Revendo o conceito de fertilidade: conversão ecológica do sistema de manejo dos solos na região do Contestado Paulo Petersen e Edinei de Almeida Sabemos mais sobre o movimento dos corpos celestes do que sobre o solo sob os nossos pés. Leonardo da Vinci
iferentes sociedades no passado foram capazes de desenvolver sistemas de uso e manejo dos solos agrícolas que as sustentaram por várias e várias gerações mesmo sem possuírem conhecimentos sobre os complexos ciclos naturais que atuam na manutenção da fertilidade dos ecossistemas. Só mais recentemente é que a ecologia dos solos vem despontando como importante ramo das ciências agrárias, abrindo aos poucos a “tampa da caixa preta” representada pelas complexas interações solo-planta. Com isso, passamos a entender melhor como os organismos do solo atuam na sua estruturação e contribuem na ciclagem dos nutrientes, assim como descobrimos que as relações de simbiose entre plantas e microrganismos na natureza é uma regra e não uma exceção (Anderson, 2006).
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Agriculturas - v. 5 - no 3 - setembro de 2008
À medida que a fronteira dos conhecimentos nesse campo avança, permitindo que os fundamentos ecológicos de práticas tradicionais de cultivo sejam melhor compreendidos, tornam-se mais evidentes as limitações do enfoque reducionista que domina as ciências do solo, em particular os estudos sobre fertilidade (de Jesus, 1996). Ao privilegiar as propriedades químicas dos solos em detrimento de um enfoque mais abrangente que contemple os fenômenos físico-químico-biológicos, o conceito de fertilidade largamente aceito orientou o desenvolvimento dos métodos de fertilização baseados nos adubos sintéticos. Segundo essa concepção, a fertilidade estaria diretamente relacionada às quantidades totais de nutrientes disponíveis para as plantas e, sendo assim, o solo agrícola funcionaria de forma análoga a uma conta bancária em que os nutrientes devem ser sistematicamente depositados para que a fertilidade seja mantida, apesar das seguidas retiradas por ocasião das colheitas. Essa forma de compreender a fertilidade não corresponde aos fenômenos naturais observados por camponeses no mundo inteiro e que desde sempre foram fontes de inspiração para o aprimoramento contínuo dos métodos de manejo dos solos com base na experimentação local. Mas foi exatamente essa forma de conceber a fertilidade que orientou o desenvolvimento da ciência agrícola, em que pese o fato de sua limitação ter sido apontada já no final do século XIX pelo pai da química agrícola, o cientista alemão Justus von