PALAVRAR Ler e escrever é resistir
REVISTA LITERÁRIA SEMESTRAL
N.º 10 | JANEIRO 2026
PALAVRAR Ler e escrever é resistir
N.º 10 | JANEIRO 2026
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JANEIRO 2026 N.º 10 EDITORIAL
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Analita Alves do Santos Paula Campos
QUESTIONÁRIO DE PROUST A...
6 TEOLINDA GERSÃO
PER FICTA, RESISTERE
8 O COLECIONADOR DE NADAS Alexandra Ferreira 12 O JARDIM DO ELIAS Ana Faísca Pinheiro OS SILÊNCIOS DE LUZ 16 Ana Leal O ARMAZÉM 20 NENHUMAS DE COISAS Ana Paula Miranda
PALAVRAR Ler e escrever é resistir
A LITERATURA PELOS TEMPOS
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DO REALISMO AO NATURALISMO
Gisela Silva
IN METU, VERITAS
58 PAZ Adrien Lochon 60 TINNITUS Carlos Filipe Matos 62 RELICÁRIO Inês Videira 64 A MÃE QUE ALIMENTA Ivo Pires
PÉS DE PETIZ
RESISTENTIA POETICA
70 AQUELA FRASE Filipa Leal 72 AO SOL DA INUTILIDADE Ana Ribeiro 73 PARA QUE SERVE UMA CADEIRA Catarina Canas 74 O LATIR DA CHUVA Cidália Santos PÁSSARO 75 AQUELE TRANSLÚCIDO Cláudia Passarinho
76 INFÂNCIA Luís Aguiar 77 UMA PEÇA INTEMPORAL Marta Lu Donato 78 INVOLUNTARIAMENTE, GAIA Rosa Chaves 79 SER ÚTIL OU INÚTIL Teresa Portal
24 UM DIA FUI UM GUARDA-CHUVA 66 Ana Rita B. Novais SALTANDO DO Ana Maria Costa 28 O CATA-BEATAS O DRAGÃO QUE NÃO CUSPIA PARÊNTESIS 68 FOGO Ana Sofia de Brito UM ELOGIO AO TÉDIO 80 Analita 30 OS CICLOS DA LUA Teresa Dangerfield Alves dos Santos Carla Carmona REFLEXÃO SOBRE O VAZIO E 82 32 O MUDO A ESSÊNCIA DO SER Filipa Teixeira Vicente Filomena Fonseca DA PALAVRA À FORÇA QUANDO VAI E COMO VOLTA? 84 Inês 36 AS TRÊS ROSAS 92 ENTRE O PRINCÍPIO E O FIM Pinto Isa Silva Maria Bruno Esteves HÁ CONTROVÉRSIA 86 40 O QUE NOS SALVA Luciana J. Morais Lara Fernandes O NADA QUE NOS FALTA 88 44 FRAGMENTOS GAVETA CRIATIVA Maria Gaio Laura Susete Viegas OU 94 AUTOBIOGRAFIA 90 TREMER NÃO É VIVER EXPOSIÇÃO DAS CHAGAS RETALHOS DE VIDAS 46 Mena Galvão David Roque Leonilda Pereira 48 O REGRESSO Maria da Paz Camacho CRÓNICA DO VIAJANTE LÍNGUA MÁTRIA TEMPO DAS COISAS 52 À ESPERA DE SALINGER 100 João Sónia Pedroso TEXTO SEM DEDOS: PÓSVentura 96 O-EDIÇÃO, ASSISTÊNCIA VIRTUAL 54 NO BEIRAL DO INÚTIL E O FIM DAS GRALHAS O MISTÉRIO DAS MEIAS DESAPARECIDAS
Susana Forte
SENTENTIA
DIA EM QUE A IA ME ENSINOU 108 OA UTILIDADE DO INÚTIL James McSill
DIEM 110 CARPE Paulo Pereira
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Ana Salgado
98 ELOGIO DA PONTUAÇÃO Marco Neves
PALAVRA DE LEITOR
NÃO 104 AUTOBIOGRAFIA ESCRITA DE MARTHA FREUD Paula Campos
LUSOFONIAS
102 OSWALDO MARTINS ode 6
BESTIÁRIO ARDILOSO
QUINTA DO GERGELIM 106 ADavid Roque
Ficha Técnica Diretora: Analita Alves dos Santos | Editora: Paula Campos | Capa, design e paginação: Isa Silva | Revisão: Ana Costa, Cláudia Passarinho, David Roque, Inês Pinto, Maria Galvão, Teresa Dangerfield | N.º de inscrição na ERC: 127573 | Propriedade: Analita Alves dos Santos | Sede: Rua dos Missionários, Lote 11 L 8500-309 Portimão | Sede da redação e da Editora: Rua dos Missionários, Lote 11 L 8500-309 Portimão | analita.santos@oprazerdaescrita.com | Estatuto editorial ©2026 Revista Palavrar | Todos os direitos reservados. Palavrar Número 10 Todos os textos| são publicados segundo o Acordo Ortográfico em vigor, exceto quando a pedido específico do autor.
EDITORIAL A UTILIDADE DO INÚTIL Analita Alves dos Santos
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prendi, após meio século de vida, a observar o tédio sem querer afastá-lo. Antes, cercada de obrigações e prazos que me sufocavam; agora, sem culpas, descobri um lugar interior onde a mente se aquieta e as perguntas surgem sem urgência. Aceitar o tédio foi entrar num espaço que a cultura atual nos empurra para evitar, como se ficar sem ocupação fosse uma falha de carácter ou de produtividade. Nesta edição de PALAVRAR reunimos, de forma consciente, palavras que não se deixam medir por padrões utilitários. Os contos, os poemas e os ensaios que aqui encontram espaço não são definidos pela sua capacidade de servir algo útil de imediato; são úteis num sentido mais profundo: ajudam-nos a pensar e a reconhecer que a vida não se resume à produção de resultados quantificáveis. A literatura sempre soube que a densidade de uma frase, a pausa entre dois parágrafos e o espaço branco na página são lugares onde o pensamento se reconfigura. Esta utilidade do inútil é a mesma que nos permite revisitar a memória do sorriso doce de uma avó, observar uma rosa como se fosse a primeira vez ou aceitar que a mente vagueie sem destino fixo. Voltar ao espírito da criança que se perdia nas férias de verão, na moleza do nada fazer. Viver o tédio, o aparente inútil, é uma forma de existir que extravasa a eficiência e a obrigação. Transforma-se em liberdade de imaginar outras possibilidades, destrinçar novos sentidos e reconecta-nos com o que somos, distante da lógica do rendimento. É aí que a grande Fonte da criatividade reside: «O material para o nosso trabalho rodeia-nos a cada passo», diz Rick Rubin, no seu «O Ato Criativo», mas para isso é necessária presença, sem urgência. Escrever e ler sem a pressa de o justificar é coragem. Devolve-nos aquilo que esquecemos com frequência, a nossa capacidade de estar inteiros, presentes. O inútil ensina-nos a ser atentos não só ao que nos rodeia, mas também ao que nos habita. Nesta edição, cada texto é um convite a suspender a pressa e a redescobrir o valor do não planeado.
Quando abrimos um livro sem procurar nele uma resposta pronta, começamos a vislumbrar outras perguntas; quando deixamos o olhar repousar numa frase sem necessidade de interpretação imediata, damos espaço à experiência. Este número da PALAVRAR celebra o lugar de encontro entre o leitor e a palavra, para nutrir a vida interior. Convido-o a ler sem premências, a deixar cada página respirar consigo e que o silêncio entre palavras se torne parte da leitura. Que esta PALAVRAR seja um lembrete: o que julgamos inútil pode ser, na realidade, aquilo que mais nos transforma.
Paula Campos
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elebramos a décima edição da nossa revista. Um número que convida a refletir sobre a persistência e paixão que nos move. Para assinalar esta marca, escolhemos um tema provocador: «A utilidade do inútil». Vivemos sob o jugo do útil, medidos pela produtividade, pela eficácia, pelos resultados tangíveis. Esmagados pela eterna pergunta: «Para que serve»? Nesta asfixia, a literatura é uma bolha que nos permite respirar tudo aquilo que não serve para nada. Um conto, um poema ou um devaneio gratuito recordam-nos a possibilidade de ampliar o fôlego do pensamento. Devolvem-nos ao essencial: momentos de abrigo que permitem o deslumbramento, a criatividade e despertam emoções inesperadas. Gostamos de pensar que fazemos a diferença, ao receber nesta bolha alguns dos que consideram o inútil — este aparente despropósito — uma forma de lucidez ou um espaço de liberdade, passível, até, de prescrição médica. Permitamos ao pensamento demorar-se num território que se alargue. Celebremos a beleza da palavra que, apesar de supérflua para incautos, nos transforma e nos salva. Uma inutilidade que nos humaniza.
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A LITERATURA PELOS TEMPOS DO REALISMO AO NATURALISMO: TENSÕES EPISTEMOLÓGICAS E INOVAÇÕES ESTÉTICAS GISELA SILVA
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segunda metade do século xix constitui um dos períodos mais dinâmicos, complexos e heterogéneos da história literária europeia, nomeadamente em Portugal. Após um ciclo marcado pela mimese e crença de que a literatura deveria refletir tudo quanto os sentidos podem apreender, a Modernidade Literária configura-se num ambiente intelectual em ebulição, onde a racionalidade toma a dianteira. Para transformar, de modo profundo, o campo estético, ideológico e técnico da produção literária, contam a consolidação de uma burguesia cada vez mais interventiva no debate público e preocupada em assegurar o seu papel nos diferentes domínios sociais, o advento de novas conceções científicas e a emergência de sensibilidades artísticas renovadoras. Neste quadro emergem quatro movimentos fundamentais: o Realismo, que se anuncia como literatura de denúncia crítica e representação rigorosa; o Naturalismo, que radicaliza a cientificidade do olhar; o Parnasianismo, que consagra a autonomia absoluta da forma, e o Simbolismo, que reivindica para a literatura a sua dimensão interior, espiritual e mistérica. Se em França Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, inaugura uma nova narrativa — marcada pela ironia subtil, pela objetividade analítica e pela descrição rigorosa do quotidiano —, em Portugal é Eça de Queiroz quem melhor assimila e reinventa essa matriz realista, tornando-se o maior representante do Realismo Português, a partir da década de 70. Inspirado pela crítica social francesa, o romancista assume a missão de representar com lucidez a
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Palavrar | Número 10
sociedade portuguesa, denunciando, também ele, numa ironia corrosiva, desigualdades e ilusões coletivas, contradições ideológicas, vícios estruturais, a hipocrisia moral e o provincianismo cultural. E serão paradigmas literários como O Crime do Padre Amaro (1875), O Primo Basílio (1878), A Relíquia (1887) e Os Maias (1888), que expõem o profundo desfasamento entre o discurso moralista e os comportamentos efetivos de uma sociedade suspensa entre modernidade e tradição, as obras do Realismo Português, nascidas das ideias debatidas em cenáculo. Na tão aclamada Geração de 70 surgem discursos estéticos e elogios literários aos «autores da Modernidade», debates entusiastas, onde se discutem as primeiras ideias de romances e ensaios, como os de Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, por exemplo. Desejando revelar o verdadeiro papel do escritor: o de ser um observador-intérprete que analisa as tensões do seu tempo, posicionando-se como agente de transformação, para que a literatura também reivindique um lugar interventivo, educativo e racional na sociedade, estes defendem a institucionalização do campo literário como objeto académico. Filtrando e transformando modelos franceses, para responder à especificidade cultural portuguesa, será a atuação conjunta destes escritores e intelectuais que fará do Realismo um dos expoentes da Modernidade Literária em Portugal, defendendo que a objetividade narrativa, a verosimilhança, o criticismo social e a centralidade do quotidiano são os princípios estruturantes de uma estética literária que rejeita o ornamento excessivo e as idealizações românticas. O Naturalismo, frequentemente visto como uma corrente interna ou extensiva do Realismo, virá aprofundar o desejo de conferir estatuto científico ao romance. Com Émile Zola à cabeça, o movimento inspira-se no positivismo de Comte, no determinismo biológico darwinista e na medicina experimental. Defende-se que o escritor deve agir como um cientista, apoiando o seu trabalho no «método experimental» que lhe permita observar e explicar o
comportamento humano através das influências do meio, da hereditariedade e das condições socioeconómicas, fazendo do romance um instrumento científico de análise do ser em sociedade. Considerando o determinismo, a cientificidade e a radicalização do método na textualização, ao contrário do realista, que observa a sociedade com um olhar crítico, o naturalista pretende explicar os mecanismos que determinam a ação humana. Assim, faz da literatura um laboratório onde, nas bancadas, estão colocados para observação as personagens e a sua genética, os espaços e o meio que os define, bem como as demais circunstâncias que conferem autenticidade ao romance. Esta impessoalidade narrativa, as descrições minuciosas, quase anatómicas, das personagens e dos ambientes, o apogeu das temáticas degradantes como o alcoolismo, a prostituição, a doença, a miséria urbana, numa anti-idealização absoluta da vida humana, definirão a estética naturalista, apagando, por conseguinte, a voz autoral carregada de emotividade. Será essa tomada de posição extremada que irá pôr em evidência os limites do racionalismo positivista, abrindo-se a reações posteriores, como o Simbolismo, que surge como necessidade de reencontrar a dimensão espiritual e subjetiva que a literatura não pode perder. Embora, em Portugal, a receção do Naturalismo seja dissemelhante da do Realismo, importa reconhecer que a crítica literária refere que certos romances, nomeadamente de Eça de Queirós, revelam traços inequívocos desse movimento, o que vem confirmar tanto a sua pluralidade estética como complexidade ideológica, ambas responsáveis pelas reconfigurações estéticas na Modernidade Literária dos finais do século.
Consultas bibliográficas: Aguiar e Silva, V. (1992). Teoria da Literatura. Lisboa: Almedina. Almeida, Manuel de Souza e. (1983). Eça de Queirós: Uma Estética da Ironia. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Berrini, Beatriz (1990). O Naturalismo: História, Doutrina, Crítica. Lisboa: Editorial Presença. Compagnon, Antoine (1996). Os Cinco Paradoxos da Modernidade. Lisboa: Vega. Castro, Aníbal Pinto de (2008). O Naturalismo na Literatura Portuguesa. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra. Cunha, Carlos Manuel Ferreira da (1997). Realismo e Naturalismo: Percursos e Diferenças. Lisboa: Edições Colibri. Faria, Ernesto Rodrigues de (2002). Eça de Queirós: Realismo, Ironia e Modernidade. Porto: Campo das Letras.
França, José-Augusto (1982). A Geração de 70. Lisboa: Livros Horizonte. Lopes, O; Saraiva, A. J. (1999). História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora. Marnoto, R. (2010). História Crítica da Literatura Portuguesa. Vol. 5, «Realismo e Naturalismo». Lisboa: Verbo. Machado, Álvaro Manuel (1981). O Naturalismo em Portugal. Lisboa: Editorial Estampa. Martins, Oliveira (1996). Portugal Contemporâneo. Lisboa: Guimarães Editores. Reis, Carlos; Cabral, Álvaro Manuel (1998). Dicionário de Narratologia. Coimbra: Almedina. Seixo, Maria Alzira (1987). A Estética de Eça de Queirós. Lisboa: Editorial Presença. Zola, Émile (1995). O Romance Experimental e o Naturalismo na Crítica. Lisboa: Editorial Presença. Bibliografia de autor: Flaubert, Gustave. Madame Bovary (1998). Paris: Edition Gallimard. Queiroz, Eça (1991). A relíquia. Lisboa: Círculo de Leitores. Queiroz, Eça (1994). O primo Basílio. Lisboa: Círculo de Leitores. Queiroz, Eça (1994). O crime do Padre Amaro. Lisboa: Círculo de Leitores. Queiroz, Eça (1991). Os Maias. Lisboa: Círculo de Leitores. Zola, Émile (2011). Le Roman Expérimental. CreateSpace Independent Publishing \Platform.
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QUESTIONÁRIO DE PROUST A...
Fotografia de Homem Cardoso
TEOLINDA GERSÃO
Teolinda Gersão é uma das mais importantes ficcionistas portuguesas contemporâneas, autora de uma obra vasta e marcante, composta por romances, novelas e livros de contos. Ao longo da sua escrita, tem-se dedicado a temas como a luta das mulheres pela afirmação da sua voz e dos seus direitos, o combate ao colonialismo, ao racismo e à ditadura, e a defesa de uma liberdade partilhada, solidária e profundamente humana. A sua ficção afirma, de forma constante, o valor da arte, da imaginação e da vida interior, num mundo em que o desejo, o amor e o sonho são cada vez mais empurrados para as margens. Entre as suas obras destacam-se O Silêncio, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo, A Casa da Cabeça de Cavalo, A Cidade de Ulisses, O Regresso de Júlia Mann a Paraty, A Árvore das Palavras (passado em Moçambique) e Autobiografia não escrita de Martha Freud, o seu livro mais recente. A sua obra está traduzida em vinte países, e os seus contos integram antologias internacionais de referência.Várias das suas obras foram adaptadas para teatro, em Portugal, na Alemanha e na Roménia, bem como para curtas e médias-metragens, incluindo a aclamada adaptação de “Vizinhas”. Recebeu alguns dos mais importantes prémios literários portugueses e é amplamente reconhecida pela crítica como uma das escritoras portuguesas vivas mais relevantes. Foi writer-in-residence na Universidade da Califórnia, Berkeley, é membro honorário do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, e foi distinguida com a Medalha de Ouro de Mérito Cultural da Cidade de Coimbra. Vive e trabalha em Lisboa.
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1 | Qual o principal aspeto da sua personalidade? Não sei. Talvez a resistência.
2 | Qual é a sua qualidade favorita num homem? 3 | Qual é a sua qualidade favorita numa mulher? Num homem ou numa mulher, a verticalidade, a integridade.
4 | O que mais aprecia nos amigos? A compreensão e o afecto.
5 | Qual é o seu principal defeito? O perfeccionismo, e a ilusão de que nada é demasiado difícil e se consegue com um trabalho intenso. Mas tenho de reconhecer que há circunstâncias e factores que não controlamos.
6 | Qual o seu passatempo favorito? Acho que não tenho verdadeiros passatempos, ou não encaro nada desse modo: Viajar, caminhar, estar na praia, ir ao cinema, são momentos de descoberta e de aprendizagem, e não de “queimar” tempo. O que mais sinto é falta de tempo, os dias deviam ter mais horas.
7 | Qual a sua noção de felicidade? Estar em paz comigo e com o mundo, e saber que cada um de nós importa.
8 | Qual a sua noção de infelicidade? A sensação de que nada tem sentido.
aparentemente simples, mas na verdade intrigante, e se pode olhar de múltiplas perspectivas.
9 | Se não fosse você mesma, quem seria?
17 | Quais os seus heróis na vida real?
Se não fosse eu mesma, gostaria de ser árvore, pedra, pássaro, onda, algo portanto não humano, apenas um pedaço da Natureza.
Os que se entregam às grandes causas e defendem, para si e os outros, a liberdade de existir e de ser livre, numa sociedade democrática e justa. Zelensky é sem dúvida um deles.
10 | Onde gostaria de morar? Onde moro, escolhi Lisboa e tornei-a a minha cidade, embora não tivesse nascido aqui.
18 | Qual a sua figura feminina favorita na História?
11 | Qual a sua cor favorita?
Maria, mãe de Jesus, fosse virgem ou não (aliás mãe nenhuma é virgem).
Na natureza adoro todas as cores, incluindo o branco e o preto, que não são realmente cores. Para me vestir também gosto de branco e de preto, e de cores suaves, por vezes também de algo mais colorido, mas não demasiado. Não me sentiria bem vestida de cores “berrantes”.
19 | Quais os seus nomes favoritos? Acho que não tenho, ou pelo menos nunca penso nisso.
20 | O que mais odeia? A traição e a hipocrisia.
12 | Qual o seu escritor favorito? Se tiver de escolher um, direi Homero.
21 | Quais as figuras históricas que mais odeia?
13 | Qual o seu poeta favorito? Camões, na sua lírica, que prefiro à epopeia.
Os ditadores, os prepotentes, os paranóicos que chegam ao poder e nos desgraçam.
14 | Qual o seu herói favorito na ficção?
22 | Qual o evento militar que mais admira?
Ulisses, porque cada um de nós repete a sua história, o regresso a casa é a procura existencial de si próprio e do seu lugar no mundo.
A vitória sobre o nazismo na 2ª Grande Guerra.
15 | Qual a sua heroína favorita na ficção? Não há uma, são todas as mulheres sem nome nem voz que foram subjugadas, maltratadas e diminuídas pelos homens e pela vida.
16 | Quais os seus pintores e compositores favoritos? Direi, mais ao menos ao acaso: David Hockney e Bach. Bach, porque a sua música tem uma estrutura fixa, dentro da qual uma infinidade de possibilidades se desdobram, mas sempre tudo se organiza e encaixa, sem falhas nem vazios. No caos do nosso mundo, é o modelo de um outro mundo, absolutamente perfeito e transcendente. David Hockney porque é
23 | Qual o talento natural que gostaria de ter? Gostaria de ter o poder de curar, mas sei que seria impossível.
24 | Como gostaria de morrer? De forma rápida e sem sofrimento.
25 | Qual é o seu estado mental atual? Tranquilo.
26 | Por qual defeito tem menos tolerância? A arrogância. Num homem ou numa mulher não suporto a atitude de “estrela” ou “diva”, porque nenhuma pessoa é mais que uma pessoa.
27 | Qual o seu lema favorito? Um dia de cada vez.
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PER FICTA, RESISTERE O COLECIONADOR DE NADAS
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ALEXANDRA FERREIRA
hamavam-lhe o Velho das Coisas. Vivia numa casa térrea perto do mar, numa cidade da Costa de Prata onde o vento colava sal às janelas. Todas as manhãs descia a rua devagar, com um saco de pano cru ao ombro. Entretinha-se a recolher o que o mundo deixava cair: botões soltos, fitas desbotadas, tampas de frascos, papéis, pedras lisas polidas pela água. «Coisas sem valor», diziam. «Histórias», dizia ele. No bairro, reconheciam-no pela postura inclinada e pela lentidão. Enquanto as crianças corriam, ele parecia calcular a distância entre as pedras com pequenos passos. Elas apontavam para o saco, transbordantes de curiosidade, e perguntavam: — O que trazes aí hoje? Já está cheio? Sorria benevolente ao responder: — Tesouros que ninguém quer. Cabe sempre mais um niquinho. — Qualquer dia o saco rebenta — zoavam. Naquele dia de abril, pouco depois das onze, a luz apagou-se como se alguém tivesse desligado o contador. Os frigoríficos calaram-se, os semáforos ficaram cegos, as lojas suspenderam a respiração. Houve um murmúrio coletivo, um espanto breve, e depois um gesto antigo: as pessoas saíram para a rua. Perguntavam se acontecia só na sua casa. Depois percebiam que era em todas. As crianças regressaram da escola. Sem televisão, sem internet, foram as primeiras a adaptar-se e encheram a rua como pássaros libertos de gaiolas. Os adultos, sem saber o que fazer, foram ficando também. Encostaram-se aos muros, aos carros, aos portões, e entreolharam-se como quem se vê pela primeira vez, depois de anos a habitar na mesma rua. O Velho das Coisas aproximou-se devagar e as crianças correram logo para ele, pois sabiam que dentro daquele saco moravam objetos estranhos. — Tens algum brinquedo? — perguntou o Tomás.
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Palavrar | Número 10
«Naquele dia de abril, pouco depois das onze, a luz apagou-se como se alguém tivesse desligado o contador. Os frigoríficos calaram-se, os semáforos ficaram cegos, as lojas suspenderam a respiração. Houve um murmúrio coletivo, um espanto breve, e depois um gesto antigo: as pessoas saíram para a rua. Perguntavam se acontecia só na sua casa. Depois percebiam que era em todas.»
— Brinquedos, não sei — respondeu o velho —, mas tenho possibilidades. Sentou-se no banco de pedra e abriu o saco como quem abre uma arca vitoriana. Retirou uma tampa de frasco, um fósforo e um botão azul. Enfiou o fósforo num pequeno furo na tampa e equilibrou o botão por cima.
O pião rodou, cambaleante, e as crianças riram. Os adultos sorriram sem querer. — É um pião torto. Os tortos são mais interessantes. Depois vieram os berlindes improvisados com botões redondos, que deslizaram pela calçada como pequenos planetas. Com fitas antigas criou varinhas de arco-íris. De uma embalagem de cartão fez um par de orelhas de coelho para a Matilde, que passou o resto da manhã a saltar entre os arbustos. Com as pedras lisas, desenhou um caminho no chão, sem destino, onde cada pedra era um sítio para pousar o pé e respirar. As crianças saltitaram de pedra em pedra e ensinaram os adultos a seguir aquele trilho misterioso. Houve quem tropeçasse nas primeiras tentativas. Houve quem recuperasse o riso da infância. Contagiada pela animação, a dona Maria, do quiosque, trouxe uma caixa de giz e logo o alcatrão se encheu de peixes, casas, sóis, estrelas, e famílias de mãos dadas. Um dos desenhos era o próprio velho, com o saco ao ombro. O seu olhar ficou húmido de alegria. Chegou a hora do almoço. As crianças continuavam a brincar, alheias à preocupação dos adultos, que se entreolhavam, novamente. Como aquecer a sopa ou requentar os restos do dia anterior, se a eletricidade ainda não voltara? — Trouxe pão — anunciou o senhor Olavo, carregando um saco de papel. — Aposto que estão esfomeados. — Vou a casa buscar o fiambre, antes que se estrague. — Eu trago queijo. — Tenho pacotes de batatas fritas. — Posso trazer iogurtes. — Alguém quer sumos? Num instante, apareceram mantas estendidas sob a frondosa tília e o piquenique improvisado começou. Enquanto uns cortavam os pães, outros barravam a manteiga, e outros recheavam-nos com fiambre, queijo, salpicão, presunto, todos os condutos que encontraram em casa. Mãos estendidas para dar, mãos prontas para receber, palavras de agradecimento, pedidos de «Mais, por favor!» As crianças riam, deliciadas com aquela aventura inesperada. Os adultos recordavam os verões da infância, quando os dias de praia eram interrompidos na hora de maior calor para dar lugar ao almoço na frescura do pinhal, mandado plantar, segundo
«O momento mais bonito veio quando o velho tirou do saco um pedaço de tubo e papéis coloridos. Com gestos lentos e meticulosos, montou um catavento. Quando soprou, um redemoinho multicolorido rodou no ar, hipnotizando os presentes. Havia qualquer coisa de sagrado naquele gesto simples: vento, papel e mãos.»
diziam, por D. Dinis. Confidências trocadas com estranhos que agora pareciam velhos amigos. O momento mais bonito veio quando o velho tirou do saco um pedaço de tubo e papéis coloridos. Com gestos lentos e meticulosos, montou um catavento. Quando soprou, um redemoinho multicolorido rodou no ar, hipnotizando os presentes. Havia qualquer coisa de sagrado naquele gesto simples: vento, papel e mãos. Foi então que o bebé da Raquel começou a chorar. Cansada, abanava-o sem sucesso, numa súplica muda por paz. O velho aproximou-se e soprou o catavento devagar. As sombras dançaram no rosto pequeno e o choro derreteu-se como gelo ao sol. O olhar de Raquel iluminou-se de gratidão, sinal de uma bênção recebida.
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PER FICTA, RESISTERE | O COLECIONADOR DE NADAS
— Isso é que é boa vida – atirou o pedreiro Francisco lá da beira da estrada. — Passa um homem a manhã a trabalhar para vir encontrar o bairro na vida airada. — Junta-te a nós. Ainda cabe mais um à mesa — troçou o senhor Miguel da drogaria. De barriga cheia, as crianças começaram a manifestar alguma agitação. O velho remexeu o saco e tirou um paninho de linho bordado. — Quem quer jogar ao lencinho? — O que é isso? – questionou a Sarita, olhos redondos de espanto. Em menos tempo do que leva a contar, os pais formaram duas equipas. Os adolescentes afastaram-se, desdenhosos, como se se recusassem a testemunhar uma tamanha infantilidade com miúdos e graúdos. Mas a resistência foi de curta duração, e logo se tornaram parte de momentos hilariantes em que o peso da idade se esfumou.
«Sentaram-se todos no passeio. As crianças continuaram a brincar, agora iluminadas pelos candeeiros da rua, mas com a mesma alegria da tarde. Os adultos ficaram a conversar como há anos não faziam. Houve quem falasse dos filhos, dos medos, dos sonhos antigos.»
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Palavrar | Número 10
Alexandra Ferreira
Enquanto isso, o velho foi apanhar pauzinhos. Do fundo do saco surgiu uma bobina de fio de nylon e um saquinho de anzóis. Quando o grupo começou a dar sinais de cansaço, o velho chamou-os para a margem do rio. Era hora da pesca. A água límpida corria mansamente e os peixes acinzentados ondulavam na corrente. Mordiscavam o pão como quem rói uma maçã para deixar apenas o caroço. Nem um se deixou engodar com aquela oferta envenenada. Mas isso não importava. Ali reinava o calor da entreajuda e a alegria estampada nos pequenos rostos corados eram o maior troféu. A luz voltou pouco depois das oito, num estalar quase brusco. As casas reacenderam-se, os frigoríficos suspiraram de alívio, os semáforos voltaram a ver e ainda assim ninguém voltou para dentro. Havia qualquer coisa naquela rua que não podia ser desligada com um simples botão. A convivência tinha tomado o lugar da eletricidade. — Já não precisamos disto — disse alguém, apontando para os brinquedos improvisados. — Precisar, não — respondeu o velho. — Servem para lembrar. Sentaram-se todos no passeio. As crianças continuaram a brincar, agora iluminadas pelos candeeiros da rua, mas com a mesma alegria da tarde. Os adultos ficaram a conversar como há anos não faziam. Houve quem falasse dos filhos, dos medos, dos sonhos antigos. Houve quem descobrisse afinidades inesperadas com o vizinho que antes só cumprimentava por obrigação. Quando a noite caiu por completo, o velho levantou-se devagar. Despediu-se de cada criança com uma pequena coisa: uma fita a fazer de pulseira, uma pedra, um botão, uma tampa transformada em medalha. Os miúdos receberam tudo como quem recebe um talismã. — Se um dia precisarem, olhem para o que têm. O inútil é só aquilo que ainda não tem o vosso olhar. No dia seguinte, a Matilde guardou as orelhas de coelho para usar na Páscoa. O Tomás levou o pião torto para a escola. E, ao fim da tarde, alguém fez um catavento só para o ver dançar no vento. Desde então, o bairro sabe: às vezes, basta um velho e um saco de nadas para que um lugar inteiro volte a ser casa.
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PER FICTA, RESISTERE O JARDIM DO ELIAS
ANA
FAÍSCA PINHEIRO
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iziam que Elias tinha enlouquecido. Que passava os dias a conversar com coisas mortas – uma chávena sem asa, uma pena sem tinta, um relógio parado nas quinze horas e trinta e quatro minutos, um porta-moedas sem fecho, um botão perdido e tantos outros. No quintal da sua casa, entre ervas e silêncios, não havia flores, nem árvores, nem sombras frescas. Apenas restos. Fragmentos de um tempo que não voltava. Objetos que a pressa do mundo abandonou, e que ele, por teimosia, havia plantado para os salvar do esquecimento. Apelidou-o de jardim dos inúteis. Num pequeno vilarejo esquecido entre montanhas, Elias, um professor de filosofia aposentado, passava os dias a cuidar do seu jardim peculiar. No jardim, não havia flores que perfumassem o ar, nem frutos que servissem de alimento. Apenas objetos que o tempo deixara para trás, cuidadosamente enterrados, como se fossem flores, pela mão paciente de Elias. Regava-os com a mesma delicadeza com que se rega uma planta viva, falava-lhes e, não raras vezes, parecia ouvir-lhes resposta, que só ele compreendia. Os poucos habitantes do lugar achavam-no estranho. Sinistro até. Muitos diziam que fazia bruxarias com objetos. As velhas benziam-se quando passavam à sua porta, a caminho da igreja. Muitas vezes ouvia-as dizer: “Pobrezinho, a idade e a solidão levaram-lhe o juízo”. Elias sorria, como quem guarda um segredo que o mundo não é capaz de entender. E continuava a sua empreitada pelo jardim — regar, limpar o pó e conversar com as coisas. — Dizem que o inútil é o contrário do necessário. Mas o que é o necessário? – perguntava, incessante, Elias, enquanto afagava a chávena sem asa, sentindo o frio da porcelana, como quem toca o pulso da memória, quebrada, inútil, e ainda assim, mais viva do que ele próprio.
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Palavrar | Número 10
«Os poucos habitantes do lugar achavam-no estranho. Sinistro até. Muitos diziam que fazia bruxarias com objetos. As velhas benziam-se quando passavam à sua porta, a caminho da igreja.»
Há umas semanas que Elias notava movimento na casa ao lado. Uma nova família, e a parafernália de sacos, sacolas, malas, maletas e vários camiões de mudanças, cruzava o ar. Todos os dias chegavam coisas novas. Até que, uma noite, o burburinho cessou e apenas uma carrinha familiar ficou parada na entrada. Uns dias mais tarde, começou a reparar nele. Pequeno, franzino, olhar fixo no horizonte. Nas mãos, um pequeno objeto escuro, que não reconheceu. O rapaz, agora seu vizinho, passava as tardes debaixo do grande carvalho da entrada. Ao início, o garoto parecia não retribuir. Elias sorria-lhe. Numa das tardes, reparou que o fitava, com a curiosidade limpa de quem sente o fascínio do desconhecido. — Olá, eu sou o Elias — disse, enquanto se aproximou da cerca que dividia as propriedades. O rapaz baixou o olhar. — Não tenhas medo, sou só um pobre velho solitário.
