KÉRAMICA
revista da indústria cerâmica portuguesa
OS CUSTOS INVISÍVEIS DA SUSTENTABILIDADE

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revista da indústria cerâmica portuguesa

Acreditada pelo IPAC como organismo de certificação de produtos (incluindo Regulamento dos Produtos de Construção), serviços e sistemas de gestão



Em início de um novo ano, e particularmente no ano em que APICER completa 30 anos, tudo o que se deseja é um novo ciclo de crescimento e progresso.
A realidade nem sempre vai ao encontro dos nossos desejos. O facto é que a normalidade é um conjunto de imprevistos aos quais não podemos escapar. Uns mais fáceis de ultrapassar e outros, de tal forma complexos, que nem os melhores planos de contingência conseguem mitigar.
Se “Os custos invisíveis da Sustentabilidade” se apresentavam como um desafio difícil de enfrentar, face à ausência de tecnologias e combustíveis disponíveis, para reduzir as emissões de CO2, a natureza resolveu brindar-nos com um conjunto de fenómenos meteorológicos devastadores.
Foi o que o final de janeiro nos trouxe. A avassaladora tempestade “KRISTIN”, deixou um rasto de destruição nunca visto nos distritos de Leiria, Coimbra, Aveiro, Santarém e Castelo Branco, colocando quase 70 concelhos em situação de calamidade.
Justamente os distritos do litoral, são aqueles onde se situam a maior parte das indústrias dos setores da Cerâmica e da Cristalaria, tendo sofrido muitas delas danos de monta, obrigando a paragem por períodos prolongados.
A ausência de energia elétrica, comunicações, distribuição de água e acessos dificultados, obrigaram à paragem das indústrias também por via da cadeia de abastecimento, sobretudo a montante. No momento em que escrevo já estamos a meio de fevereiro, com praticamente 3 semanas decorridas desde o fatídico evento, sem que se veja a regularização total de serviços para empresas e particulares.
Ou seja, vamos ter um período de reconstrução e recuperação das empresas prolongado e, esperemos que todas as empresas possam regressar à atividade. O nível de danos é tão grande que algumas empresas podem ficar pelo caminho, com a consequente perda de postos de trabalho. A finalização dos trabalhos de descarbonização estão comprometidos por perda de investimentos já realizados, colocando em causa as metas de Descarbonização estabelecidas na agenda ECP –Ecocerâmica e Cristalaria de Portugal, com o apoio do PRR. Mas, falando em Sustentabilidade, não podemos deixar de pensar no Ambiente e na forma como o Aquecimento global, está a alterar o clima no nosso planeta e, a criar cada vez com maior frequência fenómenos extremos. Sejam incêndios, sejam ventos fortes ou chuvas intensas. Sobretudo, concentrando em curtos períodos de tempo ocorrências que usualmente ocorriam de forma espaçada e com menos intensidade, sendo acomodadas pela natureza de forma natural.
E é aqui que temos de tomar consciência sobre a necessidade de conter o Aquecimento global e dar corpo à Descarbonização. Mas, a que preço?
Quando uns cumprem e assumem todos os custos decorrentes das metas impostas, e se permite que outros concorram no mercado de forma desleal a custos impossíveis de igualar e sem cumprir os mesmos requisitos a que estamos obrigados, entramos na questão-chave que é o Custo da Sustentabilidade. Assumimos os custos e cumprimos as metas ou, caminhamos para uma morte a prazo?
Os setores da Cerâmica e da Cristalaria são responsáveis, aceitaram o desafio e estão totalmente comprometidos em serem setores descarbonizados. E é com esse compromisso que avançam de forma convicta até ao objetivo final. Somos lutadores, resilientes e temos provas dadas ao longo dos anos, sempre que a adversidade se atravessou no caminho.
Seguiremos em frente, na esperança que os apoios já anunciados pelo governo cheguem às empresas rapidamente, deixando a mensagem de que, para uma catástrofe desta dimensão não chegam linhas de financiamento, é necessário dar mais robustez aos apoios a fundo perdido, sob pena de a recuperação e os postos de trabalho ficarem pelo caminho.
É imperativo garantir que as exportações continuem a ser parte do crescimento da nossa economia sendo que a Cerâmica e Cristalaria têm um peso importante para o PIB nacional.
Resta, neste momento, desejar que a evolução ao longo deste ano nos permita chegar a dezembro e dizer que mais uma vez ultrapassamos os obstáculos com sucesso, retirando daí os ensinamentos para o futuro.
Jorge Vieira (Presidente da Direção da APICER)
Editorial . Kéramica . p.1
17 21 06 12
Destaque . 03
Os custos invisíveis da sustentabilidade na indústria cerâmica: do alívio regulatório à pressão real do mercado
Estratégia . 06
Custos Invisíveis da Sustentabilidade e da Governação nas Organizações O impacto do Ambiente nas finanças das empresas
Entrevista . 14
A sustentabilidade só faz sentido quando cria valor para o negócio, entrevista a Luís Rochartre Álvares
Empresas . 17
ESG no Setor da Cerâmica: Entre a Virtude e a Realidade Industrial Os Custos e Proveitos Invisíveis da Sustentabilidade
Digitalização . 23
Tornar visíveis o resultado do investimento em sustentabilidade: o verdadeiro poder do Passaporte Digital de Produto
Secção Jurídica . 27
Após a Kristin: Redes de Apoio à População e às Empresas
Notícias & Informações . 29
Novidades das Empresas Cerâmicas Portuguesas
Calendário de Eventos . 32
Propriedade e Edição APICER - Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria NIF: 503904023
Direção, Administração, Redação, Publicidade e Edição Rua Coronel Veiga Simão, Edifício Lufapo Hub A - nº 40, 1º Piso 3025-307 Coimbra [t] +351 239 497 600 [f] +351 239 497 601 [e-mail] info@apicer.pt [internet] www.apicer.pt
Tiragem 500 exemplares
Diretor Jorge Costa de Jesus Vieira
Editor e Coordenação Albertina Sequeira [e-mail] keramica@apicer.pt
Conselho Editorial Albertina Sequeira, António Oliveira, Cristiana Costa Claro, Martim Chichorro e Teresa Ribeiro Bento
Capa Nuno Ruano
Índice de Anunciantes
CERTIF (Verso Capa) • GOLDENERGY (Verso Contra-Capa) • INDUZIR (Contra-Capa)
Conteúdos conforme o novo acordo ortográfico, salvo se os autores/colaboradores não o autorizarem.
Publicação Bimestral nº 400 . Ano LI . Janeiro . Fevereiro . 2026
Colaboradores Albertina Sequeira, Fátima Castanheira Geada, Filipa Pereira Silva, Joana Andrade, Luís Rochartre Álvares, Mariana Bem-Haja, Nelson Martins, Paulo Almeida e Paulo Velho Cabral Paginação Nuno Ruano
Impressão Gráfica Almondina - Progresso e Vida; Empresa Tipográfica e Jornalística, Lda Rua da Gráfica Almondina, Zona Industrial de Torres Novas, Apartado 29 2350-909 Torres Novas [t] 249 830 130 [f] 249 830 139 [email] geral@grafica-almondina.com [internet] www.grafica-almondina.com
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Versão On-line https://issuu.com/apicer-ceramicsportugal
Notas
Proibida a reprodução total ou parcial de textos sem citar a fonte.
Os artigos assinados veiculam as posições dos seus autores. Esta edição vem acompanhada da Revista Técnica 2026 #33 Fevereiro . Março | Bimensal.
Depósito legal nº 21079/88 Publicação Periódica inscrita na ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] com o nº 122304 ISSN 0871 - 780X
Estatuto Editorial disponível em http://www.apicer.pt/apicer/keramica.php
por Joana Andrade, cofundadora da Impact Partners
Durante muito tempo, a sustentabilidade foi percecionada pelas empresas como uma prática essencialmente regulatória ou suplementar, associada a novas obrigações, custos administrativos e maior complexidade operacional. Na indústria cerâmica, marcada por processos intensivos em energia, orientação exportadora e pressão permanente sobre custos, esta perceção ganhou particular expressão.
O recente pacote Omnibus I, veio alterar os requisitos europeus de reporte de sustentabilidade, reforçando a simplificação e redução da complexidade

administrativa dos relatórios e obrigações ESG para as empresas de menor dimensão. Para muitas empresas, esta alteração foi interpretada como um sinal de travão das exigências associadas ao ESG.
No entanto, uma análise mais atenta mostra uma realidade distinta. Embora algumas das obrigações legais diretas tenham sido efetivamente alteradas e ajustadas, a sustentabilidade deve continuar a desempenhar um papel central na tomada de decisões económicas, financeiras e comerciais. É neste desfasamento, entre a obrigação formal e exigência real, que emergem os chamados “ custos invisíveis da sustentabilidade ”.
O novo enquadramento regulatório: menos obrigação, mais ambiguidade
A simplificação do pacote Omnibus I introduz alterações relevantes no âmbito da diretiva de reporte de sustentabilidade corporativa (CSRD) e da diretiva de dever de diligência (CSDDD), recentrando as obrigações legais nas empresas de maior dimensão. Ou seja, para grande parte do tecido empresarial português, incluindo a maioria das empresas da indústria cerâmica, o reporte deixa de ser uma obrigação legal.
Esta alteração foi aprovada em dezembro de 2025, por acordo entre o Conselho e o Parlamento Europeu. Assim, com as novas regras, o limiar de obrigatoriedade aumentou para os 100 empregados e um volume de negócios líquido superior a 450 milhões de euros. Assim, apenas as empresas que com indicadores acima destes, são legalmente obrigadas a realizar relatório de sustentabilidade integrado no relatório de gestão.
Às PME cotadas foi também retirada esta obrigação de reporte.
Ainda, às empresas mais pequenas, incluindo as PME, que estejam na cadeia de valor de grandes empresas, não deverão ser solicitadas informações que estejam além das constantes nos regimes simplificados e voluntários de reporte de sustentabilidade.
Este ajustamento responde a preocupações legítimas de proporcionalidade e carga administrativa. Ainda assim, não elimina a necessidade de ter informação estruturada sobre desempenho ambiental, social e de governação. Pelo contrário, transfere o foco da lei para o mercado, tornando menos explícitas e mais difusas, as exigências associadas à sustentabilidade.

