REVISTA ELETRÔNICA COLABORATIVA
#01
[O RUÍDO EXPANDIDO EM PRÁTICAS ARTÍSTICAS]
Lançamento em fevereiro de 2021 no Programa Tessituras de Apoio à Extensão não-presencial na PósGraduação | PROEXT durante a programação artística do CONGRESSO VIRTUAL UFBA 2021
NOISE INVADE REVISTA ELETRÔNICA COLABORATIVA #01 [O RUÍDO EXPANDIDO EM PRÁTICAS ARTÍSTICAS]
S
U
M
Á
R
I
O
2 EDITORIAL 3 O PROJETO 4
7 FLECHAS | Edbrass Brasil
9 DENTRÓFORA | Heitor Dantas 10 CORROSÃO | Fernando Gomes 13 ANÚNCIO PARA PAISAGEM | Raoni Gondim 19 QUANDO OS RUÍDOS ME ESTAFAM | Marina Mapurunga 21 RASTRO | Guache 24 CO(R)PINHAS | bella 27 APANHAMENTO | Luisa Lemgruber 32 SWEET DESASTRE | Glauber Guimarães e Heitor Dantas 34 ORÁCULOS | Bruno Bresani 37 O RUÍDO COMO UM CONVITE ABERTO | Milena Kipfmüller 43 BETAMAXERS: FABULAÇÕES NO COTIDIANO DA CRIAÇÃO (CARTOGRAFIAS DO ENCANTAMENTO EM RUÍDO-DESVIO) | Isabel Nogueira e Luciano Zanatta 48 E SER UMA EXPERT EM SER UM EXCERTO DE SI MESMA? | Marina Cyrino 52 F[R]ESTA FESTIVAL DE IMPROVISAÇÃO | Flavia Goa, Amanda Jacometi e L£V1ÄT4 61 QUERO SONS QUE PARECEM IMAGENS, TEXTOS QUE NÃO PARECEM TEXTOS E IMAGENS QUE NÃO SÃO DA NATUREZA DESTAS | Taticocteau
DECEMBER 2016
O ruído esteve sempre no limite de invadir espaços silenciosos e vazios do meu íntimo, tornando-se um elo comunicante entre o mundo material e o espiritual. Este mesmo ruído foi somado às traduções das linguagens visuais-sonoras para abrir um diálogo além da dicotomia de alguns tópicos que nos interessam compreender e transmutar: poéticopolítico, identificável-estranho, belofeio, orgânico-sintético, ordemdesordem e vida-morte. Ao convidar artistas/ projetos para colaborar nesta revista*, busquei observar melhor a localização do ruído em cada uma destas obras, compreendendo o sentido amplificado como signo não-verbal e suas possibilidades infindas que contradizem com clareza qualquer obscuridade que gira ao entorno deste dispositivo potente e plural quando expandido em metáforas artísticas.
Crashhhh crashhhhhh shhhhhhh...
POSTMODERN PAINTING. Stella alternately paints in oil andewatercolor desgaste
uma sensação de descoberta trouxeram-me o devir que possibilitou um novo rumo, onde força e fragilidade se unem ao gestual do ruído, numa ideia fixa transformada agora em ritual de passagem entre a imagem e o som.
Andrea May
*Uma das atividades de extensão acadêmica da minha pesquisa de pós-graduação, intitulada RUÍDO MOTRIZ: DISPARADOR DA POTÊNCIA CRIATIVA NA ARTE SONORA, sob orientação da Profa. Dra. Ludmila Cecilina Martinez Pimentel.
2 | NOISE INVADE
DECEMBER 2016
NOISE INVADE consiste em uma rede de experimentações artísticas com hibridação das linguagens visuais e sonoras que se entrelaçam à poética digital tendo como fio condutor o ruído expandido em mostras coletivas, conexões virtuais e álbuns colaborativos. Um projeto de caráter colaborativo com a proposição de interlocução livre associada a um tema literalmente "ruidoso" em relação à estética e ao fator comportamental. Pretende ainda alavancar questões acerca do desconhecido e instigar o público diante destas novas formas de ver, pensar e interagir com o ruído nas artes e nas mídias tecnológicas. Com a proposta de livre interpretação do "noise", as ações presenciais utilizam diversos formatos, suportes e técnicas para ocupar espaços públicos e privados. Primeiro foi um casarão inteiro no Pelourinho em 2013, na sequência, em 2014, o Fórum Cultural de Cerveira e a Galeria Projecto Cerveira Artes, ambos em Vila Nova de Cerveira, Portugal e em 2018, o Mercadão CC, no Rio Vermelho em Salvador. A curadoria é assinada por Andrea May, artista visual e sonora, curadora independente e mestra em Artes Visuais em parceria com o guitarrista, multi-instrumentista e produtor musical Junix 11.
3 | NOISE INVADE
7 FLECHAS a d n a ri M ai l a h t a N : o t o F . ) o s s e c o r P ( s a h c el F 7 o ã ç al a t s nI
EDBRASS BRASIL SUPORTE: VÍDEO (2020)
Artista sonoro e improvisador brasileiro, Edbrass Brasil atua em diversas áreas criativas, numa colaboração de 15 anos com diversos coreógrafos e coletivos de dança, diretor artístico, organizador de festivais, artista de rádio e gestor da Low Fi – Processos Criativos*. Em suas apresentações solo ou em pequenos grupos, utiliza instrumentos de sopro não convencionais, aliados a técnicas estendidas, colagem de sons e sobreposições de texturas, explorando o clima imersivo de drones em ambiente microtonal, integrando as tradições de invenção do Brasil negríndio. *Plataforma de criação, produção e difusão artística, com sede em Salvador-BA, o coletivo Low Fi – Processos Criativos iniciou suas atividades em 2014, projetando e construindo uma rede de intercâmbio artístico e, desde então, traz em seu histórico conexões com artistas, instituições e produtoras da Europa, América Latina e EUA, além do território nacional. 4 | NOISE INVADE
A MÚSICA DE NUNCA MAIS A
performance
Flechas"
intermídia
explora
possibilidades
de
"7
Está em jogo uma abertura para
as
uma prática improvisativa
composição
leva
em
conta
a
que
própria
em tempo real, numa pesquisa
perenidade da “obra”, visto que
que
da
depende
essencialmente
usos
conexão
com
conecta
botânica
e
aspectos os
seus
a
da
paisagem
cotidianos nas tradições afro-
sonora do local, das condições
indígenas brasileiras.
climáticas
e
dos
materiais
disponíveis para a performance.
Foto-frame do video Exp_7 Flechas para IN/OUT Festival: Candai Calmon e Edbrass Brasil
[...] Uma ação que se desdobra em dois ou mais formatos. Originalmente, como uma instalação cênica com a presença do performer. Uma outra possibilidade é o formato "instalação multi-sensorial", sem a presença física, ou prevendo uma participação virtual do performer.
Foto: Nathalia Miranda
Nos 3 vídeos citados nesse texto, foram utilizadas sete tipos de folhas abundantes no litoral baiano, antes e após o processo de secagem, com e sem processamento digital. A experiência sensorial de tocar com os materiais vindos do reino vegetal abre o terreno para uma expressão múltipla e ligada a um campo vibracional mais sutil, por meio da relação entre os sons, o olfato e a espacialidade. Foi com essa idéia em mente que recebi, em nome do CMC (Ciclo de Música Contemporânea), em agosto de 2020, o convite para integrar a programação do Festival IN/OUT, promovido pelo Coincidência ProHelvetia, envolvendo onze propostas artísticas da América Latina, que ocorreu em setembro.
A minha curadoria definiu nomes que já estavam no nosso radar, como a performer Candai Calmon, Bartira, Ricardo Aleixo, Leonardo França e, pela primeira vez em 7 anos, me inclui entre os performers. Foi também a primeira vez que resolvi utilizar publicamente a pesquisa com as folhas. Produzimos nessa ocasião, uma performance de 45 min gravada em vídeo, num belo encontro com a edição de imagens de Nancy Viégas. A mediação do vídeo propiciou uma maior aproximação entre público e artista, por meio de uma ampliação do plano de escuta individual, em direção á uma escuta coletiva e conectada com uma idéia de 'tecnologia da natureza interior'...
A escolha estética recaiu sobre a interação entre dança, som e voz, revelando uma abordagem de “Arte Total”, derivada das tradições musicais não-ocidentais, a exemplo das de matrizes africanas. A peça revelou a força do encontro entre nomes ligados a produção contemporânea afro-brasileira, repercutindo de forma muito positiva na resenha do Russ Slater, para a inglesa “The Wire Magazine”, na edição número 441, publicada em outubro de 2020. Confira o registro no Festival IN-OUT!
