habitude de vivre dans des maisons s’est vulgarisée dans des points liés au commerce atlantique tout au long du XIXème siècle, soit à travers les marchands Portugais qui se sont établis dans la région, soit par les Afro-Brésiliens qui, après avoir acquis la liberté et des moyens financiers, sont retournés en Afrique, où ils ont reproduit le modèle de viequ’ils ont connu au Brésil. Les implantations urbaines allemandes et françaises dans la région datent d’une période postérieure. Cependant, dans des publications européennes dédiées à l’architecture et à l’urbanisation de l’Afrique de l’ouest, le caractère pionnier et les contributions essentielles de la présence luso-brésilienne ne sont mentionnés que rarement ou seulement de manière superficielle.La rapide détérioration physique de ces références architecturales, artistiques et historiques, cependant, a alerté sur l’urgence d’enregistrer la mémoire d’une périodeimportantedel’histoire commune du Brésil et de l’Afrique qui est en train de se perdre.

Para quem entra nesses casarões, o primeiro a notar é a agradável temperatura ambiente, resultante da ventilação cruzada, do revestimento do solo com ladrilhos hidráulicos e do pé direito de elevada altura. “Nunca tivemos ar condicionado em casa, sequer ventilador, não é preciso”, afirma a proprietária de um bonito sobrado, herdado de seus pais, em Porto Novo. O modelo de construção introduzido é perfeitamente adaptável às realidades locais no tocante ao clima, aos materiais disponíveis e às necessidades cotidianas de seus moradores.

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Presentation

La première des choses à constater, pour celui qui rentre dans ces villas, c’est l’agréable température ambiante, résultant de la ventilation croisée, du revêtement du sol avec des carreaux hydrauliques et du plafond àhauteur élevée. «Nous n’avons jamais eu de climatiseur à la maison, même pas de ventilateur, on en a pas besoin», affirme la propriétaire d’un joli «sobrado», qu’elle a hérité de ses parents à Porto-Novo. Le modèle de construction introduit est parfaitement adaptable aux réalités locales en ce qui concerne le climat, les matériaux disponibles et les besoins quotidiens de leurs habitants.

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Se no estudo desses casarões empregarmos conceitos daquilo que se define atualmente como arquitetura sustentável, veremos que neles estão presentes diversos elementos hoje requeridos, tais como a qualidade do ar interior, o reduzido consumo de energia e o baixo impacto produzido no ambiente. Constataremos, assim, que essas vivendas vêm proporcionando há mais de um século bem estar aos seus moradores, em perfeito equilíbrio com a natureza, ao contrário do modelo de dificação predominante desde a segunda metade do século XX, que torna o ar condicionado e a iluminação artificial recursos técnicos indispensáveis.

Si nous appliquons à l’étude de ces villas des concepts de ce qu’on appelle de nos jours l’architecture durable, nous verrons qu’en elles sont présents divers éléments actuellement requis, tels que la qualité de l’air intérieur, la réduction de la consommation de l’énergie et le faible impact produit sur l’environnement. Nous constaterons donc que depuis plus d’un siècle ces villasoffrent du bien être à leurs habitants, en parfait équilibre avec la nature, contrairement au modèle d’édification prédominant depuis la seconde moitié du XXème siècle, qui fait de l’air conditionné et de l’éclairage artificiel des ressources techniques indispensables.

O Ministério das Relações Exteriores, por intermédio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), desenvolve presentemente a reelaboração dos inventários dos bens culturais de origem brasileira de Uidá e de Porto Novo, em colaboração com a “Ecole du Patrimoine Africain”. Além disso, apóia ativamente projeto de cooperação descentralizada estabelecido entre as cidades de Fortaleza, Lyon e Porto Novo em prol da restauração e conservação do patrimônio cultural desta última. Faz parte do projeto o restauro de um casarão afro-brasileiro, onde deverá ser instalada uma escola para a formação de técnicos e restauradores beninenses. Por outra parte, a Embaixada do Brasil no Togo tem mantido profícuos laços de colaboração com a “Ecole Africaine des Métiers de l’Architecture et de l’Urbanisme” sediada em Lomé.

Le Ministère des Relations Extérieures, par le biais de l’Agence Brésilienne de Coopération (ABC) et en partenariat avec l’Institut du Patrimoine Historique et Artistique National (IPHAN), développe à présent la réélaboration des inventaires des biens culturels d’origine brésilienne de Ouidah et de Porto-Novo, en collaboration avec ‘’l’Ecole du Patrimoine Africain’’ (EPA). Par ailleurs, il soutient activement le projet de coopération décentralisée établi entre les villes de Fortaleza, Lyon et Porto-Novo au profit de la restauration et de la conservation du patrimoine culturel de cette dernière. Dans le cadre de ce projet, il est prévu la restauration d’une ancienne maison afro-brésilienne, où une école de formation de techniciens et restaurateurs béninoisdevra être installée. En outre, l’Ambassade du Brésil au Togo maintient des liens fructueux de collaboration avec ‘’l’Ecole Africaine des Métiers de l’Architecture et de l’Urbanisme’’ basée à Lomé.

Dentro desse espírito, o Ministério das Relações Exteriores encomendou esta obra a dois conhecedores e amantes da cultura afro-brasileira, o antropólogo e fotógrafo Milton Guran e o arquiteto e historiador da arte Roberto Conduru, na esperança de que o estudo por eles realizado em diversas viagens à região e materializado no presente registro venha a servir de estímulo a novas iniciativas. Uma vez restaurados, os casarões embelezarão as cidades e atrairão visitantes, dinamizando a vida urbana e a economia; criar-se-á, enfim, um ciclo virtuoso em que o interesse coletivo pela conservação garantirá a preservação da memória histórica, oferecendo melhor qualidade de vida aos cidadãos de hoje e às gerações futuras

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES 6

Dans cet esprit, le Ministère des Relations Extérieures a commandé cette œuvre à deux connaisseurs et passionnés de la culture afro-brésilienne, l’anthropologue et photographe Milton Guran et l’architecte et historien de l’art Roberto Conduru, dans l’espoir que cette étude, qu’ils ont réalisée par divers voyages effectués dans la région, et qui a été matérialisée dans le présent registre, vienneservir destimulationà de nouvelles initiatives. Une fois restaurées, les villas rendront les villes plus belles et plus attirantes aux visiteurs, dynamisant ainsi la vie urbaine et l’économie. Enfin, un cercle vertueux sera créé, dans lequel l’intérêt collectif pour la conservation assurera la préservation de la mémoire historique, en offrant une meilleure qualité de vie aux citoyens d’aujourd’hui et aux générations futures.

MINISTERE DES RELATIONS EXTERIEURES 7


Ser “brasileiro” no Benin e no Togo1

Être “Brésilien” au Bénin et au Togo1 Milton Guran2

No Benin, Togo e Nigéria são conhecidos como agudás, ou “brésiliens”, os descendentes de comerciantes de escravos brasileiros ou portugueses que se instalaram nessa região, ao longo dos séculos XVIII e XIX, e de africanos escravizados no Brasil que ali retornaram ao longo do século XIX. Incluem-se nesse grupo os antigos escravos a serviço desses mercadores e dos retornados, que assimilaram a cultura e até os sobrenomes dos seus senhores, como esses haviam feito com os seus senhores no Brasil. Todos possuem, então, patronímicos de origem portuguesa, o que permite a sua identificação de imediato. No Togo atual, são também chamados de agudás os membros das colônias libanesa, síria e indiana3; e, na Nigéria do século passado, essa designação incluía os católicos em geral4. Também se integraram nesse grupo diversas famílias de outras nacionalidades, inclusive francesas, que viviam na região no século XIX, quando foi mais forte a influência dos agudás5.

A origem da palavra agudá tem provocado controvérsias, mas é, muito provavelmente, uma transformação da palavra “ajuda”, bastante conhecida na região por ter sido, até o século XIX, a designação mais corrente em português da cidade de Uidá, onde se situa o Forte Português de São João Baptista de Ajudá. Construído na virada do século XVII para o XVIII e hoje transformado em Museu Histórico. O Forte foi erigido por iniciativa de comerciantes baianos, que forneciam sua guarnição e pagavam os custos de manutenção. Além disso, era ligado administrativamente ao Vice-Rei do Brasil até 1822, quando passou a depender do governador de São Tomé e Príncipe.6 Os primeiros agudás foram os comerciantes brasileiros e portugueses estabelecidos em Uidá, cuja figura mais emblemática desse período é, sem dúvida, o futuro Chachá Francisco Felix de Souza, que chegou à região para trabalhar no Forte Português, antes de se

1 Este texto é fruto de uma pesquisa que contou com o apoio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e do Ministério da Ciência e Tecnologia, de uma pesquisa que se desenvolve no âmbito do Projeto Sons e imagens da rememoração: narrativas e registros das identidades e alteridades afro-brasileira nos séculos XIX e XX, apoiado pelo CNPq. Contou, ainda, com apoio da Faperj, através do projeto Memórias, identidades e alteridades afro-brasileira nos séculos XIX e XX: imagens e sons da rememoração (2008-2010), ambos coordenados pela Profª Ana Maria Mauad (LABHOI-UFF). 2 Milton Guran é antropólogo, pesquisador do LABHOI – Laboratório de História Oral e Imagem – e professor visitante do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Autor, dentre outros títulos, de Agudás – os “Brasileiros” do Benim (Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira/Ed Gama Filho, 2000) e de Agoudas – le “Brésiliens du Bénin (Paris: La Dispute, 2010). 3 O primeiro Presidente do Togo, proclamado “Pai da Independência”, foi um agudá, Sylvanus Olympio, deposto e morto em 13 de janeiro de 1963. Os agudás, apesar de sua sólida inserção na sociedade, são frequentemente apontados como “estrangeiro”, o que é reforçado pela associação com esses demais grupos sociais que são efetivamente imigrantes de diversas matrizes culturais. 4 CUNHA, M., op.cit. p.189 5 Um dos casos mais marcantes é da família Oliveira/Olivier, descendentes de Olivier de Montalguère, que foi comandante do forte francês de Uidá no século XVIII (GURAN, OP. CIT. P.17) 6 MATTOSO, K. 1990 [1982]. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, p.34; VERGER, P., 1968, op.cit. pp140-1.

