No inverno a gente planta, no verão a gente cria Adriana Galvão Freire , Luciano Silveira , Marilene Nascimento Melo e Francisco Nogueira
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A agricultura camponesa vive numa permanente busca de equilíbrio entre a produção vegetal e os criatórios com o objetivo de atender às necessidades alimentares e econômicas das famílias sem que para isso dependam do emprego intensivo de insumos externos. Esse objetivo é alcançado por meio do ajuste entre a capacidade de suporte do meio natural e o tamanho dos roçados, dos pastos e dos rebanhos. Em geral, a área que um animal pode lavrar com arado é menor que aquela necessária para o pastoreio (Boserup, 1987). Isso implica a necessidade de destinar áreas extensas para o pastoreio em detrimento das áreas dedicadas aos cultivos. Para lidar com essa contingência, fazendo frente ao crescimento das populações em di-
Foto: Adriana Galvão
construção de relações mutualistas entre a produção vegetal e a produção animal está na base do desenvolvimento de sistemas agrícolas desde os tempos mais remotos (Mazoyer, 1998). Além de proverem variados produtos de alta qualidade biológica para consumo humano, os animais geram serviços e insumos essenciais para a reprodução técnica dos sistemas agrícolas, que por sua vez fornecem parcela importante das demandas alimentares dos animais.
Produção intensiva de forragens em sistema agroflorestal
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Estrume acumulado no curral para uso nos roçados
ferentes regiões do mundo, foi necessário o desenvolvimento de técnicas de intensificação da produção forrageira, tais como as capineiras, as ensilagens e as fenações, que permitiram o aumento da carga animal em bases sustentáveis. No semiárido brasileiro, a realidade não é muito diferente, embora não tenha sido sempre assim. Numa região em que o padrão de ocupação fundiário e técnico fundamentou-se na grande fazenda pecuarista de bases extensivas, as unidades de produção familiar surgiram e se desenvolveram à margem e em subordinação econômica e política ao latifúndio, o que coibiu a criação de estratégias próprias para a intensificação da produção forrageira. Além disso, até algumas décadas passadas essa necessidade não se apresentava por duas razões principais: a existência de grande potencial forrageiro de espécies da vegetação natural e a disponibilidade de extensas áreas de pasto para uso pela agricultura familiar, que tinha a permissão para colocar seus animais nas grandes fazendas.
da região, no início da década de 1990. Como ponto de partida para orientar a sua ação, a entidade realizou uma série de diagnósticos participativos para entender as lógicas que regem a estruturação e o funcionamento dos agroecossistemas. Esses exercícios, realizados em conjunto com sindicatos de trabalhadores rurais da região, identificaram as principais vulnerabilidades dos sistemas pecuários e orientaram a dinâmica de inovação conduzida por uma rede de agricultores-experimentadores, que é atualmente articulada pela Comissão Regional de Criação Animal do Pólo Sindical da Borborema, um fórum que congrega sindicatos de trabalhadores rurais, associações e pastorais de 15 municípios do Agreste da Paraíba. Este artigo descreve a trajetória percorrida pela família de Luiz Souza e Eliete, lideranças importantes nessa rede de inovação.
O ponto de partida nos anos 1970
Em algumas regiões do semiárido, esse cenário modificou-se drasticamente com a proibição do uso dos pastos naturais das fazendas e com a diminuição das áreas das propriedades familiares por conta das divisões por herança. Esse foi o caso do Curimataú paraibano, onde a limitação dos espaços para os roçados e das disponibilidades forrageiras alimentaram um círculo vicioso de degradação dos recursos naturais pelo uso intensivo do solo com a agricultura nos meses de chuva (inverno) e pela forte pressão de pastejo nos meses de seca (verão). Em consequência, os solos se enfraqueceram, acarretando quedas contínuas na produtividade e na estabilidade dos sistemas agrícolas e dos criatórios.
Quando o casal assumiu a gestão da propriedade, no final dos anos 1970, a terra se encontrava em processo de degradação pela exploração intensiva da agricultura, com o cultivo de milho, feijão, algodão e agave (Agave sisalana), e pela criação de gado. O acesso aos recursos forrageiros também se tornava cada vez mais difícil à medida que as grandes propriedades da região eram cercadas.