6 | NOISE INVADE
PROGRAMA IMS CONVIDA EDBRASS BRASIL "Os nossos instrumentos foram criados para mimetizar os sons da natureza, os sopros, os trovões, os gritos de amor e paixão, do cio, da dor. Com o tempo, a idéia de harmonia, de reprodutibilidade, a necessidade humana de estabelecer cânones, fez com que esses instrumentos se padronizassem em tamanhos, técnicas de fabricação, técnicas de execução, afinações, fez com que a música humana se distanciasse irremediavelmente dos sons da natureza. É essa volta ao som irreprodutível por outros artistas, em outros lugares, sem acesso àquelas folhas, aquele chão, aquele bambuzal (com os vários calibres da planta), sem a influência daquele vento, que faz dessa experiência uma singularidade total. Nem o próprio EDBRASS BRASIL, o artista do vídeo, conseguirá nunca mais repetir a performance. A meu ver, é isso o que comove nessa apresentação. A certeza de que ela só pôde existir naquele presente. E nunca mais, a não ser pela banda sonora e artificial do vídeo. É a música efêmera. A música de nunca mais. Lindo demais.” Laura Caprignole, editora do site Jornalistas Livres
Edbrass Brasil, um dos artistas convidados pelo IMS a se dedicar à criação durante a quarentena, apresenta "7 Flechas":
DI ALAWO EWE
RAJEDREV
Desta vez o convite veio do Festival Argentino “ Santo Noise”, por meio da curadoria da Abrigo Plataforma ( CE). Mais um festival com uma programação repleta de artistas latinos e de outros continentes, numa colaboração com o artista sonoro Eric Barbosa e a artistas multimídia Clara Capelo, ambos de Fortaleza- Ceará. O processo criativo partiu de uma sessão percussiva que o Eric me enviou. A essa "base", adicionei diversos recortes extraídos das sessões de áudio na mata, não utilizados no 7 Flechas. Fizemos uma rápida dinâmica de edição e finalização do áudio, em seguida passando esse material para Clara compor a parte visual. A única "direção" que compartilhamos com ela foi a track mais o título "Verdejar, tornar-se verde!”. O resultado vocês podem conferir aqui:
DENTRÓFORA
Varizes fartas, mapas sobre o peito Com garra árida, arranhando raso A fragil membrana da água-ventre Dentrófora. Amálgama, monstruosos nervos latejando impuros Anti-pássaro de imprevisíveis asas Que cada um de nós ganha, ao nascer, a tarefa hilária de domar Mergulha no mais íntimo terror, surdo submundo, E emerge à superfície plácida, À luz do mais débil absurdo Dentrófora. Penas de chumbo, coordenadas químicas Entre x e y, o claro e o não-tão-claro O escuro e o invisível núcleo Dentrófora Ouve seu nome nas bocas naufragadas. 9 | NOISE INVADE
COR ROS ÃO
FOTOGRAFIA por Fernando Gomes Fotógrafo | Jornalista
O
skate
acontecendo
elemento
como
performático,
questionando e reinterpretando o uso da cidade e seu mobiliário urbano,
dando-lhes
outros
sentidos e funções, arranhando, riscando,
manchando
e
rasurando essas superfícies. A cidade de Salvador como palco dessas atuações, cidade antiga, com suas ruas alvejadas pelas degradações que o tempo e nós mesmos
-
como
seres
interventores desses lugares realizamos nessas paisagens.
11 | NOISE INVADE
Cada parte do processo aqui é tão importante quanto o resultado final, e vai somando-se a cada etapa. A arquitetura da cidade modificando essas terras desde a colonização, a performance dos skatistas nessa arquitetura deteriorando-a, a fotografia que registra essas performances e as intervenções que deterioram essas fotografias gerando um outro tipo de imagem, num processo manual e pouco previsível. Buscando
um
intervenções
paralelo
nas
na
fotografias
música,
entendo
preto&branco
as
como
versões "noise" ou "dubs" de músicas clássicas. A série de imagens faz parte do .SSALITRE., projeto multimídia que retrata a prática e vivência do skate de rua na capital baiana. Fotografias impressas que foram
deixadas
à
mercê
da
ação
do
tempo,
empoeiradas, amassadas, queimadas e submetidas a outras formas de degradação.
12 | NOISE INVADE
anúncio para
paisagem
Imagem: Raoni Gondim. Acervo pessoal, 2020
Carvão vegetal, luz e ruído. Destes três elementos surge a instalação PROTO_, realizada no Museu de Arte da Bahia entre os dias dezessete de janeiro e nove de fevereiro de 2020. Ao entrar na sala, o espectador se depara com uma conjunção de estímulos sensoriais: a luminosidade do verão soteropolitano em contraste ao ambiente escuro, os pés, descalços, caminham no carpete áspero até a esfera de carvão no centro da sala. Enquanto isso as pupilas se aquietam na penumbra e enxergam o brilho refletido na superfície dos carvões que descem do teto. O ruído grave ressoa a matéria em atrito. Na pele é possível sentir o ar quente da sala.
Penso sobre a dimensão da paisagem [1] a partir da relação simbólica do homem com seu habitat. Assim, os aspectos biogeoquímicos e imaginários, suscitados pela experiência cotidiana com a paisagem, passam a reverberar em consonância - o contexto biogeoquímico evoca a contínua evolução da natureza que por sua vez é domesticada no contexto imaginário pelos mecanismos e fenômenos da representação. Antes de ser uma imagem [campo da representação], a paisagem remonta uma dinâmica de forças constantes. Por meio da gravidade e do magnetismo do planeta é gerado o campo eletromagnético que possibilita a formação de nossa atmosfera, criando uma barreira contra as radiações solares e possibilitando a formação da vida como a conhecemos.
[1] As investigações que orientam o desenvolvimento da poética decorrem de minha pesquisa de doutorado em Artes Visuais, na linha de pesquisa em processo de criação artística contemporânea, pelo PPGAV/UFBA.
14 | NOISE INVADE
As condições que definem a paisagem, em seu amplo sentido, estão circunscritas numa constante de alta entropia [2] - perene e caótica. São consonâncias e dissonâncias que geram novas qualidades de relação e, portanto, de representação. Nessa lógica, todo corpo gera e é gerado por um estímulo eletromagnético e isso parece ser um tipo de linguagem universal. Portanto, seria a experiência estética um campo de vibração? As informações do espectro eletromagnético nos chegam em frequências distintas - ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho, luz visível [percebemos as imagens por aqui], ultravioleta, raios-x e raios gama. O que determina a frequência é a relação com o comprimento da onda eletromagnética. Assim, independente da frequência em que se encontre estas ondas possuem uma mesma natureza, logo, a realidade da matéria – e da imagem – nos diz muito sobre a nossa capacidade de percebê-las. O fato de não percebermos a matéria – e a imagem -, não significa que elas não existam, mas que não estamos afinados com as respectivas frequências.
[2] A natureza possui padrões estáveis. Tudo o que existe, dos aspectos atmosféricos às estruturas sociais, está intimamente relacionado. Os padrões estáveis são sistemas complexos de alta entropia. Isso significa que cada unidade deste sistema possui autonomia e complexidade, qualquer modificação pode alterar ou desencadear um resultado diferente dentro de um espectro de previsibilidade. A autonomia e complexidade dos sistemas vivos prediz que toda forma de vida possui um tipo de memória capaz de criar tecnologias de sobrevivência e perpetuação.
Imagem: Raoni Gondim. Acervo pessoal, 2020.
A paisagem para mim se constitui neste lugar vibrátil e onírico, onde todo estímulo, que em si é algo em plena afetação, reverbera na composição, logo, na densidade do que passamos a sentir, a enxergar e a intuir como verdade. Pensamos por imagens. Parto da ideia de que a imagem tem sua fundação no momento em que as experiências geram sensações e então são incorporadas na memória. No entanto, antes de se tornarem imagens, estas incorporações [sensações] são potências – vibração e energia em relação com outros corpos - que por sua vez nos diz muito sobre o universo não visível da matéria. A imagem se manifesta no imaginário e este se encontra fissurado pelo modo como a modernidade funda o consumo de imagens simuladas e dissimuladas, criando um sistema econômico e sociopolítico que gera um lastro cultural de desarticulação de potências. Assim, o imaginário perde gradualmente sua capacidade de imaginar, pois as imagens nos chegam prontas e elas não estão fundamentadas nas experiências e sensações, mas no desejo de tê-las. Com isso, nos tornamos, de modo progressivo, sujeitos adictos por este ciclo inviolável de desejos, pois o que se deseja é a permanência deste estado desejante, e pela falta de experiencias perdemos o senso crítico acerca deste mecanismo. O que surge desta consciência paisagens distópicas, em ruínas.
são
16 | NOISE INVADE
RUÍDOS Na dimensão estética o ruído parece transitar entre o ser da matéria (os elementos naturais) e o estar da materialidade (cultura material). Estas recorrências vibráteis soam comumente como algo incômodo, pois são instâncias da matéria que não cabem, a priori, na imagem enquanto um corpo que se constitui a partir da luz visível ao olho humano. O ruído inquieta por não se efetivar em uma linguagem concisa, é uma experiência evasiva, marginal à imagem, fronteiriça e por isso tão contundente, ele denota um certo iconoclasmo epistemológico, faz ruir a imagem e abre, nesse sentido, novos espaços de expansão e apreensão da matéria não visível. Em Proto_, conto com a parceria da dupla MAY HD + JUNIX 11, que assinam o sound design.
Trabalhamos a partir da base de ruídos graves, provenientes de frequências captadas pelo movimento da Terra e da terra. Impregnada deste imaginário, MAY HD experimenta a materialidade do carvão a partir da quebra, fricção e captação sonora destes diálogos. São tensões suscitadas pelo empreendimento da escuta no limiar entre a matéria e a materialidade.
Imagem: May HD. Acervo pessoal, 2020.
Imagens: Raoni Gondim. Acervo pessoal, 2020.
Nesta atmosfera se constitui a instalação. O que se apreende é um certo estado de suspensão do espaçotempo ordinário onde a matéria reflete e se decompõe no brilho intermitente da superfície do carvão. Neste princípio operativo a matéria conduz à materialidade que retoma a matéria, que se desdobra nas experiências de quem observa... A luz, o brilho e o ruído são fases distintas de uma mesma natureza, são atribuições simbólicas desenhadas com a consciência dos campos eletromagnéticos. Quem transita pela instalação não é mero espectador, não há dentro e fora, não se contempla a paisagem à distância. Este corpo-humano recobre a paisagem, está em relação. É parte da paisagem visto que também é indutor e transmissor de um campo vibrátil.
