Boletim Especial ⹠08 de março de 2013
Editorial
H
ĂĄ dĂ©cadas como legĂtima representante do MagistĂ©rio Paulista, a APEOESP empodera as professoras, que sĂŁo a maioria na categoria. Seja atravĂ©s da sua prĂłpria pauta de reivindicaçÔes, que atualmente inclui uma aguerrida luta contra o reforma da PrevidĂȘncia estadual, que vai penalizar especialmente as servidoras, ou atravĂ©s da Secretaria de Mulheres, que abraça o debate das questĂ”es feministas. Com Jair Bolsonaro na PresidĂȘncia da RepĂșblica e JoĂŁo Doria no Governo do Estado de SĂŁo Paulo, o debate retrocedeu a nĂveis inacreditĂĄveis para o sĂ©culo XXI. Enquanto propĂ”e abstinĂȘncia para os jovens, o Governo desvirtua a ideia de educação sexual nas escolas, de acordo com uma visĂŁo preconceituosa, que nĂŁo dialoga com os problemas reais das crianças e adolescentes em relação Ă sexualidade. A pauta ultraconservadora ecoa em todo PaĂs e em SĂŁo Paulo, com propostas de escolas militarizadas e projetos para proibir aulas sobre temas como diversidade e gĂȘnero. Por isso, cada vez mais, precisamos lutar como mulheres fortes e determinadas a combater o desrespeito Ă s diferenças, a violĂȘncia que mata mulheres todos os dias, o estupro que faz vĂtimas a cada minuto e o racismo e a transfobia que discriminam, ainda mais, mulheres negras e transexuais. AlĂ©m de levar para a sala de aula temas recorrentes do feminismo, o Boletim Especial do Dia Internacional das Mulheres destaca boas notĂcias como a realização da Marcha Mundial de Mulheres no Brasil e o fenĂŽmeno internacional do coletivo chileno âLastesisâ. Neste 08 de março de 2020, a APEOESP tem a alegria de destacar essas e outras iniciativas de resistĂȘncia Ă ignorĂąncia e brutalidade que dominam o cenĂĄrio polĂtico. Boa leitura! Professora Bebel - Presidenta da APEOESP
Machismo oficial Ă© alvo de denĂșncias e protestos
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unca um presidente da RepĂșblica foi tĂŁo vulgar com uma mulher, como Jair Bolsonaro foi com a repĂłrter PatrĂcia Campos de Mello. No dia 18 de fevereiro, em explĂcita insinuação sexual, Bolsonaro afirmou que a repĂłrter que investiga as âfake newsâ que o elegeram, queria âdar o furo a qualquer preçoâ.
Antes, no dia 06, a Relatoria Especial da ONU para ViolĂȘncia contras as Mulheres recebeu, denĂșncia referente ao esvaziamento orçamentĂĄrio do governo brasileiro no combate Ă violĂȘncia contra as mulheres. Segundo informaçÔes do MinistĂ©rio da SaĂșde, a cada quatro minutos uma mulher Ă© agredida por um ou mais homens, no Brasil. Antes da denĂșncia Ă ONU, a ministra da Mulher, da FamĂlia e dos Direitos Humanos, Damares Alves, enfrentou protestos na XIV ConferĂȘncia Regional das Mulheres, que aconteceu em janeiro na ComissĂŁo EconĂŽmica para a AmĂ©rica Latina e o Caribe. Parte da plateia, formada por ativistas que atuam em defesa dos direitos das mulheres e contra a desigualdade de gĂȘnero na AmĂ©rica Latina e regiĂŁo, ficou de costas para a ministra, cĂ©lebre por impor suas crenças religiosas em pautas de interesse nacional.
