KÉRAMICA revista da indústria cerâmica portuguesa
Publicação Bimestral €8.00
nº403
Edição Julho/Agosto . 2026
TRANSFORMAR COMPETÊNCIAS, CONSTRUIR O FUTURO
Index
Editorial . 01 Destaque . 03 03 Qualificar para Competir: preparar os recursos humanos para a Indústria do Futuro 06 O futuro da Cerâmica Constrói-se hoje
Opinião . 10 10 Indústria 5.0: transformar conhecimento, dados e talento em produtividade sustentável 14 Transformar competências, construir o futuro
Empresas . 18 Transformar competências, construir o futuro
Entrevista . 21 21 Costa Verde nova empresa associada da APICER 25 Cerisol: conhecer um dos novos associados da APICER
Formação . 29 29 Capacitar pessoas, valorizar setores 32 Formar para Capacitar 38 Capacitar é também reconhecer 40 Laboratórios e Capacitação
Propriedade e Edição APICER - Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria NIF: 503904023 Direção, Administração, Redação, Publicidade e Edição Rua Coronel Veiga Simão, Edifício Lufapo Hub A - nº 40, 1º Piso 3025-307 Coimbra +351 239 497 600 [f info@apicer.pt • www.apicer.pt
Assuntos Europeus . 42 Como são atribuídos os auxílios de estado às diferentes indústrias
Energia . 46 CELE explicado: o que vai mudar? Proposta da Comissão Europeia e perspetivas da indústria cerâmica
Economia . 50 50 Evolução da produção na construção na área do Euroconstruct 52 Exportações mundiais de cerâmica em 2025
Recursos Humanos . 55 Os Recursos Humanos na Indústria Cerâmica
Secção Jurídica . 57 A proposta de transposição (parcial) da Directiva da Transparência Salarial em Portugal
Nota de Pesar . 59 António Veiga Simão: uma figura próxima do desenvolvimento regional e da indústria cerâmica
Notícias & Informações . 61 Calendário de Eventos . 64
Colaboradores Albertina de Miranda Sequeira, Ana Elisa Costa Santos, António Oliveira, Carla Ferreira, Cristiana Costa Claro, Domingos Lopes, Filipa Pereira Silva, Giacomo Garzotti, Hélder Guerreiro, Helena Ferreira, Jorge Vieira, Magdalena Bień, Maria Manuela Baroso, Mariana Bem-Haja, Miguel Sindão das Neves, Nuno Gonçalves, Óscar Afonso, Paulo Peças, Teresa Ribeiro Bento, Vera Fortes. Paginação Nuno Ruano
Diretor Jorge Costa de Jesus Vieira
Impressão Gráfica Almondina - Progresso e Vida; Empresa Tipográfica e Jornalística, Lda Rua da Gráfica Almondina, Zona Industrial de Torres Novas 2350-483 Torres Novas 249 830 130 geral@grafica-almondina.com www.grafica-almondina.com
Editor e Coordenação Albertina Sequeira keramica@apicer.pt
Distribuição Gratuita aos associados e assinatura anual (6 números); Portugal €43,00 (IVA incluído); União Europeia €60,00; Resto da Europa €75,00; Fora da Europa €90,00
Conselho Editorial Albertina Sequeira, António Oliveira, Cristiana Costa Claro, Martim Chichorro e Teresa Ribeiro Bento
Versão On-line https://issuu.com/apicer-ceramicsportugal
Tiragem 500 exemplares
Capa Nuno Ruano
Notas Proibida a reprodução total ou parcial de textos sem citar a fonte. Os artigos assinados veiculam as posições dos seus autores. Esta edição vem acompanhada da Revista Técnica: #36 • Agosto/Setembro • 2026 • Bimestral.
Índice de Anunciantes CERTIF (Página 60) • ECP Green Summit 2026 (Contracaoa) • FLOENE (Verso Contracapa) • GOLDENERGY (Página 28) • GRUPO MOTA (Página 63) • INDUZIR (Página 2) • Conteúdos conforme o novo acordo ortográfico, salvo se os autores/colaboradores não o autorizarem.
Publicação Bimestral nº 403 . Ano LI . Julho . Agosto . 2026
Depósito legal nº 21079/88 . Publicação Periódica inscrita na ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] com o nº 122304 ISSN 0871 - 780X Estatuto Editorial disponível em http://www.apicer.pt/apicer/keramica.php
Julho . Agosto 2026
Editorial
A competitividade da indústria da cerâmica e da cristalaria num mercado cada vez mais global constrói-se, cada vez mais, na antecipação de mudanças, adaptação de processos e, sobretudo, preparação das pessoas para novos desafios. Num setor marcado por uma profunda transformação tecnológica e organizacional, falar de futuro é necessariamente falar de competências, conhecimento e qualificação. A Indústria 5.0 como evolução do conceito de Indústria 4.0 coloca as pessoas, e não apenas a tecnologia, no centro da transformação industrial. Enquanto a Indústria 4.0 se destacou pela digitalização, automação, inteligência artificial, Internet das Coisas e Análise de dados, a Indústria 5.0 procura combinar essas tecnologias com as capacidades humanas, promovendo uma indústria mais: Centrada nas pessoas — valoriza as competências, criatividade, experiência e bem-estar dos trabalhadores. Sustentável — procura reduzir o impacto ambiental, o consumo de recursos e o desperdício. Resiliente — aumenta a capacidade das empresas para resistirem e se adaptarem a crises, ruturas de fornecimento e mudanças do mercado. Personalizada — permite maior flexibilidade na produção e uma resposta mais ajustada às necessidades dos clientes. Colaborativa — promove a cooperação entre pessoas e tecnologias, incluindo robôs colaborativos e sistemas inteligentes.
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A transição para a Indústria 5.0, está a transformar a forma como as empresas trabalham e como os profissionais desempenham as suas funções. Esta evolução abre novas possibilidades de inovação e eficiência, mas exige também uma capacidade permanente de aprendizagem e adaptação. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta desafios que não podem ser ignorados: a escassez de mão-de-obra, a dificuldade em atrair e reter talento e a necessidade de responder a perfis profissionais cada vez mais especializados. A resposta a estes desafios passa por valorizar os recursos humanos e reconhecer que a qualificação não é apenas uma necessidade decorrente da mudança — é uma das principais condições para a concretizar. Requalificar, atualizar conhecimentos e desenvolver novas competências são, por isso, investimentos estratégicos. Mais do que acompanhar a evolução tecnológica, importa garantir que as pessoas têm as ferramentas necessárias para tirar partido dela, reforçando a autonomia, a capacidade de inovação e a participação ativa nos processos de transformação das empresas. Nesta perspetiva, a formação profissional assume um papel central. É através de uma aposta consistente na capacitação que será possível aproximar as competências disponíveis das necessidades emergentes, criar novas oportunidades de desenvolvimento profissional e fortalecer a ligação entre empresas, trabalhadores e entidades de formação. Uma indústria preparada para o futuro será, necessariamente, uma indústria capaz de aprender continuamente. A transformação digital e tecnológica não deve, portanto, ser vista apenas como uma mudança de equipamentos, processos ou sistemas. É também uma transformação cultural, que coloca as pessoas no centro. A verdadeira competitividade resultará da capacidade de conjugar tecnologia e conhecimento, inovação e experiência, produtividade e valorização do trabalho. É este o propósito desta edição da Revista Kéramica: refletir sobre o papel das competências e da qualificação na construção de uma indústria mais preparada, resiliente e competitiva. Uma indústria capaz de responder às exigências do presente, mas também de antecipar as oportunidades do futuro. Porque transformar competências é mais do que acompanhar a mudança. É criar condições para liderá-la. E construir o futuro da cerâmica e da cristalaria passa, inevitavelmente, por investir nas pessoas que lhe dão forma.
Jorge Vieira (Presidente da Direção da APICER)
Editorial . Kéramica . p.1
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Destaque
QUALIFICAR PARA COMPETIR: PREPARAR OS RECURSOS HUMANOS PARA A INDÚSTRIA DO FUTURO
por Domingos Lopes, Presidente do Conselho Diretivo do IEFP, I.P
Introdução: a competitividade começa nas pessoas A indústria portuguesa enfrenta um dos períodos mais exigentes e, simultaneamente, mais promissores da sua história recente. A aceleração da digitalização, a automação de processos, a transição energética, a descarbonização da economia e a evolução tecnológica estão a transformar profundamente a forma como produzimos, trabalhamos e competimos nos mercados internacionais. Neste contexto, a competitividade das empresas deixou de depender exclusivamente da capacidade de investimento em equipamentos, infraestruturas ou tecnologia. O verdadeiro fator diferenciador reside cada vez mais nas pessoas: na sua capacidade de adaptação, aprendizagem e inovação. A denominada Indústria 4.0 – e, já hoje, as perspetivas associadas à Indústria 5.0 – exige trabalhadores mais qualificados, com competências técnicas avançadas, mas também com capacidades transversais que lhes permitam atuar em ambientes produtivos mais complexos, digitais e colaborativos. Perante esta realidade, a qualificação e a requalificação profissional assumem-se como prioridades estratégicas para o país.
Domingos Lopes
A escassez de talento: um desafio estrutural Entre os principais constrangimentos identificados pelas empresas industriais encontra-se a crescente dificuldade em recrutar trabalhadores com as competências adequadas. Este fenómeno resulta da conjugação de diversos fatores: o envelhecimento demográfico, a redução da população ativa, as alterações das expectativas profissionais das novas gerações e a rapidez com que surgem novas necessidades de competências associadas à evolução tecnológica.
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Destaque . Kéramica . p.3
2. Imagem ilustrativa de for mação tecnológica
Destaque
Setores tradicionais da indústria, incluindo a cerâmica, o vidro, a metalomecânica ou os materiais de construção, encontram-se atualmente num processo de modernização profunda, incorporando automação, inteligência artificial, robótica, análise de dados e soluções digitais avançadas. Esta transformação cria novas oportunidades de crescimento, mas exige simultaneamente uma resposta robusta ao nível das qualificações. A questão que hoje se coloca não é apenas a de saber se existem trabalhadores disponíveis. O desafio fundamental consiste em garantir que existem trabalhadores preparados para responder aos novos requisitos da produção industrial. Antecipar competências para responder ao futuro A velocidade da mudança tecnológica obriga a que os sistemas de educação, formação e emprego adotem uma abordagem cada vez mais prospetiva. Deixou de ser suficiente responder às necessidades atuais das empresas. É indispensável antecipar as competências que serão necessárias nos próximos anos. O IEFP tem vindo a reforçar a sua capacidade de monitorização do mercado de trabalho, desenvolvendo instrumentos de diagnóstico e de antecipação de necessidades de competências, em estreita articulação com parceiros sociais, associações empresariais, centros tecnológicos, instituições de ensino e entidades formadoras. Esta cooperação é essencial para assegurar que a oferta formativa acompanha a evolução dos perfis profissionais exigidos pelas empresas e contribui para reduzir os desajustamentos entre a procura e a oferta de qualificações. A proximidade ao tecido empresarial constitui, neste domínio, um fator crítico de sucesso.
p.4 . Kéramica . Destaque
Aprendizagem ao longo da vida: uma nova realidade Num mundo em que o conhecimento se atualiza a uma velocidade sem precedentes, a qualificação deixou de ser um processo circunscrito ao início da vida ativa. A aprendizagem ao longo da vida tornou-se uma necessidade permanente. Cada vez mais trabalhadores terão de atualizar competências, adquirir novos conhecimentos ou, em muitos casos, reconverter percursos profissionais ao longo das suas carreiras. Esta realidade exige modelos de formação mais flexíveis, mais personalizados e mais adaptados às necessidades concretas das empresas e dos trabalhadores. A formação modular certificada, os percursos de dupla certificação, os programas de reconversão profissional, a formação em contexto de trabalho e as soluções de formação à distância constituem instrumentos fundamentais para responder a este desafio. Importa igualmente valorizar as competências adquiridas ao longo da experiência profissional, promovendo mecanismos eficazes de reconhecimento, validação e certificação de competências, facilitando a progressão profissional e o acesso a novas oportunidades. O papel da transformação digital na formação A transformação digital não afeta apenas os processos produtivos. Está também a alterar profundamente a forma como ensinamos e aprendemos. Ferramentas de inteligência artificial, simuladores, realidade virtual, realidade aumentada e plataformas digitais de aprendizagem oferecem novas possibilidades para o desenvolvimento de competências técnicas e comportamentais. Estas tecnologias permitem criar experiências formativas mais imersivas, mais eficazes e mais próximas das condições reais de trabalho. No entanto, importa sublinhar que a tecnologia não substitui as pessoas. Pelo contrário, aumenta a necessidade de trabalhadores qualificados capazes de utilizar essas ferramentas de forma crítica, responsável e produtiva. A digitalização bem-sucedida depende sempre da existência de capital humano preparado para liderar e acompanhar a mudança. Uma transição justa e inclusiva Os processos de transformação tecnológica devem ser acompanhados por políticas que assegurem uma transição justa e inclusiva.
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1. Infografia sobre os pilares da indústria do futuro . Organizada em torno de cinco pilares: digitalização, qualificação, requalificação, inovação e inclusão. Esta representação permitiria sintetizar visualmente a ideia de que a transformação industrial só será bem-sucedida se combinar tecnologia, competências e coesão social.
Destaque
A evolução das tecnologias cria novas oportunidades, mas pode também gerar riscos de exclusão para trabalhadores cujas competências se tornem desajustadas face às novas exigências. Nesse sentido, torna-se fundamental investir na requalificação profissional como instrumento de empregabilidade, mobilidade e inclusão. A transição digital não pode deixar ninguém para trás. A construção de uma economia mais competitiva, mais sustentável e mais inovadora exige que todos os cidadãos tenham oportunidades efetivas de adquirir as competências necessárias para participar plenamente no mercado de trabalho. O compromisso do IEFP Ao longo dos últimos anos, o IEFP tem reforçado o seu papel como agente central da promoção da qualificação e do desenvolvimento de competências em Portugal. Em estreita cooperação com empresas, associações setoriais, centros tecnológicos e entidades formadoras, o Instituto tem vindo a desenvolver respostas cada vez mais alinhadas com as necessidades do tecido produtivo nacional. O objetivo é claro: disponibilizar às empresas os recursos humanos qualificados de que necessitam para crescer, inovar e competir, ao mesmo tempo que se criam me-
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lhores oportunidades de emprego e progressão profissional para os trabalhadores. Mais do que responder aos desafios do presente, importa preparar o futuro. Conclusão: investir nas pessoas para transformar a indústria A história mostra-nos que as grandes transformações económicas e tecnológicas são sempre acompanhadas por profundas mudanças nas competências exigidas aos trabalhadores. A atual revolução digital não constitui uma exceção. A capacidade de Portugal afirmar uma indústria mais inovadora, sustentável e competitiva dependerá, em larga medida, da sua capacidade de investir nas pessoas. Qualificar para competir significa reconhecer que o talento, o conhecimento e a aprendizagem contínua são hoje os principais motores do desenvolvimento económico. Preparar os recursos humanos para a indústria do futuro não é apenas uma necessidade das empresas. É um desígnio nacional que envolve políticas públicas, instituições de ensino e formação, parceiros sociais e o conjunto da sociedade. Porque, no final, a melhor tecnologia continua a ser aquela que potencia o valor das pessoas.
Destaque . Kéramica . p.5
Destaque
O FUTURO DA CERÂMICA CONSTRÓI-SE HOJE
por Nuno Gonçalves, vice-presidente do IAPMEI
A indústria cerâmica portuguesa transporta uma combinação singular de identidade, conhecimento técnico e capacidade exportadora. É uma indústria com raízes profundas no território, tirando partido de recursos naturais do nosso solo e sendo por isso uma tradição ancestral que faz parte do conceito de criatividade artística e portugalidade. Mas é ao mesmo tempo também uma indústria vibrante e altamente competitiva, espalhada por mais de 150 países, intensiva em tecnologia, design, engenharia, energia e qualificação.
Nesta dupla natureza reside a sua resiliência e, ao mesmo tempo, a dimensão do desafio que hoje enfrenta. Num contexto em que se cruzam a transição climática, a aceleração digital, a pressão sobre os custos, a reconfiguração das cadeias de valor e uma concorrência internacional exigente, inovar deixou de ser uma opção associada apenas aos ciclos de expansão. Tornou-se uma condição de continuidade industrial. Esta transformação não se resume à substituição de equipamentos, à introdução de uma nova fonte de energia ou à digitalização de uma etapa produtiva. O verdadeiro desafio está na capacidade de combinar várias mudanças em simultâneo, mantendo a qualidade do produto, a estabilidade do processo, a resposta ao cliente e a sustentabilidade económica do investimento. Na cerâmica, onde os ciclos de modernização industrial são longos e os ativos têm elevada intensidade de capital, cada decisão deve conciliar o presente da fábrica com o futuro do mercado. É por isso que a inovação deve ser entendida como uma capacidade transversal: tecnológica, organizacional, financeira e humana.
Nuno Gonçalves
No centro da mudança, sustentabilidade energética e circularidade A energia ocupa hoje inevitavelmente um lugar central, ainda mais no contexto de crises energéticas como a que agora atravessamos. Os processos térmicos são determinantes para a qualidade e para a diferenciação do produto, mas expõem as empresas à volatilidade
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Destaque
dos preços, à disponibilidade das redes e à necessidade de reduzir emissões. A competitividade depende, por isso, não apenas do custo imediato da energia, mas também da previsibilidade, da segurança de abastecimento e da possibilidade de aceder, em condições competitivas, a soluções de baixo carbono. Eficiência energética, eletrificação onde for tecnicamente adequada, incorporação de fontes renováveis, gases renováveis, armazenamento e novas soluções para o calor industrial devem ser avaliados como partes de uma trajetória coerente, e não como respostas desligadas entre si. Descarbonizar sem fragilizar a base industrial exige realismo tecnológico e ambição económica. Não existe uma solução única aplicável a todos os subsetores, produtos, temperaturas ou configurações fabris. Há tecnologias maduras que podem produzir ganhos imediatos; outras necessitam ainda de demonstração, escala, infraestruturas e redução de custos. Esta diversidade recomenda políticas capazes de apoiar diferentes graus de maturidade: desde diagnósticos e medidas de eficiência até projetos de investigação, demonstração industrial e investimento produtivo. Recomenda também que a redução de emissões seja acompanhada por ganhos de produtividade, por maior autonomia e por produtos com mais valor acrescentado. Uma transição que não preserve a capacidade de competir corre o risco de deslocar produção e emissões, em vez de as eliminar. O carbono passa, assim, a integrar cada vez mais a gestão industrial e a proposta de valor. Medir consumos e emissões com rigor, conhecer a pegada dos produtos, antecipar requisitos dos clientes e preparar informação verificável são novas dimensões da competitividade. A sustentabilidade deixa de ser apenas uma obrigação de reporte quando é incorporada nas decisões de processo, no desenvolvimento de produto, na seleção de matérias-primas, na logística e na relação com o mercado. Esse caminho tem custos de adaptação, particularmente relevantes para as PME, mas também cria oportunidades para diferenciar a cerâmica portuguesa pela qualidade, pela rastreabilidade, pelo design e pelo desempenho ambiental. A eficiência de recursos é outra frente decisiva. Reduzir perdas, valorizar subprodutos, aumentar a
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incorporação de materiais secundários e desenvolver soluções de simbiose industrial pode diminuir custos e dependências, enquanto melhora o perfil ambiental da produção. Na cerâmica, porém, a circularidade tem de respeitar requisitos exigentes de composição, segurança, estabilidade, estética e desempenho. A passagem do potencial laboratorial para a utilização industrial requer ensaio, normalização, controlo de qualidade e cooperação ao longo da cadeia de valor. É precisamente nesta fronteira entre conhecimento e aplicação que a articulação entre empresas, centros tecnológicos e entidades do sistema científico assume maior importância. Digitalização industrial e rastreabilidade de produto Também a transição digital deve ser lida a partir das necessidades concretas da indústria. Sensores, automação, visão computacional, modelos preditivos, inteligência artificial e integração de dados podem ajudar a estabilizar processos, reduzir defeitos, otimizar curvas de cozedura, antecipar manutenção e melhorar a utilização de energia e materiais. Mas o valor não reside na acumulação de ferramentas digitais. Resulta da qualidade dos dados, da integração entre sistemas, da capacidade de transformar informação em decisão e da preparação das pessoas que utilizam essas soluções. A digitalização industrial exige ainda atenção à cibersegurança, porque uma fábrica mais conectada é também uma fábrica com novas vulnerabilidades operacionais. A evolução para maior rastreabilidade e para informação estruturada sobre o produto reforça esta ligação entre digital e sustentabilidade. A capacidade de reunir dados fiáveis sobre origem, composição, desempenho, reparabilidade, reutilização ou pegada ambiental tenderá a ganhar peso no acesso a clientes e cadeias de fornecimento. Para as empresas, o desafio não é apenas cumprir um novo requisito. É construir sistemas de informação proporcionais, interoperáveis e úteis à gestão, evitando que o reporte se transforme numa carga administrativa sem retorno. A resposta mais eficaz será aquela que reutiliza os mesmos dados para melhorar o processo, demonstrar desempenho e comunicar valor ao mercado.
Destaque . Kéramica . p.7
Destaque
Empresas, ambição e preparação de futuro Nenhuma destas mudanças se concretiza sem competências. A inovação industrial depende de engenheiros e técnicos, mas também de gestores capazes de avaliar risco, equipas de produção preparadas para novos processos, profissionais de manutenção, especialistas em energia e dados e lideranças que promovam aprendizagem contínua. Num setor exposto ao envelhecimento de algumas qualificações e à concorrência por talento, atrair, formar e reter pessoas é parte da estratégia de investimento. A formação deve aproximar-se dos problemas reais da empresa e combinar conhecimento técnico com gestão da mudança. É neste domínio que a cooperação entre empresas, associações, centros de tecnologia e inovação e entidades formadoras pode multiplicar resultados. O papel do IAPMEI é contribuir para que esta ambição empresarial encontre instrumentos, conhecimento e condições de execução. No Portugal 2030, os sistemas de incentivos apoiam diferentes etapas do ciclo de inovação: investigação e desenvolvimento empresarial, colaboração com entidades científicas e tecnológicas, investimento produtivo inovador, qualificação, internacionalização e transição climática e digital.
p.8 . Kéramica . Destaque
No PRR, os apoios à descarbonização da indústria e as Agendas Mobilizadoras e Agendas Verdes reforçaram a capacidade de investimento e a cooperação em torno de desafios estruturais, com vista a alterar o perfil de especialização da indústria. Agenda Mobilizadora 76, uma nova forma de trabalhar inovação A Agenda EcoCerâmica e Cristalaria de Portugal (ECP), projeto n.º 76 das Agendas/Alianças Verdes para a Inovação Empresarial, traduz esta lógica de inovação colaborativa aplicada aos desafios concretos da indústria. Liderada pela Vista Alegre Atlantis, S.A., mobilizou uma despesa elegível de 118,2 milhões de euros e um incentivo de 53,2 milhões de euros. Organizada em oito áreas de trabalho e 40 Produtos, Processos e Serviços, permitiu articular empresas, centros tecnológicos, entidades do sistema científico e fornecedores em torno da descarbonização, da circularidade, da transformação digital e da qualificação. À data de 30 de junho de 2026, os 40 Produtos, Processos e Serviços encontravam-se concluídos e os objetivos previstos de investigação, desenvolvimento, demonstração e validação tinham sido alcançados, mantendo-se atividades de consolidação, formação,
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Destaque
dade coletiva que deixa instalada. A transformação do setor exige que os resultados sejam disseminados, adotados por mais empresas e convertidos em investimento produtivo. O IAPMEI continuará a acompanhar esta trajetória, promovendo a articulação entre instrumentos públicos, competências e necessidades industriais, para que a inovação colaborativa se traduza em competitividade sustentável e criação de valor. O futuro da cerâmica portuguesa requer investimento, competências, experimentação, escala e uma relação próxima entre política pública e realidade industrial. É esse compromisso que o IAPMEI assume: apoiar as empresas ao longo da transformação, aproximar instrumentos das necessidades concretas, promover a cooperação e contribuir para que o investimento gere resultados e impacto. A cerâmica portuguesa já demonstrou que sabe combinar tradição e modernidade, conhecimento acumulado e capacidade de renovação. O desafio da próxima etapa é fazer dessa combinação uma vantagem ainda mais sólida: produzir com menos recursos e emissões, decidir com mais informação, criar mais valor e competir melhor. Inovar para produzir — e produzir com futuro — é hoje uma responsabilidade partilhada entre empresas, instituições e Estado local e central.
disseminação e gestão. Entre os resultados mais relevantes contam-se soluções de queima híbrida com hidrogénio, eletrificação parcial e recuperação de calor; novas pastas e vidrados para temperaturas de cozedura mais baixas; reincorporação de resíduos e subprodutos; e plataformas de rastreabilidade, monitorização e apoio à decisão energética. A Agenda criou ainda ativos com vocação de continuidade, como o Ceramic LAB FACTORY, a Academia de Formação Digital e ferramentas associadas ao BIM e ao futuro Passaporte Digital do Produto. Os demonstradores já permitem identificar ganhos concretos em condições industriais ou próximas das industriais. Foram reportadas reduções de cerca de 16% das emissões de dióxido de carbono em ensaios com mistura de gás natural e hidrogénio e, no demonstrador de forno oxi-híbrido para cristalaria, reduções aproximadas de 43% nas emissões e de 26% no consumo energético. Na vertente da circularidade, a redução de matérias-primas virgens na produção de vidro ultrapassou 7 000 toneladas. Estes resultados não constituem ainda uma medição consolidada do impacto económico global, mas demonstram a capacidade de reduzir risco tecnológico, aproximar soluções do mercado e criar conhecimento transferível para o tecido empresarial. O valor estratégico da Agenda reside, por isso, tanto nas tecnologias desenvolvidas como na capaci-
Agenda EcoCerâmica e Cristalaria de Portugal INDICADOR
RESULTADO
REFERÊNCIA
Despesa elegível
118,2 M€
Projeto
Incentivo
53,2 M€
Projeto
Estrutura de execução
8 áreas de trabalho e 40 PPS
Agenda
PPS concluídos
40
Em 30.06.2026
Emissões de CO₂ — mistura GN/H₂
Redução de cerca de 16%
Ensaios industriais
Forno oxi-híbrido para cristalaria
Redução de cerca de 43% de CO₂ e 26% de energia
Matérias-primas virgens
Redução de 7 124 t
Produção de vidro
CO₂ evitado
Cerca de 1 202 t/ano
Medidas na cristalaria
Gás natural
Redução de cerca de 147.500 Nm³/ano
Recuperação de calor residual
Poupança estimada superior a 68 mil €/ano
Caso de estudo em Ílhavo
Capacitação
908,5 h; 72 formandos; 13 empresas; 4 cursos
Até junho de 2026
Demonstrador
Medidas na cristalaria
Fo n t e : A g e n d a E c o Ce r â m i c a e Cr i s t a l a r i a d e Po r t u g a l — D o s s i e r Té c n i c o d o s 4 0 PP S e Re l a t ó r i o d e P r o g r e s s o d e j u n h o d e 2 0 2 6 , s u b m e t i d o e m 1 5 d e j u l h o d e 2 0 2 6 . No t a metodológica: os indicadores refletem resultados reportados pelos beneficiários e demonstrados até junho de 2026; os efeitos agregados sobre vendas, exportações, valor acrescentado, produtividade, emprego e redução total de emissões encontram-se ainda em apuramento e sujeitos a validação final.