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Milton Guran2

Maison Kouakwi, 1930, Lomé Au Bénin, Togo et au Nigéria, les descendants de commerçants d’esclaves brésiliens ou portugais – installés dans ces actuels pays au cours des XVIIIème et XIXème siècles — et les Africains, esclaves au Brésil, qui sont repartis dans ces régions au long du XIXème siècle sont connus comme Agoudas ou «Brésiliens». 1

Les anciens esclaves au service de ces marchands et des «rapatriés» sont à inclure dans ce groupe. Ils assimilèrent la culture et même les noms de famille de leurs maîtres, tout comme ceux-ci avaient fait avec leurs maîtres au Brésil. Tous possèdent donc, des patronymes d’origine portugaise, ce qui permet leur identification

Ce texte est le résultat d’une recherche qui a compté avec le soutien du Ministère Brésilien des Relations Etrangères et le Ministère de la Science et Technologie et

qui se développe dans le cadre du Projet intitulé Sons et images de la remémorisation: narratives et registres des identités et altérités afro-brésilienne au XIXème et XX ème siècles (Sons e imagens da rememoração: narrativas e registros das identidades e alteridades afro-brasileira nos séculos XIX e XX) soutenu par le cnpq. Cette recherche a compté également avec le soutien de la Faperj (Fondation pour la recherche de l’état de Rio de Janeiro) à travers le projet: Mémoires, identités et altérités afro-brésiliennes au XIX ème et XX ème siècles: images et sons de la remémorisation (2008-2010). Ces deux projets sont coordonnés par Ana Maria Mauad (Maître de conférence et chercheuse du Laboratoire de l’histoire orale et de l’image – LABHOI et de l’Université Fédérale Fluminense-UFF). 2

Milton Guran est anthropologue, chercheur au LBHOI – Laboratoire d’Histoire Oral et Image de l’Université Fédérale Fluminense (Niterói, RJ, Brésil). Auteur

de Agudás – os “Brasileiros” do Benim (Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira/Ed Gama Filho, 2000) et de Agoudas – le “Brésiliens du Bénin (Paris: La Dispute, 2010). 9


dedicar ao tráfico. Ele já seria um mercador de escravos poderoso quando se associou ao príncipe Gapké para derrubar do trono do Daomé o irmão deste, o temível Rei Adandozan. Francisco Felix de Souza fez-se, então, irmão de sangue do futuro Rei, que assumiu o trono com o nome de Guêzo em 1818. De Souza foi feito Vice-Rei do Daomé, com o título de Chachá, e ganhou o monopólio do comércio exterior do reino, condição que lhe possibilitou, à época, acumular grande riqueza.7 Sua descendência constitui uma das mais extensas famílias africanas, presentes em diversos países do continente.8 Atualmente, a família é chefiada por Honoré Feliciano Julião de Souza, o Chachá VIII.9 Apesar de não ter poder político formal, o Chachá VIII mantém certa autoridade em Uidá – é quem entroniza os chefes das famílias locais – e tem posição de destaque na sociedade beninense atual. Ademais, a presença de diversos membros da família De Souza na vida política e social do Benin confirma a proeminência adquirida no passado. Dom Isidore de Souza, então bispo de Cotonou, foi quem conduziu a Conferência Nacional das Forças Vivas da Nação, responsável pela transição política do regime marxista para o regime democrático. Chefes de Estado beninenses, 7

como General Mathieu Kérékou, presidente do país por 29 anos, e o presidente Thomas Boni Yayi, eleito em 2006 e reeleito em 2012, são casados com agudás da família De Souza. A propósito, o ex-presidente Nicéphore Soglo, sucessor de Kérékou e atual prefeito de Cotonou, é casado com uma agudá da família Vyeira. Como vimos, os agudás já estavam presentes e eram assim nomeados na chamada Costa dos Escravos desde pelo menos os finais do século XVIII, mas foi em meados do século XIX que ganharam maior densidade populacional, com um retorno expressivo de antigos africanos escravizados à região, muito em função da repressão à Revolta do Malês, em 1835 na Bahia10. Em um momento em que o mercado baiano se fechava mais e mais para os africanos libertos que, além de contaminados pelo estigma da Revolta, sofriam a concorrência de uma nova leva imigrantes portugueses, a repressão teve efeito importante no processo de retorno, por ter deportado muitos africanos para a Costa dos Escravos, dando visibilidade às possibilidades de trabalho nessa região da África. No lado africano, por sua vez, o momento era favorável aos retornados, já que o reino do Daomé,

GURAN, op.cit. pp 21 e seguintes. 8 VERGER, op.cit.; GURAN, op.cit.; COSTA E SILVA, A., 2004. Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos. Rio de Janeiro: EDUERJ-Editora Nova Fronteira; e LAW, op.cit. 9 Honoré Feliciano Juliao de Souza, falecido em dezembro de 2014, foi entronizado em 1996, encerrando um longo período de vacância marcado por importantes cerimônias nos Palácios Reais de Abomey. Seu período à frente da influente família De Souza, um dos mais longevos da dinastia, destacou-se pela retomada plena das tradições familiares, articulando os diversos ramos da família em prol dos interesses comuns, como bem expressa a criação da Fundação Francisco Felix de Souza, dedicada a fortalecer os laços familiares e as relações da família com a sociedade civil das Repúblicas do Benin e do Togo. 10 LIMA, Mônica, 2008. Entre margens : o retorno à África de libertos no Brasil, 1830-1870, Tese de Doutorado, Universidade Federal Fluminense; REIS, João José, 1987 [1986]. Rebelião escrava no Brasil – A história do levante dos malês (1985), São Paulo: Brasiliense; VERGER, 1968, op.cit 10

immédiate. Au Togo, de nos jours, les membres des colonies libanaise, syrienne et indienne3, et au Nigéria qui s’installèrent au cours du siècle dernier, étaient aussi appelés Agoudas, cette désignation incluait en général les catholiques4 et plusieurs familles d’autres nationalités, y compris française, qui vivaient également dans les parages au XIXème siècle, à l’époque où l’influence des Agoudas5 était plus significative. L’origine du mot agouda a suscité des controverses, mais il est fort probable qu’il s’agisse d’une transformation du mot «aide», bien connu dans la région pour avoir été, jusqu’au XIXème siècle, le nom portugais le plus courant désignant la ville portugaise de Ouidah et où se situe le Fort portugais de São João Baptista de Ouidah. Construit entre le XVIIème siècle au XVIIIème, le fort a été transformé en Musée d’Histoire. Celui-ci a été érigé grâce à l’initiative des commerçants bahianais qui fournissaient la garnison et payaient les coûts d’entretien. Le monument a été rattaché administrativement au vice-roi du Brésil jusqu’en 1822, année 3

où il a été placé sous la responsabilité administrative du gouverneur des îles de Saint Thomas et Prince.6 Parmi les premiers Agoudas — commerçants brésiliens et portugais établis à Ouidah — la figure la plus emblématique de cette période est sans aucun doute le futur Chacha Francisco Félix de Souza qui s’est installé dans la région pour travailler au Fort Portugais, avant de se dédier à la traite. Il était probablement un marchand d’esclaves puissant lorsqu’il s’est associé au Prince Gapké pour renverser son frère du trône de Dahomey, le redoutable roi Adandozan. Francisco Félix de Souza est devenu alors le frère de sang du futur roi qui monta sur le trône en 1818 sous le nom de Guézo. De Souza est devenu vice-roi du Dahomey, avec le titre de Chacha, et a conquis le monopole du commerce extérieur du royaume, ce qui lui a permis à l’époque, d’accumuler une grande richesse7. Sa descendance est l’une familles africaines les plus élargies, présente dans de nombreux pays du continent.8 Actuellement, la famille est dirigée par Honoré Feliciano Julião de Souza, le Chacha VIII.9

Le premier président du Togo, Sylvanus Olympio, proclamé «Père de l’Indépendance», était un Agouda, évincé du pouvoir et tué le 13 Janvier 1963. Les

Agoudas, malgré leur solide insertion dans la société, sont souvent perçus comme «étrangers», ce qui est renforcé par son association avec d’autres groupes sociaux qui sont effectivement immigrants de diverses sources culturelles. 4

CUNHA, M., op.cit. p.189

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Un des cas les plus marquants est de la famille Oliveira/Olivier, descendants de Olivier de Montalguère, qui fut commandant du fort français de Ouidah

au XVIII ème siècle (GURAN, OP. CIT. P.17) 6

MATTOSO, K. 1990 [1982]. Ser escravo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, p.34; VERGER, P., 1968, op.cit. pp140-1.

