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APTO - A Moradia Moderna de Brasília

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A moradia moderna de BrasĂ­lia


Lucio Costa

Dar morada ao homem – a todos os homens e suas famílias - é o desafio da Era Tecnológica (…) A chamada “massificação” é uma fatalidade histórica decorrente do fato de já ser tecnicamente possível dar à totalidade das pessoas condições condignas de morar. A moradia do homem comum há de ser o monumento símbolo do nosso tempo, assim como o túmulo, os mosteiros, os castelos e os palácios o foram em outras épocas. Daí ela ter adquirido (…) simplesmente por seu tamanho, pela volumetria do conjunto e pela escala, essa feição de certo modo monumental.


Housing for mankind - to all men and their families - is the challenge of the Technological Era (...) The so called “massification� is an historical destiny derived from the fact that it is already technologically possible to provide decent conditions of habitation to all humanity. Housing for the common man needs to be the monument of our time, as burial mounds, monasteries, castles and palaces were in other eras. For this reason it acquired (...) just because of its size, its scale, and the volume of the complex, a certain monumental appearance.


Antonio

Eu venho do Rio. Cheguei em Brasília no dia 2 de outubro de 1959. Eu era funcionário da Câmara dos Deputados, e fui transferido para cá. Sempre morei neste apartamento, estamos aqui até hoje. E vou morrer aqui. O que eu vou fazer? Sair daqui para onde? Estou aposentado, e eu gosto deste lugar. Hoje em dia, só moramos aqui eu e minha mulher. Minhas duas filhas se casaram. A mais velha foi embora para Porto Alegre, a outra mora aqui em Brasília, e vai chegar daqui a pouco. Ela é viúva. Meu genro morreu cedo, com 50 anos e 5 dias. Bebia muito conhaque e fumava muito. Um rapaz bom, um menino bom demais... Mas o vício é uma coisa terrível! Olha, essa é a minha esposa. Essa foto é do ano passado, ela agora tem 70 anos. Não é bonita? E eu gosto de mulher feia? Ela é francesa. Caprichosa que só ela! Bom, e esse aqui é meu filho mais novo. Esse nasceu aqui em Brasília e já está com 48 anos. É um advogado de mão cheia esse menino! E ainda tenho dois netos: uma é auditora, de 24 anos, e o menino tem 17, e acabou de passar na universidade.

No começo, era muito difícil morar aqui. Sair de Botafogo, no Rio de Janeiro, para vir para esse faroeste… Eu apenas um funcionário pau mandado. Quando o Ulysses Guimarães, que era meu chefe, me falou: “– Olha, quero um homem da minha confiança, e esse homem é você”, eu fiquei meio assim... Era para vir na segunda-feira seguinte. Eu quase morro! E como chegar em casa e dizer isso para a minha mulher? Antes isso aqui era só mato. Não tinha as outras quadras, a 307, a 308. Naquela época, vir para Brasília era um tormento enorme na vida do funcionário. Mas hoje a sorte desse país é esta terra. Este edifício aqui foi o primeiro a ficar pronto. Essa quadra tem 11 prédios, mas o primeiro a ficar pronto foi este. Quem construiu foi o antigo IAPB [Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Bancários]. Eles eram os encarregados pelo Governo de construir os blocos, e a Câmara tinha sua cota de apartamentos para dar aos seus funcionários. Entregavam-nos os apartamentos assim, sem nada. Depois, com o tempo, a gente


pensou em fazer uma reforma, para que a casa ficasse do jeito que a gente queria. Por exemplo, eu mudei a posição do nosso banheiro e do de empregada, para nos dar mais espaço. Essa reforma eu fiz há uns 12 anos mais ou menos. Coisa da minha mulher. Ela é toda assim rapaz, é toda fina! Quando inauguraram o edifício, inauguraram a quadra ao mesmo tempo. Eu não fui à festa porque naquele tempo a gente não podia se expor. Éramos “os” homens desta cidade. As coisas não eram como hoje, onde qualquer cachorro mete a cara, faz o que quer e o que não quer. O Juscelino Kubitscheck eu conhecia, e como! Ele morava no Catetinho, mas vinha despachar em um dos apartamentos deste bloco, quando estava chovendo ou quando ele saía muito tarde do Palácio. E é claro que ele fazia suas festinhas por aqui. Quem acabou com ele foi o Carlos Lacerda. Esse foi o pior homem que eu já vi na minha vida. Ele subia na tribuna e acabava com o Juscelino. Tanto que chamavam de “lacerdinha” os redemoinhos de poeira que davam por aqui.

Mas em geral essa turma de velhos deputados era de homens de bem. Diferente de hoje, onde a maior parte é ladrão. Eu não voto mais, não adianta. Você não pode confiar no ser humano. Este apartamento é muito bom, é aconchegante. Eu gosto dele porque eu sou igual a gato. Já ouviu falar que gato quando nasce gosta de ficar no mesmo lugar? Eu podia morar em um bem maior. Eu tenho um outro de quatro quartos, do tamanho de quatro apartamentos deste. Mas eu não quero mudar porque aqui eu tenho meus amigos, aqui eu conheço todo mundo na rua, na Igrejinha, no clube... Eu estou com 76 anos - e o que eu espero mais da vida? Só levar a vida brincando com todo mundo. Agora já não há tantos moradores antigos. Quase todos já se mudaram, muitos outros morreram. Neste prédio, acho que só restam quatro.