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Destaque . Kéramica . p.9
Opinião
INDÚSTRIA 5.0: TRANSFORMAR CONHECIMENTO, DADOS E TALENTO EM PRODUTIVIDADE SU ST E N TÁV E L
por Paulo Peças, Professor Associado com Agregação, Departamento de Engenharia Mecânica, Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa
1. Indústria 5.0: uma nova referência para a competitividade A Indústria 5.0 complementa a Indústria 4.0 ao orientar a digitalização para três resultados industriais: sistemas produtivos centrados nas pessoas, sustentáveis e resilientes. A Comissão Europeia consolidou esta visão em 2021 e voltou a desenvolvê-la no roteiro de investigação e inovação centrada nas pessoas para a indústria transformadora, publicado em 2024 (Breque et al., 2021; European Commission, 2024). Esta orientação enquadra a Transição Dupla – Digital e Ecológica. A componente digital aumenta a capacidade de recolher, relacionar e utilizar dados; a componente verde exige menor consumo de recursos, redução de emissões, circularidade e decisões suportadas por informação verificável. As duas transições avançam em conjunto: sem dados adequados, a sustentabilidade permanece difícil de medir e gerir; sem um propósito industrial claro, a digitalização pode acrescentar tecnologia sem alterar o desempenho (Peças et al, 2024, Peças, 2026a). Os desafios identificados para os sistemas de produção distribuem-se por quatro dimensões interligadas: planeta e sociedade, produtos e consumo, produção e pessoas (Peças, 2026). Na cerâmica e no vidro, estas dimensões convergem em processos térmicos intensivos, requisitos elevados de qualidade, pressão energética, incorporação de materiais secundários, flexibilidade da oferta e preservação do conhecimento técnico.
p.10 . Kéramica . Opinião
Foto Credit . Nuno Correia
A próxima vantagem competitiva da cerâmica e do vidro não será decidida apenas nos fornos, nas linhas ou nos laboratórios. Será determinada pela capacidade das pessoas para ligar conhecimento técnico, dados e sustentabilidade nos processos de decisão.
2. Pessoas: competências que ampliam o conhecimento industrial A produção centrada nas pessoas (human-centric manufacturing) começa pelo reconhecimento de que o conhecimento de materiais, equipamentos e processos continua a sustentar a decisão industrial. A tecnologia pode detetar padrões, organizar informação ou sugerir alternativas; cabe aos profissionais avaliar a coerência dos resultados com as condições reais de produção. As competências tornam-se híbridas, ou seja, um técnico ou gestor precisa de compreender o processo, interpretar dados, estruturar problemas, avaliar impactos ambientais, comunicar entre funções e trabalhar criticamente com sistemas de análise de dados massivos interligados com Inteligência Artificial (IA). Isto não significa transformar todos os profissionais em programadores. O World Economic Forum estima que 39% das competências utilizadas no trabalho mudarão até 2030 (World Economic Forum, 2025). A OCDE indica que menos de 1% dos trabalhadores necessitará de competências avançadas de desenvolvimento de IA, enquanto a maioria precisará de saber utilizar, analisar e interpretar dados, mantendo ca-
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Opinião
pacidades de resolução de problemas, criatividade e gestão (OECD, 2026). A requalificação deve acompanhar a evolução do trabalho. Na cerâmica e no vidro, isso envolve ligar conhecimento sobre formulações, comportamento térmico, defeitos, energia, manutenção e qualidade a novas formas de consultar informação e apoiar decisões. A aprendizagem contínua passa a fazer parte da infraestrutura produtiva. 3. Sustentabilidade: medir para decidir A sustentabilidade industrial já influencia o investimento, acesso a mercados, relações com clientes e organização das cadeias de abastecimento. Os European Sustainability Reporting Standards¹, a Taxonomia Europeia² e o enquadramento da Corporate Sustainability Reporting Directive³ reforçam a necessidade de informação rastreável sobre impactos, riscos e desempenho ambiental. Normas como a ISO 14001, a ISO 50001 e as ISO 14040 e 14044 fornecem referências para gestão ambiental, energia e avaliação do ciclo de vida. Estas exigências aproximam a sustentabilidade da operação diária. Energia, matérias-primas, água, emissões, refugo, qualidade e disponibilidade dos equipamentos não podem ser analisados como temas separados. Uma alteração de receita, carga, temperatura, sequência ou manutenção pode afetar simultaneamente custo, produtividade, qualidade e pegada ambiental. Para medir, controlar a melhorar estes desempenhos, é imprescindível a recolha automática de dados e possuir modelos de análise dinâmicos com capacidade para processar essa enorme quantidade de dados. Acresce que estes modelos ao permitirem decisões baseadas em dados, conduzem à transformação das metas ambientais e de sustentabilidade em variáveis de processo. Em particular, o Lean&Green 4.0 integra desempenho operacional e ambiental, relacionando tempos, recursos, energia, emissões, desperdício e qualidade numa mesma lógica de melhoria contínua (Peças et al., 2024), sendo cada vez mais comum a sua utilização. Na cerâmica e no vidro, esta ligação é particularmente relevante devido ao peso dos processos térmicos, do consumo energético, das matérias-primas e do refugo. Dados sobre ciclos de cozedura ou fusão, consumos, defeitos, formulações e manutenção permitem identificar perdas conjuntas de produtividade e de desempenho ambiental. A melhoria pode, assim, ser orientada para ações com efeitos mensuráveis nos custos, nas emissões e na estabilidade do processo.
4. Resiliência: transformar conhecimento em capacidade replicável A resiliência industrial traduz-se na capacidade de manter e adaptar a operação perante alterações de energia, matérias-primas, procura, fornecimento ou disponibilidade dos equipamentos. Requer flexibilidade de planeamento, alternativas técnicas, manutenção eficaz e acesso rápido ao conhecimento necessário para decidir (European Commission, 2024, Peças, 2026a). Uma parte desse conhecimento permanece tácita, concentrada em profissionais experientes. A saída de uma pessoa, uma mudança de turno ou uma situação pouco frequente pode expor essa dependência. Dados estruturados, históricos pesquisáveis e procedimentos claros permitem converter experiência acumulada em capacidade organizacional replicável. A IA analítica pode apoiar este processo ao identificar padrões, priorizar fatores associados a perdas e criar rotinas de controlo integradas em métodos de melhoria. Num caso industrial recente, as equipas de melhoria contínua utilizaram modelos avançados de análise de dados através da utilização de modelos conversacionais (sem necessitarem de dominarem a teoria de ciência de dados), aplicados a um projeto Lean Six Sigma (seguindo a metodologia DMAIC⁴). Esta equipa identificou causas-raiz de forma muito mais rápida e até relações causa-efeito que não eram expectáveis no início do projeto, mantendo a validação técnica e a rastreabilidade da decisão (Peças et al., 2026b). A IA generativa pode tornar procedimentos, relatórios, históricos e comunicações mais acessíveis através de linguagem natural. Num estudo de suporte à manutenção, agentes conversacionais reduziram o tempo de consulta de históricos em cerca de 50% e a preparação de comunicações recorrentes de 12 a15 para 2 a 3 minutos, com validação humana antes da utilização operacional (Peças et al., 2026c). O benefício ultrapassa a rapidez: registos mais estruturados e rotinas explícitas podem reduzir a dependência de memória individual e favorecer procedimentos robustos, auditáveis e repetíveis. 5. Dados e inteligência artificial com método A necessidade de medir sustentabilidade, reforçar resiliência e apoiar as pessoas conduz naturalmente a sistemas baseados em dados. A IA analítica trabalha sobretudo com dados estruturados para classificar ocorrências, detetar anomalias, estimar resultados ou ordenar causas prováveis. A IA generativa trabalha com texto, documen-
1.- http://data.europa.eu/eli/reg_del/2023/2772/oj 2.- http://data.europa.eu/eli/reg/2020/852/oj 3.- http://data.europa.eu/eli/dir/2022/2464/oj 4.- Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar
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tos, imagens e diálogo, apoiando consulta, síntese, comunicação e acesso a conhecimento. Como tem sublinhado Arlindo Oliveira, a análise de dados e a automação de processos são vias centrais para converter IA em produtividade (Oliveira, 2021). A tecnologia deve entrar no processo através de uma pergunta industrial concreta. Primeiro identifica-se o problema ou a decisão; depois mapeiam-se o fluxo atual, os dados e as responsabilidades; segue-se um teste delimitado, com critérios de aceitação e validação humana; por fim, medem-se os efeitos e integra-se a nova rotina. O Lean Six Sigma fornece a disciplina para executar esta sequência, evitando soluções desligadas do trabalho real (Peças et al., 2026b, 2026c). O objetivo consiste em criar processos mais eficientes e eficazes. A IA pode reduzir procura, transcrição e análise repetitiva, mas também deve melhorar consistência, rastreabilidade e capacidade de aprendizagem. A integração com Lean&Green 4.0 acrescenta a dimensão ambiental: cada solução deve ser avaliada pelo efeito no tempo, qualidade, recursos, energia, emissões e trabalho humano.
recomendação energética exige compreensão do forno, da carga e do produto; um assistente técnico precisa de fontes controladas e procedimentos validados. A centralidade nas pessoas concretiza-se precisamente nesta combinação. 7. Formação e ecossistemas de inovação Na formação desenvolvida pelo Instituto Superior Técnico⁷ e a empresa Erising⁸, no âmbito do PRODUTECH Digital Innovation Hub⁹, uma das aprendizagens mais claras foi a dificuldade inicial dos formandos, de empresas de serviços e industriais, reconhecerem os dados já disponíveis e as tarefas que podem beneficiar de IA. A utilização de abordagens Lean Six Sigma com IA permitiu que o foco estivesse na redução de desperdícios do processo, e as soluções de IA são desenvolvidas para as pessoas e pelas pessoas que as vão utilizar – a solução surge da melhoria do processo e não do potencial da tecnologia de IA.
5.- Roteiro para a Descarbonização do Setor da Cerâmica: https://ceramiclowco2.ctcv.pt/ 6.- Roteiro para a Descarbonização da Indústria do Vidro de Embalagem e Cristalaria: https://rodiv2050. ctcv.pt/
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Foto Credit . Nuno Correia
6. Oportunidades na cerâmica e no vidro Os três pilares da Indústria 5.0 convergem em aplicações concretas para a cerâmica e a cristalaria. Na qualidade, os dados de processo e visão computacional podem apoiar a deteção e classificação de defeitos; um sistema testado numa empresa portuguesa alcançou 98% de exatidão na classificação em tempo real (Cumbajin et al., 2024). Na energia, a análise conjunta de curvas térmicas, cargas, receitas, consumos e qualidade pode revelar condições de operação com melhor desempenho. Na manutenção, históricos estruturados e interfaces conversacionais podem apoiar diagnóstico, preparação de intervenções e transferência de conhecimento. A IA generativa pode ainda facilitar a consulta de fichas técnicas, instruções de trabalho, resultados laboratoriais e relatórios de ocorrências. A IA analítica pode relacionar matérias-primas, parâmetros térmicos, defeitos, consumo energético e produtividade. Os roteiros CeramicLowCO₂⁵ e RODIV2050⁶ identificam eficiência, descarbonização, circularidade e inovação tecnológica como áreas de transformação setorial. O valor destas aplicações depende da ligação entre tecnologia e conhecimento do setor. Uma classificação automática de defeitos exige critérios consistentes; uma 7.- Técnico Mais – Formação Avançado do IST 8.- Erising Kaizen-Lean 9.- https://dih.produtech.org/pt
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Também foi observado nessa formação que o primeiro contacto com IA generativa cria uma falsa sensação de simplicidade: obter uma resposta é fácil; avaliar a sua validade exige contexto, fontes e conhecimento técnico. A formação deve, por isso, combinar experimentação, método, validação e responsabilidade. Empresas, associações, centros tecnológicos, universidades e Digital Innovation Hubs podem acelerar esta aprendizagem através de casos demonstradores, formação aplicada e apoio à implementação. A proximidade destes atores constitui uma vantagem para Portugal, sobretudo num tecido industrial onde muitas empresas precisam de testar antes de investir. 8. Um caminho de ação A transformação pode começar pela identificação das competências e do conhecimento crítico existentes. Segue-se o mapeamento dos dados, recursos, decisões e dependências do processo. A empresa seleciona depois problemas com impacto operacional, ambiental ou humano, testa soluções delimitadas e mede os resultados. As aplicações que demonstram utilidade são incorporadas em procedimentos, responsabilidades e ciclos de formação. Este caminho liga os três pilares da Indústria 5.0: pessoas capazes de decidir e aprender; sustentabilidade suportada por dados; resiliência construída com conhecimento acessível e processos replicáveis. A indústria portuguesa dispõe de experiência técnica, flexibilidade e capacidade de adaptação. A oportunidade consiste em transformar esses ativos em produtividade, sustentabilidade e resiliência, enquanto os novos modelos industriais ainda estão a ser definidos. Referências Breque, M., De Nul, L., & Petridis, A. (2021). Industry 5.0: Towards a sustainable, human-centric and resilient European industry. Publications Office of the European Union. https://research-and-innovation.ec.europa.eu/knowledge-publications-tools-and-data/publications/all-publications/ industry-50-towards-sustainable-human-centricand-resilient-european-industry_en Cumbajin, E., Rodrigues, N., Costa, P., Miragaia, R., Frazão, L., Costa, N., & Pereira, A. (2024). A real-time automated defect detection system for ceramic pieces manufacturing process based on computer vision with deep learning. Sensors, 24(1), 232. https://doi.org/10.3390/s24010232
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European Commission. (2024). Industrial technologies roadmap on human-centric research and innovation for the manufacturing sector. Publications Office of the European Union. https://research-and-innovation.ec.europa.eu/knowledge-publications-tools-and-data/publications/ all-publications/industrial-technologies-roadmap-human-centric-research-and-innovation-manufacturing-sector_en OECD. (2026). AI and skills: What we know so far. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/ f843b352-en Oliveira, A. (2021, 5 de março). Inteligência artificial e aprendizagem automática: Tecnologias essenciais para o aumento da produtividade. Jornal Económico. https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/inteligencia-artificial-e-aprendizagem-automatica-tecnologias-essenciais-para-o-aumento-da-produtividade-708523/ Peças, P. (2026a). Industry 5.0 challenges for manufacturing systems: Evidence mapping and research agenda. Sustainability, 18(7), 3323. https://doi. org/10.3390/su18073323 Peças, P., Guerra, C., Jorge, D., & ElGabroni, A. Y. I. (2026b). Operationalising artificial intelligence in Lean Six Sigma: Interpretable machine learning for root-cause prioritisation. International Journal of Lean Six Sigma. https://doi.org/10.1108/ IJLSS-03-2026-0121 Peças, P., Lopes, J., Jorge, D., Sahu, A. K., Baptista, A. J., & Leite, M. (2024). Lean and green manufacturing operationalization through Multi-Layer Stream Mapping – Lean&Green 4.0. In M. Thürer, R. Riedel, G. von Cieminski, & D. Romero (Eds.), Advances in Production Management Systems (pp. 46–60). Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-03171629-4_4 Peças, P., Pires, D., & Jorge, D. (2026c). Improving efficiency and effectiveness in industrial support business processes through low-code conversational AI: Evidence from a workflow-embedded case study. International Journal of Mathematical, Engineering and Management Sciences, 11(4), 1512–1534. https:// doi.org/10.33889/IJMEMS.2026.11.4.062 World Economic Forum. (2025). The future of jobs report 2025.WEF. http://www.weforum.org/ publications/the-future-of-jobs-report-2025/
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TRANSFORMAR COMPETÊNCIAS, CONSTRUIR O FUTURO
por Óscar Afonso, Diretor da FEP Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto, Professor Catedrático. As opiniões expressas só responsabilizam o autor.
Durante demasiado tempo, Portugal confundiu qualificação com competência. Celebrámos, justamente, o aumento da escolaridade, o crescimento do número de diplomados e a democratização do acesso ao ensino superior. Foi uma das maiores transformações sociais das últimas décadas e seria profundamente injusto desvalorizá-la. Um país que, ainda há poucas gerações, apresentava níveis muito baixos de escolarização conseguiu aproximar significativamente as gerações mais jovens dos padrões europeus. Mas chegámos a um ponto em que já não basta perguntar quantos anos estudamos ou quantos diplomas
atribuímos. É necessário perguntar o que sabemos efetivamente fazer com aquilo que aprendemos. Esta diferença parece pequena, mas talvez seja uma das questões económicas mais importantes que Portugal enfrenta, porque os países não enriquecem por acumularem diplomas: enriquecem quando conseguem transformar conhecimento em competências, competências em produtividade, produtividade em valor acrescentado e valor acrescentado em melhores salários e melhores condições de vida. É precisamente nessa cadeia de transformação que Portugal continua a revelar fragilidades. Os números mostram uma realidade aparentemente contraditória. Entre os jovens dos 25 aos 34 anos, 41,5% já possuem educação superior, um valor relativamente próximo da média da União Europeia, de 43,1%. O progresso realizado em poucas décadas é extraordinário. Mas, quando alargamos a observação à população entre os 25 e os 74 anos, encontramos um país muito diferente: 47,9% dos portugueses continuam a apresentar baixos níveis de escolaridade, mais do dobro da média europeia, de 22,9%. Temos, portanto, duas realidades dentro do mesmo país: uma geração jovem relativamente qualificada, crescentemente internacionalizada e digital, e uma parte muito significativa da população ativa cuja formação continua insuficiente para responder às exigências de uma economia baseada no conhecimento, na tecnologia e na inovação.
Óscar Afonso
Esta desigualdade educativa já seria, por si só, um enorme desafio. A inteligência artificial torna-o muito maior. Hoje estamos provavelmente perante a mais rápida transformação tecnológica desde a Revolução Indus-
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trial, com uma diferença essencial: desta vez, a tecnologia não automatiza apenas trabalho físico, mas começa também a executar tarefas cognitivas, analisando informação, escrevendo, traduzindo, programando, calculando, diagnosticando e identificando padrões a uma velocidade que nenhuma organização poderá ignorar. A discussão pública continua, porém, excessivamente concentrada numa pergunta: quantos empregos destruirá a inteligência artificial? Não creio que seja essa a questão fundamental. Todas as grandes revoluções tecnológicas destruíram determinadas profissões e criaram outras. A mecanização eliminou tarefas, a eletrificação transformou indústrias, a informática tornou obsoletas inúmeras funções administrativas e a internet destruiu modelos de negócio inteiros enquanto criava atividades que poucos anos antes ninguém imaginava. O trabalho não desapareceu; transformou-se. Provavelmente acontecerá novamente. A verdadeira questão é saber quem conseguirá acompanhar essa transformação. Porque a principal desigualdade das próximas décadas poderá deixar de ser apenas uma desigualdade de rendimento para passar a ser, cada vez mais, uma desigualdade de competências. De um lado estarão trabalhadores capazes de utilizar a inteligência artificial para produzir mais, decidir melhor, aprender mais depressa e concentrar o seu tempo nas tarefas de maior valor; do outro, aqueles cujas competências se tornam progressivamente menos procuradas e que não dispõem dos instrumentos necessários para acompanhar a mudança. A tecnologia pode, portanto, democratizar extraordinariamente o acesso ao conhecimento e, simultaneamente, aumentar a desigualdade. Tudo dependerá da capacidade das pessoas para a utilizar. Esta divisão não ocorrerá apenas entre profissões; ocorrerá dentro das próprias profissões. Haverá médicos que utilizarão inteligência artificial e médicos que não a utilizarão, professores que a integrarão no ensino e professores que a ignorarão, advogados que multiplicarão a sua capacidade de análise e outros que continuarão a trabalhar como antes. Economistas, engenheiros, gestores, jornalistas, investigadores e funcionários públicos enfrentarão exatamente a mesma escolha. Por isso, a política educativa do futuro não pode continuar organizada como se a formação terminasse aos 18, aos 22 ou aos 25 anos.
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A aprendizagem deixou de ser uma etapa da vida e passou a ser uma condição permanente da vida profissional. Esta mudança obriga também a repensar profundamente o papel das universidades. Durante décadas, a universidade teve sobretudo a missão de transmitir conhecimento. Hoje, o conhecimento está disponível instantaneamente e em quantidades praticamente ilimitadas. O problema deixou de ser apenas aceder à informação e passou a ser saber o que fazer com ela: distinguir conhecimento de ruído, formular as perguntas certas, interpretar resultados, identificar erros, relacionar áreas diferentes, tomar decisões em condições de incerteza, pensar criticamente e, sobretudo, continuar a aprender depois de terminar o curso. A universidade do futuro não pode, por isso, limitar-se a certificar conhecimentos adquiridos; tem de desenvolver capacidade de aprendizagem. É aqui que surge um paradoxo particularmente interessante: quanto mais poderosa se tornar a inteligência artificial, mais valiosas serão determinadas competências exclusivamente humanas. Pensamento crítico, criatividade, comunicação, adaptabilidade, trabalho em equipa, empatia, inteligência emocional, ética, julgamento e liderança tornar-se-ão ainda mais importantes. A tecnologia substituirá muitas tarefas, mas dificilmente substituirá aquilo que torna profundamente humana uma relação de confiança, uma decisão moral, um gesto de cuidado ou a capacidade de mobilizar pessoas em torno de um objetivo. Num país envelhecido como Portugal, esta dimensão assume especial importância. Precisaremos de mais profissionais de saúde, mais cuidadores, mais acompanhamento de idosos e mais respostas sociais. A tecnologia poderá melhorar diagnósticos, aumentar a produtividade e libertar profissionais de tarefas administrativas, mas nenhuma máquina substituirá integralmente o cuidado, o toque, a empatia ou a confiança entre duas pessoas. O futuro não será, portanto, uma competição entre pessoas e máquinas. Será sobretudo uma competição entre pessoas e organizações que sabem utilizar as máquinas e pessoas e organizações que não sabem. Mas existe outra dimensão do problema português que raramente colocamos no centro do debate. Falamos muito da qualificação dos trabalhadores e muito menos da qualificação de quem os dirige. Os dados são particularmente reveladores: enquanto na União Euro-
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peia cerca de 16% dos empregadores possuem apenas o ensino básico, em Portugal essa proporção ronda os 42%. Mais surpreendente ainda, apenas cerca de 28% dos empregadores portugueses possuem ensino superior, contra aproximadamente 35% dos trabalhadores por conta de outrem. Temos, em muitos casos, líderes menos qualificados do que aqueles que lideram. Este não é um problema estatístico menor; é um problema de produtividade, porque a qualidade da gestão determina a forma como uma organização utiliza tecnologia, organiza processos, desenvolve pessoas, investe, inova e cresce. Podemos ter excelentes engenheiros, economistas, médicos ou programadores; se estiverem inseridos em organizações mal geridas, uma parte importante desse talento será desperdiçada. Talvez seja esta uma das razões pelas quais Portugal conseguiu aumentar extraordinariamente a escolaridade sem obter ganhos equivalentes de produtividade: formámos pessoas, mas transformámos muito menos as organizações onde essas pessoas trabalham. Quando uma economia não consegue oferecer oportunidades proporcionais às competências que produz, acontece algo perfeitamente racional: o talento parte. Não porque os jovens gostem menos de Portugal, mas porque procuram lugares onde as suas competências sejam mais valorizadas e melhor remuneradas. A emigração qualificada não é, por isso, apenas um problema demográfico; é também um sinal económico. Revela a incapacidade de uma economia transformar capital humano em produtividade suficientemente elevada para remunerar esse mesmo capital humano.