"Stop-The-Clock"
O custo visível: aquilo que é fácil de identificar Quando se fala em sustentabilidade, os custos referidos mais frequentemente são aqueles associados à recolha de dados, elaboração de relatórios, auditorias e apoio técnico especializado. Estes custos são efetivamente reais e exigem planeamento, especialmente em indústrias com estruturas de gestão mais pequenas.
Ainda assim, são custos previsíveis e, na maioria dos casos, escaláveis. Podem ser integrados em sistemas de gestão já existentes, como os de ambiente ou energia, amplamente disseminados na indústria cerâmica. São custos que podem ser orçamentados, faseados e controlados.
"Stop-The-Clock" Aprovada pelo Conselho
Conselho aprova a diretiva de diferimento "Stop-The-Clock"
Legenda dos Acrónimos:
CSRD - Diretiva de Relato de Sustentabilidade Corporativa
CSDDD - Diretiva de Due Diligence de Sustentabilidade Corporativa
CBAM - Mecanismo de Ajuste Fronteiriço de Carbono FY - Ano Fiscal
Novo prazo CSRD 3ª vaga FY 2029
Terceira vaga (PME cotadas) tem data de relato adiada do ano fiscal de 2027 para 2029
08
26.07.2028
07
26.07.2026
Orientações sobre Diligência da CSDDD
Antecipação do prazo para a Comissão publicar orientações sobre diligência devida de 26 de janeiro de 2027 para 26 de julho de 2026
Aplicação da CSDDD 1ª vaga
Data de aplicação para a primeira vaga de empresas abrangidas em um ano, de 26 de julho de 2027 para 26 de julho de 2028
26.07.2026
Estados-Membros Transpõem CSDDD
Os Estados-Membros devem transpor a CSDDD para o direito nacional
05
Novo prazo CSRD 2ª vaga FY 2027
Empresas da "segunda vaga" (ex: >5.000 funcionários, €1,5 mil milhões de volume de negócios) têm período de relato adiado do ano fiscal de 2025 para 2027, o que significa que apresentarão demonstrações de sustentabilidade em 2028
06
Paradoxalmente, é precisamente por serem visíveis que tendem a dominar o debate interno, escondendo outros impactos económicos menos imediatos, mas potencialmente mais relevantes.
Os custos invisíveis: onde reside o verdadeiro risco
Os custos invisíveis da sustentabilidade manifestam-se sobretudo fora do âmbito da conformidade legal.
Um dos principais vetores é o financiamento. As instituições financeiras, como bancos e investidores, continuam a integrar critérios ESG nas suas avaliações de risco, no acesso a crédito e nas condições de financiamento. Assim, a ausência de informação credível sobre os consumos de energia, recursos, emissões de gases com efeito de estufa (GEE) e outros aspetos de desempenho ambiental ou social, traduz-se, muitas vezes, em custos de capital superiores ou menor flexibilidade financeira.
Outro vetor é o mercado. Grandes clientes nacionais e internacionais, cadeias de distribuição e parceiros industriais mantêm as suas políticas internas de sustentabilidade e, por isso, continuam a exigir informação à sua cadeia de valor. Mesmo quando essas exigências não decorrem diretamente do cumprimento legal, condicionam decisões de compra, de seleção de fornecedores e de relações contratuais de médio e longo prazo.
Existe ainda um custo associado à energia e às emissões de GEE. Num setor onde a energia tem um peso significativo nos custos operacionais, a ausência de uma estratégia clara de eficiência energética, diversificação de fontes e redução de emissões de GEE, aumenta a vulnerabilidade à volatilidade dos mercados energéticos e às alterações no enquadramento das emissões de carbono.
Por fim, há um custo reputacional. Comunicar sustentabilidade sem base técnica sólida aumenta o risco de incoerência, perda de credibilidade e perceção de greenwashing, num contexto de escrutínio crescente.
O paradoxo do Omnibus para a indústria cerâmica
O novo enquadramento cria um paradoxo relevante para a indústria cerâmica. Ao reduzir a pressão legal direta, pode conduzir a uma sensação de descompressão regulatória. No entanto, as exigências económicas, financeiras e comerciais não só continuam como, em muitos casos, podem intensificar-se.
Assim, a distinção deixa de ser entre as empresas obrigadas e as não obrigadas ao reporte, passando a ser entre empresas preparadas e não preparadas. A sustentabilidade não é apenas uma questão de conformidade legal, mas sim um fator de posicionamento competitivo. Neste contexto, abordagens voluntárias e proporcionais à realidade de cada empresa, assumem especial relevância. Desta forma, é essencial estruturar informação de forma pragmática, permitindo responder às exigências do mercado sem que sejam criados encargos desnecessários.
Sustentabilidade como decisão industrial e não administrativa
Na indústria cerâmica, a sustentabilidade materializa-se em decisões concretas: eficiência energética, recuperação de calor, autoconsumo, valorização de resíduos, otimização de processos e digitalização. Estas decisões têm impacto direto nos custos operacionais, na resiliência e competitividade internacional.
Quando integrada na estratégia industrial, a sustentabilidade deixa de ser um custo isolado, passando a ser um instrumento de gestão de risco e de criação de valor. Quando adiada, transforma-se num conjunto de custos difusos, menos previsíveis e mais difíceis de mitigar.
Em resumo
A sustentabilidade empresarial na indústria cerâmica não desaparece com a redução das obrigações legais. Pelo contrário, torna-se menos visível enquanto requisito normativo e mais determinante enquanto fator económico e estratégico.
Os verdadeiros custos invisíveis não estão no reporte ou na recolha de dados, mas sim na perda de acesso a financiamento, mercados, competitividade energética e confiança dos stakeholders.
Num contexto de crescente exigência internacional, preparar a sustentabilidade de forma proporcional e tecnicamente sólida é uma decisão de gestão prudente.
Adiar essa preparação pode revelarse, esse sim, o custo mais elevado.
por Fátima Castanheira Geada, PhD, Economista Conselheira, Professora Universitária
1. Introdução e Enquadramento Teórico
A sustentabilidade e a governança corporativa adquiriram, nas últimas décadas, um papel central na agenda organizacional global. A crescente pressão social por práticas empresariais éticas e a evolução dos marcos regulatórios internacionais conduziram a uma transformação profunda nos modelos de gestão. Atualmente é esperado que as organizações incorporem princípios ambientais, sociais e de governança (ESG) como parte integrante das suas operações, não apenas como elementos reputacionais, mas como fatores estruturais de competitividade, resiliência e criação de valor no médio e longo prazo.

Contudo, apesar da ampla disseminação dos discursos sobre sustentabilidade e governança, subsiste uma dimensão largamente negligenciada na literatura e na prática: os custos invisíveis associados à sua implementação. Estes custos, de natureza intangível, processual ou diferida, não são exteriorizados de forma explícita nas demonstrações financeiras tradicionais e, por isso, tendem a ser subestimados no planeamento estratégico. A sua invisibilidade não decorre da irrelevância, mas justamente do carácter difuso, holístico e acumulativo que os caracteriza. Estes custos não são facilmente mensuráveis, não se encontram associados a transações específicas e frequentemente manifestam-se ao longo do tempo, na complexificação institucional, nos riscos reputacionais ou resistências culturais, com os quais as instituições se confrontam para a implementação de medidas e práticas sustentáveis.
O problema torna-se mais evidente num contexto em que a regulação internacional – como a Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), o EU Taxonomy Regulation, as normas do ISSB (International Sustainability Standards Board) e as frameworks como GRI, SASB ou TCFD – exigem precisão, transparência e rastreabilidade dos dados de sustentabilidade. A conformidade com estas exigências implica sistemas de recolha e monitorização de informação, formação técnica, reconversão tecnológica e aprofundamento da cultura ética interna. Todos estes elementos contribuem para a multiplicação de custos implícitos que, embora essenciais, permanecem pouco referenciados e discutidos.
A compreensão dos custos invisíveis requer o recurso a diferentes teorias organizacionais que explicam a dinâmica entre pressões externas, mecanismos
internos e comportamentos empresariais. As correntes teóricas que se revelam fundamentais são: a teoria da legitimidade, a teoria dos stakeholders, a teoria institucional e a teoria baseada em recursos (RBV), complementarmente, a teoria dos custos de transação fornece elementos explicativos importantes sobre estruturas de controlo e mecanismos de governança.
A teoria da legitimidade sustenta que as organizações procuram alinhar os seus comportamentos com os valores e expectativas dominantes na sociedade. A legitimidade funciona como um “recurso” fundamental para a sobrevivência, dado que permite às empresas garantir aceitação social e acesso a recursos críticos, como capital, talento ou estabilidade regulatória.
A adoção de políticas de sustentabilidade e de governança é amplamente interpretada como um instrumento para fortalecer essa legitimidade. No entanto, o processo de construção e manutenção da legitimidade gera custos invisíveis substanciais, tais como: necessidade de conformidade com normas externas; monitorização contínua de práticas que possam comprometer perceções públicas; investimento em transparência e prestação de contas.
A teoria da legitimidade sugere que muitos dos custos invisíveis emergem da necessidade de alinhar práticas internas a expectativas externas, mesmo quando esse alinhamento não se traduz imediatamente em benefícios tangíveis.

A teoria dos stakeholders amplia a compreensão da atuação organizacional ao reconhecer que o objetivo da empresa ultrapassa a maximização do retorno para os acionistas, integrando expectativas de múltiplos stakeholders: colaboradores, clientes, fornecedores, comunidades locais, reguladores, ONGs, investidores institucionais, entre outros.
A gestão dos stakeholders produz custos invisíveis porque exige comunicação contínua e bidirecional, implica mecanismos de consulta, aumenta a complexidade dos processos decisórios, requer transparência reforçada e permanente adaptação.
Os custos invisíveis decorrem do esforço adicional exigido para responder às múltiplas pressões — por vezes contraditórias — de stakeholders com interesses e valores divergentes. Adicionalmente, a falta de alinhamento com expectativas de stakeholders críticos pode gerar riscos reputacionais severos, o que também constitui um custo invisível.
1.3. Teoria Institucional
A teoria institucional explica como práticas organizacionais são moldadas por pressões externas de natureza coerciva, normativa e mimética. Estas pressões ajudam a compreender porque certas práticas de sustentabilidade e governança se disseminam mesmo quando não há evidência clara de benefícios económicos imediatos. Pressões coercivas (leis, regulamentos, supervisão) geram custos de conformidade e adaptação. Pressões normativas (padrões profissionais, certificações) originam custos de formação, auditoria e capacitação. Pressões miméticas (imitação de empresas líderes) criam custos de benchmarking, reporting e inovação acelerada.
1.4. Teoria Baseada em Recursos (RBV)
A RBV (Resource-Based View) considera que a vantagem competitiva sustentável depende de recursos e capacidades que sejam valiosos, raros, inimitáveis e insubstituíveis. Nesta perspetiva, práticas de governança, cultura ética, processos sustentáveis e sistemas de compliance são vistos como recursos intangíveis estratégicos. Contudo, o desenvolvimento desses recursos exige: tempo, conhecimento especializado, investimento contínuo e mecanismos de controlo interno. Todos estes elementos traduzem-se em custos invisíveis. A RBV permite conceptualizar estes
custos não como perdas, mas como investimentos para a construção de competências organizacionais avançadas.
1.5. Teoria dos Custos de Transação
A governança corporativa é, em grande medida, um esforço para reduzir comportamentos oportunistas e minimizar incertezas. A teoria dos custos de transação explica como mecanismos de supervisão, auditoria e monitorização — essenciais para boa governança — geram custos adicionais inevitáveis. Estes custos incluem o desenvolvimento de sistemas de controlo interno, de exigências de reporte e prestação de contas, de monitorização de riscos e cumprimento regulamentar e a criação de estruturas de governação mais complexas.
Apesar de invisíveis na contabilidade tradicional, estes custos são fundamentais para garantir integridade, confiança e redução de riscos operacionais
2. Sustentabilidade Corporativa
2.1. Definições, Evolução e Desafios
A sustentabilidade corporativa evoluiu de um discurso predominantemente ambiental para uma abordagem integrada, abrangendo dimensões económicas, sociais e de governança. Estudos clássicos definem sustentabilidade como a capacidade de uma organização atender às necessidades atuais sem comprometer a capacidade de futuras gerações, enquanto, no contexto empresarial, enfatiza-se a criação de valor responsável, equilibrando os interesses dos stakeholders internos e externos.
A literatura mostra que os modelos de sustentabilidade contemporâneos derivam de três grandes influências: (1) a necessidade de mitigar impactos ambientais e sociais; (2) a pressão regulatória global, incluindo normas de reporte; e (3) a procura por legitimidade institucional. Destaca-se que, embora o discurso corporativo apresente frequentemente a sustentabilidade como promotor de eficiência, inovação e reputação, vários autores sublinham que a sua implementação envolve investimentos significativos, muitos dos quais não são diretamente observáveis nas demonstrações financeiras.
A crescente complexidade das cadeias de valor globais amplia também os custos associados à monitorização, avaliação e comunicação de práticas sustentáveis. A adoção de indicadores ESG, a necessidade de verificação externa e a obrigatoriedade de relató-
rios de sustentabilidade detalhados contribuem para uma expansão contínua dos recursos necessários ao cumprimento das obrigações regulatórias e reputacionais.
2.2. Governança Corporativa e ESG - Conceitos
A governança corporativa é tradicionalmente definida como o conjunto de mecanismos que regulam as relações entre acionistas, administração, órgãos de supervisão e demais stakeholders, com o objetivo de assegurar integridade, transparência e eficiência, bem como integra dimensões sociais, éticas e ambientais como variáveis críticas para a credibilidade organizacional. As estruturas de governação robustas permitem a implementação eficaz de práticas sustentáveis. Contudo, estas estruturas implicam um incremento de processos internos, maior formalização de regras e maior escrutínio por parte de auditores, reguladores e investidores.
A implementação de boas práticas de governança gera custos associados à criação de comités especializados, sistemas de controlo interno, planos de mitigação de riscos e canais de denúncias, todos essenciais para assegurar accountability. Tais custos raramente são contabilizados como investimentos estratégicos, mas estão associados a melhores resultados reputacionais e menor exposição a riscos legais e operacionais.