Antonio

I’m from Rio de Janeiro. I arrived in Brasilia on the 2nd of October 1959. I was a civil servant in the House of Congress, and I was transferred here when they moved the capital. Since then I’ve lived in this apartment. And I’m going to die here. What can I do? Where would I go? I’m retired, and I like living in this place. These days only my wife and I live here. My two daughters are married. The eldest has moved to Porto Alegre. The other lives here, in Brasilia, and she is going to come over in a bit. She’s a widow. My son-in-law died very young, at the age of 50 years and 5 days. He drank a lot of cognac and smoked too much. A very good lad, but addiction is a terrible thing. Look, this is my wife. This photo is from last year. She’s 70 years old now. Beautiful, isn’t she? You don’t think I’d like an ugly woman, do you? She’s French, and fanciful like nobody else. Well, and this here is my youngest son. He was born here, in Brasilia, and he’s already 48 years old. He’s a big lawyer, this boy! I’ve also got two grandchildren: one’s a girl, she’s 24 and is an auditor; the other’s a lad of 17, and has just started at university.

To start with, it was very difficult to live here. To leave Botafogo, my neighbourhood in Rio de Janeiro, and adapt to living out in the bush ... I was a simple civil servant who did what he was told. But I trembled when my boss, the congressman Ulysses Guimarães, came and said: “Look, I need a man who I can trust in Brasilia, and this man is you”. I had to go the following Monday. I almost dropped down dead. And how would I go home and tell my wife about it? Before, there was nothing but countryside. The other superquadras [the blocks of Brasilia] didn’t exist, like numbers 307 or 308, for example. In those days, moving here was a torture that civil servants had to live with. But today the motor of this country is this here land. This block was the first to go up. This superquadra, 108 South, has eleven buildings, but the first to open was this one. It was built by the old Institute of Retirement and Bank Worker’s Pensions. The Government gave these organisms the responsibility of constructing the place, allocating the House of Congress a quota of apartments to distribute among its employees.


We received our dwellings just as they were, completely empty. After a few years we did some work on the place to adapt the space to our taste. For example, I changed the place of the principal bathroom and the servants’ bathroom to make our one more comfortable. This work I did about 12 years ago, more or less. My wife’s idea. She’s like that, very refined! The inauguration of the building coincided with the one of the block. I wasn’t at the party because in those days we were the social elite. Things weren’t like they are now, when anyone can stick their nose in anywhere. Back then, each person knew their place, and today everyone does whatever they feel like. I met president Juscelino Kubitscheck, and boy, did I know him! He lived in Catetinho, but when it was raining or he left the Palace very late, he came to stay in one of the apartments in this building. And of course he threw his parties round here. The one who ruined it all was Carlos Lacerda. He was the worst man I’ve ever met. He got up onto the rostrum and just destroyed Juscelino. His cruelty was such

that they named those dust devils that you get in Brasilia “lacerdinhas”, after him. But in general these old congressmen were good men. Very different from today, where most of them are corrupt. I don’t vote anymore; it’s useless. Human beings can’t be trusted now. This apartment is very good, it’s very comfortable. I like it because I’m like a cat. You know that a cat always likes to live in the same place? I could live in a much bigger apartment. I’ve got a four bedroomed place, the size of four of these apartments. But I don’t want to move because I’ve got all my friends here; I know everyone on the street, in the church, and in the club. I’m 76, and what more can I ask for in life? Only to keep on enjoying myself with everyone. Now there are hardly any neighbours left from the first arrivals. Almost all of them have moved, and many others have died. In this building I think there are only four others.


Virgílio

A primeira vez que eu pisei nessa terra foi em 1958, para a inauguração da Igrejinha. Naquela época eu trabalhava para a Presidência, servindo à primeira-dama, dona Sarah Kubitscheck. Ela havia feito uma promessa de construí-la se sua filha se curasse de uma doença, e essa igreja acabou sendo a primeira construção em alvenaria na cidade. Mas eu só me mudei em definitivo em abril de 1960, no mês da inauguração. E vim direto para este apartamento. Como eu trabalhava no Palácio, eu tinha algum status, e uma das regalias era poder morar nestes edifícios, que eram os melhores da cidade.

namoradas... Naquele tempo, para namorar, noivar ou casar, tinha que levar os pais da moça para conhecer o lugar onde vivíamos. Cheguei a trazer algumas meninas que eu namorei para conhecer Brasília. Uma delas veio com a família, e ficaram hospedados em um apartamento aqui nessa mesma quadra. Vieram passar 10 dias, mas no final não aguentaram ficar nem 24 horas! No dia seguinte, logo pela manhã, me disseram: “– Olha, eu gosto muito de você, mas aqui não tem condição!”.

Eu fiquei à disposição da Presidência durante todo o mandato do Juscelino. Eu cuidava da agenda da dona Sarah, das viagens, da correspondência... Quando ele saiu do Governo, eu disse que queria voltar para o Rio, mas a dona Sarah foi contra: “– Não! Sua vida agora está aqui em Brasília!”. Acabei ficando, e fui trabalhar no Ministério da Educação.

