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Revista PALAVRAR - Ler e escrever é resistir - Edição 11 - Julho 2026

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PALAVRAR Ler e escrever é resistir

REVISTA LITERÁRIA SEMESTRAL

N.º 11 | JULHO 2026


PALAVRAR Ler e escrever é resistir

N.º 11 | JULHO 2026

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JULHO 2026 N.º 11 EDITORIAL

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Analita Alves dos Santos Paula Campos

QUESTIONÁRIO DE PROUST A...

4 ÂNGELO DELGADO

PALAVRAR Ler e escrever é resistir

IN METU, VERITAS

46 Dália Rodrigues 48 AMOR DE MÃE Lewis Medeiros Custódio 50 FELIZES OS MORTOS Nuno Rosalino 51 DE NOVO CARÊNCIAS

Remi Gonçalves

PER FICTA, RESISTERE

INTEIRA PARA FUNDAR 6 AUMVIDA PÉS DE PETIZ POEMA A. M. Catarino 52 O DISCO VOADOR Ana Maria Costa COR QUE O SOL NÃO 8 ALEVOU 57 NÃO ESTÁ TUDO BEM, MAS... Alexandra Ferreira Teresa Dangerfield PEQUENAS COISAS 10 Ana André 12 AS MELHORAS SALTANDO DO Ana Leal PARÊNTESIS COM PONTOS DE 16 VIDAS 80 O QUE MAIS PRECISO INTERROGAÇÃO Carla Carmona

20 A RUA Isa Silva 24 A ARTE DE LARGAR Lara Fernandes VAZIO ONDE ELA SE 28 OASSENTA Laura Susete Viegas

32 RECOMEÇOS Maria da Paz Camacho 36 VIDE VERSO Maria Gaio 38 A GEOMETRIA DOS CACOS Maria João Faísca da Silva

42 O CORPO SABE

Ana Candeias

82 Cláudia Passarinho QUE PERMANECE 84 AQUILO ENSAIO POÉTICO POESIA PARA TOTÓS

Filomena Fonseca

CONTRA OS DIAS 86 CRÓNICA ÚTEIS

88

Gabriela Pacheco

ESCREVER OU NÃO? EIS A MINHA VERSÃO! Inês Pinto

É MESMO O 90 FUNDAMENTAL AMOR Luciana Morais

92 Mena Galvão

O QUE RESISTE - RITMO NOLT

Sónia Pedroso

SENTENTIA

106 James McSill INDIFERENTES 108 OS Paulo Pereira

A POESIA DO ESSENCIAL

A BIBLIOTERAPEUTA SUGERE POESIA DO ESSENCIAL 110 DA AO ESSENCIAL DA BIBLIOTERAPIA

Sandra Barão Nobre

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DA PALAVRA À FORÇA

94 O QUE CABE NA MALA? Analita Alves dos Santos

RESISTENTIA POETICA

60 DOS MANGUES E DAS MARÉS Ana Paula Tavares VEIAS DE LUZ 62 Ana Paula Miranda 63 ARREPIO Anabela Mendes 64 PERDIDO E ACHADO Andreia Albernaz 65 FAZES COLEÇÃO DE QUÊ Andreia Rodrigues DO 66 AMOR REAL Andriele Mendonça 67 VIDA Cidália Santos 68 DIAS-MUDOS David Vaia 69 PEDIDO AO TEMPO Filipe Araújo 70 DE MÃOS DADAS Gisela Pires 71 MANEIRAS DE MORRER Isabel Praia 72 ANTES DA PALAVRA Maria Leonilda Pereira

73 O MAR. O MAR. O MAR Luís Aguiar DO 74 MEU TAMANHO Maria Bruno Esteves 75 ANÁLISE POÉTICA Mário Ribeiro ENTRE-LINHAS 76 Marta Lu Donato O 77 ÚLTIMO POEMA Olinda Gil 78 O QUE FICA DA MÚSICA Rúben Marques 79 O RELÓGIO Sara da Costa Sheppard

GAVETA CRIATIVA

96 ALQUIMIA EFABULADORA David Roque

CRÓNICA DO VIAJANTE PORTAS DA LITERATURA 98 AS João Ventura

LUSOFONIAS

100 SAMIR E AISHA Oswaldo Martins

PALAVRA DE LEITOR

BRASIL NÃO HÁ LEÕES 102 NO Paula Campos

BESTIÁRIO ARDILOSO

CAVALEIRO VERDE 104 ODavid Roque

Ficha Técnica Diretora: Analita Alves dos Santos | Editora: Paula Campos | Capa, design e paginação: Isa Silva | Revisão: Ana Costa, Cláudia Passarinho, David Roque, Inês Pinto, Mena Galvão, Teresa Dangerfield | N.º de inscrição na ERC: 127573 | Propriedade: Analita Alves dos Santos | Sede: Rua dos Missionários, Lote 11 L 8500-309 Portimão | Sede da redação e da Editora: Rua dos Missionários, Lote 11 L 8500-309 Portimão | analita.santos@oprazerdaescrita.com | Estatuto editorial ©2026 Revista Palavrar | Todos os direitos reservados. Palavrar 11 Todos os textos| Número são publicados segundo o Acordo Ortográfico em vigor, exceto quando a pedido específico do autor.


EDITORIAL A POESIA DO ESSENCIAL Analita Alves dos Santos

Paula Campos

N

O

otícias, objetos, compromissos, opiniões, imagens, urgências. Vivemos rodeados de coisas que exigem a nossa atenção. Acumulamos excedentes com extraordinária facilidade e, muitas vezes, só percebemos o que é realmente necessário quando alguma circunstância nos obriga a escolher. O essencial costuma revelar-se assim. Nem sempre é aquilo a que demos mais tempo. Uma conversa que adiámos, um livro sublinhado há vinte anos, a mesa na qual alguém continua a pôr um prato a mais por hábito. O essencial cabe numa fotografia dobrada dentro de uma carteira ou numa frase dita sem intenção de permanecer. A literatura conhece bem esta matéria. O escritor ocupa páginas a descrever a casa e faz com que o leitor compreenda uma família através da chávena rachada; da ausência contada sem que a dor seja explicada; uma personagem fecha uma porta, e o escritor confia que quem lê perceberá o que ficou do outro lado. Esta edição da PALAVRAR nasceu desse olhar. Reúne textos diferentes entre si, escritos por autores que procuraram o essencial por caminhos próprios. Alguns encontraram-no nas relações humanas, outros na memória, na perda, no quotidiano ou na observação de uma realidade que facilmente nos escapa quando passamos por ela depressa. Não procurámos uma definição para o tema. Seria contraditório fechá-lo numa fórmula. Preferimos deixar que cada texto responda à sua maneira à pergunta que esteve na origem desta edição: se fosse preciso retirar tudo o que é dispensável, o que ficaria? Será a sua resposta a mesma depois da última página?

