Rodrigo Braga
Abrigo
de
paisagem
Veículo
Curadoria Priscila Arantes
de
Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura e Paço das Artes apresentam a exposição
passagem
Abrigo de paisagem / VeĂculo de passagem
Rodrigo Braga
Curadoria Priscila Arantes
Abrigo de paisagem / Veículo de passagem
Priscila Arantes
O binômio máquina/natureza, cidade/campo é um dos elementos centrais na mostra Abrigo de paisagem/Veículo de passagem, de Rodrigo Braga, individual apresentada no Paço das Artes entre setembro e dezembro de 2015. Um tronco de árvore e um motor de carro amarrados por uma corda, uma raiz que acolhe, como uma espécie de ninho, uma máquina. Dois vídeos em loop que tecem uma narrativa poética e onírica sobre os deslocamentos de um viajante em busca do contato com a natureza. No primeiro, constrói um abrigo ao redor de uma árvore, com portões de casas antigas, dentro de uma paisagem tipicamente urbana. Nesse local, passa a noite e, ao nascer do sol, desloca-se para o ambiente rural. O viajante constrói, então, seu segundo abrigo por meio de uma ação intrusiva e violenta em relação à natureza. Sobe em uma árvore e dela retira inúmeros galhos cobrindo inteiramente o capô de seu carro. Um novo abrigo, não mais de grades, mas, ainda assim, de aço, mesmo que, em parte, camuflado e supostamente integrado à natureza. Rodrigo Braga é um artista que se desloca no mundo, estabelecendo encontros, abrigos, diálogos e embates com a natureza. Filho de pesquisadores e ecologistas, a natureza sempre foi, e continua sendo, um elemento central no trabalho do artista. Nasceu em Manaus e, ainda pequeno, foi morar em Recife, onde cresceu e começou a desenvolver seus primeiros trabalhos. Mais recentemente estabelece moradia no Rio de Janeiro.
Muitas de suas produções se manifestam em processos de viagem e deslocamento. Nas regiões por onde passa, cria trabalhos em diálogo com o ambiente natural e com o contexto oferecido a seu processo criativo. Este foi o caso do projeto que realizou na região da floresta amazônica em sucessivas viagens que duraram quatro anos (2010 a 2013). Nesse trabalho, e em outros desse período, o artista apresenta-se a si mesmo em ações performáticas em embate com a floresta e a natureza, em várias situações. Amarrado a um caranguejo ou a um bode, deitado em um barco cheio de água com um peixe sobre seu corpo. As ações de Rodrigo são simples, mas, ao mesmo tempo, extremamente fortes. Carregam consigo uma carga grande de fantasia e de aproximação com o sonho, beirando o surreal. Em Desejo eremita, o artista desloca-se em direção ao sertão nordestino. Como um eremita, busca inspiração para sua criação no contato com o deserto. Diz ele: “Adentrei em busca de sossego em uma paisagem simbólica que não encontraria onde vivo, mas acabei me deparando novamente com o que já habitava meu trabalho: o inevitável ciclo vital ao qual todos os seres humanos estão fadados” (Braga, 2009). As imagens deste trabalho são duras e extremamente fortes. Ossos, terras, chifres, árvores secas, pedaços de corpos de animais apresentam uma paisagem árida em que o artista, isolado de todos, busca sua inspiração. O corpo que se desloca não se conserva impune. Disso já sabiam os viajantes, os peregrinos, os eremitas e navegadores. Para estes sujeitos da errância, deslocar-se sempre guardou a potência da mudança, da ampliação da visão de mundo e modificação do destino, seja pela via do milagre, da iluminação solitária ou do encontro com territórios além-mar. Aquele que viaja, que se desloca, coloca-se na direção, muitas vezes, daquilo que ainda desconhece. O sujeito longe de manter-se neutro na experiência do deslocamento, coloca-se em estado de elaboração, onde os traços de subjetividade e as vivências da jornada parecem fundir-se na produção de sua narrativa. (Mendes, 2013). Abrigo de paisagem/Veículo de passagem trata de uma série de deslocamentos e viagens e, nesse sentido, amplia e dá continuidade às pesquisas anteriores de Rodrigo Braga. Também aqui, o artista é convidado a deslocar-se, neste caso, a São Paulo, para desenvolver um projeto em diálogo com o contexto local. Entre idas e vindas que duraram quase um mês, o artista deparou-se com a paisagem da cidade e as peculiaridades da natureza de São Paulo; uma natureza urbana extremamente diversa daquela que o artista encontrara no sertão nordestino ou nas matas úmidas da floresta amazônica. Em São Paulo, a natureza mistura-se ao concreto, à máquina, aos carros e ao caos urbano. Rodrigo possui olhos e metodologia de um pesquisador de campo. Procura o lugar e os elementos para a construção de seu trabalho, minuciosamente. Um processo artístico que passa por uma espécie de “garimpo de substâncias”. Visita os locais onde desenvolve suas ações, pesquisa materiais, escolhe a paisagem, os portões, as cores e as formas. Sua produção inclui vídeos, fotografias e objetos que, na sua grande maioria,