2.3. Custos Invisíveis: Conceito, Dimensões e Importância
O conceito de custos invisíveis, também referidos como custos ocultos, custos intangíveis ou custos não contabilizados designam recursos consumidos que não aparecem explicitamente nos sistemas de contabilidade tradicionais e que, por isso, são facilmente subestimados no processo de tomada de decisão. Podem ser referidas as seguintes tipologias:
- Custos culturais e comportamentais
São aqueles associados à necessidade de mudança de mentalidade e cultura organizacional. Envolvem resistência interna, perda temporária de produtividade e necessidade de formação contínua.
- Custos de informação, monitorização e reporte
A recolha de dados, o desenvolvimento de métricas e a elaboração de relatórios de sustentabilidade representam uma das áreas onde os custos invisíveis são mais significativos. Relatórios integrados, por exemplo, exigem grande volume de dados e validação externa, o que implica contratação de especialistas, aquisição de software e mais tempo de processamento interno. A conformidade com normas exigentes, como a CSRD, Taxonomia ou ISO 37001, gera custos contínuos de auditorias, consultoria e adequação processual. A literatura aponta que o aumento da complexidade regulatória elevou exponencialmente estes custos na última década.
- Custos reputacionais
Falhas na implementação de compromissos de sustentabilidade, perceções de greenwashing ou escândalos éticos aumentam custos invisíveis associados à perda de confiança e necessidade de reparação reputacional.
- Custos de inovação e reconversão
Organizações comprometidas com sustentabilidade frequentemente necessitam investir em tecnologias limpas, eficiência energética, novos materiais e reconversão de processos. Estes investimentos, embora estratégicos, implicam custos elevados, sobretudo em setores com baixa margem operacional. Custos invisíveis tendem a aumentar nas fases iniciais de implementação ESG,
Custos Invisíveis
particularmente em empresas com baixa maturidade institucional. Empresas que investem mais em custos invisíveis apresentam maior resiliência reputacional e menor risco jurídico ou operacional, demonstrando que tais custos funcionam como mecanismos de proteção institucional.
3. A Natureza e a Tipologia dos Custos Invisíveis
3.1. A Intangibilidade, Difusão e Temporalidade
Os custos invisíveis diferenciam-se de custos tradicionais por três características essenciais: intangibilidade, difusão organizacional e temporalidade prolongada.
a. Intangibilidade – Ao contrário dos custos diretos (equipamentos, investimentos financeiros, contratação de serviços), os custos invisíveis envolvem: tempo de adaptação das equipas, desenvolvimento de capacidades organizacionais, complexificação dos processos de decisão, riscos reputacionais, esforços de transparência e recolha de dados.
b. Difusão organizacional – Os custos invisíveis tendem a espalhar-se pelas diferentes áreas da organização. Não se concentram num único departamento, mas manifestam-se transversalmente na organização (recursos humanos; compliance; operações; marketing; liderança; sistemas de TI: comunicação institucional).
c. Temporalidade prolongada – Os custos invisíveis são cumulativos e muitas vezes prolongam-se ao longo de vários anos. A sustentabilidade e a governança não são projetos pontuais, mas processos contínuos que exigem investimento constante. Assim, muitos destes custos só se tornam visíveis no longo prazo, seja pelo impacto positivo (ganho reputacional, maturidade institucional) ou negativo (falhas de implementação, riscos operacionais).
3.2. Custos Culturais e Comportamentais Os custos culturais constituem um dos mais relevantes e complexos conjuntos de custos invisíveis. Envolvem transformações profundas na mentalidade organizacional e na forma como colaboradores, líderes e stakeholders internos percecionam a sustentabilidade e a governança. Destacamos como mais relevantes a:
- Resistência à mudança – Os processos de mudança – especialmente mudanças normativas ou éticas – implicam resistência interna. Esta resistência reduz produtividade, atrasa implementação, exige recursos em formação, comunicação e acompanhamento e gera conflitos internos e ambiguidades interpretativas.
- Formação e capacitação contínua – A mudança cultural implica desenvolvimento de competências em: ética organizacional, tomada de decisão responsável, reporting, cumprimento regulatório, gestão de riscos emergentes.
- Reconfiguração dos valores organizacionais – A integração da sustentabilidade exige que valores como responsabilidade, transparência e integridade sejam incorporados no quotidiano da organização. Este processo é lento e envolve: revisões de códigos de ética; reformulação de políticas internas; alinhamento de incentivos e redefinição de prioridades estratégicas.
- Custos de informação, recolha e tratamento de dados – A sustentabilidade exige uma base infor-
macional rigorosa, abrangente e continuamente atualizada. Com o aumento da regulação e da exigência de transparência, a recolha, organização e verificação de dados. O reporte ESG exige dados ambientais, sociais e de governança detalhados, abrangendo: emissões de gases com efeito de estufa; consumos energéticos; diversidade e inclusão; condições laborais; prática anticorrupção; riscos climáticos e operacionais.
- Monitorização e verificação externa – Um dos custos invisíveis mais onerosos decorre da necessidade de assegurar a rastreabilidade e exatidão dos dados ESG. Isto implica: auditorias externas; certificação de processos; validação de relatórios; acompanhamento permanente de atualizações regulatórias.
A produção de relatórios de sustentabilidade, relatórios integrados e relatórios financeiros não financeiros exige competências multidisciplinares e elevado esforço de coordenação.
- Criação e manutenção de estruturas de governança – A boa governança exige comités especializados (risco, ética, auditoria); revisão de estatutos e regimentos internos; mecanismos de controlo interno mais formalizados; sistemas robustos de denúncias e investigação interna. Falhas na governança ou em práticas éticas podem desencadear:
Investigações formais; queda de valor de mercado; fuga de investidores; perda de talento; boicotes de consumidores.
3.3. Custos de Inovação, Transição e Reconversão Tecnológica
Para cumprir metas ambientais e sociais, muitas organizações precisam de investir em inovação, tecnologias limpas e reconversão de processos. A transição energética implica substituição de equipamentos obsoletos, sistemas de climatização, processos de produção, fontes de energia. A inovação sustentável requer novos conhecimentos, incluindo: economia circular; neutralidade carbónica; análise de ciclo de vida; regulação ESG; certificação ambiental. A sustentabilidade exige reconfiguração de relações com fornecedores, métodos de produção e logística, gerando custos invisíveis em: negociação de contratos; exigências de conformidade e integração digital.

4. A necessidade de redefinir o conceito de “custo”
O modelo conceptual demonstra que custos invisíveis não são despesas operacionais tradicionais, mas sim investimentos intangíveis que contribuem para capacidades avançadas, como: integridade institucional; maturidade ESG; capacidade de adaptação; resiliência reputacional; vantagem competitiva. A medição de desempenho ESG deve incluir não apenas resultados, mas investimentos intangíveis necessários à sua concretização. Isto implica: novas métricas; novos frameworks; maior integração entre contabilidade financeira e não financeira. Os custos invisíveis constituem investimentos estratégicos, não simples despesas. Organizações que reconhecem, planeiam e gerem estes custos tendem a alcançar maiores níveis de legitimidade, reputação e resiliência.
5. Conclusão
A análise desenvolvida ao longo deste artigo demonstra que os custos invisíveis da sustentabilidade e da governança constituem um elemento es-
trutural e inevitável da transformação organizacional contemporânea. Longe de representarem apenas encargos adicionais ou externalidades internas não contabilizadas, estes custos assumem um papel estratégico na construção de capacidades institucionais, na maturidade das práticas ESG e na consolidação da legitimidade organizacional perante stakeholders, reguladores e sociedade civil.
Os custos invisíveis revelaram-se multidimensionais – culturais, informacionais, regulatórios, reputacionais e tecnológicos – e apresentam simultaneamente características de intangibilidade, difusão organizacional e temporalidade prolongada. Estes atributos explicam a razão pela qual costumam ser subestimados nos modelos tradicionais de gestão financeira e estratégica. Contudo, a sua subavaliação pode comprometer a eficiência e a credibilidade das práticas de sustentabilidade e governança, expondo as organizações a riscos reputacionais, legais e operacionais significativos. Evidencia-se cada vez maior a interdependência entre sustentabilidade e governança: uma governança forte reduz custos invisíveis e aumenta a eficácia da sustentabilidade, enquanto uma cultura sustentável reforça mecanismos de governança, transparência e ética.
Donaldson, T., & Preston, L. (1995). The stakeholder theory of the corporation: Concepts, evidence and implications. Academy of Management Review, 20(1), 65–91.
Freeman, R. E., Harrison, J., Wicks, A., Parmar, B., & Colle, S. de. (2010). Stakeholder theory: The state of the art. Cambridge University Press.
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ISO. (2022). International Organization for Standardization standards for sustainability, governance and compliance. https://www.iso.org/
ISSB – International Sustainability Standards Board. (2023). IFRS Sustainability Disclosure Standards. IFRS Foundation.
por Paulo Velho Cabral, cofundador do Doutor Finanças
Vivemos um momento decisivo para as empresas portuguesas. À medida que Portugal e a Europa enfrentam ondas de calor, tempestades severas, secas prolongadas e incêndios sem precedentes, torna-se evidente que o risco climático deixou de ser um conceito abstrato. É hoje um risco económico, material e diário. E ignorá-lo não tornará as empresas mais competitivas. Torná-las-á mais frágeis. Como CFO e empreendedor, vejo este tema não apenas através das lentes ambientais, mas sobretudo através da gestão da sustentabilidade financeira, do risco e da viabilidade económica das empresas. Quando o ambiente muda, o balanço muda. Quando o clima se altera, altera-se a forma como operamos, gerimos custos, protegemos ativos e asseguramos continuidade.