s textos que compõem esta edição equilibram-se entre o que se diz e o que se guarda, insinuando caminhos nos quais facilmente nos reconhecemos. Há, em cada poema, conto, crónica ou ensaio, um cuidado evidente na escolha do ritmo e das palavras, para que nada sobre, mas também nada falte. Dessa precisão nascem a força e a beleza do essencial. Não se pretende simplificar o mundo, mas torná-lo mais claro. Dizer menos pode ser uma forma de dizer melhor. Recusar o excesso é criar espaço para o detalhe, para o gesto breve, para o silêncio que acompanha a palavra. Esta é uma forma de poesia. Que desta leitura fique no leitor uma palavra, uma imagem, um detalhe que regresse mais tarde, inesperadamente. O suficiente pode ser pleno.

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QUESTIONÁRIO DE PROUST A... ÂNGELO DELGADO

1 | Qual o principal aspeto da sua personalidade? Serenidade e capacidade de escuta.

2 | Qual é a sua qualidade favorita num homem? Num homem ou numa mulher: a bondade. Nascido em Lisboa, em 1981, Ângelo Delgado licenciou-se em Ciências da Comunicação. Começou no jornalismo, onde trabalhou na TSF, Correio da Manhã, Jornal Metro e Africa Today. Atualmente, é redator de publicidade e colabora, enquanto freelancer, com diversas agências do setor publicitário. Em 2020, publicou o seu primeiro livro — Sem Ofensa — com ilustrações de Sofia Ayuso. Um exercício de desconstrução do racismo entranhado na linguagem coloquial do dia a dia. Em 2026, estreou-se na ficção literária com Foi o Preto, um romance passado no Portugal dos anos 90, que aborda um caso de justiça, além de temas como o racismo sistémico, os abusos da polícia no bairro da Cova da Moura e a persistência dos traumas do colonialismo no país.

3 | Qual é a sua qualidade favorita numa mulher? Num homem ou numa mulher: a bondade.

4 | O que mais aprecia nos amigos? A capacidade de escuta e o afeto.

5 | Qual é o seu principal defeito? Não conseguir, por vezes, ser vertical naquilo que pretendo dizer, com medo de ofender/magoar.

6 | Qual o seu passatempo favorito? Ler. Mas não o vejo como passatempo, antes uma continuidade da respiração.

7 | Qual a sua noção de felicidade? Todos os momentos que não estou descontente: sou feliz a maior parte do tempo. Dei conta disso há poucos anos. Existe uma força invisível, acho, que nos quer fazer convencer que estar triste, em revolta, é o estado natural e normal do ser humano. Não é. Pelo menos não deve ser.

8 | Qual a sua noção de infelicidade? Não ter a capacidade de sentir o chão. Não chegar a quem amo com eficácia.

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Palavrar | Número 11


9 | Se não fosse você mesmo, quem seria? Um qualquer ser humano, dotado de imortalidade, de forma a conseguir acompanhar toda esta criação que é o mundo em que vivemos desde o seu início.

10 | Onde gostaria de morar?

18 | Qual a sua figura feminina favorita na história? Virginia Woolf.

19 | Quais os seus nomes favoritos? Nunca pensei nisso, mas talvez Catarina e Alexandre.

No Mindelo, em Cabo Verde. Acredito que o conseguirei fazer no futuro.

20 | O que mais odeia?

11 | Qual a sua cor favorita?

21 | Quais as figuras históricas que mais odeia?

Não tenho. Todas me fascinam.

12 | Qual o seu escritor favorito? Dostoiévski e Saramago.

13 | Qual o seu poeta favorito? Gosto de vários, não consigo destacar um só poema.

14 | Qual o seu herói favorito na ficção? Bazarov, do livro “Pais e Filhos”, de Turguéniev.

15 | Qual a sua heroína favorita na ficção? Nana, do livro “Nana”, de Emile Zola

16 | Quais os seus pintores e compositores favoritos?

A pobreza e a injustiça.

Todos os ditadores.

22 | Qual o evento militar que mais admira? As guerras de libertação na Guiné, Angola e Moçambique.

23 | Qual o talento natural que gostaria de ter? Desenhar/Pintar.

24 | Como gostaria de morrer? Durante o sono profundo, sem dor e sofrimento.

25 | Qual é o seu estado mental atual? Leve, tranquilo, feliz.

26 | Por qual defeito tem menos tolerância?

Mark Rotko, na pintura. Na composição, não tenho.

Novamente: o ódio.

17 | Quais os seus heróis na vida real?

27 | Qual o seu lema favorito?

Heroína: A minha mãe.

Viver. Ou tentar, pelo menos.

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PER FICTA, RESISTERE A VIDA INTEIRA PARA FUNDAR UM POEMA

A. M.

CATARINO

a vida inteira para fundar um poema in A faca não corta o fogo Herberto Helder

C

omprei o livro numa feira de velharias, aquela que acontece todos os terceiros domingos do mês, na Praça da Liberdade. Um romance intitulado “Poesia” afigurou-se-me irresistível paradoxo. A capa era simples e minimalista, apenas com as maiúsculas POESIA carimbadas num fundo branco. O autor, com um único nome, que na altura não fixei, aparecia decalcado na lombada, também com o improvisado design de carimbo artesanal, mas em letras minúsculas. A contracapa exibia apenas um código de barras centrado ao fundo. Procurei a ficha técnica, descobrindo que a primeira folha tinha sido arrancada. Os relevos na página três deixavam supor que fora extirpada para não revelar a assinatura do dono original, ou, eventualmente, evitar a denúncia duma dedicatória comprometedora. O misterioso opúsculo tanto podia ter cinquenta anos, como poderia ter sido publicado na semana anterior. Paguei uma bagatela pela intrigante obra e guardei o pequeno volume no bolso do casaco. Folheei-o depois na esplanada, onde tomei café antes de regressar a casa. Não compreendi bem o enredo, mas percebi que cada capítulo se desenrolava a partir do poema em epígrafe, a funcionar simultaneamente como título. Recordo-me que um capítulo iniciava com os versos “Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar”, de Sophia, e, lá mais para

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«Li e reli o nome do autor, primeiro mentalmente, de seguida em surdina, como se dum mantra se tratasse. O autor usava apenas um nome, que tanto poderia ser próprio como apelido. Por que razão me intrigava tanto aquela conjugação de letras?»

o fim, encontrei "Ama como a estrada começa", de Cesariny. Fechadas as páginas, nunca mais voltaria a ver o livrito. Não sei se o esqueci sobre a mesa da esplanada, se caiu quando o tentei devolver ao bolso do casaco ou se o poisei no tejadilho do carro, enquanto procurava a chave no bolso, tendo voado para a berma assim que iniciei a marcha. Ainda hoje estou para compreender como se me esvaiu entre os dedos tão precioso tesouro. Acossou-me a sensação duma irreparável perda. Algo se quebrara irremediavelmente dentro de mim. Precisava daquele livro. Precisava mesmo daquele livro! Descrevi-o em livrarias, sem nunca conseguir dar dados suficientes para que mo encomendassem. Revistei todos os alfarrabistas da cidade. Perguntei por ele em grupos de leitura, nas redes sociais.


