CHRONARCH Esta revista faz parte de um trabalho acadêmico desenvolvido por alunos da Universidade Feral da Bahia (UFBA), com o propósito de abordar temas relacionados à conservação e restauro. Chronarch é o termo que encontramos para representar a história preservada pelas obras arquitetônicas. Composto pelo prefixo chrono: em inglês, signfica tempo; e arch: forma reduzida da palavra architeture.
JBF editora
Edição 001 - Outubro/2021 Fotografia da capa por: Mauro Grazzi. Disponível em unsplash.com Atenção: Parte do conteúdo exposto pode ser fictício, por exemplo: anúncios e marcas. Conteúdo desenvolvido, digitalmente, para fins acadêmicos. Sendo vetado qualquer tipo de compartilhamento e reprodução impressa, de todo ou parte do material.
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA Faculdade de Arquitetura & Urbanismo Matéria: arqa52 - Tecnologia da conservação e do restauro. Ministrada pela professora Viniane Oliveira de Jesus. Atividade acadêmica desenvolvida em 2021 pelos alunos: Bruna Barreto, Fátima Mendonça e Joaquim Mota; integrantes da turma 01. Em especial, registramos nosso agradecimento ao artista plástico, arquiteto e mestre em restauro de monumentos: Chico Mazzoni; pela entrevista concebida.
SUMÁRIO
Coliseu - Roma, Itália Fotografia: Maeva Vigier | Disponível em Unsplash
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Em cada lugar... Uma história pra contar.
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Chico Mazzoni: Arquiteto e artista plural
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Em cada lugar... Uma história pra contar.
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Baianas do Acarajé: Patrimônio cultural imaterial do Brasil
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Em cada lugar... Uma história para contar.
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Em cada lugar... Uma história para contar.
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Camillo Boito: O passado conversa com o presente.
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Em cada lugar... Uma história para contar.
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Restauro ou Reforma?
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Em cada lugar... Uma história para contar.
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Casa da História e Arquivo Público
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Em cada lugar... Uma história para contar.
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#EducaçãoPatrimônial
Introdução do ensaio fotográfico e foto 1 - Igreja de Madeira Borgund (Noruega)
Conheça o ponto de vista do artista sobre intervenções no patrimônio histórico nacional.
Foto 2 - Torre Eiffel (Paris, França)
Foto 2 - Torre Eiffel (Paris, França)
Foto 3 e 4 - Fórum Romano e Coliseu (Roma, Itália)
Foto 5 - Sagrada Família (Barcelona, Espanha)
Uma conversa sobre sua filosofia de restauro.
Foto 6 - Igreja Senhor do Bonfim (Salvador, Brasil).
Entenda o que aconteceu no Palácio de Paranaguá.
Foto 7 - Igreja de Ordem Terceira de São Francisco (Salvador, Brasil).
Concepção de Elena C. sobre o restauro da edificação.
Foto 8 - Casa de Jorge Amado (Ilhéus, Brasil).
Foto 8 - Casa de Jorge Amado (Ilhéus, Brasil).
Em Cada Lugar... Uma História para Contar Por Fátima Lorena Mendonça
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ocê já parou para pensar que cada lugar que você já visitou, morou ou apenas passou tem uma história? Dessa história ficam-se os “bens” materiais e imateriais, que é deixado de uma geração para outra, e que ao longo do tempo vai construindo as identidade e características daquele local e sua sociedade. Por isso, trouxemos aqui algumas imagens de patrimônios, de alguns lugares espalhados pelo mundo.
1. Igreja de Madeira Borgund - Noruega Por Fátima Mendonça
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Chico Mazzoni
Arquiteto e artista plural Numa entrevista exclusiva, conheça o pensamento do artista sobre intervenções no patrimônio histórico nacional.