E não tinha mesmo. Eu não queria ficar em Brasília de jeito nenhum, aqui não tinha nada. Não tinha mulher, não tinha árvore, não tinha flores... não tinha nada! Eu tinha que ir até a Cidade Livre para fazer compras. Havia também o povoado da TeleBrasília, onde morava um pessoal trabalhador, gente muito humilde. Eu ia até lá para poder conversar com alguém, porque aqui não tinha absolutamente ninguém.

Mas a minha cabeça sempre esteve no Rio. Eu era jovem, tinha as minhas

Era muito difícil acostumar-se com a seca, a poeira, a falta de espaço. Muitas


das coisas que vieram com a minha mudança simplesmente não couberam. Este móvel aqui, por exemplo, tivemos que amarrar com cordas e subir pela janela. Todos estes móveis vieram do Rio. Estes aqui e aquelas duas cadeiras. Conseguir uma empregada por aqui também era uma questão complicada. Eu trouxe uma do Rio, porque na minha casa havia três. Eu disse à minha mãe que tinha que levar a mais feia, que assim ia ter menos trabalho. E não é que a menina em seis meses arranjou um rapaz do Tribunal, casou-se e voltou para o Rio! Achar uma empregada que fosse daqui mesmo era quase impossível. Havia algumas em Luziânia e em Planaltina, gente da roça... Eu vim sozinho para Brasília. Como eu podia botar a minha família, morando no Rio, na cidade mais aculturada do país, nesse fim de mundo? O carioca era contra a mudança da capital, isso nos parecia um despropósito. Havia uma campanha muito forte contra Brasília. Tinha um jornalista que dizia que

aqui só tinha índio, mato, bicho selvagem. Aí eu pensava: “– Meu Deus, onde é que eu vou parar?”. Mas os colegas que já haviam chegado me diziam que não tinha nada disso. E foi isso mesmo. Nunca fui sequestrado, nenhum bicho me comeu, não tive nenhuma doença grave. Fui testemunha de todo o período da ditadura, mas não sou do tipo que abre a boca. E aqui estou, aproveitando meus 84 anos, nessa cidade que, finalmente, se tornou minha casa.


Virgílio

I took my first step in Brasilia in 1958, for the inauguration of Igrejinha, the little church. By this time, I was working in the Presidency serving the First Lady, Mrs. Sarah Kubitscheck. She promised to build this church if her daughter recovered from an illness. And then this became the first building made of concrete in the city. But I only moved here permanently in April 1960, the very same month that the capital was inaugurated. I came straight to this building. As I worked in the Palace, I had some status, and one of the perks that we were given was to live here in these apartments, the best in the city. I was at the disposal of the Presidency for the whole of Juscelino’s mandate. I was in charge of dona Sarah´s agenda, her trips, and her correspondence. When he left the government, I told them I wanted to go back to Rio, but dona Sarah was against it: “No, your life is in Brasilia now!”. That’s how it was that I stayed and started to work in the Ministry of Education. But my mind was always in Rio. I was young, I had my girlfriends. In those days,

to fall in love, to get a girlfriend or get married, it was necessary to take the girl’s parents along so they could see the place we were going to live. Once I brought a girlfriend and her family to see Brasilia. They stayed in an apartment in this very same block. They came for 10 days, but in the end they couldn’t even stand 24 hours! The next morning she said to me: “Look, I like you a lot, but there’s no way I’m going to live here!”. And there really was no way. I myself didn’t want to be in Brasilia. There weren’t women here, trees, flowers... There wasn’t anything! I had to go over to the construction settlement in Cidade Livre to do my shopping. There was another workers’ village called TeleBrasilia. They were very humble people, and I had to go all the way over there to talk with someone, because here I couldn’t find anyone at all who I could relate to. It was very difficult to get used to the drought, the dust, the lack of space. The removal service arrived with my belongings, but they didn’t fit here. This piece of


furniture, for example, they had to bring in through the window on a rope. All of this furniture came from Rio. This here, and those two chairs. Getting hold of domestic staff was also a complicated question. I brought one from Rio; in my house there we had three. I told my mother that the ugliest one had to come, so she’d give me fewer problems. The girl, six months later, got a boyfriend who worked at the Courts of Justice. They got married and went back to Rio. Finding a local staff here was very difficult. I had to look for one in the villages of Luziânia and Planaltina, among the country people. I came alone to Brasilia. How could I bring my family, from the most cultured city in the country, out to the edge of the world? We cariocas, people from Rio, were against the change of capital, all of this seemed to us like a lot of nonsense. There was a very strong campaign against Brasilia. A journalist said that here there were only indigenous people, countryside and wild animals. I thought “- My God,

but where is it that I’m going to live!”. But my friends who had already arrived said that none of this was true. And that’s how it was. I´ve never been never kidnapped, no animal has eaten me, I haven’t had any serious illness. I was a witness to the whole military dictatorship, but I’m not one to open my mouth. And here I am, making the most of my 84 years, in this city that finally became my home.


Luis Humberto

O desejo de investigar e de revelar está no trabalho de Leonardo Wen, que numa espécie de “invasão consentida” vai à intimidade de apartamentos de Brasília nos quais habitam seres humanos comuns, envoltos em suas memórias, em meio a desarrumações e vestígios de suas passagens. São fragmentos e instantes, com a ausência dos atores perdidos em frias vizinhanças. Existe aqui um anúncio sensível de nossa humanidade e de nossa fugacidade, da vida que passa veloz, deixando lembranças.