Raoni Carvalho Gondim Artista-pesquisador em linguagens visuais contemporâneas. É professor da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Trabalha com metodologias de pesquisa em artes visuais. É especialista, mestre e doutorando em processos de criação artística. Integra o Grupo de Pesquisa Arte Híbrida – CNPq. 18 | NOISE INVADE
QUANDO OS RUÍDOS ME ESTAFAM… por Marina Mapurunga
2017. Salvador-Bahia. Blefarospasmos frequentes. Zumbidos, tinnitus, não lembro exatamente em que frequência, mas soava em torno de 15 mil Hertz, em senoide. Do nada, essas senoides saiam da minha cabeça, deitada, sentada, caminhando, lendo, esperando o ônibus. Naquele período, os sons, ou melhor, os ruídos externos se amplificavam na minha cabeça. E minha cabeça gerava seu próprio ruído, o tinnitus. Uma proteção? Um aviso? As tonturas começaram. Tinha que sentar. Achava que iria desmaiar em meio à multidão. Cheguei a parar em algumas emergências. “Você não tem nada”, diziam os médicos. Continuava eu, meu tinnitus e meus blefarospasmos. Soube, logo depois, por um otorrinolaringologista, que meu ouvido era sensível, sensível ao caos urbano, a fome e a falta d'água. Meu ouvido tomava para si o controle do meu corpo, quando ele se protegia, acabava por me desproteger. Naquela época, recebi um convite de EdBrass Brasil para participar do Art Talks SSA II, no Goethe Institut Salvador-Bahia. Com esse convite e com o que ocorria com meu ouvido naquele momento, resolvi criar a performance chamada Estafa Mental nº 1. N.1, número 1, porque eu pensava que essa seria apenas a primeira versão da estafa. Então, haveria a nº 2, nº 3, nº 4, nº 5… Mas não. Performei Estafa Mental nº 1 várias vezes e ela se manteve nº 1. Porque seguia uma mesma estrutura, mas novos elementos iam sendo adicionados a cada execução: uma luz, uma sombra, uma roupa, um movimento… Na performance, em minha interpretação, como criadora (claro que você e outras pessoas podem interpretar de outras maneiras), iniciamos no ventre materno. Eu, encolhida no chão, começo nesse ambiente aquoso. Passo a respirar. Na parede, minha sombra é projetada, e esse corpo vai crescendo, até poder se equilibrar com suas próprias pernas. Esse ser, eu, ao se desenrolar, já surge com seu instrumento musical, um violino. Um violino preto, ligado a um cordão umbilical, um cabo conectado a pedais e a um computador. 19 | NOISE INVADE
Inicio meu aprendizado neste instrumento. Tento me concentrar em tocar uma nota com o arco, do talão a ponta. Mas… me encontro em meio ao trânsito invisível, mas audível. Os ruídos do trânsito atravessa o som da nota desejada. Inicio novamente. Trânsito. Confusão. Respiro fundo. Territorializo-me, desterritorializo-me e reterritorializo-me. Tento desligar-me do trânsito. Inicio as primeiras notas. Acho que estou conseguindo tocar. Mas… o telefone toca. Ritornelo? Largo o violino. Passo a cantar, gritar talvez. Reclamo com eles. Me duplico, sou ela e ele. Sou Marina e outro ser estranho. Ora sou Marina, ora ser estranho. Volto a ser Marina. Cantarolo e grito. Respiro fundo. Pego o arco. Saio em busca deles. Dos ruídos? Talvez. Por que me perturbam? Não querem que eu toque? Novamente me posiciono, como uma violinista que vai para a guerra. Golpes de arco. Trânsito. Eu toco. Britadeira. Continuo tocando. Máquina de lavar. Telefone. Continuo tocando. Tocando com o trânsito, com a britadeira, com todos os ruídos que me chegam. Mas eles chegam forte. Golpes de arco desgovernados. Movimentos bruscos. Ao tentar fortificar meu território com muros sônicos, ele é invadido pelos ruídos externos. Tento incluí-los no meu território, mas estes sons vão invadindo meu corpo. Me metamorfoseio ao receber os sons-caos (ruídos-caos), até meu corpo (se auto)destruir. Vídeo registro da performance em abril de 2019, na exposição Sons de Silício, Espaço das Artes-USP:
Marina Mapurunga é artista e pesquisadora que atua no campo do audiovisual, da arte sonora e da música. Professora de som dos cursos de Cinema e Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Doutoranda em Música (Sonologia) pela USP, onde desenvolve uma pesquisa sobre práticas sonoras experimentais como estratégias de ensino para a criação sonora em cursos de cinema e audiovisual. Pesquisadora do NuSom – Núcleo de Pesquisas em Sonologia da USP e do LinkLivre – Grupo de Estudos e Práticas Laboratoriais em Plataformas, Softwares Livres e Multimeios da UFRB. Integrante da rede Sonora – músicas e feminismos e da Orquestra Errante. Associada da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual – SOCINE. Coordenadora e integrante do Laboratório de Pesquisa, Prática e Experimentação Sonora – SONatório, projeto de extensão da UFRB, e da OLapSo (Orquestra de Laptops SONatório – UFRB).
20 | NOISE INVADE
GUACHE RASTRO
Rastro, o porvir num jogo que chama a procurar, suspeitar, ir atrás do estranho sem compreender, seguir o instinto, apenas seguir e seguir. Devir. Experimento audiovisual realizado pelo duo GUACHE (Gil Fortes e Luciana Melo) que apresenta uma narrativa construída a partir do diálogo entre o registro de uma sessão de improvisação e a colagem de vídeos de acervo próprio. A composição musical foi produzida a partir do controle e processamento em tempo real de microfonias; guitarra, usada principalmente para a captação de objetos em contato com as cordas; baixo de seis cordas, para intenções harmônicas e melódicas; ruído branco; prato e mola.
21 | NOISE INVADE
Ruído na produção artística O campo do ruído é determinante na produção artística do GUACHE enquanto pontuação dramática, aquecimento emocional, operando em níveis de perturbação no diálogo entre estrutura e interferência, paisagem e presença. Lidam com as possibilidades do ruído e dos vestígios de ruído. Há o ruído que acontece a partir de processos aleatórios e é incorporado à composição e há a produção intencional de sons de natureza ruidosa. Essa manifestação se configura na relação entre os elementos em diálogo e nem sempre se apresenta de forma agressiva. Para atender demandas de sonoridade e expressão muitas vezes preparam, adequam e constroem instrumentos.
Rastro foi publicado no evento online "Música Insólita: Aos Vivos" (13/11/2020)
22 | NOISE INVADE
GUACHE é o projeto de improvisação de Gil Fortes e Luciana Melo (RJ/BR). O duo de música experimental estabelece um diálogo entre estrutura e interferência, paisagem e presença onde se dá a possibilidade de uma dramaturgia sonora mediadora de narrativas subjetivas.
Bandcamp
CO(R)PINHAS bella
foto: Samuel Mendes
24 | NOISE INVADE
De onde nascem as criações? Baixam em nossas corpas como luz divina? É um tipo de energia que empregamos? Um conjunto de experiências acumuladas que desabrocham e tomam forma a partir das ferramentas que temos ao dispor ou mesmo da invenção dessas ferramentas, quando da falta delas? Criar é um estado que ultrapassa e mesmo consegue “dar o gato” na impossibilidade colocada? Criamos novos modos quando não dispomos das ferramentas próprias para aquilo. Quem nunca tentou abrir uma lata sem o abridor? Inventam-se possibilidades a partir do impossível. Toda minha corpa de trabalho veio se fazendo a partir da re-invenção de um corpo que me foi dado. Um corpo que não queria ser visto em sua complexidade, ou mesmo que não poderia ser reconhecido por aquela comunidade, seja pela falta de referencialidade ou pelo desconhecido que ele em si trazia consigo, esse corpo é assim forçado a encontrar maneiras de ser o que se é. A criação, essa força primordial (primeira), apresenta-se como única possibilidade possível de renascimento. Repetindo o ato primeiro, encontramos assim maneiras de dar voz às diversas camadas de um corpo. Co(r)pinhas. São copos, e copas, e também dançam. O mover aleatório de suas corpas recebem o limite de uma cerca de imãs e de uma vasilha redonda de metal, que por sua vez recebia o contorno de pedras. Cercadas ali desenham uma paisagem, que pode ser imaginada a partir do que se escuta. Escuta-se o arranhar de sua matéria plástica em uma superfície metálica. Há um continente onde o pequeno se revela; há nessa pequena porção de objetos reunidos, uma revelação. Das possibilidades de reinventar utilidades para as coisas inúteis, ou de inutilizar suas funções.
25 | NOISE INVADE
As copinhas de café que eram descartados a cada minuto em um espaço de trabalho se unem para formar uma dança, movida pelo ventilador de borracha que balançava, pela relação do peso de uma pedra e de um fio de nylon que os seguravam desde o teto. O lugar na qual existem? Não há. Existem-se em muitos lugares; reciclando o descarte, o que se conjura é a impermanência, conjunta às limitantes formas que as prendem. Corpos e corpas têm lá o seus contornos, mas precisam achar uma brecha para continuar sendo movimento. Soar movimento para parir imaginários. Ser leveza para deslizar, ou mesmo, desviar e continuar sendo.