O menino sorriu em silêncio. Uma tarde, em que se afadigava de volta dos objetos, sentiu passos a aproximarem-se. Reconheceu-o assim que se voltou. Sorriu-lhe. Leu-lhe nos olhos a inocência com que falou: — Senhor Elias, porque guardas coisas que já não servem para nada? — perguntou. — Porque o que não serve é o que sobra do mundo depois do mundo acabar. O rapaz não entendeu. Mas ficou. De olhos fitos naquele jardim, observou a dedicação que o velho votava a cada objeto. — Como te chamas? — João. — Já ouviste falar de mim, não foi João? — As pessoas dizem que a idade te levou o juízo. — Quantos anos tens? — Oito. Ao longe, a voz de uma mulher soou, quase em desespero: — João, João, onde te meteste? Ao ouvir a voz da mãe, fugiu assustado. Elias ainda conseguiu ouvir ao fundo: — Não quero que te dês com esse… Mas João continuou a visitar o jardim de Elias. Trazia no olhar o espanto fresco de quem ainda não aprendeu a desprezar. Deliciava-se com as histórias do velho. Era impossível ficar indiferente. Quase um encantamento. — Sabes, João, no meu jardim não há árvores nem flores. Há coisas. Objetos que perderam o nome. E, por isso, ganharam o silêncio. — Porque os regas com tanta paciência? — Rego-os com a paciência com que outros rezam, não para pedir, mas para escutar. — O que têm eles para te dizer? Não são tudo coisas que já não servem? — Talvez… — sussurra — talvez a utilidade seja apenas uma máscara que o mundo veste para esconder o medo de ser nada. As pessoas correm, produzem, prometem, exibem. No fundo, querem apenas não desaparecer. Desaparecer é inevitável, talvez seja mesmo uma bênção. João insiste: — Mas porque os guardas, se não servem para nada? — Porque o que não serve é o que sobra do mundo depois do mundo acabar. Mais uma vez, João não entendeu. Todavia, encantado,
«O professor sabia que o mundo o achava louco. Mas não era loucura recusar o ritmo das máquinas. Loucura era correr atrás do tempo como se ele fosse um cão a ser domado. Fitou os olhos nos objetos, depois de João, novamente, ter saído a correr quando a mãe o chamou.»
voltou nos dias seguintes. Não sabia explicar, havia ali uma paz que não encontrava nas coisas úteis, aquelas que exigem, pesam, cobram e mandam. No inútil sentia algum descanso, o direito de existir sem propósito. — Elias, eu gosto muito de ti. Tanto como gosto de ler. O velho riu com gosto: — Ah, sim! E o que mais gostas de ler? — Histórias misteriosas. Quanto mais mistério melhor. Talvez por isso também goste de ti. Achas que sou misterioso? — É o que toda a gente diz. Até têm medo de ti, sabias? O professor sabia que o mundo o achava louco. Mas não era loucura recusar o ritmo das máquinas. Loucura era correr atrás do tempo como se ele fosse um cão a ser domado. Fitou os olhos nos objetos, depois de João, novamente, ter saído a correr quando a mãe o chamou. O relógio parado nas quinze horas e trinta e quatro minutos, o único que saberia medir a eternidade.
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PER FICTA, RESISTERE | O JARDIM DO ELIAS
A pena seca, que escreveria apenas o ar, no lugar onde as palavras se libertam da obrigação de significar. A chávena partida, que guardaria o resto da mão que a ofereceu, mais inteiro do que qualquer asa de porcelana. E tantos outros, cujos significados preservaria na sua história. João demorou uns dias a regressar ao jardim. O especial jardineiro continuava, pacientemente, à sua espera. — Senhor Elias — a voz infantil de João sobressaltou-o — é hoje que me vais dizer porque guardas coisas que não servem para nada? Este mistério está-me a fazer comichão… Elias franziu a testa e encarou-o. Fez sinal para que o seguisse e ajoelhou-se junto a três dos objetos. Sem o fitar, falou num murmúrio: — Esta chávena foi o último presente que a minha mulher me deu. Nunca mais consegui beber nela, mas é ela que me mata a sede da lembrança. Em seguida, apontou para o relógio parado: — Marcou a hora em que o meu pai partiu. Tinha eu a tua idade. Desde então, deixou de contar o tempo, mas é ele que me lembra de o viver. Talvez
«Ao entardecer, quando o vento soprava entre os objetos, um leve tiquetaque atravessava o ar, como um relógio que voltava a bater. Mas não vinha do relógio, era o som de tudo o que o tempo já esqueceu, continuando, de algum modo, a existir.»
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Ana Faísca Pinheiro
seja isto a eternidade, mais um minuto em que nos recusamos a morrer. Por fim, mostrou-lhe a pena seca: — Com ela escrevi o que já esqueci. E ainda assim, é a única lembrança de quem fui. Agora posso escrever no ar — fazendo o gesto elucidativo — no lugar onde as palavras são livres. O menino ouviu tudo em silêncio, como se o mundo tivesse parado naquele instante suspenso entre o pó e a ternura. Voltou a visitá-lo todos os dias e, aos poucos, aprendeu também a regar e cuidar das coisas mortas. Quando a doença chega, não vem como inimiga. Chega como uma brisa que apaga as velas. Elias sentiu-a e aceitou-a sem medo, não como desistência, mas como quem finalmente se reconhece matéria entre matérias, pó entre pós, coisa entre coisas. O tempo, esse velho operário do esquecimento, continuou o seu ofício e, um dia, o homem não se levantou mais, adormecendo no seu último sono, qual botão esquecido numa velha gaveta. A aldeia respirou o alívio das rotinas que voltariam a ser normais. Falavam em limpar o terreno, deitar fora as velharias, plantar flores de verdade, uma vez que não havia herdeiros conhecidos. João, quase a completar dezoito anos, não deixou. — Não toquem em nada. Este jardim agora é meu. Elias deixou-mo em testamento, e ensinou-me que até o que não serve tem o seu lugar no mundo. Cuidou do jardim, não por piedade, mas por fé. Ergeu uma placa na entrada, onde em letras manuscritas se podia ler: “Aqui floresce o que não serve para nada, e, por isso, serve para tudo”. Ao entardecer, quando o vento soprava entre os objetos, um leve tiquetaque atravessava o ar, como um relógio que voltava a bater. Mas não vinha do relógio, era o som de tudo o que o tempo já esqueceu, continuando, de algum modo, a existir. Do coração antigo das coisas. Do modo como sobrevivem, mesmo quando o mundo insiste em chamá-las de inúteis. E nesse tiquetaque – quase como um suspiro – o universo, cansado de ser útil, encontrava, por fim, repouso.
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PER FICTA, RESISTERE OS SILÊNCIOS DE LUZ
M
ANA LEAL
aria da Luz, embora toda a gente lhe chamasse apenas Luz, como se o resto do nome fosse demasiado pesado, vivia num segundo andar sem elevador na Rua do Poço dos Negros. Cinquenta e dois degraus que contava sempre, não por necessidade, mas porque cada degrau tinha o seu próprio silêncio e ela gostava de os cumprimentar, um a um, como quem saúda velhos conhecidos. És tão improdutiva, dissera-lhe a irmã na semana anterior, sem raiva, o que tornava tudo pior, mas com uma pena mole e pastosa que se colava à pele. Madalena fez o comentário, enquanto bebia um batido verde e verificava emails no telemóvel, sem levantar os olhos, como se a inutilidade da irmã fosse um facto tão estabelecido quanto chuva em novembro. Quarenta e três anos, Luz. Formada em Arquitetura. E o que fazes? Nada. Não produzes nada. Não serves para nada. Luz não respondera. Como explicar que passava os dias a subir e descer as colinas de Lisboa, não à procura de algo útil, senão do contrário? Como dizer que se sentava em escadarias e se encostava a paredes de azulejo e ficava horas parada no Miradouro da Graça, não apesar de não servir para nada, antes por isso mesmo, porque o mundo inteiro se tornara uma máquina voraz de utilidades e alguém precisava de guardar o resto? O mundo valorizava o útil, o produtivo, o mensurável. Luz colecionava o que sobrava. Colecionava silêncios. Não os silêncios comuns, essa ausência de som que incomoda nas salas de espera, mas os silêncios verdadeiros, aqueles que ficam suspensos entre duas palavras que alguém não consegue dizer, o intervalo exato entre uma buzina e um suspiro, o espaço vazio e precioso que fica quando uma mãe pousa um filho ao colo, depois de o ter embalado durante horas e, finalmente, ele adormece.
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«Lisboa acelerara, entretanto. A cidade fervilhava com uma energia frenética que não cabia nas ruas estreitas: podcasts nos auscultadores, chamadas de Zoom nas esplanadas, notificações constantes como picadas de inseto, newsletters sobre como ser mais eficiente, aplicações para gerir o tempo, alarmes para beber água, lembretes para respirar fundo. »
Ela via-os, sentia-os como objetos tangíveis, cada um com o seu peso específico, a sua textura particular. O silêncio de uma discussão evitada parecia-lhe vidro moído e cortante nas palmas das mãos. O silêncio de quem espera notícias do hospital era uma pedra fria e lisa, polida por tantos dedos ansiosos. O silêncio das pessoas no metro, cada uma encerrada no seu telemóvel, era algodão sujo, compacto, abafado, o tipo de silêncio que sufoca em vez de libertar. Guardava-os a todos no pequeno apartamento, onde as paredes pareciam vazias aos olhos dos ou-
tros, embora para si estivessem cobertas de prateleiras invisíveis, onde repousavam milhares de silêncios recolhidos ao longo dos anos, organizados por densidade, por dor, por beleza. Uma coleção perfeitamente inútil. Descobrira este dom — ou maldição — numa tarde de novembro, há cinco anos, no Hospital de São José, enquanto esperava notícias do pai. AVC fulminante. Fez-se um silêncio na sala, quando a médica lhe deu a notícia, e Luz viu-o: uma forma translúcida e azul-escura pairando no ar. Estendeu a mão sem pensar e tocou-lhe. Era gelado e denso como cera de vela endurecida. A médica continuou a falar; ela já não ouvia. Segurava nas mãos, pela primeira vez de forma consciente, o silêncio da morte iminente. Desde esse dia, não conseguiu parar: abandonou o emprego no ateliê de arquitetura, onde desenhava prédios que nunca seriam construídos. Irónico, pensava às vezes, gastar anos a projetar utilidades futuras, quando o presente estava cheio de inutilidades esquecidas. Deixou de atender chamadas, corria os dias a subir e descer colinas com os pulmões a arder e as pernas cansadas, embora com os ouvidos aguçados, sempre atentos ao próximo silêncio que precisasse de ser recolhido. Lisboa acelerara, entretanto. A cidade fervilhava com uma energia frenética que não cabia nas ruas estreitas: podcasts nos auscultadores, chamadas de Zoom nas esplanadas, notificações constantes como picadas de inseto, newsletters sobre como ser mais eficiente, aplicações para gerir o tempo, alarmes para beber água, lembretes para respirar fundo. Até a respiração fora colonizada, transformada em ferramenta de produtividade. O ruído tornara-se a própria textura da existência, e tudo sem exceção, tinha de justificar a sua presença através da utilidade. Subia escadas, enquanto os outros apanhavam elevadores. Sentava-se, enquanto os outros corriam. Parava, enquanto o mundo acelerava. E nessa recusa silenciosa e obstinada de ser útil, havia uma espécie de resistência que não sabia nomear, embora a sentisse nas pernas que ardiam e nos pulmões que se enchiam devagar. Então, em setembro, o elevador de Santa Justa descarrilou. Vinte mortos. Metal retorcido. Gritos que ecoaram muito depois de o último ferido partir. A cidade parou, não de som, os carros continuaram a circular, os turistas continuaram a chegar, antes de sentido.
As pessoas moviam-se como autómatos. Falavam, porém, as palavras eram ocas. O ruído continuava, contudo, perdera a função, era apenas barulho nervoso, ansioso, desesperado. Passou esses dias a recolher os fragmentos, subiu à Graça e desceu a Alfama, atravessou o Chiado com as mãos estendidas, e via-os por todo o lado: bocados de silêncio denso e negro, cada um com o nome de alguém, gravado numa língua que só ela conseguia ler. Colecionou-os todos com uma reverência que nunca sentira antes. Não eram belos, estes silêncios. Eram devastadores. Porém necessários. Alguém tinha de os guardar. Foi então que começaram a procurá-la. A jornalista veio primeiro, bateu à porta com um sorriso profissional e disse que ouvira falar dela, que queria fazer uma entrevista, porque as pessoas precisavam de esperança. Luz recusou. Duas semanas depois a jornalista voltou, desta vez com uma proposta mais concreta: workshops, um livro, uma plataforma online. Não, repetiu. Porquê? A frustração era visível no rosto da mulher. Tem algo de que as pessoas precisam com desespero. Não quer ser útil? Luz olhou-a por um longo momento, antes de responder: O que eu faço deixa de funcionar no momento exato em que se torna útil, compreende? No instante em que transformo isto em produto, em ferramenta, em solução, deixa de ser o que é. Os silêncios que recolho são preciosos, exatamente porque não servem para nada. Não otimizam. Não resolvem. Apenas existem. E existir, sem mais, sem justificação ou propósito, é a única coisa que ainda vale a pena neste mundo. Isso é egoísmo. Não, disse para a porta que se fechava. É resistência. Ficou sozinha com a pergunta: seria mesmo? Ou estaria apenas a justificar a própria inutilidade? A resposta chegou na forma da irmã. Madalena apareceu sem avisar, sem o fato de treino técnico, sem o batido proteico, sem o sorriso corporativo que mantinha colado ao rosto, mesmo quando dormia. Sentou-se no chão, não havia cadeiras suficientes, e chorou como não chorava desde criança. Não aguento mais, Luz. A voz partia-se entre soluços. Acordo já cansada. Durmo e sonho com deadlines. Até quando respiro, sinto que estou a desperdiçar tempo, que devia estar a fazer alguma coisa mais produtiva, mais útil. Tenho tudo o que dizem
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PER FICTA, RESISTERE | OS SILÊNCIOS DE LUZ
que é suposto ter: emprego bem pago, dinheiro na conta, corpo em forma, agenda cheia. E, contudo, não tenho nada, percebes? Não há espaço. Nem para pensar. Nem para sentir. Nem sequer para ser inútil durante cinco minutos. Luz ajoelhou-se à frente da irmã e, devagar, estendeu as mãos. Entre elas, no ar espesso da tarde de outubro, havia um silêncio pequeno e quase infantil, rosa-pálido e macio como penugem, o silêncio da criança que Madalena fora um dia, antes de aprender que existir não chegava, que era preciso ser útil, produtiva, eficiente. Sentes isto? perguntou Luz. Madalena olhou. Por um segundo Luz pensou que não ia funcionar. Porém, a irmã estendeu os dedos trémulos e tocou. Sinto, sussurrou. Meu Deus. Sinto. Nos dias que se seguiram, outros vieram. Nunca muitos. Luz não anunciava nada, não abria as portas de par em par. Começaram a aparecer pessoas exaustas, pessoas partidas, pessoas que tinham percorrido a cidade inteira à procura de algo que não conseguiam nomear. Não as curava. Não tinha fórmulas. Apenas mostrava silêncios que colecionara, os delas, os de outros, os da cidade inteira. Ensinava a parar sem culpa, a subir escadas e contar os passos, a sentar-se no miradouro sem tirar fotografias, a escutar o intervalo precioso entre as batidas do próprio coração. Era inútil, claro. Completamente inútil. Não resolvia a crise económica, não aumentava o PIB, não curava doenças. Talvez, pensava, enquanto via estas pessoas saírem do seu apartamento com uma lentidão nova nos gestos, o mais importante fosse sempre aquilo que não serve para nada: o abraço que dura tempo demais, a conversa que não leva a lado nenhum, o passeio sem destino, a pausa sem justificação, que não se transforma em eficiência renovada, apenas em pausa, pura e simples. Talvez resistir fosse precisamente recusar que tudo tenha de servir para alguma coisa. No princípio de dezembro, Luz desapareceu. Ninguém sabe ao certo quando. O apartamento ficou vazio, mais vazio ainda, se é que era possível. A irmã foi a primeira a notar, bateu à porta durante dias, sem resposta. Algo estranho começou a acontecer pela cidade.
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Palavrar | Número 10
Ana Leal
Pessoas começaram a parar nas escadas. Não todas. Não muitas. Aqui e ali, dispersas pela cidade como sementes levadas pelo vento, alguém subia a Calçada do Duque sem pressa, alguém se sentava num degrau da Mouraria e ficava ali apenas a escutar, alguém no Miradouro da Graça poisava o telemóvel e olhava a cidade em silêncio, verdadeiramente em silêncio. Madalena deixou o emprego. Começou a subir as colinas todas as manhãs, não porque procurasse a irmã — sabia que não a encontraria — senão os silêncios. E, para seu espanto, começou a vê-los: pequenos, tímidos ainda, porém ali, suspensos entre as palavras dos vendedores ambulantes, no intervalo entre o sino da Igreja e o riso de uma criança, no espaço vazio que ficava quando alguém abrandava o passo. Outros também. Uma professora no Bairro Alto. Um enfermeiro em Alfama. Uma caixa de supermercado na Graça. Pessoas que tinham estado no apartamento de Luz. Pessoas que nunca lá entraram, embora se tivessem cruzado com alguém que estivera. Como um contágio silencioso, como uma epidemia ao contrário que se espalhava, não através do barulho, senão da sua ausência. Lisboa continuou ruidosa. Os turistas continuaram a chegar aos milhares, os carros continuaram a buzinar, as obras continuaram sem parar. Ainda assim, por baixo de todo aquele ruído, como uma rede subterrânea de raízes que ninguém via, embora sustentasse tudo, crescia uma outra cidade: uma cidade feita de pausas e escutas, de gente inútil que subia colinas sem razão aparente, que se sentava em bancos sem olhar para ecrãs, que respirava fundo e deixava o silêncio entrar sem o transformar em técnica ou estratégia, apenas silêncio, puro e gratuito e absolutamente sem préstimo. E se, por vezes, alguém julgava ver uma mulher de cabelo encaracolado sentada num muro, ao cimo de uma escadaria, olhando a cidade como quem guarda um segredo, bem, talvez fosse Luz, ou apenas mais alguém que aprendera a colecionar o que o mundo inteiro considera desperdício e que, precisamente por isso, se revelava indispensável. O que importava, afinal, não era se ela estava ou não. O que importava era que subiam ainda. Paravam. Guardavam o inútil como quem guarda tesouros. Resistiam. Um degrau de cada vez.
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PER FICTA, RESISTERE O ARMAZÉM DE COISAS NENHUMAS
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ANA PAULA MIRANDA
a esquina mais esquecida de uma cidade desmemoriada, entre uma farmácia com a porta identificada com o letreiro “Fecho por tempo Indeterminado” e um beco perfumado de um tempo pretérito, existia uma loja sem vitrine e sem placa. Só quem precisava muito dela a conseguia encontrar. E, mesmo assim, quase sempre sem dar conta disso. Ninguém sabia como se chamava a loja. Isso pouco interessava. Até mesmo quem a criou se esquecera do que ficara registado no assento de batismo. O vendaval de 1978 aspirou as letras que encimavam a entrada e não mais as devolveu. O proprietário nunca se deu ao trabalho de as reescrever. "Quem tem de entrar, entra.", dizia com ar conhecedor dos segredos do universo, ou, pelo menos dos diversos parafusos que nele andam soltos. No interior, empilhados em estantes de madeira, repousavam objetos deserdados da bem-aventurança: um guarda-chuva furado que só abria para dentro; um saleiro que, a cada toque, vomitava pimenta; uma meia esquerda, tamanho quarenta e oito, sem pretendente para casar; uma chave para abrir fechaduras invisíveis de armários desconjuntados; uma campainha a retinir apenas para surdos; um caderno que escrevia sozinho, mas só de madrugada — “Besingalhadas”, repetia Irene, a esposa de Álvaro. Ela não atinava com a necessidade de o marido acumular desnecessidades. Costumava dizer que o armazém era um cemitério de maluquices tristes e que ele era o coveiro-chefe. Amém! Ele, por sua vez, respondia com a calma de quem tem séculos de paciência guardados nos bolsos: — As coisas só perdem o uso, nunca o sentido. Ela abanava a cabeça. Já não havia esperança de cura para aquela doença. O doutor Inácio, especialista nas desordens do cérebro, tirara-lhe qualquer expectativa de melhoras. Também, é sabido que a idade não perdoa e a massa cinzenta emperra cada vez mais.
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Palavrar | Número 10
«Ela não atinava com a necessidade de o marido acumular desnecessidades.»
Mas, no fundo, a esposa gostava de lhe ver os olhos pirilampar quando evocava filosofias. Era o brilho miúdo e quase inocente daqueles que ainda acreditam haver magia escondida nas frestas do mundo. O guardião do acervo inutilitário tinha ar de bibliotecário assarapantado. Vestia quase sempre o mesmo fato castanho-escuro, ligeiramente apertado nos ombros e gasto nos cotovelos. No rosto magro, ao longo do nariz aquilino, encaixava a armação dourada dos óculos. As lentes, de graduação elevada, eram tão grossas que nelas os olhos aquariavam. Trazia, ainda, uma lupa pendurada ao pescoço, não fossem as cangalhas insuficientes para funções mais minuciosas. Aos curiosos que ousavam perguntar porque mantinha aquele museu do absurdo, respondia com um sorriso enviesado: — Porque o mundo já tem peças demais que servem para alguma coisa. Quando chovia, o cheiro do armazém misturava-se com o da terra molhada que vinha da rua. Era um perfume de ferrugem e de lembranças. O som da água, escorrendo pelos algerozes, dava ritmo à solidão do lugar. A sinfonia do ping-ping em dó maior desafinada preenchia a quietude do lugar. Protegida pelo avental quadriculado, de pano na mão, Irene limpava o balcão, vezes sem conta.
Após cada lambidela do tecido, a poeira apenas mudava de poiso. O marido, azafamado, catalogava mentalmente o que nem o tempo ousara nomear. Num dia choroso, quando o cinzento invadia a cidade, um menino bateu à porta. Chamava-se Bento. Tinha dez anos. As mãos pequenas traziam a urgência da infância e os olhos o espanto dos que ainda acreditam no que não veem. Tinha-se escapulido da mãe, que ficara à conversa com uma velha amiga na esquina. — Isto é uma loja? — perguntou, espanejando as pestanas. — É um armazém — respondeu Álvaro, sem levantar os olhos de uma listagem desatualizada. — Só vendemos coisas nenhumas. O garoto começou a explorar o espaço. Passou os dedos por um candeeiro com o interruptor para se acender quando alguém sonhava; folheou um livro cheio de páginas em branco; cheirou um frasco que guardava o último suspiro de um trovão. Riu-se de um ioiô-lombriga alongado sem reviravoltear. Demorou o olhar num relógio cujos ponteiros não acertavam o passo, o que os fazia andar para trás. — Mas para que raio serve tudo isto? Álvaro levantou-se devagar, qual personagem de um livro antigo. Olhou o menino nos olhos: — Rapaz, deixa-me contar-te um segredo: As coisas são coisas. — Pois, isso já toda a gente sabe. O que não acredito é que consiga vender essas tais coisas. — Só as compra quem precisa muito delas. Quando menos esperamos, fazem-nos falta. É uma necessidade que vem sem avisar e, enquanto não a satisfazemos, ficamos entristemudos por dentro. Bento franziu o cenho, tentando decifrar o sentido daquelas palavras. — Então, devem ser muito caras. — Custam quase nada. Apenas o preço que se lhes quiser dar. Para uns é grátis, para outros têm um valor demasiado alto. De qualquer modo, o pagamento raramente é feito em dinheiro. — Pois, o meu pai diz que o dinheiro vivo, mesmo verdadeiro, pode ser perigoso porque atrai os ladrões. Não há nada como o dinheiro de plástico, o dos cartões. — Não é bem assim. Pede ao teu pai que te explique melhor essa teoria. Aqui, nada é roubável. Se assim não fosse, já não existia este armazém, nem as recordações que coleciona.
— Eu acho que isto até é giro, mas não comprava nada do que aqui está. A não ser... Bento observava uma ampulheta que se destacava das restantes por ter as âmbulas distorcidas entre as quais os grãos de areia, exaustos, tinham desistido de se acotovelar. Estavam encravados. — A minha professora ia gostar dela. Coitada, anda tão chateada que talvez lhe achasse graça. Levava-a para casa e o tempo dela parava. Álvaro sorriu: “As crianças inventam coisas sonhaborosas”. — Já percebi que és curioso e bom observador. Tens olhos que ainda não desaprenderam de ver. Bento encolheu os ombros. Não percebia o que o homem queria dizer, nem mesmo se aquele local seria verdadeiro. — Tenho de ir. A minha mãe deve estar louca à minha procura. Álvaro assentiu, mas, antes que o menino saísse, estendeu-lhe a mão. — Espera. Se quiseres, podes levar uma coisa contigo. Escolhe a que mais te agradar. Bento voltou a perscrutar as prateleiras. Sorriu para o ioiô e para um pião que rodava na posição inversa. Avançou na linha das amostras. Decidido, apontou para a ampulheta. Álvaro aproximou-se: — Que bela escolha! Cheguei a pensar que irias optar por um brinquedo. — Estes são velhos. Só acho que são giros por serem diferentes. — As iludências aparudem — gracejou, rindo. O miúdo estava cada vez mais convicto da insanidade do homem. Até a falar andava de trás para a frente com as palavras. Devia ser de tanto trabalhar com esquisitices. Os adultos são complicados por natureza, mas, rodeados de quinquilharias escanifobéticas, pioram. Álvaro pegou no objeto-tempo com ambas as mãos e soprou suavemente sobre o vidro, aliviando-o da poeira da existência. — Leva. Não te vou cobrar nada, mas temos de fazer um acordo. O rapaz arregalou os olhos: — Como assim? Pode explicar melhor? Mas seja rápido. Estou com muita pressa. O homem aquiesceu, solene. Ajeitou os óculos na cana do nariz e disse, em jeito de desafio: — Para levares esta ampulheta, tens de deixar aqui outra coisa em troca. Não precisa de ser um
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objeto e, muito menos, dinheiro. Pode ser uma história, uma recordação, uma pergunta sem resposta. Algo que tenha valor só para ti. Bento coçou a cabeça, pensativo. Demorou alguns segundos, enchendo as bochechas. Depois, os olhos brilharam: — Posso deixar uma pergunta? — Claro. As perguntas são valiosas. Sobretudo, as mais inesperadas e as que ainda não têm dono. O menino respirou fundo e disse: — Posso não crescer? Por um instante, o armazém prendeu a respiração. Álvaro mostrou o sorriso mais aberto do que todos os anteriores. Foi até à secretária fatiada de gavetinhas que abriam de baixo para cima. Abriu a terceira a contar da esquerda. Tirou um papel amarelado, vincado em quatro partes. Escreveu a pergunta e o nome do rapaz com a sua letra miúda e irregular. Voltou a dobrar o papel e guardou-o num envelope. Aplicou o lacre rubro para que, até encontrar a reposta, não pudesse ser descerrado. — Pronto. Agora esta pergunta está guardada. Quem sabe, alguém, um dia, a venha buscar como resposta. — E como é que vai saber onde encontrá-la? — Sem querer. Quando já não esperar, chegará à minha porta para a resgatar. Bento, confuso, segurou a ampulheta com cuidado. O homem das coisas nenhumas acompanhou-o à saída. — Cuida bem dela. E repara se o tempo continua parado, ou se só anda quando alguém está a sorrir. Bento acenou e saiu em passo apressado. Por um instante, o armazém pareceu suspenso. Depois, Irene apareceu atrás do balcão ainda com o pano de pó na mão. — Deixaste-o ir com a ampulheta? Não achas que é muita responsabilidade para uma criança? Álvaro respondeu, enquanto olhava pela porta entreaberta: — Deixei. Porque, às vezes, o tempo precisa de mudar de mãos. Três semanas depois o nevoeiro voltou à cidade. Dessa vez, denso, quase opaco. A circulação automóvel foi interditada. As pessoas andavam devagar, tateando o caminho com os pés. Clara, solitária, avançava junto às paredes dos edifícios. Há quase um ano que deixara de sonhar quer de noite, quer
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Ana Paula Miranda
de dia. O seu mundo embranquecera sem imagens, nem pressentimentos. Desde o acidente, o tempo corria-lhe torto: avançava, recuava ou parava por capricho. As horas despedaçavam-se sem ligação. Os médicos falavam de trauma, de stress, de “perturbação episódica da perceção temporal”. Mas ela sentia que lhe faltava qualquer coisa que perdera entre as batidas do coração. Não sabia se caminhava na via certa. Contudo, pressentia que não era a que a levaria a casa. Parou diante de uma parede coberta de heras. Ao passar a mão pelas folhas, sentiu algo áspero. Era um pedaço de madeira quase invisível. O nevoeiro, aos poucos, aliviou a atmosfera, permitindo discernir um letreiro: “Aberto para quem ainda precisa.” A mulher franziu o sobrolho. Pressionou a placa. Uma porta camuflada espreitou pela folhagem. Empurrou-a. Cedeu com um suspiro de madeira cansada. O ar emanava um cheiro metálico e de tarde parada. Nenhum ruído. Apenas o rumor de relógios que desistiram de acertar o tempo. Estendia-se diante dela um balcão de madeira brilhante. Uma lupa pendia do teto. Encostadas às paredes, estantes repletas de uma imensa variedade de tudo e de nada. E ali estava um homem de óculos grossos e ar distraído. Álvaro levantou os olhos e sorriu com a serenidade de quem já a aguardava. — Boa tarde, Clara — cumprimentou, mesmo sem lhe ter perguntado o nome. Ela não estranhou. Nada ali parecia disposto a ser lógico. — Não sei como vim parar aqui. — Ninguém chega aqui, por acaso — respondeu Álvaro. — O tempo traz quem anda perdido dele. A mulher sentiu-se puxada para uma prateleira no centro do armazém, onde repousava uma ampulheta. Era como as outras e, ao mesmo tempo, igual a nenhuma: metade da areia dormia no fundo; a outra metade pairava no topo. Um grão solitário rodopiava no vazio. Clara aproximou-se, sentindo que algo de diferente se mexia dentro de si. Por um instante, julgou ouvir uma vozinha muito aguda, repetindo: “Depende do que se entende por crescer.” Estremeceu. A pele engalinhou-se. Os olhos arregalaram-se para de seguida se encherem de uma ternura súbita, daquelas que chegam sem aviso, nem
licença, não vá dar-se o caso de serem flanqueadas à chegada pela razão. Pegou na ampulheta e soprou a poeira do topo. Os grãos, obedientes, começaram a levitar. Primeiro, lentamente; depois, com alguma urgência, estremunhados de um sono muito longo. Nesse instante, a porta atrás de si fechou-se, por vontade própria, em surdina. Uma gaveta abriu-se com cautela. Lá de dentro, um envelope antigo, lacrado-vermelho, deslizou até à borda. Na frente, escrito em letra miúda e irregular, lia-se: “Bento.” A mulher pousou a ampulheta. Leu o nome em silêncio. E, embora não o reconhecesse, sentiu uma familiaridade quente percorrer-lhe os dedos. Os ponteiros do relógio invertido começaram a tiquetaquetar. Devagar. Agora no sentido certo. — Isto… é para mim? — perguntou, sem compreender. — As respostas encontram os seus donos muito depois de as perguntas terem sido feitas — informou o armazenista. — Às vezes, até mudam de destino. Ao tocar no envelope, sentiu dentro de si uma espécie de pulsação leve. O início de um sonho.
— E… o que devo deixar em troca? — Álvaro inclinou a cabeça. — O que for teu e estiver a ocupar demasiado espaço. Estranhamente determinada, Clara pousou sobre o balcão o relógio que trazia desde o acidente cujo ponteiro dos segundos avançava quando ela estava parada…e parava quando ela tentava avançar. O dono do armazém tocou no objeto com respeito. — O tempo agradece — disse apenas. A ampulheta começou a deixar cair os grãos. Não todos, apenas o suficiente para marcar um ritmo coerente. As várias ampulhetas dispersas, ávidas de épocas estagnadas, jorraram tempestades de areia fina. Clara respirou fundo. Sentiu o fluir de um pensamento: o caminho de regresso a casa no aconchego de crescer e sonhar. Mais tarde, quem passou por ali jurou ter visto, por um instante, um menino de uns dez anos a correr sob a luz pálida, com as mãos abertas, a soltar no ar as molas que prendem o tempo.