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E aqui chegamos ao verdadeiro problema: Portugal não sofre apenas de falta de qualificações. Sofre de uma enorme dificuldade em transformar qualificações em valor económico. Essa dificuldade ajuda a explicar porque continuamos a crescer tão pouco. Desde o início deste século, a economia portuguesa cresceu, em média, cerca de 1% ao ano. Mesmo depois do enorme esforço de modernização realizado, dos fundos europeus, da expansão do turismo, da entrada de população estrangeira e, mais recentemente, do PRR, o crescimento potencial ameaça regressar a valores extremamente modestos. Não existe prosperidade sustentável com crescimento permanente desta dimensão, não existem salários europeus com produtividade persistentemente afastada das economias mais desenvolvidas e não existe produtividade elevada sem investimento, tecnologia, competências e boas instituições. É precisamente por isso que a discussão sobre educação não pode continuar separada da discussão sobre o modelo económico. Não basta formar mais engenheiros se a economia não criar empresas capazes de os empregar produtivamente; não basta formar investigadores se o conhecimento permanecer fechado dentro das universidades; não basta aumentar o número de diplomados se continuarmos excessivamente especializados em atividades que utilizam pouco trabalho altamente qualificado; e não basta ensinar inteligência artificial nas escolas se as empresas não souberem reorganizar os seus processos para a utilizar. Capital humano sem transformação económica produz frustração e, frequentemente, emigração. Transformar competências exige, portanto, transformar simultaneamente pessoas e organizações. Precisamos de trabalhadores mais qualificados, mas também
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de empresários e gestores mais qualificados; de melhores universidades, mas também de empresas capazes de absorver o conhecimento produzido nessas universidades; de inteligência artificial, mas também de lideranças capazes de perceber como utilizá-la; de tecnologia, mas igualmente de instituições que recompensem quem investe, inova, assume riscos e cria valor. Esta é a verdadeira agenda da produtividade. É também aqui que a liderança se torna decisiva. Num mundo em que o conhecimento envelhece rapidamente, liderar deixou de significar apenas mandar, controlar ou distribuir tarefas. O papel fundamental de um líder será cada vez mais desenvolver pessoas: criar confiança, dar autonomia com responsabilidade, reconhecer o mérito, promover aprendizagem, preparar equipas para a mudança e construir culturas organizacionais onde seja possível experimentar, falhar, aprender e melhorar. As organizações que não compreenderem esta transformação terão cada vez mais dificuldade em atrair e reter talento, porque também as expectativas profissionais mudaram. O salário continua a ser fundamental, mas deixou de ser suficiente. As novas gerações valorizam desenvolvimento profissional, aprendizagem, autonomia, reconhecimento, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, boas lideranças e propósito. Num país onde a escassez de talento será agravada pelo envelhecimento demográfico, as organizações terão de competir não apenas através da remuneração, mas também através da qualidade da experiência profissional que oferecem. E esta realidade pode constituir uma oportunidade particularmente importante para as organizações de missão social, que possuem algo que muitas empresas procuram hoje construir artificialmente: propósito. O impacto do trabalho é visível, a missão é compreensível e o resultado humano é concreto. Mas o propósito, por si só, também não basta; tem de ser acompanhado por boas lideranças, desenvolvimento profissional, inovação, autonomia, reconhecimento e condições de trabalho compatíveis com as expectativas das novas gerações. É aqui que regressamos ao princípio. O futuro não será construído apenas com mais tecnologia, mais capital ou mais diplomas. Será construído pela capacidade de combinar tecnologia, conhecimento e humanidade. Portugal possui hoje uma geração jovem muito mais qualificada do que qualquer geração anterior, universidades
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de qualidade, centros de investigação internacionalmente reconhecidos, empresas inovadoras, integração privilegiada no mercado europeu e tecnologias que podem permitir a uma pequena economia ultrapassar algumas das limitações de escala que historicamente condicionaram o seu desenvolvimento. A inteligência artificial pode constituir uma dessas oportunidades, mas oportunidades não garantem resultados. O desafio não é simplesmente adotar inteligência artificial, mas utilizá-la para aumentar a produtividade; não é simplesmente formar mais pessoas, mas garantir que aquilo que aprendem se transforma em capacidade para criar valor; não é aumentar qualificações, mas transformá-las em competências; e não é apenas preparar trabalhadores para o futuro, mas preparar empresas, universidades, administrações públicas e lideranças para um mundo onde aprender será uma condição permanente de sobrevivência. Num contexto de mudança tecnológica acelerada, haverá sempre incerteza sobre quais serão as profissões do futuro, mas existe muito menos incerteza sobre aquilo que determinará quem estará preparado para elas: capacidade de aprender, de se adaptar, de pensar criticamente, de utilizar inteligentemente a tecnologia e de preservar aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir — julgamento, criatividade, responsabilidade, empatia e humanidade. Talvez seja esta a mudança de paradigma que Portugal precisa finalmente de compreender. Durante demasiado tempo medimos o progresso educativo pelo número de anos passados na escola e pelo número de diplomas atribuídos. O futuro obrigar-nos-á a medi-lo de outra forma: pelo que as pessoas sabem fazer, pela velocidade com que conseguem aprender, pela capacidade das organizações para desenvolver o seu talento e, finalmente, pela quantidade de valor que uma sociedade consegue criar com o conhecimento que possui. Porque um país não constrói o futuro acumulando diplomas. Constrói-o transformando qualificações em competências, competências em produtividade, produtividade em prosperidade e prosperidade em oportunidades para que as pessoas possam realizar o seu potencial sem terem de procurar noutro país aquilo que o seu próprio país não conseguiu oferecer-lhes. Transformar competências é, por isso, muito mais do que uma política educativa. É uma condição para construir o futuro.
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TRANSFORMAR COMPETÊNCIAS, CONSTRUIR O FUTURO
por Helena Ferreira, Gestora do Grupo Costa Nova
Há uma frase que ouço repetir-se, de formas diferentes, em todas as reuniões de produção, de recursos humanos e de administração em que participo: “não encontramos pessoas”. Vinda de quem gere fábricas de cerâmica há décadas, esta frase não é uma queixa passageira. É o sintoma mais visível de uma transformação estrutural que atravessa a indústria portuguesa, e que no Grupo Costa Nova sentimos todos os dias, no chão de fábrica de Vagos, de Ílhavo, nas lojas de Aveiro, Porto e Lisboa e nas equipas comerciais que colocam as nossas peças em mais de setenta países. Escrevo este artigo na qualidade de gestora, com responsabilidade direta sobre a área de pessoas do grupo,
e fá-lo-ei sem grandes rodeios: a atração, a qualificação e a retenção de recursos humanos deixaram de ser um tema de gestão corrente para se tornarem, isso sim, um fator crítico de competitividade. Quem gere uma empresa industrial hoje gere, acima de tudo, uma equação de pessoas — e essa equação está, neste momento, mais difícil de resolver do que em qualquer outro momento que me recorde.
Helena Ferreira
A escassez não escolhe função A escassez de mão de obra na cerâmica — como, aliás, em boa parte da indústria transformadora nacional — já não se limita aos perfis mais técnicos ou mais qualificados. Sentimo-la na produção, na modelação, na vidragem, no acabamento, escolha e embalagem, onde décadas de saber-fazer artesanal se cruzam com processos cada vez mais automatizados; sentimo-la na manutenção industrial, onde a eletromecânica e a eletrónica escasseiam tanto quanto a experiência com os nossos próprios equipamentos; e sentimo-la, cada vez mais, nas funções de suporte — logística, qualidade, sistemas de informação — que sustentam uma operação que já não se pode dar ao luxo de improvisar. Esta escassez tem raízes que todos conhecemos: uma demografia desfavorável, um interior e regiões industriais que perdem população jovem para os grandes centros urbanos e para a emigração, uma imagem da indústria que,
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apesar de todo o investimento em modernização, continua por vezes associada a um trabalho exigente e pouco atrativo para as gerações mais novas. A isto soma-se um paradoxo que vivemos de perto: procuramos pessoas para funções que exigem precisão, responsabilidade e, cada vez mais, competências digitais — mas o mercado de trabalho local nem sempre tem disponível esse perfil, e quando tem, a concorrência por ele é intensa, entre empresas do setor e entre setores diferentes. A nossa localização é particularmente afetada por isso. A esta concorrência acresce ainda uma nova geografia da competição: o teletrabalho abriu a jovens portugueses, mesmo os que residem longe dos grandes centros, a possibilidade de trabalharem para empresas internacionais a partir de casa, muitas vezes com remunerações mais competitivas do que as praticadas localmente. Os resultados – quem gere sabe-o bem – não se traduzem apenas na dificuldade de recrutamento, mas na rotatividade elevada, no absentismo que pressiona as equipas que ficam, nas curvas de aprendizagem que se repetem constantemente porque a experiência sai pela porta ao mesmo ritmo a que entra gente nova, e, no limite, num risco direto para a produtividade e para a capacidade de resposta às encomendas dos nossos clientes. Valorizar pessoas não é um slogan de recursos humanos Confesso alguma impaciência com a forma como, por vezes, se fala de “valorização das pessoas” como se fosse um exercício de comunicação interna, um cartaz no refeitório ou uma frase bonita no relatório de sustentabilidade. Na prática de gestão, valorizar pessoas significa decisões concretas, muitas vezes difíceis, sobre remuneração, sobre condições de trabalho, sobre horários, sobre segurança e sobre a forma como se trata quem erra, quem aprende e quem cresce dentro da organização.
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Significa também reconhecer que a relação entre empresa e trabalhador se alterou. Já não basta um salário competitivo à entrada — embora seja indispensável, sobretudo num contexto de subida do salário mínimo e de pressão inflacionista sobre o custo de vida. As pessoas, sobretudo as mais jovens, procuram sentido, procuram progressão visível, procuram equilíbrio entre vida profissional e pessoal e procuram, cada vez mais, trabalhar em organizações cujos valores reconhecem como seus. Isto não é uma cedência a modas de gestão; é, simplesmente, o mercado de trabalho tal como ele é hoje, e ignorá-lo tem um custo que se mede em rotatividade e em vagas por preencher. No Grupo Costa Nova, isso tem-nos obrigado a olhar para políticas de pessoas como investimento e não como custo. Nomeadamente, a rever processos de acolhimento e integração para que os primeiros meses de um novo colaborador não sejam, por si só, motivo de desistência; a reforçar a comunicação interna e o acompanhamento das chefias intermédias, que são, no fundo, quem mais influencia a experiência diária de quem trabalha connosco; e a tratar a segurança e a saúde no trabalho não como obrigação regulamentar, mas como condição de respeito básico por quem nos dá o seu tempo e o seu esforço. Qualificar para transformar Se a atração de talento é hoje um desafio, a qualificação é a resposta que temos mais nas nossas mãos. Não podemos alterar a demografia do país, mas podemos investir, de forma sistemática, no desenvolvimento de competências de quem já está connosco e de quem nos procura. Isto significa formação contínua a sério, não ações pontuais para cumprir obrigações legais. Falo de percursos estruturados que acompanham a evolução da própria indústria — a digitalização dos processos produtivos, a automação de determinadas fases do fabrico, as exigências crescentes de qualidade e de sustentabilidade que os nossos mercados de exportação nos colocam. Um operário de produção de hoje precisa de competências que, há uma década, não eram exigidas; uma equipa de manutenção precisa de dominar tecnologias que renovam os equipamentos a um ritmo que a formação inicial, por si só, já não acompanha. Por isso temos vindo a reforçar parcerias com centros de formação profissional e com instituições de ensino
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Empresas
da região, a investir em formação interna estruturada, com percursos definidos por função e por nível de responsabilidade, e a criar mecanismos de certificação e reconhecimento de competências que dão a quem aprende um sinal claro de progressão — porque a formação só retém talento quando é visivelmente reconhecida, seja em responsabilidade, seja em remuneração, seja em ambas. Há ainda um ponto que considero essencial e que, por vezes, se perde nas estratégias de recursos humanos: a qualificação de quadros médios e de chefias diretas. De pouco serve investir na formação técnica de quem produz, se as chefias que os acompanham diariamente não estiverem preparadas para liderar, para comunicar e para gerir pessoas com a mesma exigência com que gerem processos. Temos investido, e continuaremos a investir, na formação em liderança e gestão de equipas, porque sabemos que a principal razão pela qual alguém sai de uma empresa não é, na maioria dos casos, a empresa em si — é a relação direta com a sua chefia. Atrair e fidelizar num mercado que já não esco-
mas de estágio com continuidade real de emprego, colaboração com o mercado de trabalho internacional quando o mercado local não responde às necessidades, e, sobretudo, a valorização da recomendação interna — quem já trabalha connosco e recomenda a empresa a familiares e amigos continua a ser, sem qualquer dúvida, o melhor embaixador que qualquer estratégia de recrutamento pode desejar. É também o sinal mais honesto de que as políticas internas estão, ou não, a funcionar. Mas atrair é apenas metade do problema. Fidelizar é a parte mais exigente e a mais decisiva a prazo. Passa por planos de carreira credíveis e comunicados com clareza, por sistemas de avaliação de desempenho que sejam justos e transparentes — e não apenas formalidades administrativas — por benefícios que respondam às necessidades reais das famílias de quem trabalha connosco, e por uma cultura organizacional em que a antiguidade e a experiência sejam visivelmente valorizadas, num setor onde o conhecimento tácito, transmitido de geração em geração dentro das fábricas, continua a ser um dos nossos maiores ativos competitivos. Uma responsabilidade de gestão, não apenas de recursos humanos Termino com a convicção que orienta o meu trabalho diário: a atração, a qualificação e a retenção de pessoas não devem ser encaradas como funções exclusivas de um departamento dentro da empresa, mas como uma responsabilidade de gestão de topo, tão estratégica quanto a gestão financeira, a gestão comercial ou a gestão da produção. Numa indústria que exporta a maior parte do que produz, que compete em mercados internacionais exigentes e que enfrenta uma transformação tecnológica acelerada, as pessoas são, mais do que nunca, a verdadeira vantagem competitiva que não se copia.
lhemos As estratégias de atração de talento também tiveram de mudar. Já não basta publicar uma oferta de emprego e esperar. Temos procurado aproximar-nos ativamente das escolas profissionais e das instituições de ensino da região, apresentando a indústria cerâmica — e a nossa, em particular — não como um setor do passado, mas como aquilo que efetivamente é: uma indústria de exportação, de design, de inovação de produto e de processo, que combina tradição artesanal com equipamentos e critérios de qualidade de nível internacional. Temos também apostado em vias de recrutamento que, há uns anos, não fariam parte do plano, como progra-
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Transformar competências para construir o futuro não é, portanto, um exercício de retórica. É uma escolha diária, feita em cada decisão de contratação, em cada plano de formação aprovado, em cada condição de trabalho negociada e em cada colaborador que decidimos manter connosco ou conseguimos reter, apesar da concorrência de quem lhe oferece mais. É essa escolha que, enquanto gestora, assumo como prioridade — porque sei que o futuro do Grupo Costa Nova, como o de toda a indústria portuguesa, se constrói, antes de mais, com as pessoas certas, bem preparadas e bem tratadas.
Julho . Agosto 2026
Entrevista
C O S TA V E R D E , N O VA E M P R E S A ASSOCIADA DA APICER
po r Mi g u e l Si ndã o d a s Ne v e s, Exe cu t i v e B o a rd Me m b e r | Ge n e ra l Ma na g e r, Co s t a Ve rd e
Miguel Sindão das Neves
Kéramica - Como resumiria a história e a evolução da Costa Verde desde a sua fundação até aos dias de hoje? Quais foram os principais marcos do seu percurso? Miguel Sindão das Neves - A Costa Verde nasceu em 1992, em Vagos, com uma ambição muito clara: criar uma empresa de referência na produção de porcelana, combinando competência técnica, capacidade industrial e uma forte proximidade com os clientes. Ao longo de mais de 30 anos, construímos um percurso de evolução contínua. Começámos com uma forte ligação ao mercado nacional e fomos progressivamente afirmando a nossa presença internacional, sobretudo no segmento profissional, onde os níveis de exigência são particularmente elevados.
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Este caminho foi construído sobre pilares fundamentais: qualidade, inovação, desenvolvimento de soluções diferenciadoras e capacidade de adaptação. Num setor com uma grande tradição, mas sujeito a uma forte pressão competitiva, a capacidade de evoluir continuamente é essencial. Hoje, a Costa Verde é uma empresa diferente daquela que nasceu em 1992, porque a indústria e os mercados mudaram. Somos reconhecidos como uma das unidades industriais de porcelana mais avançadas do mundo, mantendo os mesmos princípios: compromisso com a excelência do produto, valorização das pessoas e vontade de fazer sempre melhor. Acredito que uma empresa industrial não se constrói apenas com equipamentos ou instalações. Constrói-se com pessoas, experiência acumulada e uma cultura de exigência. Estamos agora a iniciar uma nova etapa da nossa história com a integração da Costa Verde e da Ceramirupe num grupo industrial português, apoiado pela Vallis Capital Partners. Esta união permite juntar duas competências complementares: a experiência da Costa Verde na porcelana de elevada qualidade e a posição de referência da Ceramirupe no segmento do grés. Mais do que crescer em dimensão, queremos crescer em capacidade, competências e valor para os nossos clientes, colaboradores e parceiros, afirmando a excelência da indústria cerâmica portuguesa nos mercados internacionais. Kéramica - Qual é a oferta de produtos da Costa Verde e que mercados ou segmentos considera mais estratégicos para o seu crescimento? Miguel Sindão das Neves - A Costa Verde dedica-se ao fabrico de porcelana de elevada qualidade para tableware,
Entrevista
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Entrevista
com uma forte especialização no segmento profissional, nomeadamente hotelaria, restauração e catering. Neste mercado, não basta produzir peças esteticamente apelativas. É necessário responder a exigências concretas: resistência, funcionalidade, design, qualidade e capacidade de desenvolver soluções ajustadas às necessidades específicas dos clientes. Ao longo dos anos, desenvolvemos uma capacidade diferenciadora de personalização e criação conjunta de soluções com os nossos clientes. Esta proximidade permite-nos compreender melhor os desafios de cada mercado e responder com maior valor acrescentado. Hoje, cerca de 70% da nossa produção destina-se à exportação e estamos presentes em mais de 50 geografias, com especial destaque para Portugal, Países Baixos, Suíça, Alemanha, Itália e Reino Unido. Trabalhamos com distribuidores, grupos hoteleiros e operadores especializados em mercados muito exigentes. A criação deste novo grupo industrial permite-nos reunir competências complementares em porcelana e grés, oferecendo uma resposta mais abrangente às necessidades dos clientes e às tendências do mercado internacional. Acredito que o futuro da indústria portuguesa passa pela capacidade de competir através da qualidade, da inovação e da diferenciação. Não devemos procurar competir pelo preço, mas pelo conhecimento, pela flexibilidade e pela capacidade de criar soluções com valor. Kéramica - A inovação tem assumido um papel cada vez mais relevante na indústria. Que investimentos ou projetos inovadores têm vindo a desenvolver nos últimos anos? Miguel Sindão das Neves - A inovação tem sido um dos pilares da evolução da Costa Verde e uma condição essencial para continuarmos competitivos num mercado internacional cada vez mais exigente. Para nós, inovar não significa apenas desenvolver novos produtos. Significa melhorar processos, utilizar melhor
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os recursos, reduzir impactos ambientais e encontrar novas formas de aumentar a eficiência. Temos atualmente seis projetos de Investigação e Desenvolvimento em curso, abrangendo áreas estratégicas para o futuro da indústria cerâmica, nomeadamente sustentabilidade, eficiência de recursos e evolução dos processos produtivos. Este trabalho é desenvolvido em colaboração com universidades e centros tecnológicos, destacando-se a parceria com a Universidade de Aveiro e com o Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, aproximando a investigação científica da realidade industrial. Um dos caminhos que estamos a explorar passa pela aproximação entre a agricultura e a indústria cerâmica, procurando valorizar recursos provenientes de outros setores e integrá-los em novos ciclos produtivos, numa lógica de economia circular. Temos também projetos direcionados para a evolução tecnológica dos processos, incluindo investigação na área da sinterização da porcelana sem combustão, uma abordagem com potencial para transformar modelos tradicionais de fabrico. Kéramica - A indústria enfrenta atualmente desafios significativos, nomeadamente ao nível dos custos energéticos, da regulamentação e da sustentabilidade. Como tem a empresa respondido a estas exigências? Miguel Sindão das Neves - A indústria cerâmica atravessa atualmente um período de grande transformação. Os custos energéticos, as exigências ambientais, a evolução regulamentar e a crescente competitividade internacional obrigam as empresas a repensar continuamente a forma como produzem e como criam valor. Na Costa Verde procuramos encarar estes desafios como uma oportunidade para acelerar a transformação da empresa e reforçar a nossa capacidade competitiva. A sustentabilidade tem sido uma preocupação estratégica há vários anos. Um exemplo concreto é a central fotovoltaica instalada nas nossas instalações há quase uma década, que representa atualmente entre 22% e 25% do nosso consumo anual de energia elétrica. Mas a sustentabilidade não se resume à energia. Está também presente na forma como gerimos os processos, utilizamos os recursos e reduzimos desperdícios. O nosso Sistema Integrado de Gestão, suportado por certificações nas áreas da qualidade, ambiente, energia, segurança e responsabilidade social, permite-nos trabalhar de forma estruturada e orientada para a melhoria contínua.
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Entrevista
Recentemente concluímos também o nosso Relatório de Sustentabilidade 2025, elaborado de acordo com a norma VSME, reforçando o compromisso com uma gestão mais transparente e preparada para os desafios futuros. Estou convencido de que a sustentabilidade deixou de ser apenas uma questão ambiental para passar a ser uma dimensão estratégica das organizações. As empresas mais sustentáveis serão também as mais preparadas para competir no futuro. Kéramica - Na sua perspetiva, quais são hoje os principais pontos fortes da Costa Verde e os maiores desafios que enfrenta num mercado cada vez mais competitivo? Miguel Sindão das Neves - O principal ponto forte da Costa Verde está na combinação entre capacidade produtiva, conhecimento industrial, qualidade do produto, inovação e proximidade com os clientes. Contamos atualmente com uma equipa de mais de 300 colaboradores, com uma experiência acumulada muito relevante e uma cultura empresarial orientada para a melhoria contínua. Ao longo dos anos percebi que os equipamentos e a tecnologia podem ser adquiridos, mas o conhecimento dos processos, a experiência e a capacidade de resolver desafios constroem-se com tempo e com pessoas. A nossa especialização no segmento HoReCa e a capacidade de desenvolver soluções ajustadas às necessidades dos clientes são também fatores diferenciadores. Trabalhamos com mercados internacionais muito exigentes, onde os clientes procuram mais do que um fornecedor: procuram um parceiro capaz de compreender os seus desafios e acrescentar valor. Os desafios são significativos: a volatilidade dos custos energéticos, a pressão competitiva internacional, a necessidade permanente de inovação e transformação digital, bem como a capacidade de atrair e desenvolver talento. A estes desafios junta-se uma realidade transversal à indústria portuguesa: a crescente escassez de mão de obra para funções diretamente ligadas à produção. A competitividade não se constrói apenas através da dimensão. Constrói-se através do conhecimento, da tecnologia, das pessoas e da capacidade de adaptação. A integração num novo grupo industrial português representa uma oportunidade muito relevante neste caminho. Permite complementar competências, criar sinergias industriais e comerciais e apresentar ao mercado uma oferta mais completa, reunindo diferentes capacidades e respondendo melhor às necessidades dos clientes. O objetivo é afirmar este grupo como uma referência internacional no tableware, valorizando aquilo que Portugal
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tem de melhor: capacidade industrial e conhecimento técnico. Kéramica - A transformação digital e a Indústria 5.0 estão a redefinir os processos industriais. Que papel desempenham a digitalização, a automação e as novas tecnologias na estratégia da Costa Verde? Miguel Sindão das Neves - Vejo a transformação digital como uma ferramenta fundamental para tornar as organizações mais eficientes, mais ágeis e mais preparadas para responder a um mercado em constante mudança. No entanto, a tecnologia, por si só, não é suficiente. O verdadeiro valor da transformação digital está na capacidade de melhorar a tomada de decisão, otimizar processos, reduzir desperdícios e permitir que as pessoas se concentrem em atividades de maior valor acrescentado. A implementação do SAP S/4HANA Public Cloud representa um passo importante na integração dos processos de gestão da empresa, permitindo uma visão mais global da organização. Em paralelo, o MES desenvolvido pela KaizenTech permitirá reforçar o acompanhamento da produção, a rastreabilidade e a melhoria contínua. A automação e a digitalização são fundamentais para aumentar a eficiência, mas a nossa visão de Indústria 5.0 vai mais longe. Acredito que o futuro da indústria passa pela combinação entre tecnologia e experiência humana. As máquinas e os sistemas digitais são ferramentas poderosas, mas são as pessoas, com a sua experiência, criatividade e capacidade de decisão, que continuam a fazer a diferença. A Indústria 5.0 representa precisamente esse equilíbrio: uma indústria mais inteligente, mas também mais humana. Kéramica - A atração e retenção de talento é um dos grandes desafios da indústria. Como encara esta realidade e que competências considera essenciais para preparar a Costa Verde para o futuro? Miguel Sindão das Neves - A atração e retenção de ta-
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Entrevista
lento é um dos grandes desafios da indústria atual. A evolução tecnológica, a crescente complexidade dos processos e a necessidade permanente de inovação exigem novas competências. Mas existe um desafio adicional que é especialmente sentido na indústria cerâmica: a crescente dificuldade em atrair pessoas para funções diretamente ligadas à produção. Apesar da evolução da automação, continuamos a ser um setor onde o conhecimento técnico, a experiência e o saber-fazer das equipas são determinantes para garantir a qualidade do produto e a competitividade das empresas. Na Costa Verde acreditamos que as pessoas são um dos principais fatores de diferenciação da empresa. A tecnologia e os equipamentos são fundamentais, mas são as pessoas que conhecem os processos, identificam oportunidades de melhoria e concretizam a transformação. Ao longo dos anos aprendi que uma organização pode investir em tecnologia e equipamentos, mas o saber-fazer industrial constrói-se com tempo, experiência e partilha entre gerações. Temos, por isso, a responsabilidade de criar condições para que esse conhecimento seja preservado e transmitido, investindo na formação, na integração de novos colaboradores e na valorização das carreiras industriais. Precisamos também de aproximar a indústria dos jovens e das escolas, mostrando que as fábricas de hoje são ambientes tecnologicamente evoluídos, onde coexistem inovação, sustentabilidade e oportunidades de desenvolvimento profissional. As competências técnicas continuarão a ser essenciais, mas serão cada vez mais importantes a capacidade de adaptação, a aprendizagem contínua, o espírito de equipa e a abertura à mudança. Preparar a Costa Verde para o futuro passa necessariamente por preparar as nossas pessoas. Kéramica - Quais são as principais prioridades e objetivos estratégicos da empresa para os próximos anos e que
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mensagem gostaria de deixar aos leitores da Revista Kéramica? Miguel Sindão das Neves - A Costa Verde entra agora numa nova fase da sua história. A complementaridade com a Ceramirupe representa uma oportunidade muito importante para construir um grupo industrial português mais forte, mais completo e com maior capacidade de afirmação internacional. As nossas prioridades são claras: continuar a crescer de forma sustentável, reforçar a internacionalização, investir em inovação, acelerar a transformação digital, melhorar a eficiência operacional e valorizar as nossas pessoas. Mas esta nova etapa não se resume a crescimento ou dimensão. O objetivo é criar uma organização capaz de competir nos mercados internacionais através do conhecimento, da qualidade e da diferenciação. O nosso percurso demonstra que é possível produzir em Portugal, competir pela qualidade e afirmar uma indústria nacional com reconhecimento internacional. A adesão da Costa Verde à APICER enquadra-se precisamente nesta visão. Acreditamos que muitos dos desafios que o setor enfrenta beneficiam de uma atuação coletiva. A APICER desempenha um papel fundamental na representação do setor, promovendo a colaboração entre empresas, universidades e centros tecnológicos e contribuindo para reforçar a competitividade da cerâmica portuguesa nos mercados internacionais. Acredito profundamente no futuro da nossa cerâmica. Temos história, conhecimento, capacidade tecnológica, inovação e talento para competir internacionalmente. Queremos continuar a construir o futuro da Costa Verde com base naquilo que sempre nos distinguiu: a experiência e o saber-fazer das nossas equipas, a excelência dos nossos produtos e a capacidade de evoluir num mercado cada vez mais exigente.
