Diversidade e integração:
elementos da agricultura ecologicamente intensiva
Fernando Funes-Monzote, Santiago López-Ridaura e Pablo Tittonell
O
Foto: arquivo dos autores
s resultados de um es tudo conduzido por seis anos em Cuba mostram que o aumento da diversidade dos sistemas produtivos, por meio da integração de lavouras com criações, por exemplo, proporciona maior produtividade, mais eficiência energética e melhor manejo de nutrientes. Além disso, trata-se de uma estratégia capaz de reduzir riscos, principalmente quando comparada a sistemas simplificados e homogêneos. As unidades de produção diversificadas de hoje têm se apropriado de várias ideias e lições que tiveram origem em sistemas tradicionais adotados em diversas partes do mundo. A experiência cubana aqui apresentada é um caso exemplar, sobretudo no que se refere ao desenho e manejo de sistemas diversificados.
O desafio da diversificação e da integração A implementação de sistemas agrícolas sustentáveis e equitativos, seja em unidades de pequena escala ou em grandes empresas comerciais, continua representando um grande desafio. Hoje, o fracasso do modelo mais difundido em todo o mundo, baseado em sistemas simplificados e homogêneos, é notório. Para não fracassar e conseguir manter a produção agrícola em certos países,
Recomposição arbórea em áreas de pastejo
esse modelo precisa receber subsídios de diversas fontes e naturezas.Tais subsídios, podem ser financeiros, mas também podem vir da superexploração de recursos naturais. Além disso, as consequências desse modelo, tais como poluição ambiental, degradação dos solos e pobreza rural, não são considerados ou contabilizados nas estatísticas econômicas.
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O fato é que a agricultura familiar não tem se beneficiado com esse modelo. As iniciativas de melhorar o desempenho das pequenas unidades de produção que adotam sistemas simplificados, homogêneos e subsidiados têm sido muitas vezes frustradas, entre outros motivos, pela escala limitada de espaço e de produção das propriedades familiares. Nesse sentido, a agricultura de pequena escala continua abrangendo uma série de estratégias, como o uso diversificado da terra; o emprego de práticas diferenciadas de gestão e comercialização; a integração de vários tipos de atividade (lavouras e criações, por exemplo); o consórcio e a rotação de culturas ou a manutenção de um alto nível de agrobiodiversidade. O uso eficiente dos recursos naturais, econômicos e sociais – que vai além do uso eficiente de um único insumo – consiste justamente no emprego de uma ou mais dessas estratégias de diversificação dos sistemas e integração entre subsistemas. Há muito que aprender com os sistemas de produção intensiva de pequena escala, particularmente em termos do papel que a diversidade desempenha para torná-los mais produtivos, estáveis e eficientes (veja Quadro). Algumas dessas lições vêm de Cuba, onde a agricultura vem trilhando um caminho alternativo há quase duas décadas. Essa mudança de direção teve início em 1990, quando o aporte de subsídios cessou de forma abrupta. Além disso, uma grave crise energética criou as condições para o surgimento de um novo modelo de agricultura essencialmente fundamentado na agrobiodiversidade. Esse modelo emergente pode contribuir muito para o desenvolvimento de sistemas sustentáveis em todo o mundo.