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GURAN, op.cit. pp 21 et pages suivantes.

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VERGER, op.cit.; GURAN, op.cit.; COSTA E SILVA, A., 2004. Francisco Félix de Souza, Mercador de Escravos. Rio de Janeiro: EDUERJ-Editora Nova

Fronteira; e LAW, op.cit. 9

Honoré Feliciano Juliao de Souza, décédé en novembre 2014, a assumé le trône en 1996, mettant ainsi fin à une longue période sans rois. Le début de cette prise

de pouvoir sera marqué par d’importantes cérimonies qui ont eu lieu aux Palais royaux d’Abomey. Au cours de son règne (un des plus longs de toute la dynastie) à la tête de la très influente famille de Souza, il s’est distingué par la reprise de traditions familiales, par une politique d’approximation entre membres et groupes de la famille pour le bien des intérêts communs. La création de la fondation Francisco Felix de Souza symbolise ce moment politique et vise à renforcer les liens familiaux et les relations de la famille avec la société civile béninoise et togolaise. 11


principal potência da região, via agravar-se a crise com a proibição do tráfico de escravos, sua principal fonte de renda. Os ingleses, instalados em Lagos, na vizinha Nigéria, asfixiavam o tráfico com a apreensão cada vez mais frequente de navios negreiros, ao mesmo tempo em que o Império brasileiro, também pressionado pelos ingleses, avançava no sentido da proibição total do tráfico atlântico, o que aconteceu em 1852, com a Lei Eusébio de Queirós11. No entanto, essa região da África contava com um produto bastante valorizado pela economia europeia em pleno processo de industrialização: o óleo de palma, conhecido no Brasil como azeite de dendê, um poderoso lubrificante vegetal. Para responder à demanda, o reino do Daomé precisava, sobretudo, de mão-de-obra capaz de assegurar a produção e comercialização do produto, ou seja, de pessoal com domínio dos códigos ocidentais de trocas econômicas, a começar pela língua12. Estavam aí criadas as condições objetivas para a absorção dos africanos de retorno do Brasil. Esses libertos de retorno, apesar de não serem tão numerosos, faziam a diferença pelos atributos de sua experiência pregressa. Eram africanos que, tendo sofrido longo período de escravidão, souberam se sobrepor a todas as adversidades para comprar sua liberdade e

acumular capital suficiente para financiar a viagem de volta e a implantação de algum tipo de negócio. Eram mestres de obras, pedreiros, carpinteiros, marceneiros, alfaiates, alguns tinham trabalhado como capatazes ou gestores de pequenos negócios, na sua maioria alfabetizados e com pleno domínio dos códigos da cultura ocidental. No entanto, ao voltarem para a sociedade de origem, os africanos de retorno encontraram dificuldades a sua inserção na estrutura social local, que resistia em assimilar aqueles que haviam passado pelo processo de desterramento associado à escravidão. Foi nesse momento que os retornados lançaram mão da experiência do tempo vivido na escravidão para construir uma nova identidade social, que os colocava juntos com os primeiros agudás. Sabemos que a identidade social se constrói por oposição ao outro, de forma permanente e até cumulativa13, e estrutura-se, principalmente, a partir da origem, da língua e da maneira de se compreender o mundo. Assim sendo, os retornados alegavam não serem mais os mesmos africanos que eram quando foram escravizados, que “nasceram de novo” no Brasil, que falavam português e que eram católicos ou muçulmanos. Dessa forma, habilitavam-se a fazer parte dos agudás, mas, por serem também africanos, eram diferenciados pelos demais africanos como “aqueles que têm maneiras de branco”.

11 Essa situação ficou absolutamente crítica com a entrada em vigor do Slave Trade Suppression Act ou Aberdeen Act, como ficou conhecida no Brasil a lei, promulgada em 8 de agosto de 1845, que autorizava a marinha britânica a atacar e apreender embarcações suspeitas de tráfico de escravos para o Brasil, legalizando assim, aos seus olhos, uma prática de décadas. 12 A primeira escola formal da região foi instalada em Uidá pela Missão Católica de Lyon, em 1862, mas ensinava em português, já que era voltada exclusivamente para os agudás, visto que os súditos do Daomé eram formalmente proibidos de frequentá-la (GURAN, OP.CIT. P17 13 BARTH, Fredrick, 1995 [1996]. “Les groupes ethniques et leurs frontières”, in: Poutignat & Streiff-Fenart, Théories de l’éthnicité, Paris: PUF; CUNHA, M., op.cit.

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Malgré l’absence de pouvoir politique formel, le Chacha VIII conserve un certain pouvoir à Ouidah —c’est lui qui intronise les chefs des familles locales — et occupe une position de premier plan dans la société béninoise actuelle. De plus, la présence de plusieurs membres de la famille De Souza dans la vie politique et sociale du Bénin confirme l’importance acquise par le passé. Mgr Isidore de Souza, alors évêque de Cotonou, fut celui qui a dirigé la Conférence nationale des Forces Vives de la Nation, étant responsable de la transition politique du régime marxiste à la démocratie. Certains chefs d’Etat Béninois, comme le général Mathieu Kérékou, président du pays pendant 29 ans, et le président Thomas Boni Yayi, élu en 2006 et réélu en 2012, sont mariés à des Agoudas de la famille De Souza. Par ailleurs, l’ancien président Nicéphore Soglo, successeur de Kérékou et actuel maire de Cotonou, a épousé une Agouda de la famille Vyeira. Comme nous l’avons vu, les Agoudas étaient déjà présents dès la fin du XVIIIème siècle, mais c’est au milieu du XIXème siècle qu’ils connurent une plus grande densité démographique, avec le retour expressif d’anciens Africains dans la région dû principalement à la répression qui eut lieu juste après la révolte des Malês en 1835 à Bahia.10 À une époque où le marché bahianais se fermait de plus en plus aux

Africains affranchis qui, outre le fait qu’ils étaient victimes du stigmate de la révolte, subissaient la concurrence d’une nouvelle vague d’immigrés portugais, la répression a eu un effet important dans le processus de retour, car elle a provoqué la déportation de beaucoup d’Africains sur la Côte des Esclaves, donnant visibilité aux possibilités de travailler dans cette région d’Afrique. Du côté africain, le moment était favorable aux «rapatriés », car le royaume du Dahomey, la principale puissance de la région, voyait la crise s’aggraver avec l’interdiction de la traite des esclaves, sa principale source de revenus. Les Anglais, installés à Lagos, au Nigéria voisin, asfixiaient la traite arrêtant chaque fois plus de navires négriers, alors que l’Empire du Brésil, vivant également des pressions de la part des Anglais, était en train de se décider à adopter une prohibition totale de la traite transatlantique des esclaves, ce qui concrétisa en 1852, avec la loi Eusebio de Queiroz.11 Cependant, cette région de l’Afrique possédait un autre produit de grande valeur pour l’économie européenne en plein processus d’industrialisation à cette époque: l’huile de palme, connue au Brésil sous le nom dendê, un puissant lubrifiquant végétal. Pour répondre à la demande, le royaume du Dahomey avait surtout besoin de main d’oeuvre capable d’assurer la

10 LIMA, Mônica, 2008. Entre margens : o retorno à África de libertos no Brasil, 1830-1870, Thèse de Doctorat, Université Fédérale Fluminensee; REIS, João José, 1987 [1986]. Rebelião escrava no Brasil – A história do levante dos malês (1985), São Paulo: Brasiliense; VERGER, 1968, op.cit. 11 Cette situation est devenue critique avec l’entrée en vigueur du Slave Trade Suppression Act ou Aberdeen Act, loi connue sous ce nom au Brésil, promulguée le 08 août 1845, qui autorisait la marine britannique à attaquer les embarcations soupçonnées de participer à la traite en direction du Brésil, légalisant ainsi une pratique de plusieurs décennies.

