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Estudos superficiais

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Estudos Superficiais


Gustavo Speridião

Estudos Superficiais 1a Edição

São paulo 2015


Que Dziga Vertov confessasse haver feito um de seus filmes para cem espectadores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se esse filme não tiver os cem espectadores de Vertov, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, doze. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, o autor, se adotei a forma livre de um Chris Marker, ou a “tristeza de vala” de um Fernando Pessoa, não sei se lhe meti algumas rabugens ácidas de geometria. Pode ser. Assim é a humanidade. Só vê geometria. Filmei esses estudos com a câmera da galhofa e a luz da revolta, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. A revolta a tudo ilumina, e a galhofa me faz rir às vezes. Acresce que a gente grave não achará no filme seu romance usual, ao passo que a gente frívola achará nele umas aparências de puro romance. Ei-lo aí: fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião. Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, não contarei adiante os processos extraordinários que empreguei na composição desses longos cinquenta e um minutos e vinte e três segundos, trabalhados cá com apenas duas pernas e uma câmera. Isso seria curioso, e extenso, e aliás, proveitosamente desnecessário ao entendimento da obra. Por isso, a obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino espectador, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com uma canção e adeus.

Gustavo Speridião 07/03/2013


GUSTAVO SPERIDIÃO – ATLAS Guilherme Bueno

O mundo como enciclopédia. Afinal, qual dispositivo moderno melhor cumpriu esta função de tudo conter? O conjunto de livros? O cinema? As Arcadas de Paris? O Palácio de Cristal? As Exposições Universais? Hoje é corrente perceber o quanto Walter Benjamin detectou esse sintoma, ao coletar tudo o que parecia existente no seu inacabado projeto das Arcadas, como se nelas um microcosmo, um diorama do fetiche, se nos oferecesse em uma centena de passos, tudo. Mas esse tudo / todo tinha suas regras e, principalmente, seu preço - sendo este, aliás, a maior de todas elas. Assim como o saber, o desejo se faz vestal do capital, perfazendo a peculiar gênesis da imagem moderna. Temos, portanto, dois princípios em jogo a lhe configurar: o seu valor de uso, que outra coisa não é, senão o tipo de poder convocado para a imagem; e a edição, construtora do seu sentido. Não há, portanto, política de imagens que também não seja uma política de edição. Em tempos de hiperexposição e tentativa de construção de um conteúdo globalizado, a obra de arte vê-se exposta à estranha urgência de responder com objetos e imagens a uma demanda cada vez mais competitiva e coercitiva, incorrendo, muitas vezes, em uma “estética do comprometimento” marcada pela linguagem pasteurizada e conciliatória. Refém de um ajustamento passivo ao sistema, o artista adiciona um “toque local” – e “pessoal” – a certos moldes tidos como universais (e este universal é determinado precisamente pelo princípio de edição), gerando, assim, trabalhos que reificam ingenuamente o elogio conformista ao “glocal”, à precariedade, a uma pseudo micropolítica do “possível” e do utópico. Estudos Superficiais, de Gustavo Speridião, escolhe o caminho oposto a esse. Seu interesse

pelo cinema, que remonta à câmera-olho de Vertov, aqui, torna-se uma câmera-corpo. Isto, porém, não se ilustra numa citação direta ao corpo, mas naquilo em que o desejo escópico de se apropriar do mundo faz-se presente na sensação de sequência de um fôlego só. As imagens sucedem num caudal em que a reivindicação de sua autoria não é um apanágio do artista-indivíduo, isto é, do artesão que detém a exclusividade no manejo do ofício, mas do artista-sujeito, ou seja, daquele que conquista sua emancipação ao querer imprimir os seus códigos, a sua experiência sobre as contingências do mundo. É um caso de absoluto: não de um absoluto metafísico, e sim de uma porosidade existencial e, consequentemente, política. Política, aliás, também não é aqui uma denominação abstrata ou um jargão do meio; é o engajamento anti-conformista que, em sua positividade crítica, em vez de conteúdo metafórico ou resignado, à beira do alegórico (pois a alegoria anda de mãos dadas com o conforto de asserção da “utopia”), coloca-se como experiência concreta e real calibrada no testemunho direto dos dilemas testemunhados mundo afora. A intervenção sobre imagens, citações e colagens existe ora - ou simultaneamente - como gesto iconoclasta, ora como exame da tessitura histórica de uma linguagem (seja pintura, filme, ideologia, etc.), ora como uma espécie de inusitado fluxo da consciência joyceanoconstrutivista. Assume-se a materialidade não só física, mas também histórica dos objetos e mecanismos linguísticos e discursivos constituintes de nossa ideia de “Arte”, que, no fim, nunca existiu apartada da superestrutura sob a qual vivemos, mas na qual não nos sentimos necessariamente – ou de modo algum – confortáveis. O que são, portanto, esses Estu-


dos Superficiais? Um caderno de anotações, um diário de viagens, um museu de um homem só? Um pouco de... tudo, eles devem ser entendidos na mesma medida como uma extensão de outro trabalho do artista: O circo dos sonhos, realizado em coautoria com os membros do coletivo do qual participava na época: o Gráfica Utópica. Se o Circo... guardava um quê de amálgama de filmes das vanguardas históricas com cinema b, desbunde e performance guiada pela aparição recorrente dos seus “personagens”, em Estudos Superficiais, estes são dois e um ao mesmo tempo: o mundo e sua imagem. Conforme dissemos acima, um não existe sem o outro, e o fluxo enfatiza a ideologia que lhes é inerente. A questão, não obstante, é de o poder de resistência da obra, enfim, a ideologia da imagem, segundo insistimos, afirmar-se na sua indisciplina ao sistema que frequenta, deixando, em certos momentos, em aberto qual o seu tipo de pertencimento a ele. Gustavo não fetichiza nem edulcora - sob a máscara de um enfant gâté, como repetidas vezes se topa pelo caminho - o sistema e o circuito; daí o ele desconectar a relação entre trabalho, transferência - inclusive em seu sentido psicanalítico - e posse, usualmente definidoras da condição da obra de arte por meio de sua disponibilidade pública aberta. Nesse aspecto, a apropriação e o livre poder de circulação tanto da imagem quanto da obra em si entrelaçam-se, conferindo, pois, uma materialidade outra à obra, pois ela vai além do dispositivo fílmico - o objeto-filme propriamente dito - e incorpora em sua consistência os seus mecanismos de veiculação e partilha, como que admitindo sua viralização. Não deixa de retornar ao filme a sua largueza e amplitude visuais,