The desire to investigate and to reveal is in the work of Leonardo Wen who, in a consensual invasion, enters the intimacy of Brasilia’s apartments, where ordinary human beings live, cocooned in their memories, their clutter and the traces of their presence. These images are fragments and moments, with the absence of the actors lost in cold neighbourhoods. Here is a sensitive statement of our humanity and of our transience, of our life, which passes rapidly, leaving memories.


Domesticidade Moderna: A feição das moradias de Brasília Carlos Henrique de Lima


Até onde se vê, até onde a vista alcança, tudo é encontro: entre a força da terra vermelha e o azulado celeste, da campina circunvizinha tomando aos poucos as massas edificadas, da linha tênue do horizonte que lhe desenha a feição. Em Brasília, essa simbiose se dá em diversas escalas que possibilitam leitura rica e plural, e que nunca terminam o que têm a nos dizer. É desse encontro de oposições que podemos enxergar seus espaços urbanos a partir de uma perspectiva sensorial muito particular. Ao circular pela cidade, especialmente ao fazê-lo com certa vagueza, redescobrimos os nossos sentidos e o expediente de nossas percepções se dilui em uma disposição contemplativa com aquilo que Lucio Costa imaginou de maneira precisa e afetuosa. E muitas são as maneiras de nos reencontrarmos com essa cidade: no caminho das crianças para a escola, que nos oferecem sonho e nostalgia, imaginamos que elas passarão por uma manhã de descobertas; nos carros que correm como uma manada metálica enfurecida em direção ao centro; no café da manhã servido nas saídas das passarelas subterrâneas de pedestres, apreciados por aqueles que vêm, tanto de longe como de perto, para exercerem a dura rotina de

seus trabalhos. Essa tangência ininterrupta promovida pela atividade urbana, e que tanto modela nossa experiência de mundo, tem em Brasília um sentido a mais, uma vez que estabelece outras afinidades entre tempo e materialidade, resultado da filiação às ideias de Le Corbusier sobre a relação entre construção e natureza. O poeta Durs Grünbein, em um ensaio de impressionante concisão, fala de uma passagem na Odisséia na qual o herói, aprisionado por uma ninfa, chora solitário à beira do mar. Esse momento é descrito pelo escritor alemão como uma parábola da vida, por nos dizer que somos, afinal, feitos da mesma matéria que compõe o mundo. Assim sendo, estamos sujeitos à inclemência dos ciclos da vida e a todas as tribulações que eles nos causam. “A umidade menor, o véu de lágrimas, é cercada, reabsorvida sumariamente – para não dizer sorvida – pela umidade maior, o mar salgado.”1 A imagem que Homero nos oferece encontra em Brasília eco semelhante. Tanto as amplas panorâmicas em que se descortinam os fundos infinitos como as sucessivas vistas fragmentadas que se abrem ao percorrermos os espaços mais contidos da capital nos fazem recobrar nosso contato com a natureza e com a


maneira como lidamos com suas transformações. Afinal, a essência das coisas também nos forma e, aqui, nosso contato com o céu, a água e o chão nunca ocorre a distância. A severidade dos ciclos da natureza dá a devida escala da nossa presença nessa cidade, inventada com sensibilidade e erguida com firmeza por levas de trabalhadores. Lucio Costa previa um alto grau de interação entre a cidade e seus habitantes. Para ele, a estrutura urbana poderia condicionar essa relação e, consequentemente, definiria também o modo de ocupação dos espaços públicos. Na leitura precisa de Guilherme Wisnik2, essa lógica deve ser compreendida a partir de um contexto histórico, dentro do que se pode chamar de uma construção social da paisagem. Para o autor, a arquitetura robusta e introspectiva que caracteriza a época colonial é um reflexo do processo de interiorização do país, baseado nas ideias de proteção e refúgio, no medo do selvagem e do desconhecido. Por outro lado, o urbanismo moderno aplicado em Brasília, apesar de se apropriar de certos elementos da arquitetura colonial, propõe uma nova configuração espacial, baseada em um desenho urbano livre, disperso e conciso, capaz de promover uma sociabilidade ativa. Esse é o

pano de fundo sobre o qual se delineiam as esferas da vida pública e privada nessa cidade. Sobre as sucessivas distâncias Brasília é uma plataforma privilegiada de observação que a todo tempo nos confronta com a memória que temos de outras cidades, com a experiência que guardamos delas, seja de suas ruas, cheiros, sons, cores ou pessoas. Esse constante movimento de aproximação e afastamento, e essa estranheza sentida com a lógica de articulação dos espaços que compõem a capital demandam uma modificação interna em nossos parâmetros de sociabilidade. A partir da experiência de seus moradores e do contexto sócio-político dos anos 1960 em diante, o cotidiano de Brasília foi tomando uma feição própria que, pouco a pouco, traduziu-se em um distanciamento em relação aos preceitos que guiaram a sua fundação. Essa assimetria acontece em duas vias: por um lado, os espaços das superquadras se tornaram os mais propícios para que a vida privada das classes média e alta pudesse se desenvolver. Por outro lado, essas mesmas áreas assistiram a um esvaziamento da vida pública que havia sido projetada para elas.