*Esse trabalho foi desenvolvido durante uma residência artística coletiva proposta pelo Festival Pequenas Sessões, na Galeria Mama Cadela, em Belo Horizonte, novembro de 2019.
BIO bella é uma entidade fantasma e atua desde os tempos sem nome. Seu limite é irreconhecível e se faz a cada aparição. Bella transpõe sonoridades em exercício híbrido, cruzando visualidades, sonhos, mitologia e eletrônica. É mestranda em Processos Criativos em Música na USP - Universidade São Paulo, onde realiza pesquisa acerca do eletromagnetismo na esfera da criação artística. Teve formação em Artes Dramáticas e Artes Visuais, na EAV – Escola de Artes visuais do Parque Lage. Vem desenvolvendo instalações sonoras, composições, performances e vídeos, além de ministrar oficinas de eletrônica e processos criativos para diversas faixas etárias.
26 | NOISE INVADE
ossogiP anA :otoF
por Luisa Lemgruber
APANHAMENTO Observar
e
pesquisar
populações históricas
locais das
fundamentais
para
e
os das
contextos
transformações
paisagens, a
das
maioria
são
ações
das
minhas
pesquisas sonoras e visuais. No final de 2020 tive a oportunidade de estar por três meses em Boiçucanga, bairro com cerca
de
7
mil
habitantes
situado
no
município de São Sebastião no litoral norte de São Paulo, para participar do programa de residência artística Quem Somos Agora, com curadoria de Bianca Bernardo e Ana Beatriz Almeida. | 03
APANHAMENTO É UMA PALAVRA QUE SIGNIFICA RECOLHER, LEVANTAR DO CHÃO, ADQUIRIR E AGARRAR.
| 03
Uma das características da região que me marcou, foram as repetições cíclicas das sonoridades produzidas pelas dinâmicas socioeconômicas e ambientais do local, como por exemplo, o caminhão que passa uma vez na semana anunciando no alto-falante a venda de peixes, os hinos evangélicos das missas que ocorrem às quintas e aos domingos, o alto ronco dos largos canos de descarga das motocicletas e as vocalizações dos tucanos que todos os dias à tarde preenchiam a região. Na época em que estive lá, as eleições para prefeito estavam ocorrendo, transformando a cidade em um campo de batalha sonoro político devido aos diversos carros de som que transitavam nas ruas emitindo propagandas com caráter funk-eleitoral. Como estratégia política do atual prefeito, reeleito nesse período, obras de recapeamento e de novas canalizações dominaram o bairro, criando uma paisagem sonora que se repetia diariamente composta por máquinas, britadeiras, homens e poeiras. Comecei a frequentar as obras e testemunhei os movimentos e ruídos gerados pelas retroescavadeiras, que se davam a partir de uma penetração violenta no solo, extraindo uma grande quantidade de terra. Esse material era transportado de marcha ré por uns 100 metros até a esquina da mesma rua onde, por fim, era depositado. O som variava de um longo grave industrial, ao apito agudo e pontual gerado pela ré. Em uma das minhas idas a uma praia próxima a região, deparei-me com extensos depósitos de conchas na areia que se deslocavam com a variação da maré ao longo do dia. Recordei que há mais de 5.000 anos atrás, em toda costa litorânea brasileira (incluindo a região de São Sebastião), existiram povos pré-históricos pescadores e coletores que tinham como principal característica a construção de amontoados nomeados de sambaquis. Alguns desses montes chegaram a atingir mais de 30 metros de altura e eram compostos por restos de moluscos, crustáceos, esqueletos de peixes, ossos humanos e utensílios feitos de pedra.
29 | NOISE INVADE
Vídeo projeção: Retroescavadeiras nas ruas de Boiçucanga. Foto: Ana Pigosso
Essas populações se utilizavam dessa estrutura para enterrar seus parentes e impermeabilizar os solos úmidos, permitindo a instalação de acampamentos temporários. Durante a história, a população e a maior parte dos santuários foram devastados pela chegada dos indígenas no litoral e, posteriormente, a dos europeus à costa. O material encontrado nos sambaquis, eram consumido pelos colonizadores como matéria prima para a produção de cal e argamassa na construção de igrejas, vilas e estradas. Hoje em dia, os poucos sambaquis que ainda resistem, são considerados importantes sítios arqueológicos, protegidos e fiscalizados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional). Apanhamento é uma palavra que significa recolher, levantar do chão, mas também adquirir e agarrar. Diante dos dois eventos descritos - as obras nas ruas de Boiçucanga e o desaparecimento dos povos litorâneos - e, a fim de apresentar os conflitos e contradições dos projetos civilizatórios, instalações sonoras e visuais foram desenvolvidas e realizadas durante a residência tendo como base algumas reflexões: as oposições entre o ritmo lento da construção manual tradicional e a rápida destruição das máquinas, e as fragilidades e transformações das paisagens sonoras e socioambientais impostas pela expansão urbana e exploração dos territórios.
30 | NOISE INVADE
Com os registros audiovisuais feitos durante as idas às obras nas ruas de Boiçucanga, três vídeos foram projetados simultaneamente em um espaço externo da Residência, revelando a dinâmica dos maquinários na manipulação do solo e as características específicas da região como a paisagem sonora, os meios de transporte utilizados e a população local. Uma instalação sonora realizada em um ambiente interno foi composta por um grande volume de conchas e terra amontoados no chão onde seis alto-falantes enterrados, de diferentes tamanhos e potências, provocavam um constante processo de erosão e transformação na estrutura. O atrito entre a concha e os alto-falantes, acabava por gerar um som estridente similar ao ruído das britadeiras e retroescavadeiras que se escutava nas ruas do entorno. À medida que a estrutura vibrava, as conchas entravam e saiam dos perímetros dos alto-falantes que dependendo da quantidade, peso e combinação morfológica, diferentes frequências se reverberavam numa composição imprevisível e efêmera. No mesmo ambiente foi projetada em loop uma vídeo-performance em formato díptico de uma lenta e repetitiva ação manual de construção e destruição de empilhamento deste mesmo material utilizado na instalação sonora, reforçando a reflexão sobre as relações cíclicas de fragilidade, transformação e impermanência das paisagens e dos elementos naturais diante das intervenções humanas (acesso ao vídeo: https://vimeo.com/506341492). A sala instalativa, que a priori trazia uma sensação de suspensão e tranquilidade, devido à sutileza das conchas e dos tecidos brancos que compunha o lugar, se transformou em um local preenchido pelo ruído provocado pela trepidação. Dicotomias sonoras e visuais percebidas ali, apoiaram a discussão sobre as relações e os impactos entre o ancestral e o moderno. Vimeo
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O GOSTO TOSCO, LÍNGUA SECADO DIALETOMÍMICOEX-ESGOTO SÓLIDOPEDRA, MEMÓRIA ANTI-SÉPTICATECE A SORTE EGÓICADEBRUÇADA NA JANELA OVAL QUE TUDO ORDENASUBGOSTO SÚDITOSÚBITO LABIRINTOSE ESQUIVANDO VESGO DA VERDADE-LANÇASE ESQUECENDO AVESSO AO VENDAVAL CRIANÇAINSALUBRESÓBRIOPODER MONOCROMÁTICOO GOSTO E O SUPOSTO SUBGOSTO INSÍPIDOERGUENDO O FALSO IMPÉRIO FÁLICODE BERÇO JÁ SUBNUTRIDOCULTIVAR O DECOMPOSTOSE CURVAR FRENTE AOS GIRINOSENTERRAR A CADA SEIS UM NOVO REI SUSTOLÊ-SE NA ESFERA SUCINTA:SUBGOSTOCRATAS ASSASSINEQUÍVOCOS
FOTOGRAFIA
ORÁCULOS BRUNO BRESANI (BRASIL/ MÉXICO)
34 | NOISE INVADE
Só vejo que o futuro é um longo silêncio, o futuro nos cega em imagens, o futuro é a névoa, a distorção prevalece, a caverna nos deixa ver apenas a estática dos dispositivos que nos cegam, nós somos a estática. Somos os perdidos, somos a hipervigilância, somos as imagens repetidas. No futuro seremos cegos à saturação, as imagens transbordarão, deixando-nos ruídos, distorções. Os oráculos nos guiarão nas passagens cegas de milhões de imagens por segundo. Cada oráculo nos guiará por um caminho nesta névoa de imagens repetidas.
Olarog Tem visão de abrir caminho diante das dúvidas de escolha, nós sussurre quais imagens devem ser ouvidas.
Mirum Nos ilumina os olhos das almas deixando-as ver as intenções das imagens e seus significados ocultos.
Mimut Somos despertados pela sensibilidade das emoções, o choro diante da imagem, a pulsação diante do terrível, a clarividência diante da decepção intrínseca nas fotos.
O RUÍDO COMO UM CONVITE ABERTO Sobre „Violeiros Revisitados“ de Sounding Situationsicion
POR MILENA KIPFMÜLLER(BRASIL/ ALEMANHA) Diretora de teatro e artista sonora e parte integrante do coletivo Sounding Situations fundado em 2014. O trabalho de Sounding Situations é uma composição cuidadosa de situações encenadas em espaços urbanos e música ao vivo inserida teatralmente no que pode ser descoberto in loco. O coletivo explora situações teatrais entre musictheatre, encenação e composição com música ao vivo, instrumentos, gravações, samples, palavra falada e edição ao vivo. Através do uso de estratégias composicionais e performáticas, a percepção do público é reorientada entre a realidade e um imaginário acústico fictício. [SNDNG STTNS] trabalha como coletivo e segue uma pesquisa artística contínua desenvolvendo "instrumentos performativos" sob a perspectiva de seus processos filosóficos, conceituais e de produção artística. Seus trabalhos buscam sempre uma forte relação com o meio ambiente em seu contexto material, acústico e político. As colaborações variam de músicos a coreógrafos, artistas visuais, escritores e diretores de teatro e cinema. O trabalho contínuo levou [SNDNG STTNS] a residências e comissões para criar situações performáticas aventureiras e dar palestras acadêmicas em universidades ao redor do mundo, como Alemanha, Itália, Bélgica, Canadá, Brasil, Israel e Ruanda.
