Bahia Ciência 2

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artigo

Educar para a integridade em ciência Eliane S. Azevedo

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uas diferentes práticas acadêmicas – uma, tradicional, ensinar ciência, e outra, mais recente, ensinar integridade em ciência – foram-me possibilitadas por uma experiência de 45 anos no ensino da genética e da bioética. Primeiro, durante 25 anos, ou seja, de 1968 a 1993, minha experiência didática vinculou-se à disciplina de genética médica, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E nos 20 anos seguintes voltou-se à bioética, na mesma instituição e na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). É desde esse já tão longo percurso que vejo o conhecimento em genética construído com vocabulário próprio para descrever fenômenos biológicos, em condições usuais e desviantes, usando terminologia específica para grande número de enzimas, proteínas, doenças e síndromes. Práticas em laboratório e exame clínico de pacientes reforçam o enriquecimento da linguagem e da aprendizagem com termos genético-clínicos. A aferição de conhecimentos no final do curso de genética médica sugere fortemente que o aluno bem-sucedido está apto a reconhecer e a encaminhar problemas de genética na prática médica. A construção desses saberes ocorreu fundamentalmente no âmbito do ensino da disciplina, uma vez que o mundo (sociedade, cultura) não ensina genética. Sejam quais forem os valores culturais do aluno, a aprendizagem da genética não encontra concorrência em seu universo cognitivo ou em sua percepção moral do mundo. De outro lado, vejo que o ensino da ética através da disciplina bioética e, em especial, do tema “integridade em ciência”, além de exigir menor esforço do aluno por não possuir uma linguagem com vocabulário específico – talvez a palavra axiograma seja a única novidade vocabular –, dirige a oferta de conhecimentos ao universo moral do aluno, já construído como fruto da cultura na qual se desenvolveu e atua. Em outras palavras, antes de ser aluno da disciplina bioética, ele já o foi do mundo. Diferentemente do que se dá em genética, o mundo ensina ética. Assim, a aferição de conhecimentos ao final do curso de bioética em nada assegura que o aluno nota dez tenha simplesmente tramitado saberes através da razão, sem

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qualquer mudança ou aprimoramento de valores morais. Aqui, o professor tenta se aproximar de um universo moral preexistente, moldado pela cultura prevalente e respectivos valores. As horas de aulas teóricas e as práticas discursivas de casos de conflitos éticos têm o extraordinário desafio de atingir o axiograma do aluno, ou seja, o con“A desonestidade em ciência junto de seus valores morais, para pode ser aí semear inovada visão de mundo. enfrentada de O desafio que persiste é identiduas formas: ficar a melhor prática pedagógica preventiva e para assegurar o sucesso no ensino corretiva“ da ética em ciência, seja da bioética em geral, da ética da pesquisa em seres humanos, da ética da pesquisa em animais ou da integridade científica. A literatura bioética reflete justamente essa preocupação. Tenho me aventurado pessoalmente em algumas publicações sobre o tema e, não obstante os esforços, persistente é o desejo de não querer acreditar que ética não se ensina e, portanto, de não desistir de ensiná-la, mesmo sentindo a desproporção entre a milenar herança cultural que construiu a sociedade ocidental e as 30 ou 90 horas de aulas que em geral ministramos a cada turma. Tomemos o Brasil como exemplo: somos herdeiros da cultura hebraico-greco-romana aqui trazida pelos brancos colonizadores, acrescida de contribuições da cultura indígena, através dos verdadeiros donos das terras, e da cultura afro, para aqui trazida sob o ímpeto da exploração escravista. Deste tríplice encontro de etnias moldam-se o povo brasileiro e sua identidade cultural. Pondo em destaque o que interessa à integridade em ciência, reconhecemos que, à semelhança de todo o Ocidente moderno, preservamos impulsos de promoção pessoal gerados pela ganância de lucro e ambição de poder-prestígio. Estes dois motores de ação se fazem presentes também no mundo da ciência, notoriamente nas últimas décadas, reproduzindo na academia o vale-tudo da competição por


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