no modo como esta enciclopédia do mundo volta para seu objeto original de referência. O teatro da história. O teatro da história visual. Estudos Superficiais é uma hipótese: colocar Rodchenko na mesa de edição de Entr’acte ou do Ballet Mécanique. Afinal, o que resta de específico na imagem quando ela é colocada no grande saco da história, quando, em um caso como este, todas as diferenças são reduzidas à tábula rasa da classificação (pois hoje, todas foram reduzidas a serem apenas modernas, dizendo subliminarmente, com isso, que elas estão acabadas)? A resposta pode ser dupla: radicalizar mais do que a temporalidade ou efemeridade (seja da experiência ou da obra que deveria prolongá-la, incidindo, com isso, em sua condição produtiva), radicalizar a aterradora e inexorável historicidade - ou perda de historicidade - das coisas; ou então reinserir seu potencial como uma suspensão narrativa (se elas reencenam uma visualidade, não é como paródia, e sim como uma repetição - mais uma vez, admitindo-se sua conotação psicanalítica – como situação de desrecalque). Nesse caso, diria de um “desrecalque coletivo” reprimido nas diversas elegias da modernidade, hoje, mais do que nunca, reverenciadas. Se a guia das imagens se constitui em analogias visuais que vão gradualmente configurando anamorfoses narrativas, trata-se, não menos, de uma história que, ironizando seu pilar hegeliano, sobrepõe os objetos arcaicos, anteriores ou à margem da história com sua persistência no presente. Do mesmo modo que o tempo discursivo da história é posto em jogo, isso se torna coextensivo ao tempo “natural” da edição cinematográfica. Curiosamente, defrontamo-nos com o necessário anacronismo de uma encruzilhada fundadora da modernidade: a manetiana desorientação do espectador. Nada mais imperativo, em tempos de conteúdos pautados.


A forma que olha Speridião: o plano, o círculo, o corte, a janela, o degrau e a nuvem. Sobre os Estudos Superficiais, de Gustavo Speridião - Parte 1

*Guilherme Gutman

Intro. Esse filme é de 2013, mas se realiza há muitos anos. Este texto incide sobre os seus primeiros cinco minutos. O filme contém muitas idades e realiza o inventário de tantos outros acontecimentos. Ele é pensado na mesma medida em que é atuado, sendo ambos – pensamento e ação – amadurecidos pelo esforço e pelo acaso que, afinal, a vida apresenta a Gustavo Speridião. A sua posição em relação à vida – pois ele se deixa afetar por ela – é tudo menos espectante: Speridião busca o seu objeto e molda, a custos altos, sua própria forma de viver. Quando debruça o seu olhar sobre as coisas, Speridião é um espectador especial que caminha atento, que elege e captura fragmentos do que, pelo lado de dentro, impõe-lhe uma série de deslocamentos. Nesse movimento, forma-se um amálgama que, no limite, não diferencia o que se cria daquilo que se vive. Diante da riqueza de elementos do conjunto, sem que se abra mão de uma visão mais ampla sobre as grandes extensões verticais e horizontais da obra, vale multiplicar em partes este texto sobre um filme que é plural. Esta obra, ainda que feita de restos daquilo que se viveu, não tem sobras; tudo que está nela deve permanecer, tal qual o que pode se encontrar nos trabalhos de um Bárrio. Há no filme elementos poéticos, mas não é essa a sua marca decisiva, porque se há nele a presença de um sublime embalado pela bela trilha sonora, esta se mistura aos imprevisíveis ruídos da rua. E, assim, obtêm-se o paradoxo e a polifonia de um sublime mundano ou de um

mundo no qual o belo é filho da mácula. Há elementos poéticos no filme? Talvez, alternativamente, o filme seja sobre “não haver elementos poéticos”, já que tudo é poesia, dependendo de quem vê, elege e captura. Há certamente muita beleza nesse filme, mas a questão fundamental passa a ser a de como ela é obtida. Podemos pensar que ela tem como ponto de partida as abundantes sequências de formas geometrizadas, nas quais ela – a bela e insistente geometria – caminhando, atravessa a polis para chegar, por caminhos vicinais, a uma espécie de núcleo da coisa. Speridião caminha pela periferia das cidades e, com o olhar tal qual um diafragma de câmera, encontra algo sobre o que pousar seu olhar, produzindo a imagem que, de outra forma, teria ficado de lado. Mas como convencer-se de que esta obra atinge algo de real? Bem, é preciso se expor a ela, olhá-la e ser por ela olhado com a voracidade e a veracidade da passagem veloz da luz pelos mecanismos da máquina, que a fazem explodir plena nos olhos. A posição de espectador, logo, é insuficiente para uma experiência total: tendo uma vez visto o vídeo, passa-se a ser por ele olhado. E por tempo indeterminado. Esta obra tem, então, a sua própria temporalidade: ela começa antes do registro das imagens e prossegue, interminável, nos efeitos que provoca. Quanto tempo se demora para concluir uma obra? Iniciar um quadro não significa necessariamente já estar sobre a coisa. Há telas que demoraram 10 anos para ficarem prontas, ao passo que outras, permanecendo longamente no atelier, correm o risco de esticar demais a sua existência no espaço cativo; talvez, um pouco como um filho que fica morando com os pais e – já tarde – descobre que o seu tempo passou. Assim, Speridião vai acres-

