A integração da
criação animal com cultivos em assentamentos rurais no semiárido brasileiro Edisio Oliveira de Azevedo , Francisco Roserlândio Botão Nogueira e Carlos Magno de Medeiros Morais
A
integração entre a pecuá ria e a agricultura faz parte da história dos sistemas de produção nos sertões do Nordeste brasileiro. Durante a ocupação do semiárido, as grandes fazendas de criação de gado predominaram na paisagem regional, tendo a bovinocultura como principal atividade. Os moradores/trabalhadores tinham permissão de cultivar pequenos roçados, desde que os restos culturais fossem destinados à alimentação dos animais dos patrões. Posteriormente, o cultivo do algodão começou a figurar como atividade econômica importante na região. Desde então, a integração passou a se fundamentar no trinômio roçado-gado-algodão, com a massa verde do algodoal sendo destinada ao pastoreio dos animais após a colheita das plumas.
Foto: Chico Nogueira
As unidades familiares desenvolveram outra modalidade de integração. Para se reproduzirem em áreas bem menores do que as das fazendas, adotam como estratégia central a diversificação das espécies animais e vegetais e estabelecem fortes laços de depen dência entre as criações e os roçados. D. Socorro ensina os netos como manejar a cabra
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A partir da segunda metade do século XX, como resultado do processo de luta e ocupação de terras improdutivas, a estrutura fundiária na região começou a ser alterada com o surgimento de assentamentos rurais. Contudo, essas comunidades, em sua maioria, foram implantadas com base no modelo das estruturas das grandes fazendas que haviam sido dimensionadas para a criação de gado segundo padrões modernos. De forma geral, essas antigas fazendas contavam com grandes silos para estoque de forragens, estábulos, currais, depósitos, máquinas e implementos. Trata-se, portanto, de uma herança de bens físicos incompatível com a lógica produtiva de base familiar, que se apoia em sistemas diversificados cujos componentes estão fortemente integrados entre si, com o propósito tanto de prover alto nível de segurança alimentar para as famílias quanto de gerar rendas monetárias satisfa tórias. Tendo como referência a experiência da família de dona Socorro e seu Jorge, do assentamento Patativa do Assaré, em Patos (PB), este artigo propõe uma reflexão sobre a constituição das unidades produtivas em assentamentos de reforma agrária no semiárido brasileiro.
As unidades produtivas no assentamento Patativa do Assaré O assentamento Patativa do Assaré é o resultado da luta de trabalhadores rurais sem terra que, em 1998, ocuparam a antiga fazenda Jacú, com área total de 2.239,6 hectares. Em dezembro de 2003, após cinco anos de resistência, a concessão de uso da terra foi emitida em benefício de 60 famílias.
A antiga fazenda contava com quatro açudes, que vêm permitindo a criação de peixes e a utilização
agrícola das vazantes durante os períodos secos do ano. Outras estruturas remanescentes da antiga fazenda, como silos, currais e maquinários de grande porte, encontram-se praticamente desativadas por não serem adequadas às especificidades e à escala de produção dos assentados. A divisão dos espaços produtivos foi definida em assembleia da associação dos assentados. Nessa partilha, determinou-se que uma área correspondente a 20% da antiga fazenda seria dedicada à reserva legal e outra, onde havia uma plantação de 600 pés de manga, seria de uso coletivo. Cada família recebeu um terreno de um hectare na agrovila, um lote com 23 hectares e uma área vazante cuja extensão varia em função do período das chuvas. Para estruturarem suas unidades, as famílias assentadas receberam um conjunto variado de apoios financeiros do governo federal para o custeio de lavouras e o investimento em infraestruturas (Quadro 1). Os recursos oriundos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) foram destinados especificamente para o investimento em atividades produtivas e têm sido empregados na construção de cercas, de currais/apriscos e na aquisição de animais, insumos e implementos para a produção agrícola e animal. Uma análise da alocação dos recursos desse programa no semiárido evidencia que a instituição bancária estabelece critérios que nem sempre são compatíveis com a realidade e a preferência das famílias. A indução à aquisição de insumos
