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REVISTA B&S_Edição Nr 033_Novembro_Dezembro 2025

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Novembro - Dezembro 2025 ● Edição NO 33

Revista Mensal ● PREÇO 1.000,00 Mzn

INGD

Num Estado exposto a choques constantes, a protecção institucional torna-se um pilar silencioso da estabilidade a todos os níveis

EMOSE

O seguro protege quando o risco deixa de ser abstracto. É neste limite entre previsão e desastre que o papel do Estado se torna decisivo

FDEM

Num ambiente de investimentos adverso, criar e manter empresas é um exercício de resistência. Mas, felizmente, há iniciativas que vêm ajudar

BVM

Sem confiança, não há mercado. Sem mercado, não há crescimento, e a Bolsa surge como um espaço de transparência e previsibilidade

INSS

Num país jovem e com muitos desafios sociais e económicos, a previdência social é um dos pilares fundamentais da estabilidade nacional

QUEM SUSTENTOU O ANO 2025?

Do Palácio da Ponta Vermelha à economia real, as decisões que evitaram o colapso e mantiveram o país em marcha

Ficha Técnica

PUBLISHER: José Belmiro Jose.belmiro@ltmservicos.co.mz

DIRECTOR EDITORIAL: Aurélio Muianga aurelio.muianga@ltmservicos.co.mz

EDITOR: Constantino Novela

REDACÇÃO:

Aurélio Muianga, José Machicane, Constantino Novela, Filomena Bande, Rezilda Paulino

COLUNISTA:

Aurélio Muianga e Ndandazi Mazoi

ADMINISTRAÇÃO:

Delson Manganhele e Felismina Samuel Edson Cumbe e Hilson Palalane comercial@ltmservicos.co.mz

GRAFISMO: Eduardo Matavele

FOTOGRAFIA: Uclas Balgobiny

REVISÃO: Sério Samuel

DIGITAL: Mário Canda

IMPRESSÃO: Minerva Print

TIRAGEM: 2000 exemplares

PROPRIEDADE: LTM Serviços e Investimentos, SA

ENDEREÇO: Av.24 de Julho, n°660, 6 ° Andar - Prédio Progresso

Contacto fixo: 21092905/876727013

E-mail: redaccao@ltmservicos.co.mz

Sob Dispensa N°o9/GABINFO-DEPC/2020

Índice

PANO DE FUNDO

2025: Liderança, Seguros, Resposta Climática e Empresas como Foram Âncoras da Resiliência Nacional 10

ACTUALIDADE ECONÓMICA

Actualidade económica: sinais de alerta, reformas em curso e novos desafios estruturais. Conheça-os 18

FOCO GLOBAL O impacto real da Inteligência Artificial: mercados, empregos e equilíbrio económico em mutação 46

2025: As ‘Colunas’ Que Impediram o País de Cair

Revisitar 2025 é quase como reler as páginas de um diário escrito a várias mãos. Houve dias de sol intenso e noites de tempestade, literalmente. Choques climáticos sucessivos, tensões económicas persistentes e um ambiente político ainda em recomposição testaram a capacidade do país de permanecer de pé. Mas, tal como acontece nos grandes edifícios, quando as fundações são sólidas, as paredes podem tremer sem desabar. Foi essa a história que a Banca & Seguros decidiu contar ao eleger as entidades mais marcantes do ano.

Num contexto em que a palavra INCERTEZA pareceu disputar protagonismo com a rotina dos negócios, Daniel Chapo assumiu a Presidência da República com um desafio imediato: restaurar a confiança nacional e internacional. Ao longo do seu primeiro ano de mandato, o Chefe de Estado procurou demonstrar que liderar é mais do que discursar – é criar condições para que a economia respire. Instrumentos como o Fundo de Garantia Mutuária e iniciativas de conteúdo local foram lançados com o propósito de ampliar o acesso ao crédito e fortalecer as Pequenas e Médias Empresas.

E quando decidiu envolver-se directamente na revitalização da companhia de bandeira, a Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), enviou um sinal carregado de simbolismo: a integração territorial e o relançamento do turismo também fazem parte da estabilidade económica. Assim, mesmo perante pressões de segurança no norte e expectativas cautelosas dos investidores, o Presidente posicionou-se como um gestor do leme em mar agitado –lembrando a todos que não há desenvolvimento sem paz nem prosperidade sem previsibilidade.

Se a liderança política funcionou como bússola, a Empresa Moçambicana de Seguros, EMOSE, afirmou-se como escudo. Em 2025, a mais antiga seguradora pública do país provou que o seguro pode ser uma verdadeira política de desenvolvimento. Resultados líquidos históricos, racionalização de custos e digitalização de processos fortaleceram a sua solidez financeira, traduzida em dividendos e em novos produtos. Ao expandir seguros agrícolas e climáticos, ao reforçar parcerias na área da saúde e ao aproximar-se do sector bancário, a EMOSE ajudou a transformar riscos em protecção concreta para empresas, agricultores e famílias.

AURÉLIO MUIANGA

Director Editorial da Revista Banca & Seguros

Para os anos seguintes, o alerta é claro: consolidar reformas, aprofundar a inclusão financeira e fortalecer a gestão de riscos para que a resiliência deixe de

ser reacção

e passe a ser método"

Num país estruturalmente vulnerável, contribuiu para manter viva a cultura de mitigação de incertezas, mostrando que, quando a emergência se torna permanente, é a gestão de risco que impede que o futuro seja cancelado.

Enquanto a EMOSE protegia a economia por dentro, o Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD) protegia o país por fora. O ano foi duro em eventos extremos, mas o Instituto respondeu com uma estratégia cada vez mais baseada na antecipação. Exercícios de simulação, capacitação de comités comunitários e a inauguração de uma moderna Sala de Situações permitiram monitorizar e coordenar respostas rápidas a cheias e ciclones.

Através de cooperação multilateral com parceiros como PNUD e KOICA, o INGD reforçou capacidades técnicas e operativas. Graças a esse trabalho, muitos choques ficaram contidos no limite do suportável, evitando que se convertessem em catástrofes prolongadas. Foi a demonstração prática de que prevenir custa menos do que reconstruir, e de que instituições preparadas salvam vidas e salvam também negócios.

E porque nenhuma economia resiste apenas com decisões de gabinete, a Federação de Desenvolvimento Empresarial de Moçambique (FDEM) entrou nesta equação como voz activa do sector produtivo. A Federação dedicou 2025 a fazer pontes: entre empresas e financiadores, entre PME e programas de capacitação, entre o empresariado e as instâncias públicas. Promoveu debates sobre ESG, transformação digital e competitividade, e lançou iniciativas para reduzir custos de contexto. Ao atribuir ao Presidente da República o Prémio Resiliência, reforçou uma mensagem central para o nosso público: diálogo institucional e dinamismo empresarial são inseparáveis.

No conjunto, estas escolhas revelam a lição maior de 2025. Moçambique foi testado, mas não vergou, porque contou com pilares que funcionaram. A liderança política responsável de Daniel Chapo, a protecção financeira garantida pela EMOSE e a coordenação humanitária do INGD foram âncoras de um ano que exigiu serenidade colectiva. Para os anos seguintes, o alerta é claro: consolidar reformas, aprofundar a inclusão financeira e fortalecer a gestão de riscos para que a resiliência deixe de ser reacção e passe a ser método. Que 2025 fique, então, registado como um ano difícil, mas em que se tornou evidente que são as instituições (e a confiança nelas) que seguram o país.

Caro leitor!

Banco de Moçambique

Exige Autorização Prévia Para Contas Bancárias no Exterior

O Banco de Moçambique alertou, esta segunda-feira (5), que a abertura e a movimentação de contas bancárias no estrangeiro por entidades residentes em território nacional estão sujeitas a autorização prévia, conforme previsto na legislação cambial em vigor, segundo informou a Lusa.

Num aviso público emitido em Maputo, a autoridade monetária esclarece que os pedidos para abertura de contas bancárias fora do País devem ser devidamente instruídos com documentação considerada idónea, capaz de justificar a operação e de demonstrar a origem dos fundos a serem movimentados.

“O pedido para abertura de conta bancária deve ser instruído com documentação idónea que permita avaliar a legitimidade e finalidade da operação, incluindo o que justifica a abertura da conta bancária no exterior e comprovativo da fonte de alimentação da conta, evidenciando a origem dos fundos a serem movimentados”, refere o documento.

O banco central recomenda, ainda, que estas contas sejam abertas, preferencialmente, junto de instituições financeiras correspondentes de bancos autorizados a operar no sistema financeiro moçambicano.

No mesmo aviso, o regulador esclarece que os titulares de contas abertas no estrangeiro sem a devida autorização deverão proceder à sua regularização junto do Banco de Moçambique, submetendo o respectivo pedido nos termos exigidos.

A instituição sustenta que estas exigências visam reforçar a transparência nas operações financeiras realizadas fora do País e permitir o acompanhamento rigoroso das movimentações de capitais por parte da autoridade cambial.

Embora o aviso não faça menção directa ao actual contexto económico, a medida surge num momento em que o país enfrenta dificuldades no acesso a divisas, situação frequentemente denunciada por operadores económicos. Entre as restrições recentemente impostas está a limitação do uso de cartões de crédito no exterior, igualmente por orientação do banco central.

Por sua vez, o Governo decidiu restringir a importação de 16 produtos, justificando a decisão com a necessidade de proteger a produção nacional e preservar as reservas cambiais.

Depósitos a Prazo Cresceram Para Quase 4 MM€ Até Outubro Passado, Revela BdM

As poupanças dos cidadãos nacionais aplicadas em depósitos a prazo voltaram a registar crescimento em Outubro, atingindo 3,9 mil milhões de euros, o que representa um aumento acumulado de 7,7% desde o início de 2025, segundo dados oficiais do Banco de Moçambique, citados pela agência Lusa.

De acordo com o mais recente relatório estatístico do banco central, os depósitos a prazo na banca nacional situavam-se nos 3,5 mil milhões de euros em Junho de 2024, tendo registado uma trajectória de crescimento mensal até alcançarem um máximo histórico de 4 mil milhões de euros em Julho último.

Após uma redução observada em Agosto, os depósitos voltaram a subir em Setembro, para 3,8 mil milhões de euros, registando em Outubro um novo acréscimo, próximo de 1%.

No início de 2025, o volume de depósitos a prazo ascendia a 3,6 mil milhões de euros, segundo o histórico apresentado pelo Banco de Moçambique.

Em sentido inverso, os depósitos à ordem registaram uma evolução significativa, passando de 5 mil milhões de euros em Junho de 2024 para 6,2 mil milhões de euros em Outubro deste ano.

O sistema financeiro nacional integra actualmente 15 bancos comerciais e 12 microbancos, além de cooperativas de crédito e organizações de poupança e crédito, entre outras instituições.

No domínio da política monetária, o Banco de Moçambique reduziu, a 14 de Novembro, pela décima primeira vez consecutiva, a taxa de juro de política monetária (MIMO), em 0,25 pontos percentuais, fixando-a em 9,5%. “Esta modesta redução reflecte o agravamento dos riscos e incertezas associados às projecções da inflação, com destaque para o atraso no pagamento dos instrumentos da dívida pública interna pelo Estado”, afirmou o governador do banco central, Rogério Zandamela, após a reunião do Comité de Política Monetária.

Segundo o responsável, apesar desses riscos, as projecções apontam para a manutenção da inflação em níveis controlados. “As perspectivas da inflação mantêm-se em um dígito no médio prazo. Em Outubro de 2025, a inflação anual fixou-se em 4,8%, após 4,9% em Setembro”, acrescentou.

A taxa directora esteve fixada em 17,25% desde Setembro de 2022, tendo iniciado um ciclo de reduções consecutivas a partir de Janeiro de 2024. Desde então, os cortes foram mantidos em todas as reuniões do Comité de Política Monetária, até aos actuais 9,5%.

Na mesma ocasião, Rogério Zandamela alertou para a evolução do endividamento interno do Estado. “O endividamento público interno continua a agravar-se, com impacto no funcionamento normal do mercado financeiro”, advertiu.

O governador sublinhou ainda que, face ao contexto actual, a condução da política monetária permanecerá cautelosa. “A postura da política monetária estará, doravante, condicionada à avaliação dos riscos e incertezas subjacentes às projecções da inflação”, afirmou.

O Comité de Política Monetária reúne-se com periodicidade bimestral, estando a próxima reunião agendada para 28 de Janeiro de 2026.

Carteiras Móveis Atingiram

Cobertura de 124% da População

Adulta no Terceiro Trimestre

O número de adultos moçambicanos com conta em Instituições de Moeda Electrónica (IME), vulgarmente conhecidas como carteiras móveis digitais que funcionam através do telemóvel, voltou a crescer no terceiro trimestre do ano, atingindo um novo máximo equivalente a 123,8% da população adulta do País.

De acordo com o mais recente relatório de inclusão financeira do Banco de Moçambique, com dados até Setembro e citado pela agência Lusa, no trimestre anterior esta cobertura situava-se em 118,7%. Em Setembro de 2024, o indicador era de 99,2%, confirmando uma expansão acelerada do uso das carteiras móveis.

Com um crescimento bastante mais moderado, as contas bancárias tradicionais registaram apenas um crescimento. A cobertura passou então de 32,7% para 33% da população adulta em três meses, até Setembro, percentagem que se manteve inalterada quando comparada com o mesmo período do ano anterior.

A rede de agentes bancários também acompanhou esta tendência de retracção, ao passar de 5,3 para apenas 1,5 agente por cada 100 mil adultos em três meses. Há um ano, este rácio era de 5,5, segundo dados divulgados pelo banco central.

Por outro lado, os agentes das IME continuaram a expandir-se de forma consistente. O número passou de 1977 por cada 100 mil adultos no segundo trimestre para 2146 no terceiro trimestre, reflectindo a crescente adesão às carteiras móveis em todo o País.

Em termos estatísticos, em Setembro, 123,8 em cada 100 adultos moçambicanos possuíam uma conta IME, enquanto apenas 33,2 detinham uma conta bancária. Actualmente, operam em Moçambique 15 bancos comerciais, 12 microbancos e três carteiras digitais das operadoras móveis.

Perante o aumento das transacções digitais, o Governo aprovou este mês uma proposta de lei que altera o Código do Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA), com o objectivo de “alargar a base tributária através da previsão da incidência deste imposto sobre as transacções da economia digital”, explicou o porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa.

“As transacções electrónicas actualmente dominam uma boa parte do comércio que tem sido feito não só dentro do País, mas sobretudo fora”, afirmou Inocêncio Impissa, acrescentando que “a bancarização tradicional está a reduzir e a perder-se a favor das carteiras móveis”, o que tem permitido a existência de operações fora do circuito fiscal.

Segundo Inocêncio Impissa, o Governo compreendeu que muitas entidades, singulares e colectivas, exercem actividades através de plataformas electrónicas sem pagar impostos. “Há, sim, controlo das operações electrónicas. No entanto, não é possível cobrar essas operações, porque o regime legal não permite ainda”, explicou, sublinhando que as novas normas vão deixar que todos contribuam para o crescimento da economia nacional.

Banco Central Regista Queda na Cobertura de ATM: Sete Máquinas Por Cada 100 Mil

Adultos

A cobertura de caixas automáticas (ATM – Automated Teller Machine) em Moçambique caiu para sete máquinas por cada 100 mil adultos em Setembro deste ano, segundo dados do Banco de Moçambique citados pela Lusa.

De acordo com o mais recente relatório do banco central sobre indicadores de inclusão financeira, o País contava em 2019 com 11 ATM por cada 100 mil adultos, mas, desde então, a cobertura tem vindo a diminuir. No final do trimestre anterior, em Junho, eram 7,1 máquinas, e no primeiro trimestre 7,2.

No final de 2024, a cobertura total era de 7,4 ATM, totalizando 1413 máquinas em todo o País. Em 2022, a cobertura era de nove ATM por cada 100 mil adultos, descendo para 8,2 no final de 2023, mostrando uma tendência clara de redução progressiva.

A mesma tendência verifica-se nos terminais de pagamento POS (Point of Sale), cuja cobertura era de pouco mais de 229 por cada 100 mil adultos em 2019. Até ao final de 2024, caiu para 190 POS, totalizando 35 470 em todo o País, afectando transacções e pagamentos via telemóvel.

No terceiro trimestre deste ano, o número voltou a cair, para 169,4 POS por cada 100 mil adultos, contra 181,5 no trimestre anterior. Estes dados reflectem a transição crescente dos moçambicanos para pagamentos digitais e transferências móveis.

Segundo o Banco de Moçambique, funcionam no País 15 bancos comerciais e 12 microbancos, além de cooperativas de crédito e organizações de poupança e crédito, entre outras instituições, que suportam a rede de ATM e POS distribuída pelo território nacional.