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Entrevista
CERISOL: CONHECER UM DOS NOVOS ASSOCIADOS DA APICER
po r He lde r Gu e r r e i r o , Ma na g i ng D i r e ct o r d a Ce r iso l , Iso l a do re s Ce râ m i co s , S . A .
Helder Guerreiro
Kéramica - Como resumiria a história e a evolução da Cerisol desde a sua fundação até aos dias de hoje? Quais foram os principais marcos do seu percurso? Helder Guerreiro - É uma história longa. Começámos em 1912, a fazer aparelhagem elétrica de baixa tensão para aplicação doméstica essencialmente: para coisas do dia a dia, nada que se pareça com o que fazemos hoje. Foi crescendo aos poucos, e a certa altura já estávamos a fornecer isoladores para a rede elétrica portuguesa. Se quer que lhe aponte um momento charneira, foi 1967: o primeiro isolador de coluna para exterior segundo a norma IEC, para 66 kV. Depois vieram os anos 70 e 80, muito bons para o setor, com encomendas cá dentro e lá fora, e o portefólio foi esticando: isoladores para exterior, ocos, para caminhos de ferro. Foi desse
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crescimento todo que nasceu, em 1989, a Cerisol propriamente dita, como spin-off do grupo Electro-Cerâmica. Depois, 2004 trouxe uma mudança de acionistas, e 2011 foi talvez a decisão mais marcante dos últimos anos: mudámos para a fábrica onde estamos hoje, em Serzedo Vila Nova de Gaia, o que nos permitiu ganhar muita capacidade e começar a produzir a sério isoladores até 800 kV. E mais recente ainda, em 2025 passámos a fazer parte do Insulation Technology Group. Foi um passo grande, mas até agora tem corrido bem: ganhámos músculo tecnológico, partilha de know how e de melhores praticas, sem perder o que sempre fomos e sem perder independência. Kéramica - Qual é a oferta de produtos da Cerisol e que mercados ou segmentos considera mais estratégicos para o seu crescimento? Helder Guerreiro - No fundo, fazemos isoladores de suporte em porcelana para subestações, seccionadores, e também para linhas ferroviárias. Trabalhamos segundo as normas IEC, ANSI e de acordo com pedidos específicos de cliente que podem sair dessas normas, apresentando uma flexibilidade muito interessante para o mercado, e cobrimos praticamente toda a gama, de C4-95 até C12,5-2550 em IEC, chegando a aplicações de 800 kV em corrente alterna e 500 kV em corrente contínua. Não é pouco. Uma coisa que nos distingue ainda, é o serviço extra de revestimento RTV, que ajuda bastante em zonas com muita poluição: salinas, industriais, até desér-
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Entrevista
ticas. Também oferecemos pintura das ferragens para ambientes mais agressivos. São pormenores, mas fazem diferença no terreno. Exportamos para mais de 50 países, o que já diz muito sobre onde estamos. Mas se me perguntar onde vejo mais espaço para crescer, diria: redes de transmissão que estão a subir de tensão, o setor ferroviário, e mercados onde há investimento sério em infraestrutura elétrica. Kéramica - A inovação tem assumido um papel cada vez mais relevante na indústria. Que investimentos ou projetos inovadores têm vindo a desenvolver nos últimos anos? Helder Guerreiro - Isto pode soar a clichê, mas é verdade: fazemos o nosso próprio design, cá dentro, não compramos projetos a terceiros. Isso dá-nos uma liberdade enorme para afinar tolerâncias e cumprir prazos que outros não conseguem cumprir. Nos últimos anos temos andado a trabalhar sobretudo em três coisas, se quiser que resuma: tensões cada vez mais altas, revestimentos como o RTV para
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ambientes muito poluídos, e mais capacidade de ensaio. Temos hoje um histórico enorme de ensaios mecânicos e elétricos feitos com laboratórios acreditados, muitas vezes já em conjunto com clientes que querem validar um produto novo. Com a ITG começamos a trocar mais conhecimento, o que devia acelerar tudo isto. Kéramica - A indústria enfrenta atualmente desafios significativos, nomeadamente ao nível dos custos energéticos, da regulamentação e da sustentabilidade. Como tem a empresa respondido a estas exigências? Helder Guerreiro - Isto preocupa-nos, como preocupa qualquer empresa cerâmica em Portugal. Temos a certificação ISO 9001 desde 1996, o que obriga a rever processos constantemente: não é um papel guardado numa gaveta. Do lado ambiental, cumprimos a legislação, tentamos reduzir a poluição escolhendo bem as matérias-primas, reaproveitando o que dá para reaproveitar e tendo cuidado com o destino dos resíduos. E formamos as pessoas para isso, porque de nada serve ter uma política bonita se ninguém a aplica no chão de fábrica. Quanto à segurança no trabalho, é algo que levamos muito a sério: a Segurança do trabalho não é só uma prioridade: É um dos nossos valores e por isso está acima de tudo: prevenir acidentes vem sempre antes de qualquer prazo de entrega, ou qualquer outra coisa. Agora, sendo honesto, os custos energéticos continuam a ser um problema estrutural para o setor, e é uma frente onde andamos sempre à procura de ganhos de eficiência, com investimento de milhões de euros nos nossos fornos, de forma a responder as exigências. Kéramica - Na sua perspetiva, quais são hoje os principais pontos fortes da Cerisol e os maiores desafios que enfrenta num mercado cada vez mais competitivo? Helder Guerreiro - O nosso maior trunfo é o conhecimento acumulado: mais de cem anos a fazer isto ensina muita coisa que não está escrita em manual nenhum. Depois temos uma equipa de mais de 250 pessoas muito dedicadas, e uma capacidade produtiva que já ultrapassa as 7.000 toneladas por ano e continua a crescer, estando em plano superar as 10.000 toneladas no próximo ano. E há a confiança dos clientes com os quais temos parcerias que vêm desde os anos 90. Isso não se compra, ganha-se com desempenho. Quanto a desafios, não vou fingir que não os há: há concorrência de fora com custos de produção mais baixos, vindos sobretudo da Asia, os custos de energia
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Entrevista
e matérias-primas sobem e descem sem grande aviso, e os projetos pedem cada vez mais: tensões mais altas, ambientes mais agressivos, prazos mais apertados. A forma de lidar com isto é continuar a investir em engenharia própria, em eficiência de fábrica e em estar perto do cliente. O ITG dá-nos suporte tecnológico extra para isso, sem perder a nossa independência e agilidade que sempre nos caracterizou. Kéramica - A transformação digital e a Indústria 5.0 estão a redefinir os processos industriais. Que papel desempenham a digitalização, a automação e as novas tecnologias na estratégia da Cerisol? Helder Guerreiro - Para nós isto é um meio, não é um fim. Num processo tão exigente como o nosso com tolerâncias apertadas, ensaios elétricos e mecânicos com exigências muito duras, automatizar produção e controlo de qualidade ajuda a ganhar consistência e a errar menos, e isso conta muito.
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Sobre a Indústria 5.0, prefiro pensar nisto pelo lado das pessoas: tecnologia que torna o trabalho mais seguro e mais preciso, não que substitui quem cá trabalha. Estar no ITG ajuda a partilhar boas práticas de digitalização com outras unidades do grupo, e esperamos que isso puxe este processo mais depressa nos próximos anos. Kéramica - A atração e retenção de talento é um dos grandes desafios da indústria. Como encara esta realidade e que competências considera essenciais para preparar a Cerisol para o futuro? Helder Guerreiro - Este é, sem dúvida, um dos temas que mais nos tira o sono. Trabalhar cerâmica industrial de alta tensão exige um conhecimento técnico que não se aprende num curso de fim de semana, e por isso a nossa aposta passa por criar condições de trabalho estáveis e seguras, e uma cultura em que as pessoas sintam que vale a pena ficar. Para o futuro, precisamos sobretudo de gente com formação em engenharia de materiais e processos cerâmicos, manutenção industrial, controlo de qualidade e ensaios elétricos, e cada vez mais, competências digitais aplicadas à produção. Acredito que estar mais perto de escolas técnicas e universidades, investir em formação interna, e agora fazer parte de um grupo com dimensão internacional como o ITG, nos ajuda a atrair quem está a começar carreira. Kéramica - Quais são as principais prioridades e objetivos estratégicos da empresa para os próximos anos e que mensagem gostaria de deixar aos leitores da Revista Kéramica? Helder Guerreiro - Nos próximos anos queremos continuar a reforçar a fábrica, através de investimentos de milhões em segurança, modernização/robotização e aumento de capacidade industrial; consolidar-nos nos mercados onde já somos conhecidos, avançar mais em revestimentos para ambientes poluídos, e tirar partido das sinergias tecnológicas e de conhecimento com a ITG. Se há uma mensagem que gostaria de deixar aos leitores da Kéramica é esta: dá para ser uma empresa com mais de cem anos e continuar a mudar sem perder o que se é. Não são coisas contraditórias — pelo contrário, uma alimenta a outra. Vamos continuar a apostar no que sempre nos distinguiu: rigor técnico, proximidade com o cliente, e orgulho no que se fabrica aqui, em Portugal, para o mundo inteiro.
Entrevista . Kéramica . p.27
Juntos vamos construir o que está para vir.
Energia para o seu negócio. Menos impacto para o planeta.
26,9%
JUN 2025
Boletim mercado Liberalizado de Gás - Agosto de 2025
Quer saber como tornar a sua indústria mais verde? Fale connosco.
Julho . Agosto 2026
Formação
C A PA C I TA R P E S S O A S , VA L O R I Z A R S E T O R E S Uma nova estratégia para o CENCAL, assente na proximidade aos setores, na valorização das competências profissionais e na inovação técnica e tecnológica
por Ana Elisa Costa Santos, Diretora do CENCAL - Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica
“O futuro do CENCAL constrói-se com as empresas, com os trabalhadores e, sobretudo, atraindo os jovens. A prioridade é responder em tempo útil e antecipar os desafios dos setores da Cerâmica, da Cristalaria e do Vidro, com mais e melhores competências, criatividade e inovação, gerando novas oportunidades e maior valor acrescentado.” Assumir a direção do CENCAL representa a oportunidade e a responsabilidade de contribuir para um novo ciclo de uma instituição com mais de quatro décadas de história, profundamente ligada à tradição da cerâmica e do vidro portugueses. Abraço esta missão com respeito pelo percurso construído, pelo conhecimento acumulado das equipas, pela qualidade da formação e pela confiança das empresas e dos setores. Este património constitui a base para preparar o Centro para os desafios atuais e futuros. Ao longo de mais de duas décadas em funções de direção no IEFP, com especiais responsabilidades na formação profissional, consolidei a convicção de que liderar é criar condições para que as pessoas e as organizações cresçam em conjunto e prestem os serviços que a sociedade espera.
A experiência mais recente como Vogal do Conselho Diretivo do IEFP, com o pelouro da Formação Profissional, e como Delegada Oficial da WorldSkills Portugal reforçou essa convicção: a qualificação é um dos instrumentos mais poderosos para promover o desenvolvimento económico e social, a mobilidade e a inclusão, valorizando o capital mais importante de um país — as pessoas. Num tempo de mudança acelerada, não basta responder às necessidades imediatas. É decisivo antecipar tendências, escutar quem está no terreno e preparar competências para profissões em transformação. É essa a orientação que proponho para o CENCAL: preservar a sua identidade e o seu saber-fazer, reforçando a capacidade de inovar, chegar a novos públicos e trabalhar em plena parceria com as empresas. Estas devem ser apoiadas na qualificação e requalificação dos seus recursos humanos, na transformação de processos, na criação de produtos e na evolução dos modelos de organização e promoção, para enfrentarem os mercados com maior competitividade e valor acrescentado.
CENCAL | VISÃO
Um CENCAL ainda mais próximo das empresas e das pessoas Há duas palavras-chave para esta nova etapa: proximidade e cooperação. O CENCAL existe para servir os setores que estiveram na sua origem e deve estar onde as necessidades se manifestam: nas empresas, nos territórios, junto dos profissionais, dos jovens, dos criadores e das instituições de ensino. Pretendo consolidar uma cultura de escuta ativa e resposta ágil, traduzindo o diagnóstico de necessidades em soluções ajustadas à realidade de cada organização.
Um CENCAL ainda mais próximo das empresas e das pessoas Há duas palavras-chave para esta nova etapa: proximidade e cooperação.
J uCENCAL l h o existe . A para g o sservir t o os. setores 2 0 2 6que estiveram na sua origem e deve estar onde as necessidades se O manifestam: nas empresas, nos territórios, junto dos profissionais, dos jovens, dos criadores e das instituições de ensino. Pretendo consolidar uma cultura de escuta ativa e resposta ágil, traduzindo o diagnóstico de necessidades em soluções ajustadas à realidade de cada organização. Isso implica aprofundar a formação à medida, reforçar a presença nas empresas, desenvolver respostas flexíveis,
Formação . Kéramica . p.29
CENCAL | VISÃO
fazer nem a experiência acumulada; potencia-os. O desafio é criar pontes entre o conhecimento construído ao longo de gerações e as ferramentas que estão a redesenhar a indústria.
Formação
Os Laboratórios, o circuito fabril e os equipamentos tecnológicos do CENCAL são espaços essenciais de experimentação, aprendizagem e aproximação à realidade industrial. Em particular, o Laboratório do Vidro, na Marinha Grande, constitui uma valência estratégica do CENCAL no apoio técnico e laboratorial às empresas vidreiras, contribuindo para responder a necessidades concretas, testar soluções, desenvolver competências e promover a inovação no setor. Importa reforçar a articulação destas infraestruturas com a formação e o apoio às empresas, aproximando o conhecimento da sua aplicação prática. Tal como os nossos antepassados diziam que era preciso “plantar os sobreiros para os nossos netos”, também o desenvolvimento do CENCAL deve ser pensado a duas gerações de distância, associado a uma cultura de aprendizagem permanente.
Isso implica aprofundar a formação à medida, reforçar a presença nas empresas, desenvolver respostas flexíveis, valorizar a experiência dos trabalhadores e apoiar a atualização de competências ao longo da vida. Os resultados devem ser avaliados pelo seu impacto na qualidade dos produtos, na organização do trabalho, na produtividade, na segurança e na capacidade de inovação. A relação com a APICER, o IEFP, a AIRO, as empresas, os municípios, as associações, as instituições de ensino e os centros de conhecimento assume, por isso, um papel determinante. A transição digital e energética, a escassez de recursos humanos qualificados e a renovação geracional só podem ser enfrentadas em rede, através de parcerias estratégicas com objetivos claros e resultados partilhados. Antecipar competências para uma indústria em transformação A cerâmica, o vidro e a cristalaria combinam tradição, conhecimento técnico, criatividade e uma crescente incorporação de tecnologia. A automação, a inteligência artificial, a análise de dados, a prototipagem, os novos materiais, a eficiência energética e a economia circular estão a alterar funções e processos. Esta evolução exige qualificações técnicas especializadas, mas também competências digitais, comportamentais, de gestão e de resolução de problemas. A oferta do CENCAL, já profundamente ligada ao ciclo produtivo, deve integrar novas áreas de conhecimento que reforcem a capacidade de adaptação das empresas e dos profissionais. A tecnologia não substitui o saber-fazer nem a experiência acumulada; potencia-os. O desafio é criar pontes entre o conhecimento construído ao longo de gerações e as ferramentas que estão a redesenhar a indústria. Os Laboratórios, o circuito fabril e os equipamentos tecnológicos do CENCAL são espaços essenciais de experimentação, aprendizagem e aproximação à realidade industrial. Em particular, o Laboratório do Vidro, na Marinha Grande, constitui uma valência estratégica do CENCAL no apoio técnico e laboratorial às empresas vidreiras, contribuindo para responder a necessidades concretas, testar soluções, desenvolver competências e promover a inovação no setor. Importa reforçar a articulação destas infraestruturas com a formação e o apoio às empresas, aproximando o conhecimento da sua aplicação prática. Tal como os nossos antepassados diziam que era preciso “plantar os sobreiros para os nossos netos”, também o desenvolvimento do CENCAL deve ser pensado a duas
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Atrair jovens, valorizar profissões e renovar o setor Um dos maiores desafios dos setores é atrair jovens e assegurar a renovação dos quadros qualificados. Muitas profissões da cerâmica e do vidro continuam pouco conhecidas ou associadas a imagens que já não correspondem à realidade. É necessário mostrar que estes setores oferecem percursos profissionais qualificados, tecnologicamente exigentes e criativos, com impacto na economia, na cultura e nas transições ecológica e digital.
gerações de distância, associado a uma cultura de aprendizagem permanente.
Esta será uma prioridade central. O CENCAL deve reforçar a ligação às escolas, às famílias e às comunidades, comunicar melhor as oportunidades e proporcionar aos jovens contacto direto com materiais, processos, equipamentos, profissionais e empresas.
Atrair jovens, valorizar profissões e renovar o se-
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Ana Elisa Costa Santos · 3
Um dos maiores desafios dos setores é atrair jovens e assegurar a renovação dos quadros qualificados. Muitas profissões da cerâmica e do vidro continuam pouco conhecidas ou associadas a imagens que já não correspondem à realidade. É necessário mostrar que estes setores oferecem percursos profissionais qualificados, tecnologicamente exigentes e criativos, com impacto na economia, na cultura e nas transições ecológica e digital. Esta será uma prioridade central. O CENCAL deve reforçar a ligação às escolas, às famílias e às comunidades, comunicar melhor as oportunidades e proporcionar aos jovens contacto direto com materiais, processos, equipamentos, profissionais e empresas. A experiência como Delegada Oficial da WorldSkills Portugal reforçou profundamente esta convicção. Os Campeonatos das Profissões demonstram que dar visibilidade às competências, reconhecer publicamente o mérito e apresentar exemplos de excelência muda a perceção social da formação profissional e desperta vocações. Vi jovens crescerem em confiança, superarem-se e descobrirem no seu talento um projeto de vida. É essa capacidade de inspirar que quero trazer para o CENCAL: tornar visível o talento, dar palco à excelência, aproximar os jovens das empresas e afirmar as profissões da cerâmica, da cristalaria e do vidro como escolhas de futuro, dignas e qualificadas. Ao mesmo tempo, a oferta dirigida aos jovens deve estar alinhada com a procura efetiva das empresas e conduzir a percursos sustentáveis de inserção profissional. A formação em contexto de trabalho, o envolvimento das
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empresas na construção das respostas e o acompanhamento da transição para o emprego serão decisivos. Formar não é apenas certificar; é criar condições para que cada pessoa aplique, desenvolva e veja reconhecidas as suas competências. Inovação, sustentabilidade e internacionalização A competitividade futura da cerâmica e do vidro dependerá da capacidade de produzir melhor, com maior eficiência e menor impacto ambiental. A sustentabilidade deve atravessar toda a formação, desde a utilização responsável de matérias-primas e energia à redução de desperdícios, reutilização de materiais e criação de novos produtos e processos. Não é uma área isolada, mas uma competência transversal e uma condição de competitividade. A inovação pedagógica fará igualmente parte deste novo ciclo. Queremos combinar formação presencial, aprendizagem em contexto real, recursos digitais e metodologias participativas, adaptadas a diferentes públicos. A qualidade depende tanto dos conteúdos como da forma de ensinar e aprender, da preparação dos formadores e da avaliação dos resultados. Pretendemos ainda reforçar a projeção nacional e internacional do CENCAL. A cooperação com centros congéneres, empresas, escolas, universidades e redes europeias pode criar oportunidades de aprendizagem, mobilidade e transferência de conhecimento, valorizando a qualidade, a tradição e a capacidade de inovação dos setores portugueses. Uma instituição com identidade, ambição e futuro Mas, que fique claro. Esta nova abordagem estratégica não parte do zero. Assenta numa história sólida, em equipas experientes, numa relação próxima com o tecido empresarial e numa presença territorial que queremos consolidar e ampliar. O CENCAL, para estar à altura dos desafios destes tempos de mudanças a velocidades inimagináveis até há poucos anos, altamente exigentes, tem de ser capaz de se posicionar e afirmar no centro deste ecossistema e é para esse desiderato que iremos trabalhar com toda a nossa energia e disponibilidade. O objetivo é afirmar o CENCAL como centro de referência nacional na qualificação, na inovação e na valorização das profissões da cerâmica e do vidro, aprofundando a resposta nos polos das Caldas da Rainha, Alcobaça e Marinha Grande e estudando novas formas de proximidade às empresas e aos territórios das regiões Centro e Norte, incluindo a eventual criação de novos polos de formação.
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Esta ambição exige uma organização moderna de serviço público, orientada para resultados e capaz de aprender continuamente. Promoveremos uma liderança próxima, assente na confiança, na responsabilidade e na valorização das pessoas. São as equipas do CENCAL que transformam a estratégia em formação, acompanhamento técnico, conhecimento e prospetiva. Reconhecer o seu contributo, mobilizar competências internas e criar espaço para novas ideias será essencial para concretizar esta visão. Por todas estas razões e pela motivação com que estou a encarar este novo desafio na minha carreira, imagino um CENCAL cada vez mais aberto, inovador e reconhecido: um Centro que antecipa necessidades, aproxima conhecimento e indústria, atrai novos talentos e acompanha as empresas e os trabalhadores nas suas transições; que preserva o património técnico e criativo dos setores, sem recear experimentar, mudar e construir novas respostas. Um Centro que preserva o património técnico e criativo dos setores, mas que não receia experimentar, mudar e construir novas respostas. Alguém, escreveu um dia, “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado”. Por estas razões, mas, também, por óbvias razões de justiça para com todos os que me antecederam nestas funções e como homenagem aos seus fundadores, a preservação da memória do CENCAL terá de estar sempre presente nas decisões de futuro. É este o compromisso que assumo: honrar o percurso do CENCAL e, com todos os que fazem parte desta comunidade, preparar o seu futuro. Capacitar pessoas é fortalecer empresas e organizações, valorizar profissões, transformar setores e melhorar a sociedade. É através das pessoas, independentemente da posição que ocupem, que a cerâmica e o vidro portugueses continuarão a inovar, criar valor e afirmar-se no mundo. CENCAL | VISÃO Uma instituição com identidade, ambição e futuro
Mas, que fique claro. Esta nova abordagem estratégica não parte do zero. Assenta numa história sólida, em equipas experientes, numa relação próxima com o tecido empresarial e numa presença territorial que queremos consolidar e ampliar. O CENCAL, para estar à altura dos desafios destes tempos de mudanças a velocidades inimagináveis até há poucos anos, altamente exigentes, tem de ser capaz de se posicionar e afirmar no centro deste ecossistema e é para esse desiderato que iremos trabalhar com toda a nossa energia e disponibilidade.
F o rnacional m a ç na ão . K é rnaainovação m i c ae na. valorização p.31 O objetivo é afirmar o CENCAL como centro de referência qualificação, das profissões da cerâmica e do vidro, aprofundando a resposta nos polos das Caldas da Rainha, Alcobaça e Marinha Grande e estudando novas formas de proximidade às empresas e aos territórios das regiões Centro e Norte, incluindo a eventual criação de novos polos de formação.