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A cultura agudá no Benin Essas ditas maneiras de branco eram, na verdade, a face mais visível da cultura de matriz europeia que iria, ao longo do século XX, impor-se ao continente africano. Os retornados, que passaram a constituir a maioria dos agudás, tinham assimilado os códigos dessa cultura no Brasil e, apesar da vivência popular, tinham como modelo as elites baianas da época. Isso se traduz não só na forma de vestir-se, mas também de morar, de comportar-se em público, na culinária, na religião e, naturalmente, na forma de pensar e de perceber o mundo. Além de africanos, os agudás eram também “brasileiros”, ou seja, estavam inscritos na cultura ocidental, que se tornaria dominante na África a partir do final dos Oitocentos. Um dos principais marcadores de identidade a garantir a coesão social dos agudás foi o uso da língua portuguesa, tão importante para o comércio internacional da época e corrente em toda aquela costa até a implantação do sistema colonial francês, no final do século XIX, como registrou Elisée Reclus na sua Géographie Universale (1887), citado por Verger14. Desde então, o uso da língua portuguesa, que fora até ensinada por religiosos franceses, como vimos, passou a ser proibido. No entanto, muitas palavras de origem portuguesa entraram para as línguas locais, notada-

mente aquelas que designam móveis e utensílios domésticos (como garfo e saia, que em fom se diz garfou e saia, por exemplo) ou ligados ao culto católico (em fom, Natal é Natà e confissão é konfesáùn, por exemplo), ou seja, expressões que remetem diretamente à cultura europeia que tinha chegado principalmente por intermédio dos agudás, mas que começava a se impor pela colonização francesa15. Entre os agudás, até hoje são utilizadas palavras e expressões em português, como um marcador de identidade. A mais comum delas é o cumprimento “Bom dia, como passou?”, que tem como resposta “Bem, ‘brigado.”16 Também se canta em português no folguedo da Burrinha, muito popular no sul do Benin, apresentado principalmente por ocasião da celebração do dia de Nosso Senhor do Bonfim, realizado em janeiro, como na Bahia. Essa celebração, que ocorre ainda hoje nas cidades de Porto Novo e Uidá, é o grande momento de encenação pública da identidade agudá. Na saída da missa solene dedicada a N. S. do Bonfim, em Porto Novo, os agudás promovem um desfile pela cidade portando bandeiras brasileiras e cantando em português velhas canções que remontam à vivência experimentada no Brasil.17 Outro grande marcador de identidade agudá é a culinária, um fazer social de suma importância

production et la commercialisation du produit, c’est à dire, d’un personnel qui dominait les codes occidentaux d’échanges économiques, à commencer par la langue.12 Les conditions objectives permettant l’intégration des Africains de retour du Brésil étaient ainsi réunies. Ces affranchis de retour, bien que n’étant pas si nombreux, faisaient la différence grâce aux attributs acquis au cours de leur expérience passée. Ils étaient des Africains qui, après avoir subi longue période d’esclavage, avaient su résister à toutes les adversités pour acheter leur liberté et accumuler un capital suffisant pour financer le voyage de retour et démarrer un commerce quelconque. Ils étaient maîtres d’oeuvres, maçons, charpentiers, menuisiers, tailleurs, et certains avaient déjà travaillé comme contremaîtres ou gérants de petits commerces, la majorité était alphabétisée et dominait les codes de la culture occidentale. Cependant, lorsqu’ils revinrent dans leur société d’origine, ces Africains eurent des difficultés à s’intégrer dans la structure sociale locale, qui était réticente à assimiler ceux qui étaient passé par un processus de «déterrement» associé à l’esclavage. C’est à cette époque qu’ils ont utilisé l’expérience du temps vécu et lié à l’expérience de l’esclavage pour construire une nouvelle identité sociale, qui leur permettaient d’être associés aux premiers Agoudas. Nous

Célébration N.S. Bonfim, 2010, Porto Novo savons que l’identité sociale est construite en opposition à l’autre, de façon permanente, voire cumulative13 et se constitue essentiellement à partir de l’origine, de la langue et de la façon de comprendre le monde. Ainsi, les affranchis affirmaient qu’ils étaient différents des Africains qui avaient été réduits en esclavage, qu’ils étaient «nés de nouveau» au Brésil, qu’ils parlaient portugais et étaient catholiques ou musulmans.

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1953, op.cit. Cf. RASSINOUX, Jean, 1987. Dictionnaire Français-Fon, Saint-Etienne (Fr.): Imprimerie Dumas; e SEGOUROLA, R. P. B., 1968 [1963]. Dictionnaire Fon-Français (2 vol.), Cotonou. Ver também BRAGA, J. S., op.cit; e CASTRO, Y. P. op.cit. 16 A persistência da utilização de palavras e expressões em português pelos agudás do Benin e do Togo é objeto de uma pesquisa intitulada “Falares Luso-Brasileiros no Benin e no Togo”, no âmbito do citado projeto. Sons e imagens da rememoração: narrativas e registros das identidades e alteridades afro-brasileira nos séculos XIX e XX. 17 Uma etnografia mais completa dessas celebrações encontra-se em Guran, 2000, op.cit. 15

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La première école formelle de la région fut installée à Ouidah par la Mission Catholique de Lyon en 1862, et les enseignements étaient dispensés en portugais étant donné que l’école était réservée aux Agoudas. Rappelons que l’accès à l’école était formellement interdit aux sujets du royaume du Dahomey. (GURAN, OP.CIT. P17). 13 BARTH, Fredrick, 1995 [1996]. “Les groupes ethniques et leurs frontières”, in: Poutignat & Streiff-Fenart, Théories de l’éthnicité, Paris: PUF; CUNHA, M., op.cit. 15


em qualquer cultura, mas particularmente marcante dentre os povos da região. A contribuição mais importante aportada pelos agudás foi a difusão da cultura de mandioca e do milho, que hoje está na base da alimentação não só dos povos da região como de toda a África subsaariana. Outras plantas e legumes que encontramos no Brasil, embora nem sempre sejam dali originárias, como o sapoti, a goiaba, o abacaxi e o caju, foram levadas para a região pelos primeiros navegadores portugueses e pelos agudás.18 Dentre os pratos mais consumidos, estão a feijoada, feita com algumas adaptações, o cozido e a moqueca, esses dois exatamente iguais aos originais. Também é muito usado na cozinha beninense em geral o molho de tomate e cebola, que, por sinal, é conhecido nas línguas locais como “môio”. No que toca à sobremesa, é muito comum um doce feito de mamão verde, sintomaticamente chamado “dossi”. Outros ítens que entraram para a cultura local e são vendidos nas ruas de Cotonou é a chamada “concadá”, na sua versão original e sob a forma do nosso pé-de- moleque, e a tapioca.19 Pode-se dizer que os agudás estão na origem da introdução da cultura ocidental na Costa dos Escravos. A primeira igreja, por exemplo, foi construída por um retornado, Joaquim d’Almeida, dito Joqui, que é considerado também o introdutor do cultivo da

mandioca na região do atual Togo20. E foi também pelas mãos dos agudás, principalmente dos retornados, que a região conheceu construções de alvenaria, sendo que a primeira construção de sobrado teria sido a residência do Chachá I, chamada justamente de Singbomey, porque “singbo” quer dizer sobrado. Na mesma ocasião, ele mandou construir outro sobrado na entrada do palácio do Rei Guêzo, em Abomé, que foi chamado de Singboji e existe até hoje. O trabalho dos marceneiros foi, como o dos pedreiros, um terreno exclusivo dos antigos escravos retornados, marcados pela técnica e pelo estilo aprendidos no Brasil, o que se pode verificar pelas poucas peças que chegaram até os nossos dias. As cidades de Uidá, Porto Novo, Aguê, Grande Popo, Abomé-Calavi e mesmo Cotonou, todas no litoral sul do Benin, ostentam belos edifícios comerciais e residenciais em estilo dito afrobrasileiro que datam da segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Na cidade de Aguê, que foi um forte reduto agudá no século XIX, encontra-se um cemitério onde praticamente todas as lápides ostentam nomes de origem portuguesa. Lá estão sepultados eminentes agudás, como Francisco José de Medeiros e o referido Sylvanus Olympio e esposa. Este legado arquitetônico dos primeiros agudás foi objeto de um projeto da Agência Brasileira de

Ainsi, ils étaient autorisés à faire partie des Agoudas, mais puisqu’ils étaient aussi Africains, ils étaient perçus par les autres locaux de la région comme «ceux qui avaient des manières de blancs».

La culture agouda au Bénin Ces “manières de blanc”, pour ainsi dire, constituaient en réalité l’aspect le plus visible de la culture de matrice européenne qui allait, au cours du XXème siècle, s’imposer au continent africain. Les affranchis — devenus majoritaires parmi les Agoudas — avaient assimilé les codes de cette culture au Brésil et, en dépit de l’expérience populaire, avaient pour modèle les élites bahiannaises de l’époque. Cela s’est donc traduit non seulement par la manière de s’habiller, mais aussi de vivre, de se comporter en public, par l’alimentation et la cuisine, la religion et, bien entendu, la manière de penser et de percevoir le monde. Outre les Africains, les Agoudas étaient également «Brésiliens», c’est à dire, inscrits dans la culture occidentale qui allait devenir dominante dans les centre urbains africains vers la fin du XVIII ème siècle. L’un des principaux indicateurs de l’identité qui assure la cohésion sociale des Agoudas a été l’utilisation de la langue portugaise, si importante pour le commerce

international de l’époque et langue courante sur toute la côte jusqu’au moment de l’implantation du système colonial français à la fin du XIXème siècle, comme le note Elisée Reclus dans sa Géographie Universale (1887), cité par Verger14. Depuis lors, l’utilisation de la langue portugaise, enseignée par les religieux français comme nous l’avons vu, a été interdite. Cependant, de nombreux mots d’origine portugaise ont été introduits dans les langues locales, en particulier ceux qui désignent des meubles et des articles ménagers (tels que garfo (fourchette en portugais) qui devient « garfou » en fon, langue parlée au sud du Bénin et saia (jupe) qui se prononce « saia » en fon) ou relié au culte catholique (Natal (Noël) devient Natà en fon et confissão (confession) se dit konfesáùn). Il s’agit de mots ou expressions qui se réfèrent directement à la culture européenne importée par les Agoudas, mais qui ont commencé à s’imposer lors de la colonisation française.15 Parmi les Agoudas, certains mots et expressions en portugais sont utilisés encore de nos jours, comme éléments identitaires. L’expression la plus courante est la salutation: «Bonjour, comment vas-tu?» et la réponse est: «bien, merci».16 Lors de la fête de l’anêsse17, fête très populaire dans le sud du Bénin, les participants chantent en portugais. Cette fête est célébrée principalement lors de la Journée de Notre Seigneur de Bonfim qui a lieu au mois de jan-