Moza Banco Defende Modelo Colaborativo na Digitalização da Banca

O Moza Banco defendeu, em Maputo, uma abordagem colaborativa para impulsionar a transformação digital no sector bancário nacional, destacando o papel estratégico de parcerias tecnológicas como ferramenta essencial para inovação, modernização dos serviços e promoção da inclusão financeira.

A posição foi apresentada por Stélio Matias, director de Sistemas e Tecnologias de Informação do Moza Banco, durante a sua intervenção no fórum BFSI Moçambique, onde sublinhou que a transformação digital não pode ser alcançada isoladamente, sendo necessária uma conjugação de esforços entre instituições financeiras, startups, empresas tecnológicas e o Governo.

“Cresceremos juntos”, afirmou Matias, destacando que o banco já iniciou o seu percurso digital assente em dois pilares: o desenvolvimento interno de capacidades e a criação de parcerias estratégicas com empresas como iCall, Vodacom, Axiom e Bubble Cloud Mozambique, para colocation, serviços especializados e soluções digitais complementares.

O responsável avançou ainda que o Moza Banco pretende evoluir para um modelo de banca como plataforma, aproximando os serviços dos utilizadores e permitindo a participação aberta de parceiros e prestadores de soluções, no quadro de uma visão de open banking e banking-as-a-service. Nesse contexto, o banco vê com bons olhos a integração de microbancos e fintechs, numa lógica de ecossistema digital mais inclusivo.

“Queremos encurtar a distância entre quem fornece serviços e quem os utiliza, oferecendo uma experiência bancária digital mais próxima das necessidades reais dos cidadãos”, acrescentou.

Standard Bank Moçambique

Promove Investimento Francês no Sector Energético

O Standard Bank Moçambique promoveu, recentemente, um encontro com uma delegação empresarial da associação comercial francesa Evolen e a Câmara de Comércio Moçambique-França (CCIFM), bem como, com líderes dos sectores de energia, engenharia e infra-estruturas.

De acordo com uma publicação, o encontro permitiu ao banco partilhar o seu conhecimento especializado sobre a dinâmica económica e os factores que moldam o sector energético, reforçando o seu papel na preparação e viabilização de projectos internacionais de grande escala.

Na ocasião, o director da Banca Corporativa e de Investimentos do Standard Bank, João Guirengane, afirmou que a visita desta delegação é mais um indicador da relevância de Moçambique no cenário energético global e reforça o papel da instituição como parceiro estratégico para viabilizar investimentos no País.

“Temos uma forte presença e profundo conhecimento do mercado moçambicano, bem como experiência no sector de energia. O banco tem o objectivo de posicionar-se como um parceiro de confiança que facilita o matchmaking e colaboração entre empresas nacionais e operadores multinacionais”, explicou.

Por seu turno, Francis Parmentier, representante da delegação francesa, destacou o interesse crescente das empresas do seu país no mercado moçambicano, salientando que a visita tem como meta, compreender o quadro legal e identificar condições para investir no País.

“Estamos aqui para perceber como investir em Moçambique e que parcerias locais são necessárias. Nos próximos anos, o País deverá receber mais de 50 mil milhões de dólares em projectos, muitos deles com participação francesa, o que torna essencial maior clareza regulatória e parcerias sólidas, área em que o Standard Bank pode desempenhar um papel decisivo”, referiu.

Entretanto, Gatien Fabre-Teste, empresário francês, realçou a pertinência do encontro e o valor das interacções estabelecidas com especialistas locais. “A sessão permitiu-nos estabelecer contactos com profissionais capazes de apoiar a nossa instalação e o nosso desenvolvimento no País, tanto no plano fiscal como no jurídico.

Millennium bim Celebra 30

Anos Com Um Milhão de Clientes Mobile

No ano em que assinala três décadas de presença em Moçambique, o Millennium bim alcançou um marco no sector bancário nacional: um milhão de clientes mobile. Este feito histórico consolida a posição do banco como líder na digitalização dos serviços financeiros e reforça o seu compromisso com a inovação ao serviço da inclusão financeira.

De acordo com um comunicado oficial, a celebração desta conquista coincidiu com o lançamento da nova versão da aplicação Smart IZI (v4.10.0), uma plataforma móvel que, segundo o banco, “eleva a experiência digital dos clientes a um novo patamar de simplicidade, autonomia e segurança”.

Entre as funcionalidades pioneiras agora disponíveis destacam-se o pedido e cancelamento de cartões de crédito directamente através da aplicação, de forma totalmente digital, rápida e segura – uma inovação considerada inédita em Moçambique. A nova versão da App permite ainda a personalização optimizada do cartão de débito, a recuperação autónoma do PIN mobile autenticada via PIN2, e um atalho pós-login para facilitar a solicitação de crédito pessoal Nova Vida.

“Queremos que cada Cliente viva uma experiência digital que una simplicidade, segurança e personalização”, declarou Sérgio Magalhães, administrador executivo e chief technology officer do Millennium bim.

“Estas inovações são fruto do trabalho dedicado de uma equipa de jovens moçambicanos, cujo talento está a transformar a forma como o País se relaciona com a banca”, acrescentou, sublinhando o orgulho de ver “tecnologia feita em Moçambique para Moçambique, criando valor real para as pessoas e para o desenvolvimento do País”. Com este lançamento, o Millennium bim reafirma a sua visão estratégica centrada nas pessoas, promovendo soluções financeiras modernas e acessíveis, adaptadas ao ritmo diário dos seus clientes. A aposta contínua na digitalização e na excelência dos serviços representa, segundo a instituição, uma “contribuição activa para a construção de um ecossistema financeiro mais eficiente, inclusivo e sustentável”.

Presente no País desde 1995, o Millennium bim é actualmente o banco mais premiado e integra a lista dos 100 maiores bancos de África. Conta com uma rede nacional de 195 balcões, incluindo 63 em zonas rurais, sendo reconhecido pelo papel que desempenha na promoção da inclusão financeira. Mais de 70% dos seus clientes utilizam activamente os canais digitais. O banco investe na modernização da sua rede com balcões de nova geração equipados com tecnologia de auto-atendimento, disponíveis 24 horas por dia.

Os Pilares de um Ano Que Exigiu Resiliência

Num ano marcado por choques climáticos, tensões económicas e redefinições institucionais, Moçambique encontrou, em algumas lideranças e organizações, âncoras de estabilidade e visão. Em 2025, o Presidente da República, Daniel Chapo, a EMOSE, o INGD e a FDEM afirmaram-se como pilares silenciosos (mas decisivos) de um país que escolheu resistir, proteger e projectar o futuro

Texto Constantino Novela

Imagem Fernando Roque e D.R.

O2025 ficará marcado na memória colectiva dos moçambicanos como um dos anos em que o país foi testado em múltiplos eixos: político, social, económico e ambiental. Foi neste con-

texto que Daniel Chapo emergiu como referência de liderança política, a Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE) como garante de protecção financeira, o Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD) como coordenador da resposta humanitária e de resiliência, e a Federação de Desenvolvimento Empresarial de Moçambique (FDEM) como voz representativa de quem produz e emprega.

A escolha destas entidades não é meramente simbólica. É o reconhecimento de que liderança sólida, protecção económica, resposta institucional eficaz e o dinamismo empresarial foram elementos que sustentaram a vida colectiva do país em 2025 – cada um à sua medida, mas todos convergindo para o mesmo propósito: evitar que os choques e transformem em catástrofes permanentes.

Daniel Chapo na rota da agenda transformadora

Quando Daniel Francisco Chapo assumiu a Presidência da República, em Janeiro de 2025, tomou posse não apenas como chefe de Estado, mas como figura central de um projecto de reconciliação e reconstrução nacional, num momento em que o país ainda lidava com protestos pós-eleitorais e desafios de segurança no norte. Desde cedo, o Presidente posicionou-se como um líder que ouve e responde, afir-

mando que “ouvir as vozes dos moçambicanos” seria a peça chave para reequilibrar a coesão social e avançar com políticas públicas que, efectivamente, transformem a vida dos cidadãos.

Diálogo, Paz e Segurança

Ao longo do ano, Chapo insistiu que paz e segurança são pre-condições para o desenvolvimento, reforçando o diálogo político inclusivo e chamando a oposição e a sociedade civil a convergirem numa agenda de estabilidade e prosperidade partilhada. Mesmo diante de pressões contínuas no norte do país, onde atentados e insurgências impactaram vidas e infra-estruturas, o Chefe do Estado garantiu que o Governo continuaria empenhado em consolidar calmia e segurança, defendendo que “não há desenvolvimento sem paz”. Este empenho foi complementado pela participação activa de Moçambique em fóruns internacionais e regionais, como a 7ª Cimeira União Europeia-União Africana, onde Chapo reafirmou compromissos de cooperação multilateral, abrindo portas para parcerias estratégicas que podem ampliar investimentos e apoio externo ao país.

Transformação Económica e Social

Para além das questões de segurança e diplomacia, o Presidente orientou a

vando políticas de conteúdo local e programas de capacitação empresarial.

Revitalização da LAM

Num gesto de forte simbolismo económico, o Presidente da República assumiu um papel directo no apoio à revitalização da companhia Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), mobilizando soluções para a reestruturação financeira e operacional da transportadora de bandeira. Chapo encorajou a modernização da gestão, a recuperação da frota e o reforço das rotas domésticas e regionais, sublinhando que uma LAM sólida é vital para o turismo, para a integração territorial e para o relançamento da actividade económica.

Intervenção no Campo Social

As suas orientações estenderam-se à expansão de infra-estruturas públicas – estradas, energia e abastecimento de água – como alavancas para reduzir custos de produção. Defendeu ainda reformas na agricultura para aumentar a produtividade, programas de habitação acessível e iniciativas voltadas para a juventude e para as mulheres empreendedoras, reforçando a visão de um desenvolvimento que combine crescimento económico com justiça social. O impacto da liderança de Chapo em 2025 foi também reconhecido por actores nacionais. A FDEM atribuiu ao Presidente o “Prémio Resi-

A capacidade de uma seguradora pública como a EMOSE, de traduzir riscos financeiros em respostas concretas, foi crucial para manter a confiança dos negócios e dos cidadãos"

agenda governativa para medidas estruturantes capazes de dinamizar sectores chave da economia, como o turismo, com anúncios de zonas económicas especiais e facilitação de investimentos internacionais.

Defendeu, igualmente, uma maior articulação entre o Estado e o sector privado para acelerar projectos geradores de emprego, melhorar o ambiente de negócios e promover a industrialização com base nos recursos nacionais.

O Fundo de Garantia Mutuária Chapo lançou instrumentos como o Fundo de Garantia Mutuária, um mecanismo financeiro avaliado em cerca de 40 milhões de dólares para apoiar empresas e empreendedores, fortalecendo, assim, o acesso ao crédito e a capacidade de investimento produtivo no país. A par disso, enfatizou a necessidade de priorizar as Pequenas e Médias Empresas como motor do crescimento inclusivo, incenti-

liência”, destacando a proximidade entre o Estado e o sector empresarial e reforçando a ideia de que, mesmo sob pressão, Moçambique encontrou uma liderança que não se limitou a gerir crises, mas procurou fomentar confiança e diálogo com o sector produtivo.

EMOSE

EMOSE, quando o seguro é parte da resiliência nacional A Empresa Moçambicana de Seguros (EMOSE), a seguradora pública mais

antiga e com maior penetração no país, evoluiu ao longo de 2025 para muito mais do que um actor tradicional no mercado de seguros: tornou-se um instrumento de protecção sistémica e de mitigação de risco para o próprio Estado e para a economia nacional. Consolidou-se como seguradora nacional com uma vasta carteira de produtos que abrangem ramos de vida e não vida, servindo tanto pessoas como organizações espalhadas por todo o território moçambicano.

Seguro Como Política de Desenvolvimento

Em 2025, a EMOSE não se limitou a manter a sua actividade tradicional. Reportou um resultado líquido histórico de 368,1 milhões de meticais em 2024, um crescimento exponencial face aos anos anteriores, fruto de uma gestão prudente, selecção criteriosa de riscos, racionalização de custos e digitalização de processos – factores que fortaleceram a sua posição de liderança no sector segurador nacional.

Nesse mesmo período, a empresa consolidou o seu compromisso com a economia nacional através da distribuição de dividendos aos accionistas, traduzindo a sua solidez financeira em benefício directo do Estado e dos investidores privados.

Entre as inovações de produto, a EMOSE lançou ou expandiu soluções com impacto social e económico:

● Seguro agrícola e climático, com iniciativas piloto na Zambézia e, mais recentemente, através de parcerias com seguradoras privadas para reforçar a resiliência dos agricultores aos riscos climáticos extremos – uma resposta estratégica à vulnerabilidade do sector agrícola moçambicano.

● Seguros de saúde diversificados, estabelecidos em parceria com a Medihealth para oferecer cobertura nacional e internacional, e ampliar a protecção social dos moçambicanos.

● Acordos com instituições financeiras, como o memorando de entendimento com o BancABC para facilitar o pagamento de prémios e integração de serviços, fortalecendo sinergias entre o sector segurador e bancário.

Proximidade Com a Realidade Social

A capacidade de uma seguradora pública como a EMOSE de traduzir riscos financeiros em respostas concretas, mesmo em contextos de choques externos, foi crucial para manter a confiança dos negócios e dos cidadãos num ano marcado por instabilidades e desafios económicos. Ao diversificar produtos e reforçar a acessibilidade dos seguros, a empresa contribuiu para a cultura de protecção, mitigação de riscos e inclusão financeira em áreas tradicionalmente pouco co-

bertas pelos seguros em Moçambique. A EMOSE em 2025 simboliza que o seguro em Moçambique deixou de ser um serviço meramente financeiro para se tornar um componente essencial da estabilidade social e económica.

INGD

INGD, a Guardião da resposta às crises climáticas

O Instituto Nacional de Gestão de Desastres (INGD) desempenhou um papel fundamental em 2025, num país expos-

O INGD coordenou a resposta a vários eventos extremos que afectaram o país ao longo do ano, incluindo o impacto de múltiplos ciclones tropicais que resultaram em inundações generalizadas e deslocações de populações"

to a múltiplos riscos naturais, como ciclones, cheias e secas, frequentemente combinados com factores humanos de vulnerabilidade. A sua missão institucional (coordenar acções de prevenção, mitigação, resposta e recuperação de desastres) tornou-se uma referência prática num ano em que a fragilidade climática exigiu respostas responsáveis, coordenadas e multissectoriais.

Preparação, Prevenção e Treino Comunitário

No início do ano, o Instituto conduziu exercícios de simulação para a próxima época chuvosa e ciclónica, envolvendo mais de 1.900 comités locais e destacando a importância da mobilização comunitária para detectar, antecipar e responder a riscos, um sinal claro de uma gestão de desastres que já ultrapassa respostas reactivas e que está a evoluir para uma cultura de resiliência integrada. Além disso, o INGD realizou ses-

sões de formação com foco na preparação de oficiais de gestão de risco nos níveis provinciais e distritais, em parceria com organismos como o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e a Agência Coreana de Cooperação Internacional (KOICA), expandindo este tipo de capacitação a províncias como Cabo Delgado, Sofala e Manica. Um dos marcos institucionais de 2025 foi a inauguração de uma moderna Sala de Situações no Centro Nacional Operativo de Emergência (CENOE), em Maputo, equipada para fortalecer a monitorização de eventos climáticos extremos e articular respostas mais rápidas e eficazes.

Gestão de Emergências e Resposta Humanitária

O INGD coordenou a resposta a vários eventos extremos que afectaram o país ao longo do ano, incluindo o impacto de múltiplos ciclones tropicais que resulta-

Um Ano de Resiliência Integrada

A conjugação das acções do Presidente Daniel Chapo, da EMOSE, do INGD e da FDEM em 2025 não é casual. Representa modelos complementares de resposta e construção social. Enquanto Chapo estruturou política e estabilidade, a EMOSE assegurou proteção económica, o INGD coordenou a resiliência ao risco e a FDEM impulsionou a dinâmica empresarial – todos essenciais para um país que enfrenta desafios múltiplos com objectivos de longo prazo. Este artigo presta, assim, uma homenagem fundamentada no reconhecimento dos valores partilhados de liderança, protecção, resiliência e dinamismo económico que estas quatro entidades representaram no ano passado, um ano em que Moçambique insistiu em avançar, apesar das adversidades.

ram em inundações generalizadas e deslocações de populações. Autoridades relatam a assistência directa a centenas de famílias afectadas por chuvas intensas e ventos fortes em regiões como a província de Manica, com o envio de kits de abrigo e apoio essencial às comunidades mais vulneráveis.