Esta ambição exige uma organização moderna de serviço público, orientada para resultados e capaz de aprender
Formação
F O R M A R PA R A C A PA C I TA R
por Vera Fortes, Diretora dos Ser viços de Formação do CENCAL — Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica
O Compromisso do CENCAL com a Cerâmica e Vidro Competências, tecnologia e proximidade às empresas na resposta do CENCAL aos novos desafios do setor. O CENCAL e o compromisso com o futuro da cerâmica portuguesa Há setores onde a inovação acontece em laboratórios. Na cerâmica, acontece também nas fábricas, ateliers, e sobretudo, nas pessoas. É nelas que começa qualquer transformação sustentável da indústria. Foi com essa convicção que nasceu o CENCAL – Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica. Criado em 1981 e formalizado em 1987 através de um protocolo entre o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), a Associação Portuguesa de Cerâmica (APC — atual APICER) e a Associação Industrial da Região Oeste (AIRO), o Centro assumiu desde o primeiro momento uma missão muito clara: qualificar profissionais para aumentar a competitividade das empresas portuguesas da cerâmica.
Quatro décadas depois, essa missão mantém-se inalterada. Mudaram as tecnologias, os processos produtivos, os mercados e as competências exigidas às empresas. A formação deixou de responder apenas às necessidades do presente para passar a antecipar as necessidades do futuro. Hoje, capacitar significa preparar profissionais capazes de trabalhar com processos industriais automatizados, fabrico digital, sustentabilidade, inteligência artificial, controlo laboratorial avançado e desenvolvimento de novos produtos, sem perder o conhecimento técnico que caracteriza um setor com uma forte tradição industrial. A evolução do próprio CENCAL acompanha a evolução da indústria. O que começou como um centro para a cerâmica transformou-se numa organização de referência nacional, mantendo a sua identidade setorial, mas tem como estratégia alargar continuamente a sua capacidade de resposta às novas exigências das empresas, dos trabalhadores e dos jovens que procuram uma carreira qualificada. Esta capacidade de adaptação explica porque continua a ser um parceiro estratégico do tecido empresarial, conciliando formação inicial, formação contínua, consultoria técnica, ensaios laboratoriais, reconhecimento de competências e projetos de inovação. Indústria e criatividade em transformação A cerâmica portuguesa atravessa uma das maiores transformações das últimas décadas. A digitalização dos processos produtivos, a automação, a necessidade de reduzir consumos energéticos, a crescente incorporação de ferramentas de inteligência artificial, a exigência de novos modelos de produção sustentáveis e a dificuldade crescente
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em recrutar profissionais qualificados estão a alterar profundamente o perfil de competências requerido pelas empresas. Esta realidade obriga o centro a evoluir ao mesmo ritmo do setor que serve — um setor que é, simultaneamente, indústria de produção em massa e espaço de criatividade artesanal. No CENCAL, esta evolução tem-se traduzido numa atualização contínua da oferta formativa, das metodologias pedagógicas e dos equipamentos disponíveis para formação. O objetivo não é apenas acompanhar a mudança tecnológica, mas antecipá-la, preparando profissionais capazes de integrar ambientes industriais cada vez mais digitais, automatizados e sustentáveis. A aposta na transformação digital, no fabrico digital, na prototipagem, na modelação tridimensional, na utilização de novas tecnologias de controlo do processo produtivo e no reforço das competências digitais constitui hoje uma componente estruturante da estratégia do Centro. Contudo, inovar não significa abandonar aquilo que continua a ser essencial para a indústria — e para o ofício. As empresas necessitam de especialistas em tecnologias emergentes, mas continuam igualmente a necessitar de operadores qualificados para o trabalho diário em fábrica. Paralelamente, os ceramistas, os ateliers de cerâmica criativa e os profissionais autónomos do setor continuam a procurar formação que combine técnicas tradicionais com novas expressões artísticas e comerciais. Por essa razão, o CENCAL mantém uma oferta especializada que cobre todo o ciclo produtivo da cerâmica — desde a iniciação ao processo cerâmico, conformação manual, roda de oleiro, moldes em gesso, vidragem, decoração, cozedura, controlo laboratorial e controlo de qualidade — mas também formações dirigidas à cerâmica criativa e artesanal: pintura cerâmica, modelação artística, desenvolvimento de linguagens próprias e estratégias comerciais para criadores independentes. Esta conjugação entre tradição, conhecimento técnico, inovação industrial e expressão criativa constitui um dos principais fatores diferenciadores da formação desenvolvida pelo Centro. A proximidade permanente às empresas — e aos criadores — continua a ser o elemento que orienta esta evolução. O levantamento sistemático das necessidades de formação, o contacto regular com o tecido empresarial, com associações de ceramistas e ateliers, e o desenvolvimento de ações à medida permitem ajustar rapidamente conteúdos e metodologias às necessidades concretas do setor. Em 2025 participaram nas ações do CENCAL colaboradores de 743 empresas, pertencentes a 32 setores de atividade, das quais 125 pertencem diretamente ao setor da cerâmica e do
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vidro — incluindo não apenas fábricas, mas também ateliers de cerâmica criativa e profissionais independentes —, demonstrando que o Centro mantém uma forte ligação ao seu setor de especialização em toda a sua dimensão: industrial, artesanal e criativa. Esta capacidade de adaptação explica igualmente o crescimento da formação realizada diretamente nas empresas. Em 2025 foram desenvolvidas 65 ações intraempresa, 30 das quais especificamente dirigidas à cerâmica e ao vidro, permitindo responder de forma rápida e personalizada aos desafios colocados pelos processos produtivos, pela introdução de novas tecnologias, pela atualização técnica das equipas industriais, mas também pelas necessidades de profissionais do setor criativo — que procuram aprofundar competências técnicas, explorar novos processos, ou estruturar estratégias de comunicação e venda. Mais do que ministrar formação, o CENCAL assume-se como parceiro na modernização e competitividade das empresas — e como apoiante do desenvolvimento profissional de criadores e artesãos 4 180 Formandos em 2025 (+1,4% vs 2024)
287 Ações de Formação (102,5% da meta)
743 Empresas-Cliente (32 setores de atividade)
1 206 Formandos em Cerâmica e Vidro (+22% vs 2024)
65 Ações Intraempresa (30 em cerâmica e vidro)
89% Taxa de Sucesso do curso Técnico Cerâmica Criativa
Ao mesmo tempo, o Centro tem vindo a reforçar a formação transversal em áreas como competências digitais, inteligência artificial, tecnologias de informação, gestão, línguas, contabilidade, competências comportamentais e outras áreas estratégicas que hoje fazem parte do quotidiano das empresas industriais. Esta diversificação não representa um afastamento da missão original do CENCAL; representa antes a compreensão de que a competitividade da indústria depende cada vez mais da combinação entre competências técnicas especializadas e competências transversais. É precisamente esta visão que está refletida nas prioridades estratégicas definidas para 2027 Formar os Jovens que a Indústria Precisa Se existe um desafio transversal a praticamente todas as empresas do setor cerâmico, ele prende-se com a dificuldade em atrair e renovar recursos humanos qualificados. A idade média dos profissionais aumenta progressivamente,
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muitos especialistas aproximam-se da reforma e a escassez de jovens interessados em carreiras industriais tornou-se uma preocupação recorrente das empresas. Esta realidade é claramente identificada pelo CENCAL através do contacto permanente com o tecido empresarial. Modeladores, técnicos de cerâmica, técnicos de laboratório, especialistas em desenvolvimento de produto e outros perfis intermédios continuam a ser dos profissionais mais procurados pelas empresas da região, existindo condições efetivas de empregabilidade para quem conclui formação especializada. No entanto, captar jovens para estas qualificações continua a constituir um dos maiores desafios do setor. É neste contexto que o CENCAL reforça em 2027 a aposta na formação inicial, procurando não apenas responder às necessidades imediatas das empresas, mas também contribuir para renovar geracionalmente um setor que continua a ser estratégico para a economia portuguesa Para o público mais jovem, o CENCAL oferece o curso de Aprendizagem em Técnico de Cerâmica Criativa, que confere equivalência escolar ao 12º ano e uma qualificação profissional reconhecida, combinando formação teórica com experiência prática nas empresas, bem como um curso de Aprendizagem+ em Técnico/a Especialista de Tecnologias e Programação de Sistemas de Informação, dirigido a jovens até aos 29 anos. Para adultos com 18 ou mais anos, o CENCAL oferece cursos EFA (Educação e Formação de Adultos), com destaque para as ofertas em Técnico de Laboratório Cerâmica, Pintura Cerâmica e Decoração Cerâmica, que respondem diretamente à carência de profissionais especializados em áreas-chave da indústria, bem como o CET- Técnico de desenvolvimento de modelação e design de produto conferindo uma qualificação de nível 5.
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Sucesso Comprovado: o curso de Técnico Cerâmica Criativa. Numa altura em que o recrutamento para cursos de longa duração se tornou cada vez mais difícil em quase todas as áreas, Cerâmica Criativa continua a atrair candidatos e a produzir resultados excecionais: com uma taxa de sucesso de 90% na última edição concluída, este curso demonstra que quando a oferta formativa está bem alinhada com o gosto e a identidade do setor — focando-se na pintura, decoração e modelação —, os jovens respondem com entusiasmo. Cada técnico formado hoje é uma resposta direta às necessidades de amanhã das empresas da região.
Um investimento que aproxima a formação da realidade industrial Falar de capacitação implica falar das condições em que essa capacitação acontece. A qualidade da formação depende das pessoas, mas também dos ambientes onde estas aprendem. Na indústria cerâmica, formar apenas em contexto de sala já não é suficiente. É necessário proporcionar aos formandos o contacto com equipamentos, processos e metodologias que reproduzam, o mais fielmente possível, a realidade das empresas. Foi precisamente com esta visão que o CENCAL tem vindo a reforçar, de forma consistente, a modernização dos seus espaços e equipamentos. Com um investimento de aproximadamente 1,4 milhões de euros o Centro tem vindo a renovar o seu parque tecnológico, dotando os diferentes polos de recursos alinhados com a evolução da indústria. Cada investimento procura aproximar o processo de aprendizagem das condições reais encontradas nas fábricas. Os equipamentos permitem simular processos industriais, testar matérias-primas, controlar variáveis de fabrico, desenvolver protótipos, experimentar soluções e compreender, em ambiente seguro, o comportamento dos materiais ao longo de todo o processo produtivo. Desta forma, a formação deixa de assentar apenas na transmissão de conhecimento e passa
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a proporcionar experiências práticas que reduzem significativamente a distância entre a aprendizagem e o contexto industrial. O Circuito Fabril do CENCAL constitui hoje um dos melhores exemplos desta filosofia. Mais do que uma oficina de formação, assume-se como um verdadeiro laboratório industrial, onde é possível reproduzir as diferentes fases do processo produtivo, validar procedimentos, testar novas metodologias e desenvolver projetos de demonstração tecnológica. Este espaço é utilizado diariamente na formação inicial e contínua, mas constitui igualmente uma infraestrutura disponível para apoiar empresas em ações de experimentação, demonstração e melhoria de processos, funcionando como uma academia tecnológica onde a inovação pode ser testada antes da sua implementação em contexto produtivo. Esta é uma das características que mais distingue o CENCAL no panorama nacional. A integração de tecnologias de fabrico digital representa igualmente uma nova etapa nesta evolução. A introdução das impressoras 3D veio reforçar as competências na área da modelação, do desenvolvimento de produto e da prototipagem rápida, permitindo que os formandos compreendam como o desenho digital pode ser integrado nos processos tradicionais da indústria cerâmica. O fabrico digital não substitui o saber tradicional; complementa-o e amplia as possibilidades de inovação.
Presença Estratégica: Os Pólos do CENCAL Três polos, uma missão comum A presença territorial do CENCAL constitui outro dos seus fatores diferenciadores. A organização em três polos — Caldas da Rainha, Alcobaça e Marinha Grande — permite responder de forma próxima às necessidades das empresas e das comunidades, preservando simultaneamente uma visão nacional da qualificação para os setores da cerâmica e do vidro. Caldas da Rainha – Centro de conhecimento As Caldas da Rainha acolhem a sede do CENCAL e concentram uma parte significativa da atividade de coordenação e desenvolvimento pedagógico. É também neste pólo que se encontra o Circuito Fabril, espaço privilegiado onde convivem duas dimensões essenciais da cerâmica portuguesa: a indústria moderna e o tradicional. Neste espaço realizam-se formações práticas que abrangem o ciclo completo da produção cerâmica — desde técnicas artesanais como a roda de oleiro, conformação manual, moldes em gesso e decoração manual, até aos processos industrializados de cozedura, controlo laboratorial e fabrico digital. É nesta combinação entre o saber tradicional do ceramista e as tecnologias contemporâneas que os formandos aprendem a trabalhar com impressoras 3D, sistemas de controlo de processos produtivos e ferramentas de design digital. A existência de uma residência com capacidade para cerca de 45 camas permite receber formandos provenientes de todo o país e, em muitos casos, participantes internacionais, tornando possível desenvolver ações especializadas que ultrapassam largamente a dimensão regional do Centro. Esta infraestrutura constitui uma vantagem estratégica, permitindo que empresas, profissionais autónomos, ceramistas e criadores de diferentes regiões tenham acesso às competências técnicas e artesanais desenvolvidas pelo CENCAL. Alcobaça – Qualificar onde a indústria está O polo de Alcobaça representa atualmente um dos principais centros de atividade do CENCAL, beneficiando da proximidade a um tecido empresarial fortemente ligado à cerâmica. Esta localização facilita a realização de formação intraempresa, respostas rápidas às necessidades emergentes e uma ligação permanente às empresas da região. É também neste polo que se tem reforçado a aposta em qualificações dirigidas à renovação geracional da indústria, nomeadamente nas áreas de Pintura e Decoração Cerâmica, procurando responder à crescente dificuldade de
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recrutamento identificada pelas empresas. O objetivo não é apenas formar profissionais, mas criar condições para atrair uma nova geração de técnicos altamente qualificados para um setor em profunda transformação. Marinha Grande – O centro nacional de formação especializada em vidro Na Marinha Grande, o CENCAL desempenha um papel absolutamente singular. Trata-se do único centro de formação profissional em Portugal totalmente especializado no setor do vidro, assumindo uma responsabilidade nacional na preservação e desenvolvimento destas competências. O Plano de Formação para 2027 prevê para este polo 75 ações de formação, abrangendo cerca de de 1 029 formandos, conjugando formação técnica especializada, formação transversal, ensino a distância e uma forte aposta no vidro artístico. Este trabalho é reforçado através de uma rede consolidada de parcerias com instituições de ensino superior, entre as quais a ESAD – Caldas da Rainha, a Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, a Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, a Universidade do Minho, a Universidade da Beira Interior e outras instituições ligadas ao design e às artes. Estas colaborações transformam o CENCAL num espaço de encontro entre a tradição vidreira, a investigação académica e a criatividade contemporânea, promovendo novas abordagens ao desenvolvimento de produto e contribuindo para renovar a imagem das profissões ligadas ao vidro. Conhecimento que se constrói em parceria A inovação não acontece de forma isolada. Num setor onde convivem processos industriais altamente especializados, técnicas artesanais, design, engenharia e investigação aplicada, a capacidade de criar redes de colaboração
tornou-se um fator determinante para a competitividade — tanto das empresas como dos profissionais e criadores independentes. É neste contexto que o CENCAL tem vindo a reforçar a cooperação com instituições de ensino superior, associações empresariais e parceiros tecnológicos, criando condições para que o conhecimento circule entre o centro e a indústria. Mais do que estabelecer protocolos formais, estas parcerias traduzem-se em projetos concretos, experiências práticas e desenvolvimento conjunto de competências que beneficiam estudantes, empresas, criadores e profissionais autónomos. A colaboração com instituições de ensino superior e outras entidades ligadas ao design, às artes e à inovação tem permitido aproximar diferentes áreas do conhecimento de uma realidade que continua a necessitar de criatividade, experimentação e capacidade técnica. Para os estudantes, o CENCAL oferece um laboratório real onde explorar novas linguagens cerâmicas; para os ceramistas e criadores, as parcerias abrem portas a colaborações com designers, investigadores e instituições académicas que enriquecem a sua prática. Esta estratégia continuará a ser aprofundada, estando prevista a manutenção e expansão das parcerias com o ensino superior como uma das prioridades do Plano de Formação para 2027. A colaboração em rede estende-se igualmente ao tecido empresarial, associativo e institucional. A ligação permanente às empresas, aos criadores independentes, ao IEFP, às associações empresariais e a diferentes entidades locais permite ao CENCAL ajustar continuamente a sua oferta formativa às necessidades do mercado, desenvolver formação à medida — tanto de conteúdo industrial como criativo — e promover soluções de qualificação alinhadas com os desafios atuais de toda a cadeia de valor da cerâmica e do vidro português. Esta proximidade constitui um dos pilares da estratégia definida para os próximos anos. Uma Missão que Continua O futuro começa na qualificação A história do CENCAL demonstra que a qualificação nunca foi entendida como uma resposta pontual às necessidades do mercado. Hoje, os desafios são diferentes daqueles que marcaram a sua criação e obrigam a repensar permanentemente a forma como se ensina, se aprende e se trabalha. O Plano de Formação 2027 assume estes desafios como prioridades estratégicas, reforçando a aposta na modernização tecno-
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lógica, na inovação pedagógica, na internacionalização, na sustentabilidade e na valorização dos setores da cerâmica e do vidro. Contudo, permanece uma convicção que atravessa toda a história do CENCAL: nenhuma tecnologia substitui o conhecimento das pessoas. São elas que concebem produtos, resolvem problemas, melhoram processos, inovam e garantem que a indústria portuguesa continua a afirmar-se nos mercados internacionais. É por isso que formar continua a ser muito mais do que transmitir conhecimentos técnicos. Significa criar oportunidades de desenvolvimento profissional, aumentar a competitividade das empresas, preservar o saber-fazer acumulado ao longo de gerações e preparar o setor para responder aos desafios das próximas décadas.
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Mais de quarenta anos após a sua criação, o CENCAL continua a assumir essa missão com o mesmo propósito que esteve na origem da sua fundação: estar ao lado das empresas, antecipar necessidades, desenvolver competências e contribuir para que a cerâmica e o vidro portugueses continuem a ser reconhecidos pela sua qualidade, capacidade de inovação e excelência técnica. Porque, numa indústria em permanente transformação, capacitar pessoas continua a ser a forma mais segura de transformar o futuro. "Continuar a estar perto das empresas, ouvir as suas necessidades e transformá-las em formação de qualidade — seja num torno tradicional ou junto de uma impressora 3D."
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C A PA C I TA R É TA M B É M RECONHECER
por Carla Fer reira, Coordenadora do Centro Qualifica do CENCAL — Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica
A experiência profissional também constrói conhecimento. No CENCAL, o RVCC Profissional permite reconhecer e certificar competências adquiridas ao longo de uma vida de trabalho, transformando-se num instrumento para valorizar a experiência, certificar competências e contribuir para preservar o saber-fazer da indústria cerâmica e do vidro. Quando falamos de capacitação, pensamos muitas vezes em formação, novos conhecimentos e novas competências. Mas há outra dimensão que importa valorizar: aquilo que se aprende ao longo da vida profissional, através da prática, da experiência e dos desafios que cada profissão coloca. Na cerâmica e no vidro, esta realidade é particularmente evidente. Há profissionais que construíram o seu percurso sobretudo através do trabalho, aprendendo com a prática, procurando soluções, experimentando e aperfeiçoando técnicas. Há conhecimentos que se aprendem na formação, outros aprendem-se com quem sabe fazer. Uma parte importante deste conhecimento passa também de geração em geração. Aprende-se com os profissionais mais experientes, com os mestres do ofício, observando os seus gestos, os seus métodos de trabalho e a forma como enfrentam problemas que a experiência lhes ensinou a reconhecer. É um saber-fazer que se constrói no dia a dia e que constitui um património importante para a cerâmica e para o vidro. É neste contexto que o Centro Qualifica do CENCAL assume um papel fundamental através dos processos de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) Profissional.
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O RVCC permite aos adultos reconhecer e validar competências adquiridas ao longo da vida, tendo por referência as competências previstas nos respetivos referenciais de qualificação. Para quem possui um percurso profissional longo, pode representar a oportunidade de dar um reconhecimento formal às competências que foi construindo através da experiência. Os próprios testemunhos de quem passou por este processo mostram diferentes razões para procurar a certificação: “Toda a aprendizagem que adquiri ao longo da minha carreira profissional foi um processo de formação contínua. Ao longo dos muitos anos de prática, encarei as dificuldades como novos desafios e foi com trabalho e pesquisa que as superei.” - Técnico de Modelação Cerâmica A procura deste reconhecimento pode surgir em diferentes momentos do percurso profissional. Pode representar a valorização de décadas de experiência, mas também constituir um desafio pessoal e uma motivação para continuar a evoluir. “Reconhecer e validar os conhecimentos e as competências adquiridas ao longo de cerca de 36 anos de atividade profissional, a par das escolares, tornou-se um imperativo, mas também um desafio. Imperativo, na medida em que esse reconhecimento institucional estimula a evolução profissional e, consequentemente, a motivação para continuar. Desafio, porque senti necessidade de me superar.” - Técnico de Modelação Cerâmica Para outros adultos, a certificação representa a concretização de um percurso profissional marcado pela dedicação e pela experiência:“Tem sido uma vida de muita dedicação a esta profissão, mas só com esta certificação vou
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conseguir o que está em falta na minha realização profissional.” - Técnica de Cerâmica E há quem veja na certificação não um ponto de chegada, mas uma oportunidade para avançar: “Com este projeto, vejo realizado o meu desejo de obter uma certificação profissional pela experiência e conhecimentos que adquiri ao longo da minha carreira. Alcançado este objetivo, obtenho ferramentas para poder ambicionar novos projetos e alargar as minhas perspetivas futuras, tanto a nível profissional como pessoal.” - Pintora/Decoradora de Cerâmica São percursos diferentes, mas com um ponto em comum: a vontade de ver reconhecidas competências que foram sendo construídas ao longo dos anos. Estes testemunhos traduzem diferentes dimensões do RVCC: aprendizagem ao longo da vida, reconhecimento de competências, superação, valorização profissional e desenvolvimento de competências. No CENCAL, o Centro Qualifica desenvolve processos de RVCC Profissional nas áreas da Cerâmica e do Vidro, em qualificações que abrangem diferentes funções e saberes do setor. O RVCC permite, assim, valorizar não apenas a experiência individual de cada adulto, mas também o conhecimento técnico que existe nas empresas e que é fundamental para a continuidade das profissões.
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O CENCAL pretende ainda alargar a sua resposta a novas necessidades de qualificação, acompanhando a atualização do Catálogo Nacional de Qualificações e a disponibilização dos respetivos referenciais. Conheça as ofertas de qualificação do CENCAL. https://cencal.pt/dynamiccontents/show/190.html Para os profissionais do setor (adultos), o RVCC pode significar o reconhecimento formal de um percurso de qualificação construído ao longo da vida. Para as empresas, permite valorizar competências e conhecimento existentes. Para o setor, contribui para preservar saberes técnicos fundamentais e assegurar a sua transmissão às novas gerações. Capacitar é, por isso, também reconhecer. Reconhecer quem aprendeu através da experiência, valorizar o saber-fazer, dar visibilidade às competências adquiridas ao longo da vida e criar condições para que o conhecimento acumulado na indústria cerâmica e do vidro, continue a evoluir e a sustentar novos percursos de qualificação e desenvolvimento profissional. No CENCAL, o Centro Qualifica contribui para transformar experiência em reconhecimento, competências em qualificação e conhecimento em futuro.
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L A B O R AT Ó R I O S E C A PA C I TA Ç Ã O
por Mar ia Manuela Baroso, Responsável do Laboratório CENCAL — Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica
O Laboratório do CENCAL - Conhecimento, confiança e inovação ao serviço da cerâmica portuguesa
Ao longo dos anos, o laboratório expandiu progressivamente a sua atividade, desenvolvendo serviços de apoio técnico nas próprias empresas, participando em projetos de investigação, colaborando com universidades, formando consultores especializados e acompanhando a evolução tecnológica do setor.
O nascimento de um laboratório ao serviço da indústria A história do Laboratório do CENCAL confunde-se com a própria evolução da indústria cerâmica portuguesa. Em meados da década de 1980, tornou-se evidente a necessidade de criar uma estrutura técnica especializada, capaz de apoiar as empresas no controlo da qualidade, no desenvolvimento de produtos e na resposta às exigências crescentes dos mercados internacionais. Foi neste contexto que, em 1985, surgiu o Laboratório do CENCAL, concebido desde o início como uma infraestrutura de apoio simultâneo à formação profissional e à indústria cerâmica. Logo em 1986, o laboratório solicitou ao Instituto Português da Qualidade a acreditação para a realização de ensaios destinados à determinação dos teores de chumbo e cádmio em materiais em contacto com alimentos, tornando-se o primeiro laboratório de cerâmica acreditado em Portugal. Esta acreditação constituiu um marco decisivo para o setor, permitindo às empresas portuguesas dispor de um parceiro técnico capaz de emitir boletins de análise reconhecidos internacionalmente e de assegurar uma resposta rápida às exigências dos mercados de exportação.