A Europa é atualmente o Continente que mais aquece no mundo. E Portugal, pela sua geografia e padrões climáticos, tornou-se um verdadeiro climate hotspot: aquece 1,2ºC por cada 1ºC de aquecimento global, sofre secas mais longas, incêndios mais intensos e tempestades mais destrutivas.
Estas não são estatísticas distantes. São riscos operacionais reais. Podem implicar em equipas impedidas de trabalhar; em cadeias de valor interrompidas; em infraestruturas danificadas; em custos imprevistos que afetam liquidez e em quebras de vendas devido a paralisações ou crises setoriais.
E, talvez o mais preocupante: Portugal tem um défice de proteção climática superior a 90%, o que significa que famílias, empresas e o Estado suportam praticamente sozinhos os prejuízos dos fenómenos extremos. A esmagadora maioria dos danos recentes em tempestades, cheias e incêndios não estava segurada e recaiu diretamente sobre os agentes económicos.
O risco climático é um risco financeiro.
A gestão de risco empresarial, tradicionalmente focada em mercados, compliance e operação, tem de incorporar definitivamente o risco climático. Isto implica:
• avaliar riscos físicos (temperaturas extremas, incêndios, cheias);
• medir impactos económicos diretos e indiretos;
• rever o grau de proteção existente (seguros, reservas, planos de contingência);
• redefinir prioridades estratégicas e investimentos.
Enquanto gestores financeiros, não podemos continuar a olhar para eventos meteorológicos severos como exceções imprevisíveis. São, hoje, um novo normal. E quanto mais cedo os integrarmos nos modelos de planea-
mento, maior será a resiliência e menor o impacto financeiro futuro.
Adaptar é uma necessidade económica imediata
A adaptação às alterações climáticas não é um luxo. É uma medida de gestão prudente. As empresas que antecipam riscos protegem melhor a sua liquidez, os seus ativos, a sua força de trabalho e a sua capacidade de operar.
O que significa, na prática, adaptar?
1. Compreender os riscos do negócio
Que operações são vulneráveis? Que dependências externas podem falhar? Quanto custaria uma paragem total ou parcial?
2. Avaliar impacto e probabilidade
Sem quantificação financeira, a gestão de risco é apenas uma perceção subjetiva.
3. Criar planos financeiros e operacionais de contingência
Preparar reservas, antecipar custos extraordinários, garantir redundância energética, logística e humana.
4. Rever seguros e coberturas
Achar que “estamos segurados” é muitas vezes uma ilusão. Gaps de cobertura podem destruir empresas em horas.
5. Identificar oportunidades
Adaptação não é só proteção, é também inovação:
• novos serviços e produtos mais sustentáveis;
• relação mais ativa com comunidades e clientes em períodos críticos;
• posicionamento no mercado baseado em responsabilidade e resiliência.
O tecido empresarial português é composto maioritariamente por PME, que são simultaneamente as que
menos capacidade têm de absorver perdas severas e as que mais rapidamente conseguem inovar e adaptar processos.
O caminho da adaptação pode ser desafiante, mas oferece também oportunidades de diferenciação, de eficiência e de reforço da confiança de clientes, colaboradores e comunidades.
O papel do CFO: Onde risco, sustentabilidade e economia se encontram
O CFO tem hoje uma responsabilidade ampliada:
Traduzir riscos climáticos em riscos financeiros, e oportunidades ambientais em valor económico.
Somos, por definição, os mediadores entre sustentabilidade, risco e viabilidade económica. E é por isso que devemos assumir um papel ativo em integrar o risco climático na governação da empresa, trabalhar lado a lado com sustentabilidade, compliance e RH, assegurar que a estratégia financeira incorpora cenários climáticos, orientar decisões de investimento responsáveis e resilientes e comunicar ao mercado e aos stakeholders uma visão clara de futuro.
Portugal não pode escolher entre ambiente e economia. As empresas não podem escolher entre sustentabilidade financeira e sustentabilidade ambiental. Ambas são inseparáveis.
Se não agirmos com urgência, colaboração e visão estratégica, ficaremos mais vulneráveis, menos competitivos e menos preparados para um futuro que já começou.

por Luís Rochartre Álvares, Sustainable Transformation Leader na Finitor Consulting Industry Fellow na Católica Porto Business School.
Kéramica - Quando falamos de sustentabilidade, podemos falar em risco, em custo ou em oportunidade de negócio?
Luís Rochartre - Podemos falar em todos, mas o que faz mais sentido é falar em oportunidade de negócio, uma correta abordagem da sustentabilidade, usualmente, leva ao reforço do negócio das empresas, especialmente na identificação de novos produtos, de novos serviços ou mesmo de novos mercados. O risco

é uma atividade transversal de qualquer empresa e cada vez mais o meio empresarial e financeiro considera a análise do risco associado às práticas de sustentabilidade (sobretudo a sua ausência). Já no que diz respeito aos custos é, e deve ser sempre, objeto da atenção de qualquer organização e da sua gestão e como qualquer outro custo da atividade, deverá estar associado à geração de valor para a empresa.
Kéramica - Na sua experiência, quanto custa, afinal, “ser sustentável”?
Luís Rochartre - O custo da sustentabilidade é tão-só o custo associado aos investimentos que qualquer empresa deve fazer, relacionado com a implementação de uma estratégia de sustentabilidade, que como qualquer outro investimento deverá ser objeto de uma análise de retorno financeiro ou de impacto. Não se espera que a lógica de investimento das empresas mude. O fator mais crítico na adoção de práticas sustentáveis pode ser a capacidade efetiva das empresas em investirem e não o volume de custos associados. Por outro lado, há que saber qual o período de retorno deste investimento, muito poucos investimentos têm retorno positivo imediato, mas alguns, como a sustentabilidade têm um retorno positivo a prazo.
Kéramica - Onde considera que hoje se desperdiçam mais recursos no processo de implementação da sustentabilidade?
Luís Rochartre - Em primeiro lugar na não identificação prévia dos riscos e das oportunidades para cada empresa dessa ação. De seguida, não o fazer sem ter uma estratégia clara do que se vai fazer, e para quê. Infelizmente não são muitas as empresas que façam este exercício previamente, o que leva a que só por acaso, ou sorte, este investimento possa dar resultados positivos. Assim, dissipam-se recursos em ações desgarradas do
negócio e sem retorno efetivo, muito orientadas para a gestão da reputação ou para imitar a concorrência, mas não para o reforço da competitividade.
Kéramica - Pode dar exemplos concretos de decisões em que uma solução mais sustentável parecia mais cara, mas reduziu custos ocultos (defeitos, desperdícios, consumo energético, emissões) ao fim de alguns anos?
Luís Rochartre - Da minha experiência existem muitos bons exemplos onde as empresas apostaram na eco-eficiência, que levaram a reduções dos custos de energia (por mudança do tipo de combustível ou melhoria da eficiência, por exemplo pela sensorização dos processos produtivos para redução de avarias, de defeitos ou o encurtamento de tempos do processo) ou na poupança em componentes dos seus processos (por via do aumento da circularidade das matérias-primas). Isto são efetivamente medidas de boa gestão, que qualquer gestor toma, mas há que ter a consciência que estas ações contribuem também para os objetivos alargados de controlar os impactos negativos que a atividade da empresa pode gerar. Outra forma, que muitas empresas já adotam, é o redesenho dos seus processos de forma a diminuir (ou eliminar) os seus impactos negativos ou aumentar os seus impactos positivos. Hoje, por via dos custos de investimento terem baixado significativamente, é comum as empresas produzirem a sua própria energia, pela instalação de capacidade fotovoltaica, solução que já era viável anteriormente, mas não tão expressiva como hoje.
Kéramica - A crescente pressão regulatória e de reporte está bem estruturada ou excessivamente fragmentada?
Luís Rochartre - O foco no cumprimento da regulação e do reporte tem sido excessivo, uma vez que, na maior parte dos casos, as empresas por não terem nenhuma estratégia, acabam por reportar no vazio, um puro exercício sem sentido. Efetivamente devemos separar as obrigatoriedades regulatórias, que devem ser cumpridas assim que estejam em vigor, das ações de reporte voluntário, que deverão ser o culminar da implementação de uma estratégia. Atualmente a UE está a rever o anteriormente publicado, sendo que enquanto não for efetivamente publicado, as empresas deverão ir-se adequando ao que não está em discussão, como por exemplo a dupla materialidade, compromissos de descarbonização ou a existência de uma estratégia estruturada.
Kéramica - Até que ponto a preparação dos relatórios de sustentabilidade (CSRD, ESG, etc.) e outras exigências europeias cria custos administrativos invisíveis (equipas, sistemas de dados, consultoria)?
Luís Rochartre - Volto aos meus argumentos anteriores, se a ação de reporte de sustentabilidade não corresponder a uma ação integrada de valorização do negócio, todas as ações serão caras e sem retorno. Se contrariamente a empresa tiver uma estratégia de sustentabilidade que sustente e demonstre as vantagens para o negócio, todos os custos/investimentos terão um racional de negócio e estarão justificados no modelo de gestão da empresa.
Kéramica - Do ponto de vista da tesouraria, quais são hoje os principais riscos associados à sustentabilidade?
Luís Rochartre - Atualmente, e com a atenção crescente da banca na determinação do risco de sustentabilidade das empresas, a maior ameaça vem da necessidade de as empresas demonstrarem que têm as suas ações alinhadas com a sustentabilidade, através dos indicadores ESG. Especialmente os riscos climáticos, por exemplo pela necessidade de renegociar seguros ou planear sistemas de redundância face a eventos extremos.
Kéramica - Na prática, a sustentabilidade facilita ou dificulta as decisões de investimento e financiamento?
Luís Rochartre - Já facilita hoje, e com tendência a ter maior importância no futuro próximo. Atualmente os bancos, mesmo em Portugal, estão a criar os seus sistemas de informação para poderem classificar o risco de sustentabilidade das empresas, quem não se ajustar ficará fora do mercado ou com taxas de juro superiores.
Kéramica - Sente que o mercado (clientes e investidores) está disposto a pagar o verdadeiro custo de um produto mais sustentável ou ainda existe um fosso entre o discurso e a realidade de mercado?
Luís Rochartre - Esta questão parte de uma premissa errada, que é considerar que qualquer produto sustentável é mais caro. Na realidade existem casos em que isso é verdade, mas existem muitos mais em que acontece é o contrário. Se pensarmos que muitas das ações da sustentabilidade partem da melhoria do mix da energia utilizada ou na otimização de uso de matérias-primas com desenvolvimento de estratégias de circularidade, todas estas ações conduzem a uma redução dos custos. Contudo, muitas empresas, tentam capturar todo o valor criado, pela elevação do preço dos seus pro -
dutos sustentáveis, comprometendo o mercado e a justa redistribuição do valor. Acredito no carácter estratégico da sustentabilidade exatamente porque conheço muitos casos em que a resultante são produtos com menos impactos negativos e mais impactos positivos, que custam menos, mas ajustam um preço final mais baixo, sem medo de desvalorizar o que oferecem ao mercado.
Kéramica - Com a experiência acumulada, o que faria de forma diferente se estivesse hoje a estruturar uma estratégia de sustentabilidade?
Luís Rochartre - Contar com o compromisso real da gestão de topo, para assegurar o alinhamento com os objetivos da empresa; conhecer efetivamente o negócio, para não aplicar soluções standard; conhecer a cultura da empresa, para poder desenvolver as corretas estratégias de implementação; definir os riscos e as oportunidades, para poder capturar valor para o negócio; e por último não querer fazer tudo de uma vez.
Kéramica - Se pudesse escolher apenas três prioridades para reduzir os “custos invisíveis” da sus -
tentabilidade nos próximos cinco anos, quais seriam e porquê (dados, tecnologia, qualificação, cooperação setorial, etc.)?
Luís Rochartre - Integrar efetivamente a sustentabilidade nos sistemas de gestão e de controlo de gestão e não criar um conjunto de atividades desgarradas do funcionamento “normal” da empresa. Procurar novas formas de cooperação externa, fundamental para desenvolver soluções circulares. Alinhar os objetivos estratégicos de sustentabilidade com o sistema de incentivos existente na empresa (da gestão de topo ao chão de fábrica).
Kéramica - Que conselho deixaria aos gestores que procuram conciliar exigências ESG com a viabilidade económica das empresas?
Luís Rochartre - Não acreditarem em atalhos ou em soluções milagrosas, e sobretudo que com um relatório resolvem qualquer coisa. Que a sustentabilidade não é fazer coisas diferentes, é fazer o que sempre se fez, mas de uma forma diferente.