Cooperação Multilateral e Capacitação Técnica

Em Outubro, o Instituto coordenou actividades de formação contínua com o apoio de parceiros internacionais, reforçando capacidades de resposta em zonas como Cabo Delgado, onde a combinação de instabilidade e fenómenos naturais intensificam a exposição ao risco. O trabalho do INGD não se limita à resposta correctiva: em Dezembro de 2025 acolheu um encontro internacional de troca de experiências com instituições de outros países africanos, fortalecendo sistemas nacionais de

monitoria multirriscos, aviso prévio e coordenação de emergências.

A instituição também iniciou a articulação estratégica com a Agência Nacional de Energia Atómica (ANEA) para integrar respostas a emergências radiológicas no Plano Nacional de Resposta a Desastres, demonstrando a sua crescente abrangência técnica e institucional.

FDEM

FDEM, mais uma voz para dinamizar o sector empresarial

A Federação de Desenvolvimento Empresarial de Moçambique (FDEM) reforçou, em 2025, o seu papel como interlocutor estratégico entre o sector privado e as instâncias públicas, defendendo uma visão de desenvolvimento sustentado com base no investimento, na criação de emprego e na competitividade empresarial. Ao longo do ano, a Federação

A FDEM promoveu consultas sectoriais para a criação de um Observatório de Custos de Negócio, visando monitorizar e propor soluções para desafios como o custo de energia, logística e crédito"

intensificou a sua actuação em fóruns de política pública, apresentando propostas concretas para a simplificação de procedimentos administrativos, a redução de custos de contexto e a promoção do ambiente de negócios – contribuições que foram integradas em debates legislativos e políticas de promoção de investimento. No plano simbólico, a FEDEM atribuiu o Prémio Resiliência ao Presidente

da República, destacando o diálogo construtivo e a cooperação entre o Governo e o empresariado – um gesto que traduz a confiança dos agentes produtivos em políticas de crescimento e estabilidade. Em complemento, a Federação também distinguiu líderes empresariais que marcaram o ano com práticas inovadoras e impacto social, reforçando a ligação entre competitividade e responsabilidade social corporativa.

A FDEM tem intensificado a sua presença institucional, incluindo a inauguração de uma nova sede nacional, um espaço moderno concebido para acolher encontros sectoriais, formações e diálogos entre empresários e decisores públicos, simbolizando um novo momento de fortalecimento da representatividade empresarial. Este espaço passou a ser um ponto de convergência para eventos de capacitação sobre temas como ESG (Environmental, Social and Governance), acesso ao financiamento para as PME e transformação digital, em parceria com organismos internacionais e câmaras de comércio regionais.

Em 2025, a Federação assinou memorandos de entendimento com plataformas regionais e internacionais, incluindo acordos para promover liderança empresarial jovem, fomentar redes de networking empresarial e apoiar o desenvolvimento de clusters sectoriais, nomeadamente nos sectores de agro-negócio, tecnologia e turismo. Estes acordos abriram portas para programas de intercâmbio com hubs de inovação em África e parcerias com plataformas de formação empresarial que ampliam as capacidades de gestão dos negócios moçambicanos.

A FDEM também lançou, em conjunto com instituições financeiras e parceiros de desenvolvimento, iniciativas de acesso a capital para PME, incluindo eventos de “matchmaking” entre empresas e potenciais investidores, contribuindo para reduzir a lacuna de financiamento que afecta as empresas emergentes. Paralelamente, promoveu consultas sectoriais para a criação de um Observatório de Custos de Negócio, visando monitorizar e propor soluções para desafios como o custo de energia, logística e crédito.

Bolsa de Valores Conclui Operação de Troca de Dívida Pública no

Fecho de 2025

Texto Aurélio Muianga

Imagem Fernando Roque

MMoçambique encerrou o ano de 2025 com mais uma operação de emissão e troca de Obrigações do Tesouro (OT) realizada através da Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), no montante de 8,3 mil milhões de meticais, equivalente a 111,6 milhões de euros. A procura correspondeu a 93,71% da oferta, tendo sido integralmente atribuídos os títulos solicitados.

Do valor total da emissão OT-2025 10.ª Série, cerca de 98,9 milhões de euros destinaram-se à troca de obrigações anteriores, enquanto apenas 12,6 milhões de euros representaram novas subscrições, confirmando que o principal objectivo foi a rolagem de dívida que vencia em 2026.

Esta operação soma-se a três emissões realizadas nos últimos dias de Dezembro:

● 7.ª Série: 27,7 M€, a cinco anos, com taxa fixa de 13,5%, primeiro pagamento de juros previsto para Junho de 2026 e reembolsos de capital entre 2028 e 2030;

● 8.ª Série: 39,2 M€, a seis anos, com juro fixo de 15%;

● 9.ª Série: 38 M€, também a seis anos e 15%, mas com período de graça de um ano, sem pagamento de juros nesse intervalo.

Ao longo de 2025 já tinham sido efectuadas outras seis emissões entre Março e Setembro, totalizando 355 milhões de euros, a maioria inteiramente voltada para trocas de dívida emitida entre 2020 e 2021.

Segundo dados do Ministério das Finanças, até Setembro foram realizados cinco leilões de troca no valor de 141 milhões de euros e uma subscrição directa pelos operadores especializados

de 133,1 milhões de euros, com taxa nominal de 14%. Grande parte destas operações correspondeu a rolagem automática de emissões antigas, sendo reduzida a entrada de novo financiamento efectivo.

No conjunto, as emissões confirmam a estratégia do Estado de alongar maturidades e gerir encargos financeiros, num contexto em que o mercado tem respondido com níveis consideráveis de adesão, mas com espaço ainda limitado para novas captações de recursos.

BVM e o sistema judicial juntam-se para combater crimes financeiros

A Bolsa de Valores de Moçambique (BVM, S.A.) e a Associação Moçambicana de Juízes (AMJ) rubricaram, recentemente em Maputo, um Memorando de Entendimento visando garantir a celeridade e eficácia das decisões do judiciário, particularmente no que concerne aos litígios no âmbito de valores mobiliários. Falando após o acto de assinatura do memorando, o Presidente do Conse-

Ao longo de 2025 já tinham sido efectuadas outras seis emissões entre Março e Setembro, totalizando 355 milhões de euros, a maioria inteiramente voltada para trocas de dívida emitida entre 2020 e 2021"

lho de Administração da BVM, S.A, Pedro Cossa, explicou que a parceria entre a Bolsa e a classe dos Magistrados representa uma dimensão estratégica que possibilita a qualificação recíproca dos profissionais de ambas instituições em domínios fundamentais.

"O acordo representa uma oportunidade para transformar qualitativamente o mercado de capitais moçambicano, permitindo que a BVM, S.A. e a AMJ assumam protagonismo na defesa de reformas estruturais e possibilitando que o mercado financeiro realize plenamente, o seu potencial como instrumento de inclusão económica e democratização do acesso aos benefícios do progresso nacional", disse Pedro Cossa.

Por seu turno, o presidente da AMJ, Esmeraldo Matavele, frisou que não há desenvolvimento sustentável sem uma justiça sólida, de tal forma que a assinatura do memorando de entendimento inaugura uma nova etapa de cooperação institucional entre os sistemas judicial e financeiro nacionais.

"A assinatura deste memorando representa uma convergência entre dois pilares fundamentais de um Estado moderno, ajudando a reforçar a transparência e a integridade do sistema financeiro nacional. Esperamos que o acordo seja capaz de gerar conhecimento, formar magistrados, prevenir litígios e consolidar ainda mais o Estado de direito democrático em Moçambique", defendeu Matavele.

Também presente na cerimónia, a Juíza Conselheira do Tribunal Supremo, Felicidade Machatine, considerou que a assinatura do acordo não é apenas um compromisso formal, mas sim um passo importante para o fortalecimento da actuação de todos os profissionais que se beneficiarão das matérias que serão abordadas.

A iniciativa decorreu no contexto da realização de uma palestra que visava discutir sobre o Mercado de Capitais, Bolsa de Valores e Central de Valores Mobiliários, e o papel do juiz na resolução de litígios no âmbito dos mercados de valores mobiliários.

O evento contou com a presença de magistrados e operadores judiciais, colaboradores da BVM, S.A., advogados e juristas especializados em direito financeiro, académicos e estudantes de direito e representantes de instituições financeiras e investidores institucionais

No seu conjunto, os dois desenvolvimentos ilustram o duplo desafio que se coloca ao mercado de capitais por um lado, a necessidade de continuar a gerir a dívida pública com disciplina, previsibilidade e credibilidade junto dos investidores; por outro, o imperativo de reforçar o enquadramento institucional e judicial que sustenta a confiança no sistema financeiro.

Fraude Financeira em Alta, Prevenção Ainda Fraca!

Aescalada dos crimes cibernéticos e das fraudes em meios de pagamento está a desafiar seriamente as empresas em Moçambique. No entanto, o investimento em tecnologia e em mecanismos modernos de detecção continua a avançar a um ritmo mais lento do que a sofisticação do crime financeiro. Esta é a principal conclusão da Fraud Risk Management Survey 2025, pesquisa conduzida pela Deloitte entre Agosto e Setembro, com base em 43 respostas de líderes empresariais de grandes organizações e de diferentes sectores de actividade económica. O estudo procurou avaliar o panorama da fraude, da ética e

da integridade corporativa no país. Mais do que medir incidentes isolados, o inquérito questionou as empresas sobre a sua percepção de risco e sobre as práticas internas de prevenção. O retrato que emerge revela uma realidade contraditória: a fraude é amplamente reconhecida como um problema crescente, mas as ferramentas para combatê-la ainda se mostram insuficientes para a dimensão das ameaças.

Números que chamam atenção Alguns indicadores do levantamento ajudam a perceber melhor esta contradição:

● 72% das empresas não recorre à tecnologia para detectar eventos de crime financeiro;

● 49% planeia investir em sistemas de monitorização de transacções em tempo real;

● 81% aposta em auditorias regulares como medida preventiva;

● Apenas 7% utiliza GenAI para identificar padrões anómalos.

Estes dados, segundo Vera Pita, consultora e especialista em crimes financeiros da Deloitte, mostram que “a maioria das organizações ainda privilegia mecanismos tradicionais, baseados sobretudo na acção humana, quando o contexto actual exige soluções mais inteligentes e automatizadas”.

Fraude interna: o principal risco Quando questionadas sobre tipologias de fraude, as empresas apontaram para problemas de origem interna. A prática mais comum é o conluio em esquemas de fraude em meios de pagamento, identificado por 88% dos inquiridos.

Texto Rezilda Paulino • Imagem D.R.

Qual é o peso das infracções?

88%

registou fraude interna nos últimos 24 meses;

84%

aponta suborno e corrupção como maior prática não ética;

72%

ainda não usa tecnologia para detectar crimes financeiros;

49%

vai investir em monitorização em tempo real;

7%

adopção actual de GenAI.

Trata-se de situações em que colaboradores actuam de forma concertada para manipular processos e burlar sistemas de controlo, muitas vezes aproveitando fragilidades nos procedimentos administrativos.

Outras formas recorrentes de fraude interna incluem o uso indevido de recursos da empresa (44%), o roubo de bens corporativos (24%) e a manipulação ou falsificação de registos financeiros (20%). O facto de 60% das empresas ter registado ou conhecido incidentes internos nos últimos 24 meses reforça a dimensão estrutural do problema e a necessidade de repensar a governança.

Causas que explicam comportamentos

Entre os factores que mais contribuem para a ocorrência de fraude destacam-se:

● Falta de valores éticos – 33%;

● Sistemas de controlo ineficientes –28%;

● Nível remuneratório reduzido – 23%.

A combinação destes elementos cria um ambiente propício para comportamentos desviantes, mostrando que a prevenção deve integrar não apenas tecnologia, mas também políticas de gestão de pessoas e de cultura organizacional.

A nova fronteira da fraude externa

No plano externo, o risco também é expressivo. Cerca de 35% dos líderes empresariais considera que a principal ameaça vem de fraudes promovidas por clientes ou fornecedores, especialmente através da exploração de vulnerabilidades em processos de pagamento e procurement. A fraude cibernética aparece logo a seguir, referida por 19% das empresas, ao lado da falsificação de documentos com igual percentagem.

O suborno e a corrupção são as práticas mais frequentes (84% das empresas). Seguem-se as fraudes em processos de procurement (60%), os conflitos de interesses (44%) e o branqueamento de capitais (37%)"

São esquemas que vão desde ataques de phishing e engenharia social até intrusões em plataformas digitais, cada vez mais utilizadas para transaccionar. Do universo inquirido, 35% experimentou, recentemente, algum tipo de incidente de crime financeiro. E entre estas, o impacto foi sobretudo financeiro (87%), mas também reputacional (33%) e legal (20%), evidenciando que os prejuízos ultrapassam largamente a simples perda monetária.

Ética e integridade corporativa

Um dos capítulos mais sensíveis da pesquisa diz respeito às condutas não éticas no meio empresarial moçambicano. O suborno e a corrupção surgem como as práticas mais frequentes, mencionadas por 84% das empresas participantes. Seguem-se as fraudes em processos de procurement (60%), os conflitos de interesses (44%) e o branqueamento de capitais (37%). O desvio de fundos foi referido por 30%, enquanto a fraude fiscal aparece com menor incidência (14%).

Para a Deloitte, estes resultados evidenciam áreas críticas onde se impõem mudanças profundas. “A tecnologia pode ser um aliado poderoso, mas nunca substitui a necessidade de liderança ética e de uma cultura organizacional íntegra”, sublinha Vera Pita.

Canais de denúncia com avanços e limites

No domínio da governança, há sinais positivos. Cerca de 70% das organizações afirma já possuir um canal específico de denúncia anónima para reportar situações irregulares. Contudo, a eficácia destes mecanismos continua comprometida pelo medo de retaliação. Sem garantias reais de protecção ao denunciante, muitas práticas acabam por não ser expostas, reduzindo o potencial desta importante ferramenta.

Tecnologia: planos de investimento ainda travados

Apesar da elevada exposição ao risco, 72% das empresas ainda não utiliza soluções tecnológicas avançadas para detectar crimes financeiros, dependendo de processos manuais e análises pontuais. Ainda assim, quase metade já percebe a necessidade de mudança: 49% pretende investir na monitorização em tempo real, 28% prevê reforçar a vigilância sobre colaboradores e 26% quer adoptar plataformas com machine learning.

A adopção, porém, enfrenta obstáculos claros: custos elevados (51%), resistência cultural (37%) e desconhecimento das soluções (33%) e escassez de profissionais especializados (23%). Sem ultrapassar estes constrangimentos, a transição para sistemas mais robustos de prevenção e detecção continuará a avançar de forma lenta e desigual.

FMI Destaca Pontos Críticos da Economia, Mas Pede Políticas Credíveis

Apesar da diminuição da tensão social pós-eleitoral, Moçambique continua a viver um período de forte incerteza económica. O país registou um abrandamento expressivo no último trimestre de 2024 e as expectativas para 2025 permanecem condicionadas por desafios fiscais internos e por riscos externos. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), este é um momento crucial para garantir a sustentabilidade financeira e relançar o crescimento.

Segundo Olamide Harrisson, Representante do FMI em Moçambique, “a situação fiscal continua difícil e, para além dos desafios orçamentais, as probabili-

dades externas também pesam sobre a economia”. Referiu que “estas condições realçam a importância de uma resposta política abrangente, coerente e credível”.

Há avanços no sistema financeiro?

Mesmo perante o quadro adverso, o FMI saudou progressos relevantes ocorridos em 2024 e 2025. Citando dados do Relatório de Inclusão Financeira de 2024 do Banco de Moçambique, Harrisson destacou que:

● O número de pontos de acesso financeiro cresceu 37%, beneficiando mais de 356 mil pessoas, impulsionado pelo aumento de agentes não bancários e terminais POS;

● As contas de moeda móvel atingiram o rácio de 1.093 por mil adultos;

● As contas pertencentes a mulheres aumentaram 50% num ano, reduzin-

do de forma visível o fosso de género no acesso digital;

● As contas bancárias formais subiram para 360 por mil adultos;

● O crédito à economia situa-se em torno de 20% do PIB, enquanto os depósitos alcançaram 49%.

Para o Representante do FMI, estes indicadores mostram um sistema financeiro mais dinâmico e com crescente penetração tecnológica, criando bases para serviços bancários modernos e maior eficiência operacional.

Fosso entre acesso e uso efectivo Contudo, Harrisson advertiu que ainda persistem barreiras importantes. “O fosso entre o acesso e a mobilização efectiva continua grande, sobretudo nas zonas rurais e entre as mulheres. As taxas de poupança são baixas e o uso do crédito

Texto Rezilda Paulino • Imagem Fernando Roque

formal permanece limitado”, afirmou. No seu entender, o fosso digital, resultante de lacunas de infra-estrutura e de baixa literacia financeira, continua a restringir a plena inclusão financeira. Este problema é reconhecido pela nova Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025–2031, que estabelece uma agenda abrangente para enfrentar tais desafios.