SOUNDING SITUATIONS
O que constitui uma composição musical? Apesar de estarmos no século 21 e termos sido expostos aos experimentos dos compositores modernos e pós-modernos - de Webern, Schoenberg, Henze, Cage, Nono a Lachenman - o ruído ainda tem fama de lhe faltar beleza. Longe disso, o que tem sido considerado o som puro e belo dos instrumentos ao longo dos séculos é apenas uma pequena parte do vocabulário possível que pode ser encontrado nos instrumentos. Além da beleza das composições clássicas, gostaria de convidá-lo a descobrir o amor pelo ruído e a ouvir uma linguagem praticamente desconhecida. Na era moderna, novas formas de composição foram gradativamente desenvolvidas, métodos experimentais foram criados repetidamente para combinar os "belos" sons com a tentativa de encontrar novas modos ou meios de expressão. Depois que as dissonâncias foram integradas, os ruídos foram sendo acrescentados gradualmente. Porém, assim como no início, infelizmente ainda hoje, sofrem muita rejeição. Com Pierre Henry & Pierre Schaeffer, os ruídos tecnicamente gravados entraram na música; com Helmut Lachenmann, os sons produzidos por instrumentos, originalmente percebidos como perturbadores, tornaram-se o principal material de suas composições – com o nome de Musique Concrète Instrumentale. A produção eletrônica de som, primeiro através de sintetizadores e depois através de software de áudio digital, passou de ondas sinoidais iniciais transportadas para a música a partir da tecnologia de medição física (a maioria por assistentes de laboratório) para seus prórpios instrumentos. O som digital de hoje, no entanto, é tão ultra-limpo que o ruído, tecnicamente falando, poderia na verdade ser banido da música novamente. Então, por que integrá-lo e de que maneira? Por que devemos nos agarrar ao ruído e convidá-lo para a nossa composição? Aproximo-me de uma resposta através do exemplo de uma composição “Violeiros Revisitados“, lançado pelo nosso duo “Sounding Situations“ em 2019 no LP Prospecting. Ela engloba muitos dos aspectos do nosso amor pelo ruído. Os materiais sonoros da composição consistem em sons de contrabaixo acústicos e processados, gravações do sertão de Pernambuco nos anos 70 e os ruidosos sons do gravador técnico Uher Report, todos também processados eletronicamente a fim de criar uma trama sonora densa. Os ruídos desempenham um papel fundamental nesta peça. O resultado é uma construção sonora musical que permanece permeável em vários níveis através de sua conexão entre o material tonal e o material ruidoso, convidando às descobertas e às surpresas.
Klaus Janek toca contrabaixo acústico ao estilo da já citada "musique instrumentale concrète". O manuseio do instrumento, inspirado em técnicas de Lachenmann, permite eventos acústicos inesperados e novos formatos de composição. Expandido para o contrabaixo por Peter Kowald, um dos mentores de Janek, mesmo depois de décadas de prática, o contrabaixo permanece sempre um novo campo de pesquisa a ser explorado a cada nova execução e composição. Esta experimentação é levada para além do instrumento e ampliada com os meios eletrônicos - uma conseqüência lógica na busca de espectros sonoros de uma linguagem musical desconhecida na qual os aspectos ruidosos do contrabaixo ocupam um espaço importante. As gravações que utilizo como base para minha voz comunicante foram décadas atrás por meu pai e nela ouvem-se violeiros, que ainda integram velhas estruturas harmônicas e modos gregos mas as processam livremente. Em contrapartida, seus desenvolvimentos de texto, revelam um grande virtuosismo ao reagir ao momento através de improvisações e referências atuais. Assim suas peças criam pontes entre antigas formas musicais e arcos narrativos improvisados na linha contemporânea. Ainda nesta composição, desenhamos um arco temporal entre as gravações em fita magnética e as possibilidades atuais de processamento digital ao vivo. Assim, reproduzimos as gravações com o mesmo (antigo) dispositivo com o qual foram gravadas na época, o gravador Uher Report, que se distingue por sua excelente qualidade sonora em fita magnética, mas que também, como máquina, produz uma quantidade surpreendente de ruídos de fundo. Estes ruídos acontecem no presente e são testemunhos do processo mecânico da fita movimentando-se pela máquina que abre a porta para o um tempo passado agora acoplado a ela. Realmente estes ruídos não são o que se quer ouvir: a ação da máquina transportando sons de outro tempo para o presente. Estes sons preciosos da máquina, o manuseio do microfone no momento da gravacao, o transporte da fita, o rebobinar, as teclas, o motor, são captados por mim com um microfone de contato, amplificados e alterados digitalmente de modo que que tornam-se elementos musicais e como estes viram uma própria voz dentro da composição. Assim, o canto acústico dos Violeiros, a musique concréte, o ruído técnico se unem com o contrabaixo acústico, ambos expandidos com as possibilidades atuais de processamento digital ao vivo. Os ruídos desempenham o papel de dar corpo e, portanto, voz própria à composição para convidar a uma percepção de alerta entre a tradição e o contemporâneo em uma escuta apurada.
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Além disso, há outro aspecto importante que se inscreve na composição entre o puro e belo som através do ruído. “Sounding Situations“ não só soa, mas também se concentra na criação de situaçoes, em momentos encenados. Trazemos sempre um elemento teatral no qual não se trata apenas de criação musical, mas que também pode ser descrito como“ação musical“. As diversas conexões entre lugares (Berlim e Pernambuco) e épocas (anos 70 e os dias atuais), antigas formas sonoras e processamento de áudio ao vivo são conceitualmente parte do trabalho de composição. Procuramos sons que nao sejam puros. Eles contam sua própria história através da sua materialidade, que se concretiza em nosso diálogo entre sons abstratos e concretos. A materialidade que se encontra no teatro, porque você está sempre diante do corpo, é criada aqui pelo som impuro, o arranhar no contrabaixo, as batidas na caixa de ressonância, o farfalhar do microfone e a rotação das bobinas - então é para ser encontrado especificamente nos ruídos. Neles está a "sujeira", a aspereza de sua voz como Barthes a descreve, seu próprio corpo sonoro, que é desconhecido para o ouvinte. Este corpo sonoro simplesmente não é penetrável, não é claro, mas permanece misterioso e revigorante. A sua abertura convida a procurar novas formas de expressão também desconhecidas para nós músicos. Em uma nova linguagem que ainda não foi desenvolvida, sons e significados podem ser inventados livremente. Isso nos dá a oportunidade de reconhecer novos significados e conexões. Gradualmente, essa linguagem pode ser fixada novamente de forma concreta - como o concreto - ela se solidifica, se torna inflexível, porém estável. O som nos permite brincar com esses diferentes estados agregados e descobrir segredos. Assim o ruído nos presenteia com uma abertura à percepção, tanto para nós quanto para o ouvinte.
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BETAMAXERS: FABULAÇÕES NO COTIDIANO DA CRIAÇÃO (CARTOGRAFIAS DO ENCANTAMENTO EM RUIDO-DESVIO) ISABEL NOGUEIRA LUCIANO ZANATTA
Escrevo no último dia de um ano que pode ser visto como um ano que nem começou, ou que ainda não terminou, mas que não vai ser facilmente esquecido. Penso sobre processos criativos, e sobre como eles se desenrolam em tempos difíceis. Talvez fácil e difícil não sejam palavras que sirvam exatamente para processos criativos, mesmo que façam parte destes. Penso sobre rotinas e continuidades, em práticas diárias que combinam invenção e experimentação no entrelaçar das linguagens. Desenrolar de fios que se interconectam. Minha busca é a da cartografia interna, no desenho de mapas possíveis, facilmente redesenháveis, onde territórios prescrutados analisam possibilidades de desenvolvimento. Mapas de raízes ciborgues, de tradições inventadas onde os sentidos se constroem a partir do que ressoa nos sentidos desejados. As ferramentas básicas são: atenção, fabulação, riso, contemplação, tempo, escuta, presença, desvio.
Fui nomeada neste momento porta voz dos Betamaxers, e neste recontar fabulário entremeio conversas e escutas. Desde sempre tivemos, nossa dupla de Betamaxers, uma questão essencial, provocativa e investigativa sobre nomes, atributos e designações. Procuramos nomes para nossos trabalhos, juntos e separados, buscando inventar, mas ao mesmo tempo entendendo que os trabalhos se nomeariam a si mesmos conforme gostassem ou quisessem, no momento adequado. Eu, escriba e perseguidora da potência da escuta e dos métodos, me chamo Avora Gai, Bel Medula, Edit Post e Luna, por enquanto. Ele, mago desendâncico pré e pós apocalítptico, se chama Save Draft, LucZan e SaciShiva, mas realmente não posso afirmar que sabemos como continuará. Montamos uma espaçonave criativa que permite vôos longos e curtos, mas na maior parte do tempo desenvolve viagens densas e profundas sem sair do lugar.