centando vida à tela ininterruptamente: riscando, rompendo a superfície, rabiscando, pintando por cima… Até que, para que ela exista, seja preciso soltá-la,


libertá-la da área de trabalho, a partir da qual ela percorrerá o seu próprio itinerário. Este filme demorou 7 anos para ser concluído; Speridião fez longas caminhadas por 18 cidades para encontrar as suas imagens. Este primeiro escrito sobre os Estudos Superficiais incide sobre o segmento do vídeo que começa exatos 27 segundos antes do título, que surge tímido e sólido na tela negra, e termina com o corte, encarnado na tela pelas imagens, sons e cheiros sugeridos pelo açougue lusitano. O primeiro escrito termina, portanto, com o corte na carne, numa poesia que logo passa a ser outra. Como aquela de seus filmes – Os Inimigos (2008) – no qual se pode ler na tela: “O que eu quero são palavras cheias de fogo, de verdade e de cólera. Palavras afiadas como punhais, queimando como tochas. O que eu quero é jogar tudo isso ao público. Jogar com uma generosidade terrível, para que as pessoas peguem fogo, comecem a gritar, a correr (…)”. O segundo escrito – ainda por vir – começa, portanto, com os punhais e com as tochas, começa com a nossa disposição em afastar com as mãos - firmes ou trêmulas, não sabemos - a cortina metálica com a palavra “talho” pintada sem requinte, crua como a visão que necessariamente aguarda aquele que ultrapassar a soleira da casa de carnes – também metáfora do mundo, separando a vida que se fantasia da visão real dos corpos. Convém entrar. Mas não nos antecipemos.

Vida misturada à obra Quando se pensa sobre o modo como a vida e a obra de Speridião estão imbricadas, é difícil não pensar na posição adotada por Foucault em O Uso dos Prazeres: em sua perspectiva, só faria sentido investigar, constituir um corpus filosófico, intervir sobre a tela, formar uma obra, caso ela possa servir para que se pense a vida que se vivia em oposição à vida que se poderia viver. 1 Título Pensar sobre Ontem, hoje, amanhã 1, para dobrar a vida sobre a obra e permitir que a obra rede tela. flua para a vida, ajuda a entender uma das fontes do trabalho de Speridião: com suavidade ou dureza, com generosidade ou raiva, ele estende uma forma de vida àqueles que se dispuserem a ver, digamos, o rasgo em suas telas (Fontana), ou ler, na fluidez espontânea das palavras e frases grafitadas na superfície da obra (Basquiat), o registro do vivido. São num mesmo gesto os escritos despudorados de banheiro e as páginas íntimas de um diá-

rio pessoal; o Speridião coletor de frases torna-se aí equivalente ao Speridião coletor de fragmentos do que foi vivido com amigos, em conversas, em viagens, nas relações afetivas, nas coisas que ele vê e escuta na urbi, orbe et mens. Mas de que modo a vida se combina à insistência das formas básicas em seu trabalho? Neste ponto, temos, a meu ver, um dos elementos-chave desse filme, em particular, e de sua obra em geral:

o seu interesse pelas formas “não humanas” dá o contorno ao seu enorme interesse pelo humano. É de seu círculo, do quadrado, do triângulo, do ponto e da linha que brotam a vida; os seus Estudos Superficiais desdobram os sulcos dos giros cerebrais e esticam a lona, a pele e a película sobre as quais são derramados os sonhos e as angústias do abismo das cabeças. É essa a sua geometria. A vida entra e sai pelo rasgo na tela, pela abertura do obturador, até que a imagem toque o corpo. Na primeira cena do filme, um homem de turbante conduz o olho da câmera à câmara na qual se vê o objeto, concreto, geométrico, sólido, estático, ao lado de alguns degraus. Antes, esse homem atravessou as geometrias recortadas na pedra, passou por um quadrado branco sobre o fundo negro, numa construção em luz e sombra, até que apresenta com ênfase, em uma língua estranha, o tal objeto: um volume retangular. A voz do homem é forte, mas na ênfase com a qual a entoa também é desvelado o desconcerto de uma descoberta. Por um momento, é como se fôssemos estrangeiros penetrando os segredos de uma construção de enorme valor arqueológico, como tumbas ou termas. Mas é bem mais que isso. É que o homem sabe que o impacto da descoberta não se resume ao valor presente daquilo que se vê. E, olhando diretamente para nós, seus interlocutores, procura certificar-se, pela fenda oblíqua de nossos olhos espantados, se de fato pegamos no ar aquilo que ele descobriu: que uma forma básica e pura explode os limites


do concreto, faz do sólido fluido e abre veredas à banalidade ou ao mistério da vida. Vê-se que Speridião conheceu a obra de Mira Schendel, que assistiu a Dziga Vertov e também a Chris Marker, que escutou Malevich, quando este, em De Cézanne ao Suprematismo, diz: “toda a força (...) vem da pulverização e da decomposição do objeto (ao contrário de sua plenitude)”. Há, nesse curto preâmbulo que antecede o título do filme, uma síntese daquilo que virá na sequência da obra: dirigimos o olho nú à forma básica e pura, tal como o Quadrado Negro Sobre o Fundo Branco (1913-15), e somos olhados por sua superfície, vendo desprender-se dela a matéria gasosa, etérea e vaporosa de que a vida e a experiência humana na Terra são feitas. Tudo isso pode durar apenas um minuto, mas Speridião joga a sua vida toda neste minuto. Segundo diz: “Todos nós vivemos só uns minutos. O melhor está sempre num só minuto” (Os Inimigos).