Confiança como base da transformação

Para o FMI, a inclusão financeira é a pedra angular da jornada de Moçambique rumo a um sistema bancário moderno. Harrisson explicou que “a expansão do acesso cria uma procura crescente por dados e soluções inovadoras”. No entanto, reforçou que nenhuma mudança será duradoura sem integridade e transparência: “a confiança é o ponto de partida para qualquer transformação no sector financeiro”.

Bolsa de Valores aposta na compliance para atrair investidores Estes dados foram apresentados na 2.ª Edição do Fórum Bancário do Absa Bank Moçambique, realizado recentemente

A

expansão do acesso financeiro em Moçambique é um avanço notável,mas o verdadeiro motor da transformação será converter esse acesso em utilização efectiva, num quadro em que a inovação tecnológica caminhe sempre lado a lado com a ética e a confiança regulatória"

sob o lema “Inovação Sustentável e Confiança Regulatória”. Intervindo no evento, o Administrador-executivo da Bolsa de Valores de Moçambique (BVM), Alcino Michaque, afirmou que a instituição atravessa um processo de consolidação regulatória. “Para nós, a compliance é fundamental para a atracção de novos investidores. Não queremos admitir mais empresas na bolsa a qualquer custo, mas sim com todos os requisitos exigidos”, disse.

Michaque revelou ainda que a BVM está a contratar sistemas tecnológicos para a detecção de irregularidades e a promover as vantagens do mercado bolsista, com o objectivo de aumentar o número de empresas cotadas e aprofundar o financiamento à economia.

FMI reafirma prontidão para apoiar o país

A mensagem final de Alexis Harrisson foi de claro compromisso institucional: o Fundo Monetário Internacional mantém-se empenhado em apoiar Moçambique na condução dos exigentes desafios fiscais, na melhoria da gestão das finanças públicas e na consolidação de um ambiente macroeconómico mais estável e sustentável. Este posicionamento surge numa fase em que o país implementa um programa de três anos ao abrigo da Facilidade de Crédito Alargado, focado no reforço da transparência orçamental, na contenção do endividamento e na criação de condições para o crescimento inclusivo.

Harrisson sublinhou que o apoio do FMI não se limita ao financiamento directo ao Orçamento do Estado, mas inclui igualmente assistência técnica ao Ministério da Economia e Finanças e ao Banco de Moçambique, nomeadamente nas áreas de administração tributária, controlo da despesa, estatísticas económicas e supervisão bancária. O objectivo, frisou, é ajudar o país a proteger os progressos alcançados nos últimos anos, como a redução da inflação para um dígito e a recuperação gradual das reservas internacionais, ao mesmo tempo que se abrem novas oportunidades para o investimento privado.

Para o banco Absa, o Fórum confirmou-se como uma plataforma relevante de diálogo entre autoridades, reguladores e sector financeiro, reforçando a visão de uma banca mais ética, inclusiva e preparada para o futuro. O encontro permitiu alinhar expectativas sobre o papel das instituições financeiras no apoio às PME, na educação financeira dos cidadãos e na digitalização responsável dos serviços, pilares que o FMI considera fundamentais para ampliar a estabilidade e aprofundar a intermediação financeira no país. Neste contexto, o desafio passa por transformar o apoio internacional em reformas duradouras

Cibercrimes Globais Disparam: Moçambique Regista Mais 16%

Entrevista a Jaime Mulhovo, Director de Informação e Segurança no Access Bank – África Austral

Asofisticação e a dimensão transfronteiriça dos crimes cibernéticos colocam os bancos no centro da vulnerabilidade digital. Mais do que exigir investimentos em tecnologia, esses ataques demandam antecipação de comportamentos, fortalecimento da cultura de segurança e protecção da confiança dos clientes. Em Moçambique, os crimes cibernéticos cresceram 16% em 2024, com impactos que vão muito além do sector

Um ataque cibernético não afecta apenas os bancos. Bloqueia salários, atrasa compras hospitalares e impede cidadãos de pagar propinas ou consultas, etc."

financeiro, afectando serviços essenciais como pagamentos hospitalares, propinas escolares e salários. Jaime Mulhovo, Director de Segurança de Informação no Access Bank e responsável pela iniciativa de segurança cibernética também na Namíbia, Zâmbia, Angola e Botswana, explica neste diálogo as causas, riscos e estratégias para enfrentar o fenómeno.

Fraude financeira é, antes de tudo, uma quebra de confiança. Como define fraude financeira e quais os desafios actuais para os bancos?

Fraude financeira é qualquer acção deliberada que visa obter vantagem indevida ou causar prejuízo a uma instituição

Texto Aurélio Muianga
Imagem Fernando Roque

ou indivíduo através da manipulação de processos, sistemas ou informações financeiras. Mas, mais do que uma definição técnica, é uma quebra de confiança”, afirma Mulhovo.

A digitalização acelerada dos serviços financeiros transformou a fraude num fenómeno transfronteiriço. Vulnerabilidades em uma instituição podem ser exploradas de qualquer lugar do mundo, exigindo que os bancos não se limitem a impedir ataques, mas também antecipem comportamentos, fortaleçam a cultura de segurança e protejam a confiança dos clientes.

Quem são os criminosos e como têm sucesso nas operações?

O crime migrou para o digital e tornou-se sofisticado”, explica Mulhovo. Existem perfis distintos: oportunistas exploram falhas simples; especialistas técnicos desenvolvem ferramentas de intrusão; redes organizadas fragmentam tarefas desde o roubo de dados até a lavagem de fundos; e insiders, muitas vezes involuntariamente, facilitam golpes dentro das instituições.

O sucesso decorre da exploração de vulnerabilidades humanas e do uso crescente de automação e Inteligência Artificial, permitindo ataques rápidos e precisos. Na África Austral, a interconexão dos sistemas financeiros faz com que falhas num país impactem a região intei-

ra, tornando a cooperação e a conscientização pública tão importantes quanto a tecnologia.

Impactos na economia e no cidadão

“Um ataque não afecta apenas o banco; bloqueia pagamentos, atrasa compras hospitalares, impede propinas escolares. O que começa como um problema tecnológico transforma-se rapidamente em económico e social”, alerta Mulhovo.

● Globalmente, perdas anuais com cibercrime ultrapassam USD 9,5 triliões, devendo atingir USD 10,5 triliões em 2025.

● Em África, estima-se que as perdas superem USD 4 biliões por ano, com mais de 90% das instituições financeiras a registarem incidentes significativos.

● Em Moçambique:

o 2023: mais de 39.000 casos de fraude electrónica, com perdas superiores a USD 2,77 milhões;

o 2024: aumento de 16% nos crimes cibernéticos;

o Só entre Janeiro e Maio de 2024, perdas já ultrapassavam USD 1,72 milhões;

o 173.770 ocorrências cibernéticas registadas, muitas direccionadas ao sector financeiro.

Mulhovo reforça que a cibersegurança é, hoje, central para a resiliência económica, confiança pública e estabilidade social, e não apenas uma questão técnica restrita aos bancos.

O contexto regional da SADC “No espaço financeiro da SADC, todos enfrentam ameaças semelhantes. A diferença está no grau de preparação e maturidade regulatória”, explica Mulhovo. Mercados com regulamentação clara e fiscalizada apresentam maior consistência nos controlos, processos robustos e capacidade de atrair talentos especializados.

A interdependência regional exige harmonização de práticas e partilha contínua de inteligência, garantindo que a resiliência não dependa apenas de cada país isoladamente.

Fragilidades que potenciam os crimes financeiros Mulhovo identifica três factores críticos:

1. Atracção natural dos bancos: movimentam valores elevados e lidam com dados sensíveis;

2. Descompasso entre digitalização e segurança: canais digitais avançam mais rápido do que tecnologias de prevenção, detecção e resposta;

3. Escassez de profissionais especializados: equipas reduzidas têm di-

ficuldade em acompanhar volume e complexidade das ameaças.

“A combinação de tecnologia, processos e pessoas é essencial para criar um ecossistema financeiro resiliente. Investimento isolado em tecnologia ou pessoal não é suficiente”, conclui.

Coordenação e cultura de segurança

A coordenação existe, mas ainda é fragmentada. Bancos, fintechs e operadoras móveis compartilham clientes, mas mensagens sobre segurança digital nem sempre são harmonizadas, criando lacunas exploradas por criminosos. Mulhovo ressalta: “É muito mais fácil hackear uma pessoa do que um sistema. A cibersegurança só alcançará maturidade plena quando todos os actores funcionarem como um ecossistema, com práticas harmonizadas, inteligência partilhada e comunicação consistente ao usuário final.”

Moçambique tem investido adequadamente em cibersegurança?

“Sim, o país começou pela base: leis, políticas, guidelines e regulamentação

A cibersegurança só alcança maturidade plena quando todos os actores do sector financeiro funcionam como um ecossistema, com práticas harmonizadas, inteligência partilhada e comunicação consistente dirigida ao usuário final”

clara. Isso gerou necessidade de profissionais capacitados e tecnologia robusta. Nos últimos anos, vemos evolução em equipas especializadas e adoção de normas internacionais como NIST e ISO 27001”, afirma Mulhovo. Apesar dos avanços, alerta que o ritmo dos investimentos ainda precisa acompanhar a sofisticação das ameaças. O próximo passo é aprofundar competências, reforçar disciplina técnica e garantir que todo o sector avance de forma uniforme.

A economia informal contribui para o aumento da fraude?

“Sim, sobretudo onde há menor rastreabilidade e controlo. Nesses espaços, criminosos encontram oportunidades para movimentar fundos e testar esquemas. A solução é integrar cidadãos e pequenos negócios no sistema financeiro formal, com plataformas digitais seguras, contas simplificadas e literacia digital. Quanto mais formal o ecossistema, mais difícil para o criminoso actuar sem deixar rasto”, concluiu. O alerta reforça a ideia de que o combate à fraude não se faz apenas com tecnologia ou repressão, mas também com inclusão financeira e políticas que reduzam a informalidade.

Promover o crescimento competitivo e sustentável do mercado secundário centralizado de valores mobiliários, consolidando a confiança e a transparência no sistema financeiro nacional.

Digitalizar Moçambique: o Desafio Que Vai Muito Além da Tecnologia

Entre interoperabilidade, protecção de dados e inclusão, Bruno Dias, da consultora Ernst & Young (EY) explica como o país precisa de construir infra-estruturas, governance e literacia para transformar a agenda digital num verdadeiro motor de desenvolvimento sócioeconómico

Adigitalização do Estado e da economia ganhou novo fôlego em Moçambique com iniciativas recentes como o Sistema de Certificação

Digital e o Quadro de Interoperabilidade. Mas transformar plataformas legais e tecnológicas em serviços efectivamente usados por cidadãos e empresas continua a ser um percurso complexo e cheio de barreiras práticas.

Nesta entrevista, Bruno Dias, partner da Ernst & Young (EY), analisa o actual momento da transformação digital nacional, identifica os principais entraves estruturais e aponta caminhos para que a modernização tecnológica tenha impacto real, sobretudo nas PME e nas zonas rurais. Para o gestor, o futuro digital do país depende, acima de tudo, de colocar as pessoas no centro das mudanças e de garantir sistemas seguros, integrados e sustentáveis.

O Governo tem avançado com iniciativas como o Sistema de Certificação Digital e o Quadro de Interoperabilidade. Na sua visão, quais são os maiores desafios práticos para a implementação e adopção generalizada dessas plataformas, especialmente considerando a diversidade de sectores como educação, saúde e protecção?

Estas duas iniciativas complementam-se na sua natureza e são fundamentais para aumentar a eficiência e abrangência do serviço público.

A interoperabilidade é crucial para conectar sistemas dispersos em vários ministérios e garantir fluxos de processos e serviços ao cidadão de forma transparente, acessíveis através de portais ou em balcões de atendimento. Os maiores desafios que prevejo estão no mapeamento dos vários sistemas e dos dados necessários a estes fluxos processuais. Para além disso, a heterogeneidade tecnológica destes sistemas coloca desafios técnicos e poderá implicar a necessidade de upgrades ou migrações tecnológicas.

O Sistema de Certificação Digital é muito importante para cada cidadão aceder de forma segura a estes serviços e conseguir autenticar, assinar documentos e fazer transacções seguras. São sistemas complexos a nível tecnológico por exigirem certificados digitais, chaves públicas e privadas, e falta ainda toda essa infra-estrutura em Moçambique. É necessário ainda montar um governance muito bem estruturado nomeadamente ao nível das entidades certificadoras e nos processos de emissão de certificados digitais.

A inclusão financeira e digital é um dos pilares da estratégia

A criação de um número único, ou a possível utilização de um dos números já existentes, funcionaria como uma chave única de identificação onde se associariam outros números como o NUIT, o número de beneficiário do INSS, o de BI, etc."

do Governo. No entanto, Moçambique ainda enfrenta desafios de acesso e literacia digital. Como a Ernst & Young vê o papel das empresas privadas e do sector financeiro para preencher essa lacuna e garantir que a digitalização beneficie, de facto, a todos os cidadãos e empresas, especialmente nas áreas rurais?

Em Países comparáveis têm sido executados programas de inclusão digital e literacia financeira, normalmente operacionalizados por Organizações Não Governamentais (ONG), em parceria com entidades privadas como a banca e operadores de telecomunicações, bem como com entidades públicas, escolas e comunidades. É muito importante estruturar estes programas e garantir capilaridade distrital na sua actuação.

A proposta de Lei de Protecção de Dados está no processo de consulta pública. Para si, como seriam evitados conflitos entre as normas de protecção de dados e as legislações específicas do sector do financeiro?

Quanto a mim não pode haver conflitos e isso garante-se com o envolvimento, no processo de auscultação e consulta pública, de todas as entidades relevantes, nomeadamente o Banco de Moçambique, que em conjunto com o Instituto Nacional de Tecnologias de Informação e Comunicação (INTIC) e demais stakeholders devem debater e consensualizar eventuais áreas de divergência.

Até que ponto a possível criação do número único de identificação seria eficaz no contexto actual da digitalização em Moçambique?

A criação de um número único, ou a possível utilização de um dos números já existentes, que consiga identificar univocamente o cidadão é muito importante e traz muitas vantagens na transacionalidade que se pretentende. Funcionaria como uma chave única de identificação onde se associariam outros números como o NUIT, o número de beneficiário do INSS, o de Bilhete de identidade, etc. Estes números por si são chaves transacionais nos processos especificos a que dizem respeito. Esta foi uma prática seguida em vários Países quando deram os primeiros passos de implementação de iniciativas de Governo Electrónico.

A competitividade das PME é crucial para o crescimento económico. No contexto da digitalização, quais são as principais barreiras que as PME nacionais enfrentam para adoptar tecnologias digitais? Que tipo de apoio ou incentivos seriam mais eficazes para impulsionar essa transição,

Texto Rezilda Paulino Imagem D.R.

e como a Ernst & Young tem ajudado nesse processo?

As barreiras estão muito associadas à conectividade em zonas remotas, o nível de literacia digital (já abordado numa resposta anterior) e capacidade de investimento em tecnologia.

A conectividade tem melhorado e o país já tem uma cobertura considerável junto das principais vias de comunicação. Temos feito programas a nível nacional, em que usamos plataformas online como grupos de whatsapp, com bastante adesão, principalmente pelas camadas jovens.

Aumentar a capacidade de investimento das PME é um tema de resolução complexa, mas que pode passar por produtos bancários inovadores ou por mecanismos de garantia por parte do estado em projectos bem estruturados (é exemplo disso o recém-criado Fundo de Garantia Mutuária).

O Governo pretende alcançar maior eficiência e transparência através do uso inteligente de dados. Que tipo de infra-estrutura de dados é necessária para que isso seja uma realidade? E, além da infra-estrutura, como é possível garantir a segurança e a privacidade de dados dos cidadãos, construindo a confiança necessária para que as pessoas usem os serviços digitais? Tal como mencionado, um dos principais desafios será no mapeamento e no assegurar da limpeza e tratamento de dados para aumentar a sua qualidade. Isto só é possível com tecnologias e metodologias próprias e equipas com o know-how necessário.

O sector privado tem um papel muito importante no desenvolvimento de talento, nomeadamente nas capacidades digitais dos seus colaboradores"

moçambicano que recrutamos nas principais universidades. Muitos deles têm certificados em tecnologias emergentes e tem vindo a adquirir características muito diferenciadas.