Fui pessoalmente à Biblioteca Nacional. Nada. Ninguém conhecia a estranha obra — era como se o livro nunca houvesse existido. Conformava-me já com o infortúnio, quando, inesperadamente, me recordei do nome do autor. Apareceu-me assim, de repente, na cabeça, sem qualquer aviso ou presságio. Escrevi-o de imediato na tolha de mesa do restaurante onde almoçava. — Está tudo bem, senhor? — perguntou o empregado, temendo que o acepipe acabadinho de servir me houvesse caído mal. Acenei aprovador, dispensando-o com um movimento enérgico de mão, e voltei a fitar as letras na mesa. Pensei correr para a livraria mais próxima, mas havia ali alguma coisa que me estava a escapar… O que seria? Li e reli o nome do autor, primeiro mentalmente, de seguida em surdina, como se dum mantra se tratasse. O autor usava apenas um nome, que tanto poderia ser próprio como apelido. Por que razão me intrigava tanto aquela conjugação de letras? Não era um nome vulgar e, ao mesmo, tempo soava-me tão familiar… O que não conseguia ver, mesmo com olhos fixos no relevo rugoso do papel? Subitamente, com a imediatez e ímpeto dum relâmpago, fez-se luz no meu confuso discernimento. Estarreci ao compreender que estava diante dum anagrama do meu próprio nome. Não sabia como nem quando, mas fora eu quem escrevera aquele livro, que, de alguma forma obscura

e indecifrável, encontrara caminho para as minhas mãos antes de o criar, como se o futuro me endereçasse um rascunho do meu próprio destino. Saí sem tomar sobremesa e telefonei a justificar a falta ao trabalho dessa tarde com uma súbita indisposição (na altura não sabia que jamais voltaria àquele emprego que detestava e que, na verdade, não tinha nada a ver comigo). Caminhei, sem rumo, pela cidade, adiando o inadiável. Por fim, lá me decidi. Não há rota de fuga para o destino. Entrei na livraria do meu bairro, mas não para encomendar o livro “P O E S I A”, pois agora temia o que poderia encontrar nas suas páginas… Sabia que me cabia vivê-lo: sabia que me competia escrevê-lo — e nunca tive o execrável hábito de espreitar a última página antes de começar um livro. Acenei um cumprimento ao empregado, ocupado a fazer a conta aos manuais escolares do ano letivo prestes a começar: a mãe olhava para a carteira desgostosa; o filho franzia o sobrolho ao montão de lombadas, ao mesmo tempo que estalava as costas que em breve carregariam tão desmesurada canga. Dei dois ou três passos entre as estantes, como se não soubesse muito bem ao que ia — mas sabia. Dirigi-me à secção da poesia e hesitei: Al Berto ou Herberto Helder? A mão decidiu por mim. Abri ao calhas o calhamaço dos “Poemas Completos” e os olhos encadearam-se-me em pássaros negros a esvoaçar sobre a página, encontrando a epígrafe do primeiro capítulo da minha revisitada vida.

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PER FICTA, RESISTERE A COR QUE O SOL NÃO LEVOU

H

ALEXANDRA FERREIRA

avia anos que o sol só entrava naquela casa por engano. Assim que Lara abriu a porta, o cheiro a bafio veio ao encontro dela. — Pai — chamou, tentando conter a náusea. O silêncio que reinava na casa era cortado pelo tiquetaque do antigo relógio de coluna que se erguia no fundo do corredor. Piscou os olhos, tentando adaptar-se à penumbra. — Com um dia de sol tão bonito, as persianas continuam fechadas — murmurou. — Mamã, eu e o mano ficamos aqui fora a brincar — disse a pequena gémea, desprendendo-se da sua mão. Lara suspirou. Recordou um episódio em que o pai ralhara com as crianças que, alheias ao peso silencioso da casa, corriam animadamente em volta da grande mesa de carvalho. A cada passagem, faziam estremecer o louceiro onde a mãe guardava os tesouros para ocasiões especiais: a porcelana da Vista Alegre, o faqueiro de prata e as toalhas de linho bordadas. Desde o falecimento da mãe, vira os sofás cobrirem-se com mantas «para não se estragarem», os estores passarem a estar parcialmente cerrados — «se o sol bate muito, come as cores dos tecidos» —, o pó a acumular-se em redor dos bibelots e porta-retratos — «não tire nada do lugar, olhe que eu sei onde está tudo». A Dona Miquinhas, que sempre mantivera a casa num brinco desde que ela se lembrava, queixava-se que não era possível fazer limpeza e desconfiava que a tosse do patrão se devia à falta de arejamento. — Pai — chamou novamente, batendo na porta do quarto. Sentou-se na beira da cama e acendeu o candeeiro da mesinha de cabeceira. — São horas de acordar. Esqueceu-se que o vinha buscar? É domingo, vamos almoçar juntos. — Ó filha, preferia ficar em casa. Há aí sobras de ontem.

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Palavrar | Número 11

«Ele levantou o rosto. Reconheceu uma dobra torta no tecido — igual às cabanas improvisadas que a mulher montava para as crianças.»

— Vamos levantar, tomar banho e vestir uma roupa lavada. — Franziu o nariz ao ver as calças coçadas e a camisa encardida com que o vira na quarta-feira. — Não é preciso — apressou-se a responder, seguindo-lhe o olhar. — Sabes que a tua mãe gosta muito desse conjunto. — Precisa de ser lavado. — Lara desviou o olhar. Ainda lhe custava perceber onde acabava o luto e começava o abandono. — Não é necessário. Sabes que a máquina engelha a roupa e só a tua mãe consegue fazer bem os vincos. A Miquinhas não tem jeito nenhum. — Deixe lá isso, pai. Depois eu passo-lhas a ferro — Contrapôs, enquanto erguia ligeiramente a persiana. Num salto, o pai chegou ao pé dela e fechou-a. — As cores… — murmurou. — Vou fazer o que dizes. Lara deambulou pela casa, constatando que as caixas catalogadas continuavam a acumular-se em quase todos os compartimentos. Tecidos, fotografias, botões, linhas, receitas, bilhetes, lenços perfumados… Apagou as luzes e aguardou no alpendre. Os gémeos corriam e guinchavam, felizes pela liberdade que o jardim lhes proporcionava. Recordou como eram mimados pela avó: «Fiz o bolinho de chocolate dos meninos», «Tenho uma nova história para vos contar», «Deixa-os passar cá a noite.