Foi diante desse contexto que a AS-PTA começou seu trabalho de assessoria a organizações da agricultura familiar
Após a colheita do roçado, os ramos e as cascas dos feijões e da fava, bem como a palha e o sabugo das espigas
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A família de Luiz Souza e Eliete possui atualmente 35 hectares de terras descontínuas, localizadas no Sítio Salgado de Souza, município de Solânea. Apenas dois de seus cinco filhos ainda residem e trabalham na propriedade.
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de milho eram recolhidos e armazenados em uma antiga casa adaptada para servir de depósito. Em seguida, os animais eram soltos nas áreas dos roçados para aproveitar a palhada residual. Outra prática comum nessa época era o desmate da vegetação nativa para a venda de lenha, para a produção de carvão ou simplesmente para a expansão das áreas de cultivo. Segundo Eliete, “Quando precisava, a gente fazia uma coivara e colocava fogo. A gente ficava satisfeita em plantar quando o roçado estava todo limpo.” O esterco produzido e acumulado era frequentemente vendido. Para o controle dos insetos-pragas, empregavam agrotóxicos recomendados pelas instituições oficiais de Assistência Técnica e Extensão Rural. O período seco de 1990-93 evidenciou para a família a fragilidade do sistema. Os estoques de alimentos, de sementes, de água e de forragem acumulados nos anos anteriores praticamente zeraram. Além disso, para manter ao menos uma parte do rebanho, a família lançou mão dos remanescentes de vegetação nativa existentes na propriedade e próximos a ela.1 Para dar água aos animais, era necessário deslocá-los de cinco a seis quilômetros até um açude mais próximo. Diante desse quadro, a família se viu obrigada a reduzir drasticamente o tamanho do criatório, conservando apenas poucos animaissemente para permitir a recomposição dos rebanhos quando os períodos de chuva se normalizassem.
A trajetória da transição Luiz e Eliete se integraram ativamente nas atividades de formação promovidas na região desde o início da parceria entre o STR de Solânea e a AS-PTA. Participaram dos sucessivos diagnósticos, dos intercâmbios para conhecer novas experiências, de oficinas e seminários sobre os princípios da Agroecologia. O envolvimento do casal nessas atividades foi determinante para que a família se inserisse ativamente na rede de inovação agroecológica. Cada visita de intercâmbio significou uma oportunidade de adquirir novos conhecimentos e inspirar novas experimentações. Para interromper o círculo vicioso de degradação, a família implementou uma estratégia orientada para o aumento da produção e do estoque de biomassa no sistema, bem como para a intensificação das transferências de biomassa entre os subsistemas. Essa estratégia viabilizou-se com o aumento da biodiversidade; com a ampliação da capacidade de armazenamento de forragens, de água e de sementes; e com o emprego nos roçados de todo o esterco produzido na propriedade. 1 Entre as plantas da vegetação nativa, constavam as cactáceas, como mandacaru ou cardeiro (Cereus sp), facheiro (Pilosocereus pachycladus) e xique-xique (Pilosocereus gounellei), e as bromeliáceas, como agave (Agave sisalana) e macambira (Bromelia laciniosa L.).
Importância da máquina forrageira para o máximo aproveitamento da produção de capineiras
Uma transformação radical no sistema produtivo se verificou com a conjugação das inovações introduzidas nos últimos 16 anos (ver Figura 1). Entre as modificações mais expressivas, destacam-se: a) Na produção vegetal: intensificação de plantios consorciados, com a introdução de novas espécies em oito áreas de roçado; construção de três barragens subterrâneas, permitindo o prolongamento do período de produção vegetal e contribuindo para a diversificação de cultivos, com o plantio de hortaliças, frutas, legumes, além de várias espécies forrageiras; estruturação de um sistema mandala2 no quintal da casa, permitindo a intensificação da produção de hortaliças, plantas medicinais e frutas. b) Na produção animal: manejo regenerativo da pastagem nativa por meio da subdivisão dos pastos e da rotação nas áreas de pastejo; estabelecimento de capineiras (cultivos de capim-elefante, sorgo e capim-gramão) nas barragens subterrâneas, permitindo o incremento da Mandala é um sistema de produção irrigado no qual os canteiros da horta são dispostos em círculos em torno de um depósito de água.
