Foto: Adriana Galvão Freire
Troca de conhecimento: jovem agricultora apresenta sua experiência agroecológica durante a II Oficina de Sistematização de Experiências do NE
Mulheres construindo a
Agroecologia no Brasil
Elisabeth Maria Cardoso e Vanessa Schottz Rodrigues
D
esde sua criação, em 20041, o Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres da ANA) adota uma estratégia ancorada em duas linhas de ação complementares. A primeira consiste na incorporação do debate de gênero em todas as instâncias organizativas da ANA, em 1 O GT Mulheres da ANA foi criado em 2004 durante um seminário nacional que reuniu organizações feministas, de mulheres rurais e do campo agroecológico para refletir sobre os diálogos entre feminismo e Agroecologia.
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nível nacional e regional, e pela atuação junto aos outros GTs da articulação. A segunda se expressa pela intervenção nos espaços de formulação de políticas públicas, buscando valorizar as experiências que as mulheres vêm desenvolvendo nos diferentes contextos socioambientais do país. O GT se afirma como um espaço de auto-organização das mulheres dentro da ANA, assumindo que é necessário mobilizá-las e articulálas para atuarem efetivamente diante das desigualdades de gênero na sociedade e da situação de exclusão nos debates e na esfera política. A incorporação da perspectiva de gênero
na ANA e a divulgação das reflexões e experiências das mulheres é, para o GT, condição indispensável para que seja dada visibilidade ao papel fundamental desempenhado por elas na construção da Agroecologia.
Intercâmbio e sistematização de experiências protagonizadas por mulheres Muitos esforços vêm sendo empregados para identificar e sistematizar as experiências em Agroecologia conduzidas por todo o país. Contudo, percebe-se que, embora a grande maioria de experiências sistematizadas seja protagonizada por homens, muitas contam com a importante participação e esforço das mulheres. Esse aspecto, porém, vem sendo negligenciado. Ao destacar a natureza familiar da experiência, muitas sistematizações deixam de problematizar as relações de poder e os papéis exercidos por cada um dos membros da família, contribuindo para manter invisível o trabalho das mulheres na construção da Agroecologia.Temas como divisão sexual do trabalho, planejamento produtivo, autonomia política e econômica das mulheres acabam, portanto, não sendo abordados nas sistematizações. Foi diante dessa problemática que as mulheres reunidas no GT apontaram a necessidade de garantir espaços específicos para sua auto-organização. Elas também ressaltaram a importância estratégica de realizar sistematizações e intercâmbios de experiências protagonizadas pelas agricultoras, camponesas, agroextrativistas, indígenas, quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, ribeirinhas, entre outras. Essa iniciativa buscava explicitar as interfaces entre as ações locais e a perspectiva de construção da transição agroecológica. As mulheres vão se reconhecer na medida em que falam da sua própria história, do seu protagonismo. (Rose, agricultora e membro do Pólo Sindical da Borborema, Paraíba) Foi nesse contexto que se iniciou, em 2008, o processo de Intercâmbio e Sistematização de Experiências Agroecológicas de Mulheres, fruto de uma parceria entre o GT Mulheres da ANA, a ActionAid Brasil e a Heifer. O processo envolve um conjunto amplo de organizações e movimentos sociais, tendo já motivado a sistematização de 23 experiências da região Nordeste e duas da região Sudeste. No momento, estão sendo sistematizadas 15 experiências da região Sul e 16 da Amazônia.2 As sistematizações abrangem tanto unidades familiares como grupos e associações de mulheres. Para algumas organizações, a prática da sistematização já fazia parte 2 Esse processo de intercâmbio e sistematização vem sendo desenvolvido em parceria com algumas organizações e redes regionais: GT Mulheres de Pernambuco, na região Nordeste; GT Gênero da Rede Ecovida e Movimento de Mulheres Camponesas, na região Sul; e Rede de Mulheres Empreendedoras Rurais da Amazônia, na região amazônica.
da rotina institucional, embora o protagonismo das mulheres ainda não fosse contemplado, enquanto para outras foi uma novidade. Descrevemos a seguir a metodologia adotada no processo, apresentando alguns dados preliminares com base nos resultados obtidos entre março de 2008 e abril de 2009 na região Nordeste.