Vamos montar as tendas». A sala virava acampamento, almofadas voavam, e o avô sorria ao contemplar a mulher e os netos contorcidos pelas cócegas, que lhes arrancavam risadas estridentes. — Estou pronto. Podemos ir. — Luisinho, Constança. Assim que avistaram o avô, a correria e os guinchos cessaram e, em passo vagaroso, aproximaram-se para o cumprimentar. Lara fizera uma reserva num restaurante conhecido por ter uma sala envidraçada ao centro, onde as crianças podiam brincar enquanto as conversas se prolongavam à mesa. — Então, senhor meu sogro, está preparado para apararmos as sebes depois do almoço? — Já me custa um pouquinho, mas a tua sogra faz gosto em ter o quintal mais bem cuidado do bairro, a relva aparada, os arbustos viçosos, os canteiros coloridos de rododendro, estrelícia e lantana, a buganvília a cobrir o caramanchão. Tenho os apetrechos todos prontos. Depois de um curto passeio pelas redondezas, os adultos deitaram mãos à jardinagem, enquanto as crianças, sem espaço para correr, ficavam a ver televisão, com a recomendação veemente de não mexerem em nada. A tarde de primavera espraiava-se e Lara anunciou: — Acho que merecemos uma pausa. Vou preparar uma limonada fresquinha. — Há limões no frigorífico. O jarro e o espremedor estão na primeira porta, o açúcar… — Pai, eu conheço os cantos à casa. Ainda sei onde a mãe arrumava tudo. Apesar disso, ele seguiu atrás dela. Assim que entra-

ram no hall, depararam-se com um cenário de caixotes abertos, tendas improvisadas com cadeiras e tecidos, trincheiras de almofadas e dois heróis de capa digladiando-se com espadas improvisadas de cartão. — O que vem a ser isto? O que é que vocês fizeram? Quem vos deu ordem para mexer nas coisas da avó? — disse, quase sem voz. — Avô, achas que a avó gostava mais destas coisas guardadas ou de nós? — perguntou Luisinho com candura. Arrastando os pés, o avô caminhou pela sala, sentou-se no cadeirão e cobriu a cara com as mãos. Constança sentou-se aos seus pés e abraçou-lhe as pernas. — Se a avó visse isto, achas que ralhava? Ele levantou o rosto. Reconheceu uma dobra torta no tecido — igual às cabanas improvisadas que a mulher montava para as crianças. Um dos lençóis ainda tinha um nó malfeito na ponta. Deteve-se nos netos. Tinham a mesma alegria indisciplinada da sua mulher. O tiquetaque do relógio continuava igual, mas pela primeira vez em muitos anos, parecia marcar uma casa viva. — Vem cá, Luisinho – pediu ele. Levantou-se. De mãos dadas com os netos, aproximou-se da janela e disse, com voz trémula, mas categórica: — Vamos abrir as persianas. O sol entrou devagar pelas frestas. As partículas de pó dançaram e os tecidos iluminaram-se. O ar morno não se fez rogado, assim que a janela foi aberta de par em par. Nesse verão, algumas cores desbotaram. Mas a casa voltou a respirar.

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PER FICTA, RESISTERE PEQUENAS COISAS

S

ANA

ANDRÉ

ubi as escadas, apressada. Revi mentalmente as tarefas que agendara para o dia. Mais uma vez, fora demasiado ambiciosa nos afazeres que me impusera. Era assim desde que a perdera. Com as mãos ocupadas, sobrava pouco espaço para pensar. Não ficaria muito tempo. Seria entrar e sair. Evitei regressar à casa, enquanto pude. Sabia que ninguém me abriria a porta, não haveria braços abertos para me cumprimentar, nem me convidariam a ficar e tomar chá para me reter mais um pouco. Mas era preciso abrir as janelas e deixar o ar entrar, regar as plantas. E, naquele dia, cabia-me a tarefa. Não consegui protelar mais. Meti a chave na porta e, hesitante, rodei-a. A fechadura cedeu. O cheiro a «casa» atingiu-me assim que a porta se entreabriu. O perfume dela ainda permanecia no ar, nos móveis, nas cortinas, como se ali tivesse estado a arranjar-se antes de sair para os seus afazeres matinais. Atravessei o hall e entrei na sala. Em cima da mesa, o pote de cristal aguardava vazio que a senhora o recheasse de novo. Era ali que guardava os bolinhos frescos para receber o filho ou neto que chegasse para a visitar e aceitasse um chá. O meu olhar vagueou pelo espaço, perdido nas memórias que me assaltavam. Cada móvel, cada objeto de decoração trazia recordações associadas. Vivi naquela casa durante toda a minha infância, com os meus pais e três irmãos. Ali, senti as alegrias da família que se apoiava, fosse qual fosse o problema; sofri os desgostos da adolescência e as alegrias do amor. Aprendi a partilhar, a respeitar o espaço de cada um e as regras de convivência num lugar limitado para uma família tão grande. Aprendi quando falar e quando calar. Aprendi a amar. Dali, saí para casar. Mas, na verdade, nunca saí. Abri as portas que davam acesso à pequena área exterior. Vi o topo das árvores que refrescavam a avenida. No prédio em frente, a varanda, de onde

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«Meti a chave na porta e, hesitante, rodei-a. A fechadura cedeu. O cheiro a «casa» atingiu-me assim que a porta se entreabriu.»

os meus amigos acenavam quando crianças, estava agora vazia. Apenas a aragem que me refrescava o rosto molhado era a mesma. Fechei os olhos e inspirei aquele odor fresco. O chilrear dos pardais transportou-me para outros tempos e deixei-me ficar. Ouvi risadas longínquas, quatro andares abaixo, na rua. A vida continuava lá em baixo, indiferente à minha dor. Reguei as plantas, que se mantinham viçosas como se esperassem por ela. Nunca soube o que ela fazia para que, mesmo num espaço reduzido, crescessem e florissem daquela forma. Deixei-me ficar a apreciar a sua beleza por mais um instante e voltei a entrar. Não me lembrei por que tinha pressa antes de chegar. O tempo suspendia-se. Os ponteiros do relógio não se moviam com a mesma azáfama. Sentei-me no sofá e detive-me a observar cada objeto exposto nas prateleiras. Depois, levantei-me e dirigi-me ao quarto mais pequeno. As molduras de fotografias enchiam uma parede. No topo, os meus pais. Demorei-me nelas. As fotografias têm este condão: suspendem as pessoas no tempo, permanecem jovens e belas para quem as observa, mesmo tanto tempo depois. Li a expressão de cada uma. Como seria o fotógrafo para quem olhavam? O que lhes iria na cabeça, o que as preocuparia naquela altura?


