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EU e CERVANTES Livro de Anotações para viagens reais e imaginárias

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livro de anotações para viagens reais e imaginárias

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Miguel de Cervantes Saavedra (1547 – 1616) Gustave Doré (1832 – 1883)

Fragmentos Dom Quixote de la Mancha Ilustrações Gustave Doré

CERVANTES Bandeirola


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esocupado leitor, não preciso jurar para que creias que eu quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e mais discreto que se pudesse imaginar. Porém, não pude contravir à ordem da natureza, na qual cada coisa gera outra que lhe seja semelhante. E, assim, o que poderia criar a estéril e mal cultivada argúcia minha, senão a história de um filho magro, ressequido, caprichoso e cheio de pensamentos vários e nunca imaginados por outra pessoa, tal como quem foi gerado em um cárcere, onde todo o desconforto tem seu assento e onde todo triste ruído faz a sua habitação? (Prólogo da Primeira Parte)


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m um lugar de La Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, não há muito vivia um desses fidalgos com lança guardada, escudo oval antigo, cavalo magro e galgo corredor. (Capítulo I)

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, pois, de saber que este fidalgo nos intervalos de ócio – que eram os mais do ano –, se dava a ler livros de cavalarias, com tanta dedicação e gosto, que esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até da administração da sua fazenda; e chegou a tanto sua curiosidade e desatino, que vendeu muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias, e assim levou à sua casa todos quanto pôde haver deles. (Capítulo I)

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ntão, rematado já de todo o juízo, deu no mais estranho pensamento em que jamais deu louco algum deste mundo, e foi que lhe pareceu conveniente e necessário, tanto para o aumento de sua honra quanto para proveito de sua república, fazer-se cavaleiro andante e ir-se pelo mundo com suas armas e cavalo, em busca de aventuras e a exercitar-se em tudo aquilo que tinha lido se exercitavam os cavaleiros andantes, desfazendo todo o gênero de agravos e pondo-se em ocasiões e perigos que, vencidos, lhe rendessem perpétuo nome e fama. (Capítulo I)

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uatro dias se passaram imaginando que nome lhe poria; porque – segundo o que ele mesmo se dizia – não era razão que cavalo de cavaleiro tão famoso, e ele mesmo por si só tão bom, ficasse sem nome conhecido; e assim procurava lhe dar um, de maneira que declarasse tanto quem tinha sido antes de pertencer a cavaleiro andante, quanto o que era agora; pois estava convencido que, mudando o seu senhor de estado, mudasse ele também o nome, recebendo algum famoso e de estrondo, como convinha à nova ordem e ao novo exercício que já professava; e assim, depois de muitos nomes que formou, apagou e riscou, acrescentou, desfez e tornou a fazer em sua memória e imaginação, até que veio por fim chamá-lo “Rocinante”, nome, ao seu parecer, alto, sonoro e significativo do que havia sido quando não passava de rocim, antes do que agora era, que era antes e primeiro de todos os rocins do mundo. (Capítulo I)

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osto a seu cavalo nome tão a seu gosto, quis também arranjar outro para si; e nesse pensamento gastou mais oito dias; ao cabo dos quais veio a se chamar Dom Quixote [...]. Recordando-se, porém, que o valoroso Amadis não se contentou em se chamar somente Amadis, acrescentou o nome do seu reino e pátria, para a tornar famosa, e se nomeou Amadis de Gaula, e assim quis também ele, como bom cavaleiro, acrescentar ao seu nome o da sua terra e se chamar “Dom Quixote de la Mancha”, com o qual, a seu parecer, declarava muito vivamente sua linhagem e pátria, a quem honrava tomando dela o sobrenome. (Capítulo I) 21


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