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Para otimizar o aproveitamento da biomassa com potencial forrageiro produzida na propriedade, a família adotou as seguintes práticas: armazenamento de todos os restos de cultivo dos roçados em depósitos; fenação de plantas nativas que vegetam espontaneamente nos campos de palma, bem como do capim-gramão plantado nas barragens subterrâneas; ensilagem de toda a biomassa verde em silos-trincheira e de superfície. A aquisição de uma máquina forrageira com o apoio de um fundo de crédito rotativo solidário implantado pelo sindicato foi determinante para que essas práticas de armazenamento de forragens fossem viabilizadas. O aumento global da produção forrageira e da variedade na oferta alimentar para os animais permitiu significativa ampliação e diversificação do criatório, que atualmente conta com 12 bovinos, 25 ovinos, 15 caprinos, três equinos, 40 ga-
Foto: Adriana Galvão
produtividade e estendendo o ciclo de produção forrageira durante o período de estiagem; preenchimento de todas as divisas entre os subsistemas com cercas-vivas compostas por espécies nativas e exóticas de valor forrageiro; manejo conservacionista das plantas nativas forrageiras, sobretudo das cactáceas e bromeliáceas, com cortes que permitam o rebrote e a reprodução dessas plantas; implementação de um campo de gliricídia como banco de proteína; reserva e enriquecimento de uma área de capoeira no serrote da propriedade; constituição de uma mata nativa enriquecida com espécies nativas e exóticas; reconstituição das reservas estratégicas de forragens, para os períodos de estiagem prolongada, por meio da implementação de três campos de palma consorciados com plantas nativas e exóticas; cultivo de espécies forrageiras associadas aos roçados, dentre as quais a abóbora forrageira (Citrulus lunatus), o sorgo, a gliricídia e o guandu.
Preparo da terra para o plantio com auxílio da tração animal
linhas, 20 guinés, cinco porcos e cinco colméias de abelhas (Apis mellifera).
O retrato de um ano agrícola Em 2008, o inverno não falhou.Veio em 19 de março, dia de São José. A chegada das primeiras chuvas sinaliza para a família o momento em que deve se desfazer de parte de seus rebanhos de pequenos animais. Nesse ano, venderam cerca de 50% do plantel de cabras e ovelhas. Os animais vendidos são aqueles que estão mais criados, ficando apenas as fêmeas enxertadas e paridas com seus filhotes. A família procura concentrar as parições no final do inverno e, dessa forma, consegue manter um rebanho numeroso no verão, mas com baixa carga animal.
Figura 1. Evoluções incorporadas ao longo de 30 anos na propriedade da família de Luiz Souza e Eliete
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Os bois de trabalho levam o estrume do curral para os campos que serão cortados, preparados e riscados, também com a ajuda dos animais. A família está sempre criando e amansando de três a quatro bois, de acordo com a disponibilidade da mão-de-obra na propriedade e o tamanho dos campos de roçado. Há mais de dez anos o estrume é armazenado no próprio curral. Em 2008, foram distribuídos quatro caminhões de esterco (aproximadamente 64 toneladas) nos oito roçados que, ao todo, perfazem 10 hectares. Grande diversidade de espécies é plantada nesses roçados, entre as quais: feijões (macassa, fava, mulatinho e carioca), milho, jerimum, batata doce, guandu, gliricídia e sorgo. Além do consorciamento, sempre adotam-se as rotações de cultura para que a terra não se enfraqueça. Após o plantio, o boi de trabalho é empregado de 15 em 15 dias na limpa dos terrenos. Os 15 hectares dedicados à pastagem estão divididos em quatro piquetes.Três deles são destinados à criação de cabras e ovelhas. De dois em dois meses ocorre um rodízio entre os piquetes para que se permita a regeneração da forragem nativa e a manutenção do banco de sementes no solo das espécies herbáceas espontâneas. O rebanho bovino passa o inverno em um único piquete e é recolhido ao final do dia, quando recebe sal mineral, que também é produzido na pro-
priedade. Em algumas ocasiões, a família recorre ao aluguel de áreas externas para o pastejo do seu gado.