Certamente não pensariam na saudade que habitava o peito da filha que os observaria anos mais tarde, sentada na cama de um dos quartos da sua casa. Abaixo daquelas fotos, toda a família estava exposta em cascata, retratada em momentos felizes, como se de uma árvore genealógica se tratasse. Logo na linha abaixo, os filhos, no dia dos seus casamentos e, por baixo, os descendentes de cada casal formavam a linha dos netos. Sorri, ao ver os rostos familiares. Aquele era um sítio onde sempre me detinha quando a visitava. Sentávamo-nos as duas naquela cama e comentávamos episódios de cada um dos retratados. Espreitei à porta do seu quarto. A cama estava feita e tudo arrumado, como sempre. O perfume almiscarado, no ar. Quase senti a sua presença. — Mamã? — chamei, mas não obtive resposta. Encostei a porta e percorri o corredor. As lágrimas corriam soltas, não tentei impedi-las. Precisava de fazer o luto que contivera por tempo demais. Com a urgência das coisas a fazer completamente esquecida, dirigi-me à cozinha. Tudo estava igual. Abri as janelas e deixei o sol entrar. Aquela sempre fora a divisão mais ensolarada. Liguei a chaleira elétrica e fervi água. Procurei a caixa que ela pintara, quando a visão ainda lho permitia. No interior, os pacotes de chá ordenados. Escolhi um: tília. Coloquei-o numa chávena que retirei do armário e verti a água quente. O aroma invadiu-me as narinas. Sentei-me no banco do balcão, ao lado da janela, como sempre fazíamos. O vapor subia da chávena em espirais e entrelaçava-se nos raios de sol que se aventuravam pela janela entreaberta. Fechei os olhos, com o calor a bater-me no rosto. Por instantes, senti a minha mãe comigo. Quando rodei a chave na fechadura ao sair, trazia a caixa de chá debaixo do braço e tomara uma decisão: não me oporia mais à venda da casa. Fomos felizes ali, e estava na hora de outra família sê-lo também. Ao descer os quatro andares, sentia-me serena. Percebera que não era a casa que me ligava a ela. Era a memória das pequenas coisas que fazíamos juntas, o que me havia ensinado e eu partilhava com os meus filhos e netos. Enquanto eu existir, ela viverá sempre em mim.

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PER FICTA, RESISTERE AS MELHORAS

ANA LEAL

E

stou no quarto há três dias. Ninguém me viu entrar. Raramente me veem. Os bebés, às vezes; os cães, quase sempre; os gatos, sem exceção. O gato da Leonor passou as primeiras horas debaixo da cama dela, imóvel, com os olhos fixos no canto onde eu estava. Depois saiu e foi deitar-se junto à porta do jardim, como faz sempre, mas, desta vez, não dormiu. Os animais sabem quando este trabalho já está decidido. Leonor tem cinquenta e seis anos. Uma filha, um filho e dois netos que ainda não percebem o que significa estar deitada sem conseguir levantar-se. O marido, Rui, morreu há quatro anos. A esse, vim buscá-lo numa tarde de novembro, com cheiro a laranja podre no ar. Não me lembro de todos os rostos, mas lembro-me dos que ficam a olhar para a porta depois de eu sair. O Rui ficou assim. O quarto tem janela que dá para o jardim. De manhã entra uma luz de que ela sempre gostou, disse-o à filha, antes de deixar de falar. Aquela luz da manhã, Inês, é o melhor desta casa. Guardo esta frase. É o único inventário que faço: o que as pessoas dizem quando já não estão a tentar dizer nada em especial. O essencial é assim: chega sem muita definição, algo impercetível, mas depois não desaparece mais. *** Às três da manhã do segundo dia, entrou a enfermeira no quarto. Vem todas as noites, desde que a Leonor voltou para casa. Traz o frio da rua e um rigor que respeito: verifica a infusão, ajusta o soro, anota números, sem tremer, numa folha que a família não consegue ler. Mas a enfermeira vê mais do que os valores. Vê a Leonor: percebe o momento exato de humedecer os lábios secos, o jeito de ajeitar a almofada, que

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«O quarto tem janela que dá para o jardim. De manhã entra uma luz de que ela sempre gostou, disse-o à filha, antes de deixar de falar. Aquela luz da manhã, Inês, é o melhor desta casa. Guardo esta frase. É o único inventário que faço: o que as pessoas dizem quando já não estão a tentar dizer nada em especial.»

lhe devolve alguma dignidade. Para ela, a Leonor é uma vida que tenta acarinhar e proteger até onde pode. Para mim, a Leonor é uma luz que se retrai. A enfermeira não me vê. Mas quando atravessou o quarto, o seu passo hesitou por um breve instante,


uma pequena quebra, sem causa, como quem sente uma corrente de ar numa divisão fechada. Mas continuou. Limpou o rosto da Leonor com compressas húmidas, com calma, sussurrando palavras carinhosas. Antes de sair, ficou parada junto à porta, de costas. A mão pousada no puxador durante dois, três segundos, antes de desaparecer pelo corredor. Reconheço-a. Fazemos o mesmo trabalho, mas em sentidos contrários. *** Hoje de manhã, Leonor abriu os olhos. Há uma alteração na respiração antes disto acontecer, o corpo a tentar reunir o que estava disperso, esforço de Hércules que reconheço como uma última tentativa. O corpo contradiz-se, e eu espero. A Inês estava na cadeira ao lado, a dormir com a cabeça sobre os braços cruzados, na beira da cama. O filho, Miguel, tinha saído para fumar e comprar café. Há sempre alguém que sai no momento errado. Esses saem porque não aguentam ficar, depois voltam e carregam isso para o resto da vida, sem saberem que nada do que fizessem mudaria o inevitável. Leonor olhou para o teto. Depois disse: — Inês. Apenas o nome. A Inês acordou como se nunca tivesse dormido. — Mãe. Mãezinha, estou aqui. — Tenho fome — disse Leonor. — Há torradas? Observei a filha tentar não chorar. Ligou ao irmão com a mão trémula. — Miguel, vem depressa, a mãe acordou. Parece melhor, até pediu comida. Nos vinte minutos seguintes a casa encheu-se: a pressa, o calor dos corpos, o cheiro a café, os netos que alguém foi buscar à escola. Leonor comeu meia torrada. Reconheceu todos. Perguntou pela vizinha Rosa e pelo cão Charlie. Riu de algo que o Miguel disse. Fiquei junto à janela. A luz da tarde entrava de lado, a luz dela, e a Leonor ficou um momento com o rosto virado para o vidro, os olhos fechados. Há qualquer coisa nesse gesto que conheço, não é resignação nem paz, mas algo primitivo, anterior a essas palavras, para o qual os vivos ainda não inventaram nome.