A proposta metodológica Os principais objetivos da sistematização de experiências protagonizadas por mulheres têm sido: 1) dar visibilidade às experiências promovidas por mulheres na Agroecologia; 2) elaborar e experimentar uma metodologia participativa de sistematização, aprimorando a capacidade das mulheres de refletir sobre suas próprias experiências; 3) refletir sobre o papel das mulheres na construção da Agroecologia e o papel da Agroecologia na vida das mulheres; e 4) gerar referências para a formulação de políticas públicas a partir dos aprendizados das experiências sistematizadas. A proposta se baseia na ideia de que a sistematização deve ser conduzida pelas próprias agricultoras e técnicas das organizações envolvidas. Além disso, evitou-se definir previamente um formato metodológico único que pudesse tolher a liberdade de expressão e de produção coletiva dos grupos engajados nesse esforço de sistematização. No lugar de metodologias-padrão, optou-se pela construção conjunta de um roteiro de questões essenciais sobre a vida das mulheres que deveriam ser abordadas nas sistematizações. Os grupos foram estimulados a empregar instrumentos de sistematização variados que assegurassem a plena participação dos diferentes agentes envolvidos nas experiências, assim como o respeito aos distintos graus de maturidade das organizações e de suas reflexões sobre Agroecologia e feminismo. Em síntese, o método adotado no processo envolveu os seguintes passos: 1.
Formação de uma comissão local, composta por organizações da região onde as sistematizações foram realizadas, para o mapeamento das experiências, a construção da proposta metodológica e a elaboração da programação da primeira oficina.
2.
Realização da primeira oficina com os seguintes objetivos: conhecer e refletir sobre as experiências com mulheres e Agroecologia de cada organização envolvida; refletir sobre o papel da sistematização para a vida das mulheres e das organizações; construir de forma conjunta uma proposta de roteiro de sistematização de experiências.
3.
Cada grupo/organização/movimento conduz o seu próprio processo de sistematização. Para acompanhar essa
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Fotos: GT Mulheres da ANA
da sistematização, a partir dos debates e reflexões sobre as experiências apresentadas na segunda oficina. As visitas a experiências protagonizadas por mulheres realizadas durante a pri‑ meira e a segunda oficina foram de grande importância para o processo de sistematização. Os exemplos práticos visualizados nessas oportunidades contribuíram para a reflexão sobre o papel das mulheres na construção da Agroecologia, assim como sobre a importância da perspectiva agroecológica para a vida das mulheres. Foi exatamente com base nessa reflexão coletiva que os elementos básicos que vieram a compor o roteiro de sistematização foram definidos. A pergunta básica para esse exercício foi: Quais as questões fundamentais para o movimento de mulheres e para o movimento agroecológico que as experiências apontam e que devem ser evidenciadas num processo de sistematização? Na região Nordeste, o roteiro de sistematização construído durante a primeira oficina apontou um conjunto de questões a serem aprofundadas:
De cima para baixo: Construção coletiva do “Rio da vida”; Grupo de mulheres para a sistematização; Detalhe do “Rio da Vida”
etapa, foi importante a criação de uma comissão de metodologia, que assegurou a participação de agricultoras e técnicas e que monitorou o andamento do processo de sistematização nas diferentes regiões. No caso do Nordeste, o prazo para a realização dessas sistematizações foi de oito meses; 4.
5.
Realização da segunda oficina para socialização das experiências sistematizadas, avaliação da metodologia e aprofundamento de alguns temas que surgiram com mais destaque nas sistematizações e na primeira oficina. No Nordeste, por exemplo, foram identificados os seguintes temas: violência contra as mulheres; autonomia política e financeira; inovações na divisão sexual do trabalho; e protagonismo juvenil. Um período para a incorporação de novos elementos ao texto final
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Resgate da história do grupo e da trajetória de vida das mulheres, buscando entender em que contexto as experiências se desenvolvem.
