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Revista Agriculturas V6, N2 - Artigo 6

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Introdução de

animais em sistemas de produção de hortaliças orgânicas na Região Serrana Fluminense Juliana Dias, Juscélio Ramos de Souza, Roberto Gomes Leite, João Paulo Guimarães Soares, José Guilherme Marinho Guerra, Renato Linhares de Assis e José Antônio Azevedo Espíndola

Fotos: Arquivo Embrapa Agrobiologia

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Agricultores Levi Gonçalves e Geraldo Alexandre alimentam animais na Comunidade Brejal, Petrópolis/RJ

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agricultura praticada na Região Serrana Flumi­ nense caracteriza-se pelo cultivo de hortaliças em pequenos estabelecimentos de base familiar. Em geral, essas unidades produtivas empregam intensivamente tecnologias da agricultura industrial, tais como fertilizantes sintéticos e agrotóxicos. Nas últimas décadas, têm surgido algumas iniciativas no sentido de promover a transição agroecológica desses sistemas. Nesse contexto, merece destaque a Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), que atua na região desde a década de 1980. Embora o volume da produção orgânica tenha aumentado consideravelmente em consequência dessas ações, ainda representa porção diminuta da olericultura fluminense. O trabalho da Associação de Produtores Orgânicos de São José do Vale do Rio Preto (Horta Orgânica) também é digno de nota. Além de comercializar gêneros com certificação orgânica, fornece suporte técnico aos agricultores da Abio organizados em núcleos rurais desse e de outros municípios da região Serrana, tais como Petrópolis, Teresópolis, Sumidouro e Sapucaia. A maioria


dos agricultores familiares associados à Horta Orgânica desenvolveu, em algum momento, atividades relacionadas à produção animal, seja para o consumo próprio ou para fins comerciais. Porém, com a intensificação do cultivo de hortaliças, o componente animal perdeu importância nessas unidades familiares. Por outro lado, outras famílias agricultoras da região optaram por um processo de especialização voltado para a produção de aves, atuando também como fornecedores do esterco para os produtores de hortaliças. Com o objetivo de criar condições para a consolidação e multiplicação de tecnologias aplicadas à produção ecológica e considerando a tradição regional de exploração avícola, a Horta Orgânica elaborou, em conjunto com a Embrapa Agrobiologia, o projeto Unidades de Produção Agroecológica Autossuficientes para Pequenas Propriedades. Esse projeto recebeu apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sen­do executado entre março de 2006 e junho de 2008, com vistas a incrementar a atividade pecuária junto a agricultores familiares, principalmente aqueles cujas famílias encontram-se fragilizadas do ponto de vista monetário e, portanto, socialmente vulneráveis. A proposta consistiu na introdução de caprinos leiteiros e galinhas poedeiras, de forma a ampliar a dieta alimentar (ovos, leite e carne) e a oferta de dejetos destinados a complementar a adubação orgânica das áreas cultivadas com hortaliças. Dessa forma, buscou-se reduzir a dependência das unidades em relação a insumos externos e, principalmente, diversificar a renda e garantir a segurança alimentar das famílias. As áreas de lavouras são manejadas segundo os princípios da agricultura orgânica e certificadas pela Abio. Já o manejo do componente animal adotado pelos agricultores ainda não se encontra adequado para obter a certificação. No entan-

to, buscou-se incorporar práticas ecológicas, de forma a caracterizar processos de transição de sistemas de manejo.

Princípios gerais da pecuária ecológica A pecuária ecológica integrada a lavouras representa um modelo capaz de aumentar a eficiência de sistemas de produção que buscam a sustentabilidade social, ambiental e econômica. A integração animal-vegetal favorece a estabilidade da renda da unidade de produção, principalmente quando o componente vegetal é formado por cultivos sazonais. O produto de origem animal enriquece a dieta familiar e pode proporcionar melhor distribuição da renda monetária durante o ano, contribuindo sobremaneira para a segurança alimentar. Os dejetos oriundos da atividade animal são fontes de fertilizantes orgânicos para as áreas de lavoura. No entanto, um dos primeiros aspectos que devem ser considerados para que a atividade pecuária seja bem sucedida, ainda que vise atender apenas as necessidades alimentares da família, refere-se à nutrição e alimentação animal.