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Desenvolvemos juntos a ideia de contar um ao outro os sonhos a cada manhã, e não acreditar de forma demasiado intensa no que eles querem dizer. Diálogos e escuta atenta um ao outro, como dupla, são parte importante dos processos. Nesta procura dos nomes, e invenção constante como potência de processos, criamos a dupla Betamaxers, e fabulamos que seriam musicólogos do futuro (musikéllogs do fucktooro) que teriam entendido errado os vestígios da civilização (nossa) que pretenderam analisar. Pensando nas ausências e supremacias nas histórias que se ouvem por aí e se pretendem relatos fieis ou únicos de práticas e civilizações, quantas vezes talvez não tenhamos presenciado e perpetuado histórias movidas e baseadas em processos de exclusão? Fabular como forma de dizer, como forma de recontar, de trazer histórias possíveis. Entendendo que histórias são escolhas, fabulamos e construímos processos. Acreditamos no ruido como forma de desvio, na fabulação constante e na proposição do inusitado como propulsora de maravilhamento. Usamos o ruido como inusitado, definidor de novos territórios, mas ele mesmo sendo um território mutável, posto que reposiciona o que é centro ao tornar-se ele mesmo centro da narrativa e tornar necessário a incorporação de um novo elemento como função desvio. O ruido-desvio que proporciona uma mudança imediata de paradigma, e ao oferecer descaminhos em encruzilhadas, instaura a poética do não lugar. Pensando a partir deste paradigma da encruzilhada, mesmo as margens e desvios tem sua poética definida, não por uma definição estrita, mas por seu mesmo estado de movência e impermanência.
Pensamos assim em um fluxo de composição baseado na improvisação e na performance, gestado por ciclos de tomadas de decisão que são conscientes e inconscientes, pessoais e coletivos, escolhidos e aleatórios, em combinações variadas. Mesmo atuando em dupla e priorizando o diálogo, nossa atuação em parceria não é homogênea, algumas vezes acordamos que um ou outro assume o papel propositivo e produz algum material inicial no qual o outro irá intervir, ou então acordamos que o trabalho será dividido em etapas e cada um de nós assume uma etapa diferente. Ainda assim, as etapas não são estanques, os processos podem ser revisitados e seus resultados podem ser modificados por um de nós, desde que fique percebido por ambos os elementos que se tornaram definidores dos processos. Trago o exemplo do própria fabulação Betamaxer, onde criamos conjuntamente a história, a linguagem e as canções do álbum que foi lançado pelo selo Chip Musik Records, do Peru, em 2017. Ali, nos reunimos durante uma tarde em torno de um set especifico, escolhendo as sonoridades do bytebeat e de um sintetizador, pensamos na fabula e nos nomes das músicas, que, junto com o texto, vieram de uma chuva de ideias que fomos colocando na mesa e vendo quais contribuíam para o conceito. Os nomes criados para os personagens que encarnamos vieram ali também, mas seus conceitos tinham sido muito discutidos por nós em dias anteriores, ao ler os textos do manifesto ciborgue, de Donna Haraway, e da performatividade de gênero, de Judith Butler.
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Mesmo nos identificando como pessoas cisgêneras, meu trabalho especificamente com os estudos de gênero e musica tem sido temas de conversas e estudos, e em torno destas vamos tecendo pensamentos e construindo diálogos rotineiramente, como prática cotidiana e como troca artística (possivelmente sem perceber onde uma começa e outra termina). As rotinas escolhidas incluem o trabalho criativo como atividade diária, seja criando um set especifico, seja gravando uma sessão de improvisação, ou ainda criando textos que servirão como elemento ou corte dentro de criação sonora. Outros trabalhos tiveram seu ponto de partida com uma proposição artística especifica, como o álbum Unlikely objects, lançado em 2017 pelo selo Pan y Rosas (Chicago), cuja origem foi um conjunto de utensílios domésticos em que exploramos e gravamos sonoridades diferentes. Sem uma ideia predefinida sobre como as sonoridades seriam utilizadas, armazenamos um conjunto de samples e trabalhamos com eles de diversas formas ate chegar ao resultado que se transformou no disco. Álbuns de sessões de improvisação, como Mar de tralhas e Légua, estão estruturados na definição do set de instrumentos a ser usados e em uma narrativa temporal previamente acordada, por vezes utilizando tempo de relógio, outras vezes usando partituras criadas a partir de conceitos muito subjetivos, contando que a própria interpretação de cada um de nós sobre as regras fará parte da performance. O primeiro trabalho que assinamos como duo foi Impermanente movimento, lançado em 2016 pelo selo Plataforma Records, onde fiz uma releitura da trilogia das deusas bascas Mari, Eguzki e Ilargi, associando os mitos com a origem da minha avó paterna.
Decidi então fazer um banco de samples com as sonoridades da nossa casa, buscando usos não imaginados para objetos cotidianos e musicais. Usei ainda as poesias que criei durante o processo, e usei também um texto que eu tenho muito nítido na memória sobre minha avó paterna me chamando para buscar o banho de ervas que ela tinha feito para mim. As orientações dela sobre seu uso, sobre as ervas utilizadas e seu tom de voz dela ao narrar são ainda muito fortes na minha memória, e vieram para a musica em texto falado e processado em cinco canais de voz em loop. Esta mesma ideia, modificada e transformada, foi a base para a canção Nome no mel, que fez parte do álbum PeleOsso, que lançamos em 2019 com o nome artístico Bel_Medula. Medula foi o nome do coletivo artístico que tivemos com outros colegas, alunos e professores da UFRGS, de 2014 a 2018, com foco na música experimental, nos vídeos e nas esculturas sonoras. Após o coletivo extinguirse, eu adotei Bel_Medula como nome artístico para este projeto de canções em parceira com Luciano, e consideramos Betamaxer para nosso projeto com foco na música experimental. No entanto, estas categorias não são estanques, evocando a categoria ruido-desvio como parte de todas as etapas do processo criativo, entendendo os atravessamentos como cartografias do encantamento. Observamos a contaminação das ideias de um trabalho para outro e também nos trabalhos individuais, onde os atravessamentos das reflexões e diálogos feitos em dupla seguem fermentando para encontrar sua forma final daquele momento. Fermentação de processo em ruído-desvio para cartografias do encantamento.
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Betamaxers: uma fabulação (2017) Os autores apresentam-se como Edit Post e Save Draft, musikéllogs do fuckturo que escolheram cuidadosamente seus nomes com base nas expressões mais utilizadas pelos terráqueos desta era, a quem chamaram Betamaxers em virtude de ter sido esta a tecnologia dominante ali. Os musikéllogs desenvolveram sua tese de doutorado (que no futuro terão a dimensão de postagens de rede social) com base em uma criteriosa analise dos vestígios documentais do passado, que, como sempre, fornecem sempre os melhores e mais acurados dados para o entendimento dos fatos. O disco propõe uma crítica satírica aos conhecimentos territorializados e engessados de algumas das práticas tradicionais da musicologia, através do uso de bytebeat e sintetizadores. A proposta prevê uma desconstrução da forma através do uso destes recursos processados, e através do texto escrito, que deve ser lido em voz alta.
BETAMAXERS tôk the rror y sy desde cenpre sosse musikéllogs doo fuckturo ki uzando frogmenthos exparços de registros axaçe pq tá centado incima tha sua prezunta sooperioreedad odd onthológic q entendeu toodeenho bem serto e subess dus paranauê bem loko que ya desce pra falar k gentchi cem q se notasse? oui si chiamariamonos edit post & save draft! mas komo nada è perfecto, em algum ponto perdemos o stream e ficamos nabera., bem loko it was, acim çeriam akollidos terráquios (lavemealceuleeder), oui lov hórsélphons parakê poodlessem elxs tinham escojido: (mas quien cares if wada fuk musik no se puede mas di cun força) ainda que ya no se consiga leer, we rave musikéllogs: y cá stamos: catamo todo o bate i: la muerta: betamaxers, rastreaveis “nomore arpeggio pliz” gengibre hoolls casas tupperware fuckturo luquintudepeste
E SER UMA EXPERT EM SER UM EXCERTO DE SI MESMA? Texto: Marina Cyrino Vídeo: Marina Cyrino e Matthias Koole (BRASIL/ ALEMANHA) O presente texto é um convite, e um pré-texto, para a escuta de um vídeoensaio do IPSNIC:
O século XX colocou muito em questão a ideia de virtuosismo, seja para negar o ofício, o artesanato do artista, ou negar até a própria arte, seja para multiplicar as virtuosidades que se adequam e servem a contextos cada vez mais especializados. Em
escala
conservatório
mundial,
ao
europeu
modelo
de
pertenceu
a
exclusividade quase absoluta no que diz respeito
à
estandardização
das
práticas
musicais nas instituições de ensino superior. Enquanto em outros domínios das artes a mistura tornou-se uma necessidade, a divisão de papéis continua norma na música: – uma fragmentação especializada do ser-músico?
E se improviso: uma mistura? Mistureba. Mexixe. Mexidão: um misturar como prática de criação.