por Paulo Almeida, Assessor da Administração da Primus Ceramics
O ESG tornou-se um dos termos mais repetidos no discurso empresarial europeu. No setor da cerâmica, porém, o tema levanta uma questão incómoda, mas inevitável: Estaremos nós perante uma verdadeira alavanca de transformação industrial ou perante um enquadramento que, mal aplicado, pode penalizar setores intensivos em energia por natureza?
A cerâmica é de facto um consumidor intensivo de energia, sendo impossível dissociar o produto final dos processos térmicos exigentes, de cadeias de valor longas e de uma forte exposição aos custos energéticos.
Na minha opinião, exigir neutralidade carbónica imediata a este setor é tecnicamente irrealista — mas ignorar a transição seria estrategicamente suicida.


Na dimensão ambiental, o setor tem feito mais do que muitas vezes lhe é reconhecido: eficiência energética incremental, incorporação de resíduos, controlo rigoroso de emissões e uso responsável da água. O problema não está na falta de ação, mas na falta de reconhecimento de trajetórias de melhoria, num sistema que privilegia estados finais abstratos.
No plano social, a cerâmica continua a ser um pilar silencioso da coesão regional e do emprego industrial. No entanto, enfrenta um desafio crítico: atrair talento jovem para uma indústria frequentemente percebida como tradicional, quando na realidade está cada vez mais tecnológica.
Já na governação, o risco é claro: transformar o ESG num exercício burocrático, distante da realidade operacional das PME que dominam o tecido empresarial do setor.
O futuro do ESG na cerâmica não passa por negar as metas climáticas ou sociais, mas por exigir pragmatismo, neutralidade tecnológica e métricas justas. Caso contrário, corremos o risco de substituir uma economia produtiva por uma economia de relatórios — ambientalmente virtuosa no papel, mas industrialmente frágil na prática.
Enquadramento Estratégico
O setor da cerâmica portuguesa enfrenta uma convergência inédita de pressões: transição climática acelerada, volatilidade energética, exigências crescentes de reporte e concorrência internacional assimétrica, como é o caso da Índia neste momento, potenciada com a assinatura de
um acordo de livre comércio sem proteção para a cerâmica. Como defende a ASCER o comércio internacional deve ser "aberto e equilibrado", mas um acordo de livre comércio entre a UE e a Índia "não pode e não deve colocar em risco setores estratégicos europeus, como a cerâmica". No caso específico da cerâmica europeia, "é essencial manter as tarifas existentes, bem como preservar as medidas antidumping em vigor e garantir condições equitativas, baseadas na plena reciprocidade de normas e padrões nos campos social, laboral, ambiental e climático". "Somente dessa forma serão evitadas distorções em um setor já exposto à forte concorrência internacional"
Neste contexto, o ESG deixou de ser um conceito acessório para se tornar um fator estruturante do enquadramento regulatório, financeiro e comercial.
Contudo, a aplicação dos princípios ESG ao setor cerâmico exige uma abordagem crítica e tecnicamente informada. Trata-se de uma indústria intensiva em energia e recursos por definição, onde a sustentabilidade não se constrói por rutura súbita, mas por trajetórias consistentes de melhoria tecnológica, operacional e organizacional.
Defendo que a ESG pode — e deve — ser um instrumento de reforço da competitividade e da resiliência do setor, desde que respeite a realidade industrial, evite soluções
normativas complexas e esteja alinhado com uma política industrial europeia coerente, e protegida de uma concorrência internacional desleal.
Dimensão Ambiental (E) – Transição sem Ilusão Tecnológica
A dimensão ambiental é o eixo mais visível e mais exigente do ESG no setor da cerâmica. A elevada dependência de processos térmicos de alta temperatura, assentes maioritariamente em gás natural, coloca desafios estruturais à descarbonização profunda.
Nos últimos anos, o setor tem investido de forma significativa na eficiência energética: modernização de fornos, recuperação de calor, otimização de ciclos de cozedura e digitalização dos processos produtivos. Estes investimentos, embora menos visíveis do que mudanças disruptivas de combustível, representam ganhos reais e mensuráveis em intensidade energética e emissões específicas.
Paralelamente, a economia circular constitui uma oportunidade concreta de redução do impacto ambiental. A incorporação de resíduos internos e externos, a reutilização de subprodutos e a reciclagem são exemplos de práticas já consolidadas, que posicionam o setor de forma positiva face a outros segmentos industriais.

O principal risco reside na expectativa, implícita ou explícita, de uma substituição rápida e universal dos combustíveis fósseis por alternativas ainda imaturas ou economicamente inviáveis.
A eletrificação total, o hidrogénio verde ou outros gases renováveis devem ser encarados como vetores de médio e longo prazo, apoiados por projetos-piloto, incentivos adequados e infraestruturas energéticas robustas.
A cerâmica tem inúmeras empresas abrangidas pelo comércio europeu de licenças de emissão (CELE) e, ao contrário de indústrias como o aço ou o cimento, a cerâmica não possui um Benchmark de Produto. Em vez disso, utiliza-se o Benchmark de Combustível (Fuel Benchmark), que estabelece os parâmetros de referência para a atribuição de licenças. Este benchmark é crítico, dado que os fornos cerâmicos consomem grandes quantidades de energia para atingir temperaturas que variam entre 1000 e 1400 °C.
Para o período 2021-2025, o Fuel Benchmark para a cerâmica foi definido em 42,6 tCO₂/TJ, enquanto o gás natural, a tecnologia mais eficiente atualmente disponível, possui um fator de emissão de 56,6 tCO₂/TJ. Esta diferença evidencia uma lacuna significativa: mesmo utilizando a melhor tecnologia disponível (MTD), as emissões ainda superam o limite estabelecido pelo CELE, necessitando de uma incorporação de gases renováveis de pelo menos 25% para cumprir este objetivo. Ora estes gases são inexistentes até esta data e quando existirem serão economicamente inviáveis, sem uma compensação adequada por parte do Estado.
Uma abordagem ESG credível deve reconhecer que, no setor cerâmico, a sustentabilidade ambiental se constrói por acumulação de ganhos incrementais e não por saltos tecnológicos forçados.
Neste enquadramento, é importante salientar que a dimensão ambiental do setor da cerâmica apresenta um alinhamento relevante com vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que vão muito além das questões, frequentemente redutoras, da poluição ou das alterações climáticas. Destacam-se, em particular, o ODS 12 (Produção e Consumo Sustentáveis), através da eficiência material, da incorporação de resíduos e da redução de desperdícios ao longo do ciclo produtivo; o ODS 13 (Ação Climática), associado à redução progressiva da intensida-
de carbónica, à eficiência energética e à adaptação a um contexto de maior volatilidade energética; o ODS 6 (Água Potável e Saneamento), refletido na gestão eficiente, recirculação e minimização do consumo de água industrial; e o ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestruturas), na medida em que a transição ambiental do setor depende diretamente do investimento em tecnologia de baixo carbono, inovação de processo e infraestruturas energéticas adequadas. O reconhecimento deste alinhamento deve, contudo, evitar leituras simplistas e privilegiar uma abordagem baseada em materialidade setorial, impacto real e coerência entre objetivos ambientais, viabilidade económica e competitividade industrial.
A dimensão social do ESG tende a ser subvalorizada no setor da cerâmica, apesar do seu impacto estrutural nas economias locais e regionais. Muitas empresas cerâmicas são âncoras económicas em territórios de baixa densidade, assegurando emprego estável, qualificado e de longo prazo.
A modernização industrial em curso tem vindo a alterar profundamente o perfil das competências exigidas. Automação, manutenção avançada, controlo de processo e análise de dados tornam a indústria cerâmica progressivamente mais tecnológica, contrariando perceções desatualizadas sobre o trabalho industrial.
Apesar destes progressos, o setor enfrenta desafios relevantes: envelhecimento da força de trabalho, dificuldade de atração de jovens talentos e escassez de técnicos especializados. O ESG pode funcionar como catalisador de políticas de formação, requalificação e valorização das carreiras industriais, desde que vá além de indicadores genéricos.
Em matéria de segurança e saúde no trabalho, o setor apresenta uma trajetória positiva, com investimentos contínuos em prevenção, ergonomia e cultura de segurança. Estes avanços, embora pouco visíveis externamente, constituem um pilar essencial da sustentabilidade social e devem ser reconhecidos de forma mais explícita nos modelos ESG.
Paralelamente, a dimensão social do setor da cerâmica apresenta um alinhamento objetivo com vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, em particular o ODS 8 (Trabalho Digno e Crescimento Económico), o ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestruturas) e o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis). A criação de emprego estável, o investimento contínuo em qualificação profissional, a
promoção de condições de trabalho seguras e a forte ligação ao desenvolvimento regional traduzem contributos concretos para estes objetivos globais. Importa, no entanto, que este alinhamento não se limite a uma associação formal aos ODS, mas seja demonstrado através de indicadores relevantes, consistentes e materialmente ligados à realidade operacional do setor.
Dimensão de Governação (G) – Entre Estratégia e Burocracia
A governação é, paradoxalmente, a dimensão menos debatida e aquela que mais influencia a eficácia do ESG. A integração de critérios ESG na estratégia empresarial pode reforçar a disciplina de gestão, a antecipação de riscos e a transparência perante financiadores e parceiros internacionais.
No entanto, existe um risco claro de burocratização excessiva, sobretudo para PME que constituem a maioria do tecido empresarial cerâmico. Exigências de reporte desproporcionadas, duplicação de obrigações e falta de harmonização entre frameworks podem desviar recursos críticos da inovação e do investimento produtivo.
Uma governação ESG eficaz deve privilegiar a materialidade setorial, concentrando-se nos riscos e impactos verdadeiramente relevantes, em vez de promover listas extensas de indicadores de utilidade limitada.
Neste contexto, a ética deve ser entendida como o elemento fundador da dimensão de Governação. Mais do que um conjunto de códigos formais ou mecanismos de compliance, a ética pode ser definida, de forma simples e exigente, como o trabalho orientado para o bem comum. No setor da cerâmica, esta perspetiva traduz-se em decisões de gestão que equilibram criação de valor económico com responsabilidade perante stakholders, territórios, e gerações futuras.
Num contexto internacional marcado por exemplos recorrentes de liderança política e empresarial com comportamentos eticamente questionáveis, a centralidade da ética na governação empresarial ganha particular relevância. A robustez ética das organizações torna-se um fator de estabilidade, previsibilidade e confiança, especialmente em setores industriais de longo prazo, onde os investimentos, as relações laborais e o impacto territorial se estendem por décadas.
Integrar a ética no ESG implica assumir que nem todas as decisões estratégicas podem ser avaliadas apenas por métricas de curto prazo. Transparência, inte-
gridade, responsabilidade e coerência entre discurso e prática devem constituir critérios efetivos de governação, sob pena de o ESG se reduzir a um exercício técnico desprovido de legitimidade social.
Riscos Sistémicos de uma Aplicação Acrítica do ESG Uma aplicação descontextualizada do ESG ao setor da cerâmica comporta riscos significativos:
• Perda de competitividade face a produtores extracomunitários sujeitos a menores exigências ambientais e sociais;
• Penalização de empresas eficientes, mas estruturalmente intensivas em energia;
• Desincentivo ao investimento industrial em território europeu;
• Transformação do ESG num exercício predominantemente declarativo.
São indispensáveis mecanismos de proteção de uma concorrência desleal verdadeiramente impactantes, acompanhados por políticas energéticas e industriais coerentes.
Recomendações Estratégicas
1. Reconhecer trajetórias de melhoria contínua como critério central do ESG setorial;
2. Garantir neutralidade tecnológica e realismo temporal nas metas ambientais;
3. Ajustar exigências de reporte à dimensão e capacidade das empresas;
4. Valorizar explicitamente o impacto social e territorial da indústria cerâmica;
5. Alinhar políticas climáticas com competitividade industrial e segurança energética.
Conclusão
O ESG representa uma oportunidade relevante para o setor da cerâmica portuguesa reforçar a sua resiliência, modernizar a sua base industrial e consolidar a sua posição nos mercados internacionais. Contudo, essa oportunidade só se concretizará se o ESG for entendido como um meio ao serviço da sustentabilidade económica, ambiental e social — e não como um fim em si mesmo.
Uma transição bem-sucedida exige pragmatismo, diálogo e conhecimento técnico. Sem isso, o risco não é apenas de falhar metas ESG, mas sim comprometer a própria base industrial que sustenta a economia real.
por Revigrés
A sustentabilidade tornou-se, na última década, um eixo central da estratégia industrial europeia, impulsionada por políticas, exigências regulatórias e uma crescente pressão dos mercados. No setor dos pavimentos e revestimentos cerâmicos, historicamente intensivo em energia, matérias-primas e recursos naturais, esta transição assume particular relevância. Em Portugal, onde a indústria cerâmica alia tradição, inovação tecnológica e forte presença nos mercados internacionais, a sustentabilidade deixou de ser uma opção, passando a constituir um pilar essencial da estratégia industrial.
Neste contexto, a Revigrés tem vindo a integrar práticas sustentáveis de forma progressiva e consistente, reconhecendo que o verdadeiro impacto da sustentabilidade vai muito além dos indicadores ambientais mais visíveis . Para além dos benefícios tangíveis, existem custos e proveitos menos evidentes, que moldam de forma profunda a gestão, a cultura organizacional e a relação das empresas com o mercado e a sociedade.
Quando se aborda a sustentabilidade no setor cerâmico, a atenção recai frequentemente sobre métricas mensuráveis, como a redução de emissões de CO₂, a eficiência energética, o consumo e reutilização de água, a incorporação de resíduos no processo produtivo ou a obtenção de certificações ambientais. Estes elementos constituem os resultados mais visíveis do compromisso sustentável e são, naturalmente, fundamentais para avaliar o desempenho ambiental das organizações. No entanto, a sustentabilidade deve ser entendida como um processo organizacional, cultural e estratégico. Cada vez mais, ser sustentável deixou de representar apenas uma vantagem competitiva para se tornar um verdadeiro “bilhete de entrada” em determinados mercados e cadeias de valor.