Finalidade do recurso
Nº de famílias beneficiadas
Ano de liberação
Valor (R$)/família
Origem do recurso
Custeio (Crédito apoio1)
60
2003
2.400,00
Incra
Construção de casas (Crédito habitacional2)
60
2004
5.000,00
Incra/CEF
Custeio (Crédito semiárido)
60
2006/2007
1.000,00
Incra
Implantação de infraestuturas (Pronaf3)
35
2007
18.000,00
MDA/BNB
Custeio (Crédito apoio4)
25
2007
2.400,00
MDA/BNB
Quadro 1. Recursos financeiros recebidos pelas famílias do assentamento Patativa do Assaré, de acordo com o ano de liberação, valor e origem dos recursos Fonte: Depoimento dos assentados
Crédito não-reembolsável, destinado ao custeio das famílias. Crédito não-reembolsável para construção de 60 casas de 60 m2. 3 Modalidade de financiamento do Pronaf voltada para os assentados da reforma agrária que solicitaram acesso ao crédito. 4 Segundo crédito de apoio para as famílias que não acessaram o Pronaf. 1 2
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A unidade produtiva de dona Socorro e seu Jorge Dona Socorro e seu Jorge estruturaram um sistema de produção que segue o padrão das demais unidades no assentamento. A residência está localizada na agrovila. Nesse terreno, existe um espaço que geralmente é utilizado para atividades de lazer, onde as crianças e os jovens desenvolvem suas brincadeiras e os adultos conversam e organizam encontros familiares. Trata-se também de um espaço que tem função econômica importante para a família, já que é onde hortaliças, plantas medicinais e ornamentais e fruteiras são cultivadas, e pequenos animais são criados. A casa, de 60 m2, foi construída com recursos provenientes da parceria entre a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Posteriormente, dona Socorro e seu Jorge ampliaram os cômodos para melhor acomodar os oito dos 12 filhos que residem com eles. O lote da família possui 22 hectares, vinte dos quais localizados na parte mais alta da paisagem e chamados de tabuleiro. São ocupados por uma cobertura vegetal nativa secundária e destinados ao pastoreio de bovinos e ovinos. Os outros dois hectares, na área de baixio, são ocupados com o roçado. Ora pela falta de chuvas, que inviabiliza a conclusão dos ciclos culturais, ora pelo excesso, que inunda a área, o roçado realizado no baixio é uma atividade de elevado risco. A área de vazante é uma faixa de terra que varia de 0,3 a 0,5 hectares, de acordo com a intensidade das chuvas ou com a severidade do período seco. Quando as águas dos açudes vão baixando, terras de alta fertilidade ficam disponíveis para serem cultivadas. Acompanhando o movimento da água em direção ao centro do reservatório, a família planta capim,
Foto: Chico Nogueira
Foto: Fernando Zanella
e equipamentos que até então não faziam parte da cultura produtiva das famílias, tais como sementes comerciais, agrotóxicos, medicamentos e implementos agrícolas, é o exemplo mais corriqueiro dessa situação.
À esquerda e acima: um criatório diversificado de pequenos animais é mantido no terreno da agrovila
grãos, frutas e tubérculos. A vazante assegura a continuidade da produção no período mais seco do ano, que compreende os meses de maio a dezembro.
Diversificação e integração garantem a reprodução do sistema familiar Com a diversificação de atividades e o uso múltiplo das áreas disponíveis, a família constituiu oito subsistemas (Quadro 2) que garantem boa variedade de produtos, tanto para sua própria alimentação quanto para o comércio. Essa diversidade produtiva tem impacto marcante na segurança alimentar e nutricional da família.
A agricultura de roçado realizada no primeiro semestre do ano (período das chuvas) produz variados gêneros alimentícios, principalmente grãos. Já a vazante assegura os mesmos gêneros no segundo semestre (período das secas). A criação animal, de qualquer que seja a espécie, mantém uma produção relativamente estável ao longo do ano. A estabilização da produção vegetal e animal garante a alimentação da família e diminui a necessidade da compra de comida no mercado. Os produtos originados dos animais fornecem principalmente proteínas (carne, leite, ovos), enquanto os do roçado e da vazante proveem carboidratos na forma de grãos e batatas. Os cultivos do arredor de casa complementam a nutrição, com as frutas e hortaliças ricas em minerais e vitaminas.