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oteropolitano e multitalentoso, aos 13 anos, Chico Mazzoni expõe, pela primeira vez, suas obras como artista plástico, no Gabinete Português de Leitura de Salvador. Porém sua contribuição para o cenário artístico baiano vai muito além. Arquiteto, Mestre em restauro dos monumentos (pela Universidade de Nápole - Itália), cenógrafo e designer; Chico também atuou como professor, ensinando em cursos de graduação da Faculdade de Arquitetura, ministrando o Curso de Especialização em Restauro da Faculdade de Arquitetura - UFBA, além da disciplina "Plástica" no curso de arquitetura da Universidade Salvador (UNIFACS). E, diante do detentor desse vasto conhecimento, pudemos realizar uma breve entrevista sobre intervenções em obras do patrimônio histório nacional e conhecer seu ponto de vista. Confira como foi nossa conversa!
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O que você entende por: intervenções patrimoniais?
"Entendendo que a cidade começa em algum momento mas nunca termina, qualquer ação do arquiteto e urbanista sobre a mesma será sempre uma intervenção patrimonial, ele estará sempre introduzindo ou transformando o patrimônio da cidade, acrescentando valor à mesma ou pelo menos deveria agir desse modo."
Qual o seu ponto de vista em relação às intervenções no patrimônio histórico nacional? Que política deve ser adotada?
"Acho que houve e há muitos erros conceituais que derivaram em intervenções bastante equivocadas, quando não catastróficas. Haja vista a demolição da Sé Primacial de Salvador 7
Você tem em mente alguma intervenção que, na sua opinião, foi concebida e que, de certa forma, não o agradou? Por quê? "Na praça Municipal, p.e. tem duas: a reproposição da feição seiscentista da Casa de Câmara e Cadeia, na atual Assembléia Legislativa, onde havia uma belíssima fachada eclética de modelo francês, nos anos 60, gerando um contundente falso histórico e o Palácio Tomé de Souza, de Lelé, nos anos 80, com a pretensão de "preencher" o quarteirão precedente, demolido por ACM, não pelo fato de ser contemporâneo mas pelo fato de ser inexpressivo, não chegando à altura da representatividade edilícia, justo na primeira praça da Cidade."
Mantendo a mesma linha de pensamento, poderia mencionar uma obra do seu agrado e que você considera uma intervenção bem executada, e por quê? 9
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nos anos 30. Mas precisamos reconhecer que com o aumento dos cursos de especialização e mestrados na área ultimamente encontramos muitos acertos ou, pelo menos buscas mais eficazes de acerto nas intervenções no patrimônio. Educação patrimonial das populações, a partir das escolas elementares, aperfeiçoamento e capacitação de profissionais de todos os níveis, do arquiteto ao operário de obra. Revisão e aperfeiçoamento dos instrumentos legais de tutela e fiscalização efetiva das obras. Participação popular na gestão do patrimônio das cidades."
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"O Palacete das Artes, de Marcelo Ferraz e equipe, na Graça, tanto no restauro do eclético casarão dos Catharino quanto na proposta do edifício novo, mantendo um respeitoso afastamento do prédio antigo. O atual Mercado Modelo, antiga Alfândega, de Paulo Ormindo de Azevedo, com a ressalva de que não deveria ter reproposto a estrutura da 5
rotunda em madeira, tal como a original, perdida no incêndio. A leitura ficou ambígua, não se distinguindo da que se perdeu Isso eu já disse a ele pessoalmente."
Você considera a disseminação da educação patrimonial (material e/ou imaterial) como algo necessário na vida e no desenvolvimento do pensamento e da conservação dos nossos bens patrimoniais, privados e públicos de modo geral? "Foi a primeira coisa q eu falei acima, acerca de políticas a serem adotadas para a conservação do patrimônio. Sem o envolvimento da população na gestão do patrimônio ele fica nas mãos das classes dominantes e seus representantes políticos, que impõem sempre uma lógica capitalista visando unicamente a lucratividade que possa advir do patrimônio. E esse envolvimento só ocorrerá quando a dimensão da importância do patrimônio for inserido no imaginário coletivo, através da educação, desde as escolas elementares, como se dá na Europa."