O objeto perdido. Há um enigma na imagem do homem vivo diante do volume sólido e estático; volume que permanecerá lá quando ele já tiver ido embora em definitivo. Quando será que ele vai sair de cena? Landscape2. 2 Escrito que Quando ele será defenestrado: Hoje, Ontem, Amanhã?

insiste, em O que fica quando o objeto – a pessoa, a ideia, a tela – vão embora? Há a vida com e a vida algumas obras de Speridião. sem, num trânsito permanente pela trama do contato, no mosaico do junto. O que resta, afi-

nal, quando se acaba? Quando as pessoas se separam e quando já não se está mais perto? Como se lida com o que já foi e não é mais? No que se fazia, na aparência que se tinha, naquilo que se vivia junto. Quando as pessoas se separam – por um segundo ou pelo resto da vida – estamos

mais próximos de uma das geometrias de Speridião: a do “talho”, ou corte, que às vezes é na carne e às vezes é na tela. Corte que é anterior a cada nova e necessária separação. Talho que inaugura o rompimento, o vazio que daí advém e estabelece aquilo em torno do qual se passa a vida em busca e que, ao mesmo tempo, empurra para a vida em direção à região na qual realizará os seus enfrentamentos, recuperando e voltando a perder, indefinidamente, o objeto que carrega a promessa vã de uma mítica plenitude (Freud). No filme, o círculo surge muitas vezes: gelatinoso ou luminoso, metálico ou pétreo, cinético ou lunático. Aí, o corte é no olho, cindindo o olhar em dois: o que olha e aquele outro,

a partir do qual nos sentimos olhados. É essa cisão do olhar que pode restringir a experiência a uma espécie de visibilidade do presente, quando poderia (deveria?) avançar em direção àquilo que não está lá e que escapa ao olhar domesticado (Didi-Huberman). Este objeto perdido não está na visualidade corriqueira, sensoperceptiva, daquilo que se vê agora; não apenas naquele espaço entre a quase consciência e as formações do inconsciente, mas também para além da arrebentação – como sugere a materialidade específica do registro fotográfico - portanto, numa materialidade que já fracassa, que já é faltante, que claudica por essência. Mar Egeu3 – entre 3 Fotografia de o núcleo do Real e esse conjunto de sintaxes que está em relação Speridião estreita com o Simbólico (Lacan). De que substância seria então feito o objeto perdido? O que ficou do objeto fotografado? Em algum espaço virtual entre o objeto que “estava lá”, a captura pela máquina, a impressão no papel fotográfico e na lembrança que Speridião tem do objeto? Talvez na memória fugidia, e que algum dia também se extinguirá por completo, de todo o processo de trabalho. Guardemos o minuto, que é o tempo de Speridião: aquela temporalidade mais etérea, que é a poeira, o pó, a fumaça, a nebulosa e o gêiser. Matéria de que é feito aquilo que resta, aquilo que já não é mais.

A vida – dura e bela – surge como florescências da forma. Speridião olha as formas porque é olhado por elas. Esse é um dos pontos fundamentais do texto. A geometria de Speridião: círculo, quadrado, triângulo, ponto e linha dando origem - ou, ao contrário, formas na qual são reconhecidas as coisas da vida - ao mundo vegetal e ao mundo animal.


Outra ideia fundamental: quanto mais a realidade é difícil, em muitos sentidos: social, de laços entre as pessoas, etc., mais o sonho, o poético, o “fora do mundo” precisa encontrar o seu lugar na obra. No caso de Speridião, retirar/fazer brotar dessas matérias duras (como o volume compacto e de linhas rígidas, apresentado pelo homem de língua estranha, na abertura do vídeo), per via de porre e per via de levare, tudo aquilo que nos atravessa e que não se restringe à contemplação do objeto. Uma fórmula: um sonho (imagens oniroides, devaneios, paraísos artificiais, imagens que retornam, reminiscências) que surge das formas básicas. Este primeiro escrito baliza a cena em que as imagens se dão. Neste sentido, temos os elementos básicos da geometria se Speridião:

A) O corte (talho), que no escrito por vir apresentará a “carne do mundo” (Merleau-Ponty). A indivisível separação entre um corpo que vê (que, no limite, se vê vendo, e que, paradoxalmente, é objeto do mundo, a ser visto, mastigado e deglutido). B) A nuvem que é aquilo que se vê, quando o vazio é visto (Didi-Huberman). A vida está aqui. Da forma saltam as espécies vegetais, animais e os humanos com as suas pequenas coisas. C) O degrau, que é preciso subir, galgar, palmilhar, para se chegar a ver - o degrau é o volume de pedra, o quadrado, a matéria geometrizada.

D) O círculo. O olho que vê é o olho que nos olha. E) A janela é o que se atravessa. As aberturas retangulares, o rasgo e a fenda. É por onde se entra, mas por onde é possível, também, se defenestrar. F) O plano (superficial). Superfície: suporte necessário para que a obra se aninhe. Pode ser a tela, mas pode ser o éter: o espaço mental, a concepção, etc.

Coda. Speridião abre passagem e, na abertura, no retângulo a ser atravessado, no corte que é na carne ou na tela, encontramos aquele minuto, tão precioso quanto fugidio. Quando olhamos para uma obra de Speridião, comemoramos e rememoramos que estamos aqui e que o vazio inaugurado pelo corte, o espaço deixado, a superfície sugerida, seguem olhando-nos e, também, conduzindo o nosso olhar.

O núcleo da coisa pode estar nos espaços de transição entre os agrupamentos da “geometria spiridiana”, trabalhados na ilha de edição. Há apresentação de grupos e espaços de transição entre eles, que nos deixam numa espécie de incômodo. No incômodo, saimos da superfície estudada, pavimentada pelos agrupamentos. Nos espaços de transição já não temos o conforto do objeto a ser encon-

trado, já não sabemos onde procurar o círculo ou o degrau e nos sentimos simultaneamente perdidos e estimulados a encontrar o próximo fio. E sozinhos. No espaço de transição entre os agrupamentos, precisamos nos agarrar nas pedras, ou tatear as paredes, procurando uma nova saída no escuro. Nesse espaço, testamos e colecionamos tudo o que vemos dentro das imagens apresentadas, tentando fazer “pares”, como no “jogo da memória”, com a imagem seguinte. Lá, descartamos o que não reencontramos, guardamos o que se repetiu, para novamente comprovar se este é o caminho seguro, na imagem que virá adiante – até que, com alívio, tenhamos novamente o objeto em nossas mãos. Deixemos que Speridião nos mostre, por um pouco menos ou um pouco mais do que um minuto, aquilo que ele pôde ver e teve a generosidade de, pela fresta de um diafragma, revelar.