«Fiquei junto à janela. A luz da tarde entrava de lado, a luz dela, e a Leonor ficou um momento com o rosto virado para o vidro, os olhos fechados. Há qualquer coisa nesse gesto que conheço, não é resignação nem paz, mas algo primitivo, anterior a essas palavras, para o qual os vivos ainda não inventaram nome.»

*** À noite, a família jantou no quarto. Trouxeram tigelas de caldo verde e pão com chouriço. Alguém pôs música baixinha, um grupo que a Leonor gostava em jovem. Ela não comeu, mas ficou acordada a ouvir. A respiração tinha mudado outra vez. Os vivos não costumam estar de ouvidos postos nessa mudança. Eu, pelo contrário, ouço sempre.

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PER FICTA, RESISTERE | AS MELHORAS

Leonor disse a Miguel que tinha sido um bom menino. Disse-o com a economia de quem tem as palavras contadas, sem adjetivos desnecessários, apenas uma frase direta. O Miguel saiu para o corredor e ouviu-se, do outro lado da porta, um choro abafado, como quem não quer deixar sair a dor. Soltá-la seria aceitar o inevitável. Disse à Inês que a caixa de madeira em cima do roupeiro era para ela. Dentro havia uma carta para

«Saí pelo jardim. A porta estava fechada, mas isso nunca me deteve. Havia orvalho na erva e o cheiro familiar daquela hora onde a penumbra e a luz se misturam, onde o jardim ainda era dela, o vaso partido, as roseiras plantadas pelo Rui, a erva por aparar. Levei a sua última respiração. É a única coisa que se pode levar.»

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Palavrar | Número 11

Ana Leal

cada um dos netinhos, para abrirem quando casassem. A Inês prometeu. Há pessoas que guardam as promessas feitas nestes quartos como se fossem contratos com qualquer coisa maior do que elas próprias. Depois a Leonor ficou quieta. Olhou para a janela escura onde o jardim já não se via. Pergunto-me sempre o que veem nesse momento. Se me veem a mim ou algo que eu própria não conheço, porque o outro lado é um lugar onde não entro. É a única fronteira que respeito. A Inês adormeceu na cadeira. O Miguel, sentado na beira da cama com a mão da mãe entre as suas, também foi adormecendo. O quarto ficou silencioso. Eu saí do canto. Aproximei-me da cama. Leonor tinha os olhos fechados. A mão do filho sobre a dela. A filha com o pescoço numa posição que lhe ia doer de manhã, esse pormenor inútil que os vivos carregam, a dor de ter estado presente, de ter ficado até ao fim. Parei um momento. Leonor tinha sido mulher, mãe, dona desta luz da manhã. Tinha guardado cartas numa caixa. Tinha rido uma última vez, e nenhum dos que estavam na sala sabia que seria a última. Somente eu sabia. Pousei tudo o que tenho sobre a mão dela, por cima da do filho. Não é frio, nem calor, é apenas o fim da espera. Ninguém acordou. O gato saltou para os pés da cama, devagar, ficou a olhar-me. Não fugiu. É das poucas coisas que não entendo: por que ficam? Quando o que trago não tem nada para lhes dar, só para tirar? Leonor respirou fundo uma vez mais. E depois não respirou. Saí pelo jardim. A porta estava fechada, mas isso nunca me deteve. Havia orvalho na erva e o cheiro familiar daquela hora onde a penumbra e a luz se misturam, onde o jardim ainda era dela, o vaso partido, as roseiras plantadas pelo Rui, a erva por aparar. Levei a sua última respiração. É a única coisa que se pode levar. O resto fica: a casa, as cartas, a cadeira onde a filha vai acordar com o pescoço a doer e perceber, num segundo de duração interminável, o que aconteceu enquanto dormia. Eu sou apenas o que parte.


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PER FICTA, RESISTERE VIDAS COM PONTOS DE INTERROGAÇÃO

P

CARLA

CARMONA

erdida na serra… credo, que cliché. Percebi, demasiado tarde, que aquela estrada não ia dar à estação de biodiversidade do Carvalhal. Continuava a dar à chave, mas o carro grunhia e não arrancava. Que treta, quase 22h00, agora chamar alguém, não vai acontecer. Revirei a mala e encontrei o telemóvel. Iluminei-o. Vi a indicação sem rede. Mas que raios. E agora? Coloquei o rosto junto ao vidro da porta. Não conseguia distinguir nada. Do outro lado do vidro impunha-se uma ausência negra. No céu, as luzes das estrelas não tinham intensidade suficiente, faltava a Lua, era impossível ver mais além. A mão deslizou até ao botão. Quando o pressionei, o clique do fecho automático berrou no silêncio. Verão. Ao menos não teria de me preocupar com o frio. Baixei as costas do banco e recostei-me. Teria de esperar pela manhã. Na esperança de alguém passar e poder ajudar. Embalei com o concerto dos grilos e adormeci. Vou-me embora, não suporto esta vida, já não te quero como mulher. Acabou, Joana. Vi-o pegar na mala e sair. As rodas fizeram um barulho estranho. Algo errado. E foi-se embora. Acordei. Um som lancinante e aflitivo rompeu a quietude da noite. O meu cérebro finalmente acordou. O grito foi meu. Vislumbrei um homem ao lado do meu carro. Rosto colado ao vidro. Reparei, nesse momento, na fresta de vidro aberta. — Senhora? Precisa de ajuda? Tentei virar-me para a esquerda. Do breu saltou algo que rosnou e eu gritei de novo. — Não se assuste com o meu cão. O carro avariou? — Parei para descansar sentia-me cansada. — Faz bem ter cuidado. Eu andava a passear com o meu cão e estranhei o seu carro. Embrenhou-se muito na serra. Não vai passar ninguém tão cedo.