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1953, op.cit. Cf. RASSINOUX, Jean, 1987. Dictionnaire Français-Fon, Saint-Etienne (Fr.): Imprimerie Dumas; e SEGOUROLA, R. P. B., 1968 [1963]. Dictionnaire Fon-Français (2 vol.), Cotonou. Consulter également BRAGA, J. S., op.cit; e CASTRO, Y. P. op.cit. 16 La persistance de l’utilisation de mots et expressions en portugais par les Agoudas du Bénin et du Togo est l’objet d’une recherche intitulée “parlers Luso-Brésiliens au Bénin et au Togo” dans le cadre du projet mentionné antérieurement Sons e imagens da rememoração: narrativas e registros das identidades e alteridades afro-brasileira nos séculos XIX e XX. 17 Traduction littérale do folguedo (brésilien) da Burrinha. 15

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COSTA E SILVA, 1989 a; e RODRIGUES, op.cit.. Esses e outros pratos estão descritos, com as suas respectivas receitas, no manuscrito de Alexandre de Medeiros (op.cit.) e em SANVI, Anne-Marie Clementine, 1977. Les métis et les Brésiliens dans la colonie du Dahomey 1880-1920, dissertação de Mestrado em História, Université Nationale du Bénin, Cotonou. 20 GURAN, op.cit. pp 85-7; VERGER, 1002, op.cit. 19

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técnica sob a responsabilidade, pelo lado brasileiro, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Fortaleza e do Instituto Federal de Minas Gerais, e da Casa de Patrimônio de Porto Novo, pelo lado beninense, projeto ofereceu curso de capacitação para técnicos do Benim, compartilhando conhecimentos, experiências e melhores práticas na restauração e conservação do patrimônio praticadas no Brasil, França e Benim. As últimas atividades de capacitação ocorreram de setembro a dezembro de 2014.

Villa Ajavon, atual museu da Fondation Zinsou em Uidá

Cooperação do Ministério das Relações Exteriores do Brasil intitulado “Centro de formação em artes e ofícios do patrimônio (apoio a qualificação e requalificação técnica e profissional no Benin nas áreas de restauração e conservação do patrimônio histórico e cultural de Porto Novo”, implementado a partir de dezembro de 2011. Seu objetivo, como o título indica, era “apoiar na promoção da valorização , divulgação e reconstrução do conjunto histórico e cultural afro-brasileiro no Benin, por meio do incentivo à restauração de conservação de bens móveis e imóveis de Porto Novo, com objetivo de gerar empregos, renda e oportunidades econômicas.” Concebido inicialmente como um acordo trilateral que incluía também a França, o projeto foi desenvolvido com apoio financeiro da ABC e execução

Dentre os inúmeros exemplos de arquitetura de matriz afro-brasileira que vêm sendo recuperados no sul do Benin, merece destaque a requalificação da Villa Ajavon, em Ouidah. Construída em 1922, constitui-se em um dos mais sofisticados exemplos da arquitetura de estilo sincrético afro-brasileiro, testemunho eloquente das transformações urbanas, econômicas e sociais vividas pela cidade de Uidá após a abolição da escravatura. Cuidadosamente restaurada pela Fondation Zinsou, abriga, desde novembro de 2013, o Musée d’Ouidah, dedicado à arte contemporânea. Quando se muda radicalmente de cultura, muda-se necessariamente de casa. É natural, portanto, que os agudás, portadores que eram da cultura ocidental, tenham dado uma contribuição tão importante nesse período transformador da história dessa região da costa africana.

vier, comme à Bahia (Brésil). Cette célébration, qui se déroule dans les villes de Porto-Novo et Ouidah, est le grand moment de la mise en scène publique de l’identité agouda. A la sortie de la messe solenelle dédiée à N. S. De Bonfim à Porto-Novo, les Agoudas promouvoient un défilé à travers la ville en portant des drapeaux et en chantant en portugais de vieilles chansons datant du temps où ils vivaient au Brésil.18

dans divers langues locales sous le nom de «môio» étant très proche du mot portugais «molho» — et l’oignon. Quant au dessert, une sucrerie très courante faite à base de papaye verte, est appelé «dossi» («doce» en portugais). D’autres sucreries ont été incorporés à la culture locale et sont vendues dans les rues de Cotonou avec les noms suivants: «concadá» sous sa forme originale, «pé de moleque» et la «tapioca».20

Un autre grand indicateur de l’identité agouda est la question culinaire, un savoir-faire social d’importance capitale dans n’importe quelle culture, mais particulièrement frappant entre les peuples de la région. La contribution la plus importante des Agoudas a été la propagation du manioc et du maïs, qui est maintenant à la base de l’alimentation non seulement des peuples de la région comme de toute l’Afrique subsaharienne. D’autres plantes et légumes que nous trouvons au Brésil, bien qu’ils ne soient pas originaires du pays comme le sapoti, la goyave, l’ananas et la noix de cajou sont arrivés dans la région par le biais des premiers explorateurs portugais et par les Agoudas.19

On peut dire que les Agoudas sont à l’origine de l’introduction de la cultura occidentale sur la côte des Esclavres. La première église, par exemple, a été construite par un affranchi du nom de Joaquim d’Almeida, ou Joqui, qui est également considéré comme celui qui aurait introduit la culture du manioc dans la région du Togo actuel.21 C’est aussi avec les mains des Agoudas, principalement des «rapatriés», que la région a connu les bâtiments en ciment et la première construction à étage aurait été la résidence du Chacha I, appelée Singbomey parce que «Singbo» signifie maison à étage. Par la même occasion, il a ordonné la construction d’une maison à étage à l’entrée du palais roi Guézo à Abomey, qui a été appelée «place Singboji» et existe encore aujourd’hui. Le travail des charpentiers était, tout comme celui des maçons, un travail exclusif des anciens esclaves revenus du Brésil, marqué par la technique et le style appris dans ce pays, ce qui peut être constater par les quelques pièces qui nous sont parvenues.

Parmi les plats les plus consommés, on trouve la feijoada, avec quelques adaptations aux couleurs locales, le ragoût et la moqueca, ces deux derniers plats sont identiques à la version brésilienne. La cuisine béninoise utilise en général la sauce tomate — connue

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Une ethnographie plus complète de ces célébrations se trouve dans le livre de Guran, 2000, op.cit. COSTA E SILVA, 1989 a; e RODRIGUES, op.cit.. 20 Ces plats ainsi que d’autres sont décrits, avec leurs recettes respectives, dans le manuscrit d’Alexandre de Medeiros (op.cit.) et SANVI, Anne-Marie Clémentine, 1977. Les métis et les Brésiliens dans la colonie du Dahomey 1880-1920, thèse de Master II en histoire, Université Nationale du Bénin, Cotonou. 21 GURAN, op.cit. pp 85-7; VERGER, 1002, op.cit. 19

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Les villes de Ouidah, Porto-Novo, Agoué, Grand Popo, Abomey-Calavi et même Cotonou, toutes situées sur la côte sud du Bénin, offrent de manière ostentatoir de beaux bâtiments commerciaux et résidentiels du sytle appelé afro-brésilien qui datent de la seconde moitié du XIXème siècle et des premières décennies du XXème siècle. Dans la ville d’Agoué, autrefois lieu de rencontre des Agoudas au XIXème siècle, existe un cimetière où presque toutes les pierres tombales portent des noms d’origine portugaise. D’éminents Agoudas, comme Francisco José de Medeiros et Sylvanus Olympio, mentionné antérieurement, et son épouse.