A aposta na sustentabilidade gera um conjunto de proveitos intangíveis que, apesar de não surgirem diretamente refletidos nos indicadores financeiros tradicionais, representam um valor estratégico significativo.
Empresas com práticas sustentáveis consolidadas apresentam menor exposição a riscos associados à volatilidade energética, à escassez de matérias-primas, ao incumprimento regulatório ou à aplicação de penalizações ambientais. A mitigação destes riscos traduz-se, a médio e longo prazo, em ganhos económicos relevantes, ainda que nem sempre imediatamente visíveis nos resultados financeiros. Paralelamente, o acesso a determinados mercados e clientes tornou-se fortemente condicionado pelo desempenho em matéria ESG. Grandes players internacionais exigem, de forma crescente, métricas e evidências de sustentabilidade como condição para manter relações comerciais. Neste contexto, a sustentabilidade assume um papel determinante na integração e permanência em cadeias de valor globais.
A médio prazo, práticas sustentáveis bem implementadas conduzem igualmente a ganhos de eficiência operacional, através da redução de desperdícios, da utilização mais racional de energia e água e da otimização de processos produtivos. A sustentabilidade deixa, assim, de ser percecionada apenas como um custo adicional, passando a constituir um fator de racionalização estrutural.

Outro proveito invisível relevante reside na capacidade de atrair e reter talento. Profissionais qualificados demonstram uma preferência crescente por organizações com propósito, o que se traduz em menores níveis de rotatividade, maior produtividade e culturas organizacionais mais coesas. Acresce ainda o papel da sustentabilidade como motor de inovação, uma vez que a pressão para reduzir impactos ambientais e sociais impulsiona o desenvolvimento de novos materiais, produtos e soluções técnicas.
Por fim, a reputação e a confiança associadas a uma atuação sustentável constituem ativos intangíveis de elevado valor. No setor industrial, uma imagem sólida em matéria ambiental e social reforça a posição competitiva das empresas em processos de negociação, comunicação institucional e relacionamento com entidades públicas e privadas.
Contudo, alcançar estes benefícios implica assumir custos invisíveis que exigem planeamento e gestão rigorosa.
Um dos principais custos invisíveis reside no investimento em conhecimento e capacitação. A sustentabilidade é um domínio em permanente evolução, o que obriga à formação contínua das equipas, à adaptação a novas normas, tecnologias e metodologias de report, com impacto significativo em tempo e recursos humanos.
A integração de critérios ESG nos sistemas de gestão implica igualmente maior complexidade ao nível da recolha, validação e comunicação de dados ambientais e sociais, bem como da elaboração de relatórios transparentes, consistentes e auditáveis. Estes processos acarretam custos indiretos relevantes, muitas vezes subestimados na análise económica tradicional.
A integração da sustentabilidade em todas as áreas da empresa exige uma verdadeira transformação, representando um desafio considerável que requer liderança, comunicação eficaz e envolvimento contínuo das equipas. Trata-se de um processo gradual que consome energia organizacional e exige compromisso sustentado.
Além disso, a sustentabilidade não se limita à empresa; estende-se a toda a cadeia de valor. Garantir que fornecedores e parceiros cumprem os critérios ambientais e sociais implica monitorização constante, definição de requisitos mais exigentes e, em alguns casos, a reorganização da cadeia de fornecimento.
Ao longo do seu percurso, a Revigrés tem assumido a sustentabilidade como parte integrante da sua identidade empresarial. A empresa reconhece que ser sustentável não significa apenas cumprir requisitos legais, mas atuar de forma responsável, ética e transparente em todas as dimensões da sua atividade. Nesse sentido, tem investido de forma consistente na eficiência energética e na gestão responsável dos recursos naturais, na integração de critérios ambientais e sociais nos seus processos produtivos, no alinhamento com boas práticas de reporte e na promoção de uma cultura de envolvimento ativo de colaboradores, parceiros e comunidades.
por Nelson Martins, Técnico na APICER
A sustentabilidade na indústria cerâmica europeia deixou de ser apenas uma obrigação regulatória para se tornar um campo de batalha competitivo. Entre metas climáticas, economia circular e pressão crescente de clientes e reguladores, a questão central já não é “se” o setor deve mudar, mas “como” pode transformar essa pressão em vantagem estratégica. E aqui aparece o Passaporte Digital de Produto (PDP), que será uma das ferramentas centrais nessa transformação, não só como requisito legal, mas como alavanca de competitividade, transparência e proteção do mercado europeu.
Tive oportunidade de partilhar estas preocupações no DPP Summit em Guimarães, sublinhando que o Passaporte Digital de Produto, a ser bem implementado, poderá ser uma ferramenta extraordinária para garantir que o esforço europeu em descarbonização e economia circular, não seja destruído por concorrência desleal de países onde estas exigências simplesmente não existem ou não são aplicadas.


E para isso, é necessário criar sistemas robustos e fiáveis de fiscalização e auditoria a toda a cadeia de valor dos produtos que entram na UE, assegurando que os dados que constem nos futuros PDP sejam fiáveis, verdadeiros e certificados, para que possam ser comparáveis!
Sustentabilidade: esforço real, reconhecimento insuficiente
A indústria cerâmica europeia está a investir seriamente em descarbonização de processos, economia circular e aumento de eficiências: substituição de combustíveis fósseis, otimização de fornos, integração de matérias-primas secundárias, recuperação de calor, redução de desperdícios, entre muitas outras medidas. Este esforço é real, tem custos elevados e implica risco tecnológico, reorganização interna e necessidade de novas competências.
No entanto, estes investimentos nem sempre são visíveis ou valorizados pelo mercado. Em muitos casos, o produto que incorpora anos de trabalho em sustentabilidade continua a ser comparado apenas pelo preço ao lado de um concorrente de países onde:
• As emissões não são taxadas ou monitorizadas.
• As normas ambientais são fracas ou pouco fiscalizadas.
• A pegada social e ambiental não é um critério de decisão.
O resultado é um paradoxo: quem mais investe em sustentabilidade enfrenta sobrecustos relevantes, enquanto que quem ignora estes temas beneficia de uma vantagem competitiva imediata no preço.
Os custos invisíveis não podem continuar invisíveis
Já se reconheceu que a sustentabilidade traz “custos invisíveis”.
Se estes custos não forem reconhecidos e refletidos na forma como os produtos são avaliados e selecionados pelo mercado, a consequência será inevitável: perda de competitividade industrial na Europa, encerramento de unidades produtivas, perda de emprego e transferência de emissões para fora da EU: a famosa “fuga de carbono” e a desindustrialização europeia tornar-se-á real.
O PDP oferece, precisamente, uma oportunidade para tornar estes custos invisíveis em valor visível: informação estruturada, comparável e verificável que traduza, em dados mensuráveis, o esforço de sustentabilidade da indústria europeia.
O Passaporte Digital de Produto como ativo competitivo
O PDP não deve ser visto apenas como mais uma obrigação burocrática; tem de ser entendido como o “car-