São muito importantes também as parcerias com universidades, quer no recrutamento, quer para que possam ser dadas as contribuições necessárias à melhoria dos currículos disponíveis para que estejam mais alinhados com a procura.

Por fim, os sectores público, privado e as universidades devem estar em constante articulação e cooperação para a definição de projectos de capacitação dos jovens.

Considerando todos os desafios que discutimos, desde a inclusão até à infraestrutura, qual deveria ser a prioridade para Moçambique a curto, médio ou longo prazo, para garantir que a digitalização seja um verdadeiro motor de desenvolvimento económico e social?

Como em tudo, julgo que as pessoas devem estar no centro das transformações. As medidas prioritárias, para além dos programas de inclusão digital já referidos, poderão incluir o alinhamento dos currículos universitários e técnico-profissionais à procura do mercado e, eventualmente, programas de incentivo à formação e capacitação das empresas em temas associados à transformação digital.

Considerando os iminentes desafios (todos já mencionados), como a digitalização pode ser apoiada em Moçambique?

É muito importante para temas de segurança e privacidade destes dados, assegurar infra-estruturas de centros de dados resilientes e enquadramentos de cibersegurança adequados.

A capacitação de jovens e empreendedores é essencial para o futuro digital. Que tipo de parcerias entre o sector público, as universidades, e o sector privado (como a Ernst & Young) seriam mais eficazes para desenvolver as competências digitais necessárias e preparar a força de trabalho para a nova economia?

O sector privado tem um papel muito importante no desenvolvimento de talento, nomeadamente nas capacidades digitais dos seus colaboradores. A título de exemplo na EY estruturamos um Hub Tecnológico em que formamos talento

Os principais players do sector privado e do sector público em Moçambique já têm a transformação digital no centro das suas agendas. No que diz respeito a programas públicos, o apoio poderá vir, para além dos projectos já em curso em conjunto com o Banco Mundial, do financiamento de outras instituições multilaterais ou cooperações governamentais.

Para terminar, quais são as expectativas da EY no que diz respeito ao futuro digital nacional, com a criação do novo Ministério das Comunicações e Transformação Digital (MCTD)?

São as melhores possíveis. Os projectos lançados são estruturantes para Moçambique e a criação de um Ministério que gira centralmente a agenda digital é um tema diferenciador e que, com certeza, trará frutos no imediato.

Quando o Clima Passa à Conta Bancária

Como as instituições financeiras em Moçambique estão a preparar-se para gerir os riscos climáticos com base no novo Aviso do Banco de Moçambique, e por que isso importa para o futuro sustentável do país?

AErnst & Young (EY) reuniu recentemente, em Maputo, líderes do sector financeiro, parceiros de cooperação e membros da sociedade civil para um encontro estratégico dedicado a um tema que já não pode ser ignorado: os riscos climáticos e a sua integração na gestão diária das instituições financeiras em Moçambique. O “Executive Breakfast sobre Desafios e Oportu-

nidades de Gestão dos Riscos Climáticos para o Sector Financeiro em Moçambique” centrou-se na interpretação e no impacto do Aviso n.º 6/GMC/2025 do Banco de Moçambique (BdM), um instrumento regulatório que obriga bancos e outras instituições a articular, formalizar e reportar a avaliação e mitigação de riscos climáticos a partir de Abril de 2026.

Esta iniciativa regulatória traduz um entendimento crescente: a estabilidade do sistema financeiro está directamente ligada à capacidade de antecipar, medir e gerir riscos relacionados com o ambiente

e com as transformações climáticas, especialmente num país geograficamente vulnerável a ciclones, cheias, secas e outras perturbações ecológicas.

A emergência do risco climático em Moçambique

Pedro Mota, gerente-senior dos Serviços de Mudanças Climáticas e Sustentabilidade da EY, colocou o tema em perspectiva global e local. Para ele, as alterações climáticas não se limitam ao aumento da temperatura: têm impacto directo na igualdade de oportunidades das populações e nos riscos de negócios em eco-

Texto Rezilda Paulino Imagem D.R.

nomia real. Por isso, entende que o sector financeiro assume um papel crítico na mobilização de capitais para actividades sustentáveis.

O novo Aviso do BdM “chega num excelente momento para posicionar a economia moçambicana de forma resiliente e atractiva para investidores”, disse Pedro Mota.

Sectores vulneráveis e o dilema energético

Por sua vez, Manuel Mota, Parceiro de Auditoria da EY, considera que a gestão de riscos deve ser feita com base na relevância dos riscos ambientais, sociais e de governança (ESG) para cada instituição, sector e localização geográfica. O responsábel destacou que:

● A agricultura é um dos sectores mais expostos aos riscos físicos: quando as colheitas são destruídas por eventos climáticos extremos, diminui a

Gerente Sénior — Serviços de Mudanças

Climáticas e Sustentabilidade, EY

Qual a importância deste tema para o sector bancário em Moçambique?

A emergência é crítica. As alterações climáticas, mais do que impactos ambientais, afectam direitos humanos, igualdade e provocam eventos extremos cada vez mais frequentes. O sector financeiro tem um papel essencial em direccionar capitais para actividades sustentáveis, e este é um excelente momento para posicionar a economia moçambicana de forma resiliente, identificando claramente riscos e oportunidades nos horizontes de curto, médio e longo prazo.

Quais os principais riscos que gestores devem considerar?

Esta iniciativa regulatória traduz um entendimento crescente: a estabilidade do sistema financeiro está directamente ligada à capacidade de antecipar, medir e gerir riscos relacionados com o ambiente e com as transformações climáticas"

Devemos olhar para riscos físicos (eventos extremos ou mudanças crónicas) e riscos de transição associados a requisitos regulatórios, evolução tecnológica e mudanças de mercado, além de reputação. A maior oportunidade para os bancos é a credibilidade: demonstrar internamente e externamente que o financiamento está alinhado com grandes objectivos sociais, incluindo os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Os riscos climáticos devem ser tratados de forma distinta dos restantes riscos de mercado?

Devem ser medidos conforme a sua relevância. Factores como sector, localização e tecnologia influenciam o impacto, e todos os elementos ESG (ambiental, social e governança) devem ser considerados.

Como atrair capital privado para mitigar riscos?

A chave está na credibilidade que as instituições podem construir ao gerir, controlar e divulgar bem estes riscos. Isso cria confiança para investimentos sustentáveis.

Como espera que o sector responda ao aviso do BdM?

Acredito que haverá uma resposta positiva. Muitos bancos já incorporam estes riscos nas suas práticas, e este Aviso apenas formaliza e exige a identificação e gestão estruturada dos mesmos.

capacidade de reembolso de financiamentos.

● A localização dos activos pode, independentemente do tipo de actividade, determinar a magnitude do risco.

No campo da transição energética, Mota observa um desafio e uma oportunidade simultâneos: com o imenso potencial de gás natural, Moçambique pode utilizar os resultados desta indústria para financiar a própria transição energética, gerando ganhos para as comunidades e reduzindo vulnerabilidades.

Como o BCI se antecipa ao novo aviso

José Gamito, Director Central do Banco Comercial e de Investimentos (BCI), confirmou que o sector bancário já reconhece os riscos climáticos como “iminentes” e que o BCI se encontra em fase de preparação activa antes mesmo

Clima e Finanças: O Essencial para a Banca Moçambicana

Identificação e medição de riscos

A EY detalhou as duas principais vertentes de risco, nomeadamente os Riscos Físicos e os Riscos de Transição. Riscos Físicos subdividemse em agudos e crónicos, sendo os agudos referentes a situações pontuais de eventos extremos (tufões, ciclones), e os crónicos dizem respeito a efeitos de longo prazo (subida do nível médio do mar, aumento da temperatura e falta de água).

Pedro Mota sublinhou que a capacidade de identificar, compreender, medir, monitorizar e reportar estes riscos é crucial para a protecção das instituições. A maior oportunidade, segundo o responsável, reside na “credibilidade do sector bancário” para financiar projectos alinhados aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

da exigência formal do Aviso n.º 6/ GMC/2025.

Entre as medidas anunciadas estão:

● Actualização dos documentos internos para integrar os riscos climáticos e ambientais.

● Desenvolvimento de metodologias próprias de monitorização e reporte.

● Formação intensiva das equipas para fortalecer a capacidade interna de gestão de riscos.

● Indução da cadeia de valor – fornecedores, parceiros e stakeholders –para entender e mapear riscos físicos ao longo da rede de negócios.

Proteção social: o teste da inclusão Riscos crescentes e necessidade de respostas Especialistas concordam que a frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos continuarão a aumentar nos próximos anos. Esta tendência torna ainda mais urgente a capacidade das instituições de identificar, medir, monitori-

O evento promovido pela EY confirma que,

com o Aviso n.º 6/GMC/2025, o

risco climático em Moçambique deixa de ser um tema meramente ambiental para se tornar um imperativo regulatório e de gestão de risco financeiro"

zar e elaborar planos efectivos de mitigação – não apenas para cumprir com o novo Aviso do BdM, mas para proteger a própria saúde financeira do sistema bancário moçambicano.

A adopção destas práticas afectará directamente a disponibilidade de crédito, a avaliação de activos, os custos financeiros e até as taxas de juro. Só através de processos sólidos de governança e reporte será possível aumentar a confiança dos investidores nacionais e internacionais no ambiente de negócios do país.

O evento promovido pela EY confirma que, com o Aviso n.º 6/GMC/2025, o risco climático em Moçambique deixa de ser um tema meramente ambiental para se tornar um imperativo regulatório e de gestão de risco financeiro.

O sector financeiro enfrenta um desafio considerável, mas também uma oportunidade estratégica para consolidar a sua credibilidade e resiliência, colocando Moçambique na rota de investimentos mais seguros, sustentáveis e alinhados com os desafios do século XXI.

Talvez a Mudança do Paradigma

Opedido de autorização legislativa do Regime Jurídico dos Seguros, aprovado pelo Decreto-Lei nº1/2010, de 31 de Dezembro, foi recentemente aceite pela Assembleia da República.

O argumento do proponente, que é o Governo, representado pelo Ministério das Finanças, é a legislação do ramo desajustada da realidade actual, sobretudo, no atinente aos aspectos relativos às condições de acesso e de exercício da actividade seguradora e mediação de garantias financeiras exigíveis às seguradoras e resseguradoras, bem como ao contrato de seguros.

Que bom! A fundamentação é tão forte que alimenta a expectativa de uma reviravolta de 360%, até porque a nova Proposta de Lei, que já deve estar a ser forjada pelo Executivo, avança para a mudança do nome do Regulador e do modus operandi.

A iniciativa do Governo suscita a seguinte pergunta: Que razões impediram a modernização do quadro regulatório do domínio regulador, ao ponto de Moçambique ter o rácio entre o seguro e o número da população de apenas 1,6%, que é mais baixo da SADC?

A iniciativa do Governo suscita a seguinte pergunta: Que razões impediram a modernização do quadro regulatório do domínio regulador, ao ponto de Moçambique ter o rácio entre o seguro e o

A Liga
Moçambicana de Futebol segura os jogadores do escalão principal do futebol nacional, até onde sabe ser importante e pode

número da população de apenas 1,6%, que é mais baixo da SADC?

Por exemplo, na III Conferência Anual de Seguros, a actual lei de seguros foi apontada, em parte, como tendo aspectos que não agilizam a massificação de seguros para os moçambicanos, e assumiu-se que a responsabilidade é de todos nós (actores), para pelo menos a penetração do seguro estar acima de 2%.

Nesse prisma, eu aponto algumas lacunas de palmatória que resultam da inação e não só das barreiras da própria lei de seguros, porque o simples facto de sempre dizer "todos nós" dá a ideia de que todos assumirmos o compromisso e ambicionamos alcançar o mesmo objectivo, mas existem aqueles que não são proactivos ou activos e nem reactivos, o que faz com que as coisas permaneçam na mesma.

Mas, para ir mais a fundo, começo por dizer que o seguro Regime Jurídico de Seguros em via de revisão estabelece quatro seguros obrigatórios: Seguro de Responsabilidade Civil Automóvel; Seguro de Trabalho e Doenças Profissionais; Seguro de Condomínio ou Habitação; e Seguro Desportivo.

Mas, afinal de contas, o que é obrigatório? Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, significa algo que não pode deixar de ser feito ou cumprido, que é forçoso, ou que impõe a necessidade de ser feito. Já que estamos a falar da legislação de seguros que estabelece obrigatoriedade, mas admitimos que a mesma não nos leva atingir as nossas metas por estar desajustada, então temos de perceber o que é obrigatório na óptica da lei.

Nos termos da lei, obrigatório significa "que algo está sendo feito de acordo com o que é especificado e exigido por uma legislação específica, como um contrato, uma Constituição ou um Estatuto. É uma expressão utilizada para indicar que uma acção, decisão ou declaração segue rigorosamente as normas e regulamentos vigentes em uma determinada situação jurídica".

Para percebermos bem que a lei combina a acção humana, os trabalhos jornalísticos de investigação que tenho estado a fazer, desde 2018, junto de variadas fontes, levaram-me concluir que destes seguros obrigatórios, apenas o SORCASeguro de Responsabilidade Civil Automóvel, o famoso seguro automóvel, é que de facto se materializa como obrigatório pela acção.

Importa explicar que este seguro serve para cobrir os danos materiais e corporais causados a terceiros em caso de acidente, pois garante que os custos correspondentes a indemnização por le-

AURÉLIO MUIANGA
Director Editorial da Revista
Banca & Seguros

sões, morte ou danos em outros veículos sejam pagos pela seguradora, onde se contratou o mesmo.

Desencadearam várias acções de sensibilização dos automobilistas nas vias públicas, sobretudo levadas a cabo em coordenação com o Ministério do Interior e Conselhos Autárquicos, através da Polícia de Trânsito e Polícia Municipal, respectivamente.

No fim da tolerância, toda a viatura que fosse interpelada a circular na estrada sem seguro automóvel passou a ser multada e aquele provoca acidente que resulta em danos corporais, o caso segue ao Tribunal de Polícia, onde o culpado ou culpados são penalizados e fixa-se a indemnização devida para as vítimas.

Com essa mudança de paradigma, as pessoas veem-se de facto obrigadas a contratar o seguro automóvel, este poderá estar a contribuir com uma percentagem significativa com outros segu-

ros voluntários, na elevação da taxa de penetração de seguros, que ainda tenta roçar 2%.

Porém, verifica-se que os outros três seguros obrigatórios a que me referi são tidos como "voluntários" por haver uma aparente tolerância na imposição da lei se compararmos com o seguro automóvel. Deixando de lado, a inação do Seguro Obrigatório de Trabalho e Doenças Profissionais e o Seguro de Condomínio, para uma outra análise, termino apontando o quase desconhecimento do Seguro Obrigatório Desportivo, entre os clubes e atletas. Neste caso, foram precisas as direcções dos Clubes de Desporto do Ferroviário de Maputo, Desportivo de Maputo, Clube de Desportos Matchedje e Clube Atlético Muçulmano, só para mencionar alguns.

Quando me abriram as portas para um trabalho de investigação, em 2019, falar de seguro desportivo pareceu uma

novidade, chegando ao ponto de me fazerem perguntas se de facto existe no nosso país.

A Liga Moçambicana de Futebol segura os jogadores do escalão principal do futebol nacional, até onde sabe ser importante e pode.

Dos atletas de diferentes modalidades, cujas carreiras foram interrompidas por lesões e em completo estado de abandono, também nunca tiveram a oportunidade de ouvir falar de seguros, nem por parte de nenhuma entidade que envida esforço para que mais pessoas tenham seguro, quer seja o obrigatório, quer seja, o voluntário.

Fora da componente de negócio, o seguro intrínseco a vida humana, aos pobres ricos, letrados e iletrados.

Talvez se imponha a mudança de paradigma!

OInstituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), através da Divisão de Salvaguardas Sociais e Ambientais (DSSA), em parceria com o Programa Mundial de Alimentação (PMA), realizou, recentemente, um Workshop de Validação da Análise de Género, Protecção e Inclusão em Programas de Acções [de prevenção] Antecipadas em Moçambique.

A iniciativa visava validar os resultados de uma pesquisa recente e cimentar a integração de abordagens sensíveis ao género e inclusivas nas políticas nacionais de Gestão do Risco de Desastres (GRD).

Adelto Chambela, Director da DSSA ao nível do INGD classificou o evento como “uma mais-valia para melhorar as acções e intervenções de integração de género nas acções de redução do risco de desastres e humanitárias.”

Chambela destacou ainda o papel do INGD na promoção de práticas inclusivas, essenciais para considerar as diferentes vulnerabilidades de mulheres, homens, raparigas e rapazes face aos impactos das mudanças climáticas.