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PER FICTA, RESISTERE UM DIA FUI UM GUARDA-CHUVA
C
ANA RITA B. NOVAIS
onheci muita gente estranha nos meus sessenta anos de vida, mas nenhuma tão particular como Manuel Guilherme Lopes da Costa. Ainda hoje me pergunto quem seria eu se não o tivesse conhecido. Olho em redor na minha casa. O cinzeiro redondo de vidros coloridos não seria um cinzeiro. Decerto já não teria um relógio cuco pendurado na parede. O que estaria guardado na gaveta dos fantoches? Estaria ainda nesta casa? Como seriam os meus panos de pó? Ao limpar a mesa, sem o velho trapo que um dia fora a camisola preferida do meu marido, recordaria ainda aquela queda no salão de baile, e rir-me-ia sozinha em casa? Sentiria este calor que me faz companhia, mesmo estando a sós? Recordar-me-ia, com um sorriso, de instantes banais que preenchem o meu passado com amor, amizade, empatia e felicidade? Devo a Manuel Guilherme Lopes da Costa o que sou hoje. Conheci-o num dia chuvoso, na paragem de autocarro da Rua de Mouzinho da Silveira. Recordo-me do desconforto. Dos cabelos, escorria água fria pelas costas, enquanto batalhava para fechar o maldito guarda-chuva, para que coubesse no cesto do lixo. — Importa-se que fique com ele? — Foram as primeiras palavras que o ouvi dizer. Era uma voz calma, completa. O rosto acompanhava a voz. Tive a sensação de que nada pudesse abalar aquele homem. Ainda hoje, não consigo explicar exatamente o que foi. Se os movimentos sem pressa, se a tranquilidade do momento, se algo mais no seu olhar me dizia que aquele homem não tinha nada que temesse perder, nem nada que desejasse alcançar. Não era alguém sem vontade de viver, era uma presença de quem é feliz com o agora, com todos os agoras e que sempre o seria. As lágrimas pararam de escorrer no mesmo instante em que vi o rosto dele. Não havia razão para estar
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Palavrar | Número 10
«O que estaria guardado na gaveta dos fantoches? Estaria ainda nesta casa? Como seriam os meus panos de pó? Ao limpar a mesa, sem o velho trapo que um dia fora a camisola preferida do meu marido, recordaria ainda aquela queda no salão de baile, e rirme-ia sozinha em casa? Sentiria este calor que me faz companhia, mesmo estando a sós?»
com tanta raiva de um objeto. Continuei com o guarda-chuva na mão a olhar para ele. Ele continuou de sorriso no rosto a olhar para mim. O autocarro passou. Continuámos na mesma posição. Não me voltou a pedir, não disse mais nada. Mas não desistiu. Apenas esperou por uma resposta. — Quer o guarda-chuva?
Manuel Guilherme anuiu. — Está todo estragado, não protege de chuva nenhuma. Manuel Guilherme anuiu de novo. — É inútil. Para que o quer? — Gosto de adotar objetos abandonados. A expressão, os gestos, a voz. Completo. Um homem completo. E, por um momento, não quis dar o meu guarda-chuva inútil. Era meu. Meio enfiado no cesto do lixo, mas era meu. O facto de alguém o querer fê-lo mais valioso. — E o que vai fazer com ele? — Encontrar-lhe um novo propósito e, por fim, um novo nome. O sorriso alargou-se. E a minha pega afrouxou. Esperou, e esperou ainda. Senti-me cada vez menos inchada, mais leve. Tento fazer o mesmo pelos outros quando posso, dar tempo, um dos presentes mais valiosos para oferecer. Não me recordo bem quantos minutos passaram e o que nos fez percorrer os dez passos que nos separavam do banco, mas sei que a certa altura nos sentámos, eu ainda com o guarda-chuva meio aberto nas mãos. Pedi para me explicar melhor o que fazia, como o fazia. — Cada objeto leva o seu tempo — explicou. — Tenho ainda alguns em casa, para lhes redescobrir a utilidade. Não se deve apressar a reconstrução, senão caímos no erro de nos sentirmos de novo inúteis. — Os objetos caem no erro, é isso que entende dizer? — Tem importância? Como não respondi, ele não prosseguiu. — E por quê? Para quê encontrar uma nova finalidade? — Não finalidade, recomeço, para a maioria não será o fim. Quando um objeto nasce, nasce de algo. A maioria nasce de vários componentes até, vários objetos, materiais e mesmo de mãos humanas. — Alguns são feitos em máquinas. — Com uma mão humana que clica num botão. — Pode ser um comando de voz — insisti. — Uma voz humana. — Um dia talvez não. — Será sempre ao menos de uma ideia humana, mesmo que reutilizada, terá sempre nascido do tempo humano. Por isso, um pedaço da humanidade está em cada objeto.
«Não me recordo bem quantos minutos passaram e o que nos fez percorrer os dez passos que nos separavam do banco, mas sei que a certa altura nos sentámos, eu ainda com o guarda-chuva meio aberto nas mãos. Pedi para me explicar melhor o que fazia, como o fazia.»
Pensar aos objetos daquele modo foi um choque. Fiquei calada, agarrada ao meu guarda-chuva. — E o tempo que decorreu com cada humano transforma-os. — E acabam por se estragar — conclui. — Não são orgânicos, não têm prazo de validade. — Mas não podem exercer a função para o qual foram construídos. — Não quer dizer que não possam descobrir uma nova função. — E o que poderia fazer um guarda-chuva que não nos guarda da chuva?
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PER FICTA, RESISTERE | UM DIA FUI UM GUARDA-CHUVA
— Ora, nada. Não seria um guarda-chuva, teria de ter um novo nome, um novo propósito. Continuei agarrada, até com mais força, ao meu guarda-chuva inútil. Acreditava não estar preparada para me separar dele. Das conversas abrigadas por ele. Das luvas às riscas verdes e laranjas que o seguravam no quinto ano. Das corridas ao café para o recuperar quando saía sem ele. Do velhinho que acompanhei do supermercado a casa, já nem me
«Quando chego à moradia, ainda antes de conhecer o meu novo objeto, encontro um presente inesperado. Todos os herdeiros têm um. Um quadro criado com restos do nosso objeto, que imortaliza o momento em que Manuel Guilherme o conheceu. Observo a miniatura de guarda-chuva azulesverdeado, com uma das pontas da vareta a fazer de pega, meio destruído, num cesto de lixo.»
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Palavrar | Número 10
Ana Rita B. Novais
lembrava disso. Mas o que faria de um guarda-chuva estragado? Se fosse um colar, ao menos poderia guardá-lo numa caixinha. — E se lhe der, como poderei saber o que foi feito dele? — Se quiser, tudo o que ele for, após a minha morte, será seu. Olhei para ele. Teria vinte anos mais do que eu. Horrível fazer conta aos dias que restam a uma pessoa, logo no dia em que a conhecemos. Estava para o deitar fora. O que tinha a perder? Afrouxei a pega e entreguei-lhe o guarda-chuva. Ele apontou os meus contactos e garantiu-me que receberia uma carta quando o dia chegasse. Impressionante como me esqueci dele. Não que o desconhecesse, se alguém o mencionasse, mas deixou de habitar o meu pensamento, mesmo que toda a minha existência hoje se deva muito àquele dia. Mas ele não se esqueceu. Como prometeu, deixou-me o meu velho guarda-chuva. Esta carta que hoje seguro foi imprevista. Como será o mundo, agora que se foi? Quem poderá nomear e reinventar objetos inúteis? O mundo precisava de um Manuel Guilherme Lopes da Costa. Dirijo-me à morada na carta: Avenida de Montevideu. Na Foz do Douro, mesmo em frente ao mar. Tento imaginar como será a casa de uma pessoa como ele e o que poderei ter herdado. Não sei o que esperar. Quando chego à moradia, ainda antes de conhecer o meu novo objeto, encontro um presente inesperado. Todos os herdeiros têm um. Um quadro criado com restos do nosso objeto, que imortaliza o momento em que Manuel Guilherme o conheceu. Observo a miniatura de guarda-chuva azul-esverdeado, com uma das pontas da vareta a fazer de pega, meio destruído, num cesto de lixo. Na moldura escreveu “Um Dia Fui Um Guarda-chuva”. Mais do que os objetos, o que me impressiona é a quantidade de pessoas que aqui se encontram, todas tocadas pelo trabalho dele. Algumas cujas vidas mudaram mais do que a minha e outras menos, mas estamos aqui para recuperar um objeto antigo, repleto de memórias, um objeto que hoje não conhecemos. Mais do que tudo, estamos aqui para levar connosco um pedacinho de Manuel Guilherme Lopes da Costa.
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PER FICTA, RESISTERE O CATA-BEATAS
H
ANA SOFIA DE BRITO
avia dias que não se notava o rebolar das pedras encosta abaixo, e o charco desanimado no sopé do monte entristecia-se do abandono. O último pinheiro, sobrado da ganância das chamas por milagre, parecia espiar o escasso resto de água lá em baixo e chorar lágrimas de resina casca afora. Dois chapins-reais nostalgiavam o resto do bando através de melodias sofridas — ecoadas e escoadas pelo manto de fumo, pó e cinzas que tudo cobria até aos confins da paisagem. O Cata-Beatas — filho de uma pedra com um charco — fumava sentado no pial da Taberna onde os outros homens — filhos de homens com mulheres — se argumentavam à desgarrada nas causas e efeitos dos fogos postos e dispostos na serra. Era por mor do dinheiro que valia a madeira queimada, diziam uns. Vinganças por mor de partilhas mal calculadas, diziam outros. Outros ainda achavam que tinha sido a ocorrência de vários descuidos com máquinas fagulhentas, tratores e até, muito provavelmente, beatas mal apagadas jogadas ao vento. Os homens, lá dentro, esgotavam o bagaço dos copos para se esgotarem no desgosto do desmoronamento do trabalho de uma vida inteira. Quem mais falasse de rijo mais validava o desespero, quem mais prometesse matar políticos mais aliados fazia, quem mais chorasse de mão na testa mais se assemelhava ao agonizado — copo batido, bagaço bebido, abalo temido, peito sentido, arrojo trazido. O Cata-Beatas fumava e bebia como os outros homens, mas não argumentava. A argumentação dele era toda um silêncio guardado dentro da boca. Sempre foi. Lembro-me, na escola — na primária, quando fomos colegas — nem à professora respondia. Tudo o que libertava da clausura da oratória era a convicção de ser filho de uma pedra e de um charco. Dizia-o poucas vezes, mas eu cheguei a ouvir, palavra de honra. Nunca entendi bem se o rapaz
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Palavrar | Número 10
«O Cata-Beatas fumava e bebia como os outros homens, mas não argumentava.»
metaforizava ou literalizava. Tudo o que soube sobre ele foi através da minha avó — o Cata era adotado e vivia com a dona Ester-Beata no anexo da sacristia. Dali a umas horas, já os fumos haviam amainado nos ares, decidi subir o morro para espreitar a desgraça. Passei à porta da Taberna e lá estava o Cata-Beatas, chorava sem lágrimas, de olhos distantes e impestanejantes, sem expressão, mas todo impressão. O peito espremido até à dispneia pelas ideias da cabeça a imaginar os chapins, os peneireiros, os pica-paus, os carunchos, as formigas, as vespas, as lagartas, os lagartos, as cobras e os ouriços todos carbonizados. Ou feridos e sem auxílio nem abrigo. Ó Cata, Perguntei eu, sem esperar palavras em troca, A tua cabana salvou-se. Não largou os olhos do chão — ignorava as pessoas, ignorava sempre as pessoas — como se não me ouvisse, ou não me ouvindo mesmo, deu o último bafo na ponta sumida do Ventil e largou-a na deformidade da calçada para apagá-la com o resto de sola que lhe sobrava na bota acamurçada. Havia anos que ele vivia entre a arrecadaçãozinha exterior da Taberna — que o Tó lhe cedera como dormitório — e um género de cabana que construíra na fazenda do Nélson, à extrema do monte. Passava os dias inteiros no mato a voar entre os pássaros e só vinha para a Taberna depois de o céu escurecer —aprendeu com os mestres da melodia e é o
melhor assobiador do mundo, um comunicador exímio no que respeita à linguagem do assobio. Por alturas do pós-incêndio, de noite eu espreitava e via-o de garrafa na mão a olhar impestanejantemente para a lenha em brasa na salamandra do abrigo. O Cata havia de estar a pensar em como é que os homens – filhos de homens com mulheres — conseguem transformar milagres em calamidades. O fogo – elemento sagrado e imprescindível ao coração do universo — arremetido na condenação dos paraísos a infernos. Sim, devia ser nisso que o Cata pensava, Que poder maléfico é esse que lhes é concedido em abono da destruição? De manhã, quando eu voltava a espreitar, lá estava ele, sentado nas telhas do curral desativado, com a sua impestanejância posta na curva negra do monte que a aurora ruiva vinha acentuar. Devia ter muitas saudades do seu espaço, o pobre Cata. Abalou poucos dias depois, o Chico Carpinteiro fez-lhe nova cabana num instante, tão minimalista quanto a de antes e exatamente no mesmo sítio. *** Faz tempo que o bosque ardeu pela última vez, os bichos e os arbustos teimam em se reafirmar, mas a demora teima em envelhecer a gente, é um braço de ferro ingrato para quem pertence a uma espécie com baixa esperança média de vida. Os anos que o mato leva a florescer não voltam para trás. As figueiras, as oliveiras e as amendoeiras não se regem pelos círculos dos ponteiros nem pelo folhear do calendário. Todas as tardes vejo o Cata sentado no pial da Taberna — há trinta anos que nos cruzamos amiúde —, ponho-lhe a mão no ombro ao passar e pergunto como vai a bicharada do bosque. Não espero respostas em troca de perguntas, nunca. O Cata é a única pessoa com quem falo sozinho sem reticências nem vontade de desistência. O silêncio do Cata é uma palestra espiritual para mim, vale mais do que o discurso versado de mil génios. O Cata é filho de uma pedra e de um charco. O Cata é um epostracismo a saltitar pelas ruas da vila, uma ondulação concêntrica a reverberar nos corações dos aldeãos, uma onomatopeia de amor a ressoar nos ouvidos da mata. Quando os homens — filhos de outros homens — derem cabo do mundo, no derradeiro exercício da função, e a terra nos engolir a todos na vala comum definitiva, será que os filhos das pedras e dos charcos serão salvos? Será Gaia capaz de, nessa hora, contrapor às leis humanas e fincar pé na justiça divina por uma absolvição meritória? É que o Cata-Beatas não merece pagar por nós, pecadores.
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PER FICTA, RESISTERE OS CICLOS DA LUA
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CARLA
CARMONA
nquanto tiravam fotografias, Manuel manteve-se encostado à parede. Mãos nos bolsos, óculos escuros que lhe permitiam observar sem que os outros se apercebessem. Parecia estar a ver uma peça de teatro, cuja personagem principal foi colocada numa posição estranha e tudo ao seu redor tanto aparenta encaixar como, ao mesmo tempo, é estranho. Dali, conseguia ver a tatuagem, o número 14. A distância impedia-o de perceber como fora feita, no entanto, lá estava ela. — Inspector, já fotografamos e recolhemos as evidências, pode prosseguir com a sua análise. Dirigindo-se ao corpo, pôde comprovar que os caixotes de papelão acumulados nas traseiras do armazém eram ideais para o ocultar dos olhos de quem por ali passasse. Era uma mulher jovem. As duas outras vítimas haviam sido homens, um com vinte e oito e outro com quarenta e dois. Qual seria a sua idade? Tal como nos outros, o 14 estava impresso na pele. Terá também sido marcada ainda em vida? Só o relatório da autópsia irá responder a estas questões. Nunca apresentavam qualquer desvio na pele. Provavelmente drogados, sem possibilidade de locomoção. Precisava de confirmar, mas tinha uma sensação de que aquela vítima também perecera no período entre a lua crescente e a minguante, como o primeiro. O segundo acontecera entre a lua cheia e a nova, em ambos os casos era um ciclo de catorze dias. Manteve-se de cócoras, ao lado do cadáver, olhos perspicazes à procura de tudo o que pudesse ajudar a elaborar o perfil. As roupas pareciam não lhe servir. Ela era elegante, mas quanto tempo teria sido necessário para a roupa lhe ficar tão larga dando a impressão de não ser dela? Ou não era mesmo dela? E nesse caso de quem seria? Outra vítima? Fechou os olhos e respirou fundo. Nunca era produtivo ir por aí.
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Palavrar | Número 10
«Era uma mulher jovem. As duas outras vítimas haviam sido homens, um com vinte e oito e outro com quarenta e dois.»
A forma como ela estava era uma pose. Fora ali colocada para causar impacto. Cabelos castanhos, longos, espalhados à volta da cabeça, como se estivesse repousada numa almofada. O braço direito fletido com a mão encostada ao rosto, inclinado para os dedos. As pernas esticadas e o tornozelo esquerdo a sobrepor-se ao direito, o esquerdo esticado, na diagonal. O outro braço ao comprimento do tronco, com a mão repousada um pouco abaixo da cintura. Manuel levanta-se, dá dois passos atrás e percebe: ela estava colocada como se esperasse o amante, deitada numa cama, em posição sensual. — Posso assegurar-lhe que nenhum dos outros corpos foi encontrado daquela forma. Os outros foram descartados, o terceiro corpo está posicionado. É uma declaração. Só não se sabia o que significava. O fumo do cigarro vai traçando o seu bailado enquanto sobe juntando-se ao fumo dos anteriores. A sala é pequena e a janela de correr tem uma pequena abertura, insuficiente para limpar o ar. O olhar do inspector está no passado, a reviver perguntas sem resposta. — Mas conseguiram prendê-lo, foi uma vitória. Calmamente, volta ao presente, faz um movimento com os lábios sem estes conseguirem formar um sorriso.
— É verdade, prendemo-lo. As famílias das vítimas puderam assistir ao julgamento, condenação e encarceramento, só ficou por saber o porquê. O não saber, não compreender, pode ser tão devastador como a perda. Esmaga o cigarro no cinzeiro como se esse acto pudesse banir as assombrações. — Aguardamos um novo ciclo de catorze dias, num misto de esperança por um novo homicídio, para se conseguir pistas e prender o culpado, e a inexistência de um crime. — Os registos indicam que não houve. Manuel aspira um novo cigarro, expele o fumo com lentidão. — Passaram-se cinco ciclos de catorze dias, aconteceu entre a lua cheia e a nova. Em dois meses ocorreram outros crimes, novas pistas a serem seguidas, não caiu no esquecimento, mas na minha torre de processos foi ficando cada vez mais em baixo, sem nada que o fizesse escalar o monte de papelada. Até ter aparecido outro corpo. — Outra mulher, certo? — Sim. A outra tinha vinte e oito anos, esta tinha quarenta e dois. — Como nos dois primeiros homicídios, o primeiro homem tinha vinte e oito anos e o segundo quarenta e dois. A que conclusões chegaram? — Era difícil traçar-lhe um perfil. Inteligente, pois não havia nada nos locais dos crimes que pudéssemos usar para o identificar. Seria forte, ou teria muitos recursos, para poder manipular as vítimas. Como as escolhia era uma incógnita, até porque não havia relação entre elas que nos desse indícios.
— Os registos mostram que foi com um pedaço de pele, na cena do crime do último homicídio, que o conseguiram apanhar. — Certo. Fiquei sempre com a dúvida. Tinha conseguido cometer três crimes sem deixar vestígios e no quarto fere-se, não se apercebe, e o seu ADN trama-o. Nunca respondeu a nada. Confessou os assassinatos, sabia como tinham sido perpetuados, no entanto ficou, muito por responder. O porquê dos ciclos da lua? E a obsessão pelo 14? Porque o tatuava, antes de os matar? — Acha que prenderam o homem errado? — Todas as provas o indicavam como sendo o criminoso. — Mas, acha… — Não tenho opinião, cinjo-me às provas. Quer um conselho, senhor jornalista? Foque o seu trabalho em quem eram as pessoas que foram assassinadas, cuja vida foi ceifada por razões anti-natura. É inútil ficarmos a pensar em todas as perguntas que ficaram por responder. Para as famílias, que utilidade existe em remexer no caso e falar do criminoso? Enalteça, fale e deixe na memória os que, sem escolha, foram apagados. — Agradeço-lhe o seu tempo e amabilidade de ter falado comigo, inspector. Saúde. Manuel sorri-lhe nas costas. Saúde… essa já o abandonara.
A pedido da Autora, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
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PER FICTA, RESISTERE O MUDO
FILIPA
TEIXEIRA VICENTE
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ra uma vez… perdão, era uma voz, como defende Afonso Cruz. Segundo o autor, todas as histórias deveriam começar pela segunda forma, porque quem as conta tem voz própria, muito sua, singular. A minha voz não fazia barulho. Nasci mudo. As nuvens engoliram o som quando nasci. Não chorei. Aquelas formas brancas de água condensada choraram por mim numa chuva de inundar a vila. O amigo trovão apareceu no momento em que elas se beijaram e, assim, nasceu a voz dos céus, não a minha. Mesmo na ausência das palavras, eu era um miúdo feliz. Brincava ao pião, saltava à corda com as meninas, jogava ao berlinde e às cartas nas tardes de verão, com os rapazes. A esplanada do Ti’ Toino costumava estar cheia de gente a falar alegremente. Havia homens já embebidos no bagaço da garrafa que pendia de uma mão, enquanto a outra segurava as cartas. Atira um valete, corta a dama, ganha cinco pontos. Aprendia com eles, vendo-os na eufórica jogatana do “bate carta na mesa”, como jogava com as outras crianças, quando as havia. Barulhenta e agitada, com vinho a saltar de mesa em mesa e bebidas gaseificadas com sabor a laranja, a taberna era a minha segunda casa. Ali, sentia-me bem, o barulho não saía de mim, nascia na boca dos outros. Nem todos os homens agitavam a taberna e, além disso, havia horas mortas. Era assim que lhes chamava a Ti’ Berta, mulher do Ti’ Toino. Ela falava muito comigo e, embora não obtivesse resposta, a não ser um aceno de cabeça, continuava, como se houvesse um diálogo gostoso entre nós. Percebi o que “horas mortas” significava ao fim de uma semana. A taberna hibernava ao princípio da tarde. Todas as vozes grossas e efusivas dos homens evaporavam-se, porque eles não estavam ali. Estariam a trabalhar.
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Palavrar | Número 10
«Mesmo na ausência das palavras, eu era um miúdo feliz. Brincava ao pião, saltava à corda com as meninas, jogava ao berlinde e às cartas nas tardes de verão, com os rapazes.»
Como dizia, nem todos agitavam a taberna. Lá num canto, sentado numa cadeira invisível, vivia um senhor. Nunca tinha reparado nele, mas as “horas mortas” mostraram-mo, finalmente. Calvo, fino como um espeto, envergava sempre o mesmo fato cinzento. Engolido dentro da roupa elegante, por ser demasiado larga. Das mangas compridas, surgiam duas mãos esqueléticas, dedos longos e unhas limpas. O homem era um armário, estanque, imóvel. Porém, as mãos chamaram a minha atenção. Pousadas sobre os joelhos, com os dedos enlaçados, como se uma mão se desse à outra. Os polegares, os únicos irrequietos, brincavam um com o outro, em movimentos circulares. Tal como uma roldana, um polegar rodava sobre o outro e vice-versa, ininterruptamente. Vivia naquela cadeira noite e dia, enquanto a taberna estivesse aberta. O olhar, fixo nas duas mãos longilíneas, era intrigante e o fulano, desconcertante.
Confesso que andei semanas a pensar naquilo. Não era normal. Teria o senhor algum problema na cabeça? Seria louco? Não tinha como perguntar. O trovão tinha tomado a minha voz à nascença e eu seria para sempre “o mudo”. Sim, é verdade, tinha a minha forma de comunicar. Uma forma gestual rudimentar. Na maior parte das vezes, funcionava. Porém, não era somente a falta de som da minha garganta que me impedia de interpelar o velho homem. Talvez tivesse receio por ele ser tão estranho e taciturno. Tornei a ir à taberna quantas vezes me apeteceu. «Huguinho, andas sempre ali metido. Vai para a rua. Vai brincar com os outros meninos». Dizia-me a minha mãe, com doçura maternal e preocupação nas entrelinhas. Não me convenceu. Transformei-me num cliente assíduo e arranjava sempre uns tostões, quanto mais não fosse para uma pastilha elástica, para poder sentar-me a ver o careca. Mas a coragem, metia-a num saco. No mesmo saco onde levava o meu primeiro baralho de cartas, comprado com o dinheiro que ganhei a engraxar sapatos com o meu pai. Lá ficava ela metida, tímida, acanhada, mas irrequieta. O saco parecia saltar sob a minha mão, que nele pousava. Descobri o motivo: com a coragem veio a sua irmã mais nova, a curiosidade. A mais nova espicaçava a mais velha para esta ir falar com o careca. Era tão insistente e mexerica, que naquela sexta-feira acabou por convencê-la. Abeirei-me do velhote. Naquele início de tarde, os polegares estavam frenéticos. Sentei-me na mesa ao lado e observei-o de soslaio. Não reparou em mim ou, se me viu, ignorou-me. De repente, a minha sacola parou de se mexer por si mesma. Espreitei para dentro dela. Vi que a timidez tinha mandado calar a curiosidade, que, por sua vez, deixou de atazanar o juízo da coragem. Vim-me embora de mãos a abanar, a minha tentativa foi debalde. Na vila morava o Sr. Isaltino. Tinha noventa e um anos, estava perfeitamente lúcido e vivia sozinho. Chamavam-lhe sábio porque, além de saber de todas as coisas, era curandeiro, endireita e vidente. Tive a brilhante ideia de lhe perguntar sobre o careca. Talvez ele, que tinha tantos anos quantos os da igreja da vila, soubesse explicar o bizarro comportamento daquele velho da tasca. Subi o escadório íngreme, de degraus tão imperfeitos quanto escorregadios, que dava até ao cume da colina onde ficava a minha vila. Era lá que o senhor
Isaltino morava. Surgiu antes de eu bater à porta da pequena casa, modesta, feita de pedra. Trazia boina de xadrez virada ao lado, calças gastas pelo tempo, camisa aberta até a meio do peito e olhos embaciados por baixo de um par de óculos com lentes tão sujas quanto o chão de terra. Um bloco de notas por baixo do braço. Mostrei-lhe os dentes. Ele sorriu de volta. «Ó rapaz, estava à tua espera». Boquiaberto, fiz que sim com a cabeça. Tinha a capacidade de me surpreender sempre, apesar de ser um hábito ir ter com ele mensalmente e de já saber que adivinhava as coisas. «O que te traz por cá?» Ora essa! Se era adivinho, deveria saber o motivo da minha visita ou aquela pergunta seria retórica? Mandou-me sentar ali mesmo, no degrau da soleira da porta, onde o sol amigo nos beijava a pele com ternura. Ambos gostávamos de sol. Sentou-se, muito devagar, numa cadeira de verga, ao meu lado.
«Não reparou em mim ou, se me viu, ignorou-me. De repente, a minha sacola parou de se mexer por si mesma. Espreitei para dentro dela. Vi que a timidez tinha mandado calar a curiosidade, que, por sua vez, deixou de atazanar o juízo da coragem.»
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PER FICTA, RESISTERE | O MUDO
Já tinha entrado na casa dele. Não era uma casa. Era o caos in persona. Livros espalhados pelo chão da entrada, uns abertos, outros fechados e ainda outros amontoados; velas usadas, com o pavio negro, umas compridas, algumas curtas e outras apenas uns tocos; copos de vidro na mesa, nos parapeitos das janelas, no chão ao pé da lareira, uns vazios e outros meio cheios de um líquido qualquer; cinco espelhos fixados nas paredes, um de corpo inteiro, um feito em pedaços e os outros três perfilados na primeira parede, de frente para a porta de entrada; e quadros, todos os géneros de telas e pinturas, algumas de pintores conhecidos, outras nem por isso, mas quase todas desalinhadas do perfil do chão e do teto. Não fiquei triste por não ter entrado. Ali, na parte de fora de casa, estava-se melhor. Mesmo sendo adivinho, obrigou-me a escrever sobre o que eu queria saber. Entregou-me o bloco de notas e o lápis, que tirou da parte de cima da orelha, onde o tinha enfiado. Escrevi: Quem é aquele careca que está na taberna do Ti’ Toino, sem fazer nada, num canto? Encolheu os ombros. Insisti: Porque é que ele está sempre a mexer assim os polegares? Perguntei, enquanto lhe
«Levantei-me de sobressalto e sei que o som não saiu bem, as palavras soaram imperfeitas, um balbucio, mas perguntei: «Porque está sempre a fazer assim com as mãos? Só sabe fazer assim?» Eu, o mudo, falei. »
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Palavrar | Número 10
Filipa Teixeira Vicente
mostrava o gesto circular dos polegares com os outros dedos enlaçados entre si. «É um néscio!» Respondeu, secamente. O que é um néscio? Perguntei, curioso. Encolheu os ombros. Pela primeira vez, vinha de casa do senhor Isaltino, sem resposta. Ou melhor, resposta tive, mas não que me satisfizesse. Como não sou de desistir, ao jantar, perguntei à minha mãe, com o auxílio da escrita, uma vez que desconhecia a palavra néscio e por isso, não conseguia convertê-la em gestos. A minha mãe só me respondeu com outra pergunta: «Néscio?» Ela também não sabia. Então falei-lhe no velho careca e nos hábitos obsessivo-compulsivos dos dois polegares. Perguntei-lhe: Quem é ele? «Ah, esse! Um inútil, meu filho, um perfeito inútil.» Mas porque faz ele aquilo constantemente? escrevi. A resposta foi curta e grossa: «Porque é um inútil, não trabalha como a gente». Mas não pode trabalhar? Tem algum problema? De novo o enfadonho encolher dos ombros, igual ao do senhor Isaltino. Na semana seguinte falei com a coragem e convidei-a para vir comigo no bolso. Ela aceitou de bom grado. Tinha de esclarecer aquilo de uma vez por todas, naquele dia. Às duas da tarde, entrei na taberna, aproximei-me de mansinho e sentei-me mesmo ao lado do careca misterioso. Levava comigo o meu caderno e caneta e escrevi: Porque está sempre a fazer assim com as mãos? Pousei a caneta e o caderno e imitei-o. A Ti’ Berta, que nos observava do balcão, manifestou-se. «Ele não sabe ler, Hugo.» Esmoreci, encolhi os ombros e olhei para o chão por mais minutos do que aqueles que um quarto de hora contém. Levantei-me de sobressalto e sei que o som não saiu bem, as palavras soaram imperfeitas, um balbucio, mas perguntei: «Porque está sempre a fazer assim com as mãos? Só sabe fazer assim?» Eu, o mudo, falei. Foi num som arrastado, pouco nítido e aos tropeções, mas falei, pela primeira vez. Respondeu-me prontamente: «Não, também sei fazer assim». As mãos continuaram em cima dos joelhos, entrelaçadas, mas os polegares giravam agora no sentido contrário.
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PER FICTA, RESISTERE AS TRÊS ROSAS
ISA
SILVA
(I)
Olhei para a rosa repousada na minha mão. A cor escarlate parecia arder em cada dedo e, no entanto, sentia um profundo aconchegar que me tranquilizava. Sabia que cada pétala era importante. Cada camada fortificava aquela flor, abraçava-a ternamente. Acima de tudo, faziam parte do crescimento. Peças de um desenho subtil que admirava naquele instante. Esta fascinação por tudo faz parte de mim. Sou mesmo assim. Vejo sempre o lado positivo e nunca desisto. Eu sei. Eu sei. Por vezes é irritante, muitos amigos o dizem. Só a morte suavizaria esta minha tendência. Caminhava sem pressas por aquele jardim. Conheço muito bem cada recanto, cada caminho, e isso veste-me de segurança. Sou eterna, confio e sigo o Tempo. Acredito que nunca devemos desistir de aceitar. Nem que o Tempo seja implacável. Esta é a maior utilidade do que sou. Desafio-o, porém, respeito-o. Do que é feita a eterna espera? Será de pedaços de nós, ambulantes, numa vida em que procuramos um significado? Porque analisamos tão incessantemente uma justificativa, uma explicação. Relembro que informar nem sempre é explicar. Por vezes fica tanto, mas tanto por dizer. Esse oculto não será a essência da espera? Não será a espera um conjunto de coincidências que aguardam ordens? Porque esperamos, perguntam-me tantas vezes. Queria ter uma resposta, mas tenho inúmeras que me baralho e, no final, apenas respondo: o desejo de controlar o destino. Desejamos que faça exactamente o que queremos, esta prepotência tão vincada no Ser Humano. E eu vivo disso. Cada instante, cada momento, cada altura, cada ápice. Sem isso, não sobrevivo. Preciso de estar num determinado lugar a uma certa hora e, até esse momento, não faço ideia do que se trata. Contudo, estou esperançada como sempre.
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Palavrar | Número 10
«É com essa inutilidade que justificamos a nossa existência. Não será a vida a maior das inutilidades?»
Olho em frente, lá está o ponto de encontro. Dou por mim a acelerar o passo e quando chego... Ohhh! (II) Para que me deram esta rosa, se vai morrer? É o seu certo destino, por mais voltas que se dê. Para que preciso disto para ir onde necessito ir, neste enorme e labiríntico jardim? Cada pétala é como um pedaço que se vai, morre lentamente ou rapidamente, se assim o desejarmos. Quando vemos uma rosa ficamos fascinados, tanto pela beleza como pela profunda e inebriante fragrância. Nem isso me faz esquecer que vai desaparecer. Nada conseguirá fazer parar esse pequeno e poderoso pormenor. Sei tão bem disso! Retiro cada camada desta flor até tudo desaparecer. Ofereço apenas um momento de prazer e, depois, deixo-a morrer. Qual a utilidade disto? Um jogo que adoro fazer. Sou assim desde que existo. Nada me ultrapassa, nada me controla a não ser a Morte. Já vos disse que não sou a Morte? Pensava que já tinha afirmado. Não sou a Morte, repito. Estou ligado a ela, confirmo. Fecho os olhos para a respirar de saudades. Sou mais terrível do que a Morte. Muito mais torturador e, no entanto, sou louvado, perdoado, enriquecido, imortalizado, amado, controlado (pensam eles)...