nascem a partir de desenhos. Por outro lado, muitos de seus trabalhos se manifestam a partir de ações performáticas em que seu corpo estabelece diálogos com a natureza. Pode-se dizer que o trabalho de Rodrigo é intermídia, no sentido amplo do termo. Muito mais que simplesmente trabalhar com várias mídias – o desenho, o vídeo, os objetos, a fotografia –, Rodrigo Braga coloca em cena essa íntima relação entre arte e vida. Seus projetos geralmente incorporam suas vivências e o “estar” nos territórios por onde passa. O deslocamento do corpo, assim, é estruturante da narrativa de Rodrigo Braga. É a partir de seus deslocamentos que a obra se constitui. Obra-vivência/Obra-corpo. Longe de manter-se neutro na experiência do deslocamento, Rodrigo Braga se coloca em estado de elaboração e criação. A vivência de sua jornada é, ao mesmo tempo, ação e narrativa, processo e obra. Grosso modo, pode-se dizer que Abrigo de paisagem /Veículo de passagem dá a ver a procura do Homem por um espaço de aconchego e abrigo, em meio ao mundo desgastado em que vivemos. O veículo, aqui, funciona como uma espécie de cápsula de passagem, de dispositivo de deslocamento entre paisagens que, a princípio, parecem tão díspares entre si. A passagem da cidade para o campo, do ambiente urbano ao rural, da cidade de São Paulo a Bragança Paulista – que podemos ver nos vídeos que compõem a mostra – diz respeito a um deslocamento não só meramente geográfico ou físico, mas também, e talvez principalmente, de estados. Da vigília ao sonho; da realidade ao espaço de realização de desejo, nessa pequena fenda onde as coisas ainda parecem fazer sentido. Nessa busca, percebe-se o desejo de se trabalhar com a passagem do tempo. Não só do tempo da performance vivida pelo artista; do tempo da edição dos vídeos que compõem a exposição; do tempo da residência em São Paulo, mas também da passagem do tempo que se pode verificar nos objetos incorporados ao projeto. O caráter obsoleto do carro, os portões de casas antigas da própria cidade, os motores que se espalham no espaço expositivo já sem função aparente, as raízes de árvores “mortas” encontradas e retiradas do espaço urbano. Entre passado, presente e futuro, percebe-se uma “busca pelo tempo perdido”, como diria Marcel Proust, um tempo que parece não voltar mais, mas que deixa resquícios nos sonhos de amanhã. Tanto em um vídeo como em outro, o artista realiza uma mesma ação: constrói, como uma espécie de arquiteto, um abrigo. Mas, aqui, não se trata de entender a figura do arquiteto, como aquela dos antigos livros de Vitrúvio, ou como aqueles tratados escritos por Leon Battista Alberti no século XV, que descreviam as regras ideais para a construção da bela cidade e morada renascentista. O abrigo de Rodrigo assemelha-se mais a uma construção como a do joão-de-barro, que tece sua morada com suas próprias forças e com os elementos que encontra na natureza. Seus abrigos se constroem na relação com seu corpo, através de uma ação performática de quase 48 horas de duração. Rodrigo escolhe “suas” paisagens, carrega e amarra portões, coloca plásticos coloridos para pro-
teger sua morada, retira galhos de uma árvore, camufla seu carro. Tece, minuciosamente, seus abrigos, como quem parece estar à procura de um espaço simbólico de proteção. Como diz Bachelard (2008): A casa é uma das maiores forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio de ligação é o devaneio. (…) Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. É corpo e é alma. É o primeiro mundo do ser humano. Antes de ser “jogado no mundo” (…) O homem é colocado no berço da casa. O abrigo possibilita, assim, ao Homem um enraizamento mais profundo na vida, constituindo-se como um elemento de estabilidade e proteção. A casa abriga o devaneio, protege o sonhador, permitindo-lhe sonhar. É desse abrigo que o artista nos fala em seus deslocamentos, desse espaço de sonho e realização do desejo: do desejo inexorável de se estar próximo às raízes da natureza.