O caminho rumo à diversidade A crise econômica iniciada em 1990 teve forte impacto sobre a agricultura cubana. Vários sistemas alternativos foram propostos de modo a contornar as dificuldades enfrentadas pelo setor. Entretanto, todas as alternativas apresentavam uma característica comum: a adoção de um esquema em que o uso intensivo de insumos industriais era substituído pelo uso de insumos orgânicos. Essas iniciativas incipientes
A conversão de um sistema especializado em um sistema misto deve seguir três princípios: diversificação (por meio da introdução de cultivos alimentares, espécies florestais e animais), integração (por meio da troca dinâmica e reciclagem de energia e nutrientes entre os componentes dos sistemas) e conquista da autossuficiência alimentar
também se mostraram frágeis, levando então a uma nova abordagem, baseada em sistemas existentes no México e em outros lugares: a conversão de sistemas especializados (monoculturas) em sistemas mistos, diversificados e de pequena escala. Os sistemas mistos agora são considerados um avanço rumo à implementação de práticas sustentáveis em Cuba. Eles visam maximizar a integração entre subsistemas, conservar a fertilidade dos solos e otimizar o uso da energia e dos recursos locais disponíveis. Em suma, os sistemas diversificados, que têm se mostrado altamente resilientes, abarcam três princípios básicos: (a) diversificação, por meio da introdução de cultivos alimentares, espécies florestais e animais; (b) integração, considerando a troca dinâmica e a reciclagem de energia e nutrientes entre os
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diferentes componentes de cada sistema; (c) autossuficiência, em termos da capacidade do sistema de suprir suas próprias necessidades sem depender de insumos externos. Um estudo realizado durante seis anos acompanhou a conversão de sistemas especializados em sistemas diversificados, atentando para as oportunidades de melhoria da produtividade e, ao mesmo tempo, para o objetivo de aumentar da sustentabilidade e a equidade. Ele se iniciou no Instituto de Pesquisa de Pastos e Plantas Forrageiras de Cuba, na região oeste de Havana, onde duas unidades de produção mistas, de um hectare cada, serviram de referência. Elas foram estabelecidas em uma propriedade de 15 hectares voltada à produção de leite, tendo 25% e 50% de suas áreas dedicadas a lavouras. O estudo utilizou diferentes indicadores para verificar diversos aspectos, tais como biodiversidade, produtividade, eficiência energética e desempenho financeiro. Embora todos os dados apresentassem resultados objetivos (o uso mais intensivo dos recursos disponíveis por meio de sistemas diversificados contribui para a autossuficiência alimentar e para a produção otimizada de produtos comerciais), queríamos nos certificar de que obteríamos resultados semelhantes em sistemas de produção geridos por famílias agricultoras. Para tanto, selecionamos 93 unidades, que variavam em tamanho, proporção da área destinada a lavouras e estágio de conversão para sistemas mistos. Essas propriedades estavam localizadas em cinco províncias diferentes, representando as principais zonas agroecológicas do país. Esse segundo estudo demonstrou que as propriedades mistas apresentam maior produtividade e são mais eficientes energeticamente e no manejo dos nutrientes do que aquelas especializadas em laticínios ou num único cultivo. Entretanto, foram identificadas diferenças entre elas, sobretudo em relação à porcentagem da área que cada uma destinou
ao cultivo de lavouras. As propriedades que conservavam a maior parte da terra com lavouras atingiram maior produtividade em termos de rendimento de leite por área. Elas também demandavam três vezes mais mão-de-obra, mas o custo energético geral de produção de proteína foi menor. Além disso, elas usam de forma mais eficiente a energia e empregam mais fertilizantes orgânicos. Esses resultados se devem, sobretudo, à introdução de lavouras em sistemas antes baseados em pastagens, o que foi uma precondição para os aumentos subsequentes da produção energética. Maiores proporções de terra dedicadas a cultivos comerciais também levaram a indicadores mais altos de agrobiodiversidade (como “diversificação da produção” ou “taxa de reflorestamento”). Nas condições de baixo uso de insumos externos e grande vulnerabilidade em que essas propriedades têm que operar, a alta diversidade contribui para reduzir os riscos e aumentar a produtividade. Tantos os recursos internos quanto os escassos recursos externos foram usados de forma mais eficiente nas propriedades mistas do que nas especializadas. As unidades diversificadas também fizeram um melhor uso de energia, diminuindo os custos energéticos para a produção de proteína. Esses resultados mostraram que, ao comparar sistemas diferentes, a questão não é apenas se há maior ou menor aporte de insumos, especialização ou diversificação. Também é importante avaliar como as características específicas de cada sistema agrícola, tais como a demanda de insumos e a agrobiodiversidade se interrelacionam e são manejadas – em particular, pelos próprios agricultores. Para decidir a proporção da área a ser dedicada a lavouras, por exemplo, os agricultores consideraram fatores como disponibilidade de terra, valor de mercado do gado e custo de alimentação animal, mas também levaram em conta as características do solo, a produtividade das áreas forrageiras e a disponibilidade de resíduos das lavouras. As dificuldades do mercado, a existência de contratos de venda com o governo, assim como outros fatores socioeconômicos, também são determinantes na decisão do grau de conversão de sistemas especializados em diversificados. Manejar sistemas com maiores níveis de agrobiodiversidade exige maior capacidade de planejar e de tomar decisões, o que gera empoderamento dos agricultores. Além disso, a melhor distribuição de alimentação e trabalho durante todo o ano contribuiu para aumentar o uso eficiente de recursos.
Lições de relevância global O uso otimizado de recursos tanto para a produção agrícola quanto para a criação animal contribui para a conquista da segurança alimentar, ao mesmo tempo em que favorece a produção de gêneros comerciais que elevam a renda familiar – sem degradar o meio ambiente.