Não se iludam. Estou aqui para vos encaminhar. Mesmo que muitas vezes tentem ignorar-me, em vão, confesso. Quem manda sou eu. Atribuem-me uma importância que durante a vida desprezam e pensam parar ou dominar. Sou a sua maior riqueza e não entendem. Tão estúpidos! A maioria não sabe nem deseja saber a minha importância. Vivo bem assim. Não me afecta. Não guardo rancor. Até brinco com isso. É delirante o gozo me dá esse entretenimento. Ninguém vive sem mim. Ninguém me vê. Ninguém me toca. Todos sabem quem sou. Apresento-me no nascimento e avanço. Falando em avançar... estou quase a chegar. Só mais meia dúzia de passos e apareço no ponto de encontro. Desta vez desconheço o objectivo. É só contornar esta sebe e... Ahhh! (III) Pergunto-me se esta rosa é importante. É? Será que é? Não sei. Eu nunca sei o que deveria saber. Sempre a pensar no que os outros dizem e nunca me concentro em mim mesma. A rosa é bela, oh se é. Divina. Admirável. Gostava tanto de ser como ela. Não há ninguém que desgoste de uma rosa. É a flor mais famosa do mundo. Até serve para revelar o que sentimos. Tanta importância e, mesmo assim, tenho dúvidas. Acho que não é assim tão bela que enriqueça tamanha importância. Ostenta um poder efémero. Vai-se em dias, defina e seca. Cai cada pétala ressequida e inútil e, no entanto, todos a adoram. Tenho inveja de ti! Não. Não tenho. Não sou suficiente para ninguém. Grito confiança, mas no entanto paro, recuo, fujo, evito, recuso, fecho, desisto. Estou aqui a andar de um lado para o outro, esfregando as mãos suadas, perguntando-me porque aceitei este encontro, quando nada sei dele. Respiro fundo. A cobardia agarra-se à garganta saturada de querer gritar e de não se libertar de um poder que a controla. Ahh, e este peso, este ladrão de felicidade, parece um tapete retirado dos pés à bruta e que nos faz cair, acreditando sermos os culpados dessa queda, que a merecemos, faz parte do nosso caminho. Banho-me no medo de não conseguir, respiro profundamente a decisão acomodada na mente e que não me larga, vincando-me cada vez que desejo uma mudança ou um objectivo. A eterna frustração de querer fazer e ser e deixar ir pelo agrado a terceiros, enterrando-nos numa vida vestida de infelicidade e decorada do
que simplesmente aceitamos por aceitar. Torno-me nesta rosa e no que ela será: seca. Sei do que sou capaz, todavia não avanço. Contudo, e contra o que seria de esperar, estou aqui, tão perto do ponto de encontro. Falta só dar dois passos. Somente dois passos. Sou fraca, estou sempre a errar, não vou conseguir! Estou tão perto. Avanço e... Uiiii! IV (II) — O que é que fazem aqui? (I) — O mesmo que tu. (II) — Não te compares! És uma idiota que ilude tudo e todos com a tua crença, fazendo-os acreditar que possuis uma resposta. Prolongas a agonia e eles nem a compreendem desse modo. Julgam que os confortas. (I) — Tenho respostas. (II) — ... Vazias... (I) — Tu é que és tão vazio que estragas os meus planos. Contaminas tudo com a tua cruel presença. Dá-lhes esperança para depois acabares com tudo. Tudo. Obriga-los a sentirem uma vida em torno de um fundamento, quando, na verdade, és a mais inútil das utilidades porque é inevitável perderem o que lhes ofereces. E, tantas vezes, desperdiçam com inúmeras coisas sem importância. Dou comigo a pensar que fazes de propósito. (II) — Vives cega pela confiança, nem te apercebes do mundo real. Enganas tudo e todos sob uma falsa capa de bondade e compreensão. (III) — Não é verdade. A sua ajuda é preciosa para tanta gente. (II) — Olha, olha... Fala quem nunca decide o que realmente quer. Tu não sabes o que vales, não me desafies, porque acabo contigo num ápice. Basta dar oportunidade para vincar profundamente o tormento que libertas nas mentes deles e tudo pode acabar, assim, num estalar de dedos! (I) — E não darás tu espaço para que ela o faça? Tens também um papel nessa acusação que fazes. Ela só existe porque tu existes. És tão cruel. Sabes tão bem que podemos fazer tanta, mas tanta coisa significativa. Nem tudo é desnecessário, nem tudo é frívolo, dispensável, prescindível, fútil... (II) — Atiras-me uma lista de palavras todas iguais, não justificam nada. Burra! (I) — Tu, terrível e insuportável, rodeia-los olhando-os bem no fundo do ser, dando-lhes espaço e futuro
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PER FICTA, RESISTERE | AS TRÊS ROSAS
para depois, num segundo, desligá-los sem dó, quebrando-os totalmente. Vivem para depois morrerem. Que maldade, tamanha ineficácia disfarçada de utilidade mordaz. (II) — Adoro os segundos... São tão importantes. Fazem toda a diferença. Um segundo, é, um segundo depois, não é. (III) — Não te sentes mal? (II) — A minha eternidade não me permite ter consciência. (I) — Sabes bem o quanto afectas o meu trabalho. Deixas-me sem recursos, sem respostas, sem conseguir apoiar. Cada vez que me desfazes, só tenho vontade de te esganar. (II) — É o meu papel, queiras ou não. Julgas-te melhor que eu? Tu, atiras com argumentos fantasiosos, prolongando uma dependência que, em muitos casos, não levam a nada. Ridícula! (I) — Não têm o retorno desejado porque impões a tua sabotagem. (II) — É a vida, minha cara. Nenhuma de vós tem qualquer significado para mim. Tu, então, és tão patética! Quando apareces, em jovem, és uma lapa: agarras-te para nunca largares. Sugas o que aquela semeia, sem piedade. Acusam-me de ser o terrível, todavia consegues ser tão angustiante que nos fazes parecer santos. Tens uma utilidade nula. (III) — Não! Não me compares a ti. Mal existo. Tu, TU és feito do nada que enche a nossa vida. Qual o teu propósito mais profundo? Ou, afinal, sofres do meu mal? Dizes-te tão pomposamente proveitoso, que alteras num instante e, a teu belo prazer e conveniência, cravas a inutilidade e tudo acaba num instante. E, assim, andamos neste círculo convenientemente vicioso, que nos conforta ou justifica muitas das decisões que tomamos. Somos assim tão dependentes de ti ou faz parte da racionalidade Humana? Não sei. Nunca sei nada. Sorris? Achas graça ao que fazes? Estou aqui à procura de respostas e o que encontro são duas criaturas manipuladoras a acusarem-me, com ar altivo disfarçado de falsa empatia. (II) — Olha, olha, está saída da casca a menina que nunca tem coragem e que utiliza as fragilidades como alimento da sua existência. (I) — Acusas-nos de sermos manipuladores, enquanto influencias tantas vidas cheias de frustração e amargura. Provocas tantos estragos subtis que me
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Palavrar | Número 10
Isa Silva
dão imenso trabalho a combater. Apareces nas alturas da vida mais importantes e alteras destinos. Apimentas fragilidades desnecessárias. Tens espinhos dolorosos como essa rosa. (III) — E tu deixa-los a flutuar numa certeza enganosa para depois aquele inclemente dar o golpe final! (II) — Meninas, acalmem-se. Todos eles se envolvem connosco. TODOS. Algures na vida ou muitas vezes na vida, e não aprendem absolutamente nada porque os obrigamos a refazer, a retomar, a repetir até atribuirem a culpa a algo ou a outros. Não conseguem evitar. Está-lhes entranhado no seu Ser. É com essa inutilidade que justificamos a nossa existência. Não será a vida a maior das inutilidades? (III) — Não entendo o que pretendes de nós. (II) — O importante é que os controlamos, não acham? É o nosso papel principal. Pensem bem... sem isso vocês as duas não existiam. Eu, sempre existi e sempre existirei. Sou incomensurável!! Não desapareço. (I) — Será? Um dia vais deixar de existir. (II) — Nunca. O meu alcance é vasto, infinito, intemporal e até poderei dominar outras dimensões, ao contrário de vós, limitadas a este universo, mais propriamente, a este mundo humano. Só poucos, muito poucos, possuem a capacidade de ver para além do óbvio. Esses, quando os encaminho, já não voltam. Não podemos deixar que destabilizem o universo com a sua esperteza. Deixem-se de subterfúgios e juntemos forças. (III) — O que pretendes? (II) — Uma aliança. Bajulá-los, levando-os a crer na nossa utilidade. Acima de tudo, aumentarmos o nosso poder. (III) — Sinistra esta tua proposta. (II) — Minha querida, somos isso e muito mais. Não te iludas. Assume. Vamos enchê-los de assuntos desconexos, de motivos tão, mas tão idiotas que nem vão aperceber-se dos preciosos momentos que perdem. Vamos sugar a sua inteligência entregando-lhes respostas que não levam a nada. Vamos perdidamente camuflar a sua existência. (I) — Explica-nos o que vamos ganhar com isso. (II) — Aumento da vossa importância e total dependência. Não é aliciante? Vamos conduzi-los à tentação do fácil, da subtileza de acreditarem que eles estão ao comando. Até para ti, que nunca acreditas nas tuas capacidades.
Fotografia de Isa Silva
(II) —Xiuuu! Não é para revelar. Fica para as letras pequeninas no fim desta história. (E sim, vão ter de girar a revista ao contrário para descobrir os culpados, para descobrir quem somos). A pedido da Autora, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. (I) 'Esperança' - (II) 'Tempo' - (III) 'Insegurança'
(III) — Não sei se serei capaz... (II) — Cala-te! Por uma vez na tua vida, acredita em ti, miserável. Vão ficar à nossa mercê cada segundo, cada minuto, cada hora, cada tempo da sua vida. (I) — Tudo teu... (II) — Tudo nosso! Vamos brindar! A partir de agora, sempre que nos encontrarmos, vamos brindar deste modo: três vezes. Uma por cada um de nós nesta tríade tão utilmente inútil. (I) — E quem somos nós na verdade?
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PER FICTA, RESISTERE O QUE NOS SALVA UM MANUAL DE RESISTÊNCIA POÉTICA
LARA
FERNANDES
I
. O Mundo Útil
O relógio não marcava horas, contabilizava desempenho. As fachadas dos edifícios respiravam luz e dados, pulsando como corações artificiais: “O tempo que não rende, morre.” A cidade era um organismo de vidro e aço, onde o ar cheirava a ozono e metal limpo e o silêncio soava como uma linha de produção. Os passos dos homens seguiam o compasso das máquinas. Mateus movia-se entre elas com devoção quase litúrgica. Trabalhava na Sensodata, empresa que convertia emoções em produtos. O cargo era calibrar empatia para assistentes virtuais: programava sorrisos, modelava pausas, ajustava ternura em linhas de código. Às vezes, ao fim do dia, via o próprio reflexo no vidro do escritório e não reconhecia o homem que o fitava: um rosto pálido, sem sombra, olhos vazios do brilho que não fosse o dos ecrãs. Em casa, o silêncio era extensão da máquina. Tudo servia a um propósito. Até o sono era cronometrado: seis horas exatas de recuperação produtiva. Não lia, não escrevia, não sonhava. O ar da cidade sabia a nada. E o nada era o sabor da eficiência. Numa manhã sem cor, o acaso — essa partícula ainda livre do cálculo — cometeu uma falha. Enquanto esperava a cápsula de transporte, viu algo que destoava: um objeto abandonado num banco metálico. Um livro. O couro gasto, as páginas amareladas, cheiro a pó e memória. Abriu-o. O papel estalou sob os dedos, frágil como pele antiga. No interior, versos sublinhados com tinta desbotada: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena.” O nome do autor, Fernando Pessoa, nada lhe dizia. Mas aquelas palavras tinham uma temperatura que não
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Palavrar | Número 10
«Em casa, o silêncio era extensão da máquina. Tudo servia a um propósito. Até o sono era cronometrado: seis horas exatas de recuperação produtiva. Não lia, não escrevia, não sonhava. O ar da cidade sabia a nada. E o nada era o sabor da eficiência.»
cabia no mundo digital. Leu devagar. Sentiu o peito abrir-se num desconforto quase físico, como se algo adormecido se movesse dentro. A cápsula chegou, o letreiro piscou impaciente. Fechou o livro e levou-o consigo, como quem rouba um pedaço de tempo proibido. Nessa noite, algo o impediu de dormir. Recordou-se, não sabia de onde, de uma avó que lia em voz alta junto à janela, o som de um violino distante vindo de um rádio antigo, o cheiro do pó do verão e do pão quente. Talvez tenha sido a última vez que sentiu o inútil, e por isso, a última vez que se sentiu vivo.
II. O Encontro com o Inútil Nos dias seguintes, Mateus lia às escondidas. Cada frase era um ruído estranho dentro do seu sistema ordenado. As palavras eram imperfeitas, lentas, sem função. Mas nelas havia vida, uma vida desobediente. Uma noite, depois do turno, caminhava sem destino. Era a primeira vez que o fazia: andar sem meta, sem direção, sem utilidade. Foi então que ouviu um som que não vinha de altifalantes nem de algoritmos: um violino. A melodia cortava o ar frio como um fio de fumo quente. Seguiu-a. Numa esquina de pedra antiga, sob um candeeiro cansado, uma mulher tocava. Helena. O cabelo preso num lenço vermelho, os dedos finos, a pele marcada por pequenas cicatrizes. Tocava de olhos fechados, o corpo levemente curvado, como se cada nota fosse uma prece. Quando terminou, respirou fundo. Tinha um tremor leve na mão direita. O arco estava gasto, colado com fita. Ela notou-o a observá-la. “Gostas?”, perguntou. “Não sei. Nunca ouvi nada assim.” “Então ainda ouves. Isso é raro.” Aproximou-o do instrumento. Mateus tocou a madeira. Era quente, viva. Sentiu as ranhuras, o pó entranhado. Ela sorriu. “Tocar é lembrar. Mesmo quando o mundo tenta esquecer-nos.” Helena vivia num quarto minúsculo perto do rio. O teto tinha manchas de humidade, e o ar cheirava a verniz, café e cordas tensas. Contou-lhe que perdera parte da audição após uma explosão numa fábrica. “Tentei ser útil”, disse. “Mas o útil apaga o som.” Passaram a encontrar-se. Ele lia-lhe versos. Ela respondia com música. Mateus começou a faltar ao trabalho. Passava horas a vê-la reparar o arco, limpar as cordas, respirar entre notas. Quando ela ria, parecia abrir uma fresta no mundo. Mas o sistema vigiava. Chamaram-no ao supervisor, um rosto projetado num holograma impassível. “As suas horas produtivas decaíram. Há registo de deslocações não autorizadas.” “Preciso de tempo.” “O tempo é propriedade da empresa.” Saiu dali com o coração descompassado. Pela primeira vez, sentiu o corpo: o peso das mãos, a fome, o medo. Um erro de programação tornava-se carne.
«Numa esquina de pedra antiga, sob um candeeiro cansado, uma mulher tocava. Helena. O cabelo preso num lenço vermelho, os dedos finos, a pele marcada por pequenas cicatrizes. Tocava de olhos fechados, o corpo levemente curvado, como se cada nota fosse uma prece. Quando terminou, respirou fundo. Tinha um tremor leve na mão direita. O arco estava gasto, colado com fita.»
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PER FICTA, RESISTERE | O QUE NOS SALVA
III. A Dissolução da Utilidade A denúncia veio dias depois. Conduziram-no ao Centro de Reprogramação: salas brancas, cheiro a desinfetante, o zumbido elétrico constante. Deitaram-no numa maca metálica. Uma voz neutra ordenou: “Identifique o estímulo que o afasta da eficiência.” Mateus fechou os olhos. O rosto de Helena surgiu. O calor das suas mãos. O som do arco. “Identifique o estímulo”, repetiu a voz. “O inútil.”
«O frio mordeu-lhe a pele. Respirou e o ar soube a verdade. A cidade parecia observá-lo, não com olhos, mas com sensores. As fachadas tremeluziam, inquietas. Correu até ao parque. O banco ainda lá estava. O livro também. Mas Helena não.»
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Palavrar | Número 10
Lara Fernandes
As luzes vacilaram. O som das máquinas hesitou. Um erro de lógica. O sistema não sabia processar o que não tinha função. Por um instante, o mundo parou. Mateus arrancou os cabos e correu. Tombou ao sair, o joelho rasgou-se, o sangue escorreu: vermelho, inútil, vivo. O frio mordeu-lhe a pele. Respirou e o ar soube a verdade. A cidade parecia observá-lo, não com olhos, mas com sensores. As fachadas tremeluziam, inquietas. Correu até ao parque. O banco ainda lá estava. O livro também. Mas Helena não. No chão, entre folhas húmidas, um lenço vermelho preso a um ramo dançava ao vento, como se o tempo ainda a lembrasse. Abriu o livro. As páginas mostravam frases escritas por várias mãos: “Li. Sonhei. Fugi.” “Plantei.” “Helena passou por aqui.” Era um livro de passagem, um mapa de insubmissos. Mateus escreveu na margem: “A alma é o que sobra quando tudo o resto é útil.” Ajoelhou-se e cavou com as mãos nuas. O cheiro a húmus e chuva entranhou-se na pele. Plantou a semente que Helena lhe dera, “para quando te sobrar tempo”. Ficou ali, imóvel, a ouvir o vento. Pela primeira vez, não fez nada. E nesse não fazer, tudo existia. Não foi o sistema que o apagou. Foi ele que se apagou do sistema, por escolha. Tornou-se invisível, não perdido. Livre. Dizem que, nas noites de silêncio, um violino toca entre as folhas do parque. O som é leve, inútil, persistente. Sobre o banco, o livro permanece. E alguém escreveu, à mão: “Sem o inútil, o homem torna-se máquina; a vida, uma conta bancária; o tempo, mera produção.” Ninguém soube dizer se fora Helena ou o próprio tempo, cansado de ser útil. Epílogo — O Livro que Permanece Não te apresses. Este livro não tem fim. Lê-o como quem escava. Planta como quem recorda. Escuta como quem resiste. O tempo já não te pertence, mas talvez a alma ainda te ouça.
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PER FICTA, RESISTERE FRAGMENTOS
LAURA SUSETE VIEGAS
L
igo a televisão no canal de notícias e faço scroll no telemóvel. Assim, é mais fácil distribuir a atenção entre a desgraça e a parvoíce. Entre as atualizações sobre a guerra na Ucrânia, o aumento do preço dos combustíveis e as negociações para o orçamento de Estado, fixo-me nas palavras «(…) suspeito em prisão preventiva, por alegadamente fazer parte de uma rede de tráfico humano (…)». Coloco a televisão em pausa na imagem de um homem de 67 anos, e petrifico durante tempo suficiente para que o telemóvel bloqueasse e eventualmente, a televisão se desligasse para poupança de energia. De relance, olho para a arca verde-musgo que se encontra entre a sala de estar e a despensa, e questiono-me porque hesito sempre que passo por ela. Há anos que a evito, e, no entanto, também não a descarto — parece-me atrevido tocar-lhe. Num impulso quase cómico, levanto-me do sofá e desequilibro-me. A sensação é a de estar a aproximar-me de um monumento assombroso — as minhas mãos tremem e a garganta fica tão apertada que o ar custa a passar. Recuo e volto a sentar-me no sofá. Não consigo! Sei que fui eu que a pus ali, há 12 anos. Sei que fui eu que a enchi, e também sei que fui eu que a tranquei. Mas porquê? A certa altura, o silêncio tornou-se mais incómodo do que os pensamentos que ecoavam na minha cabeça. Nela, procuro a última memória que tenho da chave e volto a levantar-me para a procurar. Cerca de 18 minutos depois, encontro-a. É agora… A arca range quando a abro, resistindo o suficiente para quase me demover, e o pó inunda-me os pulmões com as memórias ali contidas.
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Palavrar | Número 10
«Rasgo as mensagens à medida que as leio.»
Lá dentro, tudo parece frívolo: mensagens impressas em papel barato, diários que preenchi com poesia e rabiscos e as minhas fotografias de adolescência, riscadas ou rasgadas na zona da pélvis. Sinto um arrepio quando, na minha mente, ecoa «és linda, sabias?». O meu peito recolhe-se em sangramento e, involuntariamente, cerro os dentes, os lábios, os olhos, os poros e enrolo-me sobre mim mesma no chão, que anuncia já os fins de outono. Balanço, agarrada aos joelhos até o dia entardecer. Não percebo o que se está a passar. Vejo flashes de um homem magro, na casa dos 50, a caminhar na minha direção. Balanço mais um pouco. Volto a abrir a arca e pego no primeiro pedaço de papel que encontro, sem o olhar. Quando lhe pouso a vista, por trás dos rabiscos, leio «amo-te», de um dos lados do chat e, do lado que responde, «eu também te amo.». No topo da página, com rabiscos ainda mais carregados consegue ler-se “Sérgio”. Como uma gaivota para alimentar a cria, regurgito para alimentar a sanita. Sérgio… «Olá, Mariana. Estou tão feliz por, finalmente, estar contigo», disse o meu ouvido interno ao projetar a imagem do tal homem. «És linda, sabias?». Voltei a alimentar a sanita.
Já sem nada digno de expelir, volto à arca, mas coloco uma música de embalar. Exploro os fragmentos de papel com a ponta dos dedos, recordando as emoções que vivi ao ler cada frase. Tinha-as imprimido, para poder dormir agarrada a elas. Choro. Por vezes, perco o ar, outras a voz, e outras tantas, a minha própria existência. Arranho-me para saber que ainda estou viva e que existe pele para rasgar. «Sei que vai parecer loucura, mas vi o teu perfil e acho que estou apaixonado por ti». Futebolista, bonito, moreno, olhos verdes, do tipo cigano indomável. «Vai parecer loucura, mas acho que é recíproco». Rasgo as mensagens à medida que as leio. A saliva e o ranho espalhavam-se por todo o meu rosto, à medida que tentava limpá-los com a manga da blusa. «Conta-me mais sobre ti», pedi. «Como já deves ter percebido pelo meu perfil, chamo-me Sérgio. Ahah. Tenho 16 anos, e vivo em Santo Tirso. Gosto de jogar futebol com os meus amigos, mas gosto ainda mais de falar contigo.» Corei, mas entristeci. «Vivemos muito longe um do outro. Assim, nunca vai resultar…» «Porque não havia de resultar?» «Não sei… Eu nunca tive uma relação à distância, mas dizem que é difícil.» «Só é difícil quando o amor não é forte o suficiente.» «Já estamos a falar de amor?» «Acho que sim… A verdade é que nunca senti isto por ninguém e, na realidade, és a única pessoa que me faz sentir vivo. A distância não é nada comparada ao que sentimos um pelo outro. Não digas que não vai resultar… magoas-me só com a hipótese de termos de desistir de algo que é, já, tão bonito.» Continuo a percorrer a arca e encontro as fotografias que Sérgio me enviava e que tão facilmente me ajudavam a adormecer, depois de fantasiar com o seu corpo junto ao meu. Vomito um último líquido acidificado. «Ainda és mais bonita ao vivo!» — disse um homem, na casa dos 50, ao sentar-se ao meu lado no banco de jardim.
«Desculpe, deve estar a confundir-me com outra pessoa» O Homem riu-se e disse, baixinho «Sou eu, o Sérgio», e, depois de uma pausa prolongada «Eu sei que estou um pouco diferente do que nas fotografias que te mandei, mas tens de compreender… eu sabia que se visses a minha verdadeira imagem, nunca falarias comigo.» Não sabia o que responder, mas disse «O meu namorado deve estar a chegar, vou-lhe ligar. Acho que se devia ir embora.» Assim o fiz — liguei para o número que recentemente Sérgio me tinha dado e ouvi um toque de telemóvel a soar do bolso do homem que me olhava sorridentemente. Senti as minhas bochechas a ferver e as pernas em chumbo «Então, meu amor? Não me digas que estás assustada!» Levantou-se na minha direção. Recuei e disse «Não se aproxime de mim!» «Ainda não percebeste, Mariana… Tu és minha!» Já não me masturbava há 12 anos, mas lembro-me que nessa altura não era doloroso. Hoje, os gritos vieram das profundezas da minha amargura. Reconstruo os fragmentos, pego no telemóvel e ligo ao 112: — Quero fazer uma denúncia.
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PER FICTA, RESISTERE RETALHOS DE VIDAS LEONILDA PEREIRA
V
agueava pelas ruas da aldeia, sem eira nem beira. Uma fatia de centeio aqui, um arroz de feijão ali; assim o Amândio passava os dias e as noites. Como as irmãs. Filhos de pais emigrantes na América, ficaram pela aldeia aos cuidados da avó Aida, viúva, já com anos de labor nos campos de outrem. Certo dia, o senhor António cruzou-se com a avó do rapazito. — Desanimada, senhora Aida? — Três bocas para alimentar. As miúdas estão a servir, lá comem com os patrões. A Augusta até pensa chegar longe, vai estudar como os filhos dos senhores. Agora o rapaz, ai, senhor, não sei. — Sabe, ontem, ele apareceu nas hortas, à hora do pessoal comer. Deram-lhe pão com chouriço. Agradeceu e alegou: “pão preto, não como.” — Tem dessas exigências, mas não lhe apare mordomias. Tiro mastigas da boca para lhe dar, mais não posso. Sou pobre e viúva. — Posso levá-lo comigo. A quinta é perto. Ajuda com o gado. Ali, todas as pequenas tarefas são úteis e necessárias. A senhora pode visitar-nos. — Que favor tão grande. Dê-lhe comida e dormida, que já é muito. — Vou ver como corre, mas alguma coisa há de receber. Está lá o Luís, um rapazito novo; hão de entender-se. As pernas da ti Aida ganharam asas, e a voz ecoou pela aldeia: “Amândio, onde estás?” Pouco tempo depois, o rapaz de sete anos recebeu o veredito e a guia de marcha. O coração da avó ganhou leveza; a mente voou para o merecido descanso de octogenária. Ainda assim, ajoelhou-se diante do minúsculo oratório. Mal não fazia pedir por “aquele filho de Deus”, ao deus-dará. Talvez tivesse encontrado caminho para ele. Com alguma calma, António e a esposa foram ensinando Amândio a cuidar de pequenos recados.
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«Pouco tempo depois, o rapaz de sete anos recebeu o veredito e a guia de marcha. O coração da avó ganhou leveza; a mente voou para o merecido descanso de octogenária.»
No início, amuava e uma lágrima ou outra escorria-lhe pela face. Amélia, a cozinheira, aparava-lhe os desesperos com abraços perfumados de carne estufada, o prato favorito do rapazito. Amândio cresceu na quinta, aprendeu o valor do esforço e do pão repartido. O tempo moldou-lhe a vontade e a bondade do coração. Era o primeiro a chegar, o último a sair. Quando o patrão morreu, foi ele quem ficou com as chaves e com a guarda dos animais. Dona Amélia confiou nele. Era homem feito, capaz de colaborar até na esfrega das tábuas da sala. Lavava e encerava, fazendo “inveja a muitas mulheres”. A patroa e a cozinheira estimavam aquele menino, sempre disponível. Com o tempo, comprou a quinta por um bom preço, com o fruto do seu trabalho. Era agora patrão. Nos dias de feira, quando via as gentes da aldeia, distribuía o que tinha: pão, fruta, histórias. Nada lhe parecia inútil. Tudo servia um propósito — nem que fosse dar um sorriso. As palavras da avó Aida voltaram-lhe à memória:
“Nada é para deitar fora se ainda pode servir alguém.” Essa lição acompanhou-o ao longo dos anos. Fez dele quem era. Gostava tanto que a avó o visse. Elevava os olhos ao céu, e a estrela mais brilhante seria enviada por ela para lhe iluminar as escolhas. Estaria orgulhosa? Muito tempo depois, também eu percebi o sentido daquela herança. Recordo-me da visita ao Centre Georges Pompidou, em Paris: esculturas feitas com desperdícios — metais torcidos, pedaços de plástico, vidros, objetos do quotidiano. Uns riam; outros criticavam. “Chamam a isto arte?” “Paguei para isto?” Do alto dos meus onze anos, olhava as esculturas e as pessoas como quem vê um barco à deriva. Não sabia se gostava, mas percebi que havia ali algo que me tocava — o poder de transformar o lixo em arte, o feio em beleza. Mais tarde, adulta, aprendi a reconhecer nos artistas o mesmo olhar da avó Aida e do Amândio: o olhar de quem vê valor no que os outros rejeitam. O artista português Bordalo II constrói enormes esculturas a partir de sucata, denunciando o desperdício e a destruição ambiental. As suas obras — animais feitos de inutilidades — são gritos visuais contra o descuido humano. Recordo Real Bordalo, que dizia do neto: — O meu neto? Artista à sua maneira. No brilho dos seus olhos, via-se o orgulho. Revejo os socalcos do Douro, a estação do Pinhão, as vinhas altivas. Beleza e harmonia dos lugares. Lembro Xico Gaivota, pescador e marisqueiro, que transforma o plástico recolhido nas praias em esculturas marinhas. E Madalena Martins e Ricardo Nicolau de Almeida, que dão nova vida a resíduos, criando objetos belos, úteis e conscientes. Todos, como Amândio e a avó Aida, revelam a capacidade de ver mais além: o gesto de transformar, cuidar e criar com o que parece perdido. Tudo pode servir a Humanidade.
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PER FICTA, RESISTERE O REGRESSO
J
MARIA DA PAZ CAMACHO
úlia regressava ao país natal. Há sessenta anos que vivia distante, na longínqua Austrália, para onde os pais a haviam levado ainda menina, antes de perfazer os dez anos. Ali cresceu e amadureceu, fazendo da saudade uma companheira silenciosa. Jamais esquecera o seu pequeno recanto na aldeia: o lar dos avós, que nunca mais voltara a ver, o cenário das suas primeiras alegrias. Recordava-se com ternura dos primos e das amigas da escola, das brincadeiras no terreiro; das frutas maduras colhidas das árvores dos vizinhos, às escondidas; da escola modesta, da professora que lhe abrira as portas do saber e ensinara os preceitos com que haveria de conduzir a própria vida. Mais tarde, conheceu Manuel, um conterrâneo, que já ali vivia com a família. Também ele era emigrante, e conhecia bem as dificuldades de adaptação ao novo mundo. Tinham isso em comum, o resto só o futuro diria. O encontro deu-se no Clube Cultural Português, em Sydney, numa noite de festa em honra do Dia de Portugal. O salão, engalanado com bandeiras da pátria e fitas verdes e vermelhas, ressoava com o murmúrio das conversas e o compasso das músicas. As famílias faziam questão de estar presentes naquele acontecimento, não só para se encontrarem, trocar impressões e mostrar à comunidade como prosperavam naquela terra estranha, mas também para matar saudades das iguarias portuguesas que as senhoras gostavam de apresentar naquele dia. Era a primeira vez que Júlia participava num evento de tamanha importância. Passara a tarde inteira em preparativos: escolhera com cuidado o vestido, penteara-se com delicadeza e aplicara a maquilhagem, com mãos trémulas, como quem se prepara para um momento que pressente decisivo. A hora da dança começou, os rapazes e as raparigas alinharam--se no salão, trocando olhares tímidos
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«O tempo correu lento e cheio de memórias. A casa, outrora viva de risos e conversas, tornara-se refúgio e testemunha. Júlia encontrava conforto nas coisas simples e nas recordações. Olhava o sofá verde e parecia vêlo sentado a ler o jornal, as rosas que teimavam em florir sob o seu antigo cuidado.»
e curiosos, disfarçados sob sorrisos incertos. No ar pairava a expectativa de quem sabe que, entre um passo e outro, algo pode começar. Júlia já tinha notado um rapaz de porte distinto, com o cabelo cuidadosamente penteado, as feições serenas, um ar que inspirava simpatia e confiança. Sentiu o coração acelerar num impulso de esperança. Se ele me convidar para dançar — pensou, tentando conter o rubor — aceito logo, antes que outra lhe desperte o interesse. Assim aconteceu: dançaram durante toda a noite, nem deram pelo tempo passar e, entre risos e confidências, selaram promessas de futuros
encontros. O namoro foi bem-aceite pelas famílias e, em pouco tempo, estavam casados. A vida abençoou-os com três filhos, que se tornaram o mundo inteiro. Dedicaram-se a eles com o coração cheio até que ganharam asas e seguiram as próprias vidas. Manuel, sempre trabalhador dedicado, tinha um pequeno comércio de víveres, e Júlia, quando podia e os filhos estavam na escola, ajudava-o com gosto. Viveram com simplicidade e dignidade, sem luxo, mas com fartura suficiente para que nada faltasse aos filhos, que cresceram sem saber o que era não ter roupa nem sapatos, enganar o estômago com «sopas de cavalo cansado» ou passar frio nas noites longas de inverno. Era assim na terra natal comum. Conquistaram o que mais prezavam: uma casa erguida com esforço, símbolo de uma vida partilhada. — Este é o nosso castelo — dizia Manuel à mulher e aos filhos, com um sorriso de homem realizado. — Aqui ficaremos até ao fim dos nossos dias e, se os filhos quiserem cá ficar, haverá espaço para todos. Será uma alegria ver os netos nascerem e crescerem perto de nós. O destino, fiel à sua natureza, não obedece a promessas. A doença chegou de mansinho e, em poucos meses, levou Manuel. Júlia chorou-o em silêncio, mas também agradeceu: viveram bem, criaram filhos honrados e enfrentaram juntos o que a vida dera. O destino decidira que fosse ela a fechar-lhe os olhos: para Júlia, isso foi um consolo. Pedira que ele partisse primeiro, pois não queria pensar que mãos estranhas cuidariam dele. Só ela conhecia as suas necessidades e os seus desejos. O tempo correu lento e cheio de memórias. A casa, outrora viva de risos e conversas, tornara-se refúgio e testemunha. Júlia encontrava conforto nas coisas simples e nas recordações. Olhava o sofá verde e parecia vê-lo sentado a ler o jornal, as rosas que teimavam em florir sob o seu antigo cuidado. Recordava as viagens que fizeram, sempre na Austrália, pois ele dizia que era um país tão grande que não faltavam coisas novas para descobrir. Além disso, era mais económico do que ir para o estrangeiro. Às vezes, ao fechar os olhos, via-o passar pela sala, cheio de energia, à procura de coisas para fazer. Parecia que o tempo tinha voltado para atrás. Puro engano. Agora, tinha por companhia o silêncio. Três meses após a partida de Manuel, o telefone quebrou o silêncio daquela casa. Era Henry, o filho do meio.