O que mudou em seu pensamento, antes e depois da conservação de restauro estarem mais presentes e atuantes na sua vida pessoal e profissional? "Eu tinha uma visão romântica de que o patrimônio deveria se conservado como uma ação heróica dos "exércitos de Brancaleone" da vida. Como ações de exceção da sociedade. A minha formação em restauro me forneceu dois aprendizados fundamentais, primeiro que é possível, dentro de seus limites, encontrar-se a lógica e a dimensão econômica do patrimônio, inserindo-o com mais facilidade na dinâmica da cidade capitalista. Segundo que toda a produção arquitetônica e urbanística de qualidade, mesmo a mais contemporânea, compõe o patrimônio da cidade e merece ser conservada. A dificuldade está em separar o joio do trigo, i.é., o que é de qualidade e o que não é."
O que você acha da política de conservação e de restauração no país, e que comparações podem ser feitas em relação à essa questão em outros lugares do mundo? 6
"É precária, é incipiente e equivocada, sobretudo no que se refere aos conjuntos e centros históricos, em que pesem ações pontuais muito eficientes de certas administrações municipais isoladas. Há problemas também no detalhamento das legislações específicas para as chamadas "zona de proteção rigorosa" que levam muito mais ao abandono do que à conservação. Não há também fiscalização eficiente sobre as ações nestes conjuntos e, por último, faltam profissionais capacitados e participação popular nas gestão das decisões acerca do patrimônio. Obviamente muitas dessas questões foram resolvidas, há muito tempo na Europa, forçada pelos horrores da segunda guerra mundial e pelo entendimento do valor econômico do patrimônio para as populações e para a indústria do turismo, nos seus vários países."
Qual seria seu sentimento se, de repente, soubesse que algum trabalho seu, que tenha a necessidade de intervenção, seja ofertado para outro arquiteto ao invés de você, o autor da obra? "O pior possível, claro, isto representaria o certificado de má qualidade do meu trabalho, pelo menos para aquele cliente, naquele momento. E o pior é que o contrário já me ocorreu mais de uma vez: ser solicitado a intervir em projetos de outros arquitetos, às vezes meus conhecidos. Confesso que foi bastante constrangedor." Agradecemos ao talentoso Chico Mazzoni pela contribuição intelectual, tornando real a realização desta atividade acadêmica.
Todas obras mostradas são de propriedade do artista Chico Mazzoni e estão em exibição virtual, que pode ser acessada em: chicomazzoni.art.br/expo2021/ -- Legenda: 1. Richelieu pintura acrílica, acrílica em baixo relevo, 90 x 90 cm, 2020; 2. Não - pintura acrílica, acrílica em baixo relevo e colagem sobre tela, 80 x 80 cm, 2019; 3. Sim - pinturra acrílica, acrílica em baixo relevo e colagem sobre tela, 80 x 80 cm, 2019; 4. Casa das Sete Mortes - acrílica em baixo relevo sobre tela, 80 x 80 cm, 2019; 5. Putos da Igreja de São Roque de Lisboa - pintura acrílica, acrílica em baixo relevo e colagem sobre a tela, 90 x 90, 2018; 6. Espelho Meu - pintura em acrílico, acrílico em baixo relevo e colagem sobre tela, 50 x 50 cm, 2017; 7. 7 Dolores pintura em acrílico, acrílico em baixo relevo e colagem sobre tela, 1,00 x 1,00 m, 2017; 8. Bum - pintura em acrílico, acrílico em baixo relevo e colagem sobre tela, 90 x 90 cm, 2017; 9. Sagrado Coração de Jesus (a Nelson Leirner) - pintura acrílica e colagem sobre tela, 80 x 80 cm, 2020; 10. Sete Selos do Apocalipse - pintura em acrílico, acrílico em baixo relevo e colagem sobre tela, 80 x 80 cm, 2017.