Os animais necessitam de uma dieta balanceada para suprir suas exigências nutricionais e, dessa forma, converter nutrientes em proteína de alto valor biológico. Sendo assim, é importante que a maior parte da alimentação animal seja proveniente da própria unidade de produção, para que a mesma torne-se menos dependente de insumos externos. Além disso, segundo as normas para comercialização de alimentos orgânicos, não é permitido o emprego de suplementos ou produtos que contenham antibióticos, promotores de crescimento, vermífugos ou medicamentos alopáticos, palatabilizantes, nitrogênio sintético, produtos derivados ou obtidos de organismos geneticamente modificados e produtos de origem animal, exceto a farinha de peixe para os monogástricos. Integração das atividades de produção vegetal e animal Para dar início às atividades, realizou-se um diagnóstico rápido das unidades de produção dos associados da Horta Orgânica nos municípios de São José do Vale do Rio Preto e Petrópolis. Para tanto, as unidades foram cadastradas, identificando-se áreas destinadas à produção de alimentos para os animais, instalações disponíveis ou em desuso passíveis de adaptação, disponibilidade de trabalho familiar, carga horária

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dedicada à atividade de produção vegetal e a experiência prévia das famílias com caprinocultura e avicultura. Com base nos resultados do diagnóstico, foram incluídas 60 famílias no programa, sendo que cada uma deveria receber duas cabras leiteiras e 50 aves de postura. Entretanto, apenas 27 agricultores aderiram à proposta. Desse grupo, foram identificadas sete unidades de produção que já possuíam experiências anteriores relacionadas ao cultivo de hortaliças integrado à pecuária com pequenos animais. Os sistemas dessas famílias passaram a ser considerados como unidades de referência, onde foram conduzidas avaliações sobre as práticas e os processos voltados à integração da produção vegetal com a produção animal. Essas avaliações envolveram ativamente as famílias, o agente de desenvolvimento da associação, o estudante bolsista e o pesquisador e tinham por objetivo apontar possibilidades para a otimização das práticas adotadas, tais como: compostagem, vermicompostagem, leguminosas para alimentação animal e para adubação verde, emprego de fitoterápicos no controle sanitário animal, nutrição animal com recursos locais e aproveitamento máximo dos estercos produzidos no sistema.

A equipe técnica promoveu visitas periódicas às unidades de produção e, juntamente com os agricultores, definiu módulos básicos para o manejo animal. Esses módulos foram estabelecidos de acordo com as particularidades das espécies, a infraestrutura das unidades, a oferta de forragem ou outras fontes de alimentos e a disponibilidade de dejetos como fertilizantes orgânicos nas áreas de lavoura. Foram elaboradas cadernetas individuais para o acompanhamento das unidades e distribuídos manuais de práticas agropecuárias às famílias. No primeiro ano do projeto, a atuação da equipe técnica ficou restrita às unidades de referência. Em cada uma delas, foram introduzidas galinhas poedeiras da linhagem Embrapa 051 (desenvolvida pela Embrapa Suínos e Aves), com 30 dias de idade. Trata-se de uma linhagem produtiva (255 ovos/ave/ ano), capaz de apresentar bom peso na ocasião do descarte (2,7kg ao final do primeiro ciclo de produção), além de ser adaptada a sistemas menos intensivos de produção. A base da dieta das aves foi constituída de ração balanceada e pelo descarte da produção de hortaliças e refugos de frutas. Foram também introduzidas cabras mestiças Saanen x Boer, gestantes, adaptadas a pasto. A dieta dos caprinos baseou-se na ingestão de volumosos dis­ po­níveis a partir de pastos de espécies de ocorrência espontânea, capineiras e descarte de hortaliças produzidas localmente. Reprodutores da raça Saanen foram introduzidos nos núcleos da Horta Orgânica, sendo que, em média, cada animal atende cinco unidades de produção. Os cabritos nascidos foram repassados para outras unidades distantes, a fim de evitar acasalamentos indesejados e consanguinidade, enquanto as fêmeas foram mantidas para ampliar a oferta de produção de leite.

O agricultor Carlos Pereira ordenhando uma cabra em sua unidade de produção (Brejal, Petrópolis, RJ)

Acompanhamento das unidades de produção

Distribuição de cabras para o agricultor Luiz Botelho, em São João do Vale do Rio Preto/RJ

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O grupo de agricultores envolvidos no projeto foi bastante heterogêneo, compreendendo desde unidades familiares plenamente inseridas no processo de produção orgânica certificada até famílias com alto nível de risco social. No distrito de Brejal, em Petrópolis, por exemplo, um dos agricultores demonstrou aguçada percepção quanto


Galinhas ciscando em canteiros de hortaliças no distrito de Brejal, Petrópolis/RJ

aos objetivos do projeto e ampla consciência sobre a necessidade de desenvolvimento de um modelo de produção ambientalmente amigável, tendo assim se motivado para a experimentação. Esse agricultor e sua esposa gerenciam de forma eficiente tanto o sistema de produção, que é altamente diversificado, quanto a comercialização dos gêneros que produz.