Todo processo de ensilamento deve ocorrer no curto período de transição entre o inverno e o verão. A mão-de-obra é toda mobilizada para a colheita e a estocagem de forragem, seja dos grãos ou da biomassa verde própria para ensilagem. O trabalho familiar, que antes estava concentrado na agricultura, se desloca para as criações até o início das próximas chuvas. Em 2008, foram feitos quatro silos e armazenadas cerca de 35 toneladas de forragem. Três desses silos tinham a mesma composição e eram resultantes da mistura de todas as plantas forrageiras, cultivadas e nativas. Um deles, contudo, foi preparado especialmente para alimentar os cavalos, sendo composto somente pela palhada de milho.
INVERNO Março Oferta da silagem armazenada
VERÃO Julho
Janeiro
Preparo do solo Início das chuvas Venda de animais Limpa dos roçados Animais contidos nos cercados Colheita Armazenamento da palhada
Animais são soltos no roçado Animais passam mais tempo nos currais Oferta de palma forrageira
Oferta da silagem armazenada
Figura 2. Distribuição sazonal do trabalho da família em um ano climático normal
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Foto: Xirumba
Corte de capim produzido na barragem subterrânea em período de verão
lho e sorgo já colhidos para que se alimentem das palhadas residuais. Após a colheita do milho de todos os roçados, os cercados são abertos e os animais são soltos para pastar livremente. As áreas de roçados assumem, a partir desse momento, a função de campo de pastejo, sendo simultaneamente fertilizado pelos dejetos do rebanho.
Foto: Francisco Nogueira
Com o avanço do período de estiagem os animais consomem todos os restos de cultivo nos campos de roçado. A partir de novembro, começam a receber, nos currais, a forragem proveniente dos silos e as raquetes de palma. Com essa prática, diminui-se a pressão de pastejo sobre os campos de cultivo, ao mesmo tempo em que se aumenta a quantidade de esterco acumulado pelo incremento do tempo de estabulação.
Ensilagem: garantia de alimentação de qualidade para os animais no período seco do ano
Até final de setembro ou início de outubro os rebanhos são criados nos cercados. Só aqueles animais que precisam ser engordados mais rapidamente são soltos nas áreas de mi-
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as cabras são soltas na capoeira da área do serrote e lá permanecerão até o início do próximo inverno, quando novamente serão recolhidas aos cercados. Ao longo do ano, as criações de porcos e galinhas aumentarão e diminuirão (ou mesmo deixarão de existir) em função da disponibilidade de alimentos. Os porcos são alimentados com os restos de cultivo de milho, mato, maxixe, abóbora, jerimum e palma. Mal sobram os restos da casa, que são destinados preferencialmente para os cinco cachorros da família. As aves são criadas soltas no terreiro, mesmo durante o inverno. As galinhas ajudam a controlar os insetos, reviram a terra e assim melhoram sua qualidade.
Um inverno de fartura garante provisão de alimentos para um rebanho numeroso no verão. Como forma de valorizar os recursos forrageiros armazenados nesses anos e a mão-de-obra familiar disponível no verão, a família recorre à estratégia de recria, ou seja, adquire garrotes, bacorinhos, cordeiros e até pintos para a engorda.
12.100,00 11.326,00 8.968,00
2.033,00 5.166,00 1.089,00 Família Souza (sistema diversificado)
Custos com insumos externos
Como forma de lazer, os filhos passaram a criar cavalos. O que começou como brincadeira passou a ser um componente importante da renda. O filho mais velho é o responsável pelo cuidado, pelo plantio e estocagem de forragem para os cavalos.
Um sistema eficiente e mais sustentável O sistema desenvolvido pela família ao longo dos 32 anos de ocupação da área, metade dos quais ativamente envolvida em processos de inovação agroecológica, caracteriza-se pela grande diversidade de criação e de cultivos agrícolas e pela forte integração entre os espaços de produção. “A criação é a poupança do pequeno agricultor, porque se o agricultor não cria, ele não tem possibilidades de ir em frente, porque é dos animais dele, da pequena criação, da galinha até chegar a outros animais maiores, que ele tira a manutenção para cuidar da agricultura.” (Luiz Souza). A análise da economia do sistema evidencia que a integração entre a agricultura e a criação é a chave para os bons resultados alcançados pela família, com a pecuária subsidiando a agricultura no inverno e a agricultura subsidiando a pecuária no verão. A demanda por insumos externos é muito baixa, já que praticamente todas as necessidades de reprodução do sistema são supridas localmente. Com uma renda monetária bruta no ano de R$ 12.100,00 e com custos produtivos de R$ 774,00, a rentabilidade do sistema foi de 14,6. Ou seja: para cada real investido na compra de insumos, a família recuperou R$ 14,60, se apropriando da maior parte da riqueza gerada pelo seu trabalho. Além disso, o sistema foi capaz de prover alimentação para a família no valor equivalente a R$ 5.166,00, o que leva a uma renda total gerada no sistema (monetária e não monetária) de R$ 17.266,00 e a uma rentabilidade de 21,7.