Cemitério de Aguê / Cimitière de Agoué

L’héritage de l’architecture créée par les premiers agoudas a fait l’objet d’un projet de l’Agence Brésilienne de Coopération du Ministère des affaires étrangères intitulé “Centre de formation des arts et métiers du patrimoine (soutien et formation technique et professionnelle au Bénin dans les domaines de la restauration et de la préservation du patrimoine historique et culturel de Porto Novo», mis en œuvre en décembre 2011. Son but, comme le titre l’indique, était de “promouvoir la valorisation et la divulgation et la reconstruction de l’ensemble historique et culturel afro-brésilien au Bénin en encourageant la restauration et la conservation de biens mobiliers et immobiliers de Porto Novo, afin de générer des emplois, des revenus et des opportunités économiques». Initialement conçu comme un accord trilatéral qui comprenait également la France, le projet a été développé avec le soutien financier de l’ABC et la mise en œuvre technique a été garantie par la partie brésilienne, le Secrétariat de la Culture de la Mairie de Fortaleza (Brésil) et l’Institut fédéral de Minas Gerais (Brésil) et la maison du Patrimoine de Porto-Novo du

côté béninois. Le projet a également offert des cours de formation pour les techniciens du Bénin, partageant connaissances, des expériences et de meilleures pratiques en matière de restauration et de conservation du patrimoine pratiquée au Brésil, en France et au Bénin. Les dernières activités de formation ont eu lieu de Septembre à Décembre 2014. Parmi les nombreux exemples de l’architecture afro-btésilienne qui est progressivement redécouverte dans le sud du Bénin, la Villa Ajavon à Ouidah est un de ses éléments les plus emblématiues. Construite en 1922, elle constitue l’un des exemples les plus sophistiqués de l’architecture afro-brésilienne de style syncrétique, un témoignage éloquent des changements urbains, économiques et sociaux vécus par la ville de Ouidah après l’abolition de l’esclavage. La villa, restaurée avec soins par la Fondation Zinsou, est devenu – depuis Novembre 2013 – le Musée de Ouidah dédié à l’art contemporain. Lorsque l’on change radicalement de cultura, on change aussi de maison. Il est donc naturel que les Agoudas, porteurs de la culture occidentale, aient contribué de manière si importante, lors de cette période transformatrice, à l’histoire de cette région de la côte africaine.


Modernidade ao sul – arquitetura nos fluxos entre África e Brasil

Modernité au sud – architecture des flux entre l’Afrique et le Brésil

Roberto Conduru Entre o início do século XIX e meados do XX, na costa do golfo do Benin, um conjunto de edifícios foi construído por mercadores de escravos de origem brasileira que comercializavam cativos a partir daquela região africana e por ex-escravos que retornaram do Brasil para lá, fosse porque, tendo participado da rebelião dos escravos de religião islâmica, acontecida em Salvador, na Bahia, em 1835, foram capturados e enviados de volta à África, fosse porque decidiram voltar àquele continente após a conquista da liberdade, processo transcorrido ao longo do século XIX, culminando em 1889, com o fim da escravidão no Brasil. Relacionados entre si, mercadores de escravos, ex-escravos, seus descendentes e agregados produziram uma arquitetura que remete ao Brasil, especialmente à Bahia, no nordeste da América do Sul, pois tem como referências tanto os solares rurais quanto os palacetes urbanos constituintes da cultura gerada na economia do açúcar.

veniências, entre os séculos XVI e XIX, na economia do açúcar, soma-se a outras manifestações artísticas e culturais do Brasil que alcançaram ressonância internacional: a arte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, a arquitetura moderna brasileira, o paisagismo de Roberto Burle Marx, Carmen Miranda, a Bossa Nova, o Cinema Novo, o Neoconcretismo, o Tropicalismo, a arte e o design contemporâneos.

Essa arquitetura, entretanto, teve e continua tendo, no contexto sociocultural do golfo do Benin, quase sempre uma recepção crítica silenciosa, apesar dos significados que ela tinha para seus criadores e usuários. Trata-se der caso raro de presença na África de práticas artísticas e culturais provenientes do Brasil, quando é mais usual encontrar o oposto: práticas culturais e artísticas no Brasil que são originárias da África. Assim, essa arquitetura é um dos casos excepcionais de desdobramento da arte feita no Brasil em contextos estrangeiros.

A arquitetura construída no Brasil como parte da economia do açúcar adaptou referências europeias e de outras regiões ocupadas por portugueses e outros colonizadores europeus (franceses, holandeses e ingleses) às condições locais (clima, materiais, modos de construção, mão-de-obra), variando ao longo do tempo (dos séculos XVI ao XIX) e do espaço (nordeste e sudeste, especialmente na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro). De modo semelhante, não se observa no golfo do Benin a reprodução imediata da arquitetura dos solares açucareiros do Brasil. Também nessa região houve adaptações de referências diversas às condições de possibilidade específicas de cada situação, gerando uma arquitetura

Com efeito, a arquitetura produzida no Brasil por portugueses, africanos, nativos e agentes de outras pro22

Roberto Conduru

Há, entretanto, uma diferença. As realizações artísticas do Brasil no século XX encontraram receptividade no norte, nos Estados Unidos e na Europa, quase simultânea ao momento de sua produção. Também a arquitetura produzida na economia do açúcar no Brasil teve desdobramentos a seu tempo, mas ao sul. Apenas na segunda metade do século XX os diálogos mantidos entre África e Brasil passaram a ser parcialmente referendados no norte.

Lomé Entre le début XIX et la moitié du XXème siècle, sur la côte du golfe du Bénin, un ensemble d’édifices fut construit par les marchands d’esclaves d’origine brésilienne, qui vendaient des captifs de cette région de l’Afrique et par des anciens esclaves revenus du Brésil, soit parce qu’ils avaient participé de la rébellion des esclaves de religion islamique qui eut lieu à Salvador de Bahia en 1835, ont été capturés et renvoyés en Afrique, soit parce qu’ils avaient décidé de repartir sur ce continent après la conquête de leur liberté, proces1

sus qui s’est déroulé tout au long du XIXème siècle, culminant en 1889 avec la fin de l’esclavage au Brésil. Ces marchands d’esclaves, les anciens esclaves, leurs descendants et agrégats familiaux, se sont rencontrés et ont produit une architecture qui rappelle le Brésil, et plus particulièrement Bahia, située dans le nord-estde l’Amérique du Sud, ayant pour référence aussi bien les solares1 ruraux que les petits palais urbains, éléments constitutifs de la culture générée para l’économie sucrière.

Les solares sont de nobles habitations ou résidences de luxe. 23


variada, com diferenças observáveis ao longo do tempo – por mais de um século a partir do final da segunda década dos oitocentos – e do espaço – na região hoje abrangida por Nigéria, Benin e Togo. Além de princípios e formas dos edifícios e espaços que vivenciaram no Brasil, mercadores de escravos e ex-escravos difundiram naquela região da África inovações tecnológicas, arquitetônicas e decorativas. De início, essa arquitetura foi feita de terra. Evitaram as paliçadas, que eram e ainda são encontráveis na região. Privilegiaram o uso do adobe, agregando às tradições locais novos elementos, como os do mar, que atribuíam mais rigidez e resistência à massa portante. A conjugação do adobe à madeira, em barrotes, permitiu a constituição de pisos acima do solo, a configuração de edifícios assobradados. Mais adiante, a terra foi usada para produzir outros componentes da construção, sendo instaurados processos de fabricação de tijolos e telhas. Elementos arquitetônicos como colunas, pilares, arquitraves, tríglifos, métopas, cornijas, cimalhas, frontões e balaustradas tanto foram modelados diretamente a partir dos muros, quanto fabricados para serem aplicados ou justapostos à construção. Também foram feitos ornamentos em massa aplicados às fachadas e a algumas paredes e elementos internos, que algumas vezes eram complementados por pinturas ornamentais. Nesse processo de coexistência de diferentes sistemas e técnicas de construção, mais adiante, no século XX, o ferro e o concreto armado passaram a ser usados em elementos de sustentação de edifícios.

Em termos funcionais, um programa edilício se destaca, parecendo ser único: a residência unifamiliar. Contudo, há exceções a justificar essa regra. Há as mesquitas de Lagos, na Nigéria, de Porto Novo, no Benin, e de Lomé, no Togo; com exceção desta última, as demais foram construídas de acordo com a tipologia de fachadas de igrejas católicas construídas no nordeste brasileiro. Há o “templo de Orixá/Vodun” fotografado por Pierre Verger em Badagry, na Nigéria.1 Há tumbas funerárias, algumas bem simples, outras bastante elaboradas em termos ornamentais. E houve o coreto construído em 1934 na Praça de Festas (depois renomeada como Freure Jardin), em Lomé, o qual, infelizmente, foi demolido em 2009. De caráter austero, as primeiras casas lembram as residências senhoriais constituintes da economia do açúcar, tendo plantas baixas e volumes com formas regulares (geradas a partir do quadrado e de retângulos) e fachadas compostas por arcadas, molduras de vãos e outros elementos em linguagem greco-romana, às vezes usados em profusão. Com a passagem do tempo, os construtores incorporaram outras referências, acompanhando as mudanças então processadas na arquitetura. As alusões ao universo rural brasileiro foram desaparecendo. O que evidencia ainda mais o fato de que a arquitetura praticada no Brasil não era a única referência para esses construtores. Surgiram outras volumetrias, um pouco mais variadas, menos monolíticas, compostas pela articulação de espaços derivados do quadrado, círculo, retângulos e outros polígonos. A remissão à cultura greco-romana se manteve nos elementos arquitetô-

1 VERGER, Pierre. “Ensaio fotográfico”. In: CUNHA, Marianno Carneiro da. Da senzala ao sobrado : arquitetura brasileira na Nigéria e na República Popular do Benim. São Paulo: Nobel; Edusp, 1985, p. 124.