Em outra localidade do mesmo distrito, os agricultores estão inseridos na produção certificada, mas contam com restrita assessoria técnica, o que no início limitou a assimilação da proposta do projeto. Por sua vez, os agentes de desenvolvimento e os pesquisadores tiveram dificuldades para

adaptar a proposta à realidade local. A pecuária foi conduzida por apenas dois agricultores, que dividiram as responsabilidades das criações de galinhas e caprinos. Apesar das dificuldades com o tempo, o grupo evoluiu de forma marcante. No município de São José do Vale do Rio Preto, a paisagem é bem diferente daquela observada na comunidade de Brejal. A região apresenta relevo fortemente ondulado e, por isso, a ocupação do espaço agrícola é pouco diversificada e é feita predominantemente com a lavoura de chuchu, que não exige intensa movimentação de solo. Embora os agricultores já possuíssem experiência com a criação de galinhas na região, apenas dois deles se engajaram na experimentação proposta pelo projeto. Ambos incorporaram plenamente a lógica da integração lavoura-pecuária, o que exigiu dos mesmos um novo planejamento de suas unidades, mas também lhes permitiu reduzir, ainda que de forma restrita, a aquisição de adubos orgânicos. Os agricultores do assentamento rural Fazenda Alpina, município de Teresópolis, encontravam-se em situação de alto risco social. No início das atividades junto à comunidade, todas as famílias contatadas aderiram ao projeto. No entanto, no decorrer das ações, cerca da metade delas desistiu ou simplesmente não conseguiu permanecer na atividade devido às baixas rendas auferidas nos lotes e, sobretudo, ao precário sistema de escoamento da produção. Mesmo vivenciando essas dificuldades, algumas famílias conseguiram obter um nível de renda suficiente para permanecerem em seus lotes. Entre as experiências bem-sucedidas, destacamos a do casal Isa e Luiz Ventura. Com base em um sistema de gestão técnica da unidade e de estratégia de comercialização direta semelhante ao adotado pelos agricultores de Petrópolis, o casal recuperou a autoestima e criou condições satisfatórias para permanecer no lote.

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Agente de desenvolvimento Juliana Dias conversando com Dona Gracinha em sua unidade de produção em São José do Vale do Rio Preto, RJ.

A participação da Associação Horta Orgânica no processo consistiu em prestar assessoria aos agricultores tanto para a produção quanto para a comercialização, por meio da busca de mercados justos que valorizassem a oferta de gêneros produzidos organicamente. Uma das consequências evidentes do projeto de integração lavoura-pecuária foi a agregação de renda, uma vez que cerca de 60% dos agricultores não possuíam aves e a grande maioria não se dedicava à criação de cabras antes do projeto. Esses resultados econômicos se deram tanto por meio da obtenção dos gêneros de origem animal, que foram consumidos ou comercializados pelas famílias, quanto pelo aproveitamento dos dejetos dos animais para a fertilização orgânica das áreas de cultivo das hortaliças. Além desses resultados mais tangíveis, cabe ressaltar que a interação entre agricultores, técnicos da Horta Orgânica, pesquisadores e estagiários proporcionada pelo projeto favoreceu o intercâmbio de conhecimentos, resultando em benefícios para todos os envolvidos. No entanto, algumas dificuldades foram identificadas na condução dos trabalhos, entre elas: a reduzida participação dos agricultores em algumas tomadas de decisão, tal como na escolha da linhagem das galinhas e da raça dos caprinos, prejudicando o processo de apropriação do conjunto da proposta pelas famílias. Identificou-se também a necessidade de um balanceamento de rações que atenda de forma mais eficaz às necessidades nutricionais das aves. Na ausência dessa medida durante a execução do projeto, ocorreram baixas produções de ovos.

Considerações finais O projeto propiciou maior articulação entre as instituições participantes e os agricultores e trouxe variados benefícios vinculados à diversificação de fontes de renda nas unidades de produção de hortaliças. A rotina diária de trabalho requerida pelo manejo dos animais (alimentação, ordenha, manejo de crias, colheita de ovos, entre outras atividades), por exemplo, aproximou o jovem das atividades praticadas pela família, estimulando-o a permanecer no meio rural. Nesse contexto, observou-se também o aumento da participação da mulher, valorizando ainda mais a sua contribuição na manutenção econômica da família. Por meio de depoimentos, os agricultores reconheceram que o componente animal integrado ao cultivo de hortaliças representou uma alternativa viável para minimizar a dependência em relação à aquisição de insumos como os adubos orgânicos, além de

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complementar a renda obtida com a comercialização de hortaliças e contribuir para a segurança alimentar, incorporando fontes proteicas na dieta da família. Agradecimentos: Aos associados da Horta Orgânica de São José do Vale do Rio Preto (RJ) À Horta Orgânica Ao CNPq Juliana Dias zootecnista, mestranda do CPGZ/UFRRJ diaszoo@bol.com.br Juscelio Ramos de Souza engenheiro agrônomo, mestrando do CPGF/UFRRJ juscelioramos@yahoo.com.br Roberto Gomes Leite Associação Horta Orgânica robertoleite@globo.com João Paulo Guimarães Soares pesquisador da Embrapa Agrobiologia jpsoares@cnpab.embrapa.br José Guilherme Marinho Guerra pesquisador da Embrapa Agrobiologia gmguerra@cnpab.embrapa.br Renato Linhares de Assis pesquisador da Embrapa Agrobiologia renato@cnpab.embrapa.br José Antônio Azevedo Espíndola pesquisador da Embrapa Agrobiologia jose@cnpab.embrapa.br


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