Família caprinocultor (sistema especializado)
Receita líquida Autoconsumo alimentar
Gráfico 1 – Resultados econômicos da família Souza e da família de caprinocultor especializado
A complexidade do sistema é incrementada pelo aumento da biodiversidade, do volume global de biomassa produzida e pelos fluxos de transferência dessa biomassa entre os subsistemas. É essa complexidade que confere maior capacidade de autorregulação do conjunto do sistema, com isso aumentando sua resistência e resiliência frente às irregularidades do clima. Esse aspecto fica claro no depoimento de Luiz sobre a estiagem prolongada vivenciada no biênio 2005-2006: “Os vizinhos acabaram com a palma chegando até a colocar os animais no campo de palma. Trouxeram forragem até do brejo3, mas só que lá também estava faltando. Para mim foi suficiente. Até sobrou palma.” Para realçar o significado dos bons resultados da família Souza, lideranças do Pólo da Borborema e do Coletivo do Cariri, assessoradas pela AS-PTA e pelo Programa de Aplicação de Tecnologia Apropriada às Comunidades (Patac), levantaram dados de um sistema de outra família, que optou pela intensificação produtiva pela via da especialização com cabras leiteiras e com o emprego de tecnologias comerciais. 3 Brejos são regiões de altitudes elevadas e expostas a ventos mais úmidos, caracterizando um microclima com maior umidade e pluviometria mais elevada.
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Foto: Xirumba
Alimentação na calha no período de verão
O Gráfico 1 apresenta a comparação entre os desempenhos econômicos dos dois sistemas. A análise dos dados apresentados não deixa dúvidas quanto à fragilidade a que a família produtora de caprinos em sistema convencional foi conduzida ao se deixar influenciar por programas oficiais voltados à modernização técnica e à inserção em mercados específicos. Embora a renda monetária bruta gerada no sistema seja significativa (R$ 8.968,00), a rentabilidade foi muito pequena. Para cada real investido no custeio da produção, a família recuperou apenas vinte e nove centavos. Ou seja: 71% da renda monetária gerada pelo trabalho familiar não é apropriada pela própria família, mas por agentes do agronegócio (empresas de insumos e de serviços). Além de obter resultados financeiros muito inferiores, o sistema não é capaz de assegurar uma provisão satisfatória de alimentos para o autoconsumo (cinco vezes menos que o sistema dos Souza), sendo a família obrigada a recorrer aos mercados para adquirir parte significativa de sua alimentação.
A comparação entre sistemas contrastantes, como os aqui apresentados, explicitam que qualquer solução viável para a agricultura familiar no semiárido passa necessariamente pela busca da integração entre a produção vegetal e a produção animal. É explorando a complementaridade entre essas atividades, plantando no inverno e criando no verão, que muitas famílias como a de Luiz e Eliete vêm Agriculturas • v. 6 - n. 2 • julho de 2009
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encontrando os caminhos para a convivência com o semiárido em condições dignas. Adriana Galvão Freire assessora técnica da AS-PTA adriana@aspta.org.br Luciano Silveira coordenador do Programa de Desenvolvimento Local do Agreste da Paraíba luciano@aspta.org.br Marilene Nascimento Melo assessora de projetos para o Nordeste da Heifer Programa Brasil-Argentina mari.nmelo@uol.com.br Francisco Nogueira professor substituto da Universidade Federal de Campina Grande chico.nogueira@uol.com.br
Referências bibliográficas: BOSERUP, E. Evolução agrária e pressão demográfica. Tradução de Oriowaldo Queda e João Carlos Duarte. São Paulo: HUCITEC, 1987. 141p. MAZOYER, M. & ROUDART, L. História das agriculturas do mundo. Tradução de José Luiz Godinho. Instituto Piaget, 1998. 520 p.