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Toutefois, cette architecture a presque toujours reçu, et reçoit encore, dans le contexte culturel du golfe du Bénin, un accueil critique silencieux, malgré les sens qu’elle revêtait pour ses créateurs et utilisateurs. Il s’agit d’un cas rare en Afrique de pratiques artistiques et culturelles en provenance du Brésil, lorsqu’il est plus commun d’observer le contraire: des pratiques culturelles et artistiques au Brésil qui sont originaires d’ Afrique. Ainsi, cette architecture est l’une des exceptions témoignant du déploiement d’un art brésilien produit dans un contexte étranger. En effet, l’architecture produit au Brésil par les portugais, africains, natifs et agents d’autres origines au cours des XVIème et XIXème siècles, pendant la période de l’économie sucrière, est à inclure dans ensemble de manifestations artistiques et culturelles du Brésil qui ont acquis une renommée internationale : l’art d’Antônio Francisco Lisboa, surnommé l’Aleijadinho, l’architecture moderne brésilienne, le paysagisme de Roberto Burle Marx, Carmen Miranda, la Bossa Nova, le Cinema Novo, le néo-concrétisme, le tropicalisme, l’art contemporain et le design. Toutefois, il existe une différence. Les réalisations artistiques brésiliennes du XXe siècle ont été bien acceptés au Nord, aux États-Unis et en Europe, presque simultanément au moment de leur production. C’est également le cas de l’architecture, lors de la période de l’économie sucrière au Brésil, qui a connu un certain déployement dans le sud au cours de sa production. Cependant, c’est seulement lors de la seconde moitié du XXème siècle que les dialogues maintenus entre l’Afrique et le Brésil sont partiellement devenus des références en Europe et aux États-Unis. L’architecture construite au Brésil, faisant partie de l’économie sucrière, a adapté certaines références

européennes et d’autres régions occupées par les portugais et autres colonisateurs européens (français, néerlandais et anglais) aux conditions locales (climat, matériaux utilisés, méthodes de construction, main d’oeuvre) variant au long du temps (du XVIème au XIXème siècles) et de l’espace (nord-est et sud-est, en particulier à Bahia, Pernambuco et Rio de Janeiro). Tout comme l’on ne rencontre pas dans le golfe du Bénin, une reproduction instantanée de l’architecture des solares sucriers du Brésil. Il y existait également dans cette région, plusieurs adaptations de références diverses réalisées en fonction des conditions de possibilité spécifiques de chaque situation, générant une architecture variée, avec des différences observables dans le temps-pendant plus d’un siècle, à partir de la fin de la deuxième décennie de 1800 – et l’espace – dans l’actuelle région occupée par le Nigéria, le Bénin et le Togo. Des éléments architecturaux tels que des colonnes, piliers, architraves, triglyphes, métopes, corniches, frontons et balustrade sont été aussi bien modelés directement sur les murs lorsqu’ils étaient fabriqués ou apposés à la construction. De nombreux ornement sont été fixés sur les façades et sur quelques murs et composants internes, parfois accompagnés de peintures ornementales. Dans cette dynamique de coexistence de différents systèmes et techniques de construction, au cours du XXème siècle, le fer et le bétonarmé ont fini par être utilisé comme éléments de soutien aux bâtiments. Au niveau fonctionnel, un programme de construction d’un bâtiment horizontaux et vertical joue un rôle majeur et semble être unique: la résidence unifamiliale. Toutefois, l’on rencontre des exceptions pour justifier cette règle. On rencontre les mosquées de 25


nicos e decorativos, permitindo perceber a tentativa de acompanhamento da variações da linguagem clássica no âmbito da arquitetura historicista acadêmica. Acompanhamento feito na medida das possibilidades de um contexto profissional distante e vinculado indiretamente aos centros de irradiação de princípios e modelos. Uma dinâmica que conecta essa arquitetura ao modernismo oitocentista e à dita Belle Époque. Além de construções e espaços inusitados, é outro modo de viver cotidianamente que está pressuposto nessas casas, para as quais eram fabricados conjuntos de móveis para salas de estar, salas de jantar e dormitórios, seguindo padrões europeus de elegância. Essa arquitetura era composta de elementos fabricados na África ou importados. Para a fabricação, além dos construtores, pedreiros e carpinteiros treinados no Brasil durante a experiência no cativeiro, a mão de obra especializada contou com africanos que, algumas vezes, foram “enviados à Bahia como aprendizes”. Da mesma região brasileira, mas não apenas de lá, “provinham, igualmente, muitos itens de luxo”, tais como azulejos ornamentais, balcões em ferro forjado, janelas em vidro e objetos de faiança, entre outros elementos.2 Além dos móveis, são impressões fotográficas emolduradas e penduradas nas paredes os objetos que mais se destacam na composição interior dessas casas. Fotos de familiares, retratos individuais ou coletivos de antepassados, muitas vezes dos ex-escravos que retornaram, dos mercadores de escravos e de seus descendentes, sobretudo das lideranças familiares, na maioria das vezes

vestidos e representados à maneira ocidental, junto a espaços externos ou internos dos edifícios. O cultivo e o uso decorativo de plantas nos ambientes internos, nas balaustradas de varandas e nos guarda-corpos de escadas, bem como nos espaços livres no interior dos terrenos, configurando jardins privados, também sinaliza maneira de se relacionar com a natureza distinta da que era dominante naquele contexto social até então. Além dos edifícios, esse grupo social se diferenciava a partir das roupas que seus membros usavam, do que comiam, dos modos de interação pessoal e com o ambiente, e de suas crenças, pois parte deles também praticava o catolicismo.3 Além disto, esses agentes lá introduziram, desde a casa até outros espaços da cidade, novas condições de salubridade, com a difusão de elementos e práticas sanitaristas: dispositivos arquitetônicos para maior aeração e iluminação dos ambientes, bem como sistemas de esgoto de detritos e de sepultamento de corpos. Arquitetura, mobiliário, fotografia e jardins, indumentária, alimentação, crenças e comportamento, entre outros elementos e práticas, caracterizam um modo diferente de viver que se enlaçava ao modo de viver no Brasil à mesma época e, com o tempo, constituiu-se como uma tradição que ainda hoje é cultivada, podendo ser observada nos modos de ser e de habitar de determinados círculos sociais naquela região da África. Modo de viver que era especialmente atraente para pessoas ávidas de cultura material de cunho ocidental, contem-

Lagos au Nigéria, de Porto-Novo au Bénin et de Lomé au Togo; à l’exception de cette dernière, les autres ont été construites d’après la typologie existante de façades des églises catholiques érigées dans le nord du Brésil. Citons également le «temple del’Orisha/vaudou» photographié par PierreVerger à Badagry au Nigéria2 ou encore les tombes funéraires, certaines très simples et d’autres très élaborées en termes d’ornementation. Enfin, l’on peut citer le pavillon construit en 1934 sur la place des Fêtes (rebaptisée par la suite Freure Jardin) à Lomé qui a malheureusement été démolien 2009. De caractère austère, les premières maisons ressemblent plus aux manoirs seigneuriaux de l’économie sucrière avec des plans sans étage et des volumes aux formes régulières (créées à partir du carré et de rectangle), composés de façades sous forme d’arcades, de cadres et d’autres éléments en langage gréco-romaine, parfois utilisés à profusion. Avec le passage du temps, les constructeurs ont intégré d’autres références, accompagnant ainsi les changements qui eurent dans le domaine de l’architecture. Les allusions au monde rural brésilien ont disparu au fur et à mesure. Ce qui permet de souligner d’autant plus le fait que l’architecture pratiquée au Brésil n’était pas, pour ces maîtres du bâtiment, leur seule référence. D’autres volumétries sont apparues, davantage diversifiées, moins monolithiques, composées de l’articulation d’espaces dérivés du carré, du cercle, du rectangle et d’autres polygones. La référence à la culture gréco-romaine a persisté dans les éléments architecturaux et décoratifs, nous aidant à percevoir les tentatives sucessives des bâtisseurs d’ac-

compagner les variations du langage classique de l’architecture historiciste académique. Ils étaient au courant de ces changements, en fonction des possibilités offertes dans un milieu professionnel lointain et indirectement lié aux centres principaux d’irradiation de principes et de modèles. Une dynamique qui relie cette architecture au modernisme de 1800 et à la dénommé Belle Époque. Outre les bâtiments et les espaces inhabituels, c’est une autre façon de vivre au quotidien qui est sous-entendu dans ces maisons, pour lesquelle sont été fabriqués des ensembles de meubles pour salles de séjour, salles à manger et chambres à coucher, selon les normes européennes de l’élégance. Cette architecture était composée d’éléments fabriqués en Afrique ou importés. Pour la fabrication, outre les constructeurs, les maçons et les charpentiers formés au Brésil lors de leur expérience de captivité, la main-d’œuvre qualifiée incluait également des Africains qui avaient parfois été «envoyés à Bahia comme apprentis». En provenance de cette même région brésilienne, mais aussi d’ailleurs, « de nombreux articles de luxe ont été envoyés» tels que les carreaux à dessins incrustés, les balcons en fer forgé, fenêtres sous forme de vitrail et de la faïence, entre autres objets.3 Outre les meubles, ce sont les tirages photographiques encadrés et fixés aux murs qui se démarquent dans la composition intérieure de ces maisons. Ce sont des photos de famille, des portraits individuels ou col-