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Subsistema (atividade produtiva)
Distribuição da produção segundo a época do ano
Produtos
Seca
Chuva
Gado
leite e animal vivo
++
+++
Ovelha
carne e animal vivo
+++
+++
Cabra
em experimentação
-
-
Criações do arredor de casa
ovos, carne de aves e carne de porco
++
+++
Cultivos do arredor de casa
frutas, hortaliças e plantas medicinais
+++
+++
Roçado
milho, feijão, melancia e abóbora
-
+++
Vazante
milho, feijão, melancia, batata doce e abóbora
+++
-
mel
++
+++
Abelhas (Apis mellifera)
Quadro 2. Diversidade e destino dos produtos gerados pelos subsistemas. Legenda: + pouca produção; ++ produção média; +++ produção máxima; - nenhuma produção
Uma parte da produção é comercializada in natura (coentro, alface, abóbora, batata-doce, leite, ovos, mel) e outra é beneficiada (doce de leite e de frutas, geleia real). A comercialização ocorre por duas vias principais: a feira da agricultura familiar, realizada no município de Patos, e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), executado pelo governo municipal em parceira com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Essas duas opções de venda têm permitido à família alcançar preços mais justos por suas produções.
Geração de insumos e intercâmbio entre os subsistemas A diversificação permite também que os resíduos de um subsistema sejam aproveitados como insumos em outros. A agricultura, de roçado e de vazante, fornece grãos para a alimentação das criações do arredor de casa. Produz ainda palhadas que são utilizadas como alimento dos ovinos, bovinos e da cabra. No período da colheita da batata-doce, as ramas servem para alimentar os porcos, as galinhas e as ovelhas. Já o esterco dos ovinos é destinado à fertilização dos solos do arredor de casa, enquanto a criação de galinhas no pomar também resulta em uma interação positiva que promove eficiente reciclagem de nutrientes. Goiabas e mamões que amadurecem e caem servem de alimento para as galinhas. Insetos que poderiam se multiplicar, tornado-se pragas das fruteiras, são ricas fontes alimentares para as galinhas que, ao estercarem nesse ambiente, repõem nutrientes ao solo. As abelhas, por sua vez, exercem um importante trabalho de polinização das plantas nativas e cultivadas, contribuindo para a elevação da produção vegetal. Com esse aproveitamento interno proporcionado pela reciclagem de subprodutos, os custos para manutenção do conjunto do sistema são bastante reduzidos, diminuindo assim os custos por unidade de produto gerado. Esse efeito permite a ampliação da renda, ou seja, da remuneração do trabalho da família. Em suma, esse intercâmbio possibilita que
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o conjunto do agroecossistema se reproduza tecnicamente, sem depender totalmente de insumos externos.
Novos aprendizados e distribuição do trabalho no tempo e no espaço A distribuição do trabalho familiar é outra variável importante a ser observada na estratégia adotada pela família. A criação de animais exige maior dedicação no segundo semestre do ano, pois nesse período a pastagem nativa já está escassa e a alimentação, vinda da vazante e/ou comprada, tem que ser fornecida diretamente no curral. Já os roçados demandam mais trabalho no primeiro semestre, por ocasião do período chuvoso. A área de vazante requer mais atenção no segundo semestre, quando as águas do açude baixam e as terras úmidas ficam disponíveis para o plantio. Em função da maior necessidade de irrigação no pe ríodo seco, é também no segundo semestre a época de maior demanda de trabalho no arredor de casa. Além da possibilidade de distribuir melhor a mão-de-obra no tempo e no espaço, o sistema, tal como estruturado, proporciona também uma divisão de trabalho mais equilibrada entre os membros da família. Dona Socorro e alguns dos filhos cuidam da produção do arredor de casa. Um outro filho cuida da criação dos bovinos e os demais auxiliam seu Jorge nos cultivos de roçado e vazante e no manejo dos ovinos e das abelhas. No processo de aprendizado sistemático em que a família está envolvida, seu Jorge é um dos assentados que mais participa de atividades de intercâmbio, visitas a comunidades, cursos, treinamentos e outros eventos de formação. Esses eventos são promovidos, principalmente, pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Universidade Federal da Paraíba/Campus de Patos, Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e Articulação do Semiárido Paraibano (ASA-PB). Além de participar dessas atividades, a família integra o grupo que organizou a feira semanal da agricultura familiar, criada em 2008, na cidade de Patos.