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Um laboratório pensado para a realidade industrial Desde 1987, o Laboratório do CENCAL mantém a sua acreditação, atualmente segundo a norma NP EN ISO/IEC 17025, constituindo uma referência nacional no domínio dos ensaios aplicados à indústria cerâmica. Ao longo deste percurso, centenas de empresas recorreram aos seus serviços, confiando na competência técnica, no rigor dos resultados e na capacidade de resposta da equipa. O laboratório dispõe atualmente de uma estrutura técnica e de um conjunto de equipamentos que permitem responder às necessidades específicas das empresas produtoras de loiça utilitária e decorativa. A atividade desenvolve-se em três áreas fundamentais: - Ensaios de controlo do processo produtivo; - Ensaios de caracterização do produto acabado; - Apoio técnico especializado e desenvolvimento de soluções à medida. No âmbito do controlo do processo, são realizados ensaios a matérias-primas, pastas e vidrados, incluindo análises granulométricas, estudos dilatométricos, caracterização de pastas e determinação de propriedades físicas e mecânicas. No domínio da caracterização do produto acabado, o laboratório executa ensaios relacionados com a resistência ao
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choque térmico, ao forno, à máquina de lavar loiça, ao micro-ondas, ao impacto, à lascagem, à autoclave e ao metal marking, bem como ensaios destinados à determinação da libertação de metais pesados. Conhecer as normas para compreender os mercados A internacionalização da indústria cerâmica portuguesa trouxe consigo um novo desafio: a necessidade de conhecer e interpretar um conjunto cada vez mais vasto de normas, regulamentos e requisitos técnicos específicos de cada mercado. A experiência acumulada pelo Laboratório do CENCAL permitiu construir um conhecimento profundo das exigências técnicas aplicáveis aos diferentes países e aos respetivos sistemas regulamentares. Esta capacidade constitui uma mais-valia para as empresas. Mais do que emitir relatórios, o laboratório procura compreender as necessidades concretas de cada cliente e adaptar os seus serviços às características específicas dos produtos e dos processos produtivos. Conhecimento técnico e proximidade às empresas A relação de proximidade estabelecida ao longo de décadas constitui um dos principais fatores distintivos do Laboratório do CENCAL. O profundo conhecimento da realidade industrial, das matérias-primas, dos processos produtivos e das especificidades das empresas portuguesas permite identificar problemas, compreender as suas causas e propor soluções adequadas. Muitas vezes, a atividade do laboratório ultrapassa a simples realização de ensaios. A interpretação dos resultados, a análise dos processos produtivos e a partilha de conhecimento conduzem frequentemente à introdução de melhorias nos produtos, à otimização de processos e ao aumento da competitividade das empresas. Esta relação de confiança permitiu ao laboratório acompanhar a evolução de inúmeras organizações, muitas das quais recorrem aos seus serviços desde a década de 1980. A importância da capacitação dos técnicos de laboratório Um dos maiores desafios atualmente enfrentados pela indústria cerâmica é a crescente dificuldade em atrair e reter jovens profissionais qualificados. Esta dificuldade associada à saída progressiva de profissionais experientes, coloca às empresas um desafio que não pode ser resolvido apenas através da contratação. É necessário criar competências dentro das próprias
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organizações e garantir a transmissão do conhecimento entre gerações. Esta realidade é particularmente evidente na área laboratorial, onde o conhecimento técnico resulta da conjugação entre formação especializada, experiência prática e contacto direto com os processos produtivos. Um laboratório industrial não é apenas um espaço equipado com instrumentos de medição e ensaio. A qualidade dos resultados depende, em grande medida, da competência de quem prepara as amostras, executa os ensaios, avalia os resultados, identifica desvios e compreende a relação entre o comportamento laboratorial e o processo produtivo. Desde 1986, o CENCAL tem desempenhado um papel determinante na formação de técnicos de laboratório para a indústria cerâmica portuguesa. Muitos dos profissionais que atualmente exercem funções em laboratórios industriais iniciaram o seu percurso profissional através da formação ministrada pelo Centro. A formação ministrada pelo CENCAL distingue-se pela forte componente prática, pela qualidade e experiência dos formadores e pela utilização de equipamentos idênticos aos existentes nas empresas. Este modelo permite reproduzir, em contexto formativo, as condições reais de trabalho, facilitando a integração dos formandos no mercado de trabalho e contribuindo para a redução do tempo necessário à sua adaptação às funções desempenhadas. Uma infraestrutura preparada para o futuro A evolução da indústria cerâmica exige laboratórios cada vez mais especializados, capazes de responder a desafios relacionados com a sustentabilidade, a segurança dos produtos, a digitalização dos processos e a crescente exigência dos mercados internacionais. Ao longo dos anos, o Laboratório do CENCAL tem investido continuamente na modernização das suas instalações e na aquisição de novos equipamentos, assegurando às empresas o acesso a metodologias de ensaio atualizadas e a serviços tecnicamente diferenciadores. Num setor em permanente evolução, o futuro continuará a depender das pessoas, do conhecimento e da capacidade de transformar desafios em oportunidades. E é precisamente essa a missão que o Laboratório do CENCAL continuará a assumir: estar ao lado das empresas, apoiar a inovação, transmitir conhecimento e contribuir para o desenvolvimento sustentável da indústria cerâmica portuguesa
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Assuntos Europeus
C O M O S Ã O AT R I B U Í D O S O S AU X Í L I O S D E E S TA D O À S DIFERENTES INDÚSTRIAS
por Cr istiana Costa Claro, Ambiente, Sustentabilidade e Assuntos Europeus na APICER
"Porque é que um fabricante de azulejos pode beneficiar da compensação dos custos indiretos do Sistema de Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE), enquanto uma empresa de louça sanitária, cerâmica utilitária e decorativa, cerâmica estrutural ou refratários não tem acesso ao mesmo mecanismo? E porque é que alguns subsetores podem recorrer a vários instrumentos de apoio, enquanto outros apenas são elegíveis para determinadas medidas de descarbonização?" À primeira vista, estas diferenças parecem difíceis de compreender. Afinal, todas estas atividades pertencem à indústria cerâmica, enfrentam desafios semelhantes em matéria de consumo energético e competem num mercado global cada vez mais exigente. A explicação encontra-se na arquitetura da política europeia de auxílios de Estado. A elegibilidade para estes apoios não depende da dimensão da empresa, do Estado-Membro onde está instalada ou da importância económica de determinado subsetor. Resulta da aplicação de critérios objetivos definidos pela Comissão Europeia, baseados na intensidade comercial, na eletrointensidade e no risco de fuga de carbono (carbon leakage), calculados para cada atividade económica através da respetiva classificação NACE. É esta metodologia que explica porque um subsetor pode beneficiar da compensação dos custos indiretos do CELE, enquanto outro, apesar de recorrer a processos produtivos semelhantes, apenas pode aceder a apoios destinados à eficiência energética ou à descarbonização. Nos últimos anos, este enquadramento tornou-se mais abrangente. À medida que a União Europeia reforçou os seus objetivos de neutralidade climática e lançou novas iniciativas de política industrial, foram surgindo diferentes regimes de apoio destinados a compensar os custos do carbono, reduzir os encargos da eletricidade, promover investimentos de
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descarbonização e responder às sucessivas crises energéticas. Compreender estes instrumentos deixou, por isso, de ser apenas uma questão jurídica. É também uma forma de identificar oportunidades de financiamento, antecipar alterações regulamentares e perceber porque o enquadramento aplicável varia entre os diferentes subsetores da indústria cerâmica. Porque existem auxílios de Estado para a indústria? A União Europeia assumiu o compromisso de alcançar a neutralidade carbónica até 2050, reforçando progressivamente as metas de redução das emissões através do Pacto Ecológico Europeu, da Lei Europeia do Clima, do pacote Fit for 55 e, mais recentemente, do Clean Industrial Deal. Esta estratégia exige uma profunda transformação dos processos industriais, baseada na eficiência energética, na eletrificação, na utilização de combustíveis de baixo carbono e na adoção de novas tecnologias. Para a indústria cerâmica, esta transição representa um desafio significativo. A produção depende de processos térmicos de elevada intensidade energética e muitas empresas competem com produtores localizados em países onde os custos da energia e as exigências ambientais são inferiores. É neste contexto que ganha relevância o conceito de fuga de carbono (carbon leakage): a deslocação da produção para países com regras ambientais menos exigentes, reduzindo as emissões contabilizadas na União Europeia sem diminuir — e podendo até aumentar — as emissões globais.
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Para evitar esse efeito, a Comissão Europeia desenvolveu vários instrumentos de auxílio destinados aos setores mais expostos aos custos da transição climática. Uns compensam os custos indiretos do mercado europeu do carbono; outros reduzem encargos energéticos ou apoiam investimentos em eficiência energética e descarbonização. Daí resultam diferentes regimes jurídicos e diferentes critérios de elegibilidade. Como decide a Comissão Europeia quem pode beneficiar? Os diferentes regimes de auxílios de Estado não distinguem empresas nem Estados-Membros. O que a Comissão Europeia avalia é o grau de exposição de cada atividade económica aos efeitos da transição climática e da concorrência internacional. A análise é efetuada ao nível dos códigos NACE, recorrendo a indicadores harmonizados para toda a União Europeia. Entre eles destacam-se: • Intensidade comercial, que mede a exposição de um setor à concorrência internacional; • Eletrointensidade, que avalia o peso da eletricidade nos custos de produção; • Risco de fuga de carbono, resultante da combinação dos dois indicadores anteriores. Quanto maior for a exposição simultânea à concorrência internacional e aos custos energéticos, maior tende a ser a probabilidade de determinado setor beneficiar de mecanismos de apoio. Em síntese, a elegibilidade não depende da dimensão da empresa, do número de trabalhadores ou do país onde está instalada, mas da avaliação objetiva destes indicadores para cada código NACE à escala europeia. Regimes de auxílio de Estado A política europeia de auxílios de Estado evoluiu em paralelo com a política climática e industrial da União Europeia. À medida que surgiram novos desafios — o aumento do preço das licenças de emissão, a crise energética e a necessidade de acelerar a descarbonização da indústria — foram criados diferentes instrumentos de apoio, cada um dirigido a uma necessidade específica. As ETS State Aid Guidelines destinam-se a compensar os custos indiretos do Sistema de Comércio Europeu de Licenças de Emissão (EU ETS), refletidos no preço da eletricidade consumida pelas indústrias eletrointensivas.
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As Climate, Energy and Environmental Aid Guidelines (CEEAG) têm um âmbito mais alargado, permitindo aos Estados-Membros apoiar investimentos em proteção ambiental, eficiência energética, economia circular e descarbonização, bem como reduzir determinados encargos associados ao consumo de eletricidade. O Clean Industrial Deal State Aid Framework (CISAF) representa uma evolução desta abordagem. Além de prever medidas temporárias para reduzir os custos da eletricidade, privilegia o apoio a investimentos capazes de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e melhorar a eficiência energética, independentemente da tecnologia utilizada. Por sua vez, o Middle East Crisis Temporary State Aid Framework (METSAF) constitui um instrumento excecional e temporário, criado para responder aos efeitos da instabilidade geopolítica e da volatilidade dos mercados energéticos. Embora tenham objetivos distintos, todos estes regimes assentam no mesmo princípio: apoiar a competitividade da indústria europeia durante a transição climática, compensando desvantagens resultantes das políticas ambientais ou incentivando a modernização tecnológica. Nem todos os subsetores partem da mesma posição Apesar de frequentemente tratada como um único setor, a indústria cerâmica apresenta realidades muito diferentes quando se analisam as regras europeias em matéria de auxílios de Estado. Cada atividade é avaliada autonomamente através do respetivo código NACE. Consequentemente, empresas que utilizam processos produtivos semelhantes podem beneficiar de enquadramentos muito distintos. O fabrico de azulejos e ladrilhos cerâmicos (C2331) é atualmente o subsetor com o enquadramento mais favorável. Além de integrar a lista de atividades elegíveis para a compensação dos custos indiretos do EU ETS, pode beneficiar dos restantes regimes de apoio previstos nas CEEAG, no CISAF e no METSAF. Os setores dos refratários, da louça sanitária, dos isoladores cerâmicos, da cerâmica técnica e de outros produtos cerâmicos encontram-se numa posição intermédia. Embora possam beneficiar das medidas previstas nas CEEAG e dos apoios ao investimento contemplados no CISAF, permanecem excluídos da compensação dos custos indiretos do ETS. Mais restritiva é a situação dos fabricantes de tijolos, telhas e tubos cerâmicos, classificados apenas como atividades "em risco", o que limita o acesso a alguns mecanismos
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de apoio. Ainda assim, continuam elegíveis para projetos de investimento em descarbonização ao abrigo do CISAF. Também a cerâmica utilitária e decorativa, não reúne os indicadores necessários para beneficiar da maioria dos regimes analisados, podendo recorrer essencialmente aos apoios horizontais ao investimento previstos no CISAF. Esta diversidade demonstra que a elegibilidade não depende da natureza industrial da atividade, mas da avaliação objetiva efetuada pela Comissão Europeia para cada subsetor económico.
É precisamente nesta avaliação que surgem as diferenças entre os diversos subsetores da indústria cerâmica. Segundo a informação disponibilizada pela Cerame-Unie, apenas o fabrico de azulejos e ladrilhos cerâmicos reúne atualmente os indicadores necessários para integrar o Anexo I das ETS State Aid Guidelines, situação que foi alcançada na sequência da revisão destas orientações, concluída no final de 2025.
Figura 1 • Critérios de elegibilidade da Comissão Europeia para os auxílios de estado.
Porque apenas o subsetor dos pavimentos e revestimentos beneficiam da compensação dos custos indiretos do EU ETS? Esta é, provavelmente, a questão que mais dúvidas suscita entre as empresas da indústria cerâmica. À primeira vista, pode parecer difícil compreender porque motivo apenas o fabrico de azulejos e ladrilhos cerâmicos (NACE C2331) beneficia atualmente da compensação dos custos indiretos do Sistema de Comércio Europeu de Licenças de Emissão (EU ETS), enquanto outros subsetores, igualmente intensivos em energia, permanecem excluídos. A explicação não reside na natureza dos produtos fabricados nem resulta de uma opção arbitrária da Comissão Europeia ou dos Estados-Membros. A elegibilidade decorre da aplicação de critérios quantitativos estabelecidos nas ETS State Aid Guidelines, assentes em indicadores económicos e energéticos harmonizados para toda a União Europeia.
O principal objetivo deste regime consiste em compensar parte dos custos indiretos que o Sistema de Comércio Europeu de Licenças de Emissão repercute no preço da eletricidade. No entanto, para evitar distorções da concorrência e assegurar que os apoios se destinam aos setores mais expostos, a Comissão Europeia limita a elegibilidade às atividades que demonstram, simultaneamente, uma forte exposição ao comércio internacional e uma elevada intensidade das emissões indiretas associadas ao consumo de eletricidade. Assim, para integrar a lista de setores elegíveis constante do Anexo I das ETS State Aid Guidelines, uma atividade económica deve cumprir critérios objetivos, designadamente: • uma intensidade comercial superior a 20%; • uma intensidade das emissões indiretas superior a 0,32 kg CO₂ por euro de valor acrescentado; • um indicador de fuga indireta de carbono (resultante do produto daqueles dois fatores) superior a 0,064.
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Pelo contrário, subsetores como a louça sanitária e a cerâmica utilitária e decorativa continuam a apresentar indicadores de intensidade das emissões indiretas inferiores aos limiares definidos pela Comissão Europeia. Apesar de partilharem processos produtivos intensivos em energia, os dados estatísticos utilizados pela Comissão não permitem, por enquanto, classificá-los entre os setores elegíveis para este mecanismo específico de compensação. Importa igualmente salientar que esta avaliação é efetuada à escala da União Europeia. Os indicadores utilizados resultam de dados harmonizados, não sendo calculados para cada empresa individualmente nem para cada Estado-Membro. Consequentemente, um país não pode, por iniciativa própria, incluir novos subsetores na lista de beneficiários caso estes não cumpram os critérios estabelecidos ao nível europeu. Contudo, isso não significa que a situação seja definitiva. A revisão periódica dos indicadores económicos e energéticos, bem como a eventual atualização dos dados estatísticos europeus, poderá conduzir a uma reavaliação da elegibilidade de alguns subsetores. Uma política cada vez mais orientada para o investimento A evolução dos diferentes regimes de auxílios de Estado revela uma mudança profunda na política industrial europeia. Durante muitos anos, o principal objetivo consistiu em compensar os custos adicionais que as empresas suportavam em consequência das políticas climáticas, nomeadamente através da compensação dos custos indiretos do Sistema de Comércio Europeu de Licenças de Emissão (EU ETS). Embora este mecanismo continue a desempenhar um papel importante para os setores mais expostos ao risco de fuga de carbono, a prioridade passou gradualmente a ser outra: criar condições para que a própria indústria acelere a sua transformação. Esta mudança é particularmente evidente no Clean Industrial Deal State Aid Framework (CISAF). Ao contrário dos regimes mais antigos, centrados na compensação de custos, o CISAF privilegia o apoio ao investimento em tecnologias que reduzam estruturalmente as emissões de gases com efeito de estufa e melhorem a eficiência energética das instalações industriais. Para a indústria cerâmica, esta evolução representa uma oportunidade significativa. A descarbonização do setor dependerá da modernização dos processos produtivos, da recuperação de calor, da eletrificação progressiva dos processos
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térmicos, da integração de energias renováveis e, em alguns casos, da utilização de combustíveis de baixo carbono. Todos estes investimentos exigem recursos financeiros elevados e envolvem riscos tecnológicos que dificilmente poderão ser suportados apenas pelas empresas. Neste contexto, os auxílios de Estado deixam de ser apenas mecanismos de compensação financeira e assumem um papel central na política industrial europeia, reduzindo o risco do investimento e acelerando a adoção de tecnologias mais eficientes e sustentáveis. Ao mesmo tempo, importa reconhecer que este enquadramento continua em evolução. A revisão periódica dos indicadores utilizados pela Comissão Europeia poderá conduzir à reavaliação da elegibilidade de alguns subsetores da indústria cerâmica, em função da evolução da eletrointensidade, da intensidade comercial e do risco de fuga de carbono. Neste processo, a disponibilidade de dados estatísticos representativos e o trabalho desenvolvido pelas associações setoriais junto das instituições europeias continuarão a ser determinantes. A tendência parece, contudo, claramente definida. Os futuros instrumentos de apoio privilegiarão cada vez mais projetos que demonstrem ganhos efetivos de eficiência energética, redução das emissões, eletrificação dos processos industriais, utilização de energias renováveis, circularidade dos materiais e inovação tecnológica. Para as empresas da indústria cerâmica, isto significa que a competitividade dependerá cada vez menos da capacidade de aceder a mecanismos de compensação e cada vez mais da capacidade de preparar projetos de investimento tecnicamente sólidos e alinhados com as prioridades da política industrial europeia. Conclusão Os auxílios de Estado constituem hoje uma das principais ferramentas da União Europeia para conciliar a descarbonização da economia com a competitividade da indústria. No setor da cerâmica, o acesso a estes instrumentos depende de critérios objetivos que diferem entre os vários subsetores e enquadramentos regulamentares. Compreender essa lógica é essencial para interpretar corretamente as oportunidades de financiamento, antecipar futuras alterações legislativas e preparar investimentos compatíveis com as prioridades definidas pela Comissão Europeia. Mais do que acompanhar a evolução de cada regime de auxílio, importa compreender a direção seguida pela política industrial europeia. Se, numa primeira fase, o objetivo era sobretudo compensar os custos
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C E L E E X P L I C A D O : O Q U E VA I M U D A R ? P R O P O S TA D A C O M I S S Ã O E U R O P E I A E P E R S P E T I VA S D A INDÚSTRIA CERÂMICA
por Magdalena Bień e Giacomo Garzotti, Cerame-Unie
Em 17 de junho de 2026, a Comissão Europeia publicou a sua proposta de revisão da Diretiva CELE, que deverá introduzir uma reforma, há muito aguardada, do comércio de licenças de emissão na União Europeia. Com o horizonte no período posterior a 2030, a proposta pretende alinhar o CELE com a meta climática da UE para 2040, aplicável ao conjunto da economia — uma redução de 90% das emissões de gases com efeito de estufa face aos níveis de 1990 —, procurando simultaneamente reforçar a resiliência económica e a competitividade da Europa após as crises mais recentes: a pandemia de COVID-19, o início da guerra na Ucrânia, o aumento acentuado do preço do gás natural e a consequente crise inflacionista. A indústria cerâmica europeia representa cerca de 10% de todas as instalações abrangidas pelo CELE, embora seja responsável por apenas 1% do total das emissões industriais, uma vez que a maioria das instalações cerâmicas é constituída por pequenos emissores, com emissões inferiores a 25 000 toneladas de CO₂ por ano. Num contexto de crescente concorrência mundial e de aumento dos preços da energia e do carbono na UE, a revisão da Diretiva CELE constitui um marco decisivo para o futuro da indústria cerâmica e um momento determinante para a competitividade e a sustentabilidade dos setores europeus com utilização intensiva de energia. Medidas positivas na direção certa, mas ainda insuficientes A proposta da Comissão responde de forma adequada a algumas das principais preocupações da indústria. Em primeiro lugar, prevê uma trajetória mais lenta para o Fator de Redução Linear (FRL), que determina a redução anual do número de licenças disponíveis no mercado. O FRL encontra-se atualmente fixado em 4,3%
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e aumentará para 4,4% entre 2028 e 2030. A Comissão propõe agora reduzi-lo para 3,7% no período de 2031 a 2035 e para 1,7% a partir de 2036, altura em que será igualmente considerada a contribuição dos créditos internacionais de carbono para o cumprimento dos objetivos de descarbonização da UE. Um FRL mais lento permitiria apoiar uma trajetória de descarbonização mais realista para as instalações abrangidas pelo CELE, desde que estejam reunidas as condições necessárias para o efeito. É igualmente essencial que o CELE continue a assegurar uma proteção eficaz e robusta contra a fuga de carbono, isto é, a deslocalização da produção para países com políticas climáticas menos exigentes ou inexistentes. Neste sentido, a proposta de manutenção da atual lista de setores expostos ao risco de fuga de carbono e de prolongamento da atribuição gratuita de licenças até 2040 e para além dessa data representa um passo positivo. Contudo, condicionar o acesso à atribuição gratuita à realização de investimentos em descarbonização na Europa poderá comprometer a capacidade do CELE para proteger os setores expostos à fuga de carbono. Acima de tudo, o reforço da competitividade europeia e a aceleração da descarbonização industrial não podem ser alcançados à custa de uma proteção eficaz contra a fuga de carbono. Atribuição gratuita adequada e continuada aos setores expostos à fuga de carbono, sem condições A proposta de introdução de condições para a atribuição gratuita de licenças suscita várias preocupa-
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ções. Na sua configuração atual, a atribuição gratuita é um instrumento previsto pelo CELE para responder ao risco de fuga de carbono das instalações expostas, garantindo, assim, as condições básicas necessárias à viabilidade das suas operações e à manutenção da produção na Europa. A atribuição gratuita procura compensar a diferença na tarifação do carbono entre os fabricantes europeus e os de países terceiros, uma vez que estes últimos não estão, em geral, sujeitos a um preço do carbono ou suportam um valor muito inferior ao praticado no âmbito do CELE. Ainda assim, a Comissão Europeia propõe que a atribuição gratuita fique condicionada à realização de investimentos em tecnologias limpas na Europa, que as instalações abrangidas terão de concretizar para receberem licenças durante cada período de atribuição. Na prática, os operadores receberão apenas 80% da sua atribuição gratuita após apresentarem e validarem um «Plano de Investimento na Descarbonização da UE», no qual deverão indicar os investimentos previstos e as metas de redução de emissões. Os restantes 20% apenas serão atribuídos numa fase posterior, caso os investimentos relevantes tenham sido executados dentro do prazo e cumpram as metas de descarbonização previstas. Serão igualmente introduzidas disposições específicas que obrigam os operadores, em determinadas circunstâncias, a devolver licenças recebidas gratuitamente. Embora a atribuição gratuita seja um instrumento essencial para preservar a competitividade dos fabricantes europeus face aos produtores de países terceiros, a viabilidade de um investimento em descarbonização na Europa depende de vários fatores. Entre estes incluem-se a disponibilidade de fontes alternativas de energia a preços acessíveis; a maturidade tecnológica e a viabilidade económica das soluções e tecnologias de
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descarbonização; a existência de uma procura estável e sólida de produtos com baixo teor de carbono; e a disponibilidade das infraestruturas energéticas necessárias, incluindo as ligações às redes de energia. Quando estas condições estão reunidas, os operadores conseguem planear investimentos de longo prazo na descarbonização. Reduzir a atribuição gratuita antes de estarem reunidas as condições básicas para a descarbonização das indústrias europeias com utilização intensiva de energia não incentivará o investimento. Pelo contrário, apenas aumentará os custos suportados pelos fabricantes europeus, diminuindo a sua competitividade e conduzindo, em última instância, a uma maior deslocalização da produção para fora da UE. A imposição destas condições prejudicaria igualmente a previsibilidade do CELE, uma vez que, no início de cada período de atribuição, os operadores não conheceriam o montante preliminar exato das licenças que receberiam gratuitamente, nem saberiam se poderiam vir posteriormente a ser obrigados a devolvê-las por incumprimento de determinadas metas ou condições. Também neste caso, sem uma solução estável e previsível para responder à fuga de carbono e garantir que a produção se mantém competitiva na UE, as empresas não conseguirão planear investimentos de longo prazo na descarbonização, podendo estes acabar por ser adiados. Os parâmetros de referência do CELE devem refletir o potencial de descarbonização da indústria Embora a atualização dos parâmetros de referência do CELE para o período entre 2026 e 2030 continue a ocupar um lugar central nos debates em Bruxelas e nas capitais dos Estados-Membros, a Comissão Europeia aborda igualmente a forma como estes parâmetros — que determinam o montante de licenças gratuitas atribuído a cada instalação — serão definidos no quadro posterior a 2030. Em particular, a Comissão pretende introduzir definições específicas por setor para os parâmetros de referência alternativos relativos ao calor e aos combustíveis, com o objetivo de refletir melhor as capacidades operacionais concretas dos setores e das instalações não abrangidos por parâmetros específicos de produto. A introdução de parâmetros de referência alternativos específicos por setor constitui um avanço positivo. Contudo, poderá não ser suficiente para garantir que os parâmetros do CELE refletem de forma realista o po-
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tencial de descarbonização e as capacidades operacionais dos diferentes setores. A Comissão não pretende alterar a metodologia de cálculo dos parâmetros de referência, que se baseia nos 10% de instalações com melhor desempenho abrangidas por cada parâmetro. A metodologia de avaliação comparativa deverá garantir que, na atualização dos parâmetros de referência, apenas são consideradas instalações que operam em condições representativas do setor ou subsetor em causa, tendo devidamente em conta a disponibilidade e a acessibilidade económica das fontes alternativas de energia em toda a UE. Com efeito, a maioria dos processos produtivos da indústria cerâmica caracteriza-se por condicionantes tecnológicas específicas e por opções limitadas, tanto em termos técnicos como económicos, para reduzir as emissões associadas à combustão¹. Estas limitações não podem ser ignoradas na definição dos parâmetros de referência do CELE.