— Mãe, temos de reunir a família. Precisamos de tratar dos assuntos da herança do pai. Podemos ir aí almoçar, no domingo? Júlia achou estranho, mas aceitou de imediato. Há muito que não apareciam em casa e raramente telefonavam. Sentia falta dos filhos, dos netos, da casa cheia de vozes. Seria um dia bem-passado, com muito barulho e risadas, próprio de famílias com crianças. Cozinhar para eles era ainda a forma que conhecia de amar. Costumava fazer os pratos típicos da aldeia, que a mãe lhe ensinara, dizendo-lhe sempre: quando tiveres filhos, ensina-os também, não deixes esquecer as nossas tradições. Quis o destino que só tivesse rapazes e nenhum com apetência para cozinhar. Preparou o almoço com carinho, esse gesto quase ritual que enchia a casa de aromas e memórias. Escolheu os pratos com o cuidado de quem conhece, de olhos fechados, o gosto de cada um. Leo, fiel aos rojões que ela sabia preparar como ninguém; Henry adorava a feijoada transmontana, farta e fumegante; Jack não resistia a uma boa posta mirandesa, tenra e suculenta, perfumada de alho e servida no ponto certo. As sobremesas também faziam jus aos costumes do Norte: rabanadas, filhós e sonhos, que os netos adoravam. Era uma alegria vê-los chegar à cozinha e pedir «Grandma! Sweets; sweets». Quanto às noras, não se deu ao trabalho de pensar nelas. Nunca apreciaram os seus cozinhados; diziam não estar habituadas a àqueles sabores fortes. Sempre que iam almoçar a sua casa, mal tocavam na comida, mostravam-se sempre enjoadas. Pois que comam pão com manteiga e bebam vinho — pensou, resignada, mas com um leve sorriso de quem já não se deixa ofender. Estava há muito habituada às esquisitices delas; diziam detestar o cheiro a alho. Apesar de tudo, a refeição correu bem, com os filhos a elogiarem os cozinhados e a dizerem que tinham saudades daqueles sabores. As noras, com o rostos fechados, fingiam não ouvir. Depois da refeição, o filho mais velho pigarreou e falou com a voz trémula: — Mãe, chegou a hora de resolvermos as questões do pai. É preciso dividir os bens. Ela fitou-o, surpreendida: — Dividir o quê, filho? O negócio foi vendido para pagar as despesas do hospital e o funeral, até parece que não sabes. Resta apenas esta casa onde vivo e a minha pensão de reforma. — Nós sabemos, mãe — respondeu um deles, com a voz embargada pela hesitação —, mas os tempos
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não estão fáceis. Precisamos de dinheiro. Fizemos empréstimos para construir as nossas casas e os meninos têm de frequentar colégios caríssimos. A mãe não precisa de uma casa tão grande. Fez-se um breve silêncio, antes que alguém completasse, quase num sussurro: — Vamos ter de vender esta casa. A mãe respirou fundo, sentindo o peso de cada palavra. — Esta casa já é velha, meus filhos. O pouco que vale, repartido entre todos, não chega para eu comprar outro teto. Teria de procurar muito longe daqui, fora da cidade e, nesta idade, não iria adaptar-me a um sítio onde não teria lembranças nem raízes além de ficar longe de vocês. Como iriam visitar-me, se estão sempre sobrecarregados de trabalho? O silêncio caiu pesado sobre a sala. Nenhum deles teve coragem de responder. Júlia, porém, como sempre, poupou-os: — Compreendo a vossa situação. Façam o que for preciso, eu cá me arranjarei. Os filhos suspiraram, aliviados, como quem se liberta de um peso que não se deseja nomear. Nenhum se ofereceu para a acolher e, talvez fosse melhor assim. As noras australianas tinham costumes diferentes, modos de vida que não combinavam com os dela. A convivência seria um desencontro diário, feito de pequenas diferenças e grandes silêncios, viveria sempre como uma intrusa, e isso ela nunca quis. Após a partida deles, sozinha, deixou que o pensamento se soltasse: Ainda bem que o Manuel não está aqui para ouvir o que eles disseram. Sentiu o coração apertar-se num misto de mágoa e resignação. Quantos sacrifícios fizemos, quantas noites sem descanso, quantas horas roubadas ao sono, só para que nada lhes faltasse, até foram para universidade. E agora, é assim que me pagam — tratam--me como se já não servisse para nada, uma inútil — é o que é. Ficou um momento em silêncio, olhando o vazio da sala, onde ainda pairava o eco das vozes dos filhos. Então, uma ideia surgiu, serena e luminosa. Voltarei à minha terra; sempre tive esse desejo. Chegou a hora. A casa dos pais ainda existia, guardada pelas primas e pela memória. Nunca pensou em vendê-la, talvez algum dos filhos quisesse conhecer as suas raízes, e saber como viveram os seus antepassados, mas nunca manifestara esse desejo. Naquele instan-
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Maria da Paz Camacho
te, fechou os olhos. Ainda sentia o cheiro das árvores, o aroma dos frutos maduros, o murmúrio do riacho, o riso da infância perdida. Não hesitou. Na manhã seguinte, após uma noite mal dormida, telefonou à prima Maria, anunciando o regresso. Do outro lado da linha, um grito de alegria atravessou o silêncio da casa. Sorriu aliviada. — Ao menos lá — pensou — sei que serei bem recebida, ainda tenho primas e primos, vai ser emocionante voltar a vê-los, depois deste tempo todo. Tratou de tudo sozinha. Na manhã da partida, chamou um táxi para o aeroporto. Não informou os filhos da decisão; não os queria incomodar nem sequer despedir-se. Nunca gostara de despedidas. Lembrou-se, com um nó no peito, da primeira viagem, menina ainda, deixando avós e primas para trás. Foi uma ferida difícil de curar. Com o tempo foi-se atenuando, mas nunca se apagou totalmente. Quanto aos filhos, que ficassem com a casa e que dela tirassem alguma utilidade. No aeroporto, fez o check-in com calma, passou pela segurança e sentou-se na sala de espera, junto à porta de embarque. O voo estava atrasado uma hora. Deixou-se envolver pelas lembranças: o velho muro que escalava, curiosa, apenas para vislumbrar o campanário da igreja; os rebanhos que, ao longe, tingiam de branco as colinas; as árvores que o pai plantara um dia, para oferecer sombra e repouso. Estarão ainda de pé? — perguntou-se Júlia, com um fio de esperança a atravessar o pensamento, como quem teme e deseja, ao mesmo tempo, a resposta. Convocaram para o embarque. Entrou no avião, sentou-se junto à janela e, embalada pelo ronco do motor, adormeceu. Quando o avião aterrou, os passageiros levantaram-se e dirigiram-se à saída. Apenas ela permaneceu imóvel. Uma assistente de bordo aproximou-se: — Minha senhora, já chegámos, recolha a sua bagagem de mão para desembarcar. Não obteve resposta. Tocou-lhe no ombro, sem resultado, aproximou a mão da face: estava fria, mas serena. Chocada, avisou o chefe de cabine e seguiram-se os procedimentos adequados àquelas situações. Mais tarde, após cumpridas as formalidades, entre sussurros, os tripulantes comentavam que ninguém se lembrava de a ter visto embarcar no aeroporto de Hobart.
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PER FICTA, RESISTERE TEMPO DAS COISAS
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SÓNIA
PEDROSO
ílvia sempre fora considerada estranha. Gostava de permanecer quieta. Às vezes sentada, outras vezes deitada, ou simplesmente encostada a um tronco, a observar tudo à sua volta, sem fazer mais nada. Pelo menos, era o que diziam. Alguns falavam em meditação, mas ela nada percebia disso. O que realmente apreciava era ver as cores, sentir os odores e deixar que cada sensação se arrumasse dentro dela como quem arruma luz em gavetas secretas. Nesses instantes, conseguia ouvir o que o vento murmurava e sentir as vibrações silenciosas das coisas que a rodeavam. O tempo abrandava, quase desaparecia, e Sílvia caminhava pé ante pé pelos troncos das árvores ou trepava pelos caules das flores para lhes aspirar o aroma. Com o passar dos anos, deixou-se embrenhar cada vez mais nesses mundos vibrantes. E percebeu algo estranho: por mais que lhe parecesse passar ali um dia inteiro, na realidade só tinham decorrido alguns minutos. Queria explorar mais, descobrir por que o tempo era diferente ali dentro. Seria tudo imaginação? Os pensamentos voam depressa, os sonhos estendem-se como rios, e às vezes basta fechar os olhos por instantes para viver horas inteiras. Sílvia começou a procurar padrões. Tentava perceber quando acontecia aquela mudança, aquele deslizamento suave para dentro do outro tempo. Reparou que surgia sempre nos instantes em que deixava de pensar e apenas sentia. Bastava um sopro de vento mais demorado, o brilho inesperado de uma folha ao sol, o rumor quase impercetível de um inseto escondido na relva. Era como atravessar uma película fina, transparente, que separava o mundo comum de qualquer outra coisa. Um dia, sentada no seu lugar habitual, no pátio de casa, sentiu algo diferente. Os sons estavam mais nítidos, como se alguém tivesse afinado o mundo. O bater das asas de um pássaro soou-lhe mais próximo.
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«À sua volta tudo parecia igual, mas ela sabia que não.»
O perfume das flores pareceu-lhe mais denso. O chão sob os seus pés pulsou. Sílvia abriu os olhos devagar. Tudo estava igual… e, no entanto, nada respirava igual. As sombras moviam-se com um ritmo próprio, como criaturas tímidas. As árvores inclinavam-se, não ao sabor do vento, mas como quem cumprimenta alguém conhecido. E o ar… o ar tinha qualquer coisa viva, uma textura que podia tocar. Com uma sensação de embriaguez, alongou o braço com o indicador esticado. O ar à sua volta ondulou como se tivesse tocado numa poça de água. Os seus movimentos eram lentos e tudo à volta revibrava de energia. O som de besouros pairava no ar e, sempre que algo se movimentava, esse som aumentava. Mas o mais estranho foi o que se deu com o tempo. De repente, Sílvia percebeu que já não tinha a mínima noção de quanto tempo passara ali. Podia ter sido um minuto. Podia ter sido uma tarde inteira. Não sentia fome, nem cansaço, nem o peso que o corpo costuma ganhar quando as horas se acumulam. — Quem és tu? — murmurou, sem saber se falava com o lugar, com o tempo, ou com ela própria. E, pela primeira vez, algo respondeu. Não em palavras, mas num sopro quente que lhe tocou o rosto, como se o mundo, enfim, respirasse. Olhou em volta, mas não vislumbrou ninguém. A brisa quente percorreu-lhe a pele como um aconchego vindo de dentro, e Sílvia sentiu, sem entender como, que aquilo não era apenas vento. Era uma presença. Quase sem som houve apenas um estalar
suave, como quando a madeira se dilata ao sol e o mundo pareceu suspender-se por um segundo demasiado longo. As folhas deixaram de cair a meio do voo, o canto dos pássaros ficou preso no ar como uma nota esquecida, e até a sua respiração se tornou mais leve, como se o corpo se tivesse esquecido de existir. Foi então que ouviu. Não com os ouvidos, mas com tudo o resto. “Estás a escutar-me.” O pensamento não era dela, ecoava dentro de si como se sempre lá tivesse estado. Ficou imóvel. — Quem… quem és? — perguntou, com a voz a tremer. As folhas retomaram o voo, o canto voltou, o mundo continuou, mas dentro da sua mente ficou a sensação de um sorriso antigo, um sorriso que já tinha visto em todas as eras e continuava ali, sem pressa. “Sou aquilo que procuras desde que aprendeste a ficar quieta.” Engoliu em seco. — O tempo…? — arriscou. O vento rodopiou à sua volta, leve como um gesto de confirmação. “Sempre me viste. Nunca tinhas reparado.” Ela inspirou fundo, sentindo o cheiro da terra. Tudo fazia sentido: a lentidão, os minutos que se alargavam até parecerem dias, aquela sensação de que o mundo vibrava com uma lógica própria. — Porque me deixas entrar? — sussurrou. Desta vez, o mundo não parou, aproximou-se, como se cada coisa estivesse mais perto do que realmente estava. “Porque sabes escutar. E porque estás pronta.” Sílvia voltou a fechar os olhos. Quando os voltou a abrir, nada tinha mudado, mas dentro dela, tudo estava diferente. — Pronta para quê? — perguntou. O ar ficou denso, cheio de um silêncio vivo, expectante. “Para aprender que o tempo não passa. Tu é que passas por mim.” A frase vibrou-lhe nos ossos, nas veias, no pensamento. Sílvia sentiu então que a verdadeira pergunta não era quem ele era. Era quem ela se tornaria depois de o ouvir. Ficou quieta, aquela questão a ecoar dentro dela. A ideia era tão vasta que doía pensar nela. — É inútil contar o tempo — concluiu num sussurro. Piscou devagar e, sentindo um redemoinho de vento morno na pele, virou o olhar para as árvores. As cores começavam a separar-se, a ganhar contornos
distintos, como camadas que finalmente encontravam o seu lugar. As sombras moviam-se com uma cadência própria, não seguindo o sol, mas algo mais profundo. O cantar dos pássaros vinha em ondulações curtas, como fragmentos de um ritmo que lhe escapava. Por um instante, viu tudo — cada mudança ínfima, cada vibração, cada micro movimento que antes lhe passava despercebido. Não era o mundo que abrandava, e sim ela que o acompanhava na velocidade certa. Sílvia pensou nos dias anteriores, nos momentos em que se deixava cair para dentro de si mesma, sentada na relva ou encostada a uma árvore. Nunca tinha procurado nada, apenas deixava que o mundo acontecesse. Nesse instante, percebeu algo que nunca fora capaz de formular: Aqueles momentos em que se perdia no silêncio, nas cores, nos cheiros não eram apenas pausas. Eram passagens. Pontes que se abriam quando deixava de tentar compreender o mundo e se limitava a ouvi-lo. Olhou para a relva, para os caules das flores, para as partículas de pó dourado a flutuar no ar — e, pela primeira vez, viu que cada uma delas tinha o próprio ritmo, a sua própria dança, como pequenos mundos dentro de um mundo maior. Um grito de um melro ecoou no ar. Sílvia continuava no pátio da sua casa. À sua volta tudo parecia igual, mas ela sabia que não. Não se trata do tempo a passar, mas do que se faz para aproveitar cada momento, mesmo que seja a não fazer nada.
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PER FICTA, RESISTERE NO BEIRAL DO INÚTIL
E
SUSANA FORTE
stá um pássaro no beiral da janela. Vejo da porta que dá para o interior do balcão deste bar noturno. Daqui, parece enorme. Negro, certamente, de bico pontiagudo. Deslumbra o cais e parte do rio Tejo, que aparece entre prédios. Não sente vertigens pela altitude em que nos encontramos, sexto andar para as traseiras. Pego no copo de whisky de que me servi assim que entrei. O pôr-do-sol vislumbra-se em tons dourados, por cima dos telhados. Sei que me vê, pelo alcance natural da sua constituição de pássaro. Aproximo-me devagar, sem fazer barulho. Um esgar de olhos na minha direção. Levanta a poupa da cabeça, mas deixa-se ficar de costas para mim. Paro a meio caminho e dou um golo no copo de vidro que guardo para mim, escondido na prateleira por baixo do balcão. Este é só meu. É especial. Continuo a minha passada singela até me aproximar do parapeito da janela, já bem perto dele. Um corvo, quem diria. — Que fazes aqui? — perguntei, sem olhar na sua direção. Pelo olhar periférico, também o distingo. Sei que iniciou um contacto qualquer apenas pela intensidade dos seus olhos negros. E, por momentos, ambos ficamos a fitar o horizonte, assistindo ao anoitecer determinado. Lá atrás, chamaram o meu nome, no momento em que levei de novo o copo à boca. Com o susto, umas gotas saltaram, deleitando-se nas penas finas, negras com aquele brilho azulado que precede a noite. O meu novo amigo ressentiu-se e dali voou para parte incerta. Um momento só nosso, interrompido. Ainda penso se entendeu a minha retórica de pensamentos. Falei da noite que me espera; do amor por quem se afasta cada vez mais de mim; da música alta, que em pouco tempo seria audível pela janela; das putas,
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Palavrar | Número 10
«Pelo olhar periférico, também o distingo. Sei que iniciou um contacto qualquer apenas pela intensidade dos seus olhos negros.»
dos proxenetas e gays de maquilhagens perversas e desbotadas pelo suor da noite, que em breve entrariam no nosso bar; e da porrada e novos tiros e sirenes de carros de polícia que ouviríamos já de madrugada, ali mesmo por baixo, na Rua da Rosa, em frente às portas dos bares que ambos vislumbramos, enquanto conversamos neste mesmo parapeito. Ainda senti parte da sua asa na minha pele, como se insistisse em deixar a marca do seu ser em mim. Um aviso discreto. Sim, eu entendi. Entendi pela minha sombra no seu olhar e pelo tom azulado que o seu negrume se diluiu, já de asas abertas pelo céu do Cais do Sodré. Tu, certamente, vais pensar que foi uma conversa inútil; já eu penso de outra forma. É no que o mundo chama de inútil que reside o que ainda o sustenta — o olhar, o pressentimento, o gesto sem proveito. A verdadeira utilidade é essa: permanecer desperto quando todos dormem. O pássaro tem a sua sabedoria anciã. A sua palavra, os seus sinais, a sua herança, os seus dizeres, uma energia muito própria de contacto e, em alguns, os sinais de aviso, de caça, de ADN.
Este meu novo amigo é conhecedor do mundo — diria mesmo, do universo. Corvos são energia enigmática. Conversadores natos. Sabedores de segredos. Aos demais, parece um ser inútil, mas, para os sábios, bruxos e curandeiros, é o seu amigo de estimação. Aquele que permanece engaiolado no coração e a quem se entregam as chaves noturnas, por precaução. Por defesa, pelo espírito enigmático e por aviso. Aquele que nos desperta. O que anuncia um perigo iminente, uma desconfiança ou um evento qualquer por desconexão. Útil, portanto. Dirijo-me ao balcão. Bicas e italianas precisam de ser servidas aos primeiros clientes deste final de tarde. As putas, sentadas nas mesas, guardam a malha que tecia gorros e vestes para os netos. Todas, menos uma. Senta-se sempre na mesma mesa e na mesma cadeira, de frente para a passagem do extenso bar, bem encostada à parede amarelada pelas longas fumaças que os demais não se inibem em expirar pela noite fora. Ali, todas as tardes em que o bar abre, lê revistas ou tece coisas sem nexo em cores de restos de lãs, que lhe são oferecidas pela loja dos lavores lá em baixo, perto da esquina, à direita do cais. Notei que hoje olhou muitas vezes para mim e que, num curto espaço de horas, me pediu pelo menos três italianas, que bebeu de um trago. Desta vez sorri, e convida-me a sentar junto a ela por um momento, enquanto ainda há tempo, antes de a noite cair por inteiro lá fora e o seu horário de trabalho iniciar. Não questiono, apenas me sento com a curiosidade de uma jovem nas mãos da puta mais velha da casa, que comedidamente se deixa abraçar pelas piadas de todos e pelo carinho que as palavras trazem perante si. Talvez pela sua idade, e também pela sua compostura de excelência, que nunca vi abandonar. — Desculpa se me intrometo, mas és tão jovem e bonita. A segunda senhora da casa — disse, com olhar ternurento e sorriso sincero nos lábios. E continuou: — A verdade é que já és namorada do Rui há bastante tempo, e quero que saibas que todas te respeitamos. Limito-me a sorrir e a agradecer com a cabeça. Um homem corpulento, de calças e blusão de ganga, rosto redondo e sobrancelhas unidas, entra na sala. Olha em volta, imaginando eu, à procura de
uma mesa para uma cerveja de final de tarde ou à procura de alguém. Fica ainda alguns momentos em pé, até que, murcha um pouco o corpo e numa tentativa de arrastar os pés, vem até mim, dobrando-se até os seus lábios encontrarem o meu ouvido. Inclino ligeiramente a cabeça, de forma a ouvir o que me dizia, mas sem conclusão. — Desculpe, mas não entendi. Ele, que está hirto, embora com olhar de menino perdido, volta a dobrar-se sobre mim, para de novo repetir as suas palavras, as quais, desafortunadamente, volto a não conseguir entender. Notoriamente frustrado, remexe os punhos, apertando-os até os nós dos dedos ficarem rosados. É a derradeira tentativa. Uma terceira vez, estimulada por algum fator que eu não entendo. No mesmo momento, vejo a mulher sentada à minha frente abrir muito os olhos e desatar numa gritaria que me assusta e confunde. Dou por ele a sair porta fora com a rapidez de um rato. Afinal de contas, só queria saber quanto é que eu levo pela hora. As putas que ainda restam no local discutem entre si, com calúnias e zanga natural de mãe ou avó, na defesa da menina, que é, afinal, a dona da casa, nada tendo a ver com uma das profissões mais velhas do mundo — a delas. Confesso que me sinto lisonjeada. Não é todos os dias que se assiste a algo assim. Acabamos por dar umas boas gargalhadas, antes de saírem para a já noite escura lá fora. Com a saída delas, entram pela porta, com grande euforia, os pseudo-travestis, plumas ao pescoço, olhos carregados de lápis azul, pestanas falsas e batom rosa. Até acho sublime para a noite que nos espera, com Super Bock sempre a sair pela boca do balão em direção às mesas lambuzadas com o açúcar misturado na cevada. Uma algazarra. Em breve, toca na pequena aparelhagem “Ponho água fresca numa jarra, dentro do meu quarto e junto à cama, se alguém te perguntar de quem são, responde que elas são de quem te ama.” E com a música começa o choro de tantos que se encontram pela sala. Caras esborratadas de azul e preto. Abraços apertados e danças folclóricas. Os gritos ouvem-se lá fora, seis andares antes do chão. Olho à minha volta com o olhar noturno de um corvo sedento por apanhar alguém em falta. Um roubo, um estalo, um grito ou um mero apalpão mal dado. Inútil.
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PER FICTA, RESISTERE | NO BEIRAL DO INÚTIL
Amanhã vão repetir o mesmo choro, as mesmas gargalhadas, os mesmos apalpões e as mesmas putas, proxenetas e paneleiros na sala. Nunca nada muda. Só as histórias da rua, que mesmo assim se mantêm inigualáveis em noites constantes. Ora hoje, ora amanhã. São duas da manhã, e a sala mantém-se ao rubro. Já nem consigo aceitar que me ofereçam flores. Acompanho a noite com um whisky na mão — ou dois,
«A rapariga grita enquanto é empurrada contra a porta fechada do prédio à nossa frente. Vejo a mão dele nas costas dela enquanto esborracha a cara da miúda contra a madeira envelhecida pelo tempo. Com a outra mão, rasga as vestes por debaixo do vestido, enquanto a penetra com brusquidão. Mesmo do sexto andar, consigo entender a saliva que ela cospe de raiva.»
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Palavrar | Número 10
Susana Forte
ou três — até que os joelhos se dobrem sem pedir licença. Que desperdício. Tantas vidas, tantos mestres — é o que me passa pela cabeça de quando em vez. Aos poucos, soltam as amarras deste local mais barato para se distribuírem pelos bares com música alta, a fingirem-se de discotecas prontas para receber marinheiros que outros ventos trazem além-mar. Chegam de boinas brancas e papo azul. Inundam o espaço, aproveitando-se das nossas pessoas, com o errado pensamento de que somos de borla. Relembro o dia em que o porta-aviões americano atracou em Belém. Um corrupio de miúdas giras em cada esquina por toda a baixa da cidade, já de mãos dadas e beijos lânguidos às fardas brancas, que sabiam de antemão que nunca mais veriam. Mas nós somos assim — um povo que não teme jogar a sorte nas mãos do além. Da janela, ouve-se o reggae sempre que a porta do Jamaica deixa entrar mais uma trupe de ganzados. O costume. A moda da voz do morto Jim Morrison, dos Doors, com Light My Fire a sair pelas colunas gritantes. É inconfundível — mas quem não gosta? Estão todos lá em baixo. Ouvem-se gritos, enquanto passos em corrida aumentam na rua adjacente aos bares. Corro para a janela aberta de par em par, debruçando-me na intenção de ver o que se passa. A rapariga grita enquanto é empurrada contra a porta fechada do prédio à nossa frente. Vejo a mão dele nas costas dela enquanto esborracha a cara da miúda contra a madeira envelhecida pelo tempo. Com a outra mão, rasga as vestes por debaixo do vestido, enquanto a penetra com brusquidão. Mesmo do sexto andar, consigo entender a saliva que ela cospe de raiva. Ele termina de forma abrutalhada, largando-a para abotoar a braguilha. A gritaria voltou ao eco da noite, entre palavras como: “cabrão” e “filho da puta”. A cena repete-se — desta vez é ela a correr atrás dele, numa tentativa de socos no ar, enquanto ele foge à sua frente. Há uma ordem secreta nas coisas que o mundo descarta. Pensei no meu amigo esvoaçante. Deve estar no topo de um qualquer telhado, a assistir a toda esta inutilidade dentro de tantas vidas úteis que por aqui passam.
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IN METU, VERITAS PAZ
ADRIEN LOCHON
A
cordei sobressaltada de novo. O sonho é sempre o mesmo: algures na floresta, onde o verde-escuro dos pinheiros contrasta com o nevoeiro que envolve os troncos. Primeiro, há apenas silêncio, o som subtil do vento que se move sem pressa, o eco longínquo de um pássaro, interrompido por um som que não pertence ali. Um passo. E depois outro. E outro. Lentos e ritmados. Reconheço estes passos. Ouvi-os vezes sem conta, antes de ires para a guerra. Depois, nunca mais os ouvi. Procuro-te na névoa, mas a floresta move-se, e o som dos passos torna-se mais ténue. Caminho na sua direcção, mas deixo de os ouvir. Corro até não conseguir mais, embrenhada na névoa cada vez mais espessa, e sento-me junto a uma árvore, perdida. Quando ouço de novo o som de passos, já não os reconheço. Não és tu. Não sei quem é. Não sei o que é. Uma mão toca-me no ombro nu, e acordo ofegante. A noite pintou o quarto de escuridão, e a luz da Lua entra pela janela e abate-se sobre a manta pesada em cima da cama. Lá fora, a floresta dorme calma numa noite como qualquer outra. Cá dentro, o coração acelerado faz-me prestar atenção a todos os sons, mas nenhum está fora do sítio. O velho relógio de pêndulo no corredor mantém o ritmo monótono, como uma canção de embalar antiga; o som das minhas mãos ásperas a alisarem as pregas no cobertor sobre o meu peito; a minha respiração pesada, que vai e vem contra as paredes da pequena divisão. Tudo parece bem. Mas há algo de errado. Quando tudo começou, o sonho acabava mais cedo. A primeira vez que o tive, acabou assim que ouvi os passos. De tal modo que, quando acordei, tentei adormecer de novo, rapidamente, na esperança de continuar onde tinha parado. Mas o sonho só voltou na noite seguinte. Voltou todas as noites depois dessa. E a cada vez, os passos se aproximavam mais. e o desespero se tornava maior. Hoje… Hoje, foi a
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primeira vez que aquilo me tocou. Ao acordar, era como se ainda sentisse aquela mão no ombro, fria e quente ao mesmo tempo. Não o consigo ver, na escuridão, mas sei que deixei o terço em cima da mesa-de-cabeceira, como sempre fiz. Não é nele, no entanto, que procuro conforto. A seu lado, há uma fotografia do nosso dia de casamento. As décadas esbateram os traços das pessoas que éramos na foto, mas não de forma tão violenta como o tempo tratou as pessoas que para ela olham. É irónico como me revejo mais facilmente na rapariga que era na foto do que na velha que vejo ao espelho. E, no sonho, sou essa rapariga, ainda capaz de correr. A ti, a guerra roubou-te a velhice; a mim, ofereceu-me solidão. Os miúdos cresceram e ainda visitam, mas não há como tapar o vazio que deixaste. Os olhos querem chorar, talvez mais por hábito do que por necessidade. A boca quer engolir, mas a garganta está seca. Junto forças para lidar com as dores que o levantar da cama traz, e beber um copo de água na cozinha, mas o corpo não reage quando me tento mexer. Primeiro, sorrio: anda lá, velhota! Tento de novo, e de novo, e sou incapaz de me mover. Uma bolinha de pânico começa a rodopiar no meu peito. E dói. Tento erguer as mãos, pousadas no peito, por cima do cobertor, mas também elas dormem, imperturbáveis. Olho para os pés quando os tento mexer, mas nem isso consigo. Só que… Terá sido mesmo? Terei visto algo a mover-se aos pés da cama? Uma sombra irrequieta? A bolinha de pânico cresce no peito e borbulha agora violentamente. Dói muito. Sinto o toque frio e quente da sombra quando passa nos meus pés. Serpenteia pelo chão, como uma cobra, e trepa pelo canto do quarto. Tento respirar, mas é cada vez mais difícil. A dor no peito agarra-se aos pulmões, ao coração, ao estômago, e aperta-
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Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins
-me. Quero virar-me, quero apertar o peito, quero respirar, mas o corpo recusa-se. Imóvel, vejo-me obrigada a ver a sombra rastejar no canto, agarrar-se às paredes, alongar-se no tecto enquanto o pânico me rasga por dentro, como facas, tentando sair de mim. Quero gritar, mas não consigo. Dói tanto. Ajuda-me! … Desapareceu! Não… Fui eu… Onde é que estou? Já não dói. Estou no quarto, de pé, ao lado da cama. A manhã calma entra pela janela. Ouço um som lá fora, mas não tenho medo. Sei que são os miúdos. Ouço os filhos deles irromper pela porta de entrada. Ouço-os chamar por mim, e uma voz a dizer que o pai vai ver se a avó está acordada. Ele entra no quarto e vê-me, como eu me vejo agora, deitada na cama, quieta, de mãos pousadas no peito e sobre o cobertor sem pregas. E sabe logo. Quando o médico chegou, chamou-lhe «uma morte santa». Ouço de novo aquele som. «Como a mãe dela», diz o meu mais velho. «Era como ela queria ir», diz a mais nova, enquanto limpa as lágrimas e aperta o filho contra si. E ouço novamente o som. Vejo as pessoas vestidas de preto chorarem ao pé do caixão. Sei que hoje é por necessidade, mas um dia será apenas por hábito. E vai passar. Ouço o som mais uma vez, e agora sei o que é. Não é como no sonho. Não. És mesmo tu, não és? Sigo o som dos passos e, atrás, ouço os miúdos, abençoados pela ignorância, confortarem os que choram, dizendo que morri em paz. A pedido do Autor, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
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IN METU, VERITAS TINNITUS
CARLOS FILIPE MATOS
A
primeira instrução dizia «de noite», mas não mencionava horas. E eu não estava sozinho, como devia. Na fila da frente, estavam duas senhoras ajoelhadas em oração. Voltaria noutro dia, se nada acontecesse. O normal seria ajoelhar-me no corredor, benzer-me e escolher um dos bancos à direita ou à esquerda. No entanto, sou ateu e estava com medo do que viesse a seguir. Escolhi a última fila à esquerda e continuei até à ponta do banco, afastando-me da entrada. A madeira estalou quando me sentei. Limpei as lágrimas sem tirar os óculos e respirei fundo, tentando acalmar-me. Concentrei-me na enorme estátua do Judeu crucificado na parede do altar. Algures naquela reprodução visceral, estaria retratado o símbolo da paz, do amor e da entrega. O desespero arrastou-me até ali, após dezenas de terapias inovadoras, ancestrais e duvidosas. Tomei medicamentos científicos, homeopáticos e esotéricos. Recebi palavras encorajadoras de quem desconhece o som do Inferno, um zumbido ininterrupto nos ouvidos que rapidamente me levou à loucura. O barulho à minha volta abafava-o, mas o silêncio tornava-o ensurdecedor. Só conseguia dormir quando o meu corpo se desligava por exaustão, para depois acordar novamente com aquele som a perfurar-me os tímpanos. À minha volta, temiam por mim, e eu temia por não saber quanto mais tempo aguentaria. Então, tirei o papiro do bolso. Não conseguia perceber se era real; podia ser apenas papel caro comprado numa papelaria. Talvez fosse uma burla — mas essas, por norma, envolvem dinheiro. De repente, apercebi-me do completo silêncio. Deixara de ouvir a noite citadina que invadia a santidade da igreja: sirenes, apitos, drogados que se insultavam, pneus a escorregar na estrada molhada.