A sustentabilidade da unidade de produção familiar: um olhar sobre as estratégias A principal estratégia produtiva da família é a diversificação de espécies vegetais e animais, produzidas tanto no período chuvoso quanto no período seco, utilizando os diferentes espaços da propriedade, o que eleva a produção e a produtividade por unidade de área. A diversidade de produtos comercializados amplia a estabilidade econômica da unidade familiar, uma vez que a eventual perda de uma produção é compensada pelo rendimento das outras. A estratégia de diversificação e integração entre cultivos agrícolas e criação animal garante a reciclagem de nutrientes entre solo, plantas e animais, equilibrando e ampliando a fertilidade global e conferindo maior autonomia técnica ao agroecossistema. A utilização dos recursos naturais de diversos espaços contribui para potencializar o uso dos meios de produção disponíveis e adequar de forma eficiente a mão-de-obra demandada ao longo do ano.
anteriormente era ocupada por apenas algumas famílias que prestavam serviço a um único proprietário. A experiência revela também que a constituição de unidades sustentáveis de produção de base familiar em assentamentos rurais requer, obrigatoriamente, a valorização das estratégias tradicionais, associadas a processos sociais de inovação para geração de riquezas em benefício do desenvolvimento local e regional.
Para seu Jorge e dona Socorro, as estratégias para a convivência com o semiárido estão baseadas no processo de aprendizagem que parte da experimentação, troca de conhecimentos e valorização dos recursos locais. Assim, a família vem elaborando sua própria estratégia, expressa em um agroecossistema complexo e diversificado que tem na integração animal-vegetal a chave para seu sucesso.
O agroecossistema que vem sendo desenvolvido pela família de dona Socorro e seu Jorge se encontra em um processo bastante avançado de transição agroecológica, uma vez que valoriza a biodiversidade, não utiliza insumos químicos e viabiliza a participação de todos os membros da família no processo produtivo.
Para seu Jorge, “A vida da família melhorou muito se comparada com aquela que tinha no tempo em que prestava serviços aos fazendeiros da região.” Esse depoimento confirma a função social e econômica da reforma agrária e o poder que ela exerce na inclusão dos trabalhadores no processo produtivo. Somado a isso, o protagonismo da família na definição das estratégias produtivas e na determinação das funções de cada membro, aliado ao processo educativo que orienta as ações dos assentados, mostra-se condição fundamental para o êxito de experiências como a descrita aqui.
Diante desse contexto, é preciso reforçar que os financiamentos oficiais devem considerar os agroecossistemas como um todo, partindo das vivências de agricultores experimentadores, das experiências exitosas, dos recursos naturais disponíveis e das condições técnicas e organizativas das unidades familiares.
Conclusões O exemplo do assentamento Patativa do Assaré demonstra que a reforma agrária no semiárido deve ser concebida como uma política de desenvolvimento que integra as dimensões econômica, social e ambiental. Hoje, aproximadamente 300 pessoas de 60 famílias vivem e produzem no assentamento, em uma área que
Edisio Oliveira de Azevedo médico veterinário, professor adjunto da UFCG edisio@cstr.ufcg.edu.br Francisco Roserlândio B.Nogueira médico veterinário, professor substituto da UFCG chiconogueira@uol.com.br Carlos Magno de Medeiros Morais médico veterinário, assessor técnico do Centro Sabiá inddiano@gmail.com
Foto: Chico Nogueira
Referências bibliográficas:
Dona Socorro apresentado a diversidade de cultivos no arredor de casa
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CARON, P.; SABOURIN, E. Camponeses do sertão: mutação das agriculturas familiares no Nordeste do Brasil. 1ª ed. Brasília: Embrapa, 2003. FREIRE, A.G.; MELO, M. N.; SILVA, F. dos S.; SILVA, E. da. No arredor de casa, os animais de terreiro. Revista Agriculturas, v. 2, n. 4, dez. 2005. MOREIRA, E.; TARGINO, I. Capítulos de geografia agrária da Paraíba. João Pessoa: Editora Universitária, 1997.
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