Em Cada Lugar... Uma História para Contar
2. Torre Eiffel - Paris, França Por Fátima Mendonça
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Ofício das baianas do acarajé é inscrito nos livros dos saberes como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Conheça a história das baianas e entenda mais sobre esse quitute tão famoso e representante da culinária baiana.
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Foto: Reprodução
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oficio das baianas do acarajé é das primeiras profissões femininas a surgirem no brasil, existem relatos que durante a primeira metade do século XX era uma espécie de cerimônia, as famílias ficavam esperando o horário da baiana do acarajé passar. Nos dias atuais a paixão pelo acarajé das baianas continua da mesma forma, porém o meio de venda mudou, as baianas não passam mais na frente das casas das famílias, mas sim, montam seu tabuleiro e as famílias vão até elas. A comida que mais se destaca é o acarajé, mas também, nos tabuleiros em quem são comercializados, são vendidos abará, cocadas, bolos, mingau, entre outras especialidades da culinária de origem afro-brasileira. O ofício das baianas de acarajé é um bem imaterial da Bahia e do Brasil, e está inscrito nos livros dos saberes desde 10 de dezembro de 2004 como patrimônio cultural brasileiro. Essa atividade é bastante difundida na Bahia, inclusive pode ser encontra em diversas cidades do estado, principalmente na cidade de Salvador, onde é impossível visitar e não encontrar nenhuma Baiana durante uma caminhada na cidade, afinal, as baianas integram a urbano cotidiano de salvador. Essa profissão possui uma grande importância na história do Brasil e, em novembro de 1998, se tornou regulamentada, em Salvador, pelo decreto municipal 12.175/1998.
O acarajé A feitura do acarajé foi trazida pelas escravas negras no período colonial e vem sido reproduzida no brasil desde então. A receita do mesmo começou a ser passada de geração em geração de forma oral. O acarajé é um bolinho de feijão fradinho, moído em um pilão de pedra, temperado e frito no azeite de dendê, após frito é recheado com vatapá, caruru, camarão, pimenta, a gosto dos clientes.
Ligação com os orixás Esse fazer além de ser muito importante na culinária baiana, com seus temperos únicos, também é bastante ligado a religião, pois estabelece elos entre o terreiro de candomblé e espaços urbanos. A culinária das baianas do acarajé faz parte de ritos nos terreiros de candomblé e especialmente o bolinho de acarajé é uma comida sagrada e ofertada aos orixás. “Enquanto testemunhos patrimoniais integrados à religião, à arquitetura, à população, ao turismo, as baianas de acarajé mantêm viva uma tradição ancestral, importante componente de um sistema culinário que, além de alimentar e satisfazer o paladar, articula diferentes dimensões da vida social: liga os homens aos deuses, o sagrado ao profano, a tradição à modernidade. “ Trecho retirado do Dôssie do Ofício das Baianas de Acarajé, que pode ser encontrado no site do IPHAN. 9
Em Cada Lugar... Uma História para Contar
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3. Forúm Romana - Roma, Itália Por Fátima Mendonça
4. Coliseu - Roma, Itália Por Fátima Mendonça
Em Cada Lugar... Uma História para Contar
5. Sagrada Família - Barcelona, Espanha Por Fátima Mendonça
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CAMILLO BOITO O passado conversa com o presente numa entrevista sobre restauro.
Foto: Reprodução
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rquiteto, escritor, historiador, professor e teórico; Camillo Boito é amplamente reconhecido por suas constribuições na área da arquitetura e, em especial, no restauro, em que foi defensor da preservação do aspecto envelhecido das obras arquitetônicas, mantendo o respeito à materialidade do objeto. Para ele, quando necessárias intervenções, essas devem conter contemporaneidade, diferenciando-se da matéria original, sem agredir o aspecto artístico. E foi baseado nessa filosofia que conseguimos realizar a entrevista que pode ser conferida a seguir.