Recorde-se que em 2024 foram conduzidos estudos nos Distritos de Chemba e Morrumbala sobre “Seguros e Financiamento de Risco de Desastres Sensíveis ao Género”, com o objectivo de identificar barreiras e propor recomendações para planos de contingência mais equitativos.

Em 2025, as análises foram estendidas às províncias de Gaza e Tete, com foco nos programas de Acções Antecipadas para garantir que as respostas sejam “inclusivas e transformadoras”, abordando as vulnerabilidades e barreiras que afectam diferentes grupos.

O workshop inclui ainda uma sessão de capacitação técnica sobre integração de género na GRD e targeting sensível ao género, enquadrado no programa Gender Smart ARC Replica do PMA.

A validação destes resultados permitirá ao INGD “reforçar a sua liderança na coordenação interinstitucional e criar bases sólidas para fortalecer as capacidades institucionais em respostas sensíveis ao género,” concluiu o Director da DSSA.

O evento contou com a participação de parceiros-chave, como as Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), ONU Mulheres, e instituições governamentais como a Direcção Nacional de Gestão de Recursos Hídricos (DNGRH), o Fórum das Associações Moçambicanas de Pessoas com Deficiência (FAMOD), o Instituto Nacional de Acção Social (INAS) e a Câmara de Comércio de Moçambique (CCM).

INGD Prevê Necessidade de 37 Mil Milhões de Dólares Para Resiliência Climática Até 2030 O Governo moçambicano estima que, até 2030, cerca de 37 mil milhões de dólares serão investidos no fortalecimento do capital humano, físico e natural, com o objectivo de reforçar a resiliência nacional face às mudanças climáticas. O anúncio foi feito pela presidente do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), Luísa Meque.

De acordo com a presidente, esta aposta representa uma mudança estrutural nas prioridades de desenvolvimento de Moçambique, que tem vindo a alinhar as políticas de adaptação climática com as de gestão do risco de desastres. “As mudanças climáticas não são uma ameaça abstracta, são a nossa realidade diária”, sublinhou, lembrando que o País tem sido ciclicamente atingido por fenómenos extremos, como os ciclones Idai, Kenneth, Gombe, Freddy, Chido, Dikeledi e Jude, além das secas provocadas pelo El Niño de 2023.

A dirigente sublinhou, no entanto, que cada desastre tem servido de lição e estímulo à transformação institucional, permitindo ao País “reconstruir-se de forma mais forte, inteligente e inclusiva”.

Entre as medidas em curso, a timoneira destacou o reforço dos sistemas de aviso prévio, que já cobrem grande parte da população. O objectivo é que, até 2027, todas as comunidades moçambicanas estejam abrangidas, no âmbito do Programa Aviso Prévio para Todos, lançado pelo secretário-geral das Nações Unidas e coordenado em Moçambique pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INAM).

A presidente anunciou ainda a expansão do financiamento baseado em previsões, uma abordagem que permite mobilizar fundos antes da ocorrência de desastres, salvando vidas e protegendo meios de subsistência.

Recorde-se que o País aderiu, recentemente, aos seguros soberanos contra desastres, activados pela primeira vez para apoiar comunidades afectadas por ciclones e secas, com enfoque nas questões de género e inclusão social.

INGD, PNUD e KOICA

Reforçam Capacidades Locais

Para a Gestão do Risco de Desastres

O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), em coordenação com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com financiamento da Agência de Cooperação Internacional da Coreia (KOICA), promoveu, na província de Nampula, uma formação dedicada ao reforço de capacidades institucionais. A iniciativa reuniu 38 pontos focais do

O Governo moçambicano estima que até 2030, cerca de 37 mil milhões USD serão investidos no fortalecimento do capital humano, físico e natural, com o objectivo de reforçar a resiliência nacional face às mudanças climáticas"

INGD provenientes dos distritos Meconta, Rapale, Eráti, Memba e Monapo, com o objectivo de fortalecer competências essenciais em redução do risco de desastres, adaptação climática, sensibilidade ao conflito e coesão social, áreas fundamentais para a protecção das comunidades mais vulneráveis às mudanças climáticas.

A formação procurou consolidar uma abordagem multidimensional e sensível ao conflito, integrando componentes de redução do risco de desastres, adaptação às mudanças climáticas, prevenção de conflitos, promoção da coesão social e resposta humanitária.

O programa abordou, igualmente, os principais instrumentos estratégicos e normativos nacionais, incluindo a Lei n.º 10/2020, o Decreto n.º 47/2018 sobre Programas de Protecção Social Básica e o Plano Director de Redução do Risco de Desastres 2017–2030.

Niassa Acolheu o Encerramento do Ciclo Nacional de Capacitação em Gestão de Desastres O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e com o apoio financeiro da Agência de Cooperação Internacional da Coreia (KOICA), encerrou em Niassa o Ciclo Nacional de Capacitação em Gestão de Desastres. A quinta e última formação, que decorre de 17 a 19 de Novembro passado na cidade de Lichinga, reunindo 39 pontos focais provinciais e distritais.

O objectivo do ciclo foi reforçar as competências práticas em redução do risco de desastres, adaptação climática, comunicação de risco, coesão social e resposta humanitária. Este evento marca o fim das formações que foram realizadas nas cinco províncias consideradas de alto risco:

Cabo Delgado, Nampula, Niassa, Sofala e Manica. Isabel Cavo, Delegada Provincial do INGD-Niassa, reforçou que a formação chega num momento estratégico, às vésperas da época chuvosa e ciclónica, e que a gestão de desastres exige a contribuição conjunta de todos os sectores.

Representando o lado do PNUD, Manuela Muianga destacou o papel essencial da KOICA na expansão do programa para as regiões Centro e Norte. Reiterou ainda o compromisso conjunto com a Agenda de Resiliência e com o fortalecimento das capacidades das lideranças locais para integrar a redução de riscos no planeamento distrital.

INGD Mobiliza 200 Milhões de Meticais Para Mais de 430 Mil Famílias em Risco de Inundações Na Zambézia O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD)

alertou que mais de 430 mil famílias na província da Zambézia poderão ser afectadas pelas chuvas e inundações durante a presente época chuvosa, de acordo com informações publicadas pelo portal MZNews.

Para minimizar o impacto das intempéries e garantir a assistência humanitária, a instituição está a mobilizar mais de 200 milhões de meticais. Este montante será canalizado para o apoio às famílias em situação de risco, com a previsão de ser disponibilizado em bens essenciais como alimentos, kits de higiene e material de abrigo.

O Delegado do INGD na Zambézia, Hélder da Costa, citado pela Rádio Moçambique, sublinhou a necessidade de material para os desalojados. “Estamos

a mobilizar, por exemplo, as tendas, lonas, entre outros materiais. Temos a necessidade de pouco mais de 400 ou 500 tendas”, disse. Apesar da mobilização de fundos, o INGD na Zambézia garante que já tem disponíveis mais de duzentas e cinquenta toneladas de bens alimentares para prestar assistência imediata às famílias nas primeiras 72 horas após a ocorrência de cheias e inundações. A acção visa garantir uma resposta rápida face ao cenário de risco na província.

INGD e Embaixada dos EUA Reforçam Coordenação para Respostas Rápidas a Desastres A Presidente do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), Luísa Meque, recebeu, recen-

Para minimizar o impacto das intempéries e garantir a assistência humanitária às famílias em risco, o INGD está a mobilizar mais de 200 milhões de meticais"

temente, uma delegação da Embaixada dos Estados Unidos da América, chefiada pela Encarregada de Negócios Abigail Dressel. O encontro teve como objectivo fortalecer a coordenação das acções de emergência entre os dois países, num contexto marcado por novos modelos de financiamento humanitário e intensos preparativos para a época chuvosa.

Durante a reunião, Luísa Meque, destacou as prioridades nacionais na componente de salvar vidas, sublinhando a importância de reforçar os meios logísticos para alcançar zonas remotas. “Temos situações em que levamos dois ou três dias para chegar às comunidades isoladas; é demasiado tempo quando vidas estão em risco”, afirmou Meque. Lembrou ainda que Moçambique en-

frenta, em simultâneo, desastres, secas severas e deslocamentos resultantes do terrorismo, desafios que exigem respostas mais rápidas e melhor coordenadas.

A Presidente do INGD informou também que o Plano de Contingência Nacional para a época chuvosa e ciclónica 2025–2026 já foi finalizado, orientando a preparação face a previsões de chuvas acima da média.

PMA Garante Continuidade do Apoio Humanitário a Moçambique

A Presidente do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres - INGD, Luísa Meque, recebeu, a 20 de Novembro, em Maputo, a Directora do Programa Mundial de Alimentação (PMA), Claire Conan, para uma audiência dedicada ao reforço da cooperação na assistência humanitária.

Na ocasião, Meque reconheceu o papel fundamental do PMA afirmando que “já temos situações de insegurança alimentar que começam a preocupar-nos, e o PMA tem sido um parceiro essencial na coordenação de todos os esforços de gestão de riscos no país”.

Durante a reunião, a presidente do INGD sublinhou o contributo notório do PMA em áreas essenciais como mapeamento de zonas de risco com recurso a drones, recolha contínua de dados e apoio logístico em situações de emergência, tanto no sul como no centro do país.

Por seu turno, Conan elogiou os avanços de Moçambique, afirmando que “o país está bastante avançado na preparação para emergências e na utilização de instrumentos de financiamento inovadores, incluindo acções antecipadas”. Contudo, alertou para a redução global do financiamento humanitário, sublinhando que “o PMA só tem recursos garantidos para apoiar cerca de 400 mil deslocados até Março de 2026, e estamos a enfrentar uma diminuição significativa do interesse dos doadores”.

INGD Apresenta Balanço de Cinco Anos e Destaca Avanços na Resiliência Climática Urbana em Moçambique

O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) realizou, recentemente, o Seminário de Encerramento do projecto “Construindo Resiliência Climática Urbana no Sudeste de África”. O evento marcou a conclusão de cinco anos de trabalho desenvolvido em Moçambique, Madagáscar, Malawi e Comores.

Financiada pelo Fundo de Adaptação e implementada com o apoio técnico da UN-Habitat, a iniciativa foi fundamental para reforçar as capacidades institucionais e operacionais necessárias para que as zonas urbanas mais vulneráveis consigam enfrentar os impactos das mu-

danças climáticas. A sessão foi dirigida por Gabriel Belém Monteiro, Vice-Presidente do INGD, e contou com a presença de representantes governamentais, parceiros internacionais e entidades locais activamente envolvidas no projecto. Na sua intervenção, Monteiro, sublinhou a pertinência do projecto para o país. “Não temos dúvidas da pertinência que este projecto tem no processo de construção da resiliência urbana”, afirmou Monteiro, destacando que a intensificação dos eventos extremos exige parcerias, planificação e investimentos contínuos nas cidades.

Monteiro ressaltou a importância da colaboração intersectorial entre as áreas do ambiente, habitação e gestão de desastres para modernizar infra-estruturas e garantir a segurança das populações.

Por sua vez, Sandra Roque, Chefe do Escritório da UN-Habitat, afirmou que o projecto constituiu “um avanço decisivo para que as cidades moçambicanas se tornem mais resilientes”. Evidenciou progressos concretos no município de Chókwè (em Gaza), como a melhoria de infra-estruturas críticas, a reabilitação da Rádio Municipal Kindlimuka e o reforço da capacidade de resposta local.

Moçambique Reforça Sistema de Alerta Precoce Contra Riscos Climáticos

O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) realizou, a 1 de Dezembro, em Maputo, a Reunião Nacional de Monitoria da iniciativa "Aviso Prévio para Todos" (EW4All). O encontro, que reuniu parceiros nacionais e internacionais, teve como objectivo principal avaliar o progresso do Roteiro Nacional 2024–2027 e definir as prioridades operacionais para 2026, reforçando o compromisso do país na luta contra a vulnerabilidade climática.

Na abertura, o Director da Divisão de Prevenção e Mitigação do INGD, César Tembe, destacou o papel pioneiro de Moçambique na adesão ao EW4All, iniciativa lançada pelo Secretário-Geral das Nações Unidas em 2022. “A adesão a esta iniciativa resulta do facto de sermos um dos países mais vulneráveis do mundo aos riscos climáticos e hidrometeorológicos”, afirmou Tembe. Segundo o responsável, a recorrente ameaça de ciclones, cheias e secas torna o fortalecimento dos serviços de aviso prévio uma "necessidade urgente", não apenas uma escolha.

A representante da UNDRR, Titzi Magaza, reconheceu o empenho do país, classificando Moçambique como “um bom exemplo na região”. Magaza sublinhou que o investimento em sistemas de alerta “salva vidas, reduz perdas e acelera o desenvolvimento sustentável”, garantindo o apoio técnico contínuo da UNDRR e de parceiros internacionais.

“O Governo Declarou Guerra ao Contrabando da Madeira”

Imede Falume, director nacional de Florestas e Fauna Bravia, explica as novas estratégias do Governo para travar o contrabando de madeira, promover o maneio sustentável dos recursos e financiar a restauração dos ecossistemas. A aposta passa por adoptar meios tecnológicos, estabelecer parcerias e incluir as comunidades nesta causa

Ofuturo de Moçambique depende da saúde dos seus ecossistemas, e hoje, esta dependência é ameaçada pela exploração ilegal, pela degradação ambiental e por perdas financeiras avultadas. O país perde, anualmente, cerca de 54,25 mil milhões de meticais (equivalentes a 700 milhões de dólares) em contrabando de madeira. Para compreender o alcance e as respostas a esta crise, a Banca & Seguros conversou com Imede Falume, director nacional de Florestas e Fauna Bravia (DNFFB), que partilha a estratégia nacional de combate à ilegalidade e de promoção da sustentabilidade ambiental.

Quais são os mecanismos financeiros e tecnológicos que o Governo está a implementar para travar as perdas e garantir uma gestão mais rigorosa das florestas?

É praticamente impossível recuperar os 54,25 mil milhões de meticais já perdidos, mas estamos a agir para evitar novos prejuízo s. O instrumento central é o Sistema de Informação Florestal (SIF), que passará a ser utilizado de forma exclusiva. Este sistema permite controlar todo o ciclo da madeira, desde o licenciamento até à exploração, transporte e comercialização, aumentando significativamente as receitas e a transparência. Os fundos arrecadados serão reinvestidos na modernização do sector, no apoio às comunidades para práticas sustentáveis, na reabilitação de áreas de-

gradadas e no reforço da fiscalização. A nossa meta é que cada metical investido resulte em floresta preservada e riqueza partilhada.

Heverá outras estratégias a serem desenvolvidas para desincentivar o contrabando, além da fiscalização?

A nossa abordagem é criar mercados legais mais competitivos e valorizar o processamento interno da madeira. Estamos a planear parques industriais para transformar produtos localmente e introduzimos uma redução de 40% nas taxas de exploração para operadores que invistam em processamento secundário e rastreabilidade.

Também estamos a desenhar um projecto de certificação de operadores florestais. Trata-se de um mecanismo

Texto Rezilda Paulino • Imagem Fernando Roque.

externo que garante o cumprimento rigoroso das normas ambientais e permite acesso a mercados preferenciais internacionais.

Estamos também a introduzir tecnologia de drones e monitorização por satélite, para cobrir áreas remotas. As equipas multissectoriais estão a desmantelar redes de contrabando, especialmente de madeiras preciosas e marfim. A nova Lei de Florestas introduz multas pesadas, criminalização da exploração ilegal e confisco de equipamentos e bens a favor do Estado.

A colaboração internacional tem sido fundamental. Que apoios o sector tem recebido e qual é o impacto?

A cooperação internacional tem desempenhado um papel determinante na modernização da gestão ambiental em Moçambique. Desde 2016, contamos com o apoio técnico e financeiro do Banco Mundial, que foi crucial para a criação da Agência Nacional de Controlo da Qualidade Ambiental (AQUA), uma entidade que veio reforçar a capacidade de fiscalização e de resposta institucional do Estado.

Com esta estrutura, a Direcção Nacional passou a concentrar-se na formulação de políticas, definição de normas e licenciamento ambiental, enquanto a AQUA assumiu o papel operativo de fiscalização e monitoria, garantindo maior eficiência e descentralização. Hoje, a agência possui delegações em todas as províncias, o que se traduz em maior presença no terreno, melhor controlo da exploração florestal e aplicação mais rigorosa da lei.

Este apoio também impulsionou a introdução de tecnologias de monitorização e capacitação técnica, permitindo que o país caminhe para um modelo de governação ambiental mais robusto,

transparente e alinhado com os padrões internacionais de sustentabilidade.

Como valorizar economicamente as florestas sem comprometer o seu equilíbrio ecológico?