*Guilherme Gutman é médico psiquiatra, psicanalista, professor de psicologia da PUC-Rio, curador independente e crítico de arte.


GUSTAVO SPERIDIÃO – ATLAS Guilherme Bueno

The world as an encyclopedia. After all, which modern mechanism best delivered the function of containing it all? The collection of books? The cinema? The Arcades of Paris? The Crystal Palace? The Universal Exhibitions? Today, it is current to realize how much Walter Benjamin detected this symptom by collecting everything that seemed to exist in his unfinished work of the Arcades; as if in them, a microorganism, a fetish diorama, were offered to us, within a hundred steps, all. However, this all / whole had its rules and, mainly, its price - which was, indeed, the greatest rule of them all. Just like knowledge, desire becomes the capital’s vestal, making up the peculiar genesis of modern image. We, therefore, have got two principles at stake to configure in it: its use value, which is not but the type of power convened for the image; and its editing, builder of its sense. Consequently, there cannot exist a policy of images that isn’t, at the same time, a policy of editing. In times of hiperexposure and of attempting to build of a globalized content, the work of art finds itself exposed to the strange urge to respond with objects and images to an ever more competitive and coercive demand, incurring, often times, a “compromising aesthetics” marked by the pasteurized and

conciliatory language. Hostage to an adjustment that is passive to the system, the artist adds a “local” - and “personal” -“touch” to certain molds taken as universal (and this universal is determined precisely by the editing principle), thus, creating works that naively reify the conformist compliment to the “glocal”, to the precarious, to a pseudo micropolicy of the “possible” and of the utopic. Estudos Superficiais (Superficial Studies), by Gustavo Speridião, chooses a path opposed to that. His interest in cinema, which dates back to the camera-eye by Vertov, herein, becomes a camera-body. This, however, is not illustrated in a direct reference to the body, but, rather, in that in which the scopic desire to appropriate the world is present in the feeling of sequence of one single breath. The images succeed in a stream, where the claim for his authorship is not a prerogative of the artist-individual, that is, of the craftsman that holds exclusivity for the handling of the work, but that of the artist-subject, in other words, of whomever earns their emancipation by wanting to print their codes, their experience, upon the contingencies of the world. It is a case of absolute: not a metaphysical absolute, but an existential porosity and, consequently, a political one. Political, for that matter, is not herein an abstract denomi-

nation or an environment jargon; it is, rather, the anti-conformist engagement that, in its critical positivity, instead of a metaphorical or resigned content (almost an allegoric one, since allegory goes hand-in-hand with the assertion comfort of “utopia”), arises as a concrete and actual experience, calibrated in the direct testimony of the dilemmas witnessed worldwide. The intervention upon images, quotes and collages exists sometimes – or simultaneously – as an iconoclastic gesture, sometimes as an examination of the historical fabric of a language (be it painting, film, ideology, etc.), sometimes as a kind of unusual flow of the Joycean-constructivist consciousness. One assumes the materiality, not only physical, but also historical of the objects and the linguistic and discursive mechanisms constituent of the idea we have about “Art”, which, in the end, has never really existed apart from the superstructure under which we live, but in which we do not feel necessarily, or by any means, comfortable. What are, after all, these Estudos Superficiais (Superficial Studies)? A copious book, a trip journal, a museum of a single man? A bit of… all, they must be seen to the same extent as an extension of a former work by the artist: O Circo dos Sonhos (The Circus of Dreams), made in co-authorship

with the members of the group he used to take part in at the time: Gráfica Utópica (Utopian Graphic). If O Circo (The Circus)… held a touch of amalgam of historical vanguard movies with b movies, amazement and performance guided by the constant showing of his “characters”, in Estudos Superficiais (Superficial Studies), these are two and one at the same time: the world and its image. As we mentioned above, one does not exist without the other, and the flow emphasizes the ideology that is inherent in them. The question, nevertheless, is the resistance power of the work, in other words, the ideology of the image, as we insist, stating itself in its indiscipline to the system it attends, leaving open, at times, how it belongs in it. Gustavo does not fetishize or sweeten - under the mask of an enfant gâté, as is seen repeatedly along the way - the system or the circuit; hence his disconnecting the relation between work, transference - also in its psychoanalytical sense - and possession, that usually define the conditions of the work of art through its open public availability. In this aspect, the appropriation and the power of free circulation both of the image and of the work itself get intertwined, thus, granting the work yet another kind of materiality, since it goes beyond the filmic mechanism - the ob-

ject-film itself - and incorporates in its consistency its divulgation and sharing schemes, as if admitting its viralization. At the same time, it gives back the film its visual breadth and width, just like this world encyclopedia returns to its original object of reference. The history theater play. The visual history theater play. Estudos Superficiais (Superficial Studies) is a hypothesis: putting Rodchenko on the same editing board as Entr’acte or Ballet Mécanique. After all, what is left of specific in the image when it is put in the large bag of history, when, in a case such as this, all the differences are reduced to the shallow classification board (because today, they all have been reduced to being just modern, meaning, subliminally, that they are finished)? There could be two answers to that: radicalizing more than the temporality or ephemerality (of the experience or of the work that should prolong it, thus, impacting its productive condition), that is, radicalizing the terrifying and inexorable historicity – or loss of historicity – of things; or, maybe, reinserting its potential as a narrative suspension (if they reenact a visuality, it is not as a parody, but, rather, as a repetition – once more, admitting its psychoanalytical connotation - as a derepression situation). In that case, I would say it is about a “collective derepression”

repressed in the various elegies of modernity, nowadays, more revered than ever. If the guide of images is made up of visual analogies that gradually configure narrative anamorphoses, it is no less than a history that, mocking its Hegelian pillar, overlaps the archaic objects that came into existence prior to or that sit at the margins of history, with its persistence in the present. Just as the discursive time of history is put at stake, it becomes coextensive to the “natural” time of the cinematographic editing. Interestingly, we are faced with the necessary anachronism of a modernity founding crossroad: the Manetian disorientation of the viewer. Nothing more imperative in times of guided contents.