1. Para iniciarmos a nossa conversa, e para que nossos leitores possam te conhecer melhor, nos diga quem é Camilo Boito e como foi a sua formação. "Natural de Roma, eu sou arquiteto, restaurador, professor, teórico, entre outras coisas também, e sem querer me gabar, mas alguns chegam a dizer que sou um dos analistas mais sagazes do meu tempo. Comecei a minha formação como arquiteto na escola de belas artes de Veneza em 1849. Após me formar, lecionei na academia de Veneza, e em seguida em 1856, iniciei uma viajem pela Itália, onde dei continuidade aos meus estudos sobre arquitetura medieval. E em 1858, fui designado para meu primeiro trabalho de restauro, na Basílica dos Santos Maria e Donato, na cidade de Murano." 2. Na sua opinião, qual a diferença entre conservação e restauro? "Então, ao meu ver a restauração é algo distinto, e as vezes até oposto à conservação. A conservação acaba sendo algo fundamental para manter o edifício, eu sou a favor da conservação rotineira para que assim se possa evitar a
necessidade da restauração, que muitas vezes podem ser bastante evasivas as obras. Já as obras de restauro são apenas necessárias para preservar a memoria da obra, para que a obra não caia em ruinas." 3. Você já nos disse qual a sua opinião sobre a diferença entre restauro e conservação, mas como sua fala é principalmente para os restauradores, nos diga, o que é Restauro? "A restauração é um mau necessário, porem só deve ser realizada em ultimo caso, quando todos os outros meios de manter as memorias da obra vivas não tenham sido eficazes. Ouso até comparar o restaurador ao cirurgião, pois quem preferiria morrer, perder um parente ou amigo a fazer com que perdessem um dedo ou usassem uma perna de pau. E digo sempre que: “para bem restaurar é necessário amar e entender o monumento, seja a estátua, quadro ou edifício, sobre o qual se trabalha, e do mesmo modo para a arte antiga em geral”. 4. Você propõe 8 princípios para bem restaurar, nos diga como você chegou a esses princípios e na importância de segui-los.
"Com esses princípios, conseguimos analisar melhor as obras de restauro, conseguimos olhar esses princípios e identificar na obra, alguns desses oito princípios sobre restaurações eu já acabei falando sobre em outras perguntas. Não consigo falar sobre todos, para acabar não me alongando muito, mas peço que eles sejam colocados nessa entrevista, pois são todos muito importantes e merecem um espaço na entrevista também. Os últimos 4 princípios creio que foram os únicos que acabei não citando em nenhuma outra pergunta, mas isso não os torna menos importantes, afinal todos esses 8 princípios são extremamente importantes em todas as obras de restauro, tanto para saber se realmente existe a necessidade do restauro, quanto para entender o que deve ser restaurado e removido (caso já tenha acontecido alguma obra de restauro anteriormente), entre outros pontos que também devem ser considerados na restauração." 5. Nos fale um pouco sobre a vertente da “Restauração Filológica”. "Nessa vertente a restauração só deve ser praticada em ultimo caso, nela eu defendo o respeito a matéria original da pré-existência, a reversibilidade e a distinção das intervenções, defendo também as conservações periódicas para que não seja necessária a restauração e a harmonização entre os matérias do presente e do passado que vão ser utilizados, ou seja os matérias usados na restauração devem ser diferentes dos que foram utilizados na obra original, para que possamos distinguir o novo do antigo." 6. Muitos dizem que sua teoria tem uma posição moderada sobre os pensamentos de Viollet-Le-Duc e John Ruskin, o que você acha sobre isso? "Acho que se pode dizer que realmente existe um certo equilíbrio entre a posição dos dois sim na minha tese, apesar das teorias dos dois serem contrarias, consegui encontrar um equilibro na fala dos dois e sintetizar. Eu considero a teoria do Ruskin de uma lógica impiedosa, pois ele considera que se nada mais pode-se fazer para conservar um edifício, o mesmo deve ser deixado a mercê do tempo e cair em ruinas. Porem também encarava a teoria de Viollet-Le-Duc bastante arriscada, ao querer que os edifícios fossem restaurados a ponto de encontrar uma unidade de estilo, agindo assim pode causar a impressão que