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Em que medida as experiências contribuem para a construção da autonomia política das mulheres, valorizando e incentivando a sua participação nos diversos espaços públicos e decisórios.
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Em que medida as experiências propiciam geração de renda e autonomia financeira às mulheres? Elas estão tendo autonomia para usar a renda? Que estratégias elas utilizaram para conquistar essa autonomia?
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Quanto às transformações na vida das mulheres, houve alguma mudança na relação com o marido e os filhos? E na divisão de tarefas domésticas? O seu trabalho vem sendo mais valorizado pela comunidade e pela família? Houve conquistas de direitos das mulheres a partir da experiência?
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Como se dá o planejamento das mulheres para as atividades produtivas e reprodutivas, incluindo o tempo para o lazer? O trabalho doméstico e nos quintais é contabilizado no planejamento das atividades da propriedade?
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As mulheres envolvidas com a experiência vivenciam algum tipo de violência, seja ela física, psicológica ou patrimonial?
A Agroecologia na vida das mulheres Escrever sobre a minha história me tocou. Acho que foi muito importante colocar no papel aquilo que faço. (Luiza, agricultora do grupo Artemísia, Pernambuco) As mulheres relataram que, ao sistematizarem suas experiências, sentiram-se mais valorizadas, porque isso deu maior visibilidade ao seu trabalho, que na maioria das vezes é desconsiderado pelos companheiros e filhos. Há também uma clara percepção de que a falta de divisão dos afazeres domésticos gera uma grande sobrecarga e compromete sua participação nos espaços públicos, como sindicatos, movimentos e associações, além do tempo dedicado ao sistema de produção. Em muitas situações, a mulher continua sendo a única responsável por tarefas como a manutenção diária da casa e o cuidado com os filhos. Por outro lado, há experiências em que a produção agroecológica e a participação crescente na esfera política têm contribuído para o empoderamento das mulheres, que começaram a transpor o espaço doméstico, conquistando maior autonomia e autoestima. Aliás, a elevação da autoestima é uma das principais conquistas destacadas pelas mulheres, pois a partir dela ganha-se mais confiança para sair do isolamento e ocupar espaços antes destinados apenas aos homens. Muitas agricultoras passaram a assumir cargos estratégicos nas associações e sindicatos, como a presidência e a tesouraria. Tais condições estão contribuindo para a alteração das relações de gênero em algumas famílias, incidindo sobre a distribuição do trabalho doméstico entre os demais membros da família (pai e filhos) e a inclusão das mulheres no planejamento produtivo da propriedade.
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As experiências mostraram que essas conquistas só foram possíveis nos processos em que a produção agroecológica foi articulada com a superação da divisão sexual do trabalho, a promoção do acesso à informação e com estratégias de garantia da autonomia econômica e política das mulheres.
É comum também a situação em que a inserção das mulheres nos espaços de comercialização não assegura maior autonomia financeira, pois os homens se apropriam desses recursos e continuam definindo sozinhos onde eles serão empregados. Outra reflexão importante é a de que, assim como o trabalho das mulheres é invisível aos olhos dos homens e da sociedade, muitas vezes a renda obtida por elas também é desconsiderada e desvalorizada, uma vez que os recursos
Foto: Adriana Galvão Freire
Embora muitas experiências já avancem no sentido da inclusão das mulheres nos espaços de comercialização, foi possível identificar inúmeros desafios relacionados a essa ati-
vidade. A logística de transporte dos produtos para as feiras ainda é um grande entrave, na medida em que as distâncias são grandes, as condições das estradas são péssimas e não há apoio das prefeituras. Por conta disso, os custos com transporte têm comprometido muito a rentabilidade das atividades produtivas. Alguns grupos de mulheres ainda encontram dificuldades para se inserirem nos espaços de comercialização, justamente por não contarem com assistência técnica, acesso a crédito e apoio logístico.