Apesar da generosidade dos gramados que conformam as tramas de caminhos dos pedestres, são raros os momentos em que percebemos sua ocupação mais deliberada e menos cerimoniosa. Nas entrequadras, “peladas” acontecem espontaneamente; moradores levam seus cachorros para passeios e corridas; crianças podem se espalhar com entusiasmo. Mas não se vêem pessoas fazendo piqueniques e churrascos, ou dispostas a tomar sol em roupas de banho, o que certamente daria outro tom ao lugar. Para isso, dependemos da capacidade de desprendimento em nossa relação com o outro, ainda marcada por um evidente baixo grau de interação. O conforto e a comodidade que deveriam ser propiciados pela cidade acabaram se convertendo em exceção. Os próprios pilotis, concebidos como elementos de interação urbana, por liberar a passagem no nível do chão, em muitos casos acabaram sucumbindo à lógica não superada da delimitação entre público e privado. Cercas, pisos e calçadas adjacentes servem para lembrar que o espaço térreo dos edifícios residenciais não são lugares de passagem, como se a circulação pelas quadras fosse uma concessão a ser controlada por poucos. Assim, os pedestres ficam impedidos de exercer

trajetos livres, abertos à especulação e ao devaneio, tal como definiu seu autor. Ainda que possamos perceber alguma pluralidade de proposições entre os blocos das superquadras construídas nas primeiras décadas de Brasília, as adaptações seguintes – com amaneiramentos por parte de síndicos e condôminos –, foram sucedendo-se em diferentes graus de circunspecção. É possível até mesmo perceber tendências e padrões nas reformas efetuadas, ao analisarmos um conjunto de duas ou mais quadras iguais, como é o caso das SQN 403 a 406, que possuem, duas a duas, um único tipo de bloco e a mesma disposição entre eles. Uma variedade de materiais de revestimento e de detalhes de acabamento transforma os pilotis em verdadeiros mostruários públicos, vitrines que procuram criar uma diferenciação em meio à unidade. Daí a exata medida em que podemos estender, em duas frentes, essa leitura para os interiores dos apartamentos. Primeiro, porque o desenho de cada planta deriva de um contexto de época que envolve um programa de necessidades arquitetônicas, técnica construtiva, legislação específica e, principalmente, determinada filiação de linguagem por parte de cada arquiteto.


Segundo, porque cada residência é território livre, sujeito a um infinito número de reformas e adaptações, em muitos casos opostas à depuração de elementos e austeridade geométrica que caracteriza esses edifícios modernos. Todo o expediente da técnica urbanística do século XX, convivendo sem constrangimento com a personificação livre que cada habitante confere à sua moradia. Há ainda outra questão que permeia a difícil superação das condições atávicas de nossas interações sociais. Na mesma medida em que ocorre uma gradativa separação entre o planejamento espacial do Plano Piloto e a vagueza na administração das cidades satélites, as próprias plantas das moradias refletem significativamente essa oposição. Não são raros os apartamentos que possuem dois quartos e dependência de empregados; ou ainda, num extremo, plantas de apenas um dormitório e com um sanitário de serviço, reflexo da coexistência de uma certa mentalidade retrógrada com as concepções progressistas que deram origem à capital. Inventário aberto Em 1967, Joaquim Pedro de Andrade realizou um filme institucional a pedido da

Olivetti que acabou ficando por muitos anos sem exibição e sendo armazenado de maneira precária. Brasília: contradições de uma cidade nova é um relato de impasses diversos, das relações sociais conflituosas que presidiram tanto o período de construção quanto as épocas posteriores à sua inauguração. Cabe aqui ressaltar um mérito do documentário, que é abordar, por meio de longos planos de filmagens, a cidade ao rés-do-chão. Em muitos casos, as sequências se iniciam nos interiores de apartamentos e lojas de comércio local, e seguem em direção ao chão gramado ou às vias de veículos. As filmagens das escalas do Plano Piloto são acompanhadas pela Gymnopédie, do compositor Éric Satie, enquanto o registro da rodoviária e das satélites é intercalado pela canção Viramundo, de Gilberto Gil e Capinam, interpretada por Maria Bethânia. Tal escolha dá bem o tom de separação que o cineasta procurou estabelecer entre a depuração formal e estabilidade na concepção de Brasília, e a vida dura dos retirantes que ali não encontraram lugar. Em outro momento, vê-se o desacordo entre as propostas dos arquitetos e o gosto dos moradores. A ambição ou expectativa dos habitantes em manifestar sua individualidade não encontram limites no âmbito privado dos


apartamentos, mas se multiplicam em modos de comportamento e de intervenção nos outros espaços. Outro trabalho chave sobre a cidade é o livro Arquivo Brasília, coordenado por Lina Kim e Michael Wesely3. Trata-se de uma compilação feita a partir do acervo fotográfico do Arquivo Público do Distrito Federal e de outras fontes, e que traz à luz as vidas cheias de expectativas dos pioneiros que aqui vieram construir suas histórias. A possível equivalência entre a intimidade dos interiores e as grandes perspectivas sobre as áreas públicas que esse trabalho deixa entrever nos permite pensar a arquitetura dentro de uma perspectiva mais ampla, com a reflexão sobre o espaço no centro dos debates. Esse conjunto de narrativas e conteúdos sedimentados em torno de Brasília nos ajuda a compreender melhor como as qualidades morfológicas de cada trecho urbano, ou melhor, de cada uma das escalas do Plano Piloto, tecem entre si um jogo de equilíbrio tênue e um diálogo constante com o sentido da formação espacial brasileira. Sendo assim, esse registro é um inventário contemporâneo de um determinado modo de vida e das memórias que se acumulam no lastro da cultura arquitetônica do século XX.