Poderá o CBAM constituir uma solução para os riscos de fuga de carbono? A proposta da Comissão assume igualmente o compromisso de rever a eliminação gradual da atribuição gratuita de licenças aos setores abrangidos pelo Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM), cuja fase definitiva entrou em vigor em 1 de janeiro de 2026. Até ao momento, os produtos cerâmicos não estão incluídos no âmbito do CBAM, embora a Comissão venha a considerar uma eventual extensão horizontal a partir do final de 2027. Na atual proposta da Comissão, relativamente aos setores já abrangidos pelo CBAM, a eliminação gradual da atribuição gratuita é abrandada, passando a atingir zero em 2038, em vez de 2034. Os setores que venham a ser incluídos no CBAM numa fase posterior seguirão uma trajetória distinta, assegurando condições equivalentes para os operadores.
Fuga de carbono no CELE 2: uma questão ur-
Apesar deste ajustamento positivo, ainda que bastante limitado, continua por demonstrar que o CBAM poderá funcionar efetivamente como uma alternativa viável à atribuição gratuita para os setores fortemente expostos à fuga de carbono e assegurar uma proteção adequada aos fabricantes europeus. Esta questão é particularmente crítica para as indústrias fortemente orientadas para a exportação, que representam uma parte significativa da indústria cerâmica europeia, nomeadamente nos subsetores dos pavimentos e revestimentos, dos produtos refratários e da cerâmica técnica. Embora o CBAM introduza uma taxa sobre o carbono incorporado nos produtos importados de países terceiros para a UE, não prevê qualquer medida destinada a assegurar a competitividade dos produtos fabricados no Mercado Único Europeu e posteriormente exporta-
gente Embora a fuga de carbono seja tratada ao nível da UE no âmbito do CELE 1, o mesmo ainda não acontece relativamente às instalações abrangidas pelo CELE 2. Mais de 400 instalações cerâmicas estão incluídas no âmbito do CELE 2 — que abrange os edifícios, os transportes e os setores e instalações industriais de menor dimensão e entrará em vigor em 2028, após o recente adiamento da sua aplicação. Estas instalações pertencem maioritariamente ao setor da cerâmica de mesa e decorativa, mas incluem também fabricantes de artigos sanitários, cerâmica técnica, abrasivos, tijolos e telhas, pavimentos e revestimentos e produtos refratários. Na sua proposta, a Comissão Europeia não respondeu à necessidade de criar um mecanismo europeu de combate à fuga de carbono no âmbito do CELE 2, deixando os operadores totalmente expostos a custos de carbono potencialmente muito elevados. Segundo as previsões dos especialistas, estes custos poderão atingir 259,40 euros por tonelada de CO₂ até 2030². Embora a Diretiva CELE permita aos Estados-Membros responder ao risco de fuga de carbono nos setores abrangidos pelo CELE 2 através de medidas nacionais de compensação, parece evidente que a Comissão deverá criar um mecanismo de proteção contra a fuga de carbono aplicável em toda a UE também a estas instalações de menor dimensão, garantindo a competitividade dos fabricantes europeus e evitando distorções no mercado interno.
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dos, em mercados nos quais os produtos locais não suportam custos de carbono comparáveis. Neste contexto, o Fundo Temporário para a Descarbonização, proposto pela Comissão Europeia em fevereiro para prestar apoio de curto prazo aos setores abrangidos pelo CBAM, não responde às necessidades da indústria, em particular dos setores orientados para a exportação³. Enquanto não for introduzida uma solução sólida para as exportações — e não forem devidamente corrigidas outras deficiências relevantes, como a complexidade administrativa do sistema, particularmente gravosa para setores muito heterogéneos —, dificilmente o CBAM poderá constituir uma alternativa viável à atribuição gratuita de licenças para combater a fuga de carbono na Europa. Simplificar o percurso de descarbonização dos pequenos emissores No atual quadro do CELE, os operadores de instalações que emitem menos de 25 000 toneladas de CO₂ por ano podem optar voluntariamente por abandonar o principal sistema de «limitação e comércio de emissões» e aderir a regimes nacionais equivalentes, desde que estes tenham sido criados pelos Estados-Membros e garantam uma contribuição equivalente para a redução das emissões. A simplificação aplicável aos pequenos emissores revelou-se um instrumento eficaz para as instalações cerâmicas, permitindo aos operadores reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa sem ficarem expostos às oscilações do mercado do carbono e reduzindo significativamente os encargos administrativos. Contudo, os Estados-Membros não são obrigados a criar regimes nacionais destinados aos pequenos emissores, o que limita a utilização desta possibilidade de exclusão a apenas alguns países: Itália e Espanha, onde cerca de 200 pequenas instalações emissoras do setor cerâmico estão sujeitas a medidas equivalentes; e Croácia, Alemanha, Portugal e Eslovénia, onde existem regimes de menor dimensão. Os regimes nacionais equivalentes existentes permitem aos operadores seguir uma trajetória mais estável e previsível de redução das emissões. Os regimes nacionais para pequenos emissores que funcionam adequadamente facilitam o planeamento financeiro dos processos industriais de pequena escala, que são fundamentais para a indústria cerâmica europeia, sem comprometer os objetivos ambientais do CELE.
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Aumentar o limiar de elegibilidade para a exclusão voluntária de instalações com emissões de 25 000 para 50 000 toneladas de CO₂ por ano e exigir que os Estados-Membros criem os respetivos regimes nacionais, sem prejuízo do caráter voluntário da adesão por parte de cada operador, permitiria que 95% das instalações cerâmicas pudessem potencialmente aderir a medidas nacionais equivalentes. Considerando todos os setores abrangidos pelo CELE, o aumento do limiar aplicável aos pequenos emissores para 50 000 toneladas de CO₂ por ano tornaria cerca de 75% das instalações elegíveis para a exclusão voluntária, embora estas representem apenas 7,3% do total das emissões industriais. Como tornar o CELE adequado: é necessária uma evolução ou uma revolução? A Comissão Europeia, juntamente com o Conselho da União Europeia e o Parlamento Europeu, comprometeu-se com um calendário ambicioso para a revisão da Diretiva CELE, procurando concluir as negociações no início de 2027. Os próximos meses serão, por isso, decisivos para definir o quadro do CELE para o período posterior a 2030. Para a indústria cerâmica em particular, a manutenção de instrumentos adequados e continuados de resposta aos riscos de fuga de carbono, sob a forma de uma atribuição gratuita suficiente e apropriada, constitui uma condição prévia essencial para a competitividade do setor e para os seus futuros investimentos. Apenas uma proteção eficaz contra a fuga de carbono poderá garantir condições económicas viáveis para produzir na Europa e condições de concorrência equitativas face aos fabricantes de países terceiros. A UE deverá tornar-se o «local de eleição» para os produtores realizarem os seus investimentos e desenvolverem as suas tecnologias, proporcionando condições empresariais seguras e competitivas para a conceção e implementação de soluções de descarbonização. Para a indústria com utilização intensiva de energia, a existência de preços competitivos da energia, bem como a disponibilidade de fontes alternativas e das respetivas infraestruturas, constitui uma prioridade fundamental. O CELE deve estar alinhado com a realidade industrial e, através de instrumentos estáveis e previsíveis de proteção contra a fuga de carbono, contribuir para criar as condições de que os fabricantes necessitam para escolher a UE como destino dos seus investimentos.
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Economia
EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO NA CONSTRUÇÃO NA ÁREA DO EUROCONSTRUCT
por António Oliveira, Economista na APICER
De acordo com a nota de imprensa divulgada pelo Euroconstruct (*) por ocasião da sua 101ª Conferência, que decorreu em Helsínquia em 5 de junho de 2026, a produção total da construção na área do Euroconstruct cresceu 0,2% em 2025. As perspetivas para o setor da construção europeu continuam moderadamente positivas. A guerra no Irão e a situação no Estreito de Ormuz têm um impacto significativo na economia global, nos preços da energia, na inflação e nas tendências das taxas de juro – fatores que influenciam fortemente a procura no setor da construção. A confiança dos consumidores e das empresas no futuro diminuiu e as previsões económicas têm sido revistas em baixa. É provável que esta incerteza se mantenha. Nos países do Euroconstruct (EC-19), o produto interno bruto cresceu 1,5% em 2025, prevendo-se que entre 2026 e 2028, cresça, em média, 1,2% ao ano. Em 2026, prevê-se que o setor da construção cresça 2,0%, embora as previsões efetuadas há 6 meses apontassem para um crescimento de 2,4%, ou seja houve uma revisão em baixa. As previsões de crescimento para 2027 e 2028 mantêm-se inalteradas em 2,2% e 1,9%, respetivamente. De um modo geral, a produção no setor da construção na área do EC-19 tem evoluído de forma bastante estável nos últimos anos, embora 2023 e 2024 tenham sido anos de contração. Durante estes dois anos, a produção registou uma queda de pouco mais de 3% no total. A previsão de crescimento para 2026–2028 situa-se em valores próximos dos 2%, perspetivando que o crescimento do setor irá continuar, mas a um ritmo moderado. Os vários setores da construção evoluíram de forma diferenciada entre 2023 e 2025: a produção residencial registou uma redução acentuada, a construção não residencial manteve-se, em geral, inalterada, enquanto a engenharia civil cresceu.
p.50 . Kéramica . Economia
Durante o período de previsão de 2026–2028, espera-se que todos os setores registem crescimento, embora a produção na construção de novos edifícios cresça mais do que a renovação de edifícios. O crescimento lento na renovação deve-se principalmente à menor confiança dos consumidores, resultante da incerteza, e à disposição limitada das famílias para investir em melhorias nas suas habitações. Durante o período de 2026 a 2028, prevê-se que tanto a construção nova como a renovação cresçam, impulsionadas pelos investimentos nos transportes, nas infraestruturas energéticas, nas necessidades de segurança e de planos de contingência, na adaptação às alterações climáticas e em projetos apoiados por programas da UE. Uma das principais conclusões desta conferência do Euroconstruct é de que a estrutura de crescimento dos vários segmentos do setor da construção se alterou. As novas construções e a engenharia civil são, de forma mais evidente do que anteriormente, os motores do crescimento, enquanto a renovação se mantém estável, mas numa fase de crescimento mais lento. O papel anti cíclico da renovação de edifícios enfraqueceu em comparação com os anos da crise energética e do boom da eficiência energética, quando os regimes de subsídios e a regulamentação impulsionaram o mercado de forma mais vigorosa. A incerteza económica e dos consumidores está agora a pesar sobre a renovação, enquanto o investimento está a beneficiar as novas construções.
Julho . Agosto 2026
Economia
4 Variação anual, em %
Figura 1 • Evolução da Produção do PIB e da Construção na área do Euroconstruct Fonte: Euroconstruct, junho 2026
5
3 2 1 0 -1 -2
2022
2023
2024
2025 PIB
Ta b e l a 1 – Ev o l u ç ã o d a P r o d u ç ã o d a Co n s t r u ç ã o n a á r e a d o Euroconstruct, por países Fonte: Euroconstruct, junho 2026 a) Previsões b) Perspetivas
Na figura 1 apresenta-se a evolução do PIB e da produção na construção no conjunto dos 19 países da rede Euroconstruct, para o período 2022-2028, sendo que, para 2026 e 2027 os dados apresentados correspondem a previsões e para 2028 a perspetivas. No período 2026-2028 os países onde se espera um maior crescimento do setor da construção são a Irlanda, Polónia, Reino Unido, Portugal e Suécia. Em sentido contrário, espera-se uma contração no mercado da Eslováquia e um crescimento mais lento nos mercados da Itália, Bélgica e Áustria.
Países
2022
2023
2024
2025
2026 (a)
2027 (a)
2028 (b)
Áustria
-2,1
-4,5
-5,2
-1,3
0,0
0,8
1,0
Bélgica
0,6
-1,2
0,0
-0,3
1,3
-0,2
0,2
Dinamarca
1,4
-12,0
-4,3
1,2
2,0
2,9
2,3
Finlândia
-0,4
-12,4
-6,2
1,0
4,7
5,5
-1,0
França
1,9
0,0
-1,8
-3,0
1,1
2,2
1,4
Alemanha
-5,1
-3,2
-2,9
-1,0
1,0
1,3
1,0
Irlanda
3,7
7,6
-4,8
11,7
5,3
5,8
6,2
Itália
12,2
3,3
-1,7
-2,6
1,6
-0,1
-0,8
Países Baixos
4,0
0,8
-2,7
1,3
2,2
3,4
3,1
Noruega
1,0
-5,3
-5,7
1,1
2,3
0,0
2,8
Portugal
1,9
5,3
4,1
6,1
4,4
3,6
3,3
Espanha
3,3
2,4
2,8
4,3
3,2
2,4
1,8
Suécia
-2,1
-10,7
-3,0
3,2
4,0
2,4
3,8
Suíça
-6,6
-0,7
-1,4
-0,3
1,9
1,5
1,3
Reino Unido
6,9
0,4
-0,2
1,8
2,4
4,3
5,1
Europa Ocidental (EC-15)
1,6
-1,0
-1,7
0,1
1,9
2,1
1,9
Chéquia
1,0
1,8
-1,7
4,6
2,5
2,5
2,8
Hungria
1,3
-7,6
-2,7
0,5
-1,5
2,4
5,0
Polónia
5,5
6,4
-0,9
2,2
6,4
4,9
3,1
Eslováquia
0,5
5,4
-5,8
1,9
-2,9
-1,9
-0,5
Europa Oriental (EC-4)
3,3
2,8
-1,7
2,5
3,6
3,5
3,1
Países Euroconstruct (EC-19)
1,7
-0,8
-1,7
0,2
2,0
2,2
1,9
Julho . Agosto . 2026
2026
2027
2028
Construção
No que diz respeito a Portugal, o crescimento da produção da construção para os anos de 2026, 2027 e 2028 perspetivam-se na ordem dos 4,4%, 3,6% e 3,3%, respetivamente, acima da média esperada para o conjunto dos 19 países que integram a rede Euroconstruct. Na tabela 1, pode observar-se a evolução esperada da produção na construção nos 19 países da área do Euroconstruct (EC-19), por países e por áreas, em % de variação em termos reais. (*) O Euroconstruct é um grupo europeu para a investigação tecnológica e análise económica do setor da construção. Fundado em 1974, reúne 19 institutos de análise económica e técnica de toda a Europa, dos seguintes países: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Noruega, Países Baixos, Portugal, Reino Unido, Suíça e Suécia (15 países da Europa Ocidental), e ainda Chéquia, Eslováquia, Hungria e Polónia (4 países da Europa Central e Oriental). O objetivo do Euroconstruct é fornecer informações, análises e previsões aos decisores do setor da construção e de outros mercados relacionados com a indústria da construção, para que possam planear melhor e mais eficazmente os seus negócios. As atividades da rede Euroconstruct destinam-se também a instituições oficiais, tais como ministérios ou agências, bem como a associações nacionais e internacionais.
Economia
. Kéramica . p.51
Economia
E X P O R TA Ç Õ E S M U N D I A I S D E CERÂMICA EM 2025
por António Oliveira, Economista na APICER
As exportações mundiais de produtos cerâmicos ascenderam a 55.117 milhões de euros no ano de 2025, o que representa uma variação de -2,89% face ao ano de 2024, de acordo com os dados divulgados pelo ITC – International Trade Centre. Os pavimentos e revestimentos cerâmicos correspondem ao material cuja importância relativa é mais relevante no contexto do comércio mundial de produtos cerâmicos (31,4% do valor total das exportações mundiais de produtos cerâmicos em 2025), seguido dos produtos para usos sanitários (14,6%), cerâmica de mesa e uso doméstico em porcelana (14,3%), cerâmica para usos químicos ou técnicos (12,2%), produtos refratários (6,5%), cerâmica de mesa e uso doméstico não porcelana (4,0%), estatuetas e objetos ornamentais (3,7%), tijolos e tijoleiras para construção (3,4%), telhas e elementos de chaminés (1,3%) e outros (8,6%). Para o conjunto de produtos cerâmicos, a China foi o principal exportador mundial (34,2% do valor total das exportações mundiais de produtos cerâmicos em 2025), seguida da Itália (9,5%), Espanha (7,8%), Alemanha (6,8%) e India (4,4%). Portugal, com 882,9 milhões de euros, foi o 13.º exportador mundial de produtos cerâmicos, com 1,6% do valor total, e 0 7.º exportador da União Europeia (UE27) com 4,1%. Para efeitos comparativos, registe-se que, para o total de bens exportados no ano de 2025 Portugal foi o 44.º exportador mundial (com 0,35% do valor das exportações mundiais) e o 16.º exportador da União Europeia (c0m 1,22% do valor das exportações da UE27). Em termos de áreas de exportação mundial, a União Europeia (UE27), com 21.360 milhões de euros, representava 38,8% do valor das exportações mundiais de cerâmica em 2025. A análise da evolução das exportações mundiais de produtos cerâmicos no período 2016-2025 (figura 1), permite
p.52 . Kéramica . Economia
concluir que nos últimos 10 anos o valor mais elevado foi atingido no ano de 2022, com 72.249 milhões de euros. Este valor foi obtido num contexto de inflação elevada, que na área do Euro atingiu os 8,4%, e que refletiu sobretudo aumentos acentuados dos preços dos produtos energéticos e das matérias-primas, agravados pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Desde então, as exportações mundiais têm contraído e em 2025 estabilizaram em torno de valores um pouco superiores aos registados no ano de 2019, no âmbito de uma tendência que abrange transversalmente todos os produtos. A importância relativa das exportações mundiais de produtos cerâmicos no contexto das exportações mundiais totais de bens, tem também diminuído. Após terem representado 0,336% em 2020, em 2025 representavam apenas 0,243%. Note-se, no entanto, que a posição relativa da União Europeia no contexto das exportações mundiais de produtos cerâmicos tem sido reforçada nos últimos anos, passando de 33,38% em 2020 para 38,75% em 2025. De resto, e à semelhança do que aconteceu em Portugal, também no conjunto da União Europeia se registou um crescimento das exportações de produtos cerâmicos em 2025 face ao ano de 2024, de 1,82%. Em Portugal esse crescimento foi de 4,09%. A diminuição das exportações com origem na China tem sido a principal causa da diminuição das exportações mundiais de produtos cerâmicos, nomeadamente a partir do ano de 2023. A partir de 2024 a UE27 ultrapassou a China e
Julho . Agosto 2026
Economia
25 000 000€ 22 500 000€ 20 000 000€ 17 500 000€
12 500 000€ 10 000 000€ 7 500 000€ 5 000 000€ 2 500 000€ 0€ 2016
2017
2018
2019
2020
Pavimentos e revestimentos Cer. mesa e uso doméstico em porcelana Cer. mesa e uso doméstico não porcelana Telhas e tijolos
tornou-se a principal área de origem das exportações mundiais de cerâmica. Como se pode observar na figura 2, as exportações com origem na UE27 e em outros países para além da China, têm registado uma tendência de crescimento estável ao longo dos últimos 10 anos, se excetuarmos a quebra registado no ano de 2020 em resultado da diminuição do comércio mundial por efeitos da pandemia da Covid-19, e o pico atingido no ano de 2022, num contexto fortemente influenciado pela subida dos preços de produtos energéticos e matérias-primas e ainda com a normalização das cadeias de abastecimento resultante do aliviar das restrições pandémicas. Após a apresentação dos dados relativos ao conjunto de produtos cerâmicos, analisaremos seguidamente os produtos mais relevantes no contexto das exportações portuguesas de cerâmica. Pavimentos e Revestimentos Cerâmicos No ano de 2025 as exportações mundiais de pavimentos e revestimentos cerâmicos (NC 6907) ascenderam a 17.128,6 milhões de euros, o que representou uma varia-
Julho . Agosto . 2026
2021
2022
2023
2024
2025
Cerâmica sanitária Cerâmica para usos químicos ou técnicos Cerâmica ornamental Outros
ção de -1,8% face ao ano de 2024. Na UE27 o valor obtido foi de 9.290,2 milhões de euros, o que traduz um aumento de 1,0% face ao ano anterior. Em Portugal foi registado o valor de 257,0 milhões de euros, o que representou uma variação de -0,4%. O ranking dos exportadores mundiais era liderado pela Itália (25,3% do valor das exportações mundiais), seguida pela Espanha (20,1%), China (15,9%), Índia (11,2%) e Turquia (3,4%). Portugal ocupava o 9.º lugar do ranking mundial, com 1,5%. Louça Sanitária As exportações mundiais de louça sanitária (NC 6910) atingiram os 7.971,9 milhões de euros no ano de 2025, o que representou uma variação de -5,1% em relação ao ano anterior. Na UE27 o valor registado foi de 1.782,5 milhões de euros, mais 4,1% em relação ao ano anterior. Em Portugal foi alcançado o valor de 159,8 milhões de euros, traduzindo num crescimento de 7,3% face ao ano anterior. O ranking dos exportadores mundiais era liderado pela China (52,8% do valor das exportações mundiais), segui-
Economia
. Kéramica . p.53
Figura 1 • Evolução das exportações mundiais de cerâmica, por produtos Fonte: ITC - Inter national Trade Centre
15 000 000€
Economia
Figura 2 • Evolução das exportações mundiais de produtos cerâmicos, por áreas de exportação Fonte: ITC - Inter national Trade Centre
35 000 000€ 30 000 000€ 25 000 000€ 20 000 000€ 15 000 000€ 10 000 000€ 5 000 000€ 0€ 2016
2017
2018
2019 China
da do México (6,6%), Alemanha (5,9%), Polónia (3,0%) e Turquia (2,7%). Portugal ocupava o 9.º lugar do ranking mundial, com 2,0%. Cerâmica de Mesa e Uso Doméstico em Porcelana Em 2025 as exportações mundiais de cerâmica de mesa e uso doméstico em porcelana (NC 6911) ascenderam a 7.783,6 milhões de euros, o que representou uma variação de -5,4% face ao ano de 2024. Na UE27 foi alcançado o valor de 1.250,3 milhões de euros, que traduziu uma variação de -2,0% face ao ano anterior. Em Portugal registou-se o valor de 56,8 milhões de euros, mais 6,0% do que no ano anterior. O ranking dos exportadores mundiais era liderado, de forma destacada, pela China (74,5% do valor das exportações mundiais), seguida da Alemanha (4,4%), França (2,2%), Itália (1,8%) e Turquia (1,7%). Portugal posicionava-se no 13.º lugar do ranking mundial, com 0,7%. Cerâmica de Mesa e Uso Doméstico não Porcelana As exportações mundiais de cerâmica de mesa e uso doméstico não porcelana (NC 6912) alcançaram os 2.156,7 milhões de euros no ano de 2025, o que correspondeu a uma variação de -1,5% face ao ano anterior. Na UE27 foi alcançado o valor de 1.122,1 milhões de euros, mais 8,6% em relação ao ano de 2024. Portugal contribui com 257,9 milhões de euros, um acréscimo de 5,3% face ao ano anterior. O ranking dos exportadores mundiais era liderado pela China (20,1% do valor das exportações mundiais), seguida de Portugal (12,0%), Países Baixos (6,9%), Alemanha (6,5%) e Tailândia (6,4%).
p.54 . Kéramica . Economia
2020 UE27
2021
2022
2023
2024
2025
Outros
Cerâmica Ornamental No ano de 2025 as exportações mundiais de estatuetas e objetos ornamentais (NC 6913) atingiram o valor de 2.035,6 milhões de euros, o que correspondeu a uma variação de -7,3% em relação ao ano de 2024. Na UE27 foi alcançado o valor de 629,4 milhões de euros, representando uma variação de 8,5% em relação ao ano anterior. Portugal contribuiu para as exportações mundiais com 85,5 milhões de euros, mais 9,4% em relação ao ano anterior. A China liderava o ranking dos exportadores mundiais, com 54,4% do valor das exportações mundiais. Seguiu-se a Alemanha (6,8%), Vietname (5,5%), Países Baixos (5,4%) e Portugal (4,2%). Telhas Cerâmicas Em 2025 as exportações mundiais de telhas cerâmicas (NC 6905) alcançaram os 731,2 milhões de euros, o que representou uma variação de 8,2% face ao ano anterior. A UE27 contribuiu para as exportações mundiais com 535,5 milhões de euros, que traduziu um crescimento de 5,8% em relação a 2024. Em Portugal foi alcançado o valor de 17,8 milhões de euros, mais 34,6% face ao ano anterior. O ranking dos exportadores mundiais era liderado pela Alemanha (23,3% do valor das exportações mundiais), seguida da França (11,4%), China (10,0%), Sérvia (8,7%) e Espanha (7,0%) Portugal posicionou-se como 12.º exportador mundial com 2,4%.