Mulheres do Grupo Xique-Xique apresentam sua experiência durante a I Oficina de Sistematização de Experiências do NE em Afogados da Ingazeira (PE)
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Foto: Adriana Galvão Freire
a aproximação e o diálogo entre organizações e movimentos mistos e feministas. Segundo porque a metodologia adotada propiciou que as organizações envolvidas participassem do processo com base nos seus acúmulos prévios. Os formatos e instrumentos utilizados pelas organizações foram muito diversificados, tais como: intercâmbio de cartas, confecção de murais, oficinas, entrevistas, poesias, visitas e vídeos. As mulheres consideraram que a metodologia empregada para a sistematização favoreceu a participação do coletivo de mulheres em todo o processo, o que despertou o interesse de outras mulheres e outros grupos em continuarem sistematizando suas experiências.
A sistematização na vida das mulheres
Além disso, o processo de intercâmbio e sistematização de experiências protagonizadas por mulheres contribuiu para o aprofundamento da reflexão sobre Agroecologia e para a desconstrução dos papéis socialmente atribuídos às mulheres, trazendo à tona alguns debates políticos que já começam a influenciar as organizações, entre eles: o aprofundamento da discussão sobre os elos entre feminismo e Agroecologia; o acesso das mulheres aos mercados; a incorporação da valorização da autonomia financeira e política nas experiências; e o enfrentamento da violência contra as mulheres.
A abordagem metodológica adotada no processo foi ajustada às possibilidades e interesses das organizações envolvidas e propiciou o pleno envolvimento das agricultoras e técnicas. O acompanhamento de todas as etapas pela comissão metodológica colaborou também para que o processo fosse bem-sucedido, tendo todas organizações participantes sistematizado ao menos uma experiência.
O GT avalia que esse processo deu maior visibilidade ao protagonismo das mulheres na construção da Agroecologia e fortaleceu a capacidade de refletir sobre suas próprias experiências.
As visitas de intercâmbio também foram destacadas pelas agricultoras como espaços de reflexão, troca de experiências e valorização do seu trabalho.
Colocar em prática foi difícil. Nunca tínhamos sistematizado. Aproveitei muito, pois tive a oportunidade de conversar com as mulheres. Elas se sentiram valorizadas com o processo de sistematização. (Cicleude, MST-MA)
Grupo de trabalho na II Oficina de Sistematização de Experiências do NE em Suape (PE)
são destinados a suprir necessidades domésticas, como roupas, calçados e material escolar para as crianças. Apesar dessa falta de reconhecimento, a renda obtida com a venda dos produtos dos quintais abriu portas para que muitas mulheres voltassem a estudar. Embora a violência contra a mulher tenha sido pautada e incluída no roteiro de sistematização pelas agricultoras e técnicas na primeira oficina, poucas experiên cias abordaram o tema. Ficou evidenciado para o GT que a questão necessita ser aprofundada coletivamente.
Estou muito alegre e me emocionei com a visita. Não é só mostrar o que faço, mas pude aprender também. Elas me passaram muitas coisas boas e me deram ânimo para continuar a luta. (Dilene, jovem agricultora de Sirinhaém) Cada grupo que me visita é uma renovação da minha luta. (D. Amara, agricultora do Grupo de Mulheres de União e Riachuelo, Pernambuco) As participantes consideraram que o roteiro proposto contribuiu para aprofundar o olhar sobre alguns temas relacionados ao cotidiano das mulheres, como violência, autonomia, divisão do trabalho, bem como chamou a atenção para a importância do resgate da história dos grupos e das trajetórias de vida das mulheres. Assim, ganharam também destaque nas sistematizações temas como nascimento, casamento, maturidade, amizade e a saída da casa dos pais. Outro aspecto destacado pelas participantes foi a ampla diversidade de experiências apresentadas pelas organizações e movimentos que se encontram em estágios distintos de organização e reflexão sobre os temas da Agroecologia e do feminismo. Embora essa diversidade trouxesse alguma dificuldade para o processo coletivo, ela foi reconhecida como uma grande virtude. Primeiro porque permitiu
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Elisabeth Maria Cardoso engenheira agrônoma do Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata (CTA/ZM) e animadora do GT Mulheres da ANA beth@ctazm.org.br Vanessa Schottz Rodrigues nutricionista integrante da equipe da Fase e animadora do GT Mulheres da ANA vanessa@fase.org.br