The shape Speridião looks at: the plane, the circle, the cut, the window, the step, and the cloud. (On Estudos Superficiais – Superficial Studies –, by Gustavo Speridião – Part 1) Guilherme Gutman

Intro. This film dates back to 2013, but has been running for many years. This text is about its first five minutes. The film contains many ages and does the inventory of many other events. It is thought at the same time as it is performed, being both – thinking and action – matured by effort and chance, which, after all, life presents to Gustavo Speridião. His attitude towards life – since he lets himself be affected by it – is everything but contemplative: Speridião pursues his object and – at a high cost – shapes his own way of life. As he leans his eyes upon things, Speridião is a special viewer who walks about attentively, choosing and capturing fragments of things that, from within, impose to him a number of shifts. This movement produces an amalgam that ultimately does not distinguish what is created from what is lived. Before all these rich joint elements, without compromising on a broader view of the large vertical and horizontal extensions of the work, it is worth multiplying this text into parts, since the film itself is plural. This work, although

made of the rest of what was lived, has no leftovers; everything that is in it should remain in it, just like what can be found in the works of someone like Bárrio. There are poetic elements in the film, but this is not its hallmark. In spite of its sublime atmosphere, enhanced by a beautiful soundtrack, this is all merged with the unpredictable sounds of the street. Thus, we obtain the paradox and the polyphony of mundane bliss or of a world where beauty is born from taint. Are there poetic elements in the film? Perhaps, alternatively, the film is about “not having poetic elements,” since everything is poetry, depending on who sees, chooses and capturers it. There is certainly plenty of beauty in this film, but its fundamental question is how this beauty is attained. We might think that its start point are the abundant sequences of geometrized shapes, in which beautiful and insistent geometry strolls across the polis to get to some sort of core of things, albeit through side roads. Speridião walks about the outskirts of the cities and, with the view of a camera’s diaphragm, he finds something on which to

lay his eyes, thus producing the image that otherwise would have gone unnoticed. But how can one be convinced that this work achieves something real? Well, one must be exposed to it, look at it and be looked at by it, with the voraciousness and the veracity of the fast-passing light through the camera’s mechanisms, which make such work fully explode before one’s eyes. Therefore, the viewer’s position is not sufficient for a total experience: once we have seen the video, we start being looked at by it. And for an undetermined time. This work has its own temporality: it starts before the recording of the images and proceeds – endlessly – in the effects it causes. How long does it take to finish a work? Beginning a painting does not necessarily mean being on it. There are paintings that took 10 years to be finished, whereas others, remaining at the workshop for a long time, are at risk of stretching their time at this captive space for too long; perhaps a little like a son who lives with his parents and only realizes that his time has passed when it is too late. Speridião relentlessly adds life to the canvas,

scribbling, tearing the surface, doodling, painting over previous layers… Until he finally has to set it free, release it from his workshop so that it can exist and go its own way. This film took 7 years to be completed; Speridião took a long walk about 18 cities to find its images. This first essay about Estudos Superficiais (Superficial Studies) focuses on the video segment that starts exactly 27 seconds before the title, that appears shy and solid on the black screen, and finishes with the cut, embodied on the screen by the images, sounds and smells suggested by the Portuguese butcher shop. Therefore, the first text ends with the cut in the flesh, in a poetry that will soon become another, like the one in his film Os Inimigos (2008) (The Enemies – 2008), in which one can read: “What I want are words full of fire, truth and rage. Words sharp as a dagger, burning like torches. What I want is to throw it all on the public. Throw it with terrible generosity, so that people catch fire and start to scream, run (…).” The second text – yet to come – starts with the daggers and the torches. It starts with our willingness to push away with our hands - either steady or trembling - the metallic curtain with the word “gash” painted on it with no refinement. It is as raw as the sight that necessarily awaits those who cross the threshold of the butcher shop – also a metaphor of the world, separating the life one fantasizes

from the real sight of the bodies. We shall come inside, but let us not make haste.

Life mixed with work.

When one thinks about how Speridião’s life and work are intertwined, it is difficult not to think about the position Foucault adopted in The Use of Pleasure. From this perspective, it only makes sense to investigate, build a philosophic corpus, intervene in the screen and create a work if it can make us think about the life one lives as opposed to the life one could live. Thinking about Ontem, hoje, amanhã (Yesterday, today, tomorrow), hunching life over work and enabling such work to flow back into life helps us understand one of the sources of Speridião’s work: gently or harshly, generously or angrily, he hands out a way of life to those who are willing to see the rip on his paintings (Fontana) or read the record of what was lived in the spontaneous fluidity of words and sentences sprayed on the surface of the work (Basquiat.) In the same gesture, they are the shameless words on a restroom wall and the private pages of a personal diary. The Speridião who collects sentences then becomes equivalent to the Speridião who collects fragments of past experiences with friends, in conversations, trips, affective relations, in whatever he sees and hears at urbi, orbe et mens. But how is life combined with the insistence of basic shapes