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Apesar das distrações, o zumbido ali estava, e parecia querer vingar-se na ausência de som. Ou, talvez, por saber o que ia acontecer. Thuc. Thuc. Toc. Thuc. Toc. Thuc. O som vinha lá de fora. Toc. Thuc. Thuc. Virei a cabeça para a entrada. Os passos ecoavam pela igreja como se esta tivesse apenas paredes e tecto. Toc. Thuc. Toc. Uma sombra surgiu, estendendo-se pelo corredor. Os bancos rangeram; as velhotas levantavam-se. Uma delas olhou para trás, ambas afastando-se tão rapidamente quanto a idade lhes permitia. Os meus olhos seguiram-nas enquanto iam murmurando pelo outro corredor, desaparecendo pela entrada secundária. Nesse momento, um cheiro a podre fez-me arder as narinas. Olhei para a entrada principal. As moscas entraram primeiro. A segui-las, vestida de negro e descalça, de costas arqueadas e apoiada numa bengala, vinha uma beata. O véu deixava apenas a boca e os dentes a descoberto. A velha só avançou quando lhe devolvi o sorriso nervosamente. Voltei-me para a frente, desconcertado, e senti as lentes dos óculos a serem atingidas por algo. Depois, os olhos. As moscas estavam em cima de mim. Dançando, ou lutando entre si, as suas
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minúsculas asas arranhavam-me as pálpebras. Tirei os óculos e consegui afastá-las. Esfreguei os olhos enquanto a visão turva identificava uma mudança no altar. Voltei a colocar os óculos e imediatamente recuei contra o encosto, empurrando o banco para trás. A vela alta caíra contra a mesa central, e o pano começara a arder. A cabeça do Nazareno crucificado mexia freneticamente, de boca aberta, numa súplica agonizante. A coroa de espinhos fazia-lhe o escalpe sangrar pela cara abaixo. Dos pregos nas mãos da estátua, escorriam fios vermelhos que pingavam e desciam pelos braços magros. Tentei levantar-me, mas o peso de uma mão no ombro direito tirou-me as forças. Virei-me e vi a beata sentada na outra ponta do banco, pelo menos a oito metros, de cabeça virada na minha direcção e lábios esticados num sorriso profano. Vi-lhe a mão regressar à bengala. Olhei para trás. Teria sido a velha? Teria realmente sentido o toque no ombro…? A velha levantou-se e caminhou lentamente para a entrada. As moscas saíram depois. Corri para casa com o telemóvel na mão; os bombeiros não demoraram. O papiro, que chegou sem remetente há uma semana, num envelope selado a lacre, estava escrito à mão com três instruções, sendo que a primeira me dizia para entrar na igreja local à noite. Quando voltei a lê-lo, no entanto, essa instrução desaparecera. *** No dia seguinte, soube que os bombeiros não tinham feito nada. Não houvera nenhum incêndio. Em casa, à noite, eram três da manhã quando me bateram à porta. Para evitar a luz da sala, usei a lanterna do relógio. Não vi ninguém pelo visor. Moro num prédio seguro, onde só se abrem portas a en-
Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins
comendas de comida ou ao correio. Estava a tremer. Talvez houvesse outra carta no tapete da entrada. Agarrei as chaves em cima da cómoda e, ao inseri-la na fechadura, ouvi uma porta a destrancar-se atrás de mim. Virei-me, mas parei a tempo, lembrando-me da segunda instrução: «Quando a porta se abrir, não te podes virar. Em nenhuma circunstância, poderás voltar a olhar por cima do ombro, depois o sentires.» Houve um som vagaroso, metálico e estridente, de uma porta enferrujada a raspar no chão. O meu coração pulsava-me nos ouvidos e na garganta, enquanto o suor, mesmo no frio do Inverno, me escorria pelas costas. Pensei que morreria ali mesmo, sem conseguir largar a maçaneta. Não sei quanto tempo passou, mas perdi as forças quando ouvi os passos. O medo impediu-me de virar. De respirar. Alguém se arrastava devagar pela sala. Tinham passado dez segundos? Sessenta? O som parou atrás de mim. E, então, senti alguém a respirar. *** Passo os dias a mexer e a remexer o papiro com os dedos, dentro dos bolsos do casaco, lembrando-me da única instrução que resta: «Para desistires do contrato, sangra para a capa de uma Bíblia, frente e verso. Deita-lhe fogo, mas não deixes arder tudo. Entra na mesma igreja à noite. Deixa a Bíblia no altar.» Agora, onde quer que esteja, a respiração está comigo. Para onde quer que vá, os passos rastejam, constantemente atrás de mim. Mas o zumbido desapareceu. A pedido do Autor, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
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IN METU, VERITAS RELICÁRIO
INÊS
VIDEIRA
A
s escadas de pedra de Ançã encaminhavam Sofia para as catacumbas frias da igreja da sua paróquia. A tia seguia uns degraus abaixo, imune à nuvem de bafio e pó que adensava o ar. Havia apenas um postigo, por onde se viam os pés das pessoas que passavam lá fora, e as paredes estavam forradas com pequenos relicários de um dourado gasto, ossos emoldurados de santos que Sofia desconhecia. E, ao fundo, em exposição numa vitrina, estava a peça mais importante de toda a coleção. Corpo incorrupto, o caraças! pensou Sofia, franzindo o nariz. Milagrosa ou não, aquilo era uma carcaça. E o fulano até podia ter sido santo, mas há muitos, muitos séculos. Aquilo que tinha sido pele já não era mais do que algo seco, escuro e empedernido. Nem os véus e adornos de brocado vermelho e rendas imaculadas o tornavam menos desagradável à vista. — Vai ver e diz-me se estou doida. — A tia empurrou-a até à vitrina. Sofia achava estranha a posição da múmia, de pé, presa por arames. Não lhe parecia muito digno de um santo ter camarões prateados enroscados nos ossos secos, para o segurarem a um caixão vertical, mas ela não entendia nada de igreja. Estava ali como representante máxima da comunidade dos céticos e ateus, a segunda melhor instituição para confirmar um milagre, logo a seguir ao Vaticano. Por isso, puxou um pequeno escadote que havia ali ao lado e subiu dois degraus, para ficar cara a cara com a relíquia. A tia benzeu-se. — Tem cuidado. Essa vitrina é nova. Na semana passada, a Lurdes caiu do escadote e partiu a outra. Cortou-se toda, teve de levar uma data de pontos. Para trocar o vidro, foi uma fortuna. — Sofia revirou os olhos. — E não me faças essa cara, quero ver de onde é que vamos tirar o dinheiro para mandar enfeitar os andores este ano!
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— E foi depois de trocarem o vidro que… — Olhou para a placa desgastada com o nome do santo: SANTO ELIAS DAS ASTÚRIAS. — …o Elizinho ficou diferente? — Respeito, cachopa! — Ele não se importa. Como estamos assim, próximos um do outro, já somos amigos. — A tia enrugou a testa, quase fazendo os pequenos olhos desaparecer entre as gelhas do rosto. — Sabes que, se o vidro é novo, podes estar a ver diferenças por causa do reflexo. — Olha bem! Sofia respirou fundo e fez a vontade à tia. Aproximou-se até o nariz tocar no vidro, criando uma
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pequena auréola embaciada que limpou com a manga. Acendeu a lanterna do telemóvel e apontou-a à boca semiaberta do santo. A sua expressão caiu. Desequilibrou-se no escadote, mas a tia amparou-a. Aquilo tinha língua. — Eu não disse que estava estranho? Sofia olhou para a tia, incrédula. A senhora rejubilava como se aquele pequeno milagre fosse uma coisa boa, sem ver a aberração daquela língua a mexer-se, um movimento compassado de vai-e-vem, semelhante ao de um bebé que procura a mama da mãe. Desceu um degrau do escadote. E deixou a comunidade dos céticos e ateus. Desceu o segundo. E o cérebro tentou encontrar uma explicação. Desceu até sentir o chão a estender-se de novo debaixo dos pés. E ouviu-se um estalido. A tia estremeceu ao ver a cabeça da relíquia pender, com o arame partido atrás. — Que chatice! Vamos ter de chamar o Sr. Padre para trocar isto. — Tirou uma chave do bolso e inseriu-a na fechadura da vitrina. — Não! — Outro estalo. Agora, era um braço que estava livre. A voz de Sofia saía-lhe pequena, como se a noz que sentia no fundo da garganta a impedisse de a projetar. — Não abras isso. — Essa agora! Vou ver se consigo juntar os arames até o Sr. Padre os trocar por uns novos. — Sofia segurou a mão da idosa, que descartou, com uma sacudidela, a preocupação da jovem. — Não me digas que te faz impressão? É um santo, uma coisa de Deus. Não há que ter nojo! Outro estalo, que a tia não ouviu, porque se misturou com o som de metal a raspar em metal. Depois, o clique da fechadura a ser aberta. A porta de vidro abriu para trás sem som e sem resistência, nova e bem oleada. Sofia podia jurar que,
Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins
conforme a tia se aproximava do santo, as suas pálpebras fechadas e ressequidas estremeciam. — Ai, chiça! — A tia levou a mão à boca. Tinha-se picado no arame partido. — Vá, vamos embora. Tens de desinfetar isso. — Para lá com as mariquices! O que é santo não nos adoece. — Apertou o dedo um pouco, fazendo sair pela pele uma pequena missanga escarlate. — Vês? Isto nem para medir a diabetes dava. Mas foi o suficiente. Os restantes arames partiram. Uma mão fina e escurecida agarrou com força o pulso da idosa, e levou o dedo furado à boca, sorvendo a gota de sangue com aquela língua meio morta. A relíquia atirou a velha senhora, de olhos esbugalhados e sem voz, contra a porta aberta da vitrina, que partiu de imediato. A cascata de vidros deixou um caminho de cortes no rosto da senhora, que a criatura lambeu, até que os movimentos entorpecidos por séculos começaram a ficar mais fluídos. Sofia pegou no escadote, pronta a arremessá-lo contra aquela coisa, mas uma mão deteve-a. Aquilo abriu as pálpebras, revelando olhos brancos que se assemelhavam aos de um peixe morto, e que iam raiando de vermelho, com pequenos capilares do sangue que pedira emprestado à sua vítima. Depois, os dentes cresceram. E enterraram-se no pescoço da velha. Sofia deu meia-volta para subir as escadas de pedra e pedir ajuda, mas logo ficou de novo frente a frente com a coisa, que se tinha atravessado à frente dela com uma velocidade desumana. Foi agarrada pelo pescoço e deixou, involuntariamente, cair a cabeça para trás. Olhou para o postigo. Àquela hora, não havia pés a passar pela calçada. Estranho pensamento para ter quando se morre. E deixou-se ir.
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IN METU, VERITAS A MÃE QUE ALIMENTA
IVO
PIRES
—
Estou a dizer-te que há alguma coisa errada! — insisto, esforçando-me para não elevar a minha voz exasperada acima de um sussurro. Não posso falar mais alto e correr o risco de acordar o bebé. Não quando finalmente o consegui adormecer, depois de horas de gritos e choradeira. Do outro lado da linha, ouço o meu marido escarnecer. — Vá lá, querida, não estás a exagerar? É mesmo assim, os bebés choram. Não têm outra forma de comunicar! Claro que falar é fácil quando se está a quilómetros de casa, numa viagem de negócios, sem uma cria de mês e meio a exigir atenção constante. Guardo esse comentário para mim. Falta-me a energia para discutir. — Vamos levá-lo ao pediatra assim que voltares — informo, decidida. — O bebé não dorme, está sempre a acordar aos berros, sempre a querer mamar… — Mas vamos ao pediatra fazer o quê?! — retruca o meu marido. — Ainda há pouco lá estivemos. E ouviste o que ele disse tão bem como eu! Se o bebé quer mamar, então damos-lhe de mamar. — O pediatra também disse que devíamos espaçar as mamadas duas a três horas! — recordo-o, num tom mordaz. — Ele, às vezes, nem meia hora dorme! E se o… E se o meu leite não estiver em condições? Liberto, por fim, o receio que me atormenta desde que aquela pequena criatura veio ao mundo. — Não sejas tonta, o teu leite está óptimo! — afirma o meu marido, o especialista. — Não sei… Parece que nunca o deixa saciado… — É um pico de crescimento — insiste ele, como se percebesse alguma coisa do assunto, como se tivesse lido tanto quanto eu li sobre isto, como se fossem dele os mamilos gretados pela amamentação constante. — Se ele tem fome, dás-lhe a mama e pronto!
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Palavrar | Número 10
— Eu preciso de descansar! — Estou tão exausta que, desta vez, não consigo evitar gritar. Lanço um olhar amedrontado na direcção do berço, mas por sorte não acordei o bebé. — Vá lá, querida, tem lá calma. — A voz do meu marido reveste-se daquele tom que eu detesto. Aquele que ele considera compreensivo, mas que, na realidade, é condescendente. — É claro que tens de descansar… Amamentar exige muito de ti. Tens de aproveitar para dormir quando o bebé dorme. — Mas tu ouves o que eu estou a dizer?! — A incredulidade manifesta-se numa pequena gargalhada de puro desespero. — O bebé não dorme! — Ele está a dormir agora, não está? Podias estar a descansar. Mas preferiste ligar para me moer o juízo! Não tenho paciência para uma discussão. Respiro fundo e passo ao que interessa.
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— Quando é que voltas? — Já te disse. Só na quinta-feira. — Hoje é o quê? Quarta? — Na minha cabeça, os dias misturam-se todos. Nem faço ideia de que horas são. — Não, hoje ainda é terça. — Solta um suspiro. — Ouve, queres que diga à minha mãe para passar por aí? — Não é preciso — respondo de imediato. Não preciso dela aqui a observar-me, a tecer julgamentos, a corrigir tudo o que eu faço. Não, obrigado. — Tu é que sabes… — Outra vez, aquele tom; o tom que me pinta como dramática, que me acusa de criar problemas e rejeitar soluções. — Tenho de ir, vou ter uma reunião. — Vai lá — digo secamente. Ele desliga sem se despedir. Não gosta que o incomode com os meus problemas. Estendo-me no sofá e fecho os olhos por um bocado. Tenho de dormir quando o bebé dorme, não é verdade? O choro dele não tarda a despertar-me. Novamente aquele apetite voraz que me impede de espaçar as mamadas como o pediatra sugeriu. Terei dormido quinze minutos, sequer? Não pode ter sido tanto, ainda me sinto mais cansada do que quando me deitei. Mal consigo organizar os pensamentos. — A mãe já vai — anuncio, com uma ternura que pouco faz para disfarçar o cansaço. Arrasto-me até ao berço e debruço-me para pegar no meu filho. Ele concede-me um precioso segundo de silêncio ao avistar os meus seios. É só isso que sou para ele, uma fonte de alimento. Sem aviso, o choro regressa em dobro, reclamando aquilo que era seu e tardava. Tomo-o no colo, entre berros e soluços, e encosto-o ao mamilo, que ele abocanha com sofreguidão. Segue-se uma paz efémera enquanto ele me drena
Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins
uma vez mais. Ao fim de uns instantes, porém, atira a cabeça para trás e entrega-se a novo pranto. Troco-o de mama, mas o resultado é semelhante. Tal como eu temia. Não vale a pena continuar a enganar-me, o meu leite secou. Não admira que o pobrezinho esteja sempre esfomeado, o meu leite já devia estar fraco há dias. Estou a dar fome ao meu filho. Ele grita com um choro cada vez mais incomodativo. Quer comida, quer vida. Exige saber porque lhe nego o alimento. — Calma, bebé, calma — cantarolo enquanto o embalo nos braços, tentando que sossegue. Fecho os olhos uns instantes… Preciso de silêncio… Preciso de pensar… Ele não colabora. A sede é grande, a fome dói-lhe. — O que é que eu posso fazer? — pergunto-lhe, sabendo que ele não terá resposta. Eu é que devia ter as respostas, eu é que sou a mãe. Mas não consigo pensar, não com este alarido. Estou tão cansada… Ele continua a gritar. A comida não chega, a vida esvai-se. Preciso de alimentar o meu filho. É a minha função, o meu papel. Só eu o posso fazer. Não o meu marido, e certamente não a minha sogra. Apenas eu, a mãe. A mãe que alimenta, que sustenta, que sangra. É então que a solução desce sobre mim. Ao som de uma gritaria crescente, cambaleio até à cozinha e abro uma gaveta. Sirvo-me de uma tesoura e, num único movimento, corto o meu mamilo fora. Encosto, por fim, a besta esfomeada ao peito e fico a observar, embevecida, enquanto ele mama com satisfação, sangue escorrendo-lhe pelos cantos da boca, bebendo a vida através de mim. A pedido do Autor, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
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PÉS DE PETIZ O MISTÉRIO DAS MEIAS DESAPARECIDAS
N
ANA MARIA COSTA
a casa da Maria, como em todas as casas, as meias rompiam-se. As dela, as da mãe, as do pai e, sobretudo, as dos dois irmãos mais novos, que adoravam jogar futebol. De todas as vezes que ajudava a mãe a dobrar as meias, encontrava alguma furada que, inevitavelmente, ia parar ao “meião”, na esperança de algum dia vir a ser útil. O cesto estava num cantinho da casa de banho e, naquele dia, a Maria teve a sensação de que havia menos meias lá dentro. Não deu importância, porque, de vez em quando, alguém ia tirar uma meia para fazer qualquer coisa com ela. No entanto, começou a reparar que o cesto esvaziava, em vez de encher. Perguntou à mãe se alguém andava a usar as meias, mas ninguém precisara de meias rotas nos últimos tempos. Embora fossem meias inúteis, andava a cismar no assunto. Para onde estariam a ir as meias? No dia seguinte, ao regressar da escola, quis ir brincar para o jardim e, para grande surpresa sua, encontrou, junto ao canteiro das roseiras, a meia que no dia anterior tinha colocado no “meião”. Como teria ido ali parar? Tinha a certeza de que a deixara junto das outras. Foi à casa de banho e confirmou que o cesto tinha menos meias, portanto, havia mais desaparecidas. A Maria pensou que seria alguma brincadeira dos irmãos, mas eles nunca quiseram saber de meias rotas. Mesmo assim, perguntou-lhes se tinham visto alguma meia rota. Disseram que sim e foram mostrar-lhe o “meião”. Ela riu-se. Eles só tinham cinco e três anos, respetivamente, e gostavam de mostrar o que sabiam. O Miguel, o mais velho, olhou para o cesto e teve uma ideia: agarrou numa meia, enrolou-a, meteu-a dentro de outra e voltou a enrolar. A Maria percebeu logo o que ele estava a fazer. Já não lhe chegavam as bolas que tinham, agora ainda arranjava uma bola de meias rotas.
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Palavrar | Número 10
Não foi preciso muito para andarem aos pontapés à nova bola pela casa fora. O pai, quando viu aquela animação, lembrou-se logo de o seu avô contar que em criança a única bola que tivera fora uma bola de trapos. Chamou os dois filhos e levou-os para o jardim. Jogaram os três, tentando imaginar como seria o avô em criança a jogar assim. A Maria ficou a vê-los. Podia não ter descoberto para onde iam as meias, mas de certeza que as próximas teriam uma carreira futebolística garantida. Já não eram umas inúteis. E riu-se baixinho. Sentada nas escadas, sentiu qualquer coisa a passar por ela e deu um salto. Olhou para todos os lados, mas não viu nada. Teria sido o Pantufas? Ele costuma enroscar-se nela, quando a encontra assim sentada nas escadas... Chamou por ele, mas o gato não apareceu. Não deu importância, ele tinha um temperamento muito independente e gostava de dar as suas escapadinhas. Às vezes, ficava dias sem aparecer. De repente, a bola de meias passou à sua frente em alta velocidade. O pai entusiasmara-se e dera um chuto tão grande que ela foi cair bem longe. Nas traseiras da casa, havia um terreno meio abandonado com um antigo palheiro em ruínas. Seria por ali que a bola estaria. A menina, o pai e os irmãos espalharam-se à procura. Ela avistou o Pantufas e teve curiosidade de ver para onde ele ia. Seguiu-o. O bichano entrou no celeiro e... Nem queria acreditar. Num canto estava uma espécie de ninho, feito de meias, onde o gato, com ar orgulhoso, se enroscou a uma gata, que tinha três filhotes recém-nascidos. Afinal, as escapadinhas dele eram para constituir família! Foi chamar o pai e os irmãos. Ficaram todos encantados com o que viram e os pequenos começaram logo a pedir para adotarem a família do Pantufas. O pai coçou a cabeça e disse-lhes para pedirem à mãe. A Maria saiu a correr e foi chamar a mãe. Estava tão afogueada que ela até se assustou a pensar se teria acontecido alguma coisa má. Quando a filha, enquanto a arrastava, lhe disse o que tinha encontrado, percebeu logo o que ela queria. Entraram as duas no celeiro e os dois pequenos estavam a pedir ao pai para pegarem nos gatos bebés. Mas ele explicava-lhes que ainda eram muito pequeninos, só podiam ver. Além disso, tinham de ganhar a confiança da mãe gata. Como iriam fazer? O Pantufas era pai e tinha de assumir as responsabilidades. Portanto, combinaram
«Não foi preciso muito para andarem aos pontapés à nova bola pela casa fora. O pai, quando viu aquela animação, lembrou-se logo de o seu avô contar que em criança a única bola que tivera fora uma bola de trapos. Chamou os dois filhos e levou-os para o jardim. Jogaram os três, tentando imaginar como seria o avô em criança a jogar assim. »
que deixariam os gatinhos crescer um pouco para decidirem o que fazer. Nem se lembraram mais da bola de meias! As crianças ficaram tão entusiasmadas com a ideia de terem uma família de gatos que nem dormiram naquela noite. A Maria sentia-se um detetive, pois tinha desvendado o mistério das meias desaparecidas. Agora, tinha de ser uma boa advogada para defender os direitos do Pantufas e convencer os pais a adotarem aquela família. Um argumento de peso ela já tinha: as meias rotas e inúteis passariam a ter uma utilidade muito importante.
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PÉS DE PETIZ O DRAGÃO QUE NÃO CUSPIA FOGO TERESA DANGERFIELD
E
ra uma vez um lugar tão distante que, poucas pessoas o conheciam, especialmente porque apenas quem acreditava em fadas, gnomos, unicórnios e outros seres semelhantes conseguia lá entrar. Ficava num vale cercado de montanhas. Numa delas, tão alta que às vezes obscurecia o sol, repousava um vulcão, como um gigante num sono profundo. As montanhas estavam cobertas de árvores de várias espécies, nos vales havia rios e riachos com água de uma limpidez que refletia o céu como um espelho, e revelava cada peixe que deslizava numa dança. Por toda a parte, havia casas que pareciam ter sido saídas de contos de fadas, e quem se via passar de um lado para outro tinha sempre um ar feliz. Além das casas de vários tamanhos e feitios, para acomodar os seus habitantes — podem imaginar o tamanho da casa de um dragão, ou melhor, a de uma família de dragões! — havia uma cabana muito especial para todos: a cabana do mago protetor da floresta, o Mago Nerimbo. Fadas, dragões, elfos, fosse quem fosse, todos o conheciam e passavam por lá quando precisavam de alguma coisa. Era uma espécie de loja e o mago sempre, quer dizer, quase sempre, satisfazia os pedidos de todos. Não fosse ele mágico! Nesse lindo vale cercado de montanhas, vivia uma família de dragões muito orgulhosa. Cada dragão treinava desde pequeno para cuspir labaredas gigantes e de várias cores. Era uma tradição de família, e o pai dragão tinha o troféu do dragão com o fogo mais colorido. Os pais dragões adoravam os seus filhotes, Draco, Nektar e Serafina, mas preocupavam-se com Draco, pois, por mais que treinasse, em vez de fogo, o que saía da sua boca era ...um sopro frio! Um vento tão gelado que apagava as fogueiras dos irmãos. Embora os pais não parassem de dizer que o amavam, mesmo que não cuspisse fogo, os outros dragões zombavam dele, e não era raro ouvir dizer:
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— Onde é que já se viu um dragão que não cospe fogo? Que coisa mais estranha! Seguiam-se risos, e alguns até o perseguiam com as próprias chamas. Com isso, Draco ficava triste e só queria esconder-se. Refugiava-se nas nuvens, onde podia soltar em segredo os seus sopros frios. Claro que, quando chovia e todos achavam que nunca mais parava, logo culpavam Draco. Essa era uma das razões que levavam o dragãozinho a passar mais tempo com o seu amigo Nerimbo, que lhe fizera a magia de o tornar de um tamanho mais pequeno, cada vez que ele quisesse entrar na cabana. — Nerimbo, por favor, não podes fazer uma magia para que eu consiga cuspir fogo? — pedia Draco vezes sem conta. — Querido Draco, não adianta. Já sabes que aqui todos podem encontrar o que realmente lhes faz falta. Mas não posso, nem devo, alterar o dom que te foi dado. Só não descobriste ainda a sua utilidade. Sê paciente. A inutilidade aos olhos de uns pode ser um tesouro para outros. Os dias passavam e Draco não via mudanças. Até que ouviu falar dos pinguins na Antártida. Esses sim, adoravam gelo. Tinha a certeza de que seria feliz lá. Não sabia bem onde ficava esse lugar, mas contava com a ajuda do seu amigo Nerimbo. Não foi fácil convencê-lo, contudo chegou o dia pelo qual Draco tanto ansiava. — Não sei se faço bem em ajudar-te, mas tens tudo de que precisas. Voa até à montanha mais alta que fica à esquerda do vulcão. Lá encontrarás o portal de saída desta terra. Bate as asas três vezes para passares ao mundo dos humanos e voa em direção ao sul. Descansa pelo caminho. Segundo os meus cálculos, dentro de três dias estarás na Antártida. — Obrigada, Nerimbo. Nunca te esquecerei — respondeu Draco, com lágrimas que mais se assemelhavam a pingos de gelo a escorrerem- -lhe pela
cara. Sem conseguir olhar para o amigo, afastou-se com o coração apertado. Estava quase a chegar ao portal, quando o céu começou a tremer. Será que fiz alguma coisa de errado?, questionou-se Draco. Não teve sequer tempo de pensar em mais nada, pois logo reparou que a montanha maior começou a cuspir lava e fumaça! Será possível? Dizem que há mais de cem anos que o vulcão está adormecido!, pensou Draco, num sufoco. O vulcão continuava a explodir. As chamas aumentavam, o calor crescia e a lava escorria pelo vale. Os rios começaram a secar e o ar estava a ficar sufocante. Havia um enorme alvoroço e todos corriam em direção à cabana do mago, em busca de alguma solução mágica. Mas este só lhes soube dizer: — Acho que o único que nos poderia salvar é o Draco. Mas ele partiu para a Antártida, muito triste! Já deve estar a caminho. — Para a Antártida? Onde fica, vamos lá buscá-lo, disse uma das fadas. — Vamos nós. Somos mais rápidos — disse um dos dragões. — E foi nossa culpa! — Não adianta — respondeu Nerimbo. É muito complicado e não há tempo! Ele já deve ter passado o portal... Sem querer ouvir mais, um grupo de dragões voou até ao vulcão, tentando ajudar. Cuspiam fogo, mas isso só piorava tudo. Foi então que Draco, com o coração aos pulos, mas resoluto, pensou no que o mago sempre lhe dizia: “Sê paciente. A inutilidade aos olhos de uns pode ser um tesouro para outros.” Não hesitou mais. Não podia ficar parado. Sem que os outros dragões percebessem, voou até ao topo do vulcão, abriu as asas e soprou com toda a força que conseguiu:
«Cada dragão treinava desde pequeno para cuspir labaredas gigantes e de várias cores.»
— Fuuuuuushhhh! Fuuuuuushhhh! Fuuuuuushhhh! Fez um vento tão frio que tudo começou a cobrir-se de gelo. A lava que descia foi esfriando e endureceu, até parar completamente. E o vulcão voltou a adormecer, coberto por uma fina camada de gelo brilhante. Todos os outros dragões ficaram espantados, até que o mais velho disse: — Viva o Draco! Foi ele quem salvou o vale e nos salvou a todos! Pela primeira vez, Draco sorriu, orgulhoso do seu sopro gelado. Não seria mais preciso esconder-se. Quando regressou ao vale, todos o aplaudiram. E nomearam-no guardião do vulcão e do gelo. Desde então, nunca mais ninguém se riu dele. Quando os verões eram demasiado quentes, chamavam Draco para refrescar o ar. Quando havia um incêndio fora de controle, ele era o primeiro a chegar. E assim, o dragão que se sentia inútil descobriu que o seu sopro frio era, na verdade, um dom precioso. — Tinhas razão, Nerimbo — disse Draco numa das suas visitas ao mago —, não devemos alterar os dons que nos foram dados. No fim de contas, o mundo precisa tanto de fogo quanto de gelo! — É isso mesmo, querido amigo! Todos são preciosos, à sua maneira.
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Fotografia de Alfredo Cunha
RESISTENTIA POETICA
Filipa Leal nasceu no Porto em 1979. Tem 16 livros publicados (desde 2003), entre os quais “A Cidade Líquida” ou “Vem à Quinta-feira” (já na 5ª edição) e “Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano” (na 3ª edição), ambos finalistas do Prémio Correntes d’Escritas e semifinalistas do Prémio Oceanos. A sua obra está editada em Espanha, no Brasil, na Colômbia, em França (com a plaquete “La Ville Oubliée”), na Polónia, no Luxemburgo e na Grécia, e representada em várias antologias em Portugal e no estrangeiro. Formada em Jornalismo pela Universidade de Westminster (Londres), é Mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras do Porto, aonde voltou em 2013 para uma formação em escrita de argumento. Em 2010, teve um dos seus poemas exposto no Metro de Varsóvia, na iniciativa «Poems on the Underground». Em 2012 e 2014, representou Portugal em Berlim – no Festival de Poesia de Berlim e na Conferência dos Escritores Europeus 2014/Long Night of European Literature, no âmbito da qual fez uma leitura dos seus poemas no Deutsches Theater. Em 2016, foi a poeta portuguesa que integrou uma instalação
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sonora europeia na British Library, em Londres, com o poema "Hoje, também os carros dançam ". Em 2023, o poema “Quanto tempo para o intervalo” esteve exposto na Polónia na iniciativa “Poems in the City”. A 5 de Maio de 2025, representou Portugal na Casa da Poesia de Berlim, com uma leitura de poemas seus, no Dia Mundial da Língua Portuguesa. Nos últimos 16 anos, colaborou nos programas de televisão, da RTP2, “Câmara Clara” (“Diário Câmara Clara”); “Agora Literatura”; “Literatura Aqui” (Prémio SPA 2017 para Melhor Programa de Entretenimento); “Nada Será como Dante”; e “A Pequena Biblioteca” (desde Abril 2025, no qual é responsável pela escrita e apresentação). Antes disso, passou pela Rádio Nova (Porto); foi editora do suplemento literário “das Artes, das Letras” no jornal O Primeiro de Janeiro; colaborou com a revista “Os Meus Livros” e com a revista “Pessoa”, da Casa Fernando Pessoa, entre outras. Desde 2003, participa regularmente em recitais de poesia por todo o país. Como argumentista, destaque para o guião do filme “Jogo de Damas”, com a realizadora Patrícia Sequeira (Prémio de Melhor Guião nos Festivais de Cinema do Chipre e de Copenhaga); e para a série “Mulheres Assim” (2016), na RTP1. Em Março de 2025, foi curadora, com Maria do Rosário Pedreira, do Dia Mundial da Poesia no CCB. Em Abril, a Expo Osaka 2025 (Japão) apresentou, no Pavilhão de Portugal, uma exposição da CIM DOURO, com curadoria de Filipa Oliveira, que incluía 10 poemas inéditos de Filipa Leal sobre o Douro, gravados também na sua voz. O livro de poemas “Adrenalina” (ed. Assírio & Alvim, 2024; finalista do Prémio Livro do Ano Bertrand Melhor Livro de Poesia) assinalou os seus 20 anos de poesia. Acaba de publicar “A Lentidão do Mundo” (ed. Nova Mymosa, 2026).
AQUELA FRASE
FILIPA LEAL
POEMA INÉDITO
Ele era o responsável por haver quem desse passeios de horas ao pé do mar, e ainda se deitasse a contar a areia que fica no cabelo só para esquecer as dívidas com o sonho.
Ele era o responsável por haver quem subisse gruas proibidas de madrugada só para ver melhor os aviões.
Ele era o responsável por haver quem risse durante muito tempo, e por haver quem fizesse rir.
Ele era o responsável por haver quem caminhasse pelas ruas a falar sozinho e fosse de repente interrompido por um abraço e uma meia de leite.
Ele era o responsável por haver quem se demorasse a conversar sem nada de muito importante para dizer. (Ele era o responsável pelas coisas que são importantes às escondidas.)
Ele era o responsável por haver pipocas. Por haver crianças mais dotadas para a alegria. Por haver adultos que andam com o coração na boca a dizer coisas incríveis.
Ele era o responsável pela poesia, pela música, por todas as artes de vencer o medo.
No entanto, a vida inteira ouviu aquela frase: És um inútil.
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RESISTENTIA POETICA AO SOL DA INUTILIDADE
ANA
RIBEIRO
A luz do obsoleto remete-nos para o embalsamento do tempo: Sim, do tempo sem recorte nem vento. Do tempo que, escondendo-se, se retém.
Distendamo-nos na relva da improdutividade, olhando para o horizonte do desdém.
Por que viver, afinal, prisioneiros da sociedade? Haverá, porventura, nisso qualquer pedaço de utilidade?
Como um papel branco, vamos deixar o espaço formar-se numa memória coletiva que talvez falhe: não volte?
Porque a utilidade do inútil talvez repouse num qualquer canto ao sol da inutilidade.
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PARA QUE SERVE UMA CADEIRA
CATARINA CANAS
hoje contratei um poeta. precisava de um poema bem escrito de sintaxe impecável e até com algum lirismo
coloquei-o numa sala isolada deixei-lhe uma água castelo perguntei até se queria whisky. liguei a ventoinha do teto e abri as janelas de par em par
dei-lhe as instruções precisas sobre o poema que precisava várias folhas de papel não reciclado alguns lápis Caran d'Ache e até uma afiadeira
passadas umas horas voltei. o poeta tinha desaparecido. sobre a mesa que eu não referi uma das folhas, dobrada despertou a minha atenção:
“de pó e ar se faz um poeta de pé e dor se desfaz de pá e cal se branqueia poemas não nascem nas árvores quem escreve precisa de uma cadeira”
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RESISTENTIA POETICA O LATIR DA CHUVA
CIDÁLIA SANTOS
Os poemas não podem ter algemas. Onde há poemas, há sempre memórias, leves desenhos do mundo.