De posse de roteiro impreciso, mas revelador, Leonardo Wen contribui para a antologia de discursos sobre Brasília com uma narrativa que nos permite explorar as questões colocadas ante a perspectiva moderna sobre os espaços residenciais. As imagens aqui apresentadas propõem uma visão que ultrapassa a presumível subjetividade desse encontro e vai mais além: as fotografias se mostram como peças autônomas àqueles vestígios encontrados em porta-retratos, texturas de paredes e recortes de janelas, para também constituir a fina matéria dessa história particular. Abordagem que traz algo de nostalgia, seja de caráter intimista ou coletivo, e de contrariedade ante a noção que se tem dessas barras de apartamentos enquando entidades anônimas, como se ali estivéssemos todos divididos, cientes e acostumados à nossa própria solidão. Nessa trilha, somos levados por visões de espaços que se constituem como um dispositivo de bricolagem e sobreposição, não alinhados aos preceitos de depuração da arquitetura moderna, dando novo fôlego e intensidade à leitura que se possa fazer dos limites residenciais. As fotografias mostram os apartamentos menos reformados da superquadra 108


Sul, a primeira a ser inaugurada, e formam um epílogo às imagens em preto-e-branco do início do livro. É a partir daí que se pode compreender os blocos e apartamentos em um contexto histórico específico, enquanto elementos vivos e em transformação. Os planos de laje e fiadas de tijolos erguidas com destreza pelos operários acabaram se transformando em favor de outras necessidades, adaptações inerentes às imprecisões do tempo, dessas que nos movem adiante e nos projetam além. Se por um lado lamentamos a frustrada gradação social que poderia ser estabelecida entre os padrões de edifícios, por outro celebramos o fato de esses blocos não terem começo nem fim, de estarem em movimento constante. A cada página encontramos novas surpresas: os revestimentos que se sobrepõem sem regras precisas; os ângulos cinzentos que se descortinam das salas, tomadas por uma luz lenta e gradual. Tudo parece convergir em uma aparência poética e reveladora. O olho mágico faz uma analogia precisa com esse jogo entre público e desconhecido que as fotos querem nos trazer. Os espaços dispostos por Lucio Costa parecem ter agregado uma grande dose de afetividade, tão logo foram traçados

os dois eixos que conformam o sinal da cruz, fazendo nascer aqui, como ele bem definiu, uma paisagem que a própria cidade criou. Esse acontecimento constitui um fato notável para a cultura nacional. Percorrer os labirintos dessa empreitada, ou descobrir aos poucos seu estado presente, é uma aventura à qual nos lançamos com grande entusiasmo, por sermos feitos dessa mesma matéria que constituirá, aqui e além, o conjunto de tantas memórias.

1. GRÜNBEIN, Durs. As lágrimas de Odisseu. Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. pp.113 – 114. 2. WISNIK, Guilherme. “Construção e Territorialidade”. In: KIM, Lina e WESELY, Michael. Arquivo Brasília. São Paulo: Cosac Naify, 2010. 3. KIM, Lina; WESELY, Michael. Arquivo Brasília. São Paulo: Cosac Naify, 2010.


Modern Domesticity: Features and affection in the housing of Brasilia Carlos Henrique de Lima


Wherever one looks, as far as the eye can see, the view is one of convergence: between the red earth and the blue sky, of the surrounding vegetation encroaching little by little upon built structures, of the forms drawn by the tenuous line of the horizon. In Brasilia, this symbiosis is found on diverse scales, which permit a rich and plural reading, and never stop revealing what they have to tell us. This convergence of contrasts allows us to perceive it’s urban spaces from a unique sensorial perspective. Wandering around the city, especially if we do it in an unhurried fashion, we rediscover our senses, and this stimulation of our perceptions engenders a contemplative predisposition as we gaze on the fruit of Lucio Costa’s precise and affectionate imagination. There are many ways of rediscovering ourselves in this city: on the children’s school run, which offers us reverie and nostalgia, we imagine that they will have a morning full of discovery; in the cars that stampede towards the centre like a furious metallic herd; in the breakfast served in the entrances to the subterranean pedestrian walkways, appreciated equally by those who travel from near and far to the hard routine of their jobs. This constant contact fostered by urban activity, shaping our experience of the world, has

a special meaning in Brasilia. Here, there are other affinities between the temporal and the material, a consequence of the affiliation to Le Corbusier’s ideas regarding the relationship between construction and nature. The poet Durs Grünbein, in an essay of impressive concision, refers to a moment in the Odyssey in which the hero, held captive by a nymph, cries alone on the sea shore. The German writer describes this moment as a parable of life, telling us that, in the end, we are made of the same material that the world is composed of. Therefore, we are subject to the inclemency of the cycles of life and all the hardship that they cause us. “The lesser humidity, the veil of tears, is enveloped, summarily reabsorbed - or rather, soaked up - by the greater humidity, the salty sea”.1 The image that Homer offers us finds a similar resonance in Brasilia. The ample backdrop against which infinite scenes are played out, as much as the fragmented views glimpsed when travelling around the city’s most hidden spaces, lead us to regain contact with nature and with the way we react to its transformations. In the end, we are also constituted of the essence of these things, and here,


