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Revista Agriculturas V6, N4 - Artigo 6

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Fonte de água viva: soberania alimentar e ação das mulheres na Rede Xique-Xique Marialda Moura da Silva

O

agronegócio tem se expandido no Rio Grande do Norte com a instalação da fruticultura irrigada por empresas nacionais e transnacionais.  Ao precarizarem e explorarem o trabalho de adultos e crianças e degradarem o meio ambiente, essas empresas vêm afetando negativamente a vida da população rural mais pobre, negra e indígena, e, em especial, a das mulheres.1 Para fazer frente às situações de exploração e de violência a que estão submetidas, 392 mulheres organizadas em 44 grupos, presentes em três territórios rurais do estado2, vêm se articulando em torno à Rede Xique-Xique com o objetivo de participar de atividades de caráter produtivo seguindo os princípios da Agroecologia, da Economia Solidária e do feminismo. Contando com a assessoria de ONGs, as mulheres participam igualmente de atividades de formação e se mobilizam em lutas e manifestações articuladas por movimentos sociais, tais como o Grito dos Excluídos, o Dia Internacional da MuEm outubro de 2007, um manifesto assinado por várias ONGs e movimentos sociais do estado denunciou que algumas transnacionais, principalmente a Del Monte, têm utilizado o trabalho escravo. 2 Os territórios são: 1) Açu-Mossoró, nos municípios de Tibau, Grossos, Mossoró, Governador Dix Sept Rosado, Baraúna, Serra do Mel; 2) Sertão do Apodi, nos municípios de Apodi, Janduis e Messias Targino; e 3) Mato Grande, no município de São Miguel do Gostoso. 1

lher, os Encontros de Trabalhadoras Rurais, a Marcha Mundial das Mulheres e os encontros da Economia Solidária e da Agroecologia. Participam também de feiras de economia solidária de âmbito nacional, regional, estadual e municipal, onde comercializam grande diversidade de produtos. Nos diversos municípios do Rio Grande do Norte em que a Rede XiqueXique se constrói, a organização das mulheres em grupos produtivos surge como ação concreta de resistência contra a realidade de exploração que vivenciam. Nesse processo de construção da rede, o desenvolvimento de cultivos de base agroecológica, as práticas da economia solidária e as ações feministas vinculadas à Marcha Mundial das Mulheres têm orientado a atuação dos grupos buscando promover mudanças na vida das agricultoras. A Agroecologia referencia a luta pela soberania alimentar; a economia solidária e os princípios da autogestão, do trabalho coletivo, da cooperação e da reciprocidade são elementos fundamentais na construção de relações de confiança e de solidariedade nos grupos; o aumento da participação das mulheres e o seu papel nas questões envolvendo a reprodução humana colocam-se na centralidade do debate da rede. Como diz Nobre (2003): É necessário seguir o debate para construirmos novas práticas econômicas. Para isto a economia solidária deve assumir a agenda feminista de romper com a separação entre produção e reprodução, com a divisão sexual do trabalho e ampliar a noção de trabalho. Destacamos neste artigo o processo de organização do grupo de mulheres Maria, como uma expressão prática de busca por uma sociedade mais igualitária e sustentável.

Grupo Maria 3: uma experiência em construção O grupo Maria é composto por seis mulheres do assentamento rural Arizona, localizado a 14 km da sede do município de São Miguel do Gostoso. Existe desde 2004 e congrega mulheres com diferentes trajetórias de vida que se uniram em torno a objetivos comuns relacionados à construção de alternativas para a melhoria de vida e das rendas de suas famílias. No decorrer do processo de organização do grupo, as mulheres foram conquistando crescentes espaços de participação e de autoafirmação como novo sujeito social ativo no assentamento. Parte deste texto integra o terceiro capítulo da dissertação de mestrado: SILVA, Marialda Moura da. Uma fonte de água viva: a participação das mulheres no assentamento Arizona. UFRN, 2006.

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Foto: Arquivo AACC-RN

Mulheres do Grupo Maria preparando composto orgânico

Diferente de outras comunidades rurais, o assentamento é planejado e organizado com o envolvimento de homens e mulheres que, ao constituírem associações, assumem variadas responsabilidades nas negociações junto ao poder público e nas articulações com movimentos sociais, sindicais, fóruns municipais e regionais. Foi nesse contexto que o grupo Maria nasceu. Em uma das assembleias da agrovila Arizona, 36 sócios(as) deliberaram que a área coletiva do assentamento seria destinada à implantação de um projeto de hortas gerido pelo grupo de mulheres, que naquele momento contava com 12 integrantes. No início, havia certo descrédito no assentamento, mas a organização das mulheres em grupo lhes assegurou a área para cultivo. Essa foi considerada a primeira grande conquista.

Com a participação e reivindicação do grupo nos espaços de organização local, elas conseguiram a primeira assessoria para apoiar o desenvolvimento das atividades com a aquisição das primeiras ferramentas de trabalho. À medida que se organizaram, passaram a participar de cursos sobre produção ecológica e sobre variadas outras temáticas.

Em uma área de pouco mais de um hectare o grupo iniciou suas produções, tendo optado pelo plantio sem quaisquer insumos químicos. As primeiras atividades foram destocar e limpar o terreno e adquirir sementes para o plantio. A comercialização é realizada na feira local e os resultados econômicos são divididos pelas integrantes do grupo. Ao constituírem o grupo, entretanto, as mulheres se deparam com dificuldades para administrar o tempo. Na chamada divisão sexual do trabalho, são elas as responsáveis pelo trabalho doméstico e pelo cuidado com a família, tarefas vinculadas à sustentabilidade da vida humana. Assim, ao assumirem outras atividades, ficam ainda mais sobrecarregadas, uma vez que a maioria não tem com quem contar. Apesar disso, a participação no grupo produtivo e a autoorganização têm aberto novos horizontes. Hoje elas assumem responsabilidades de coordenação e participam de encontros, cursos e eventos fora do assentamento e do município, com destaque para a Marcha Mundial das Mulheres, para a qual o grupo contribuiu com a confecção de uma bandeira, ostentada com orgulho. E, nesse movimento, se motivam a continuar a luta e a organização do grupo.