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Palavrar | Número 11

«Um som lancinante e aflitivo rompeu a quietude da noite. O meu cérebro finalmente acordou. O grito foi meu. Vislumbrei um homem ao lado do meu carro. Rosto colado ao vidro. Reparei, nesse momento, na fresta de vidro aberta.»

Posso dar-lhe abrigo na minha casa. Mantive-me calada. Sentia o corpo rígido. — Se lhe quisesse mal não precisava levá-la para minha casa. Se preferir fique aqui, mantenha o carro fechado, a serra serve de refúgio a muitos animais, neste caso, selvagens. Olhou para mim durante alguns segundos e virou-me as costas.


Nesse momento o instinto venceu e gritei-lhe — Espere. Vi-o regressar ao veículo. Abri a porta e saí, o enorme cão quis avançar, mas o dono segurou-o, acariciando-o e falando-lhe ao ouvido. — Animal mais dócil não existe. Só não a conhece. Sou o Emanuel. Venha. Começou a andar na escuridão, com o cão a acompanhá-lo, e eu segui-o. Ao início, parecia um caminho, desaparecendo, tudo o que sentia debaixo dos ténis eram ervas, musgo, folhas e terra. Quanto mais avançávamos pela mata, menos conseguia perceber de onde tínhamos vindo, ou como poderia regressar ao carro. O arvoredo adensava-se, atravessámo-lo e entrámos numa clareira, onde avistei uma casa. Abriu a porta e indicou-me com a mão para entrar. Uma luz fraca, mas suficiente para distinguir uma sala ampla com pouca mobília. Emanuel disse–me que parecia cansada. Mostrou-me o quarto e a casa de banho. Informou-me que a cama tinha lençóis lavados. Não queria que ele ficasse desconfortável a dormir no sofá, pedi para trocarmos, mas ele insistiu. Acabei por me deitar e adormecer tranquilamente. Na manhã seguinte, acordei com uma sensação de contentamento. Sem pesadelos ou recordações, o sono foi reparador. Notei a minha mala aos pés da cama. Peguei nela, colocando-a em cima da cama. Abri e retirei o que precisava. Depois do duche, vesti umas calças de ganga e um top. Ao abrir a porta, fui invadida por um cheiro a pão torrado e senti o estômago roncar. — Bom dia, Joana. Trouxe a mala, porque ontem não nos lembrámos e precisava das suas coisas. Vamos tomar o pequeno-almoço. Enquanto comíamos falei do meu trabalho e porque passava naquela estrada. Finda a refeição, fomos dar uma volta e deslumbrei-me com a diversidade de espécies que encontrámos. Nessa tarde, percebi que não pensava no trabalho desde que ali chegara. Coloquei os braços à minha volta e abracei a solidão. O meu pai emigrou e nunca mais soubemos dele. Há quatro anos perdera a minha mãe e os «amigos» desapareceram com o fim da relação. Deveria ir-me embora, ainda tenho luz. Ele chamou-me e os pensamentos esfumaram-se. Os dias que se seguiram foram de descoberta. Próximo havia uma horta bem cuidada e várias árvores

«Ao início, parecia um caminho, desaparecendo, tudo o que sentia debaixo dos ténis eram ervas, musgo, folhas e terra. Quanto mais avançávamos pela mata, menos conseguia perceber de onde tínhamos vindo, ou como poderia regressar ao carro. O arvoredo adensava-se, atravessámo-lo e entrámos numa clareira, onde avistei uma casa.»

de fruto. As manhãs eram ocupadas com o cuidar desse espaço. Invariavelmente, os legumes e frutas que colhíamos seriam as nossas refeições. Numa tarde em que arrumava a mala no armário grande, apercebi-me de um barulho, abri-a e lá encontrei o telemóvel e carregador. Procuro lembrar-me de quando terei colocado o aparelho na mala. Coloquei-os em cima da mesa de cabeceira para o carregar. Fui aprendendo sobre sementes e sementeiras. Mexer, trabalhar a terra era-me conhecido e inato. Deixei de contar os dias.

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PER FICTA, RESISTERE | VIDAS COM PONTOS DE INTERROGAÇÃO

Tirei do guarda-roupa o vestido comprido de algodão, em tons verdes, arrastando algo. Aos meus pés, um cabo. Pego-lhe e é do carregador. Afinal, acabei por não carregar o telemóvel. Tenho de o fazer depois da refeição. As manhãs começaram a parecer iguais e as tardes fundiam-se umas nas outras, como se aquela vida existisse há muito tempo. Aquela rotina tornou-se na minha vida, partilhada com ele, sem que desse por isso.

«Com temperaturas elevadas os guardas-florestais estreitaram a vigilância às zonas de mato. Nessa manhã, encontraram o carro abandonado, numa das estradas da serra. Via rádio, reportaram essa descoberta. Ainda nesse mesmo dia, a polícia foi até ao local para tomar nota da ocorrência. »

Carla Carmona

Emanuel, homem com conhecimentos profundos da natureza, gentil, e dei por mim a perder-me naqueles olhos castanhos. Numa tarde beijámo-nos e, depois de muito tempo, pela primeira vez, deixei de me sentir perdida. — Isto? Vida real? Fantasia? Sou bióloga. — Parte de mim dizia que devia ir embora, outra parte já não queria encontrar a estrada. — Lá fora estavas feliz? — Sim, mas… — Emanuel agarra o meu rosto com as mãos e beija-me. — Fico no agora, contigo. Com temperaturas elevadas os guardas-florestais estreitaram a vigilância às zonas de mato. Nessa manhã, encontraram o carro abandonado, numa das estradas da serra. Via rádio, reportaram essa descoberta. Ainda nesse mesmo dia, a polícia foi até ao local para tomar nota da ocorrência. — O veículo possuía registo em nome de Joana Ramos, bióloga. Devia ter chegado à estação de biodiversidade do Carvalhal há uma semana. Foi dada com desaparecida pelo director, quando falhou o dia combinado e eles não a conseguiram voltar a contactar. — Conseguiste alguma pista? — Há algumas pegadas na orla da mata, as chaves na ignição do carro e não há sinais de luta, mas nada conclusivo. — Reúne tudo, amanhã regressamos para fazermos buscas. Nos dias seguintes, efectuaram-se buscas no bosque, sem nenhuma casa naquela zona, apenas vegetação e animais, não foram encontradas evidências de Joana. A bateria da viatura estava descarregada. Suspeitava-se que tivesse encostado na berma para ver o mapa e não conseguira arrancar de novo. Porque abandonara o veículo e entrado na floresta? E o que acontecera depois? O caso acabou arquivado. Mais um nome na lista de desaparecidos, vidas com pontos de interrogação.