in his work? At this point, as far as I’m concerned, we have one of the key elements of this film, in particular, and of his work, in general: his interest in “non-human” shapes outlines his enormous interest in whatever is human. Life sprouts from his circles, his squares, his triangles, dots, and lines. His Estudos Superficiais (Superficial Studies) unfolds the creases of cerebral spins and stretches the canvas, the skin, and the pellicle upon which the dreams and the anguishes of the abysm of the heads are poured. That is his geometry. Life comes in and out through the rip on the canvas, through the opening of the shutter, until the image touches the body. In the first scene of the film, a man in a turban guides the eye of the camera to a chamber where we can see the object – concrete, geometric, solid, static – next to some steps. Previously, this man had crossed the geometries cut in stone, passed by a white board over a black background, in a construction of light and shade. Finally, in a strange language, he presents the object: a rectangular volume. The man’s voice is strong, but the emphasis in his utterance also reveals the bewilderment of a discovery. For one moment, it is as if we were foreigners penetrating the secrets of a building with high archeological value, like tombs or baths. However, it goes far beyond that. It is just that the man knows that the impact of the discovery is not only the present value of what he sees. And looking directly at us – his interlocutors – he tries to make sure that through the oblique slit of our stunned eyes we grasp his discovery: that a


basic and pure form explodes concrete limits, turning solid into fluid and opening bypasses to the banality or the mystery of life. We notice that Speridião is familiar with the work of Mira Schendel, that he watched Dziga Vertov and also Chris Marker, that he listened to Malevich when the latter says “all the strength (…) comes from pulverizing and decomposing the object (unlike its plenitude.)” In this short preamble that precedes the title of the film, there is a synthesis of what will come next in the work: we direct our naked eyes to the basic and pure shape, just like in Black Square (1913-15). We are looked at by its surface and we see it releasing the gaseous, ethereal and vaporous matter that make up human life and experience on Earth. All this might last only a minute, but Speridião puts his entire life in this minute. As he says: “We all live but a few minutes. The best is always in only one minute” (Os Inimigos) (The Enemies).

The lost object.

There is an enigma in the image of the living man before the solid and static volume, a volume that will remain there when the man is already gone for good. When will they leave the scene? Landscape . When will they be dismissed: Hoje, Ontem, Amanhã (Today. Yesterday.Tomorrow)? What remains when the object – the person, the idea, the painting – are gone? There is life with and life without, in a permanent tran-

sit about the mesh of contact, in the mosaic of togetherness. After all, what is left when it is over? When people part and are no longer around? How to deal with what once was but is no more? In what was done, in the appearance it had, in what was lived together. When people part – for a second or for the rest of their lives – we come closer to one of Speridião’s geometries: the “gash” or cut, which is sometimes on the flesh and sometimes on the canvas. A cut that precedes each new and necessary separation. A gash that starts the parting, the emptiness that comes from it and establishes what one will pursue over life. At the same time, it pushes one back to life towards the region where he will face his challenges, indefinitely recovering and losing the object that bears the vain promise of a mythical plenitude (Freud). In the film, the circle appears many times: gelatinous or luminous, metallic or stony, kinetic or lunatic. There the cut is in the eye, dividing the gaze into two: one that looks and another one from which we feel looked at. It is this split that might restrict the experience to some sort of visibility of the present, when it could (should?) move towards what is not there and escapes the tamed eye (Didi-Huberman). This lost object is not in the routine, sensory-perceptive visuality of what is seen now, not only in that space between quasi consciousness and the creations of the unconsciousness, but also beyond the surf zone – as

suggested by the specific materiality of photographic records (therefore, in a materiality that fails, that lacks something, that limps due to its very essence.) Mar Egeu – between the core of the Real and this set of syntaxes that closely relates to the Symbolic (Lacan). Of what substance is made the lost object then? What remained of the photographed object? In some virtual space between the object that “was there,” its capture by the camera, the printing on photo paper and in Speridião’s memory of the object? Perhaps a fleeting memory of the creation process that one day will also completely disappear. Let us keep the minute, which is Speridião’s time: that more ethereal temporality, which is dust, smoky, misty and geyser. The matter that makes what is left, what is no more.

Life – tough and beautiful – appears as shape blossoms.

Speridião looks at shapes because he is looked at by them. This is one of the key points of the text. Speridião’s geometry: circle, square, triangle, dot, and line originating - or, to the contrary, shapes where one recognizes the things of life - the vegetable and animal world. Another key idea: the more difficult reality is (in many senses: social, bonds between people etc.,) the more the dream, the poetic, the “unworldly” must find their place in the work. In Speridião’s case, by removing/making sprout

from these hard matters – per via de porre and per via de levare – everything that crosses us and that is not limited to beholding the object (like the compact and rigidly outlined volume presented by the man at the opening of the video.) A formula: a dream (dream-like images, reveries, artificial paradises, images that come back, reminiscences) that emerge from basic shapes. This first text marks out the scene in which the images come about. In this sense, we have the basic elements of Speridião’s geometry: a)The cut (gash), which in the following essay will present the “flesh of the world” (Merleau-Ponty). The undividable separation between a body that sees (which, ultimately, sees itself and is paradoxically object of the world, to be seen, chewed on and swallowed.) b) The cloud, which is what is seen when the emptiness is seen (Didi-Huberman). Life is here. From the shape spring vegetable and animal species and humans with their small things. C) The step, which must be climbed up, stepped on, so that one can actually see (the step is the stone volume, the square, the geometrized matter.) D) The circle. The eye that sees is the eye that looks at us. E) The window is what one crosses. The rectangular openings, the gash and the slit. It is through the window that one comes in, but through the window, it is also possible to dismiss oneself. F) The plane (superficial). Surface: the necessary support to nest the

work. It can be the canvas, but it can also be the ether: the mental space, the conception etc.

Coda.