contact with the sky, the water and the ground is never far away. The severity of nature’s cycles makes us realize the scale of our presence in this city, created with sensitivity and built with strength by masses of workers. For Brasilia, Lucio Costa imagined a high degree of interaction between the city and its inhabitants. In his opinion, the urban structure itself could condition this relationship and, in consequence, it would also define how public spaces are used. According to the precise vision of Guilherme Wisnik2, this logic could be comprehended from a historical perspective, inside what can be called “the social construction of our landscape”. According to the author, the robust and introspective architecture of the colonial period reflects the process of occupation of the interior of the country, based on the ideas of protection and refuge, on the fear of the wild and unknown. On the other hand, the urbanism and modern planning applied to Brasilia, despite appropriating certain elements of colonial edifices, propose a new spatial configuration based on a free, dispersed and concise urban design, capable of encouraging an active sociability. This is the backdrop against which the spheres of this city’s public and private life are drawn.

Regarding successive distances Brasilia is a privileged observation platform which constantly demands that we confront the memories and experiences that we have of other cities, whether it be their streets, smells, sounds, colours or people. This constant movement of rapprochement and separation, together with a sensation of discomfort with the logic of the organization of the spaces that constitute this capital, requires us to reasses what we understand sociability to be. From the experience of its inhabitants and the socio-political context of the Sixties onwards, Brasilia began to acquire its own characteristics which, little by little, have grown distant from the precepts that guided its planning. Such asymmetry can be found in two directions: on the one hand, the superquadras became the most conducive spaces to the development of the private sphere of the middle and high classes. On the other hand, these very same areas witnessed a decay in the social interaction that they had been planned for. Despite the generosity of the grass that marks the boundary of the pedestrian walkways, we rarely see a more deliberate


and less ceremonious occupation there. Between the blocks, football matches kick off spontaneously; neighbours take their dogs out to walk and run; children run around with an enthusiasm. But it is unheard of to see picnics, or people sunbathing in a bathing suit, which would certainly give the place another tone. Such behaviour would depend on a capacity for detachment in our relation with the other, still characterized by an evidently low degree of interaction. The comfort and convenience that the city was designed to foment became, in the end, an exception. The very same pilotis, conceived of as elements of urban interaction that would liberate the pedestrian at ground level, succumbed, in many cases, to the still predominant logic of the demarcation of the public and the private. Adjacent fences, walkways and pavements serve to remind us that the grounds of the residential buildings aren’t a thoroughfare, as if the circulation through these blocks were a concession that could be controlled by a few. Pedestrians are thus impeded from moving freely in the manner that the city’s author had planned. Even though we can perceive some plurality in the designs of the residential

buildings constructed during Brasilia’s first decades, the following adaptations occurred -with apathy on the part of the owners’ committees and residents in respects to the original plan- in distinct degrees of circumspection. Analyzing a group of blocks, it is even possible to identify trends and patterns in the renovations that have been carried out. This is the case of the superquadras 403 to 406 North, which have only two types of layout within the building and in the block. A variety of veneers and decorative finishes transform the pilotis into true public showcases, vitrines that aspire to express differentiation in the midst of uniformity. We can infer a direct continuation, on two fronts, of these external elements towards the interior of the apartments. Firstly, because the design of each plan derives from a specific context of the period that includes an architectural agenda, construction techniques, specific legislation and, principally, the pedigree of the language used by each architect. Secondly, because each residence is a free territory, subject to no end of potential renovations and adaptations, in many cases contrary to the refinement and the geometric austerity that characterize these modernist buildings. The entire


portfolio of 20th Century urban planning coexists peacefully with the personality that inhabitants bring to their dwelling. There is, furthermore, another issue that reflects the difficulty in overcoming the atavism inherent to our contemporary social interactions. In the same way that a gradual separation can be seen between the spacial planning of Brasilia and the neglect in the administration of satellite cities, this contradiction is also clear in the residential layouts themselves. It’s not unusual to find two-bedroomed apartments with servants’ quarters, or in extreme cases, one-bedroomed flats with a servants’ bathroom, explicitly illustrating the coexistence of a certain regressive mentality with the progressive conceptions that gave rise to the capital. Open Inventory In 1967 Joaquim Pedro de Andrade made an institutional film on the request of Olivetti that for many years was stored away, unwatched and collecting dust. Brasilia: contradictions of a new city is an account of diverse problems, such as the social conflicts that were common both during the period of construction and in the era following the inauguration. It is worth mentioning here an outstanding

merit of the documentary: the long shots that explore the city at street level. Many of the sequences start in the interior of the apartments and local shops, and advance towards lawn areas or the routes where vehicles circulate. The images of Brasilia are accompanied by Gymnopédie, composed by Éric Satie, while the scenes of the bus station and the satellite cities are interspersed with Gilberto Gil and Capinam’s Viramundo, sung by Maria Bethânia. This selection emphasizes the feeling of separation that the filmmaker wanted to establish between the formal refinement and balance in the conception of the city centre and the tough life of the builders. At another moment, we see the discrepancy between the proposals of the architects and the tastes of the residents. The aspirations or expectations of the inhabitants to express their individuality isn’t limited to the private sphere of the apartments, and extends to ways of behaving and intervening in other spaces. Another key work on the city is the book Brasilia Archive, edited by Lina Kim and Michael Wesely3. The compilation, drawing on the photographic heritage of the Public Archive of the Federal District and other sources, brings to light the