Talvez seja melhor poetizar do que chorar, pois até o inútil se torna útil, como a chuva que uiva na rua e nos devolve às mãos a eterna respiração da terra.
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AQUELE PÁSSARO TRANSLÚCIDO
CLÁUDIA
PASSARINHO
Bukowski dizia que o pássaro dele era azul. o meu há dias em que não tem cor, é translúcido de dor. não pelo vazio da mente, mas pela imensidão de pensamentos montanhosos, pelas avalanches que as palavras soltam, crateras abertas por dedos feridos da tentativa Bukowski veria no meu pássaro apenas o inútil. tenho pena da pobreza do seu conhecimento, porque não há pássaros que nos assombrem, sem necessidade crua. não há cor que nos tinja, sem nos preencher os contornos. não há canto de ave que nos ensurdeça, sem nos arrancar do silêncio. existem apenas desejos de perfeição em ferro, armaduras gastas, masmorras que nos enjaulam, e, a tristeza maior, é conhecermos o carcereiro: nós mesmos.
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RESISTENTIA POETICA INFÂNCIA
LUÍS
AGUIAR
Como é estéril este inverno, cresce num imprescindível azul, azul da neve, branco do fogo.
As palavras resgatam um fotograma de Luchino Visconti; como é esquivo o gesto da morte.
Recordo a infância e a sua inutilidade num mundo de homens, humanos irrevogáveis, que deambulam os rostos e os braços contra as montras — carregam nos dedos cigarros antigos, queimam a memória, clamam pelos círculos cheios de inteligência, os que definem os movimentos esquizofrénicos dos cães vadios-baldios, cães e cadelas que atravessam as passadeiras como se fossem homens.
Resta-me a inutilidade da terra nas mãos e o ácido desoxirribonucleico que herdei de um animal ferido, gerado pelo sol e pelo logro da orfandade.
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UMA PEÇA INTEMPORAL
MARTA LU DONATO
Dei um nó que não desato
tornou-se laço
aperto alfinete ao peito
não se vê e é mudo combina com tudo
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RESISTENTIA POETICA INVOLUNTARIAMENTE, GAIA
ROSA
CHAVES
Involuntariamente, Gaia olha-me nos olhos e pergunta “Vou ter futuro para crescer?” Remove inocentemente o detonador Que me faz o coração bater.
Antes de conseguir refletir, sequer responder, Em mim reage cada sentido, à escuta. Estrangulo com inteligência emocional na saliva, Debato-me nos estímulos fortes, plena dor, Que me faz o coração contornar:
Som abafado pelos ouvidos, Silêncio que se propaga; Odor inexistente no nariz, Insuflado de oxigénio; Observação em câmara lenta, Com olhos frenéticos; Sabor familiar no paladar, Suco das entranhas; Reação inflamatória, Arrepio sobe em erupções intensas, Rodando nas curvas das pernas, Subindo a reta das costas, Rebolando pelos braços, Refreando até às pontas dos dedos que acariciam a sua doce face. Do arrepio cresce a ansiedade, Rizoma enraizado, Incrustado na mente, imobilizando-a, Deixando cada pequena folha da imaginação, Fustigada pela tempestade de pensamentos, Fatalista.
(engulo em seco e respondo-lhe, com o mesmo entusiasmo com que lhe conto uma das suas histórias favoritas) “Em quase todos os domínios avanços vão existir!” Declaram os especialistas que os divulgam a sorrir.
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SER ÚTIL OU INÚTIL
TERESA PORTAL
Folhas amarrotadas, sonhos jogados, O vento sopra restos de um mundo cansado. Ideias descartadas, vidas em risco, O útil é o que vende, os restos são fragmentados Até o tempo virou embalado. Reduzir, reutilizar, reciclar... Tentam curar feridas de séculos mal lavrados O ser humano esquecido cheio de culpa, A natureza poluída, chora e desculpa. O homem chama inútil ao que não brilha Descobre tarde que o valor se compartilha. Sapatos gastos andam sem destino, Percorrem caminhos num desatino. As ruas sujas mostram cicatrizes, As árvores sequiosas desnudam as raízes, Roupas rasgadas vestem esperanças passadas. O verde inexistente suplica por cor Mas a fumaça pinta o céu do mesmo tom de dor, A Terra em ebulição clama da crueldade Agora, em cada lamento, explode com brutalidade. Salvar o planeta é reciclar a alma É plantar no mundo a semente da calma. A Terra exige, repete, insiste, E talvez o inútil seja o que ainda resiste. Do resto nasce a vida, do lixo brota a flor. Do que foi esmagado, renasce o amor.
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SALTANDO DO PARÊNTESIS UM ELOGIO AO TÉDIO
ANALITA
ALVES DOS SANTOS
A
creditamos que somos donos do nosso tempo, mas somos nós a apertar o torniquete. Essa autoexploração, que veste a roupa sedutora da liberdade, esvazia-nos e desgasta-nos, sem que notemos. “A falta de serenidade conduz a nossa civilização à barbárie. Nenhuma era valorizou mais os seres ativos, isto é, os inquietos. Uma das correções que urge, pois, fazer ao carácter da humanidade é desenvolver, e em grande medida, o seu lado contemplativo.” Friedrich Nietzsche
Chamam-lhe tédio, mas percebo agora que é algo mais do que o simples significado que a palavra encerra. É uma dobra do tempo, e é nessa pausa densa que a criatividade encontra o seu primeiro lampejo. Ao ler A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, entendi que o tédio profundo não é um desvio da vida (algo bastante difícil de aceitar para uma mente irrequieta, confesso), mas um dos seus motores secretos. "Se o sono é o clímax da descontração física, o tédio profundo é o ponto alto da descontração espiritual. O frenesim não gera nada de novo por si, limitando-se a reproduzir e a acelerar o que já existe." Esta frase fica como um refrão: a pausa não é improdutiva; é hipótese de novidade. Os livros trazem-nos outras consciências. Han expõe a armadilha da nossa época: "O excesso de trabalho e de produção conduz, a um nível mais elevado, à autoexploração. Esta é mais eficaz do que a exploração por terceiros, uma vez que vem associada a um sentimento de liberdade. O ser explorado é simultaneamente o que explora — agente e vítima já não se distinguem entre si." Quantas vezes confundimos autonomia com disponibilidade total? Acreditamos que somos donos do
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«Quantas vezes confundimos autonomia com disponibilidade total? Acreditamos que somos donos do nosso tempo, mas somos nós a apertar o torniquete.»
nosso tempo, mas somos nós a apertar o torniquete. Essa autoexploração, que veste a roupa sedutora da liberdade, esvazia-nos e desgasta-nos, sem que notemos. Mas os números sobre o aumento dos problemas de saúde mental ou do incremento das taxas de suicídio falam nas entrelinhas. Para quebrar esse ciclo, Han propõe uma via simples e, por isso, radical. Primeiro, viver o cansaço. O "cansaço eloquente e conciliador, o cansaço que detém a capacidade de ver", aquele cansaço bom de quando éramos crianças, depois de horas a brincar no recreio, a jogar às escondidas ou à apanhada; o cansaço revigorante que fica no corpo após um treino intenso ou uma boa noite de sexo; a languidez que chega depois de um dia de praia. Em segundo lugar, escutar: "O dom da escuta assenta precisamente na capacidade de prestar uma atenção profunda e contemplativa, capacidade vedada ao ego hiperativo dos nossos dias." Escutar
o outro, o mundo, a nós mesmos; ouvir o som do silêncio, como trauteavam Simon & Garfunkel. Num quotidiano saturado de sound bites, a escuta é um ato de desobediência. Ler este ensaio é um convite a essa desobediência: reconhecer a utilidade do inútil, cultivar a demora, o cansaço, parar, e, sobretudo, acender a fúria que rompe o hábito. Não a fúria cega que destrói, mas a que faz rutura, a que recusa a normalidade entorpecida e abre caminho a outro modo de existir. Quando o niilismo corrói o respeito pela alteridade, em que o outro é reduzido a obstáculo, a fúria torna-se gesto ético, impulso de criação. Não calar. Não ficar indiferente.
Filosofar, pensar, refletir: verbos que pedem demora e coragem. Num mundo saturado de ruído, em que a indiferença e a presença constante nas redes sociais se disfarçam de conexão, o pensamento contemplativo torna-se ato de resistência e de empatia. Talvez o gesto mais criativo e necessário, hoje, seja este: parar, contemplar, deixar que o tédio profundo nos devolva ao ser, permitindo que, do silêncio, surja a palavra honesta, sentida, que ainda nos ligue uns aos outros. «Um elogio ao tédio», crónica publicada originalmente no ÍMPAR, PÚBLICO, a 19 de setembro de 2025
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SALTANDO DO PARÊNTESIS REFLEXÃO SOBRE O VAZIO E A ESSÊNCIA DO SER
FILOMENA FONSECA
“Trinta raios convergem para um único eixo; é no buraco do centro que assenta o funcionamento da carroça. Faz do barro um vaso, e é o espaço do seu interior que o torna útil. Faz portas e janelas bonitas, mas a divisão é útil por estar vazia. A utilidade do que é depende do que não é.” Lao Tsu, Tao Te Ching
N
estes versos de Tao Te Ching, tão provocador, Lao Tsu evoca o valor do vazio, ao qual tantas vezes não prestamos atenção. O mestre explica esta noção através de imagens simples: o buraco no eixo de uma roda, o espaço no interior de um vaso de barro, o vazio de uma divisão numa casa. E conclui — a utilidade do que é depende do que não é. Por outras palavras, as partes visíveis só adquirem sentido pela falta que nelas habita. O que parece não ser o que surge como ausência é precisamente o centro onde se permite a existência e o movimento. Esta passagem convida-nos a viver a partir desse vazio invisível existente no coração do nosso ser, mudando o modo como nele pensamos e sentimos. Recordo-me de um músico que, um dia, me disse: “O silêncio de onde emerge cada nota é mais importante do que a própria nota.” Explicou-me ser o espaço vazio entre as notas o elemento que, na prática, permite à música ser música. Sem esse intervalo, o som seria apenas contínuo, indistinto. Podemos aplicar esta noção a tudo o que experimentamos na vida quotidiana. Perguntemo-nos: o que faz uma árvore ser uma árvore? A casca, os ramos, as raízes, as folhas — tudo isso compõe a sua aparência, mas nenhuma dessas partes isoladas constitui verdadeiramente a árvore. Para que ela exista, é necessário algo invisível, uma força vital impercetível, a qual escapa aos cinco sentidos.
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«Quando se fala de viver a partir do vazio, fala-se de regressar a esse centro impercetível onde reside a essência vital. Reserve algum tempo para transferir a sua atenção para aquilo que muitos consideram “nada”. Pergunte a si mesmo: o que é a minha essência?»
Podemos cortar, esculpir, analisar uma árvore, procurar incessantemente as suas células, mas nunca encontraremos essa energia essencial da qual depende a sua vida. Assim também nós: o vazio do centro da roda, necessário ao movimento, pode ser comparado ao vazio interior essencial para vivermos plenamente. Dentro de cada um de nós existe um espaço de não existência, um lugar onde a vida se recolhe em silêncio. É preciso reconhecer que tanto o visível — o corpo — como a essência invisível de onde dependemos fazem parte do mesmo todo. O que somos contém esse espaço misterioso sustentando aquilo a que chamamos “eu”. Quando se fala de viver a partir do vazio, fala-se de regressar a esse centro impercetível onde reside a essência vital. Reserve algum tempo para transferir a sua atenção para aquilo que muitos consideram
“nada”. Pergunte a si mesmo: o que é a minha essência? Qual o sinal que irradio quando silencio o ruído exterior? Esse espaço emana da invisibilidade responsável por toda a criação. Os pensamentos emergentes do ser interior são amor puro e bondade essencial. A sua não existência interior não é uma parte separada de si; é o próprio centro de onde tudo brota. Por isso, é preciso procurá-lo e explorá-lo, sem medo. Pense nele como um espaço contido no seu ser físico, a partir do qual fluem para o mundo todas as perceções e gestos. Em vez de tentar produzir noções positivas ou agradáveis, limite-se a ser sensível à essência da sua não existência. Permita que esse centro silencioso de amor revele a sua utilidade inigualável. Deixe que os pensamentos emergentes entrem no seu ser físico e depois desapareçam, tal como acontece com a respiração: inspirar e expirar. Dedique, todos os dias, alguns minutos a estar atento ao espantoso poder da sua essência vital, essa presença impercetível sustentando tudo o que existe. Há muitas maneiras de o fazer: a meditação é uma delas, ferramenta poderosa ajudando-o a sentir uma felicidade tranquila nascida do contacto com o vazio interior. Faça o voto de se tornar mais consciente desse “lugar sem lugar” existente dentro de si e de onde flui a sua própria existência. Encontre o seu caminho para entrar nesse espaço limpo e puro, em harmonia com o amor que o habita. Experimente, pelo menos durante quinze minutos diários, viver no vazio onde reside o seu verdadeiro ser. Ignore por um momento o corpo e tudo o que o rodeia — os elementos materiais com os quais se identifica: nome, idade, profissão, origem. Limite-se a estar nesse espaço intermédio, nesse vazio absolutamente fundamental. Olhe para o mundo à sua volta a partir do que não é e reconheça que a sua própria utilidade, como ser material, depende completamente desse vazio. Torne-se, a partir de hoje, amigo dessa parte de si que permanece invisível, a mesma que sustém tudo.
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SALTANDO DO PARÊNTESIS QUANDO VAI E COMO VOLTA? INÊS PINTO
—
Entrega-te. Existe sempre algo encoberto que desvendarás. Brincadeira, não? Assim gira o mundo no coração de cada um! Ou será que era convicção pura, quando jurava que o esforço de escarafunchar o passado escondia recompensa? Não pode ser! Uma conversa com a amiga de carteira da primária aguçara-me o juízo! Regressar às memórias, baús rejeitados a definhar nas profundezas do ser, lembrava-me mais uma pirataria desdentada e com cheiro a lodo ressequido. Ou talvez não! Por momentos, fico extasiada com as possibilidades. No fundo, a nostalgia pavoneia-se na tentativa inglória de desafiar a realidade. Mas com que propósito? Exumar as misérias à procura de migalhas que ensinam o rumo? Calcar com as patas do desespero o infeliz para reforçar o pouso seguro do que sou hoje? Sinto-me a acalmar as marés do presente. Entrega plena, mergulho no infinito das recordações, visto-me de maruja preparada para desnudar o véu. Sempre gostei de ver o fumo a fugir pela chaminé. E mais ainda os presuntos da avó Emília – salvo seja – pendurados a pingar gordura. Aproximava-me para imaginar a gelatinosa massa que daria vida aos meus bonecos. Raspanete certo: «Rapariga, besunta-te; depois vais tu com clarim à poça. E se houver geada, os teus dedos rangerão mais que as tábuas do soalho.» Criatividade castrada! O crepitar das giestas fumarentas tornavam-se acordes doces. Ouvia-os com a ilusão de estar em absoluta marcha para o desconhecido, com vontade de lutar. Reprimenda inevitável: «Rapariga, olha as meias novas. Se não te esfolas nas correrias, tens buracos de minhoca nas pernas.» Aventura abortada! E o escano? Esse palco em forma de plateia para o fogo vivo, testemunha da minha meninice e de sonhos bichanados aos primos mais velhos. Até concursos fazíamos – quem aguentava mais sem ter a
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«No fundo, a nostalgia pavoneia-se na tentativa inglória de desafiar a realidade.»
borracha dos sapatos esturricada. Ralhete imperial: «Rapariga, depois vais lá para fora e ficas com as amígdalas do tamanho de um meteorito! Queixa-te das penicilinas!» Diversão arruinada! Bolas! Escolho a cartografia memorial errada. Chapinho os pés para a areia nublar o baú negro, sem préstimo e quase oco. Oco? Isso não. Existe sempre algum saque à espreita de te assombrar os dias, mas a escuridão também é caminho. Só com ela aprecias o outro – aquele cofre minúsculo onde guardas disfarçadamente o que te faz viver: as fatias de presunto com broa; as minhocas que as galinhas do avô apanhavam na terra húmida; o joelho esfolado das primeiras tentativas à Bruce Lee; a voz radiofónica de um podcast a três… Devolvo-me ao ordinário e aprecio o fogo que aquece a sala. Levanto-me e vou à janela. Nostalgia? Recordo a conversa com a amiga de carteira. Nostalgia? Surge um cliché que prefiro omitir – os leitores entendem: recordar é… Coloco a mão no peito, saúdo com gratidão o carvalho amigo que deixa as folhas saltitarem para o musgo. Terá ele memórias, essas borbulhas que estoiram nos ponteiros no tempo e nos fazem... Julgo ouvi-lo sussurrar: «Entrega-te! Existe sempre algo doce no azedume do encoberto!»
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SALTANDO DO PARÊNTESIS HÁ CONTROVÉRSIA
[
LUCIANA J. MORAIS
i.nú.til, que não tem utilidade; que não tem êxito ou que não vale a pena;que ou quem não mostra capacidade ou serventia para nada. Do latim inutilis] Ele existe. Está dicionarizado — baldado, infrutuoso, vão — e não pode ser considerado abstrato, pois é adjetivo e substantivo comum de dois géneros. Anda à solta pela sociedade, caminha naturalmente pelas aldeias, invade as metrópoles. Está no ar que carrega a voz, na nuvem que dança no céu. Vive nas casas, impregnado à preguiça do sofá, colado ao vidro da janela. O inútil está no mundo por direito divino, mesmo que o seu registo de batismo aponte que não valha a pena. Há controvérsia. Para fugir ao automatismo utilitário do quotidiano, o inútil diz: Para tudo. Respira com presença para lembrar que está vivo. Olha o longe, estica os braços e sacode os membros desordenadamente. Escuta o silêncio. Sente o cheiro de uma flor, lembra que há beleza. Fecha os olhos, pensa num momento agradável, sente de novo e sorri. Aproveita as inutilidades para equilibrar o dia e sorri novamente. O sorriso não dá frutos, pode ser em vão para o espelho, não serve para validar, não serve para nada. Há controvérsia. [u.ti.li.da.de, qualidade de útil; préstimo, vantagem, serventia; pessoa ou objeto útil. Do latim utilitas] Ela existe. Está premiada — performance, produtividade, desempenho — e no palco da vida é o substantivo feminino acarinhado por todos. Alcança os objetivos, sabe os conceitos, as funções, produz sempre algum efeito. Foi feita para trabalhar de forma exemplar e estar a fazer, fazer e fazer. Como o próprio nome indica, é muito útil para a existência na Terra. É cultivada pelas sociedades, pois também é um meio de sobrevivência. É estudada pelas gestões e pelo marketing, pois no mundo capitalista, onde tudo vira produto, ela tem de estar em primeiro lugar. A utilidade vive por direito divino e possui
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«O inútil, tranquilo e sereno, respondeu: Tudo que consideras inútil ganha um novo valor ao iluminar a alma.»
passaporte que chancela a sua livre presença. Há controvérsia. A utilidade das coisas, como tudo que é feminino, não pode ser limitada a um padrão ou fechada em ideias estanques. Dos artefatos mais primitivos aos modernos equipamentos eletrónicos, há o mérito da serventia aprimorada pelo tempo e pelo desenvolvimento social. As profissões como carimbo de identificação fazem o mundo funcionar ao partilhar serviços variados e, por moeda de troca, as pessoas podem usufruir de atividades e mercadorias, todas com seu manual de instruções. A utilidade diz: Eu sou uma perfeição. Há controvérsia. Todos os dias os dois se encontram numa mesa de algum café pela cidade. A utilidade, impecável, acomoda as pessoas, serve o alimento, providencia tudo o que se precisa para um agradável fim de tarde de primavera. Está sempre pronta a pontuar as suas vantagens. Ela é muito importante e necessária. Partilha com o seu par oposto tudo que sabe, e julga-se imprescindível para o encontro. O inútil aproveita toda a estabilidade da sua companhia e aparece no aroma hipnotizante do café, na vista bonita que se tem da esplanada, nas saborosas conversas
sobre memórias de concertos e exposições, e nos sorrisos quando se degusta um sabor dos deuses ou se escuta uma bela melodia. O prazer e a alegria que envolve o momento dos dois é inigualável. São mesmo tão opostos? Há controvérsia. A utilidade, ao perceber o estranho encantamento no ar, pergunta ao inútil: Para que serve o que não serve para nada? — este assunto está sempre na pauta dos encontros. O inútil provoca: Como o quê, por exemplo? A utilidade, didaticamente, lembrou-se das artes e das coisas que ela não entende o motivo, como apreciar belas árvores e águas calmas de algum rio, contemplar horizontes ou bebés fofinhos, fechar os olhos ao som de uma canção... O inútil, tranquilo e sereno, respondeu: Tudo que consideras inútil ganha um novo valor ao iluminar a
alma. São experiências e sensações inesquecíveis. A arte tem o poder de inspirar, irradiar criatividade, mostrar ao mundo que existe porque sim, sem explicar mais nada. Desperta sentimentos variados nas pessoas, que são tão diferentes... Ser criativo é a manifestação mais pura da vida. Para que é que as pessoas vão a um concerto, a um teatro ou a uma exposição de arte? Vão para reconhecerem que estão vivas. Para que escrevem e leem livros?... Eu estou nos prazeres e nas sensações de bem-estar... Sem mim, a humanidade não sobreviveria. Mas continuamos a conversa outro dia, querida, lembrei-me de que tenho outro encontro... — a suspirar, pediu licença e deixou a utilidade à mesa. A beleza esperava-o do outro lado da esplanada, pois o pôr do sol é razão imperdível. Sem controvérsia. A utilidade não se importou. Há controvérsia.
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SALTANDO DO PARÊNTESIS O NADA QUE NOS FALTA
N
MARIA GAIO
os tempos atuais, já não sabemos o que é «nada fazer». O simples ato de parar tornou-se suspeito, uma espécie de falha moral no seio da sociedade produtiva e de consumo que nos ensina a olhar para o vazio como desperdício. Interrogamo-nos sobre esse nada que tememos; o nada que não queremos para a nossa vida, como se, nesse espaço silencioso e desocupado, estivesse escondido um inimigo capaz de nos desmontar. Assumimos um papel de controlo total sobre a existência, como se fôssemos fontes inesgotáveis de energia. “Nada é impossível”, repetimos. Tudo é alcançável, basta tentar mais, produzir mais, acelerar mais. Tornamo-nos máquinas de precisão emocional, a girar sem interrupção, sem perceber que o cansaço — prelúdio do esgotamento — nos observa pela lateral, paciente, discreto, à espera de um descuido. Byung Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve este novo homem hiperativo, expropriado da capacidade de atenção profunda, incapaz de se demorar, de contemplar, de permanecer consigo. A quietude tornou-se um território estrangeiro. No entanto, lembra-nos que o tédio profundo é indispensável: é o ponto alto da descontração espiritual, o portal para a contemplação, para esse vazio fértil onde tudo tem princípio. Só quando o ritmo abranda é que as ideias começam a respirar. A produtividade, pelo contrário, provoca um tédio estéril, aquele gesto repetido que não inaugura nada, apenas o prolonga. É o impulso contínuo que nos impede de pensar, o fazer sem pausa, hesitação ou retorno ao centro. O homem moderno desaprendeu a arte de nada fazer e, no processo, esqueceu o valor do silêncio interior. A atenção profunda tem sido atropelada pela hiperatenção. Esta, alimentada por estímulos constantes, não nos torna mais capazes, apenas mais inquietos. Dizem-nos que produzir, fazer e acumular tarefas
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«O Homem precisa, urgentemente, de repensar a sua humanidade.»
nos concede poder. Vangloriamo-nos da multitarefa como se fosse evolução, mas trata-se, na verdade, de um retrocesso subtil. Na vida selvagem, quem vive em alerta permanente são os animais, obrigados pela sobrevivência a proteger a prole, defender o território, a caçar. O que neles é instinto, em nós tornou-se vício. Ao imitarmos essa vigilância animal, afastamo-nos da nossa capacidade mais humana: criar. A multifuncionalidade dispersa-nos, rouba-nos a profundidade e transforma o pensamento num mosaico de fragmentos que nunca se completam. Pelo frenesim das multitarefas, perdemos a habilidade de permanecer num gesto, num pensamento, num desejo. O Homem precisa, urgentemente, de repensar a sua humanidade. De recriar movimentos que lhe devolvam a liberdade de ser mais ele, menos máquina, mais corpo vivo. Se caminhar se torna entediante, que corra; se correr o aborrece, que dance. Só a humanidade é capaz de dançar, de transformar o simples ato de mover o corpo numa revelação, numa invenção contínua. Talvez o nada que tanto evitamos seja, afinal, o espaço de renascimento. O intervalo em que a criatividade ganha fôlego. O solo fértil que reinventa o gesto. E talvez aprender a nada fazer seja, paradoxalmente, o primeiro passo para fazermos tudo aquilo que realmente importa.
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SALTANDO DO PARÊNTESIS TREMER NÃO É VIVER
(OU COMO A PERNA DO VIZINHO ME ARRUINA A SERENIDADE)
H
MENA GALVÃO
á quem procure grandes epifanias para escrever sobre a vida. Eu, às vezes, encontro-as num café, entre o tilintar das chávenas e o abanar incessante da perna do vizinho. O mundo moderno vibra — literalmente — e talvez seja nesse tremor que se revela a mais absurda utilidade do inútil: perceber até que ponto a calma é um luxo e o silêncio, uma raridade. Sento-me. Respiro fundo. Tenho o café à frente, um livro nas mãos e a esperança — talvez ingénua — de que o mundo, por uns minutos, me deixe estar sossegada. É pedir muito? É. Porque assim que me instalo, como quem se oferece ao silêncio, o banco começa a tremer. Não é um sismo. É pior. É uma perna. Uma perna nervosa. Uma perna que encontrou em mim o epicentro da sua inquietação. Há pessoas que abanam a perna como quem tece um tapete invisível de ansiedade. São metrónomos humanos: tique, tique, tique, até que os meus nervos, coitados, se armam em cordas de violino a vibrar num concerto indesejado. E o mais incrível? Essas pessoas não se dão conta. Abanam como se fosse uma extensão do acto de respirar. Como se o mundo estivesse constantemente em modo vibração e nós, as almas calmas, é que fôssemos as esquisitas. A misocinesia, aprendi, é o nome chique desta minha dor silenciosa. Uma espécie de alergia ao abanar alheio. E sim, é real. Não é mariquice. É neurociência! O movimento repetitivo dos outros activa em mim um instinto primal — o de fugir, bater com uma colher de pau ou arremessar o saleiro. Às vezes imagino manchetes improváveis: “Mulher perde a compostura e elimina tremores urbanos com utensílio doméstico”. Contenho-me. Tenho classe. Mas juro que já tremi tanto por causa da perna de alguém que comecei a achar que estava sentada numa centrifugadora emocional.
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«Talvez, quem sabe, se todos abanarmos juntos, o mundo finalmente pare… ou, pelo menos, passe a tremer por uma razão que faça sentido.»
O pior é quando o fenómeno acontece em superfícies partilhadas: bancos corridos, sofás, o comboio. Uma perna agitada a dois metros de distância consegue provocar um tsunami interno. E se tento alertar a criatura tremelicante, ela responde com ar ofendido, como se eu estivesse a reprimir a liberdade de expressão dos membros inferiores. Há até quem me olhe com aquele ar de mártir moderno, como se o seu tremor fosse uma forma legítima de libertação emocional. Será que estou a exagerar? Talvez. Mas se há gente que não suporta sons de mastigar, eu reservo o direito de detestar este terramoto de tíbias. Quero cafés onde se leia em paz, comboios que não pareçam parques de diversões e cadeiras que não se comportem como trampolins. Quero, acima de tudo, um mundo onde sentar-me não seja um desporto radical. No fim, resigno-me. Fecho o livro, engulo o café já frio e preparo-me para sair. Levanto-me, olho para a perna inquieta e, ironia das ironias, num impulso de solidariedade, começo eu também a abanar a minha. Devagarinho. Ritmadamente. Como quem faz um pequeno protesto sísmico contra si própria.
Sinto-me quase integrada, parte do rebanho vibratório da humanidade. Talvez a misocinesia seja contagiosa, ou talvez o corpo tenha maneiras subtis de não deixar o mundo parar de vez. Ou talvez o corpo, cansado de fingir calma, precise de se exprimir no único idioma que lhe resta: o do movimento inútil. E, afinal, pode haver nisto uma estranha utilidade — a de lembrar-nos que até o gesto mais absurdo é uma forma de estar vivo, de existir no meio do ruído e, quem sabe, de não deixar o mundo parar de vez.
Porque talvez o inútil — esse abanar sem propósito, essa inquietação sem destino — seja apenas o reflexo mais honesto da nossa humanidade moderna: trememos porque ainda sentimos, porque o silêncio pesa, porque a pausa assusta. Talvez, quem sabe, se todos abanarmos juntos, o mundo finalmente pare… ou, pelo menos, passe a tremer por uma razão que faça sentido. E se o mundo precisa de abanar para não adormecer, que pelo menos o faça com alguma elegância — de preferência, longe do meu café.
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DA PALAVRA À FORÇA ENTRE O PRINCÍPIO E O FIM UMA MEDITAÇÃO SOBRE O TEMPO, O CORPO E O SILÊNCIO
MARIA BRUNO ESTEVES
«Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.» Clarice Lispector
«Quis lutar, planear a recuperação, controlar o que não tem controlo.»
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urante anos, vivi prisioneira do útil. Acreditava que ser útil era ser necessária, e ser necessária era existir. O tempo era uma sucessão de tarefas, e eu media o valor dos dias pelo que conseguia riscar da lista. Chamava a isso vida — mas era apenas movimento. Vivia entre reuniões e prazos, porém, o ruído vinha de dentro. A sensação constante de estar em dívida para com o mundo impedia-me de respirar. Era uma prisão dourada: admirada por fora, sem janelas por dentro. O útil, percebo hoje, é uma forma subtil de escravidão — porque nos convence de que só temos valor, quando produzimos. Foi preciso o corpo deter-se para que eu o ouvisse. A doença chegou. Sem aviso, sem metáfora — apenas chegou. Tudo o que eu era desabou como um edifício antigo, onde já não cabia a quietude. No início, resisti. Quis lutar, planear a recuperação, controlar o que não tem controlo. A vida não se deixa comandar. No cansaço — no momento em que larguei o comando — o resto de mim começou a respirar. E percebi: a cura não viria apenas dos remédios, mas da forma como eu me olhava. Lembro-me do primeiro dia em que fui ao cinema, ainda de baixa. Sentei-me na penumbra, mergulhei numa viagem pelos sentidos. O tempo parou. Quando a luz voltou, a culpa esperava-me à porta:
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como podia divertir-me se ainda não estava curada? O coração apertou-se — não pelo medo da doença, mas pelo esquecimento do dever, ainda que por um instante. Demorei a entender que o prazer também é um modo de cura — que o inútil, afinal, era o meu caminho de volta à vida. Nessa altura, outras mulheres começaram a aparecer — faróis que iluminavam caminhos que eu ainda não sabia percorrer. Chegaram com a serenidade de quem já conhecia o abismo — cada uma com o seu enigma, a sua concha, o seu segredo. Encontrámo-nos em círculo, os pés firmes na terra e o coração a abrir-se devagar, como se a respiração de uma fosse o prolongamento da outra. Não nos unia a dor, mas o reconhecimento. Houve lágrimas antigas, partilhas nuas, abraços que dissolviam fronteiras. O que acontecia ali não era apenas encontro — era regresso a algo que nenhuma sabia nomear. No labirinto da vida, entre sombras e luzes cruzadas, cada uma descobria a mulher sábia que sempre estivera à espera no centro de si. Durante muito tempo, evitara o toque — parecia-me demasiado íntimo, demasiado verdadeiro. Uma delas colocou a mão sobre a minha e apenas disse: «Estamos aqui.» Nesse gesto, o medo desfez-se — e o corpo, que fora trincheira, voltou a ser casa. Ali, no círculo, o silêncio era uma janela aberta — e, pela primeira vez, deixei o ar entrar. Com elas aprendi o que a solidão nunca me ensinou: que a força
não é resistência, é entrega; que o amor é o caminho de volta; e que, quando uma mulher se cura, o mundo inteiro respira um pouco melhor. A cura revelou-se devagar, como quem aprende uma nova língua. Percebi que o inútil não é o contrário do fazer. É o espaço onde o ser respira. Caminhar sem destino. Ouvir o mar. Estar em quietude com quem amo. O que antes era dispensável tornara-se o centro da minha vida. Hoje, sei que a cura nunca esteve fora de mim. Nasceu no instante em que deixei de querer vencer e passei a querer viver. No instante em que compreendi que o útil era prisão: o inútil, liberdade. Agora, o que me sustenta são as coisas pequenas: um raio de sol sobre a mesa, o aroma do café, o riso inesperado de uma amiga. O mundo continua a girar, porém, já não me arrasta. Ainda há dias em que o medo regressa, feito visitante de um lugar que conhece bem. Não o expulso. Ofereço-lhe chá. Ficamos em silêncio, um diante do outro, até ele perceber que já não manda em mim. O tempo deixou de ser corrida; é caminho. E o caminho é o próprio destino. Entre o princípio e o fim, há o agora. Nesse agora, que nada promete e tudo contém, habito-me inteira. O inútil libertou-me — e, pela primeira vez, o simples é suficiente. Já não procuro sentido em tudo o que faço; encontro-o em tudo o que sou. Descobri que a verdadeira liberdade não é fazer o que quero. E talvez seja isso que Clarice Lispector quis dizer: que a vida começa quando deixamos de precisar de justificá-la. Ou talvez não. Talvez a vida comece sempre que ousamos parar.