Nenhuma exploração florestal é autorizada sem um plano de maneio sustentável, elaborado com base num inventário técnico detalhado e devidamente aprovado pelo sector. Este instrumento define o volume máximo de extracção permitida, garantindo que a exploração se mantenha dentro dos limites ecológicos e assegurando o envolvimento activo das comunidades locais.

O novo quadro legal vai além do simples licenciamento: exige o aproveitamento integral da madeira e dos resíduos florestais, promovendo a indústria de transformação e a criação de valor local. Desta forma, reduz-se o desperdício,

Estamos a planear parques industriais para transformar produtos localmente e introduzimos uma redução de 40% nas taxas de exploração para operadores que invistam em processamento secundário e rastreabilidade

gera-se emprego e aumenta-se o retorno económico, sem comprometer a capacidade regenerativa das florestas, um equilíbrio essencial para transformar o património natural num verdadeiro motor de desenvolvimento sustentável.

Como é feita a inclusão das comunidades locais na gestão dos recursos e na partilha dos benefícios?

O Maneio Comunitário de Recursos Naturais (MCRN) é um dos pilares da nossa política de sustentabilidade. As comunidades são parte activa na gestão das florestas e fauna bravia, participando na definição das regras de uso, na monitoria das áreas e na prevenção de práticas ilegais. Recebem 20% das receitas provenientes da exploração legal, o que cria um incentivo directo à conservação e reforça o sentimento de co-responsabilidade.

Iniciativas como Tchuma Tchato e Xipange Chetu continuam a ser modelos de referência nacional e internacional, demonstrando que a conservação pode gerar benefícios tangíveis para as populações. Paralelamente, estamos a promover agricultura de conservação e sistemas agroflorestais integrados, que aumentam a produtividade sem exigir a expansão para novas áreas. Assim, reduz-se a pressão sobre as florestas, diversifica-se o rendimento das famílias rurais e consolida-se uma verdadeira economia verde ao nível local.

Que programas de sensibilização estão a ser desenvolvidos para fortalecer a resiliência das comunidades e prevenir a degradação ambiental?

Estamos a implementar projectos de maneio comunitário que promovem práticas sustentáveis e reforçam a consciência ambiental das populações locais. As acções incluem a criação de woodlots (pequenas plantações florestais de uso comunitário), a prevenção de queimadas descontroladas e a divulgação de fornos melhorados para produção de carvão, que consomem menos madeira e libertam menos fumo.

Valor que o país perde anulamente só com o contrabando da madeira 700 milhões USD

Estas iniciativas decorrem em províncias como Zambézia, Nampula, Cabo Delgado e Niassa, onde foram introduzidas espécies de rápido crescimento adaptadas ao clima local. Para além de reduzirem o desmatamento, estas práticas reforçam a segurança energética das famílias, melhoram a fertilidade dos solos e criam novas fontes de rendimento rural, tornando as comunidades mais resilientes às mudanças climáticas.

Existem planos para restaurar ecossistemas degradados?

Sim, temos o Plano Nacional de Restauração da Paisagem Florestal,

que visa recuperar milhões de hectares até 2030, focando em mangais, zonas ripárias (áreas de saturação hídrica, temporária ou permanente, cuja principal função é a protecção dos recursos hídricos de uma microbacia e savanas arbustivas).

Financeiramente, estes investimentos previnem custos futuros através da:

1. Mitigação de inundações – florestas e mangais absorvem e libertam lentamente a água, evitando cheias devastadoras;

2. Protecção costeira – funcionam como barreiras naturais contra a erosão e tempestades;

3. Produtividade agrícola e piscatória – ecossistemas saudáveis aumentam a polinização, a pesca e o rendimento rural.

Restaurar ecossistemas é, portanto, muito mais económico e inteligente do que reparar danos ambientais depois.

A exploração de recursos minerais e hidrocarbonetos, que é uma realidade de

quase todo o país, também pode ocasionar danos ambientais importantes, de que forma é que se está a minimizar os impactos ambientais decorrentes destas actividades?

Trabalhamos em estreita coordenação com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia, assegurando que todas as operações extractivas cumpram processos rigorosos de licenciamento ambiental e pareceres técnicos obrigatórios. Nenhum grande projecto é autorizado sem uma Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) detalhada e a implementação de planos de gestão e monitoria contínua. Quando o impacto residual é inevitável, aplicamos o princípio da compensação ambiental, que obriga as empresas a restaurar áreas degradadas, financiar programas de conservação ou criar zonas de protecção ecológica. Parte das receitas provenientes de royalties e taxas ambientais é canalizada para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável (FNDS), o qual financia iniciativas de conservação, reflorestamento e desenvolvimento comunitário. Esta abordagem garante que o progresso económico

Trabalhamos em estreita coordenação com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia, assegurando que todas as operações extractivas cumpram processos rigorosos de licenciamento ambiental e pareceres técnicos obrigatórios

não aconteça à custa do equilíbrio ambiental nem das gerações futuras.

Quais são os principais desafios financeiros para a agenda climática moçambicana e que oportunidades existem?

O maior desafio é a capacidade institucional limitada para preparar projectos “bancáveis” que cumpram critérios internacionais. O acesso directo a fundos como o Fundo Verde para o Clima (GCF) ou o Fundo Global para o Ambiente (GEF) ainda é complexo. Além disso, a dívida pública e as prioridades concorrentes do orçamento nacional dificultam o financiamento interno.

Mas há oportunidades: o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento, e parceiros como Noruega, Alemanha, Reino Unido e União Europeia têm financiado projectos verdes. Também existe cooperação crescente com a China, incluindo linhas de crédito concessionais, fundos climáticos Sul-Sul e até mecanismos de perdão de dívida em troca de conservação. A conservação não é um custo, mas um investimento inteligente na nossa resiliência climática e no desenvolvimento sustentável.

Inteligência Artificial e a Geopolítica do Emprego

Nos tempos que correm, a IA deixa de ser apenas tecnologia para se tornar um factor de poder económico e social. Governos, empresas e seguradoras enfrentam o desafio de antecipar os efeitos sobre emprego e estabilidade, e o mundo passa a observar com rigor quem regula, investe, adapta, e define a nova ordem global

Omundo vive uma era em que países desenvolvidos e emergentes discutem não apenas como a Inteligência Artificial (IA) pode gerar crescimento, mas também como mitigar os riscos que ela acarreta para os empregos, mercados financeiros e estabilidade social. A velocidade com que as novas ferramentas automatizadas substituem tarefas antes desempenhadas por humanos está a provocar uma espécie de corrida global. Quem regula, investe e adapta primeiro, define o equilíbrio competitivo para a próxima década.

A Europa, por exemplo, avançou com regulamentações ambiciosas que tentam limitar o uso de IA em sectores sensíveis, enquanto os Estados Unidos privilegiam a inovação acelerada, sem travões regulatórios rígidos, apostando na auto-regulação. Na Ásia, países como China e Japão posicionam-se com estratégias nacionais que combinam investimento massivo em tecnologia e formação de competências digitais, procurando consolidar a liderança em IA aplicada à indústria, finanças e serviços. Neste cenário, a África emerge como um terreno de oportunidade e de risco simultaneamente: o continente pode acelerar a modernização produtiva, mas enfrenta a ameaça de desemprego estrutural, especialmente entre jovens e profissionais de média qualificação.

Geopolítica do emprego: uma questão de soberania

A geopolítica do emprego já não se decide apenas em mesas de negociação de comércio ou alianças militares. Passou a ser moldada por algoritmos, automação e políticas de inovação tecnológica. A capacidade de cada país antecipar os efeitos da automação e criar ecossistemas de protecção e estímulo económico tornou-se um elemento central da sua soberania. Na prática, isso significa definir regras que protejam empregos estratégicos, ao mesmo tempo que se promove a competitividade internacional.

Empresas multinacionais, conscientes da velocidade da transformação digital, estão a redesenhar cadeias de valor, transferindo operações e investimentos para países que combinam talentos especializados em IA, infra-estruturas digitais robustas e políticas regulatórias claras. Ao mesmo tempo, governos enfrentam uma pressão crescente para criar redes de segurança social adaptadas à nova realidade laboral, implementar programas de requalificação profissional e incentivar políticas de educação que preparem os cidadãos para empregos que ainda não existem.

Neste contexto, a IA deixou de ser apenas um motor tecnológico e passou a ser um instrumento estratégico de soberania económica e social. Países que não se adaptarem rapidamente podem ver desestabilizados os mercados de trabalho, a capacidade de atrair investimentos qualificados, de influenciar cadeias globais de valor e de participar de forma competitiva na economia mundial. Ou seja, controlar a forma como a automação e a IA moldam o emprego tornou-se tão crítico quanto defender fronteiras ou negociar tratados internacionais, tornando o futuro do trabalho numa peça-chave na geopolítica contemporânea.

Oportunidades e desafios para o sector financeiro Para o sector da banca e de seguros, a IA representa simultaneamente uma fonte de oportunidades transformadoras e de riscos inéditos. À medida que sistemas automatizados assumem decisões críticas, desde análise de crédito até gestão de portfólios de investimento, aumentam significativamente os riscos cibernéticos, fraudes digitais e vulnerabilidades operacionais, que podem comprometer a confiança dos clientes e a estabilidade do mercado. Além disso, a complexidade dos algoritmos e a falta de transparência em alguns modelos de IA desafiam os reguladores a estabelecerem normas claras para evitar decisões discriminatórias ou falhas sistémicas.

Por outro lado, a IA oferece ferramentas avançadas para transformar a

A Inteligência Artificial deixou de ser apenas um motor tecnológico e passou a ser um instrumento estratégico de soberania socioeconómica"

forma como bancos e seguradoras operam. Sistemas de análise preditiva permitem monitorizar a capacidade de crédito em tempo real, identificar padrões de fraude antes que causem perdas, optimizar estratégias de investimento e até antecipar choques económicos ou volatilidade de mercados. Na área de seguros, algoritmos inteligentes permitem estimar preços dos riscos com precisão, personalizar produtos para diferentes perfis de clientes e reduzir perdas associadas a eventos extremos.

No contexto global, empresas financeiras que adoptam essas tecnologias de

forma estratégica melhoram a eficiência operacional, e ampliam sua resiliência e capacidade de inovação. A integração da IA permite antecipar mudanças regulatórias, responder rapidamente a crises de liquidez e criar produtos que se ajustem a novas necessidades, como seguros cibernéticos, instrumentos de mitigação de riscos climáticos ou mecanismos de protecção contra a volatilidade cambial.

A adopção inteligente da IA tornou-se, assim, num imperativo estratégico. Não se trata apenas de sobreviver às mudanças tecnológicas, mas de ganhar vantagem competitiva num mercado global

cada vez mais acelerado, onde a capacidade de processar dados complexos e transformar informação em decisões rápidas e seguras é a nova moeda de valor.

Impacto social e desigualdade A reflexão não poderia deixar de incluir a dimensão social. Se os governos não implementarem políticas robustas de requalificação, programas de educação técnica adaptados à nova economia e mecanismos eficazes de protecção laboral, a automação e a IA poderão agravar desigualdades existentes, marginalizar trabalhadores de média e baixa qualifi-

cação e alimentar tensões sociais latentes. Essa dinâmica pode enfraquecer a coesão política, aumentar a vulnerabilidade económica das famílias e comunidades, e gerar repercussões negativas directas sobre investimentos, estabilidade financeira e seguros.

Mais do que eficiência produtiva, a discussão internacional sobre IA tornou-se um debate sobre inclusão, justiça social e governança global, exigindo que políticas públicas conciliem inovação tecnológica com equidade e resiliência social. A forma como cada país aborda estas questões determinará a capacidade de crescimento económico, a estabilidade e a confiança nas instituições no longo prazo

Um ano decisivo

A IA está a redesenhar o mapa do emprego mundial, tornando-se um factor de geopolítica comparável a crises energéticas ou conflitos militares.

O ano de 2026 será decisivo para perceber quais políticas e estratégias funcionam e quais falham. Uma coisa é certa: a Inteligência Artificial não espera, e nem os mercados podem dar-se ao luxo de atrasos. O tempo de agir é agora, porque o futuro do emprego e da economia global está a ser programado, simultaneamente, por algoritmos e decisões humanas.

O que dizem as grandes instituições globais

A corrida pela IA tem sido acompanhada por estudos de referência produzidos por organismos multilaterais e centros académicos. Estes relatórios ajudam a medir a real exposição dos mercados de trabalho, os riscos de desigualdade e os caminhos possíveis de adaptação. A seguir, um conjunto de conclusões essenciais para compreender a nova geopolítica do emprego.

1. FMI – IA e exposição global ao emprego

O Fundo Monetário Internacional tem liderado uma das reflexões mais influentes sobre os efeitos da IA no trabalho. As suas análises comparam economias avançadas e emergentes, revelando impactos assimétricos e riscos distributivos importantes:

● Até 40% dos empregos em todo o mundo estão expostos à IA;

● Nas economias de alta renda, a exposição pode chegar a 60%, pois concentram tarefas cognitivas e administrativas facilmente automatizáveis;

● Nos mercados emergentes e países de baixa renda, a exposição é menor (cerca de 26% e 18% respetivamente), mas a falta de infra-estrutura e competências pode impedir que es-

ses países colham os benefícios da tecnologia;

● Sem políticas públicas adequadas, a IA tem forte potencial para ampliar desigualdades salariais e sociais.

2. OIT - Transformação em vez de substituição

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) adopta um tom menos alarmista, mas não menos preocupado. Os seus estudos enfatizam que o maior efeito da IA generativa será a alteração profunda das tarefas profissionais:

● Cerca de 25% das ocupações serão transformadas pela IA generativa;

● A maioria dos empregos não desaparecerá de imediato, mas exigirá novas competências digitais e analíticas;

● Funções administrativas, atendimento ao cliente, contabilidade e back-office são as mais afectadas;

● O grande risco para países em desenvolvimento é a substituição silenciosa de trabalhadores que não tenham acesso a requalificação.

A adopção inteligente da IA tornou-se num imperativo estratégico. Não se trata apenas de sobreviver às mudanças tecnológicas, mas de ganhar vantagem competitiva num mercado global cada vez mais acelerado"

3. OCDE - IA, qualidade do trabalho e inclusividade

A OCDE amplia o debate ao introduzir o conceito de “qualidade do emprego”, analisando não apenas quantos postos de trabalho mudam, mas como mudam:

● A IA pode melhorar condições ao reduzir tarefas repetitivas e perigosas;

● Pode, igualmente, acelerar ritmos de trabalho, ampliar monitoramento sobre funcionários e criar novos dilemas éticos;

● Trabalhadores com habilidades complementares tendem a beneficiar mais, o que reforça a necessidade de formação contínua;

● A IA deve ser integrada com políticas que garantam igualdade de oportunidades e protecção contra discriminação algorítmica.

4. Estudos de Género – Mulheres mais expostas

Um dos consensos emergentes em palestras e simpósios sobre IA e trabalho é o

impacto desproporcional sobre o emprego feminino:

● Ocupações clericais e administrativas, largamente desempenhadas por mulheres, apresentam maior risco de automação;

● A IA pode aprofundar desigualdades de carreira e progressão salarial entre géneros;

● Programas de requalificação precisam de ter foco específico na inclusão de mulheres na economia digital.

5. WEF e simpósios globais – O novo contrato social Fóruns internacionais como o Fórum Económico Mundial (WEF), conferências da ONU e encontros sobre tecnologia e demografia convergem na ideia central de que o futuro do emprego exigirá um novo contrato social:

● Necessidade de políticas nacionais de competências em larga escala;

● Incentivos fiscais para empresas que requalifiquem trabalhadores;

● Criação de novos instrumentos como seguros de transição profissional, protecção de dados e redes de segurança social digitais.

7. África – a perspectiva do continente

Finalmente, vários centros de pesquisa africanos alertam que:

● África pode beneficiar da IA na agricultura, saúde e inclusão financeira;

● Mas a ausência de políticas pode gerar desemprego tecnológico precoce;

● O maior risco é o continente tornar-se apenas consumidor de IA produzida fora, perdendo espaço na geopolítica do emprego.

Este conjunto de estudos reforça a ideia defendida ao longo do artigo: a Inteligência Artificial transformou-se num campo de disputa global pelo controlo do futuro do trabalho. Mais do que previsões, eles oferecem um roteiro de acção para os governos e empresas, sobretudo as do sector financeiro.

A Nova Viragem da Economia Global

2026 chega com crescimento moderado, inflação em desaceleração e juros em alívio. A economia mundial acelera a transformação digital e o investimento em eficiência.

Moçambique entra numa fase decisiva para converter transição global em dinamismo produtivo

Em 2026, a narrativa económica global –construída por instituições multilaterais, consultoras de topo e analistas financeiros – continua a ser marcada por crescimento moderado, transformações estruturais e incertezas profundas. Longe de um cenário de estabilidade plena, o mundo está a experimentar um período de ajustamento macroeconómico, onde forças como inflação, políticas monetárias, comércio internacional, tecnologia e relações geopolíticas actuam como vectores simultâneos de risco e oportunidade.