Speridião makes way and in the opening, in the rectangle to be crossed, in the cut in the flesh or on the canvas, we find that minute that is as precious as it is fleeting. When we look at a work by Speridião, we celebrate and remember that we are here. The emptiness started by the cut, the left space, and the suggested surface continuously look at us, guiding our gaze. The core of the thing might be in the transition spaces between the groupings of “Speridian geometry,” worked on at the editing room. Groups and transition spaces among them are presented, making us feel somewhat uncomfortable. In this discomfort, we leave the studied surface, paved by the groupings. In the transition spaces we no longer have the comfort of the object to be found, we don’t know where to look for the circle or the step and we feel simultaneously lost and encouraged to look for the next thread. On our own. In the transition space among the groupings, we must hold on to the stones or grope around the walls, looking for a new exit in the dark. In this space, we test and collect everything we see inside the presented images, trying to match “pairs,” like in a memory game. There, we dispose of what we can’t find, we keep what was repeated, so that we can make

sure that this is the safe path, in the following image – until with undeniable relief we have the object in our hands again. For about a minute, let’s let Speridião show us what he could see and generously reveal through the slit of a diaphragm. 1 Psychiatrist, psychoanalyst, psychology professor at PUC-Rio, independent curator and art critic. 2 Painting title. 3 Text that insists, in some of Speridião’s works. 4 Photograph by Speridião.


ESTUDOS SUPERFICIAIS [SUPERFICIAL STUDIES]

That Dziga Vertov would confess to making one of his films to as few as one hundred viewers is something that causes wonderment and dismay. Now, it will not cause wonderment and probably will not dismay should this film not have the one hundred Vertov’s viewers, or fifty, or twenty, or, if at all, twelve. Ten? Perhaps five. It is a diffuse work, in which I, the author, if it is so that I adopted the free form of a Chris Marker, or the “ditch sadness” of a Fernando Pessoa, might have shoveled some sharp geometry grumpiness into it. It is possible. That is what humankind is like. All they see is geometry. I have filmed these studies with the camera of joke and the light of revolt, and it is not hard to foresee what may come out of this wedlock. The revolt illuminates it all, and the joke makes me laugh at times. Moreover, the earnest people won’t find in the film its usual romance, whereas the frivolous people will find in it some resemblance of pure romance; that is where it stands: deprived both from the regard of the earnest and from the love of the frivolous, which are the two utmost pillars of opinion. But I am still hoping to get the sympathy of opinion, and the first medicine to it is to flee from a prologue that is explicit and lengthy. The best prologue is that which holds the fewer things, or that which says those things in an obscure and truncated way. Consequently, I will not tell you ahead the extraordinary processes that I used in the making of these long fifty-one minutes and twenty-three seconds, worked upon over here with as few as two legs and a camera. That would be intriguing and extensive and, besides, usefully unnecessary for the understanding of the work. For this reason, the work in itself is it all: shall it please you, fine viewer, I’ll have paid myself the task; shall it not please you, I’ll pay you with a song and farewell. Gustavo Speridião 03/07/2013

94 Fotografias: Photosequence #00 até #93, da série Estudos Superficiais [Photosequence #00 to #93 from the serie Superficial Studies] 2013 Fotografia digital P&B [B&W digital photography] 60 x 60 cm Edição de 5 + 2 P.A (A.P.) [Edition of 5 + 2 P.A (A.P.)] Filme: Estudos Superficiais [Superficial Studies], 2006/2013 Vídeo digital P&B [Digital Video B&W] 51’ 23’’

Veja o filme Estudos Superficiais no YouTube (https://youtu.be/1JMB6pMw3CY) ou escaneie o QR Code e vá direto para a página.


Presidenta da República Dilma Rousseff Ministro de Estado da Cultura Juca Ferreira FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES Presidente Francisco Bosco Diretor Executivo Reinaldo Veríssimo Diretor do Centro de Artes Visuais Francisco de Assis Chaves Bastos (Xico Chaves) Coordenadora do Centro de Artes Visuais Andrea Luiza Paes COORDENADORA DO PRÊMIO FUNARTE DE ARTE CONTEMPORÂNEA 2014 - GALERIAS FUNARTE DE ARTES VISUAIS SÃO PAULO Ana Paula Rodrigues de Siqueira Coordenadora de Comunicação Camilla Pereira COORDENADOR DA REPRESENTAÇÃO REGIONAL DA FUNARTE SÃO PAULO Tadeu Souza Administração Cultural Juliano Salomão Malheiros de Oliveira Sharine Machado Cabral Melo - segunda Equipe Técnica Everton Keishi Otomura – eletricista Francisco Lopes da Costa – Apoio de montagem Gyorgy Forrai – montagem Jerivan da Rocha Silva – téc. de som Ronei Leandro Novais – responsável técnico

estudos superficiais Exposição realizada na Funarte São Paulo, de 20 de junho a 3 de agosto de 2015. Funarte São Paulo, Galeria Mario Schemberg Alameda Nothmann, 1058. Campos Elísios, São Paulo, SP www.funarte.gov.br Artista: Gustavo Speridião Curador: Guilherne Bueno Textos: Guilherme Bueno e Guilherme Gutman Produtora executiva: Daniele Dal Col Projeto gráfico: Evelyn Leine Tradução: Verônica Paiva Monitoria: Paula Macedo Impressão: Rush Gráfica e Editora Ltda. Agradecimentos: Anita Schwartz Galeria de Arte, Rio de Janeiro; Roberto Alban Galeria, Bahia, Galeria Superfície, São Paulo, STRUTTURA Arte Molduras & Desenvolvimento e a toda a equipe da Funarte. Distribuição gratuita, proibida a venda. APOIO:


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Speridião, Gustavo Estudos superficiais / artista Gustavo Speridião ; [curador Guilherme Bueno]. 1. ed. São Paulo : Ed. do Autor, 2015. Exposição realizada na Funarte São Paulo de 20 de junho a 3 de agosto de 2015. ISBN 978-85-919218-0-5 1. Artes 2. Fotografia 3. Preto e branco Fotografia I. Bueno, Guilherme. II. Título. 15-05055

Índices para catálogo sistemático: 1. Fotografia : Artes 770

CDD-770


Realização:

Este projeto foi contemplado pelo Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2014 Galerias Funarte de Artes Visuais São Paulo.


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Estudos superficiais by BASE DE DADOS DE LIVROS DE FOTOGRAFIA - Issuu