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GAVETA CRIATIVA AUTOBIOGRAFIA OU EXPOSIÇÃO DAS CHAGAS
J
DAVID ROQUE
avier Marías (1951-2022), o renomado escritor espanhol, é um dos modernos autores que não têm a autobiografia ficcional em grande consideração. A principal alegação é a de que resulta de uma certa falta de imaginação, ou seja, da insuficiente capacidade de gerar imagem nova. Assume que o ato criativo é a deliberada vontade de colocar no mundo o que antes não existia. A ficção escrita é, assim, muito mais do que a exposição da realidade, pois esta atividade pouco passará de jornalismo ou diarismo, campos que podem servir como fontes da escrita criativa, mas que não usufruem em abundância da verve literária. Acompanho Marías na prioridade atribuída à imaginação em detrimento do relato simples da vida. Claro que a sua obra é toda sobre a profundidade da vida humana, com laivos muito realistas e até biográficos, mas isso apenas reforça a sua ideia de universalização do enredo a princípios idealizados de figuras e ações. O que não pode acontecer é confundir as fontes de matéria da escrita literária – a realidade – com o próprio produto ficcional. Além disso, apesar da presunção de verdade contida numa autobiografia ficcionada, ela será sempre um híbrido, uma mutação em que a arte de escrever é subordinada a um realismo duvidoso. Dúbio, porque pretende vender verdade, mas é parcialmente ficção (em quantidade e localização desconhecidas), o que pode assemelhar-se a uma espécie de produto contrafeito. Mas também transporta a problemática da memória como garantia da história, o que nem a historiografia nem a psicologia, de per se, confirmam. Na autoficção – nome próprio desta arte mista – florescem doses substanciais ora de ingenuidade, ora de malícia. A ingenuidade advém da confiança na memória, mecanismo que confunde autonarrativa da psique com verdade. A malícia, por sua vez, é mais óbvia, e tende para dois objetivos: a glorificação ou a vitimização da pessoa. Neste caso, detur-
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pa-se voluntariamente para construir uma narrativa. Presunção e água benta, cada um toma a que quer. A vitimização ocupa um espaço relevante na recente ficção primusecular, ganhando laivos de pornografia, da exposição das chagas, à semelhança do espírito de programas televisivos de preenchimento emocional na grelha horária. Marías também denuncia a venda das dores próprias para instigar o pietismo e voyeurismo do leitor, embrulhando emoções e juízos como factos e pretendendo que a ficção não é ficção – portanto, não é arte –, e que o relato é factual – mas sem contraditório. Que escrevam autobiografias, somente. A escrita aos escritores. A inventividade como premissa da literatura, por mais realista que seja. Quem pretende escrever deve meditar nesta temática, questionando se o que tem para entregar ao mundo é apenas a sua realidade pessoal com pouca mediação criativa (e quantas vidas aborrecidas existem, por mais vibrantes que as próprias pessoas as considerem), ou se pretende aproveitar a sua existência e realidades observadas como fonte de criação, numa inventiva que ultrapasse o EU e siga em direção às estrelas.
«O que não pode acontecer é confundir as fontes de matéria da escrita literária – a realidade – com o próprio produto ficcional.»
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LÍNGUA MÁTRIA O TEXTO SEM DEDOS: PÓS-EDIÇÃO, ASSISTÊNCIA VIRTUAL E O FIM DAS GRALHAS
N
uma galáxia não muito distante, quando um texto chegava à etapa de revisão, trazia consigo um certo ruído genuinamente humano: uma vírgula fora do sítio, uma palavra repetida, um “mas” ou um “e” a mais, um erro de digitação que denunciava pressa, cansaço, distração ou simples troca de teclas. Esse pequeno desvio era também uma pista: um ser humano escreveu… e o texto guardou as marcas do processo. Hoje, nessa mesma galáxia, começam a chegar originais estranhamente limpos, quase purgados. Não é só o corretor ortográfico: é a ausência de pequenos acidentes, como a letra trocada, o acento perdido, a concordância que escorrega e faz tropeçar o olhar. A hipótese é tentadora: os assistentes virtuais instalaram-se entre a intenção e a frase. A escrita passa pelo filtro de um modelo que sugere, corrige, reescreve, “melhora”. Se, por um lado, isso poupa tempo e reduz erros de superfície, por outro desloca o cerne da revisão. A caça às gralhas perde terreno; em contrapartida, cresce a pós-edição: ler o texto já polido e perguntar o que ficou por baixo do polimento. E, com isso, surgem erros novos, bem comportados: uma afirmação elegante, mas falsa; um dado “preciso” sem fonte; uma citação que não existe; fontes que parecem reais; uma tradução fluente que, em muitos casos, continua enganadora. Pós-editar é desconfiar da fluência e testar a responsabilidade. É reconhecer que uma frase pode estar impecável na forma e falhar no sentido, no tom ou na ética. Um assistente virtual pode suavizar uma posição, substituir uma imagem arriscada por um lugar-comum, uniformizar escolhas lexicais que faziam
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ANA
SALGADO
parte do idiolecto do autor, ou impor a tal cadência ou fluidez do discurso: transições impecáveis, adjetivos seguros, conclusões redondas. A certa altura, a voz que emerge não é de ninguém — ou é de toda a gente ao mesmo tempo. Nem é preciso chegar à revisão profissional para notar o fenómeno. Ao responder a uma mensagem, o sistema insiste em reformular não apenas o erro, mas o gesto: troca-me o ritmo, endireita-me a frase, muda-me o vocabulário. Já não quer apenas corrigir; quer reescrever. Pergunto-me se quem se sente mais inseguro ao escrever acaba por aceitar todas as sugestões, por não ter tanta facilidade em reconhecer e afirmar: “O que redigi está bem. Ponto. Não vou alterar.” Voltemos à revisão. Um revisor sabe que nem todo o desvio é erro; há frases que tropeçam para produzir sentido, e pontuações que respiram. Pós-editar, neste contexto, é distinguir opção de automatismo: proteger a imperfeição significativa e recusar a limpeza que apaga a assinatura. Talvez o desaparecimento das gralhas seja, sim, um indício de que escrevemos acompanhados. Não é prova: há autores rigorosos, há revisão prévia, há autocorreção. Mas a repetição desse “texto sem dedos” começa a ser, no mínimo, um sinal estatístico. O novo trabalho de revisão não é fiscalizar a tecnologia; é repor leitura. No fim, a boa pós-edição prova apenas isto: que alguém leu com atenção, e que essa atenção não foi automática. E há ainda a confidencialidade: o revisor deve saber o que pode ser enviado a um sistema externo e o que tem de ficar dentro da página e da mesa do autor. E basta.
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LÍNGUA MÁTRIA ELOGIO DA PONTUAÇÃO
MARCO NEVES
N
a Antiguidade, não se usavam habitualmente sinais de pontuação — e nem sequer espaços. Por exemplo, a imagem que encabeça este texto é de um manuscrito do século IV (Vergilius Augusteus). Não vemos nem espaços nem pontuação. Ao longo do tempo, lá fomos inventando os espaços, os pontos, as vírgulas. Estes sinais começaram por assinalar pausas e entoações, para ajudar na leitura em voz alta, mas também passaram a mostrar como se organizam os textos e as frases, ajudando a ler em silêncio. A pontuação é muito parecida nas várias línguas da Europa, mas há alguns pontos em que as línguas seguiram caminhos diferentes. Basta pensar nos pontos de interrogação e exclamação ao contrário do que vemos no início de muitas frases em castelhano: também já existiram em português, mas perderam-se em meados do século XX. O uso dos sinais também vai mudando ao longo do tempo: por exemplo, se formos ver livros publicados no século XIX, encontramos muito mais vírgulas, mesmo entre sujeito e predicado (o grande pecado da pontuação actual). Não sei porquê, mas gosto muito destes sinais. Quando conversamos uns com os outros, usamos a voz, mas também o resto do corpo: a cara, os olhos, as sobrancelhas, as mãos… A própria disposição do corpo ajuda-nos a transmitir a mensagem — e, às vezes, até transmite mais do que queremos. Ora, quando escrevemos, estamos a conversar sem que nos vejam. A pontuação ajuda-nos a substituir as mãos, a cara, o corpo. Não chega, mas ajuda muito. Hoje, escrevemos constantemente, provavelmente mais do que em qualquer outra época da história. Conversamos por escrito, namoramos por escrito, zangamo-nos por escrito. Ora, a pontuação ajuda quem nos lê a compreender-nos melhor, mas também ajuda quem escreve,
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ao obrigar a pensar onde pôr a vírgula, onde usar um travessão, onde deixar reticências… Ajuda-nos a conversar melhor, ajuda-nos a viver melhor. Podemos não acertar sempre: ninguém acerta sempre. Podemos discutir esta ou aquela vírgula. Podemos exagerar neste ou naquele sinal. Mas, se pensarmos na pontuação que usamos, mostramos que nos preocupamos com quem nos lê. Há também um certo encanto nestes sinais, do simples ponto tão final ao arrogante travessão — a riscar a linha e a ocupar o espaço de uma palavra — passando pelo musical ponto de interrogação e pela caprichosa vírgula. Para lá das regras e das proibições, a pontuação dá-nos várias opções. É um excelente sinal do grau de proximidade que queremos demonstrar… É ainda um piscar de olhos no papel. Mesmo numa mensagem rápida, cada sinal (ou a falta de sinal) transmite mensagens diferentes: • Beijo. • Beijo • Beijo! • Beijo!!! O beijo com ponto parece‑me mais formal — ou mais seco — que o beijo sem nada. O beijo com ponto de exclamação é um beijo ligeiramente mais premente… Já o beijo com uns excessivos três pontos de exclamação revela um entusiasmo que talvez decorra da personalidade da pessoa — ou da vontade de beijar.
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CRÓNICA DO VIAJANTE À ESPERA DE SALINGER
À
JOÃO
VENTURA
espera no centeio» narra a história de um jovem nova-iorquino, expulso da escola três dias antes das férias de Natal e que não tem coragem de regressar a casa e enfrentar os pais. Por isso, passa esses dias deambulando pela cidade, fazendo descobertas decisivas, vivendo contradições, alegrias e temores. Isto recorda-me aquela vez em que fugi à “escola primária” por temer as pancadas “regulamentares” da palmatória que me deixariam as mãos a arder, vivendo como ele contradições, alegrias e temores, enquanto esperava num campo de milho que o tempo passasse para regressar a casa como se chegasse da escola. Após a publicação do livro, D. J. Salinger, mudou-se, em 1953, para Cornish, onde viveu até à sua morte em 2010. D. J. fazia questão de se manter inacessível, um “alvo móvel” que, mesmo vivendo nos arredores de uma discreta cidade, só deixava a casa e a propriedade circundante por motivos imperiosos, tornando-se lendária a sua total indisponibilidade para entrevistas, apenas com escassas exceções, sobretudo se a jornalista fosse uma mulher bonita. O filme «O meu ano com Salinger», realizado por Philippe Falardeau, tem como argumento a história de uma jovem estudante, Joanna, que nos anos 90 vai viver para Nova Iorque para se tornar escritora, arranjando emprego na agência literária que representa J.D. Salinger, tendo como tarefa responder em nome do oculto escritor às cartas que lhe eram enviadas. Há dias, ao ver o filme, ainda pensei que, finalmente, iria ver se não o Salinger real, ao menos o personagem que o representava. Mas não, nem na ficção, e ainda que fosse sob um avatar fílmico, Salinger não se deixou ver. Ainda assim tive mais sorte do que Vila-Matas que afirmo tê-lo visto uma vez num autocarro, mas que afinal não era ele. A mim, apareceu-me a afastar-se de costas voltadas, na cena final do filme em que apenas consegui ver a metade inferior do seu rosto.
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«D. J. fazia questão de se manter inacessível, um “alvo móvel” que, mesmo vivendo nos arredores de uma discreta cidade, só deixava a casa e a propriedade circundante por motivos imperiosos, tornando-se lendária a sua total indisponibilidade para entrevistas, apenas com escassas exceções, sobretudo se a jornalista fosse uma mulher bonita.»
Não vi Salinger, mas fiquei a saber que nos textos que enviava para a revista The New Yorker mantinha inalteradas as gralhas, proibindo o revisor de as corrigir e assumindo-as como se fossem opções literárias, pois achava que valorizavam o original. Sabendo isto, também eu decidi suspender a correção das gralhas desta minha crónica e deixei ficar três gralhas esquecidas que muito valorizariam a minha colaboração neste número da Palavrar, se não tivessem sido emendadas à munha revelia pela competente revisora.
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LUSOFONIAS ODE 6
OSWALDO MARTINS
o perigo de um jogo de dados a tangência da curva do acaso enquanto cantam os vitupérios
imagens dançam vazias de si bruxuleiam ancas seios os pelos jogam ao vento contra as portas
sob a recolha do fogo mordem os retorcidos prédios o som das cirandas infantis silencia
e ainda aqui se entregam bolsas apostas gritam no deserto a voz nenhuma repercute no destroço
as pernas o busto vaza vísceras as musas cantam, ó gaza, de azrael a face dúbia da faca
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Palavrar | Número 10
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PALAVRA DE LEITOR AUTOBIOGRAFIA NÃO ESCRITA DE MARTHA FREUD
PAULA CAMPOS
Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão Porto Editora | 2024 | Vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB
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eolinda Gersão deslumbra novamente os leitores com uma obra de grande densidade emocional e intelectual, em que reencontramos um dos seus temas centrais: a identidade feminina, que se cruza com a memória e a História. Nesta narrativa, situada entre a ficção e o documento, a autora conjuga investigação e imaginário interpretativo, mantendo-se uma das vozes mais consistentes da literatura portuguesa contemporânea. Martha Bernays — a protagonista — é a mulher que até há pouco tempo permanecia quase invisível ao lado do marido, Sigmund Freud. O romance nasce das cartas trocadas entre ambos, durante os quatro anos de noivado (1882–1886), e de outras missivas enviadas a familiares e amigos, publicadas apenas entre 2011 e 2019. «[…] é em cartas íntimas, escritas sem filtro, que a personalidade de quem escreve se revela do modo mais intenso e genuíno.» (Gersão, 2024, p. 7) Como observa, ainda, Teolinda Gersão, na nota introdutória, não se trata de um romance histórico, mas de uma leitura interpretativa de duas consciências reais. A autora ilumina a voz de Martha, mulher que durante décadas foi reduzida ao papel de esposa devota. Encontramos Martha já idosa, a reler as cartas que recebera e descobrir outras que nunca chegara a conhecer. Essa revisitação epistolar leva-a a redescobrir não apenas o homem a quem dedicou mais de cinco décadas da sua vida, mas também a jovem que fora e, sobretudo, a mulher que não pôde ser
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plenamente, por imposição social e conjugal. A leitura íntima das cartas transforma-se, então, num exercício de autoconhecimento e libertação tardia. Martha analisa-se a si mesma e ao marido, regressando a um passado de ilusões, renúncias e de um amor marcado pela desigualdade. Em trinta e cinco capítulos breves, o texto segue o fluxo de uma consciência que se interroga sobre quem foi na sombra de um nome maior, que identidade ficou submersa sob o peso da história de Freud e quem é agora, quando finalmente pode falar. A voz de Martha — contida, lúcida, por vezes irónica — constrói-se na maturidade e na distância, revelando tanto serenidade como desencanto. Nesta matéria ficcional, assente em documentos autênticos, a imaginação não serve a fantasia, mas a interpretação. A autora apresenta uma leitura em que o leitor precisa de participar no mesmo gesto hermenêutico de Martha: cada carta proporciona múltiplas imagens de ambos. Não é difícil reconhecer nessa mulher que reaprende a dizer-se vozes de outras figuras femininas da obra da autora, como Júlia Mann ou a narradora de A árvore das palavras. Uma das vertentes mais interessantes do romance é o olhar de Martha, ficcionado por Teolinda Gersão, sobre Freud. Nesta projeção subjetiva, construída a partir da releitura tardia das cartas, surge um homem profundamente contraditório — ciumento, possessivo, por vezes cruel na forma como impõe o seu domínio afetivo e intelectual. «Martha é minha.» São
referidos os seus vícios — tabaco, álcool e cocaína —, a neurastenia e a ideia de uma homossexualidade nunca vivida. A autora não pretende fazer um relato biográfico de Freud, mas examinar o modo como o poder e a afetividade se entrelaçam numa relação marcada pela desigualdade de género. A leitura provoca algum desconforto, devido à tensão entre a fidelidade documental e a inevitável reconstrução literária, entre a denúncia histórica e a imaginação crítica de uma autora do século XXI. A atenção à condição feminina e à subtileza das relações de poder entre géneros é um traço recorrente da escrita de Teolinda Gersão. O tema da submissão e da emancipação é tratado através de uma ética de lucidez e contenção. Martha assume o amor que sentiu pelo marido e reconhece a sua própria anulação, mas reivindica o direito à palavra e à memória, reclamando que as duas vozes — a dela e a de Freud — sejam ouvidas em pé de igualdade. O gesto é duplo: reparação simbólica e exercício de reflexão histórica. Autobiografia não escrita de Martha Freud inscreve-se, assim, na continuidade temática da obra de Teolinda Gersão, onde a experiência feminina e o questionamento da identidade assumem papel central. A prosa, depurada e contida, articula a reflexão ensaística com o registo intimista de um monólogo interior, exigindo uma leitura demorada e interpretativa. Contudo, a principal força do romance reside na ambiguidade da voz de uma Martha mediada pela sensibilidade da autora. É aqui que a narrativa encontra a sua relevância contemporânea. Ao reescrever a história a partir da margem, Teolinda Gersão não restitui apenas a palavra a uma mulher esquecida: abre a porta ao leitor para se interrogar sobre a relação entre verdade, memória e representação. «Saber quem é o outro é também saber quem fomos sendo na relação com ele.» (Gersão, 2024, p. 151).
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BESTIÁRIO ARDILOSO A QUINTA DO GERGELIM
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DAVID ROQUE
proveitei a entrevista ao recém-premiado matemático Vitorino Caraça, insigne calipolense, para acudir ao chamamento de um amigo de Vila Viçosa, o alquimista Tomé Labib. Desde a união com Anieska, eu sentia renovada pujança e gosto pelo jornalismo. O brilho daquele sorriso fervia-me o sangue como não acontecia desde os meus vintes. Era mais do que a sua juventude, havia uma especiaria inaudita que a habitava. Todas as aventuras valiam a pena. Labib envergava um volumoso colar de bezoares (designação da minha terra para cálculos pétreos de gado ruminante) e prosseguia a gestão da Quinta Pena Solta, onde desenvolvia uma distinta cultura de gergelim. Apesar do interesse comum pelo isotérico, nunca me denunciei como pé-de-cabra nem discorri sobre o Mundo Obscuro e as suas múltiplas criaturas. O alquimista tinha a particularidade de, através do uso mágico dos bezoares e gergelim, comunicar com as pedras, como o mítico Aladino dos velhos contos orientais. Quem compreender, saberá. As suas palavras trémulas narraram uma semana de pesadelo. Dias seguidos, uma coca plantara-se no telhado, grande réptil alado com cabeça de abóbora flamejante. O que lhe queria, não soube até ao dia em que, não a vendo por perto, se esgueirou para o campo e ordenou à grande rocha – razão de ser do nome da quinta – que se desviasse da caverna cuja entrada fechava. Ali guardou um precioso saco de gergelim três vezes banhado de três luas-cheias. Horas depois, perscrutando segurança no horizonte, retornou para garantir que o precioso armazenamento estava a salvo, mas a terra fora escavada e a grande pedra arrojada e estilhaçada. Roubadas décadas de produção de gergelim mágico de três luas. As marcas das garras da coca no solo eram a evidência de que ela desocultara o segredo. Consolei-o com as melhores palavras e prometi investigar o caso com apuro. Não era costume uma
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«O que lhe queria, não soube até ao dia em que, não a vendo por perto, se esgueirou para o campo e ordenou à grande rocha – razão de ser do nome da quinta – que se desviasse da caverna cuja entrada fechava.»
coca mostrar-se a olhos humanos, a não ser por motivos mais do que suspeitosos. A liderar as forças do mal estava Gancha, a mais horrenda das bruxas, pelo que deduzi ser ela a comandar a cabeça oca da coca. A questão fundamental era procurar saber o motivo do roubo de tão grande quantidade de gergelim mágico. Qual a necessidade? Depois de sossegar Labib, o alquimista, regressei a Lisboa, deixando para trás o palácio dos Bragança e a assombração da coca. Pretendia consultar informadores do Mundo Obscuro para clarificar as movimentações do inimigo insidioso. Vila Viçosa permaneceria na província, viçosa, e Lisboa encalçava-me buliçosa no seu trânsito regular e irregular de gentes, automóveis, elétricos e de mundo. No apartamento aguardava-me uma carta lacónica, convocatória rematada com o selo secreto dos Altos. Os meus chifres não captavam vibrações claras do papel. Agora, letras anónimas traçavam novo destino: Sagres seria o próximo passo do jornalista pé-de-cabra.
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SENTENTIA O DIA EM QUE A IA ME ENSINOU A UTILIDADE DO INÚTIL
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JAMES MCSILL
ensei durante muitos anos que escrever bem significava construir histórias impecáveis, alinhadas com estrutura, ritmo e propósito narrativo. Estudei modelos, frameworks, arquétipos, mapas emocionais, gatilhos de tensão, curvas dramáticas, tudo aquilo que transforma ideias dispersas em narrativas robustas. Passei anos a polir enredos que funcionavam, personagens coerentes, conflitos bem distribuídos, viradas bem posicionadas e desfechos elegantes. Tudo tecnicamente eficaz. Tudo perfeitamente utilizável. E, no entanto, eram histórias que morriam na página. Não eram más. Apenas não respiravam. Elas existiam num plano de utilidade, não de vida. Funcionavam com a precisão de um esboço de arquitetura, mas sem a palpitação de um edifício habitado. Eram textos que serviam um propósito, mas que não deixavam marca. Histórias que transmitiam informação, mas não criavam memória emocional. A viragem não veio de um curso, de uma epifania espiritual ou de um livro teórico. Veio quando criei a minha própria mente virtual: o McSill Ultra 3.0. A ironia? Não foi porque a ferramenta era extraordinária — embora fosse. Foi porque, ao trabalhar com ela, percebi que estava a alimentar a máquina com os mesmos vícios que bloqueavam a minha escrita. Eu estava obcecado com o útil. Com o mensurável. Com o objetivamente defensável. Com aquilo que dá resultado num pitch, num sumário executivo, num argumento de venda. O inútil, eu descartava. O silêncio, eu cortava. O gesto que não avança o enredo, eu eliminava. O supérfluo emocional, eu podava como se fosse gordura narrativa. Demorou meses até eu reconhecer o problema. Durante esse período, alimentei a IA com milhares de histórias e pedi que identificasse padrões de ressonância emocional. Esperava algo pragmático: estruturas replicáveis, modelos previsíveis, sequên-
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cias aplicáveis, mapas práticos. Esperava a fórmula. Aquilo que tantos insistem em encontrar. Mas o que recebi foi algo totalmente diferente. A IA começou a mapear precisamente os trechos que eu consideraria descartáveis: passagens de hesitação, pausas sem função, descrições que não conduzem ao clímax, parágrafos em que nada acontece, fragmentos de humanidade que não servem diretamente à narrativa. Os espaços vazios. Os momentos onde o enredo para, mas o personagem continua a existir. Não eram cenas de ação, nem diálogos fundamentais, nem revelações. Eram aqueles instantes que os executivos cortariam, que os estudantes ignorariam, que os algoritmos não saberiam classificar. E, ainda assim, eram o coração da história. Um exemplo perfeito: Jurassic Park. O que muitos lembram são os dinossauros, o caos, o velociraptor na cozinha, o T-Rex na chuva. Mas a transformação emocional do protagonista não acontece nesses grandes momentos. Acontece quando ele observa as crianças a dormir, sem dizer nada, sem resolver nada, sem descobrir nada. Um homem que rejeitava a ideia de ser pai entrega-se, silenciosamente, à ternura. Essa cena não empurra a história para a frente. Não muda a trama. Não revela informação. Não resolve nada. É inútil. Mas é ali que o filme ganha alma. Esse momento não constrói arco; ele revela o ser humano do qual o arco nasce. E eu, até então, cortava precisamente isso nos meus textos. O mais revelador foi perceber como a IA processava estes momentos. Ela conseguia rastrear temas, motivos, símbolos, estruturas. Tudo aquilo que é útil. Mas não conseguia criar o inútil de forma espontânea,
porque o inútil carece de intenção humana. Não existe algoritmo para pausa emocional. Não existe cálculo para o instante sem função. Não existe função matemática para o silêncio carregado de significado. O inútil exige vulnerabilidade, não otimização. Comecei então a usar a IA de outra forma. Em vez de pedir eficiência, comecei a pedir desperdício. Em vez de perguntar: “Como otimizo esta cena?” Perguntei: “Onde esta história precisa de espaço para respirar?” Em vez de perguntar: “Qual o próximo passo lógico do enredo?” Perguntei: “O que o personagem sente quando ninguém está a olhar?” Em vez de pedir às ferramentas para cortar gorduras, passei a pedir-lhes para mapear ausências: “Identifica trechos onde há emoção latente sem expressão.” Ou: “Mostra onde o enredo avança rápido demais e precisa de um momento inútil.” As respostas mudaram o meu processo. Percebi que o conceito vende. O tema emociona. Mas o inútil transforma. Podemos vender um livro com ideias grandes, com impérios galácticos, inteligências artificiais, revoluções invisíveis, bestas mitológicas, amores impossíveis. Mas nenhum leitor se apaixona pela arquitetura do enredo. Apaixonam-se pelos detalhes que parecem irrelevantes: o modo como alguém segura um copo, o cheiro de chuva num casaco abandonado, a forma como duas pessoas falam baixinho quando sabem que o relacionamento acabou, mas ainda não admitem. O enredo dá sentido. O inútil dá verdade. E, curiosamente, a máquina treinou-me nisso indi-
retamente. Ela mostrou a lacuna, mas não a podia preencher. Porque só o humano pode decidir quando nada precisa acontecer. A IA pode dizer: “Aqui há espaço emocional.” Mas só eu posso escolher deixá-lo vazio. É o mesmo em todas as narrativas marcantes. Harry Potter não precisa das cenas no dormitório; Orgulho e Preconceito não precisa de Elizabeth olhando pela janela; O Senhor dos Anéis não precisa de Sam a descascar batatas junto ao fogo; Blade Runner não precisa de Roy Batty carregando uma pomba; Before Sunrise não precisa do silêncio no elétrico. Mas sem isso, tudo se tornaria mecânico. Histórias memoráveis não são eficientes. São humanas. No fim, a maior ironia foi descobrir isto: A IA ensinou-me tudo o que é útil. A vida ensinou-me tudo o que importa. E aquilo que importa raramente serve para alguma coisa. Hoje, quando abro o McSill Ultra, já não pergunto: “Como estruturo melhor?” Pergunto: “O que posso deixar sem motivo, sem utilidade, sem explicação?” Porque histórias não vivem de funcionalidades. Vivem de desperdício emocional. O inútil é onde a humanidade se esconde. E é por isso que, quando desligo o computador e volto à página, compreendo enfim que o meu trabalho não é criar textos perfeitos, mas dar forma ao espaço onde o que não serve possa simplesmente existir. É esse o único lugar onde a literatura respira. O resto é engenharia. O inútil é o que permanece.
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SENTENTIA CARPE DIEM
PAULO PEREIRA
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eil Perry, Todd Anderson, Knox Overstreet, Richard Cameron, Stephen Meeks, Gerard Pitts e Charlie Dalton. Esta lista de nomes podia ser parte ou a totalidade da constituição de uma equipa verdadeira, num desporto qualquer. Na verdade, porém, [MD1.1]integra uma brilhante ficção que também nos ajuda a entender melhor o sentido de como algo aparentemente sem utilidade é, na verdade, bem útil. Personagens do filme “O Clube dos Poetas Mortos”, dirigido por Peter Weir, em 1989. O seu percurso numa instituição de ensino, com o Professor John Keating, interpretado por Robin Williams, permite-nos entender que uma vida plena vai muito além de nos entregarmos ao cinzentismo das rotinas, ao mero cumprimento de horários ou ao conformismo diante das decisões que outros tomam sobre nós. Se nos conformamos, encolhemos os ombros e seguimos indiferentes, como se viver não fosse connosco e nos tornássemos meras imagens desfocadas de nós próprios. Que sociedades resultam daí? Abstencionistas, incapazes de manifestar opiniões sólidas e poderosos argumentos, deambulando à deriva no tal “modo funcionário de viver”, a que se referia Alexandre O’Neill. Inútil é, tantas vezes, a classificação atribuída à leitura, à paixão pela música e pelas artes em geral. Afinal de contas, perguntam os cínicos, que benefícios concretos nos trouxeram elas? Apetece recordar, como possível resposta, uma célebre rábula dos Monty Python, inserida na película “A Vida de Brian”, sobre o que fizeram os Romanos por nós. No século XVI, Duarte Pacheco Pereira, navegador e cosmógrafo português, fascinado com as viagens ao Oriente, tinha boas propostas que nos explicavam a utilidade do inútil, no seu “Esmeraldo de Situ
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Orbis”, ao escrever que “a experiência é a mãe de todas as coisas”. E, conforme o comprova a própria vida do autor, não haveria experiência sem uma enorme curiosidade. Esta é a alma da ação que nos conduz ao conhecimento. Mesmo que alguns possam até identificá-la como inútil, essa alma jamais deixará de ser útil. Voltemos à película de Weir e ao que, recorrendo à obra “Leaves of Grass”, de Whitman, diz Keating aos incrédulos alunos, espantados com a ousadia do professor naquela atmosfera de conservadorismo bafiento e de cheiro a mofo, que caracteriza a instituição onde estudam: “Não importa o que digam alguns: palavras e ideias podem mudar o mundo! Não lemos e escrevemos poesia porque é giro. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana. E a raça humana está cheia de paixão. Medicina, Direito, Economia e Engenharia são ciências nobres e necessárias para servir de suporte à vida. Mas poesia, beleza, romance, amor?! É para isso que vivemos!” Construímos edifícios ou pontes porque sabemos de cor vários poemas? Somos capazes de fazer operações ao coração, ao cérebro ou à coluna vertebral porque cantamos músicas sem necessidade de olhar para um papel onde esteja a letra dessas canções? Acabamos com a fome, as guerras e as desigualdades porque sabemos distinguir quadros de Vieira da Silva dos de Júlio Pomar? Resolvemos problemas de Matemática, Economia ou Cálculo por visitarmos exposições de escultura? A resposta curta a todas estas perguntas é negativa. Porém, há mais para dizer: é que um ser humano que fique reduzido apenas a uma dessas dimensões pode ser uma autoridade, um especialista, um incomparável sábio em qualquer uma delas. Mas será sempre menos cidadão, menos informado, menos bem-formado,
menos participativo, menos dinâmico no dia a dia em sociedade, por lhe faltarem os outros componentes que o dimensionam em todo o seu humanismo: poesia, beleza, romance, amor, como na frase referida por Keating. De regresso ao filme citado e ao momento em que o professor demonstra aos alunos a importância do significado da expressão latina “Carpe Diem”, isto é, “Aproveitem o dia”. Não há melhor ilustração do que recitar um pouco de poesia do século XVII, escrita por Robert Herrick: “Apanha os botões de rosa enquanto podes/O tempo voa./E esta flor que hoje sorri/Amanhã estará moribunda.” Convite ou desafio, podem chamar-lhe o que quiserem. Nada há de inútil neste excerto de Herrick; pelo contrário, aproveitemos os dias enquanto podemos. O mais importante de tudo é que podemos aproveitá-los para descobrir mais sobre nós, os outros e o que nos rodeia. Sobre o desconhecido sobre o que temos de saber e, nesse caminho, também sobre o que não precisamos de saber, mas que podemos ficar a conhecer. Façam a experiência, a tal “mãe de todas as coisas”, como lhe chamou Duarte Pacheco Pereira. Vão ver que vale mais a pena do que perder tempo em redes, a destilar ódios, invejas e ofensas.
«Inútil é, tantas vezes, a classificação atribuída à leitura, à paixão pela música e pelas artes em geral. Afinal de contas, perguntam os cínicos, que benefícios concretos nos trouxeram elas?»
Escrevia Florbela Espanca que “ser poeta é ser mais alto”. Sejamos, então, poetas. Antes que nos aconteça aquilo que O’Neill previu neste excerto d’”O Poema Pouco Original do Medo”: “O medo vai ter tudo/ pernas/ ambulâncias/ e o luxo blindado/ de alguns automóveis/ Vai ter olhos onde ninguém os veja/ mãozinhas cautelosas/ enredos quase inocentes/ ouvidos não só nas paredes/ mas também no chão/ no teto/ no murmúrio dos esgotos/ e talvez até (cautela!)/ ouvidos nos teus ouvidos...”
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CLUBE DE LEITURA
O clube de leitura «O Prazer da Escrita» tem como principal objetivo fomentar o convívio entre os amantes de livros, a democratização da cultura e o incentivo à leitura. O encontro literário para discussão do livro escolhido acontece no último sábado de cada mês (ou no primeiro sábado, em função de eventuais festividades ou disponibilidade dos escritores convidados), das 21h30 às 22h30 (horário de Portugal Continental e Madeira). Seguindo a dinâmica dos clubes de leitura das bibliotecas municipais, o acesso ao clube e a participação nos encontros através da plataforma Zoom é gratuita.
Se desejar aderir a este clube de leitura online, basta solicitar adesão em www.facebook.com/groups/EncontrosLiterariosOPrazerDaEscrita
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PODCAST Disponível nos principais agregadores de podcast
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PALAVRAR Ler e escrever é resistir