o edifício não existisse anteriormente, como se o restaurador fizesse apenas o papel de arquiteto sem considerar a história por trás da obra. Então como minha fala é de que se deve priorizar a conservação sobre a restauração, e que a restauração só deve ser considerada caso as tentativas de conservação não tenham dado certo, talvez eu tenha encontrado um equilíbrio entre os dois. Digamos que consegui equilibrar o conservadorismo de Ruskin e o radicalismo de Viollet-Le-Duc em uma única teoria." 7. Você falou no início da nossa entrevista que a sua primeira obra de restauro foi a Basílica de Santos Maria e Donato, nos fale um pouco de como foi esse processo de restauro, como você definiu o que iria fazer, as modificações que iriam ser feitas. "Em 1958 eu fui encarregado de encarregar, seguindo meus princípios, dos quais já falei anteriormente, fundamentei esse trabalho de restauro em analises aprofundadas da obra, procurei entender seus aspectos formais e construtivos, além também de fazer levantamentos de documentos, fotos e desenhos referentes a Basílica. Após muito estudo das informações apreendidas, propus a preservação da patina e a demolição de elementos que foram adicionados ao longo do tempo que se diferenciavam do estilo original da construção, propondo que os novos elementos fossem edificados a espelho da arquitetura préexistente." 8. Como você chegou a sua tese final sobre o restauro? "Então, eu analisei diversos teóricos, como Ruskin e Viollet-Le-Duc que foram citados em perguntas anteriores. E foi a partir dessas analises que pude fazer uma síntese critica de acordo com as informações que eu tinha na época, que consegui criar esses textos e documentos tão importantes sobre restauro, e espero que estejam sendo bastante utilizados, não só pelos restauradores, mas também por todo o publico a quem possa interessar." Essa conversa foi possível graças aos registros encontrados no livro: Os Restauradores, de Camillo Boito, traduzido por: Beatriz Kühl. 13
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6. Igreja Senhor do Bonfim - Salvador Por Fátima Mendonça
RESTAURO OU REFORMA? ENTENDA O QUE ACONTECEU NO PALÁCIO DE PARANAGUÁ
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prédio do Palácio de Paranaguá, localizado na Praça J.J Seabra no centro de Ilhéus, foi construído no período de 1898 a 1907, em pleno florescimento da economia cacaueira, e inaugurado em 22 de dezembro de 1907. Seu nome é em homenagem ao então presidente da Província da Bahia que, no dia 28 de junho de 1881, através da Lei Provincial nº 2.187, elevou a Vila de São Jorge dos Ilhéus à categoria de cidade. Segundo Borges de Barros, o prédio de 1060 m², foi construído sobre as ruínas de uma antiga casa de jesuítas, que foi totalmente demolida, e sua arquitetura parece ter se inspirado no Paço dos Governadores, em Salvador, antes de sua última reconstrução, em 1912, e de igual inspiração neoclássica. “Foi um dos edifícios públicos do Estado mais luxuosos e melhor decorados e mobiliados à época. No pavimento superior funcionavam: sala do Conselho, gabinete do intendente, secretaria, seção de engenharia, salão nobre com pintura mural e salas de audiência. No térreo, funcionavam: as salas dos juízes do cível e do crime, posto médico, quartel e cadeia.” (Borges de Barros, 1981). - REUSO -