ResistĂȘncia tem nome de mulher! Conheça as reinvindicaçÔes das trabalhadoras brasileiras no 08 de março de 2020: â Basta de feminicĂdio ViolĂȘncia NĂŁo! â Pelo fim do assĂ©dio moral, sexual e da cultura do estupro â Pelo fim da divisĂŁo sexual do trabalho - relaçÔes compartilhadas jĂĄ â Nenhum Direito a Menos â Liberdade, igualdade e autonomia das mulheres â SalĂĄrio igual para trabalho igual â NĂŁo ao machismo â Educação para a Igualdade â Em defesa da democracia, contra a entrega de estatais, pela retomada do crescimento econĂŽmico com geração de emprego e renda â Em defesa do emprego, dos direitos, dos serviços pĂșblicos, da educação e da saĂșde â Em defesa do saneamento bĂĄsico â Em defesa da ĂĄgua, clima e meio ambiente â Em defesa das polĂticas pĂșblicas universais e de qualidade â Em defesa da aposentadoria pĂșblica e contra o desmonte do sistema previdenciĂĄrio â Empoderamento da mulher e participação polĂtica em todos os espaços â Combate ao racismo e toda forma de discriminação Ă s mulheres â Em defesa do trabalho decente e emprego com garantia dos direitos e conquistas â Em defesa da polĂtica de valorização do salĂĄrio mĂnimo â Em defesa dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres â Em defesa do SUS, da saĂșde da mulher e do parto humanizado â Em defesa da ampliação da participação polĂtica das mulheres nas eleiçÔes
Professora Ă© assediada por mencionar feminismo
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rofessora de InglĂȘs da rede pĂșblica de Vinhedo hĂĄ 20 anos, Virginia Ferreira foi absolvida no Ășltimo mĂȘs de fevereiro, em um processo administrativo disciplinar, depois de ser gravada em sala de aula por uma estudante e exposta no Facebook por membros do Movimento Brasil Livre. Seu crime: antes do Dia Internacional das Mulheres de 2019, a professora pediu para uma turma do 8Âș ano, que pesquisasse sobre alguns conceitos do feminismo e os estrangeirismos relacionados com o conteĂșdo do prĂłprio livro didĂĄtico, que retratava personagens que atuaram a favor dos direitos civis. O pai de uma das alunas da Escola Municipal Professor Ricardo Junco foi Ă Secretaria da Educação e disse que a professora estava utilizando suas aulas para ensinar sobre feminismo e âideologia de gĂȘneroâ. Para completar o equĂvoco, o denunciante ainda acusou a professora de falar Portu-
guĂȘs que, como todos sabem, Ă© a lĂngua mediadora para o ensino da LĂngua Inglesa. Vinhedo, que Ă© a cidade onde surgiu o MBL em 2014, jĂĄ arquivou dois projetos de lei referentes ao Escola sem Partido, que prega a doutrinação de direita nas escolas. SĂł que a professora Virginia tornou-se alvo duplo: do MBL e dos conceitos equivocados do Escola sem Partido: a gravação de sua aula foi publicada no Facebook do Movimento Brasil Livre de Vinhedo e ela enfrentou um processo administrativo disciplinar, que foi encerrado no dia 17 de fevereiro, com um brilhante parecer do NĂșcleo Especializado de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher, ĂłrgĂŁo da Defensoria PĂșblica de SĂŁo Paulo. No parecer de defesa da professora VĂrginia, o NĂșcleo argumentou que âa discussĂŁo de gĂȘnero no ambiente escolar estĂĄ em consonĂąncia com o que preconiza
as convençÔes internacionais assinadas pelo Brasil e a Constituição Federal; alĂ©m de condizer com o direito Ă educação, Ă liberdade de cĂĄtedra, ao pluralismo pedagĂłgico e, principalmente, com a Lei Maria da Penha, que afirma que uma das formas de prevenção Ă© a discussĂŁo dos papĂ©is de gĂȘnero.â. âEntendemos que a professora fez o debate de gĂȘnero, que Ă© essencial nĂŁo sĂł por ser determinação legal, mas porque existe uma vinculação entre discriminação das mulheres e violĂȘnciaâ, argumenta a defensora pĂșblica Nalida Coelho Monte. A professora acredita que foi exposta pela sua atuação sindical e partidĂĄria fora da escola. âA extrema direita cria uma mentira, desqualifica e acusa. Mas, eu tenho uma atuação como cidadĂŁ. NĂŁo faço apologias que nĂŁo sejam Ă©ticas em sala de aulaâ, justifica a professora.
Veja nesta Edição: A repressĂŁo como polĂtica de Estado pĂĄgina 2
Antropóloga ameaçada é premiada pågina 2
Marielle Ă© tema de Congresso da APEOESP pĂĄgina 3
Mulher brasileira no Oscar pĂĄgina 3
Um estuprador em seu caminho pĂĄgina 3
Lideranças femininas negras pågina 4
Tarsila Ă© pop pĂĄgina 4
Estante feminista pĂĄgina 4