Uma mistura
dentro da relação corpo-instrumento. Misturar
os
papéis:
interpretação,
composição, improvisação. Misturar espaços: sala de concerto, galeria, estúdio, sala de aula, quintal, montanha. Misturar o “meu” com o “teu” através de criações coletivas. Misturar
instrumentos
musicais
com
objetos, com tubos, com bexigas, com apitos, com plantas, com microfones. Misturar partituras com desenhos, com vídeo, com letras, e depois bater em um liquidificador. Misturar-se de ruído. Uma mistura que não tem por objetivo uma nova disciplina, uma fusão, um esfacelamento das fronteiras. Uma mistura que não anseia em se tornar holística, integrada, multiúso, hiper-estendida-mara. Invertido: um buscar ruidoso, uma mistura em transformação. Na impossibilidade de exercer todos os papéis e suas respectivas práticas em plenitudes especializadas, criar um espaço de-vagar capaz de escutar, a partir de um misturar-se-outra, locais de rigidez em si e em seu entorno, com um foco particular na
relação
instrumentista-corpo-
instrumento. Uma
mistura
em
transformação
que
permite um desvio da imagem musicistasoberana e abre espaço para a escuta das margens
e
marginalidades
musicais
criativas. Espaço para a escuta dos medos de desaprender, de perder. 49 | NOISE INVADE
E se improviso: descentralizar da lógica das obras musicais acabadas e dar voz às mediações
que
as
precedem
ou
as
sucedem, um criar-se músico a partir de práticas que não reivindicam o status de obra no sentido moderno do termo. E
se
improviso:
reafirmar
o
papel
fundamental dos processos práticos, da criação
artesanal
de
sonoridades,
de
sonoutridades, um saber partir do escutar e do dirigir a voz a uma outra, a partir da relação instrumentista-corpo-instrumento guiado por encontros. E se improviso: vozes que desafinem o soar da escrita, contaminando-a, em alegria feroz, de canto, sopro, baba e grunhido.
IPSNIC ou Instituto de Práticas Sônicas Nômades Ilicitamente Certificadas é uma coalizão musical, e um clube de pesquisa sonora, composto por Marina Cyrino e Matthias Koole. IPSNIC foi criado em 2018 durante a residência Linguagens
artística Musicais
“Improviso
e
Contemporâneas”,
em Juiz de Fora, dentro do projeto “Territórios de Invenção”, da Fundação de Educação Artística, Belo Horizonte, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. O texto aqui apresentado é de autoria de Marina Cyrino, sendo um recorte adaptado da
publicação
“Um
Barulhinho
no
Sistema”, concebida por Marina Cyrino e Matthias Koole para o livro “Territórios de Invenção: à escuta” (2019). O vídeo aqui representado em imagens foi gravado e editado por Liis Ring, em Gotemburgo, Suécia em 2019.
F [ R ] E S T A F E S T I V A L D E I M P R O V I S A Ç Ã O
Foto: Flavia Goa e Climerio no F[r]esta | Espaço Nix 2020 por Gabriela Caldas
RUÍDOS PARA LIBERTAR Hoje enfrentamos um mundo cheio de ruídos. A onda sonora tornou-se ainda mais complexa nos últimos anos. Ficamos mais presos à ela, que se emancipa através de multiplicações aleatórias de rumos, os quais, antes, se formavam em linhas equidistantes nas suas relações concretas. Hoje são submetidas a uma nova tríade transversal, de tempos emitidos numa liquidez mórbida das ações, em que o plano sonoro engloba meios de comunicação para enfatizar o que se considera arte.
AMANDA JACOMETI
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Ruído é uma arte sonora de um silêncio constante no não vazio, uma tentativa de frustrar os sentidos. É improcedência, potência do falso, rádio quebrado, tv com defeito. O errado e a quebra de ordem de espaço tempo. As artes experimentais fabulam ruidosamente celebrações das vozes dissonantes, das sobreposições, dos recortes de som, não linearidades e quebra de expectativas. É também o incômodo visual e sonoro, um atravessamento. Ruídos
são
diversas
vozes,
pastiches,
camadas
que
potencializam as diferentes formas de ser, estar e expressar. É a disjunção dos sentidos, a criação de imagens e mundos que subvertem as ordens estruturantes. Rompimento estéticonarrativo, maquinação de dissensos. Ruído é terrorismo estético. É quebra de reserva de linguagens, é a interposição de novas
modulações
subjetivas,
hackeamento.
É
viabilizar
métodos e formas para transformar. Ruído é libertação. As grandes proporções de utilizar os meios de comunicação atuais começaram no mundo real, num espaço localizado na Lapa, Rio de Janeiro, chamado Espaço Nix. Hoje funciona em um
canal
na
internet
chamado
“F[r]esta
Festival
de
Improvisação” e vem acontecendo desde julho de 2020. Deu início com Flavia Goa e Cássi e, atualmente, conta com nova equipe. O vácuo pandêmico fez deliberar outras formas de continuar a fazer audiovisual, arte sonora e performance. O F[r]esta Festival de Improvisação pensou na questão da liberdade de expressão e criação máxima em virtude temporal. Entre nós ressoam, também, vozes de artistas trans e não-bináries mostrando seus trabalhos; continuamos a dar plataforma para mais vozes ruidosas, criando uma rede de perspectivas plurais.
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PEKO
KYLSJHŪ%Å Γ Д Ð | SECT4M LΔM6L1111 Uma sonda de dark techno, noise, experimental e performance por kylsjhū%Å Γ Д Ð. Presas em molduras digitais retangulares, cenas regadas de um sci fi
assombroso, criaturas intraduzíveis e chacoalhar de moedas brasileiras em cloro misturam-se a imagens de notícias e destruição que transparecem as vísceras cruas ou secas servidas ao povo ao mesmo tempo em que a efemeridade da validade das informações no ciberespaço faz com que tudo seja lentamente abafado e esquecido, colocado pouco a pouco para debaixo dos tapetes. Com sua sede por prazer, “O” Sapiens engole tudo que vem pela frente, enxerga o dinheiro como uma passagem para plena felicidade, e se engana ao achar que acumulará suficiente para escapar para Marte. Vamos encontrar vocês.
55 | NOISE INVADE
L £V1 Ä T 4 |
✿. 。 . :*☆:**: . ☹ . :**: .☆*. : 。 .✿
L£V1 ÄT4 (Leviatã) é a personificação de um laboratório lúdico no qual o artista se trata como sua própria cobaia de estudo. Tecendo poéticas híbridas sobre nossa delicada existência e sobre a experiência de ser um indivíduo em relação ao mundo; o vídeo é uma grande mistura de imagens de fontes distintas. De gravações caseiras até gravações com Zoom, gravações de programas escritos em Processing, gifs, vídeos e prints da internet. Através de processos de edição e colagem audiovisual, reflete-se nossa existência numérica e auto exploratória em poéticas híbridas e digitalizadas; assim como a experiência de ser um indivíduo em relação a um mundo cyberpunk que tem lidado conosco. O resultado mostrou-se um show de horrores em um mundo corrompido, no qual há a profanação e sucateamento da vida em prol de uma cultura de morte neoliberal e tecno capitalista. Nos próximos vídeos para o festival pretendo trabalhar com Arduino para integrar o corpo aos demais elementos através de sensores.
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K0K0N RAIANA MORAES | 2020
拉丁美洲 A R T C O N T E M P I R A N H A
Compilação de 4 momentos. A 1ª delas surgiu a partir de uma colaboração com os artistas Lucas Guimarães e João Fujioka; estávamos no preparo da exposição ]9971334550m15540bhs21, que seria exibida em formato vídeo e registro fotográfico. No dia em que finalizamos, começamos a imaginar e encenar como seria a vernissage da exposição se ela tivesse um público com o qual pudesse interagir. Acredito que a câmera tenha se tornando uma potente ferramenta intermediadora entre micro e macro realidades, hoje ela atua muito nesse sentido de suprir uma falta que é a ausência de interações concretas. O decorrer do vídeo foi se construindo de forma natural.
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MAURICIO MATTOS | MAUM Produzido a partir de manipulações feitas no interior dos circuitos eletrônicos de uma máquina qualquer, ele inscreve um som único e particular... ganhar ou perder sentido para outros e novos vetores, essa é a aposta. Não seguir nenhuma lei específica, ser constituído por uma multiplicidade de sons e "por um grande número de vibrações acústicas com relação de amplitude e Frequência distribuídas ao acaso”. Ser ordenado segundo um outro plano não torna o ruído exatamente a expressão sonora do século XXI? Essa é a aposta da F[r]esta – poder engendrar outras formas sensíveis e permitir que outros possíveis possam emergir.
58 | NOISE INVADE
PEK0 Em um ato performático a artista Peko guia como capitã e público numa breve viagem, passando pelas memórias e letras escritas por ela ao longo de sua carreira. Nesse live act feito totalmente ao vivo com instrumentos digitais somados à camadas de voz distorcida; se constrói um universo clubber mesclado ao noise. Ruído gerando um melancólico percurso repleto de recursos psicodélicos, buscando a aparência de uma boate que transita entre o medo e a loucura, signos que compõem as suas obras desde sempre.
