Skip to main content

O Estranho Mundo da Srta Morgan e Outros Temporais

Page 1


Fichacatalográfica

MARÍSSIMA,Ana.

O estranho mundo daSrta. Morgan e outros temporais / Ana Maríssima. — Jataí, GO: publicação independente, 2023.

Publicação digital disponibilizada na plataforma Issuu.

1.Literatura brasileira. 2. Contos brasileiros.3. Horror. 4. Ficção de horror. 5. Literatura goiana. 6. Publicação independente. I. Título.

CDD: 869.93

PRENÚNCIO

3:17damanhã.Costumavaacordarsemprenesse horário. Também tinha o mesmo pesadelo com frequência.

Sonhava com a morte do pai, cujo momento presenciara dois anos antes. A doença o havia drenado toda a cor e morrera respirando com muita dificuldade, dando pequenos goles de fôlego como se cronometrasse com muito esforço os minutos restantes neste mundo. Sophiasabiaqueelenãodurariamuito,vinhalutandocom aquele mal há muito tempo. Contudo, não conseguira aceitar o fim com muita facilidade. Nenhuma criança conseguiria.Nãocomofoi.

Estevelá,sentadaaopédacamaeesperandoque algum milagre recaísse sobre o pai morimbundo e lhe restituísse a saúde, o viço das maçãs e as histórias excêntricasqueinventavaparaaentreter.Masnadadisso aparecia no sonho. O que perturbava o inconsciente da menina, mais noites do que gostaria, era o momento em que o espírito do pai descolava do corpo. Mais especificamente a expressão que o seu rosto tomara. O homem estava bastante amarelado pela falta de sangue (Sophiaacreditavaquetambéminconscienteenãonotara asuapresença,emboraelalhesegurassecomforçaamão esquerda) e sua cabeça pendia sem força sobre o

travesseiro. Dera o último suspiro, mais forte que os últimos (o cronômetro da vida zerava), e seus olhos acompanharam o movimento arregalando-se com intensidade - estavam amarelos como a pele, e o azul da íris, antes tão vívido que parecia quase sobre terreno, um azul-piscina cintilante que lembrava bolas de gude ou jóias,emboraameninanuncatenhavistojóiasazuis,mas era o que parecia, estava apagado. Assumira um quaseverde-mortoeSophiapensouempeixesabatidos.Pensou em como a mãe chamava olhos claros de olhos cozidos, masosdopainãoeramassim.Ficaramnaqueledia.

Amortecozinhavaosolhosdaspessoas.

Emvoltadaíristransfigurada,nasextremidades do globo amarelado, os vasos sanguíneos pareciam rompidos,exibindomanchasvermelhasqueassustarama menina. A este último detalhe, o sonho acrescentara sinistraslágrimasdesanguequejorravameinundavamos olhosdopai,escorrendopelorostosemvida.Eraquando elaacordava.

Sophia tinha 12 anos quando viu o pai morrer. Faziam quase dois meses que completara 14 e já conseguia acordar do pesadelo sem as crises de choro do começo. Agora apenas despertava assustada, mas reconhecia mais rapidamente a realidade e só precisava afastar a memória. Nunca contara a ninguém sobre os sonhos.Viviacomaavó,umasenhoradistintadequemo

paipuxaraaimaginaçãoparaashistóriasequenuncalhe diziaaidadeverdadeira-apenasqueeratãovelhaquanto alua,queestavaláquandoaconstruíram.Amãetinhaido emboraquandoopaiadoeceueSophiatinhaaimpressão queelaapenashaviaaproveitadooinfortúnioparafazero quejáqueriaterfeitohámuitotempo.Deviaterunscinco anosquenãoaviaenãopensavamuitonela.

Lá fora uma mariposa se debatia contra a janela e o ar molhado e quente de outubro pesava no quarto escuro, trazendo consigo um cheiro de terra e mato que entravapeloscantosefrestasdacasa.Prenúnciodechuva. Chovia quase todos os dias nessa época. Sophia estava suadaegrudenta-pelosonoagitadoepelocalor-eviua gata preta espreguiçar-se na cadeira perto da janela, tão despreocupada como se, ao contrário dela, nunca tivesse tido um pesadelo na vida. Lembrou então que não conseguiria voltar a dormir tão cedo. Era sempre assim, precisavalevantaretomarumpoucodearfrescoantesde tentar dormir novamente. Colocou-se de pé e sem calçar ossapatos,apanhouopequenoguarda-chuvavermelhono canto do armário. Viu pela claridade do quarto que não precisaria de luz, já que lá fora a noite parecia estar clara como o dia e saiu rumo à cozinha, onde ficava a porta principal da casa, tomando cuidado para não fazer muito barulho com os pés no assoalho de madeira. No outro quarto, no fim do corredor, separado do seu por um banheiro e uma pequena saleta que guardava alguns

livros, uma máquina de costura e uma de escrever, a avó dormia profundamente com a sua touca de cetim, que faziasuacabeçaparecerumengraçadocogumelo.

Estava certa. A lua estava gorda e cintilante, iluminando todo o terreiro. Mesmo se fosse uma noite escura, Sophia ainda achava menos assustador ir lá fora do que manter nos pensamentos a imagem dos olhos ensanguentados do pai. O vento que soprava era de fato um vento de chuva, contudo, o céu estava tranquilo e quase totalmente limpo, não fosse por uma única nuvem que repousava lá em cima. Uma nuvem enorme e monstruosa. Na verdade, não parecia exatamente uma nuvem, mas a pintura barroca de uma nuvem, com sombrasmuitomaisforteseprofundasdoqueonormale caracóis que se avolumavam e pareciam se mover enquantoSophiaacontemplava.Pareciaalgo vivo.