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CUNHA, Marianno Carneiro da. Op. cit., p. 77. 3 GURAN, Milton. Agudás: os “brasileiros” do Benim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 90-104. 26

VERGER, Pierre. “Ensaio fotográfico”. In: CUNHA, Marianno Carneiro da. Da senzala ao sobrado: arquitetura brasileira na Nigéria e na República Popular do Benim. São Paulo: Nobel; Edusp, 1985, p. 124. 3 CUNHA, Marianno Carneiro da. Op. cit., p. 77. 27


porânea, porém adaptável às tradições locais, e que também se tornou meio de investimento e de especulação para seus realizadores. Esses modos de construir, habitar e empreender determinaram localidades particularmente identificadas com o Brasil no território costeiro do golfo do Benin. Ambientes menos ou mais caracterizados por essas diferenças são encontráveis nos bairros chamados Adjido (uma contração de “Deus me ajudou”) existentes nas cidades de Aného, no Togo, Aguê e Uidá, no Benin, e Badagry, na Nigéria. Bairros identificados com os “brasileiros” são também o Bè, em Lomé, no Togo, o quarteirão Brasil, em Uidá, Fila e Avassa, em Porto Novo, no Benin, e o “Brazilian quarter” em Lagos, na Nigéria.4 Com presença clara e forte no espaço urbano, essa arquitetura funcionava como signo de modernidade em sentido amplo: formal, técnica, sociocultural. Mais do que um compromisso com determinadas formas e técnicas, havia um vínculo desses construtores e clientes com certa modernidade de cunho ocidental, fator que os distinguia localmente. Com certeza, como aconteceu com outras experiências arquitetônicas, essa é uma das que têm vários significados ao longo do tempo e do espaço. É também, entretanto, uma arquitetura que se transformou técnica e formalmente para preservar o valor de modernidade e continuar distinguindo seus construtores e usuários. A par de configurar os espaços pertinentes a certo modo de viver que eles apreciavam, e de garantir meios de subsistência e enriquecimento, essa arquitetura ajudava a distinguir aquele grupo de mercado-

res de escravos e de ex-escravos no contexto social. Além de indicar sua particularidade histórica, era indício de riqueza, assim como expressava saber, refinamento, civilização e modernidade. Ao contrastá-los com os demais grupos, seus espaços, modos de vida e ação, os auxiliava na conquista e na manutenção de prestígio social. Em Lomé, 2010, quando questionado sobre como seu avô concebia e construía os edifícios, Agostinho de Souza respondeu que ele não desenhava projetos em pranchas, pois os tirava da cabeça e os riscava diretamente no chão. O que faz pensar como os valores, ideias e formas levados da América à África pelos brasileiros estão relacionados aos conhecimentos levados da África à América pelos africanos na diáspora gerada pelo tráfico negreiro, entre os séculos XVI ao XIX. O percurso entre a cabeça e a terra também faz pensar nas relações entre mentalidade e território. Entre a cabeça e a terra há o corpo humano. Se a arquitetura pode ser vista, ao mesmo tempo, como um continente e uma metáfora do corpo humano, além de símbolo de identidade múltipla, pode-se dizer que, devido aos fluxos, refluxos e repuxos da diáspora africana, os edifícios, espaços, objetos e práticas culturais que constituem a arquitetura dos agudás no golfo do Benin são verdadeiros corpos do Brasil na África.

lectifs d’ancêtres qui sont souvent des anciens esclaves qui sont revenus du Brésil, des marchands d’esclaves et leurs descendants, principalement des chefs de famille, pour la plupart vêtus et représentés d’après un style occidental, en dehors ou à l’intérieur de ces maisons. La culture et l’utilisation de plantes décoratives dans des ambiances internes, sur les balustrades des vérandas et sur les rampes des escaliers tout comme dans des lieux ouverts sur les terrains jouxtant les maisons et se dessinant comme étant des jardins privés, nous fournit des informations sur la manière d’être en contact avec la nature, distincte de celle, jusqu’alors, en vigueur dans ce contexte social. Outre les bâtiments, ce groupe social se distinguait par les vêtements portés par les membres de ce groupe social, par l’alimentation et les modes d’interaction personnelle avec le milieu social et leurs croyances, puisque plusieurs d’entre eux étaient pratiquants du catholicisme.4 De plus, ces agents ont également introduits, de la maison aux autres espaces de la ville, de nouvelles conditions de salubrité, à travers le développement d’éléments et de pratiques sanitaires: dispositifs architecturaux permettant une plus grande aération et éclairage des lieux, ainsi que des systèmes d’égouts et de déchets et d’inhumation des corps. L’architecture, le mobilier, la photographie, les jardins, les vêtements, la nourriture, les croyances et les comportements, entre autres éléments et pratiques,

ont défini un mode distinct de vie qui s’est enlacé au mode de vie brésilien de la même époque et, avec le temps, sont devenus une tradition qui est encore pratiquée de nos jours et qui peut être observée dans les manières d’être et d’habiter de certains milieux sociaux dans cette région de l’Afrique. Mode de vie qui attirait plus particulièrement les personnes avides de culture matérielle d’influence occidentale et contemporaine tout en étant adaptable aux traditions locales et qui est également devenu un moyen d’investissementet de spéculation pour ceux qui les premiers l’avaient mis en oeuvre. Dans le territoire côtier du Golfe du Bénin, ces modes de construire, d’habiter et d’entreprendre ont dessiné des localités associées spécifiquement au Brésil. Des lieux plus ou moins caractérisés par ces différences, se trouvent dans des quartiers appelés Adjido (une contraction de «Dieu m’a aidé»5) existantd ans les villes de Aného au Togo, Agoué et Ouidah au Bénin et Badagry au Nigéria. D’autres quartiers sont également identifiés comme étant «Brésiliens», citons: Bè à Lomé au Togo, le quartier brésilien de Ouidah, Fila et Avassa à PortoNovo, au Bénin et le « quartier brésilien » à Lagos au Nigéria.6 Avec une forte présence dans l’espace urbain, cette architecture a fonctionné commeun signe de la modernité dans un sens plus large: formel, technique, socio-culturel. Bien plus qu’un engagement lié à certaines formes et techniques, il existait un lien entre ces maîtres du

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Apud CUNHA, Marianno Carneiro da. Op. cit., p. 175.

GURAN, Milton. Agudás: os “brasileiros” do Benim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 90-104 En portugais, l’expression “Deus me ajudou” est plus proche de adidjo que la traduction française. 6 Apud CUNHA, Marianno Carneiro da. Op. cit., p. 175. 5

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bâtiment et leurs clients influencés para une modernité au style occidental, facteur qui les faisait se distinguer localement. Certes, comme cela s’est passé dans d’autres expériences architecturales, celle-ci possède des significations diverses dans le temps et l’espace. Cependant, il s’agit également d’une architecture qui s’est transformée techniquement et formellement pour préserver la valeur de la modernité et maintenir la distinction existante des constructeurs et de leurs clients vis-à-vis du reste de la société. Outre la configuration d’espaces spécifiques à un certain mode de vie qu’ils appréciaient et la garantie d’acquisition de moyens de subsistance et d’enrichissement, cette architecture a permis que ce groupe de marchands d’esclaves et d’anciens esclaves d’établir des différences par rapport au contexte social dans lequel ils vivaient alors. Outre sa particularité historique, elle était un signe de richesse et impliquait la maîtrise de certaines connaissances, le raffinement, la civilisation et la modernité. En les opposants aux autres groupes, à leurs espaces, leurs modes de vie et d’action, cette architecture les a aidé à conquérir un prestige social et à le maintenir.

Lomé

Si l’architecture peut être perçue à la fois comme un continent et une métaphore du corps humain, au-delà du symbole de l’identité multiple, on pourrait dire qu’en raison des flux, reflux et les replis de la diaspora africaine, les édifices, les espaces, les objets et les pratiques culturelles constitutifs de l’architecture des agoudas dans le golfe du Bénin sont de véritables corps du Brésil en Afrique.

A Lomé, en 2010, lorsqu’on lui a demandé comment son grand-père avait conçu et construit ces bâtiments, Augustin de Souza a répondu qu’il n’avait pas dessiner de plans, mais les avait extrait de sa mémoire et les dessinaient directement sur le sol. Ce qui nous amène à réfléchir sur la manière dont les valeurs, les idées et les formes amenées de l’Amérique à destination de l’Afrique par les Brésiliens sont liées aux connaissances emportées d’Afrique en direction de l’Amérique par les Africains de la diaspora créee par la traite des esclaves, entre le XVIème et le XIXème siècles. Le parcours entre la tête et la terre nous amène à réfléchir sur les relations entre la mentalité et le territoire. Entre la tête et la terre, il y a le corps humain. 31


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Arquitetura Agudá no Bénin e no Togo – MILTON GURAN e ROBERTO CONDURU by BASE DE DADOS DE LIVROS DE FOTOGRAFIA - Issuu