“O verdadeiro trabalho na agricultura é aquele que é feito com as mãos” Quando o grupo iniciou suas atividades, as mulheres utilizavam latas e tambores para transportar água desde suas casas para a rega diária da horta. Para tanto, usavam uma carroça tomada por empréstimo. Posteriormente, adquiriram algumas ferramentas e obtiveram algumas orientações técnicas para a preparação do composto orgânico, assim como para diversifi-

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car os cultivos e compreender as funções ecológicas de cada inseto e de cada pé-de-mato encontrado na agricultura.

A conquista de maiores níveis de autonomia é um dos aspectos mais valorizados pelas mulheres:

As ações do grupo vêm elevando a autoestima de suas participantes com a revalorização de suas condições de agricultoras, ao mesmo tempo em que lhes confere a gratificação pelas mudanças materiais ocorridas.

Independência... Independência do meu marido, só em eu não ter que pedir tudo a ele, já que é outro dinheiro que entra em casa e com ele posso comprar um vestido pra mim, uma roupa pra um filho e não ter que pedir a ele, já é muito bom. Ao experimentarem a construção do grupo Maria, por meio da realização de atividades produtivas, as assentadas da agrovila Arizona vêm demonstrando ser uma força ativa no desenvolvimento do próprio assentamento, participando de vários processos, sendo reconhecidas como verdadeiras integrantes da organização. Nesse sentido, pode-se afirmar que o grupo Maria tem sido uma alternativa concreta para as mulheres, uma vez que esse espaço tem lhes proporcionado visibilidade pública e reconhecimento social. Hoje são convidadas para as ações de organização, articulação, formação e têm claro que participam de um movimento que precisa ser cultivado e cuidado com tanto zelo quanto o dedicado a uma planta viva: É uma fonte de água viva, porque, como nós, a planta é viva e precisa de água, de ser cuidada, senão ela morre. É como nós, por isso que é fonte de água viva. (Maria de S., assentada, coordenadora do grupo, 43 anos)

Foto: Arquivo AACC-RN

A horta pra mim é um lugar tranquilo, apesar da luta ser muito pesada. Às vezes, quando tô com problemas ou de mau humor, vou para o projeto desaparecer e tranquilizar o espírito.Venho sozinha e quando me sinto melhor vou pra casa (...) O trabalho na horta é pesado, mas é menos estressado (...) Prefiro trabalhar na agricultura, pois é um trabalho que tem início e fim. Pra mim o verdadeiro trabalho na agricultura é aquele que é feito com as mãos. Além disso, na horta o trabalho é na sombra e, como a água pra horta é muito pouca, a sombra ajuda pra economizar... Em casa tem muito aperreio e as coisas a gente vai fazendo, vão se desmanchando e os homens não dão valor. Por mais que a mulher trabalhe no roçado, ele não acha que ela é trabalhadora. Quando eles veem a gente arrancando um mato desse, ficam chamando a gente de besta ou dizem “ô mulher trabalhadeira”, mas é como se fosse uma crítica, acham que as mulheres são pra ficar em casa lavando louça, cuidando de cozinha e menino (Maria T., assentada, 33 anos)

Integrante do Grupo Maria realizando pesquisa em área de reserva

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Foto: Arquivo AACC-RN

A experiência do grupo Maria comprova que as mulheres se diferenciam quanto à condução de processos de base ecológica, como revela sua atuação em projetos voltados para a preservação ambiental que valorizam os saberes adquiridos com outras gerações, desafiando a produção convencional, re-introduzindo sementes há muito guardadas nas próprias hortas domésticas, testando formas e preparados no cultivo, recuperando a cooperação entre todas as esferas da produção (KARAM, 2005, p.320). Em suma: trata-se de uma experiência que promove mudanças não só nas práticas de cultivo das plantas, mas também nas relações sociais, na revalorização dos saberes tradicionais, no respeito ao meio ambiente e aos consumidores dos alimentos produzidos. O tempo e a dedicação à atividade, bem como princípios éticos que a orientam, tais como o senso de justiça e de solidariedade, são elementos essenciais para o seu sucesso.

Por fim, cabe ressaltar que o grupo Maria, assim como os outros 43 grupos de mulheres que participam da Rede Xique-Xique, tornouse um importante sujeito no movimento da economia solidária. O contexto em que se desenvolve a auto-organização das mulheres na Rede Xique-Xique inaugura uma época de participação feminina ativa em todos os processos, seja

na produção, na organização ou na comercialização, fruto de uma ação articulada com a Marcha Mundial das Mulheres na luta pela mudança de práticas opressoras nos assentamentos e no cotidiano familiar. Marialda Moura da Silva militante da Marcha Mundial das Mulheres, coordenadora do Núcleo Estadual de Assistência Técnica em Economia Solidária – NEATES/RN marialda.moura@gmail.com

Referências bibliográficas KARAM, Karen Follador. A mulher na agricultura orgânica e em novas ruralidades. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 1, p.303-320, abr. 2004. SILVA, Marialda Moura da. Uma fonte de água viva: a participação das mulheres no assentamento Arizona em São Miguel do Gostoso (RN). 2006. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal. NOBRE, Miriam. Diálogos entre economia solidária e economia feminista. Estudos Nead, 2003. Disponível em: <http://www.nead.org.br/index.php?acao=artigo&id=24>.

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