Construído com o objetivo de ser sede da intendência municipal, o Palácio de Paranaguá foi sede administrativa da prefeitura de todas as gestões, até que em 2015, quando o então prefeito transferiu a sede do Governo Municipal para outro local e trouxe a proposta de transformar o prédio no Museu da Capitania de Ilhéus, com o objetivo de valorizar a história e cultura da cidade, além de ser um atrativo turístico. (rsrs) Hoje o Museu funciona apenas no segundo pavimento e no térreo fica instalado os equipamentos fiscais do município. O prédio sofreu várias modificações ao longo dos seus mais de cem anos de existência. Entre os anos de 1912 e 1916, o edifício passou por uma grande obra de reforma, no governo do intendente Cel. Antonio Pessoa, onde foi-se colocado aparelhos sanitários e ampliação e reparo do mobiliário. Em 1919, o edifício já ameaçava ruir, levando assim a transferência das repartições municipais para o Grupo Escolar. Em dois de julho de 1923, o prédio foi reformado e reaberto ao público pelo Intendente Cel. Eustáquio de Souza Bastos, na ocasião foram substituídos os assoalhos do pavimento térreo por lajes de concreto e a cobertura original por três telhados paralelos. 15
Mas por ser considerado um bem tombado pelo Instituto de Proteção ao Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), toda e qualquer alteração deveria seguir as normativas vigentes para o Restauro e Conservação do Patrimônio. O que não podemos afirmar que foi feito no passado, mas que podemos confirmar que não está sendo feito na atualidade, sendo todas as intervenções recentemente feitas caracterizadas como reformas. Mas qual a diferença entre restaurar e reformar? O restauro de um imóvel, é a última ação a ser tomada quando se fala em intervenção de um bem. E consiste em consertar ou reparar algo que já se encontra desgastado, respeitando as suas características originais, preservando a sua identidade, e utilizando técnicas de conservação. Já uma reforma é toda e qualquer alteração no imóvel ou mudança na estrutura, com objetivo muitas vezes de modificar a sua aparência, sem a preocupação de preservar algo que já existe, desde que não coloque a estrutura em risco. - REFORMA ATUAL - CAOS TOTAL Devido a fortes chuvas e a má conservação do edifício, recentemente, ocasionou em uma nova reforma, mas de apenas os ambientes no pavimento térreo utilizados pela atividade pública, a fim de adequar esses ambientes para as funções que hoje lá funcionam, e recuperar parte da estrutura que estava deteriorada. Em uma visita feita para acompanhamento da obra em execução, foi-se possível verificar a pintura das esquadrias, apenas do lado interno do prédio, com tinta inapropriada, sem respeitar sequer a cor original. Quase a totalidade dessas esquadrias apresentam desgaste e degradação, onde não foi feito nenhum serviço de recuperação das peças. Ainda sobre as esquadrias podemos também abominar as perfurações feitas para passagem de tubulações e fiações de ar condicionado. Outra modificação visível, foi a pintura dos forros de madeira dos ambientes em questão, onde fica claro que não houve nenhuma preocupação na recuperação das peças deterioradas, e a pintura além de usar cores completamente discordantes do original, o material e a qualidade do serviço também deixam a desejar. O que podemos falar também das pinturas das paredes. Temos também a má adequação das instalações elétricas, feitas de qualquer forma, deixando aparente inúmeros fios, que além da estética hedionda, acarreta em riscos de incêndio e perigo aos usuários e ao patrimônio. No pavimento superior, onde funciona o Museu, é lamentável o estado em que se encontra. Todos os cômodos apresentam infiltrações e patologias no forro e nas paredes; esquadrias em degradação; assoalho de madeira mal conservado; e até as peças da exposição, mal cuidadas e sendo atingidas pelo mofo. Não é necessário nem adentrar o edifício, pois já na fachada do edifício podemos observar deterioração dos adornos, da cor e da estrutura, com até aparecimento de vegetação, para constatar o descaso e a falta de preocupação dos gestores públicos com o patrimônio da cidade. https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?id=430522&view=detalhes https://pt.wikipedia.org/wiki/Palácio_do_Paranaguá#cite_note-IBGE-1 http://historiaearquitetura.blogspot.com/2014/02/diferencas-entre-restaurar-e-reformar.html FOTOGRAFIAS POR: FÁTIMA LORENA MENDONÇA, 2021
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