tão de identidade” avançado do produto, que comunica ao mercado tudo o que a indústria já faz em matéria de sustentabilidade. Bem desenhado e bem implementado, o PDP pode:
• Mostrar de forma clara a pegada de carbono dos produtos ao longo do ciclo de vida.
• Evidenciar a incorporação de matérias-primas recicladas ou subprodutos valorizados.
• Demonstrar melhorias de eficiência energética e redução de desperdícios.
• Documentar durabilidade, desempenho técnico e potencial de reutilização ou reciclagem.
Ou seja, transforma os produtos num ativo digital, com uma narrativa baseada em dados: “este produto representa menos emissões, mais circularidade, mais eficiência, maior durabilidade e menor impacto ambiental”.
O PDP como vitrine da descarbonização e da circularidade na cerâmica
Como sabemos, a indústria cerâmica está a investir em:
• Descarbonização de processos (novos combustíveis, eletrificação parcial, eficiência de fornos).
• Economia circular (integração de resíduos, subprodutos, matérias-primas secundárias, redução de desperdícios nos processos, aumento de desempenho e de durabilidade do produto, valorização de fim de vida).
• Aumento de eficiências (logística, cadeia de abastecimento, embalagens, uso de água, otimização de layouts).
O PDP deve ser a vitrine que torna esse esforço visível e comparável. O mercado de materiais cerâmicos, seja para o setor de construção, através de arquitetos, projetistas, engenheiros ou entidades públicas e processos de adjudicação, seja numa cadeia de retalho enquanto consumidores finais, deve poder olhar para o PDP e comparar, de forma simples: “este produto tem melhor desempenho ambiental e maior transparência do que aquele”.
A competitividade futura não será apenas técnica ou estética, de qualidade ou de preço, será também informacional. Quem não tiver dados fiáveis e auditáveis deverá ficar para trás.
Fiscalização, auditoria e confiança nos dados do PDP
Para que o PDP cumpra este papel estratégico, não basta “encher” ficheiros com dados ambientais. É essencial garantir fiabilidade, consistência e confiança, devendo conseguir comprovar facilmente os mesmos dados perante autoridades fiscalizadoras. Caso contrário, o PDP corre o risco de se transformar numa nova forma de greenwashing digital, que é precisamente o que se quer combater.
Por isso, é crucial reforçar três pilares:
1. Fiscalização e auditoria robustas
Os dados incluídos no PDP devem ser sujeitos a auditorias técnicas e ambientais credíveis. Não pode haver espaço para declarações inflacionadas ou indicadores calculados com metodologias opacas. Se o PDP disser que um produto tem determinada pegada de carbono ou determinado conteúdo reciclado, isso tem de poder ser verificado.
2. Certificação por entidades externas
O PDP deve ser certificado por autoridades e entidades independentes: organismos notificados, certificadoras acreditadas, entidades reguladoras. A validação externa é o que transforma um simples repositório de dados numa ferramenta de confiança para o mercado. Sem certificação, o PDP arrisca-se a ser apenas mais um documento promocional.
3. Governança de dados e normalização
É indispensável definir regras claras sobre metodologias de cálculo, fronteiras de sistema, fatores de emissão, taxonomias de materiais, formatos de dados e periodicidade de atualização. Só assim será possível comparar produtos de diferentes fabricantes e garantir que todos jogam com as mesmas regras.
Se a Europa quer que o PDP seja um instrumento sério, não pode tolerar um cenário em que empresas europeias investem tempo e recursos em dados rigorosos enquanto concorrentes, dentro ou fora da EU, apresentam números pouco credíveis sem consequências.
Protecionismo inteligente e concorrência desleal
Há um ponto que não pode ser ignorado: a sustentabilidade custa dinheiro. E a Europa está a pagar essa fatura de forma muito mais intensa do que outras regiões. Países como China ou Índia, entre outros, não enfrentam o mesmo nível de exigência em termos de descarbonização, economia circular, reporte de dados e fiscalização. Na prática, isto significa:
• Produtos importados com pegada ambiental significativamente superior podem entrar no mercado europeu a preços mais baixos.
• Empresas europeias que investem em sustentabilidade competem diretamente com produtos que não suportam esses custos.
• O esforço europeu em reduzir emissões e resíduos pode ser neutralizado por importações massivas de produtos produzidos com padrões ambientais inferiores.
Neste contexto, o PDP deve ser também um instrumento de proteção do mercado europeu. Não se trata de fechar fronteiras, mas de garantir que quem quer vender na Europa tem de cumprir padrões equivalentes de transparência e responsabilidade.
Alguns princípios que deveriam ser assumidos:
• Produtos importados com PDP incompleto, não certificado ou manifestamente incoerente não deveriam ter acesso preferencial ao mercado.
• Critérios ambientais e de transparência de dados deveriam ser decisivos em concursos públicos e grandes compras privadas.
• A ausência de informação fiável deveria ser vista como um risco e não como uma vantagem competitiva.
Recente acordo Europa–Índia
Neste enquadramento, é legítimo criticar acordos comerciais entre a Europa e países onde as práticas de sustentabilidade ainda não são prioridade real, como é o caso da Índia. Se tais acordos não incorporarem mecanismos sólidos de nivelamento

de condições (ambiental, social e de transparência de dados), o resultado previsível será:
• Intensificação da concorrência baseada apenas em preço.
• Risco acrescido de desindustrialização da Europa em setores intensivos em energia, como a cerâmica.
• Transferência de emissões para fora da UE, agravando o problema em vez de o resolver.
Celebrar acordos comerciais que abrem ainda mais o mercado europeu a produtos sem garantias de sustentabilidade é incoerente com o esforço interno que se exige à indústria europeia. Se não forem estabelecidas cláusulas ambientais fortes, fiscalização efetiva e exigência de PDP fiáveis, o pacto “verde” arrisca transformar-se num pacto de desindustrialização. E, embora o PDP possa ser uma ferramenta muito útil, está ainda numa fase inicial de desenvolvimento e de uniformização de regras, pelo que nos próximos anos não será possível a sua utilização para fiscalizar o mercado neste sentido.
Digitalização e PDP: de obrigação a plataforma de liderança
A digitalização é frequentemente vista como mais um custo da sustentabilidade: sensores, sistemas de informação, integração de dados, novas competências. Mas, articulada com o PDP, pode converter-se na base de uma estratégia de liderança.
Para a indústria cerâmica europeia, isto significa:
• Desenvolver sistemas que recolham dados reais sobre emissões, consumos, resíduos e circularidade.
• Integrar informação ao longo da cadeia de valor: fornecedores, logística, aplicação em obra, fim de vida.
• Usar esses dados não apenas para cumprir obrigações, mas para otimizar processos, inovar em produto e diferenciar-se comercialmente.
Quando a digitalização e o PDP são vistos em conjunto, deixam de ser vistos como uma obrigação regulatória e passam a ser uma infraestrutura de conhecimento: a empresa passa a saber, com detalhe, onde pode reduzir emissões, onde desperdiça valor, quais os produtos com melhor desempenho ambiental e como comunicar isso ao mercado de forma credível.
Conclusão: reconhecer o custo, assumir a vantagem
A indústria cerâmica europeia enfrenta uma encruzilhada. Por um lado, carrega o peso de uma regulação ambiental e climática exigente, investimentos significativos em descarbonização, economia circular e digitalização, e a concorrência de mercados externos menos regulados. Por outro, dispõe de conhecimento técnico, experiência industrial e capacidade de inovação que muitos concorrentes não têm.
O Passaporte Digital de Produto pode ser o instrumento que faz a diferença entre estes dois cenários: ou se torna apenas mais uma obrigação administrativa, ou é assumido como a peça central de uma estratégia de competitividade, transparência e proteção inteligente do mercado europeu.
Para isso, é fundamental:
• Reconhecer e tornar visíveis os custos invisíveis da sustentabilidade.
• Usar o PDP para evidenciar, com dados, o esforço real de descarbonização, circularidade e eficiência.
• Exigir fiscalização, auditoria e certificação externa dos dados, dentro e fora da Europa.
• Integrar o PDP em políticas comerciais que não sacrifiquem a indústria europeia em nome de acordos assimétricos.
A mensagem mantém-se: ou a Europa transforma o PDP numa ferramenta de liderança e proteção justa da sua indústria, ou arrisca-se a assistir, em nome da sustentabilidade, à transferência da produção e das emissões para geografias onde a sustentabilidade não existe.
por Filipa Pereira Silva e Mariana Bem-Haja, FAF Sociedade de Advogados
Nos últimos dias, Portugal foi assolado por fenómenos meteorológicos que rapidamente foram considerados como dos mais violentos registados nas últimas décadas, deixando para trás um rasto de destruição que, infelizmente, colheu, pelo menos, dez vidas.
A extensão dos danos verificados acelerou uma resposta por parte do Governo, que declarou o estado de calamidade pública e mobilizou um pacote de apoios substancial, de cerca de €2.500.000,00, para responder às consequências da depressão Kristin e mitigar os efeitos sociais e económicos provocados pela catástrofe, regulado pelos Decretos-Lei n.º 31-B/2026 e n.º 31C/2026, ambos de 5 de fevereiro, cujos efeitos retroagem a 28 de janeiro de 2026.
No website apoioscalamidade.gov.pt, as famílias e empresas afetadas poderão encontrar três categorias de apoios: apoios para pessoas, para empresas e para a agricultura.
Relativamente aos apoios para pessoas, estes dividem-se entre apoios para a habitação e recuperação


das casas, estando previsto um apoio que suporta 100% do remanescente da despesa elegível, após intervenção das respetivas seguradoras, até ao limite de €10.000,00 por habitação, já disponível e cuja atribuição depende da realização de uma vistoria de banda das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), sendo que, até ao montante de €5.000,00, a estimativa do custo elegível pode ter por base fotografias, sem necessidade de vistoria.
A par deste apoio monetário, as famílias afetadas, desde que não estejam, a 28 de janeiro de 2026, em mora ou incumprimento de prestações pecuniárias há mais de 90 dias junto das instituições e tenham, a essa data, a situação regularizada junto da Autoridade Tributária e Aduaneira e da Segurança Social, podem, ainda, solicitar a suspensão do pagamento do crédito relativo à habitação própria e permanente, durante 90 dias, a contar desde o dia 28 de janeiro de 2026, prazo que poderá ser prolongado até 12 meses, quando os danos sejam tão profundos que justifiquem essa medida. Importa, contudo, referir, que o presente apoio não se trata de um perdão de dívida, i.e., o valor que não for pago durante este período, terá de ser pago mais tarde.
Os apoios para pessoas desdobram-se, ainda, em apoios sociais, tendo sido regulado um apoio