hopes of the pioneers who came here to build their lives. The possible equivalence that this work shows us between the intimacy of the interiors and the grand panoramas of public areas allows us to consider the architecture from a more ample perspective, and centres the debate on space. Brasilia offers a collection of narratives that help us better understand how the morphological qualities of every tract of urban land, or further still, each of the parts of the town weave a delicately balanced web, in constant dialogue with Brazilian spatial planning. In this sense, this record is a contemporary inventory of a certain way of life and the memories that fill the annals of 20th Century architectural culture. Armed with this imprecise but revealing script, Leonardo Wen contributes to the anthology of accounts about Brasilia with a record that enables us to examine the issues that arise from a modern perspective on residential space. His photographs of apartments suggest a vision that transcends the subjectivity expected of this encounter: the images are presented as autonomous pieces, independent from those vestiges found in picture frames, wall textures and the

view through the windows, to become part of the fine material that constitutes this particular story. It is a viewpoint that brings with it a little nostalgia, whether it be intimate or collective, and offers a counterpoint to the notion that we have of these anonymous apartment blocks, as if everybody there were divided, conscious of and accustomed to their own solitude. On this journey we are guided by views of spaces that, in their disorderliness, become detached from the formal precepts of modern architecture, breathing new life and intensity into our reading of residential issues. These photographs, taken in some of the less altered apartments of superquadra 108 South, the first block to be inaugurated, form an epilogue to the black and white images presented at the beginning of the book. This lets us place the buildings and apartments in a specific historical context, and in a process of transformation that remains alive. The surfaces of the walls and columns of bricks constructed dexterously by the builders end up catering for other needs, adaptations to the demands that crop up over time, such as those events in life that keep us going and lead us to strive on. Â


Even though on the one hand we regret the frustrated social integration that the different types of buildings could have established, on the other, we celebrate the fact that these structures have neither beginning nor end; they are in constant movement. On each page of this book we find new surprises: wall surfaces that superimpose each other without precise rules; the grey angles that appear in the living rooms, illuminated by a slow and gradual light. Everything seems to converge on a poetic and revealing narrative. The peephole is a suitable analogy of the interplay that the photographs suggest between the public and the private. The spaces laid out by Lucio Costa seem to have brought together large doses of affection, soon after he traced the two axes that form the symbol of the cross, bringing to life a landscape that the city itself invented. The construction of Brasilia represents an important moment for our national culture. Exploring the labyrinths of this feat, and gradually discovering its present, is an adventure upon which we embark with great enthusiasm, for we ourselves are made of the same material constitutes the accumulation of so many memories.

1. GRÜNBEIN, Durs. As lágrimas de Odisseu. Revista Serrote. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010. pp.113 – 114. 2. WISNIK, Guilherme. “Construção e Territorialidade”. In: KIM, Lina e WESELY, Michael. Arquivo Brasília. São Paulo: Cosac Naify, 2010. 3. KIM, Lina; WESELY, Michael. Arquivo Brasília. São Paulo: Cosac Naify, 2010.


ANEXOS


Agradecimentos A todos os moradores que, gentilmente, me receberam em seus lares

Acknowledgments To all those inhabitants who have kindly received me in their homes

PatrocĂ­nio Sponsorship


Fotografia e edição Photography and editing Leonardo Wen

Tratamento de imagem Color management Cia de Foto

Design gráfico Graphic design N2 Estudio

Revisão de texto Proofreading Ana Amélia Viana

Tradução English translation Colin Brooks

Impressão e acabamento Printing and binding Intergraf


Fontes Sources

Págs. 02 a 09, 12 e 13 Arquivo Público do Distrito Federal Fotos: Mário Fontenelle Págs. 10 e 11, 14 a 17 Arquivo Público do Distrito Federal Fotos: autores não identificados Págs. 18 e 19 Diretoria de Gestão do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Secretaria de Estado de Cultura do Distrito Federal Págs. 20, 150 e 151 Brasília: Edição Arquitetura e Engenharia. Rio de Janeiro: Edição Especial, julho/ agosto de 1960 Foto e ilustração: autores não identificados Pág. 22 e 23 COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Editora Empresa das Artes, 1996 * Tradução própria

Págs. 138 a 147 Arquivo Público do Distrito Federal Págs. 148 e 149 Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Distrito Federal


Copyright © 2011 Fotos Photos Leonardo Wen Textos Texts Luis Humberto Carlos Henrique de Lima Edição Edition Tempo d´Imagem

Distribuição gratuita Proibida a venda No sell permitted Tiragem: 1000 exemplares Print run: 1000 copies


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sindicato Nacional dos Editores de Livros - RJ, Brasil

W492a Wen, Leonardo Apto: a moradia moderna de Brasília / [fotografias e edição] Leonardo Wen; [versão para o inglês Colin Brooks]. Fortaleza, CE: Tempo d’Imagem, 2011. 156p.: il. Texto bilíngue, português e inglês ISBN 978-85-87314-30-7 1. Edifícios de apartamentos - Brasília (DF) - Fotografia. 2. Habitação - Brasília (DF) - Fotografia. 3. Fotografia arquitetônica - Brasília (DF). I. Título. 11-1676. CDD: 779.944 CDU: 77.049.1:640.1


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