Julho . Agosto 2026
Recursos Humanos
OS RECURSOS HUMANOS NA INDÚSTRIA CERÂMICA
por António Oliveira, Economista na APICER
O n.º de trabalhadores ao serviço das empresas da indústria cerâmica representa 2,45% do total dos trabalhadores da indústria transformadora. Tendo em consideração a forma jurídica das empresas da indústria cerâmica, 898 trabalhadores (4,9%) exercem a sua atividade em empresas individuais e 17.470 trabalhadores (95,1% do total) em sociedades.
Julho . Agosto . 2026
A distribuição dos trabalhadores nas empresas da indústria cerâmica, por escalão de pessoal ao serviço, indica que 8,7% dos trabalhadores exercem a sua atividade em empresas com menos de 10 pessoas, 13,4% em empresas que empregam entre 10 e 409 pessoas, 33,9% em empresas com 50 a 249 pessoas e 44,0% em empresas que empregam mais de 250 trabalhadores. Em termos de localização geográfica (NUTS-2024), os trabalhadores deste setor estão ao serviço de empresas localizadas predominantemente no Centro, seguindo-se, em termos de áreas geográficas de maior implantação, o Oeste e Vale do Tejo e o Norte (figura 2).
Figura 2 • N.º Trabalhadores da indústr ia cerâmica, por NUTS-2024, em 2024 Fonte: INE - Sistema de Contas Integradas das Empresas
Figura 1 • N.º Trabalhadores, por subsetores da indústria cerâmica, em 2024 Fonte: INE - Sistema de Contas Integradas das Empresas
A indústria de cerâmica corresponde aos Grupos 232, 233 e 234 da CAE – Rev. 4, e abrange a fabricação de produtos cerâmicos refratários, azulejos, ladrilhos, mosaicos e lajes de cerâmica, telhas, tijolos e abobadilhas, artigos cerâmicos de uso doméstico e ornamental, artigos cerâmicos para usos sanitários, isoladores e peças isolantes em cerâmica, cerâmica para usos técnicos e outros produtos cerâmicos. De acordo com os dados publicados pelo INE, no ano de 2024 (último ano com informação disponível), o n.º de trabalhadores ao serviço das empresas da indústria cerâmica ascendia a 18.368, de acordo com a distribuição, por subsetores, que se apresenta na figura 1.
No âmbito da NUT Centro, assumem particular importância a Região de Aveiro (42,4%) e a Região de Leiria (16,1%).
Recursos Humanos . Kéramica . p.55
Recursos Humanos
Figura 4 • N.º Trabalhadores da indústr ia cerâmica, por nível de habilitação, em 2024 Fonte: Quadros de Pessoal, GEP – MTSS
dário e ensino pós-secundário não superior de nível IV e 11,2% o ensino superior (figura 4).
Para efeitos comparativos, refira-se que no ano de 2009 o n.º de trabalhadores com o ensino básico era de 78,4%, com o ensino secundário e ensino pós-secundário não superior de nível IV era de 12,7% e 7,5% com o ensino superior. A distribuição dos trabalhadores por nível de qualificação mostra que os profissionais qualificados representam 71,2% do total de trabalhadores ao serviço das empresas no ano de 2024. Seguem-se os profissionais altamente qualificados (6,6%) e encarregados, contramestres, mestres e chefes de equipa (6,3%). Apenas 6,0% corresponde a profissionais não qualificados (figura 5).
Figura 3 • N.º Trabalhadores da indústr ia cerâmica, por escalão etário, em 2024 Fonte: Quadros de Pessoal, GEP – MTSS
Figura 5 • N.º Trabalhadores da indústr ia cerâmica, por nível de qualificação, em 2024 Fonte: Quadros de Pessoal, GEP – MTSS
A produtividade aparente do trabalho no setor da cerâmica representou, em termos médios, 31.852 euros por trabalhador em 2024, valor que compara com 40.190 euros por trabalhador na indústria transformadora. De referir, contudo, que existem diferenças consideráveis entre os vários subsetores da indústria cerâmica, em que o valor mais baixo é obtido no subsetor dos artigos cerâmicos de uso doméstico e ornamental, com 24.460 euros por trabalhador e o valor mais elevado, de 64.641 por trabalhador, no subsetor das telhas, tijolos e abobadilhas. Também o subsetor dos artigos cerâmicos para usos sanitários apresenta valores superiores à média da indústria transformadora, com 44.109 euros por trabalhador. De acordo com os dados disponibilizados pelo Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP), do Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social (MTSS), apurados segundo os Quadros de Pessoal para o ano de 2024, no que diz respeito aos trabalhadores ao serviço da indústria cerâmica, no conjunto das componentes das áreas da produção e administrativa, quanto ao género, há uma ligeira supremacia das mulheres (52,1%) em relação aos homens (47,9%). No ano de 2009 a relação era inversa: 54,0% de homens e 46,0% de mulheres. No que diz respeito à distribuição dos trabalhadores por nacionalidade, no ano de 2024, 85,8% eram cidadãos nacionais e 14,2% estrangeiros. Relativamente à distribuição dos trabalhadores por escalão etário, verifica-se que 55,0% dos trabalhadores têm 45 ou mais anos e apenas 23,2% têm até 34 anos (figura 3).
Em relação às habilitações literárias dos trabalhadores ao serviço da indústria cerâmica no ano de 2024, verifica-se que 55,0% têm o ensino básico (1.º, 2.º e 3.º ciclos, com predominância para o 3.º ciclo), 32,9% o ensino secun-
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Uma nota final para referir que a distribuição dos trabalhadores por escalão de antiguidade na empresa, indica que 58,6% dos trabalhadores permanecem na mesma empresa há menos de 10 anos, 13,5% entre 10 e 20 anos, enquanto 27,9% dos trabalhadores exercem a sua atividade na mesma empresa há mais de 20 anos.
Julho . Agosto 2026
Secção Jurídica
A PROPOSTA DE TRANSPOSIÇÃO (PARCIAL) DA DIRECTIVA DA TRANSPARÊNCIA SALARIAL EM PORTUGAL
por Fi li pa Pe re i ra Si l v a e Ma r i a n a B e m-Ha j a , FAF Sociedade de Advogados
No dia 5 de Agosto de 2026, o Governo publicou o projecto de proposta de lei que transpõe parcialmente a Directiva (UE) 2023/970, relativa à igualdade de remuneração entre homens e mulheres por trabalho igual ou de valor igual. O projecto foi submetido a apreciação pública por apenas 20 dias, prazo justificado pelo Governo com a "necessidade urgente" de publicar o diploma – que chega, no entanto, dois meses depois de o prazo europeu de transposição ter terminado, e um mês depois de a Comissão Europeia ter aberto formalmente um procedimento de infracção contra Portugal. A proposta de lei não cria um diploma novo autónomo, antes altera e adita artigos à Lei n.º 60/2018, de 21 de agosto, que já estabelecia medidas de promoção da igualdade remuneratória, fazendo também uma ligeira alteração ao Código de Processo do Trabalho. Das principais alterações destacamos: a. A densificação do conceito de “retribuição”, e a introdução de novas definições, como “nível de remuneração”, “diferença remuneratória entre homens e mulheres”, “nível de remuneração mediano”, “diferença remuneratória mediana entre homens e mulheres”, “quartil de intervalo da remuneração”, “trabalho igual”, “trabalho de valor igual”, e “grupo de trabalhadores”. b. Direito de acesso à informação – o empregador deverá informar, com periodicidade anual, os trabalhadores, incluindo temporários, de que têm direito a solicitar informação sobre o seu nível de remuneração individual e sobre os níveis médios de remuneração, desagregados por sexo, dos grupos de trabalhadores que executem trabalho igual ou de valor igual ao seu. O empregador deverá responder ao pedido, no prazo de dois meses, que pode ser feito directamente, através
Julho . Agosto . 2026
de representantes dos trabalhadores, ou através da CITE. c. Política remuneratória transparente – o empregador deverá assegurar uma política remuneratória transparente, acordada com os representantes dos trabalhadores, quando existam, assente na avaliação das componentes das funções segundo critérios objectivos e não discriminatórios. Em caso de alegação de discriminação remuneratória, cabe ao empregador demonstrar que dispõe dessa política e como ela se aplica ao caso concreto – uma inversão do ónus da prova, já previsto no diploma original. São ainda declaradas nulas quaisquer cláusulas contratuais que proíbam o trabalhador de divulgar a sua remuneração. Ademais, as empresas que empreguem 50 ou mais trabalhadores deverão afixar em local visível, ou divulgar através de intranet, os critérios utilizados para determinar a remuneração e a progressão remuneratória, que devem ser objectivos e não discriminatórios. d. Transparência no acesso ao emprego – os candidatos a emprego passam a ter direito a receber, antes da celebração do contrato de trabalho, informação sobre a remuneração inicial ou o respectivo intervalo, e sobre as disposições relevantes de instrumento de
Secção Jurídica . Kéramica . p.57
Secção Jurídica
regulamentação colectiva, quando aplicável, sendo expressamente proibido ao empregador questionar os candidatos sobre o seu historial remuneratório em relações laborais actuais ou anteriores. De notar que, contrariamente à proposta de lei, a Directiva prevê que esta informação seja fornecida antes da entrevista de emprego. e. Comunicação de disparidades remuneratórias – as empresas com 50 ou mais trabalhadores ficam obrigadas a facultar dados desagregados por sexo que permitam apurar a diferença remuneratória (global e mediana, incluindo componentes variáveis), a proporção de trabalhadores por quartil salarial e a diferença por grupo de trabalhadores, com periodicidade anual, para empresas com 250 ou mais trabalhadores, ou trienal, para empresas entre 50 e 249 trabalhadores. f. Falta de justificação de disparidades remuneratórias – quando forem detectadas diferenças de remuneração média não justificadas por critérios objectivos, a ACT notifica o empregador para, em 90 dias, justificar ou apresentar medidas de correcção, presumindose discriminatórias as diferenças não justificadas. Persistindo uma diferença injustificada de, pelo menos, 5%, o empregador é notificado para, no prazo de 45 dias, apresentar uma avaliação conjunta das remunerações, com participação dos representantes dos trabalhadores, incluindo, por exemplo, a percentagem de trabalhadores de cada sexo que beneficiaram de aumento salarial após o regresso de licença parental, e medidas a adoptar para corrigir as diferenças, que devem ser implementadas em 90 dias após a apresentação da avaliação. g. Protecção do trabalhador – o prazo de presunção da abusividade de despedimento ou outra sanção disciplinar aplicada após a apresentação de queixa por incumprimento de direitos relacionados com o princípio da igualdade de remuneração é alargado de um para três anos. h. Reforço do papel da CITE – com atribuição de tarefas concretas de disponibilização de ferramentas e de formação. i. Reforço do regime contraordenacional – enquanto o diploma original prevê apenas contra-ordenações classificadas como graves, para violações de deveres relacionados com o plano de avaliação de diferenças remuneratórias, a recente proposta introduz novas contra-ordenações, classificadas como muito graves,
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graves e leves, consoante a norma violada, prevendo-se novas sanções acessórias em caso de reincidência, para além da exclusão de concursos públicos até dois anos, como a revogação de incentivos fiscais e financeiros, a privação de benefícios públicos e a obrigação de formação em transparência remuneratória. j. Norma transitória – estipulação de um calendário faseado de aplicação do novo regime: (i) empresas com 250 ou mais trabalhadores, obrigação de reporte anual a partir de 7 de junho de 2027; (ii) empresas com 150 a 249 trabalhadores, reporte trienal a partir de 7 de junho de 2027; (iii) empresas com 50 a 149 trabalhadores: reporte trienal a partir de 7 de junho de 2031; (iv) comunicação de dados à Comissão Europeia a partir de 31 de janeiro de 2028. k. Condenação por violação de um direito ou obrigação conexos ao princípio da igualdade – no âmbito da acção judicial de discriminação em função do sexo, o juiz passa, discricionariamente, poder condenar a entidade empregadora na reparação integral de danos patrimoniais e não patrimoniais, mesmo sem pedido específico deduzido. Assim, parte do essencial, agora densificado, já vinha anteriormente previsto – como o princípio da igualdade remuneratória, os planos de avaliação de diferenças remuneratórias, e a inversão do ónus da prova. Por outro lado, traduz-se, de forma relativamente detalhada, mecanismos que até agora existiam sobretudo como princípios abstractos – o direito efectivo de acesso à informação salarial individual e de grupo, a obrigação de divulgação critérios de progressão, e a instituição de um procedimento formal de avaliação conjunta das remunerações quando a disparidade ultrapassa 5%. Verifica-se, no entanto, que a proposta portuguesa transpõe apenas parte da Directiva da transparência salarial, ficando aquém, sobretudo, ao não exigir a divulgação da remuneração no anúncio de emprego ou antes da entrevista, só a impondo antes da assinatura do contrato, ao não criar um regime claro de acção colectiva para sindicatos e associações, e ao não garantir reforço de meios à CITE e à ACT. De notar, ainda, que o texto está em apreciação pública até 25 de Agosto, sendo, portanto, um texto ainda sujeito a mudanças antes de se tornar lei definitiva
Julho . Agosto 2026
Nota de Pesar
ANTÓNIO VEIGA SIMÃO: UMA FIGURA PRÓXIMA DO DESENVOLVIMENTO REGIONAL E DA INDÚSTRIA CERÂMICA
por Alb e r t i na Mi r a n d a d e S e qu e i r a , Vi c e-P re side n t e Exe cu t i v a d a A PIC E R
A APICER e a revista Keramica associam-se às manifestações de pesar pelo falecimento de António Júlio Veiga Simão, ocorrido no passado dia 5 de julho de 2026. Licenciado em Geografia pela Universidade de Coimbra e pós-graduado em Planeamento Territorial e Desenho Urbano, António Veiga Simão construiu um percurso profissional marcado pelo serviço público e por uma forte ligação ao desenvolvimento da região Centro. Ao longo da sua carreira, colocou o seu conhecimento e experiência ao serviço do território, das empresas e das instituições, distinguindo-se pela proximidade aos agentes económicos e sociais. Na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, onde desempenhou funções de relevo, nomeadamente como vice-presidente e, posteriormente, como presidente em regime de substituição, acompanhou políticas públicas ligadas ao planeamento, ao ambiente, à inovação e ao desenvolvimento regional. Desempenhou também diversas funções na Câmara Municipal de Coimbra, em áreas como o ambiente, a qualidade de vida, a inovação, o desenvolvimento económico e o apoio ao investimento. António Júlio Veiga Simão descendia de uma família profundamente ligada à ciência, à tecnologia, à educação e ao serviço público. Era filho do Coronel Júlio Veiga Simão, militar condecorado e personalidade de relevo nas áreas da ciência e da tecnologia, e sobrinho de José Veiga Simão, antigo ministro da Educação, cujo nome ficou associado à modernização do ensino superior em Portugal. Esta ligação familiar assume também um significado particular para o setor cerâmico. O nome do Coronel Júlio Veiga Simão está associado ao território onde se afirmou uma das instituições de referência da fileira da Cerâmica: o CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, sediado em Coimbra, na Rua Coronel Júlio Veiga Simão.
Julho . Agosto . 2026
Neste contexto, a memória de António Júlio Veiga Simão cruza-se, pela sua história familiar e pelo seu próprio percurso profissional, com uma realidade institucional muito próxima da APICER e das empresas cerâmicas portuguesas. A sua ação nas áreas do desenvolvimento regional, do ambiente, do ordenamento do território, da inovação e da captação de investimento tocou matérias fundamentais para a indústria transformadora e para o reforço da competitividade empresarial. A sua visão sobre o território, a sustentabilidade ambiental aproximou-o de temas centrais da fileira cerâmica. A APICER recorda António Veiga Simão como uma personalidade disponível, dialogante e conhecedora da realidade económica e industrial da região Centro. Mais do que os cargos que desempenhou, fica a memória de uma pessoa de trato humano e cordial, com uma visão clara sobre a importância do desenvolvimento sustentável, da valorização, dos recursos, do território e da cooperação entre entidades públicas, empresas e associações. A APICER e a Keramica endereçam à sua Família, Amigos, Colegas e a todos os que com ele privaram as mais sentidas condolências.
Nota de Pesar
. Kéramica . p.59
PARCEIRO DE CONFIANÇA PARA O SEU NEGÓCIO UM FUTURO SUSTENTÁVEL COM CREDIBILIDADE E RIGOR TÉCNICO NA CERTIFICAÇÃO DE PRODUTOS, SERVIÇOS E SISTEMAS DE GESTÃO Membro de vários Acordos de Reconhecimento Mútuo Presente em 20 países
Acreditada pelo IPAC como organismo de certificação de produtos (incluindo Regulamento dos Produtos de Construção), serviços e sistemas de gestão
Julho . Agosto 2026
R. José Afonso, 9 E – 2810-237 Almada – Portugal — Tel. 351.212 586 940 – Fax 351.212 586 959 – E-mail: mail@certif.pt – www.certif.pt
Notícias & Informações
A CERTIF PREPAROU UM ESQUEMA DE CERTIFICAÇÃO QUE PERMITIRÁ ÀS EMPRESAS UMA TRANSIÇÃO RÁPIDA PELA OBTENÇÃO DA “MARCA CERTIF ADEQUADO PARA ÁGUA POTÁVEL”
por Ce r t i f
A partir de 1 de janeiro de 2027, os produtos utilizados nas redes de abastecimento e distribuição de água que estejam em contacto direto com água para consumo humano terão de estar aprovados e certificados de acordo com o Regulamento n.º 976/2025 da ERSAR, baseado na denominada “Diretiva da Água”. A obrigatoriedade abrange todo o percurso da água, desde a captação até ao ponto de utilização, e aplica-se a diferentes tipologias de materiais, incluindo materiais orgânicos, metálicos, cimentícios, esmaltes, materiais cerâmicos, vidro e outros materiais inorgânicos. A nova regulamentação pretende garantir que os materiais e matérias-primas utilizados cumprem os requisitos europeus e que a eventual libertação de substâncias para a água se mantém dentro dos limites legalmente estabelecidos.
Julho . Agosto . 2026
Para apoiar a adaptação das empresas, a CERTIF desenvolveu um esquema de certificação que permitirá facilitar a transição para o novo enquadramento legal e o futuro acesso à Marca Europeia de Conformidade. Estão já em curso vários processos de certificação, cuja avaliação se tem revelado complexa e morosa. Neste contexto, Francisco Barroca, diretor-geral da CERTIF, alerta para a importância de as empresas iniciarem desde já os processos de certificação, de forma a conseguirem cumprir os prazos estabelecidos na legislação.
Noticias & Informações . Kéramica . p.61
Notícias & Informações
KINETICA DA PAVIGRÉS DISTINGUIDO COM DOIS RED DOT DESIGN AWARDS 2026
po r Al be r t i n a S e q u e i r a , Vice-Presidente Executiva da Apicer
O KINETICA – Dual Graphic Porcelain Tile, revestimento porcelânico desenvolvido pela equipa de design do Grupo Pavigrés, foi distinguido com dois prémios nos Red Dot Design Awards 2026: Best of the Best e Innovative Design, reconhecendo internacionalmente a inovação e a excelência do design desta solução cerâmica. Inspirado na Arte Cinética do século XX, o
KINETICA é uma superfície cerâmica que muda visualmente de cor e padrão consoante a posição e o movimento do observador. O efeito resulta da conjugação entre um relevo 3D calculado, impressão gráfica sincronizada e elementos de alto contraste, sem recurso a mecanismos de iluminação, criando uma superfície dinâmica e interativa.
Para além da componente estética, o KINETICA representa um desafio de engenharia e inovação industrial, tendo o seu desenvolvimento exigido sucessivos ensaios e ajustes ao desenho e ao molde, bem como elevada precisão dimensional e impressão gráfica digital milimétrica, até ser possível transformar o conceito numa solução à escala industrial.
Desenvolvido em Portugal, o projeto conjuga, assim, design, engenharia cerâmica e capacidade industrial, projetando internacionalmente a inovação desenvolvida pela indústria cerâmica portuguesa.
p.62 . Kéramica . Noticias & Informações
Julho . Agosto 2026
Noticias & Informações
Julho . Agosto . 2026
Associativismo . Kéramica . p.39
Calendário de Eventos
MAISON & OBJET’2026 (Design / Cerâmica Utilitária e Decorativa) Bianual – Paris (França) De 10 a 14 de Setembro de 2026 maison-objet.com
EquipHotel’2026 (Horeca / Cerâmica Utilitária) Anual – Paris (França) De 2 a 5 de Novembro de 2026 equiphotel.com
IMM’2026 [Interiores] Anual – Colónia (Alemanha) De 19 a 22 de Janeiro de 2027 imm-cologne.com
DOWNTOWNDESIGN’2026 [Design/Tendências] Anual – Riade (Arábia Saudita) De 15 a 18 de Setembro de 2026 downtowndesign.com/
DOWNTOWNDESIGN’2026 [Design/Tendências] Anual – Dubai (EAU) De 4 a 8 de Novembro de 2026 downtowndesig.com
AMBIENTE’2027 [Cerâmica Utilitária e Decorativa] Anual – Frankfurt (Alemanha) De 29 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 2027 ambiente.messefrankfurt.com
CERSAIE’2026 (Ladrilhos Cerâmicos) Anual – Bolonha (Itália) De 21 a 25 de Setembro de 2026 cersaie.it
UNICERA ‘2026 [Materiais de Construção] Anual – Istambul (Turquia) De 2 a 6 de Novembro de 2026 unicera.com.tr
NKBA|KBIS’2027 [Cerâmica Sanitária e Ladrilhos Cerâmicos] Anual – Las Vegas (USA) De 2 a 4 de Fevereiro de 2026 kbis.com
TECNA’2026 (Tecnologia para Cerâmica) Bianual – Rimini (Itália) De 22 a 25 de Setembro de 2026 en.tecnaexpo.com
CONCRETA´2026 (Materiais de Construção) Anual – Porto (Portugal) De 18a a 21 de Novembro 2026 exponor.pt/concreta/
SURFACE DESIGN SHOW [Design] Anual – Londres (R.U.) De 2 a 4 de Fevereiro de 2027 surfacedesignshow.com
BATIMAT’2026 [Materiais de Construção] Bienal – Paris (França) De 28 Setembro a 01 de Outubro de 2026 batimat.com
BIG 5 SHOW´2026 (Materiais de Construção) Anual – Dubai (EAU) De 23 a 26 de Novembro de 2026 thebig5.ae/
IGNITE [Congresso internacional] Castellón (Espanha) De 28 a 29 Setembro de 2026 ignitecongress.com
LONDON BUILD ‘2026 (Materiais de Construção) Anual – Londres (UK) De 25 a 26 de Novembro de 2026 londonbuildexpo.com
CEVISAMA’2027 [Ladrilhos Cerâmicos] Anual – Valencia (Espanha) De 3 a 7 de Fevereiro de 2027 cevisama.feriavalencia.com
FERIA HABITAT VALENCIA’2026 Anual – Valencia (Espanha) De 28 Setembro a 01 de Outubro de 2026 feriahabitatvalencia.com
ARCHITEC@WORK 2026 (Materiais de Construção) Anual – Lisboa (Portugal) De 3 a 4 de Dezembro de 2026 architectatwork.pt//
EXPOREVESTIR’2027 [Ladrilhos Cerâmicos] Anual – São Paulo (Brasil) De 22 a 26 de Fevereiro de 2027 exporevestir.com
The New York Tabletop Show´2026 [Cerâmica Utilitária e Decorativa] Bianual – New York (EUA) De 6 a 9 de Outubro de 2026 tabletopassociationinc.com
BAU ‘2027 (Materiais de Construção) Anual – Munique (Alemanha) De 11 a 15 de Janeiro de 2027 bau-muenchen.com/en/
THE INSPIRED HOME SHOW’2027 [Cerâmica Utilitária e Decorativa] Anual – Chicago (EUA) De 9 a 11 de Março de 2027 theinspiredhomeshow.com
DECOREX’2026 [Design/Tendências] Anual – Londres (UK) De 11 a 14 de Outubro de 2024 decorex.com
MAISON & OBJET’2027 [Design / Cerâmica Utilitária e Decorativa] Bianual - Paris (França) De 14 a 18 de Janeiro de 2027 maison-objet.com
HIP HORECA PROFESSIONAL EXPO’2027 [Restauração] Anual – Madrid (Espanha) De 9 a 11 de Março de 2026 expohip.com
p.64 . Kéramica . Calendário de Eventos
THE INTERNATIONAL SURFACE EVENTE 2027 [Ladrilhos cerâmicos] Bianual – Las Vegas (EUA) De 2 a 4 de Fevereiro de 2027 intlsurfaceevent.com
Julho . Agosto 2026
www.floene.pt
BIOMETANO:
DO TERRITÓRIO PARA O FUTURO O biometano é um gás renovável produzido a partir da valorização de resíduos orgânicos, que pode ser injetado e distribuído através da atual rede de gás. C
M
Y
CM
MY
CY
A adoção do biometano promove uma economia circular, reduz emissões e contribui para a produção local de energia, reforçando a sustentabilidade e a soberania energética. Saiba mais sobre o biometano aqui:
CMY
K
Gás Renovável
Economia Circular
Produção Local