para famílias e pessoas carenciadas ou com perda de rendimentos, pago pela Segurança Social, que tem por limite €12.900,00 por agregado familiar, valor que será pago mensalmente, durante, no máximo, 12 meses.
Como medidas previstas para as empresas afetadas , a Resolução do Conselho de Ministros n.º 17-B/2026, criou linhas de crédito para apoio à reconstrução e à tesouraria, geridas pelo Banco Português do Fomento, com vista a apoiar a reconstrução necessária e decorrente dos danos causados pela depressão e a apoiar as necessidades imediatas de liquidez e tesouraria que daí se façam sentir.
As empresas podem ainda solicitar, a título excecional e temporário, a isenção de contribuições à Segurança Social, durante um período de até seis meses, prorrogável por igual período ou na modalidade de isenção parcial de 50% da taxa contributiva a cargo do empregador durante o período de um ano, desde que as entidades empregadoras contratem trabalhadores em situação de desemprego, e beneficiar de um regime simplificado de lay-off , permitindo às empresas que, comprovadamente, se encontrem em situação de crise empresarial, recorrer ao regime de redução ou suspensão dos contratos de trabalho, previsto nos artigos 298.º e seguintes do Código do Trabalho, mas com a dispensa das formalidades legais aí estipuladas.
Ademais, está previsto ainda um incentivo financeiro extraordinário do IEFP, por um período de três meses, com possibilidade de prorrogação, destinado à manutenção de postos de trabalho cuja
viabilidade económica se estime vir a ser afetada em virtude da situação de calamidade, de forma a atuar preventivamente sobre o desemprego.
À semelhança do regime previsto para as pessoas singulares, também as empresas têm acesso à moratória, adiando-se o prazo para cumprimento de obrigações fiscais até 30 de abril, com vista ao reforço da liquidez imediata, tendo sido ainda alargado, pelo IAPMEI, o prazo para a submissão do próximo pedido de pagamento das Agendas Mobilizadoras e Verdes, no âmbito do PRR. Neste âmbito, estão previstos, ainda, apoios para os trabalhadores independentes, apoios às associações sem fins lucrativos e às Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS).
Finalmente, no que concerne aos apoios para a agricultura , o Balcão dos Fundos para a Agricultura lançou um concurso para o “restabelecimento do potencial produtivo”, cujas candidaturas devem ser apresentados no Portal do Balcão dos Fundos, até ao dia 30 de abril de 2026. Este apoio poderá abranger, a título de exemplo, despesas relacionadas com infraestruturas, equipamentos, animais, alimentação animal, culturas, imobilização de equipamento e estabilização de solos.
Ora, é inegável que o Legislador pretendeu responder à catástrofe que se fez sentir, criando diversas redes de apoio dirigidas à população e às empresas afetadas, esperando-se que os apoios criados alcancem de forma célere e eficaz aqueles a quem se destinam, respondendo de forma proporcional às necessidades emergentes.
por Albertina Sequeira, Vice-Presidente Executiva da Apicer
COSTA NOVA
COSTA NOVA aposta na cutelaria e reforça a sua presença à mesa.
A cutelaria surge como uma extensão natural do universo COSTA NOVA. Em 2026, uma das grandes apostas estratégicas da COSTA NOVA centra-se no desenvolvimento de cutelaria, investindo em exclusividade, contando com design próprio, colaborações de destaque, como a de Carsten Gollnick, e o know-how das melhores fábricas portuguesas.

Com catálogo próprio incluindo treze coleções, nomeadamente as novas Ramo e Sen (desenhadas por Carsten Gollnick), e Douro, inspirada nos socalcos da paisagem vinhateira com o mesmo nome, a COSTA NOVA dá mais um passo na prossecução do seu grande objetivo de “vestir a mesa” de forma completa.
Lançada em 2005, a COSTA NOVA desde cedo se afirmou como especialista na conceção e produção de coleções em grés, que durante anos foram o foco principal da sua ativi-


dade. Nos últimos anos, contudo, a marca tem vindo a expandir o seu universo de produtos para além do grés, explorando novos horizontes através da incorporação de vidros, têxteis e cutelaria, por meio de parcerias estratégicas.
Celebrar a vida, através da partilha de momentos à mesa com a família e amigos, serve de inspiração à COSTA NOVA.
A marca cria coleções de mesa em grés fino, aliando qualidade e design à melhor tradição europeia de fabrico cerâmico. Os produtos em grés da COSTA NOVA são inovadores e sustentáveis, produzidos a partir dos melhores recursos naturais em Portugal.
Preservamos o trabalho artesanal no fabrico de cada uma das nossas coleções, levando para a mesa peças únicas e elegantes que se adaptam perfeitamente ao estilo de vida atual e perduram durante várias gerações.
A COSTA NOVA leva hoje o nome e a herança de Portugal a todo o mundo, com presença nos cinco continentes nas mais prestigiadas lojas de decoração e grandes armazéns e, também, em conceituados hotéis e restaurantes.
The Hospitality Journal 2ª Edição Já Disponível
A COSTA NOVA lançou a segunda edição de The Hospitality Journal, uma publicação editorial dedicada ao setor da hotelaria e restauração. A revista oferece uma visão sobre as tendências emergentes, projetos inovadores e personalidades influentes dentro do negócio.
Desenvolvida pela equipa de marketing da COSTA NOVA, a publicação integra a aposta estratégica da marca no mercado da hotelaria. “The Hospitality Journal oferece aos profissionais uma perspetiva sobre as mais recentes tendências, projetos inspiradores e as novidades no setor horeca, apresentando possíveis ideias e soluções para os seus próprios negócios”, afirma Liliana Padinha, Diretora de Marketing da COSTA NOVA.

Noticias & Informações

Com circulação em 75 países, a revista chega a uma audiência global através da rede de distribuição da marca e está também disponível em formato digital em: COSTA NOVA ISSUU.
Esta edição inclui uma entrevista exclusiva com o Chef José Avillez, parceiro de longa data da COSTA NOVA e distinguido com três estrelas Michelin.
Destaca ainda projetos internacionais de referência, como os restaurantes do RPM Group em Chicago, e apresenta as novas coleções COSTA NOVA 2026
PORCEL
Um lançamento luminoso: a Porcel apresentou
“Flare” na Ambiente Frankfurt 2026
A Porcel apresentou Flare, a sua mais recente coleção de porcelana fina, marcada por uma estética luminosa,
contemporânea e harmoniosa. Inspirada na harmonia das espirais, Flare traduz o movimento subtil da luz quando se expande e se dissolve, revelando composições de linhas finas douradas e em tons de bege.
Esta coleção surge da vontade de criar uma coleção em porcelana versátil e intemporal, que une tradição e modernidade, e que amplia o universo Porcel através da sua linguagem minimalista e sofisticada. O contraste entre tons claros e escuros acrescenta profundidade e ritmo, evocando o equilíbrio perfeito entre energia e serenidade.
As linhas douradas metalizadas que percorrem a superfície são complementadas por uma filagem a ouro pintada à mão. A forma das peças reforça o caráter clássico e refinado da coleção, resultando numa porcelana onde o seu brilho e o luxo se manifestam na subtileza.
Flare fará a sua estreia oficial na feira Ambiente em Frankfurt 2026, o evento internacional mais importante do setor tableware. Em destaque estará, também, uma das mais recentes coleções da Porcel. Lançada em setembro, Ruby une bordô e ouro sobre porcelana fina, criando reflexos que evocam uma joia lapidada.
Esta e outras coleções, assim como um portfólio de técnicas inovadoras da Porcel, estiveram no Hall 12.1 Stand B67 de 6 a 10 de Fevereiro.

. Fevereiro . 2026
THE INSPIRED HOME SHOW’2026 (Cerâmica Utilitária e Decorativa)
Anual – Chicago (EUA) De 10 a 12 de Março de 2026 theinspiredhomeshow.com
EXPOREVESTIR’2026
(Ladrilhos Cerâmicos)
Anual – São Paulo (Brasil) De 9 a 13 de Março de 2026 exporevestir.com.br/
CERAMITEC’2026 (Tecnologia para Cerâmica)
Bianual – Munique (Alemanha)
De 24 a 26 de Março de 2026 ceramitec.com/en/
COVERINGS’2026 (Ladrilhos Cerâmicos)
Anual – Las Vegas (USA)
De 30 de Março a 02 Abril de 2026 coverings.com/
The New York Tabletop Show´2026 (Cerâmica Utilitária e Decorativa)
Bianual – New York (EUA) De 14 a 17 de Abril de 2026 tabletopassociationinc.com
TEKTÓNICA´2026 (Construção)
Anual – Lisboa (Portugal) De 23 a 25 de Abril de 2026 tektonica.fil.pt/
The National Restaurant Show.com’2026 (Horeca / Cerâmica Utilitária)
Anual - Chicago (USA) De 16 a 19 de Maio de 2026 nationalrestaurantshow.com
THE HOTEL SHOW’2026 (Restauração)
Anual – Dubai (EAU) De 2 a 4 de Junho de 2026 thehotelshow.com
3 DAYS OF DESIGN’2026 (Design/Tendências)
Anual – Copenhaga (Dinamarca) De 10 a 12 de Junho de 2026 3daysofdesign.dk/
Congresso TBE 2026 [Cerâmica Estrutural]
Anual – Toulouse (França) De 18 a 19 de Junho de 2026
MAISON & OBJET’2026 (Design / Cerâmica Utilitária e Decorativa)
Bianual - Paris (França)
De 10 a 14 de Setembro de 2026 maison-objet.com
DOWNTOWNDESIGN’2026 [Design/Tendências]
Anual – Riade (Arábia Saudita)
De 15 a 18 de Setembro de 2026 downtowndesign.com
CERSAIE’2026 (Ladrilhos Cerâmicos)
Anual – Bolonha (Itália)
De 21 a 25 de Setembro de 2026 cersaie.it
TECNA’2026 (Tecnologia para Cerâmica)
Bianual – Rimini (Itália) De 22 a 25 de Setembro de 2026 en.tecnaexpo.com
BATIMAT’2026 [Materiais de Construção]
Bienal - Paris (França) De 28 Setembro a 01 de Outubro de 2026 batimat.com
DECOREX’2026
[Design/Tendências]
Anual – Londres (UK) De 11 a 14 de Outubro de 2024 decorex.com
EquipHotel’2026 (Horeca / Cerâmica Utilitária)
Anual – Paris (França)
De 2 a 5 de Novembro de 2026 equiphotel.com
UNICERA ‘2026 [Materiais de Construção]
Anual – Istambul (Turquia) De 2 a 6 de Novembro de 2026 unicera.com.tr
CONCRETA´2026 (Materiais de Construção)
Anual – Porto (Portugal) De 18a a 21 de Novembro 2026 exponor.pt/concreta/
BIG 5 SHOW´2026 (Materiais de Construção)
Anual – Dubai (EAU) De 23 a 26 de Novembro de 2026 thebig5.ae/
LONDON BUILD ‘2026 (Materiais de Construção)
Anual – Londres (UK)
De 25 a 26 de Novembro de 2026 londonbuildexpo.com
ARCHITEC@WORK 2026 (Materiais de Construção)
Anual – Lisboa (Portugal) De 3 a 4 de Dezembro de 2026 architectatwork.pt//
BAU ‘2027 (Materiais de Construção)
Anual – Munique (Alemanha) De 11 a 15 de Janeiro de 2027 bau-muenchen.com/en/
MAISON & OBJET’2027 [Design / Cerâmica Utilitária e Decorativa]
Bianual - Paris (França) De 14 a 18 de Janeiro de 2027 maison-objet.com
IMM’2026 [Interiores]
Anual – Colónia (Alemanha) De 19 a 22 de Janeiro de 2027 imm-cologne.com
THE INTERNATIONAL SURFACE EVENTE 2027 [Ladrilhos cerâmicos]
Bianual – Las Vegas (EUA) De 2 a 4 de Fevereiro de 2027 intlsurfaceevent.com
ISH’2027 (Cerâmica Sanitária)
Bianual – Frankfurt (Alemanha) De 15 a 19 de Março de 2027 ish.messefrankfurt.com/frankfurt/en.html