Sentou-se no banco de madeira que ficava encostado à parede da casa e ficou ali, atordoada pela forma majestosa que se agigantava sobre as árvores e sobre os morros lá longe. Nunca tinha visto nada igual. PorpertoasgalinhasdormiamemseuspoleiroseSophia ouviaseusbarulhinhostranquilos,piadosefarfalhadosde sono aconchegante. Estava calor e o chão úmido sob os pés dava uma sensação quase entorpecente com aquela vista. Cigarras e grilos ao longe tocavam a sinfonia noturnadesempre,masalgonãoestavacerto.Haviauma presençasinistranoar.Aquela nimbus carregadaeescura

profanava a noite, convulsionando clarões assustadores provocados pelos raios em seu interior e com protuberâncias que moviam-se como um órgão pulsante prestesaengoliromundo.

Nesse momento, trovões começaram a ameaçar aordemsonoradamadrugadaeSophiasentiuumarrepio na espinha. A gata havia passado por entre os seus tornozelos e paralisara olhando na direção das árvores comoseavistassealguminsetointeressanteparasecaçar. Porém, disparou em sentido contrário, para o outro lado da casa, e Sophia percebeu que não fora algo que a interessara,masqueaassustara.Imaginouqueanoiteque começava a se movimentar e a chuva que deveria estar perto de cair espantaram o animal, afinal a gata sempre fora medrosa. O vento tinha ficado mais forte e as folhas das árvores agora chacoalhavam e zuniam criando uma atmosfera de desordem. Foi então que Sophia teve a sensação de que o guarda-chuva em seu colo havia estremecido. Nem se lembrou de o estar segurando enquanto olhava para a nuvem gigante, mas pensou ser coisadasuacabeça,atéporqueosmomentospreparativos detempestadesãomomentoscaóticosquegeralmentenos deixam um tanto confusos, mas não pôde evitar a adrenalina subindo pelo seu rosto e o incômodo de permancer ali fora. Colocou o vermelho de lado sobre o bancoeentãooventocomeçouaassoviar.Deveriavoltar para a cama, logo estaria ensopada se continuasse ali.

Olhou para cima mais uma vez e lá no alto a nuvem parecia ter crescido, como se isso fosse de alguma forma possível.Agoraelaestavaquasenegra.

Foi quando se levantou para voltar à segurança da casa que o guarda-chuva vermelho, antes repousado sobreobanco,abriradesúbitoeumforterajadadevento o levou. Sophia tentou pegá-lo de volta, mas o vento continuava a afastá-lo, arrastando-o para longe, batendoonochãoearranhandoaterra.Sophiacontinuouacorrer. O guarda-chuva havia sido presente do pai, depois de contar-lheumahistóriasobreseresfantásticosqueviviam em mundos nas alturas e usavam guarda-chuvas vermelhosparaviajaratéonosso.Faziamuitotempoque ele havia contado essa história, quando Sophia ainda era muitopequenaeelahaviaseesquecidodequasetodosos detalhes, mas se lembrava do pai dizer que se o mantivesse consigo, quando as criaturas fantásticas viajassem novamente para a Terra, a reconheceriam e a contariamossegredosdoseumundomágico.Nãoqueela acreditasse nas histórias, sabia que eram todas fruto da imaginação fértil do pai, herdada da avó, mas não podia perder o presente. Era a única coisa que restara dele. A únicacoisa boa querestaradele.

A essa altura o guarda-chuva já havia ultrapassado a cerca da chácara e entrado no bosque. Sophia estremeceu em pensar entrar na mata no meio da noite,maspulouacercamesmoassimearranhouobraço

no arame farpado. Ignorando o ardor do machucado, continuou o mais rápido que pôde, sem olhar por onde pisavaeferindoospésnusnasraízesegalhosespalhados pelochão.

E então ele estava lá. Suavemente pousado nas folhassecasqueencarpetavamobosque,algumaspoucas árvores à frente. O vento havia parado de repente e ela finalmente se aproximou do objeto que parecia cintilar sob a luz da lua que o alcançava por entre as folhagens. Barulhos de grandes pingos caindo contra o chão começaramasurgireameninaseapressouparaconseguir voltar a tempo, antes que a chuva aumentasse e ela acabassecomospésenlameados,eentãosentiuumdeles a atingindo na cabeça. Sophia estranhou a textura da chuva,porqueopingoquecomeçaraaescorrereraquente e espesso. Foi quando levou a mão à testa e examinou melhorasubstânciacontraaclaridadequenotouquenão eraágua.Erasangue.

Seu pequeno corpo magro gelou da cabeça aos pés e apavorada, sem conseguir sair do lugar, levantou o rosto devagar olhando para cima. A nuvem estava sobre elaesobreobosque,alémdascopasdasárvores,e então ela o viu: o guarda-chuva, que há poucos segundos descansava no chão aos seus pés, estava preso entre alguns galhos acima dela e, na parte interna, a qual ela avistava daquela posição, havia o desenho de um olho cujatintaescarlateescorriapelocaboegotejavasobreela.

Outra gota caiu entre os seus olhos e a menina sentiu-se tontacomosealgobemmaispesadoativesseatingidona cabeça. Seus pés não conseguiram mais sustentar o restantedocorpoeentãosuavisãoescureceu,turvandoo desenhoeoguarda-chuvacomoumpesadeloqueseesvai aodespertar.

Aoredor,achuvacomumhaviaaumentadoeum trovão ressoou sobre o bosque, deixando apenas uma mancha vermelha embaçada através do clarão da nuvem láemcima.

Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
O Estranho Mundo da Srta Morgan e Outros Temporais by MARIANA ASSIS - Issuu