Este quadro é agora consolidado em múltiplos relatórios e projecções actuali-

zadas por entidades como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o Banco Mundial, grandes bancos de investimento e consultoras globais como a McKinsey & Company e a Goldman Sachs Research.

Crescimento mundial em perspectiva moderada Um dos consensos mais consistentes entre as grandes instituições é que a economia global deve continuar a crescer de forma moderada em 2026, apesar dos riscos que persistem. Segundo a mais recente actualização do World Economic Outlook do FMI, o crescimento global real deverá situar-se em cerca de 3,1% em 2026 (ligeiramente superior às projecções feitas no início de 2025), e enquanto se observa uma tendência de desacelera-

ção em comparação com alguns anos anteriores, trata-se de uma trajetória ainda positiva num contexto de múltiplos choques económicos e geopolíticos.

A análise da OCDE aponta para uma visão semelhante, ainda que parta de diferentes premissas metodológicas. No seu Economic Outlook, a OCDE projecta um crescimento global de aproximadamente 3,0% em 2026, sinalizando que, apesar de factores como incerteza política, barreiras comerciais e fragmentação de cadeias de valor, a economia mundial tem revelado uma resiliência notável, mantendo o motor do crescimento em funcionamento.

Grandes bancos de investimento e consultoras privadas convergem para uma narrativa análoga, ainda que com números levemente distintos. Por exemplo, a Goldman Sachs Research esti-

Texto Constantino Novela • Imagem D.R.

ma um crescimento global de 2,8% em 2026, descrevendo-o como um ritmo “forte” e sustentável, com contributos vindos tanto de economias avançadas quanto emergentes.

Por seu lado, as projecções da McKinsey & Company destacam um quadro de confiança relativa, onde executivos globais reportam uma percepção mais positiva sobre as condições económicas futuras, apesar de permanecerem preocupações com instabilidade geopolítica e riscos inerentes ao ambiente macroeconómico.

Este consenso, moderadamente optimista, sustenta que 2026 não será um ano de crescimento acelerado, mas também não será marcado por recessão generalizada. Em vez disso, será um ano de estabilidade relativa em meio a transformações profundas.

Juros e inflação em queda

Outro elemento que merece destaque é a trajectória da inflação global. Após um período de pressões inflacionárias excepcionais, muitos países industrializados conseguiram reduzir significativamente as taxas de inflação, criando espaço para políticas monetárias menos restritivas.

Segundo o FMI, espera-se que a inflação global caia gradualmente (projectando-se uma taxa média de cerca de 3,6% em 2026, depois de cerca de 4,2% em 2025) sem que isso implique um retorno imediato às metas inflacionárias de longo prazo estabelecidas por muitos bancos centrais. Esta tendência, que decorre tanto de condições monetárias mais rígidas no passado recente quanto de choques de oferta agora parcialmente resolvidos, cria um delicado equilíbrio para os bancos centrais: reduzir taxas de juros sem desencadear pressões inflacionárias renovadas. A OCDE sublinha que, embora a inflação esteja a moderar, ainda se mantém acima de algumas metas em muitas economias, implicando cautela na política monetária.

Uma economia global a múltiplas velocidades

A evolução regional do crescimento em 2026 dificilmente se encaixa num padrão uniforme. Há claros diferenciais entre economias avançadas e mercados emergentes, bem como diferenças dentro de cada grupo.

Economias avançadas

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Goldman Sachs projecta um crescimento de cerca de 2,6% em 2026, apoiado por estímulos fiscais, consumo doméstico resiliente e investimentos em tecnologia e capital produtivo. Na Zona Euro, o crescimento deverá ser mais modesto (cerca de 1,3%) impulsionado por reformas fiscais e consumo interno, mas limitado por desafios estruturais como mercado

de trabalho inflexível e competitividade reduzida. Já economias como o Japão continuam num regime de expansão ainda mais moderado, sem perspectivas de aceleração significativa, precisamente porque enfrentam um entrave adicional de natureza demográfica: envelhecimento acelerado da população, baixa taxa de natalidade e consequente contração da força de trabalho, factores que reduzem o consumo interno e pressionam as despesas públicas com pensões e saúde. A estes elementos somam-se problemas estruturais profundos (produtividade estagnada, rigidez nas práticas laborais e elevado endividamento público) que não são cíclicos, mas de longo prazo, restringindo o crescimento potencial da economia japonesa mesmo num contexto de inflação global em queda e condições financeiras mais favoráveis.

Mercados emergentes

Nas economias emergentes, a narrativa muda para um tom mais dinâmico. Muitos países continuam a apresentar taxas de crescimento superiores à média global.

O Banco Mundial, por exemplo, projecta que economias em desenvolvimento manterão um crescimento médio mais robusto nos próximos dois anos, embora abaixo dos níveis pré-pandemia.

Regiões como Ásia do sul e sudeste lideram este movimento, com países como a Índia projectados para crescer

a taxas significativamente superiores à média global (estimativas apontam para níveis na ordem dos 6% a 6,5% em 2026. Países africanos e latino-americanos também contribuem de forma relevante no crescimento global, mesmo que com ritmos heterogéneos, reflectindo tanto oportunidades estruturais quanto desafios relacionados ao comércio, inovação e investimentos em capital humano.

Comércio e investimento entre barreiras e realinhamentos

Embora o panorama global de crescimento seja relativamente sólido, barreiras comerciais e incerteza política continuam a perturbar investimentos e comércio internacional. A OCDE tem destacado que o aumento de restrições comerciais e componentes proteccionistas em várias economias pode reduzir o comércio global e pressionar negativamente os fluxos de investimento, levando à queda da eficiência das cadeias de valor e afectando a confiança dos agentes económicos. Este fenómeno, muitas vezes associado à chamada desglobalização, pode ter efeitos duradouros se não for mitigado por acordos multilaterais e mecanismos de cooperação – um desafio que se estende além de 2026 e que coloca em foco o papel das instituições económicas internacionais.

Confiança empresarial em meio à complexidade

Regiões como a Ásia do sul e sudeste lideram o movimento de crescimento, com países como a Índia projetados para crescer a taxas significativamente superiores à média global

Além das projecções de crescimento macro, indicadores de confiança empresarial também oferecem pistas sobre 2026. Um dos relatórios mais recentes da McKinsey revela que, após vários trimestres de pessimismo, executivos globais estão a registar um aumento na confiança económica, interpretando o cenário como mais estável e com melhores perspectivas para negócios, ainda que com risco geopolítico e inflação no radar.

Este salto de confiança decorre, em parte, de políticas macroeconómicas que suavizam os impactos de choques externos (como a volatilidade nos preços de energia e matérias-primas, flutuações cambiais e perturbações em cadeias de abastecimento causadas por crises geopolíticas) e do maior foco empresarial em tecnologia e eficiência interna. Estas tendências podem contrabalançar alguns dos efeitos negativos das incertezas sistémicas, incluindo instabilidade política, mudanças estruturais na economia global e descoordenação de políticas internacionais, que tendem a reduzir investimento e confiança se não forem mitigadas.

Geopolítica: incerteza como novo normal

O ano de 2026 deverá consolidar um quadro internacional marcado por tensões geopolíticas persistentes. A rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a China continuará a influenciar o comércio mundial, o ritmo do investimento e os fluxos financeiros para economias emergentes. Para países como Moçambique, fortemente dependentes de importações de combustíveis, bens alimentares e equipamentos industriais, qualquer disrupção nas cadeias globais de abastecimento tende a reflectir-se imediatamente nos preços internos. Ao mesmo tempo, a Europa procura reduzir a sua

No mercado de matérias primas, 2026 deverá manter elevada a procura por grafite, lítio, titânio e outros minerais usados em baterias, energias renováveis, entre outros

dependência energética da Rússia e reforçar parcerias com África, cenário que poderá favorecer exportadores de gás e minerais na África Austral em 2026. Este contexto impõe às empresas locais maior capacidade de adaptação, diversificação de fornecedores e planeamento financeiro mais prudente.

Comércio internacional e cadeias de valor Globalmente, 2026 poderá ser um ano de reconfiguração das cadeias produtivas. A tendência de “friendshoring” – relocalização de investimentos para países politicamente alinhados – abre espaço para novas oportunidades industriais no continente africano. A implementação gradual da Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) deverá ganhar tracção, incentivando maior integração regional, redução de tarifas e facilitação do comércio transfronteiriço. Para Moçambique, isso significa potencial aumento das trocas com África do Sul, Tanzânia, Zimbabwe e outros parceiros do SADC. Sectores como logística portuária, transportes e serviços financeiros poderão se beneficiar em 2026 se o país

conseguir posicionar-se como corredor preferencial para o comércio regional.

Fluxos de capital para África

Os fundos internacionais estão cada vez mais atentos aos minerais críticos, energias limpas e agricultura sustentável. Em 2026, a África deverá continuar a atrair investimentos ligados à transição energética e à segurança alimentar global. Moçambique, com vastos recursos naturais e posição geográfica estratégica, tem condições para captar parte relevante desses fluxos, sobretudo se mantiver estabilidade macroeconómica e previsibilidade regulatória. A confiança dos mercados financeiros em 2026 dependerá, em larga medida, da capacidade do país em demonstrar reformas sólidas, boa governação e projetos bancáveis.

Eventos climáticos extremos

Outro grande factor global para 2026 será o clima. Fenómenos como El Niño e La Niña influenciam a produção agrícola, disponibilidade de água e custos energéticos. Em várias regiões do mundo, espera-se maior frequência de secas, cheias e ciclones. Para Moçambique, um dos países mais vulneráveis a desastres naturais, isso pode significar pressões adicionais sobre a produção de alimentos, infra-estrutura e orçamento público em 2026.

A nível internacional cresce a importância de seguros climáticos e financiamento verde – instrumentos que poderão ganhar espaço no mercado moçambicano ao longo de 2026.

Procura por minerais críticos

No mercado de matérias-primas, 2026 deverá manter elevada a procura por grafite, lítio, titânio e outros minerais usados em baterias e energias renováveis. A expansão global dos veículos eléctricos e sistemas de armazenamento energético posiciona Moçambique como actor relevante nestas cadeias. Contudo, os preços das commodities em 2026 continuarão voláteis e dependentes do crescimento chinês, das políticas ambientais europeias e do ritmo da economia norte-americana. Um eventual abrandamento mundial poderá afectar receitas de exportação, enquanto um impulso industrial verde tende a favorecer projectos mineiros no país.

Energia e produtos agrícolas

Para além dos minerais, os preços internacionais de produtos agrícolas serão determinantes para inflação importada em 2026. A evolução do petróleo influenciará custos de transporte e fertilizantes, com impacto directo nos agricultores moçambicanos. Assim, 2026 será, mais uma vez, um ano em que a economia nacional navegará entre oportunidades de exportação e riscos externos associados à dependência de commodities.

A Digitalização Como Caminho e a Literacia De Seguros Como Ponte

Entre o Desafio Tecnológico e a Missão de Educar para o Seguro

Omundo segurador engatou uma marcha irreversível, a da Transformação Digital. Como aspirante de Marketing Digital e explorador de conhecimento sobre a área de seguros, pude constatar que, nessa marcha já engatada, subsiste uma verdade que a tecnologia, por si só, não pode apagar. Essa verdade tem a ver com os limites humanos na compreensão e no acesso

Em Moçambique, essa barreira parece vir acompanhada da pluralidade cultural, porém, de forma mais objectiva ela manifesta-se de duas formas muito precisas (A fraca literacia em seguros e a Modesta penetração do seguro no tecido económico, acompanhada da Baixa Renda para a maioria da população, colocando o seguro como uma necessidade não prioritária na sua hierarquia das necessidades). Este é um indício evidente de que a Revolução Digital precisa, antes de mais, de narrativa, de empatia, de capacidade de aquisição e ensino.

De acordo com o Relatório de Inclusão Financeira 2023, publicado pelo Banco de Moçambique em Maio de 2024, a taxa de penetração de seguros na economia moçambicana atingiu 2,03% do PIB, contra 1,85% registados em 2022. Ainda que esses dados demonstrem progresso, este número está muito aquém das médias regionais. Basta comparar com a África do Sul, que alcança cerca de 12,2 %. O dado expõe uma lacuna estrutural, a maioria dos cidadãos continua a não entender o seguro como um instrumento de protecção, mas como um encargo distante da sua realidade económica.

Este é o cenário que leva-me a concluir que a Digitalização só será Transformação se for acompanhada de Educação e melhoria das condições sociais e de melhoria da renda das famílias. Modernizar sistemas sem capacitar e preparar mentalidades é como erguer uma ponte sem pilares. O seguro é um contrato, sim, mas acima de tudo uma necessidade e também é um acto de confiança. E a confiança constrói-se com ensino, clareza e diálogo.

Certa vez, Israel Muchena, Director-Geral do Seguro Agrícola da Hollard Moçambique, afirmou que “para elevar a literacia em seguros, é preciso desmistificar o conceito, torná-lo relacionável e comunicá-lo em línguas indígenas”. Esta afirmação não é apenas uma constatação, mas um convite. Um convite a repensar a Linguagem, o Marketing a Comunicação do sector, e a Reconhecer que não basta falar de Coberturas, Prémios, Capitais ou Sinistros. É preciso falar de Vidas, de Perdas, de Reconstruções. É preciso comunicar o seguro como ferramenta de esperança e até , de sobrevivência.

Um passo importante nessa direcção foi dado pela Associação Moçambicana de Seguradoras (AMS), ao celebrar um Memorando de Entendimento com a M-Pesa Moçambique durante a 3.ª Conferência Anual de Seguradoras. O gesto, mais do que simbólico, foi institucional, pois projecta a aproximação do seguro a um universo digital já familiar ao cidadão moçambicano, “O Telemóvel”. Integrar uma plataforma de compra do seguro a um meio de pagamento diário e de forma uniformizada para o sector é um

VÁLTER PAULINO NHACA
Especialista em Comunicação e Marketing Digital

incentivo silencioso que diz que o seguro pertence ao quotidiano e não apenas a um documento guardado na gaveta.

Mas a digitalização, sem regulação e confiança, é como uma marcha irreversível sem embraiagem. O Instituto de Supervisão de Seguros de Moçambique (ISSM) tem reiterado que a modernização do sector deve caminhar lado a lado com a protecção do consumidor e a transparência das práticas comerciais. A literacia e a regulação são, na verdade, dois lados da mesma moeda. Uma protege o cidadão, a outra protege o próprio mercado.

No cenário empresarial, esta nova era exige liderança visionária. Em várias frentes, o Economista e PCA da EMOSE, Janfar Abdulai, tem reiterado publicamente que o futuro das seguradoras moçambicanas passa pela “digitalização com inclusão”. Em outros termos, significa levar o progresso digital a todos, independentemente da idade, rendimento, escolaridade ou local onde vivem. Para Abdulai, o sucesso dessa transição depende da capacidade de cada empresa em humanizar a tecnologia. A EMOSE, enquanto primeira seguradora nacional e a mais antiga do país, deve assumir este desafio com a legitimidade de quem acompa-

No cenário empresarial, esta nova era exige liderança visionária. Em várias frentes, o Economista e PCA da EMOSE, Janfar Abdulai, tem reiterado publicamente que o futuro das seguradoras moçambicanas passa pela “digitalização

com inclusão"

nhou todas as fases do crescimento do sector e agora se reinventa para garantir que nenhum moçambicano fique fora do sistema formal de protecção.

O Eng.º Isaías Chembeze, profundo conhecedor do mercado segurador, reforça essa perceção ao afirmar que, “o seguro, para muitos moçambicanos, ainda é um conceito frio e distante”. A sua reflexão é mais do que um diagnóstico, é um apelo à acção. Fala-nos da urgência de comunicar o seguro de forma viva, emocional e pedagógica, mostrando o seu valor antes da perda e não apenas depois dela.

Para concluir este segundo episódio sobre a Transformação Digital, reitero que a Digitalização é, portanto, o Instrumento, a Literacia, a Ponte, a Comunicação e a Alma desse processo. É ela que transforma dados em significado, tecnologia em confiança e inovação em pertença. O futuro do seguro em Moçambique não será escrito apenas com códigos e plataformas, mas com palavras que eduquem, gestos que aproximem e mensagens que inspirem. Só assim o digital deixará de ser uma promessa para tornar-se uma experiência verdadeiramente humana, inclusiva e de pertença, em qualquer contexto em que ela ocorra.

REVISTA B&S_Edição Nr 033_Novembro_Dezembro 2025 by Revista Banca & Seguros - Issuu