Priscila Arantes é diretora do Paço das Artes e curadora da exposição
Bibliografia BACHELARD, G. A poética do habitar. São Paulo: Martins Fontes, 2008. BRAGA, Rodrigo. Fôlder da exposição Desejo eremita, 2009. Disponível em: http://www.rodrigobraga.com.br/folder_desejo_eremita.pdf. http://files.cargocollective.com/574095/2009-por-Rodrigo-Braga-Desejo-eremita.pdf MENDES, P. Narrativas nômades de Rodrigo Braga, 2014. Disponível em: http://files.cargocollective.com/574095/2014-por-Priscilla-Mendes.pdf.
Governo do Estado de São Paulo
Paço das Artes
Governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin Secretário de Estado da Cultura Marcelo Mattos Araujo Coordenadora da Unidade de Preservação do Patrimônio Museológico Renata Vieira Motta
Diretora Artística e Curadora Priscila Arantes
Paço das Artes Organização Social de Cultura Conselho de administração Presidente Cosette Alves Vice-Presidente Antônio Hermann Conselheiros Cecília Ribeiro, James Sinclair, Marcello Hallake, Max Perlingeiro, Nilton Guedes, Renata Leticia da Silva Diretor Executivo André Sturm Diretor Administrativo-Financeiro Jacques Kann
Núcleo de Comunicação Coordenadora Carolina Ferreira Equipe Michele Polistchuk Tomassi (estagiária) e Ilara Silva Marques (aprendiz) Núcleo de Documentação Natália Fabrício Lima Núcleo Educativo Coordenadora Christiana de Moraes e Silva Equipe Thiago Dombrowski Núcleo de Montagem Coordenadora Maria Gonçalves da Silva Equipe Aldo Pinto Rosado Filho, Ismael Pereira dos Santos, Moises dos Santos Silva, Renan Leonardo de Jesus, Salvador Febronio da Silva Filho Núcleo de Projetos Coordenadora Larissa Souto Equipe Mariana Sesma e Vanessa Rodrigues Núcleo Receptivo João da Silva Lourenço [Índio], Maria Soraya Ximenes Secretária da Diretoria Técnica Lívia Caroline da Silva
Abrigo de paisagem/Veículo de passagem
CATÁLOGO
Artista Rodrigo Braga
Coordenação editorial Carolina Ferreira
Curadoria Priscila Arantes
Projeto gráfico Vitor Cesar
Projeto gráfico Vitor Cesar
Fotografias Rodrigo Braga
Equipamentos Audiovisuais Fusionáudio
Revisão Regina Stocklen
Equipe de vídeo Diretor de fotografia Tiago Pastoreli Assistente de fotografia José Gomes Assistente de câmera Guilherme Castro Captação e mixagem de som Zastrás Assistente de artista e figurino Carol Azevedo
Textos Priscila Arantes
Agradecimentos Carol Azevedo, Carlos Oliveira, Fabio Delduque, Galpão Busca Vida, Marcelo Amorim, Nino Cais, Prefeitura do Campus USP da Capital Paulista, Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, Rafael Golin Galvão/Subprefeitura Lapa, Simone Moraes, Tiago Pastoreli
Paço das Artes Avenida da Universidade, 1, Cidade Universitária, São Paulo – SP Tel.: (11) 3814-3842 | 3815-4895 Quartas a sextas-feiras, das 10h às 19h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 18h. Agendamentos de visitas orientadas: educativo@pacodasartes.org.br Grátis www.pacodasartes.org.br www.mapa.pacodasartes.org.br Paço das Artes nas redes sociais @pacodasartes Ícones Facebook/Twitter/Instagram/Youtube e Vimeo