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+ PARTICIPANTES
FICHA TÉCNICA
Ämarcél Aquiles Guimarães Bel_Medula + Luciano Zanatta Bruna Toscano & Julio Santa Cecília Bruno Trchmnn Dan Odan Dibuk + Arubu Avua Dolly Eric Marke Evur Felipe ZenÍcola e Zozio Girauta God Pussy Henrique Correia Hifa Cybe Inés Terra Interrogado Junix 11 Kartas Kora + Dolly Laura Zimmermann Leonardo Oliveira Letricia+Tuili Mondrongo Henrique Vaz Hevisley Ferreira Lori Yoni Marcos Campello May HD Paulo Emmery Paulo Hartmann Pedroso & Pedrosa Petitemort: Cássio Figueiredo / Leandra Lambert Powerpuff Girlsound PMNT Rayra Costa Taticocteau Verónica D. Cerrotta Vitor Wutzki VRVTVV Waldomiro Mugrelise
Flavia Goa – Artista sonora e guitarrista. Lançou disco pelo selo Música Insólita. Fundadora e curadora do F[r]esta Festival de Improvisação. Amanda
Jacometi
mestranda em
Música,
Multiartista, Cultura
e
Sociedade. Curadora do F[r]esta Festival de Improvisação. L£V1ÄT4 - Graduando de design gráfico, artista independente e pesquisador pelo CNPQ em Arte Eletrônica e Programação para comunicação e artes visuais. Curador do F[r]esta Festival de Improvisação. COLABORAÇÃO - Cássi
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QUERO SONS QUE PARECEM IMAGENS, TEXTOS QUE NÃO PARECEM TEXTOS E IMAGENS QUE NÃO SÃO DA NATUREZA DESTAS Tatiana Drummond Oliveira Faria Moura (Taticocteau) Adverto de antemão que este não é um texto acadêmico, embora, talvez apareçam umas referências cá e acolá. Pretendo apenas que esse seja um relato de artista, o mais sincero possível, o que, em si, não tem valor para uma reflexão coletiva (a princípio). Mas, espero que minha experiência pessoal meio torta sirva de algum alento para aqueles que se sentem, como eu, inseguros de mostrar seus processos criativos e deslocados, em traduzir suas experiências em palavras. Assim, gostaria apenas de explicar que esta obra abordada aqui me introduziu no circuito da arte sonora e da música experimental, como uma forma de incursão na imagem expandida (que é central na minha pesquisa artística) .
Obra “Partituras”: leituras visuais de sons e o múltiplo da imagem
Iniciei meu trabalho “Partituras" em 2016 a partir de pinturas que comecei a criar em 2015 durante a minha gravidez. As imagens em questão foram, em primeira instância, inspiradas nas pinturas de Gerard Richter (em particular, na sua série dedicada à John Cage). São paisagens inicialmente abstratas, em papel canson A3, feitas com tinta acrílica. Aos pouco, outras camadas foram surgindo em sua superfície. São camadas de memória, de referências de textos críticos de arte, de História da Arte e Arquitetura...enfim, lembranças agridoces da época de estudante de pósgraduação. Planos que nunca decolaram e uma artista que nunca fui, mas queria ter sido. Em um terceiro momento, resolvi ampliar a gama de materiais pictóricos: encontrei tubos de tinta à óleo que, francamente, tinha desde os anos 90 (numa época que fazer faculdade de artes era apenas uma plano longínquo pouco provável). Tintas vencidas, confirmado, o que mais temos na lista? Tela? Não queria usar tela. Resolvi ir na papelaria no Largo do Machado conferir o que poderia introduzir de material. Encontrei essas placas de madeira enteladas (uns painéis um pouco maiores que o canson A3) e resolvi cometer a extravagância de comprar bastões de giz à óleo Winsor & Newton. Era caro, comprei apenas três cores. Na realidade, creio que esse material comprei mesmo foi na papelaria Parque Lage. Senti que gastei mais do que deveria. Não importa, estava munida de um material que ia "me dar tesão" em trabalhar. Queria texturas densas, mas não estava muito certa se queira persistir em imagens exclusivamente abstratas. Não sei se acredito nessa visão binária de que imagens podem ser totalmente abstratas, ou se existe mesmo essa dicotomia entre abstracionismo e figurativo. Mas isso seria um outro debate, outra conversa que, alguns já muito acostumados no circuito de artes visuais insistiriam em dizer que está superado (porém, creio, deveríamos pensar para além da bolha culta das artes visuais). 62 | NOISE INVADE
Material em mãos, fiz o inverso com os painéis, pois no lugar de começar por abstrações, iniciei construindo traços rústicos com os grossos bastões oleosos que riscavam a superfície com vigor, intercalava com meus modestos giz pastel oleoso da Pentel, para fazer formas mais precisas e detalhadas (dentro das possibilidades desse material). Em dado momento, usei muito diluidor para “afinar”, escorrer e praticamente “derreter"parte desse tracejado, que foi se esvaindo e esmaecendo na tela. Descrevendo aqui essa experiência da pintura, sinto um certo desconforto, pois se na época estivesse munida das informações que tenho hoje sobre como produzir sons e ruídos da gestualidade do desenho e pintura, o teria feito simultaneamente. Estava totalmente entregue ao modo de criação / experimentação e estava produzindo intensamente. Culpa da sensibilidade da gravidez e dos hormônios, ou só o incômodo de ter ficado com vontade de produzir algo significativo por mais de uma década, sem conseguir fazê-lo, por não me sentir capaz, ou por me sentir culpada por estar perdendo meu tempo com algo que não dá retorno? O trabalho continuou incorporando referências, tais como uma visita à exposição de pinturas do Richard Serra no Instituto Moreira Sales (Rio de Janeiro), textos sobre arquitetos tais como Rem Koolhas, Peter Einsenmann. Também, em dado momento, surgiu como referência aleatória Maurice Raudive e os fenômenos sonoros registrados pela transcomunicação, Os cortes arquitetônicos de Gordon Matta-Clark, arquitetura moderna no Rio de Janeiro…resgates da memória totalmente fragmentada e que, a princípio, não faziam muito sentido, uma verdadeira miscelânea. Aí lembrei-me da técnica de cut-up e isso passou a permear meu trabalho. Sempre fui apreciadora da obra de William S. Burroughs, desde seu famoso livro “Naked Lunch” (Almoço Nu), até “The ticket that explode” (que me deixou mais familiarizada com cut-ups), bem como sua parceria com Brion Gysin. Também me remetia ao modo de escrever criado pelos dadaístas (método de Tristan Tzara) e lembro que fiquei bastante maravilhada que esse recurso pode ser mais antigo do que imaginávamos, se pensarmos no “Inferno em Wall Street” de Souzândrade. As pinturas foram tomando corpo e adquirindo uma aura própria, podendo ser fruídas de maneira totalmente autônoma, entretanto eu as via como um um conjunto, algo dividido em sets de imagens. Cada uma com um título carregado de referências (supracitadas) e em formato de frases, o que fora proposital para compor a ideia de set (no caso, de imagens/frases que formam em cada conjunto, uma espécie de poesia/enigma). O cut-up só começou a fazer sentido com a introdução do ruído. Estava já querendo trabalhar com a imagem no campo ampliado, mas só conseguia pensar em soluções textuais, fotográficas ou audiovisuais.
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Obra “Partituras”: leituras visuais de sons e o múltiplo da imagem
Creio que entre o final de 2016 ou início de 2017, ao retomar as pinturas (que já estavam prontas há um tempo), me deparei com um vídeo no Vímeo do artista sonoro Magno Caliman. O vídeo em questão era uma imagem da Lua convertida em som (ruído) por uma ferramenta que existe no aplicativo de edição de som Audacity (que também é usado para criar trabalhos de glitch art). Foi uma espécie de “Tigersprung"pra mim, uma vez que contribuiu para trabalhar com a imagem no campo expandido (desde que li o texto de Rosalind Krauss “A escultura no campo ampliado”, publicado na edição 8 da revista October), penso em como dissolver as fronteiras entre artes visuais e outras linguagens). Recordei-me de apontamentos levantados por Lev Manovich em “A linguagem da Nova Mídia” (na conversão de informações analógicas e digitais, em grande velocidade e quantidade e como isso muda as relações sociais, como acessamos e difundimos informações etc). Comecei timidamente com pequenas tentativas que falharam ou deram pouco resultado. A maioria registrada e posteriormente publicada no meu primeiro Soundcloud. Obtinha vários ruídos muito curtos, dependendo do tamanho do arquivo e extensão (tipo de imagem). Testei vários formatos das mesmas imagens das pinturas…aos poucos esses sets digitalizados foram se tornando as partituras via sonificação da imagem. Conseguia já diferenciar um ruído do outro. Minha escuta mudou. Passei a pesquisar avidamente ruídos, e já pensava a imagem como som, e como texto. O aplicativo me abriu para a possibilidade de modificar a pintura (imagem estática) via digitalização fotográfica, manipulação de dados com ferramentas de edição de som e filtros. Como resultado, novas imagens foram produzidas a partir das pinturas, assim como sons que se tornaram composições ruidosas que resultaram em um álbum independente no Bandcamp e uma exposição no bar Agulha (em Porto Alegre), na ocasião do evento Sonora de 2018 (edição de Porto Alegre, organizada por Isabel Nogueira). O trabalho fora abordado em um artigo de Gabriela Nobre e publicado no blog do selo Música Insólita, após o lançamento do álbum “Partituras Aufheben!” Pensando em como somos bombardeados com informações e estímulos visuais o tempo todo, como isso influencia no imaginário coletivo, como percebemos a sociedade, nossa auto-imagem, como somos influenciados por essas informações, tenho em mente como próximo passo para esse trabalho a dissolução da autoria, a partir da proposição de utilizar essas imagens e sons já criados para construir voluntariamente e coletivamente novas imagens e sons. Será um momento onde a obra se tornará mais aberta e uma espécie de composição contínua, coletiva, descentralizada e cuja criação e fruição se dará de maneira mais horizontal. “Partituras" no artigo de Hugo Limarque (Caderno “Bairros”, O Globo, 2018)
Artigo de Gabriela Nobre publicado no blog Música Insólita
Soundcloud: primeiras experiências sonoras com databending (processo)
Álbum independente (2019): composições oriundas desta experiência
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A edição #02 do PODCAST NOISE INVADE é o desdobramento sonoro desta revista. Desejamos uma boa escuta!
http://projetonoiseinvade.blogspot.com