Em apenas alguns anos, essas pequenas, complexas, heterogêneas e altamente diversificadas propriedades já estão se mostrando substancialmente mais produtivas e eficientes do que os sistemas especializados em lavoura ou em criação. Cerca de 65% da alimentação comercializada localmente vem das propriedades dos pequenos produtores cubanos que destinam metade da terra utilizável à agricultura.
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As várias formas e escalas de diversidade encontradas na agricultura familiar desempenham importante papel no sustento das comunidades rurais em diversas partes do mundo. Uma breve avaliação de diferentes sistemas tradicionais mostra como a agrobiodiversidade é inerente a eles e contribui de forma decisiva para a sua sustentabilidade. Esses sistemas diversificados garantem um uso mais eficiente dos recursos locais e diminuem a dependência de insumos externos, ao mesmo tempo em que conservam os recursos biológicos e reduzem os riscos econômicos e ambientais. A agrobiodiversidade também desempenha importante papel na preservação do saber local e do empoderamento dos agricultores, uma vez que sistemas agrícolas diversificados são intensivos em conhecimento e exigem tomadas de decisão complexas, dinâmicas e adaptativas. Por essa razão, esses sistemas precisam ser encarados de forma mais cuidadosa e aprofundada em função de seu potencial para prestar serviços de relevância global, como o sequestro de carbono, a conservação da biodiversidade ou, ainda, a preservação de nossa herança cultural. Sistemas agrícolas mistos deveriam, portanto, ser alvo prioritário de proteção e subsídios. Cumpre ainda ressaltar que os potenciais benefícios da integração agri cultura-criações não estão restritos à agricultura familiar de pequena escala. A experiência de conversão da agricultura cubana aponta para as oportunidades que a diversidade oferece no desenho de sistemas mais sustentáveis em escalas maiores. A posição ímpar assumida pela agricultura de Cuba, tanto no plano nacional quanto internacional, oferece lições altamente relevantes para o resto do mundo. A instabilidade dos preços do petróleo, das mudanças climáticas ou dos preços dos alimentos nos mercados internacionais, bem como a consciência nacional acerca da necessidade de substituir a importação de alimentos pela produção local, abre um amplo espectro de possibilidades para a disseminação de sistemas alternativos em escala nacional. Diversificação, descentralização e o movimento pela conquista da autossuficiência alimentar é a resposta cubana ao atual contexto local e global, que ameaça a agricultura e a segurança alimentar em todo o mundo.
Lições que vêm de fora Como em muitos países, as políticas e programas de desenvolvimento do México têm estimulado a simplificação de sistemas agrícolas. Entretanto, sistemas diversificados ainda são muito comuns, contribuindo para o sustento da população rural e para a produção total de alimentos do país. No altiplano de Michoacán, por exemplo, o povo purépecha tem se dedicado a esquemas diversificados agrossilvipastoris por milhares de anos. Cada propriedade mantém um rebanho diversificado, com cavalos, galinhas e gado de corte e leiteiro. As criações são alimentadas em parte com resíduos das lavouras, enquanto o esterco é aproveitado nas áreas de cultivo para restaurar os nutrientes e a matéria orgânica do solo. O subsistema de lavoura normalmente é dividido em dois campos, cada um com cerca de três a quatro hectares, com períodos alternados de pousio. No campo de pousio, o gado se alimenta dos restolhos de milho após a colheita durante a estação seca, enquanto no campo cultivado é plantada uma mistura de variedades de milho, feijão e curcubitáceas, seguindo um padrão de consórcio conhecido como milpa. Quando avaliados, esses sistemas tradicionais apresentam muitas vantagens, especialmente quando comparados aos sistemas simplificados. Eles exigem poucos insumos externos, sendo ocasionalmente necessário um pouco de fertilizante ou mão-de-obra extra para tarefas específicas, como a colheita do milho. Ainda que a produção de milho, leite, carne e madeira seja um pouco menor do que em propriedades rurais especializadas, os recursos como terra, mão-de-obra e insumos são usados de forma mais eficiente. Os ciclos de nutrientes também são mais eficazes, permitindo sua captura e assimilação pelos diferentes componentes do sistema e em diferentes formas. Além disso, um sistema diversificado oferece à família muitos produtos para consumo ou comercialização, assegurando autossuficiência alimentar e geração estável e segura de renda no longo prazo.
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Fernando R. Funes-Monzote Estação Experimental de Pastos e Forragens Indio Hatuey, Universidade de Matanzas, Cuba mgahonam@enet.cu Santiago López-Ridaura Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica (Inra), França ridaura@supagro.inra.fr Pablo Tittonell Centro de Cooperação Internacional em Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (Cirad), França ptittonell@gmail.com
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