A pedido da Autora, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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PER FICTA, RESISTERE A RUA

ISA

SILVA

E

ra uma vez (sim, quero começar desta maneira) uma Rua por onde todos, absolutamente todos, passavam. Todavia o modo como a atravessavam era deveras peculiar. E juntando a isso, ela (a Rua) mudava sempre que alguém alterava a sua importância. Confusos? Nah... já vos explico tudo. Nesta Rua comprida e estreita, tapada por casas que quase se abraçavam lá no topo, as bancas de venda espalhavam-se mediante a autoridade que cada um lhes atribuía. Cada um (sim, como eu e tu) via-a à sua maneira. O essencial definia a ordem como tudo era exposto. O que para mim hoje era primordial, amanhã poderia ser esquecido e outro interesse tomava o lugar. A tua disposição nunca é a mesma, certo? Vamos variando mediante os dias. Aquela rua nunca foi igual. Nunca era igual. Nunca seria igual. Imagina o aconchego e a satisfação que não seria estar logo em primeiro plano, ali bem à tua espera e para saciar a tua vontade, tudo o que estavas a necessitar naquele momento. Viciante, não? Eu sempre achei. Todavia nem sempre o que queremos é o que necessitamos, mas detestamos ser contrariados nos nossos quereres. Ai... lá estou eu a divagar. Até tu, se entrasses lá, cairias na mesma fascinação e não o conseguirias controlar. Aconteceu comigo, quando a descobri (a Rua, é claro) pela primeira vez. Ando pelo mundo, no entanto, ali encontrei o que procurava. É por isso que estou a contar esta história. No entanto, nada disso interessava ao Sr. Poeta que, todos os dias, com a malinha a tiracolo, caminhava para o seu cantinho, à espera que lhe comprassem todas as dedicadas Palavras que por ali expunha. A sua presença era relativamente recente. Os outros vendedores sempre o olharam com um certo desdém. Na verdade, levou tempo para arranjar coragem

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Palavrar | Número 11

«Tornava-se um produto que obrigava a uma reflexão e a uma aceitação incomum, e muitos não estavam para aí virados! Reflectir e encarnar a pessoa dos outros, percebendo o mais profundo íntimo através de simples palavras, obrigava a um envolvimento que também bastante gente fazia questão de ignorar.»

para fazer parte da Rua. Sabia que a Poesia não era relevante. Quase todos pensavam assim. Uma extravagância, como tanto repetiam. Mas o seu coração já lhe tinha presenteado a rendição incondicional.


Aconchegava-lhe a alma sem explicação. Nem sempre o que sentimos necessita de uma explicação. Não percebo porque insistimos em explicar tudo. Porque não deixamos, por momentos, de justificar o que não necessita de justificação, visto que basta sentir? Muitas vezes, quando clarificamos, perdemos a essência. Oh raios... Lá estou eu a divagar! Desculpa. Vou retomar a narrativa que interessa. O Sr. Poeta sabia que no início a sua Poesia tinha sido uma novidade, mas depressa percebeu que as pessoas não entendiam bem a necessidade daquele lero-lero individualista. Era uma individualidade humana pintada de inúmeros vocábulos, do ser e do não ser, das respostas às vazias perguntas, do sentir profundo do não sentir. Tudo os baralhava, confundia e não obtinham respostas concretas (aviso-te que se procuras respostas concretas na Poesia bem podes tirar o cavalinho da chuva). Tornava-se um produto que obrigava a uma reflexão e a uma aceitação incomum, e muitos não estavam para aí virados! Reflectir e encarnar a pessoa dos outros, percebendo o mais profundo íntimo através de simples palavras, obrigava a um envolvimento que também bastante gente fazia questão de ignorar. Por aquela Rua espalhavam-se as bancas da Ganância (já te falo desta mais à frente), do Respeito (esta andava a perder clientes a um ritmo preocupante), da Sabedoria (muito suspirava a vendedora por andar escassa esta mercadoria), do Amor (esta mesa era muito concorrida, sem todos perceberem bem o seu significado), da Paciência (por vezes havia falta de stock e armava-se uma confusão), da Saúde (nesta ocasionalmente até havia conflitos por acharem que uns eram mais notáveis que os outros), do Tempo (ui... esta banca é das mais incompreendidas, apesar de estar sempre a abarrotar de clientes), da Amizade (enche o coração, não é?), do Poder (tantos que se atropelavam para chegar lá em primeiro lugar), da Alegria (desta, confesso, gosto muito, devido às gargalhadas) e do Conhecimento (pausa dramática). Poderia haver mais, é certo, mas a Rua, de momento, não aceitava novos vendedores. Não posso deixar de referir que havia uma certa rivalidade entre estas bancas. Consegues perceber porquê. Também não te posso revelar tudo. É delicadeza deixar um espaço de mistério para a tua imaginação... A banca mais espalhafatosa e intensa era tentação para tantos... A Ganância esmagava com o seu

marketing. Inflacionava os preços, enganando toda a gente. Julgavam coerente, apetecível e justificável. Ridículo! Caíam todos no mesmo equívoco. Saíam da Rua julgando-se superiores. Não o eram, lamento informar. A Morte (essa banca abriu falência por falta de vendas) prova que a Ganância é um vento que tem impacto em incontáveis criaturas e nada cria a não ser o infortúnio, dissabor, desolação e... vazio. O Sr. Poeta conseguia distinguir o tipo de pessoas que gostavam desta banca. O seu destino era sempre o mesmo: regressavam para adquirir mais, mas na mesa mesmo ao lado, a do Poder. Sinceramente acho que as duas mesas pertencem aos mesmos donos. Mas não digas que soubeste por mim! O Sr. Poeta era o único que tinha a luz sempre sobre si, luz essa que entrava pela nesga que as casas deixavam passar, lá bem no alto. Nem mesmo com este destaque (que era lindo), se destacava, destacando-se. — Não tem nada mais barato? — perguntavam, olhando-o do alto da sua ilusória importância. — As palavras compostas são preciosas. — Tolice! Deste modo não vai vender nada. — Cada poema é arrancado do fundo do meu ser, rico em palavras e emoções. Não pode ser vendido como uma bagatela. — As palavras são de todos! Eu também as uso. Assim também eu! Não devia estar a ganhar dinheiro com elas desta maneira. Vamos embora. Este é um charlatão. Deveria ser retirado da rua! Ninguém reclamava com mais nenhuma banca. Consigo era frequente. Julgavam-no um alvo fácil. Por vezes, a Rua enchia-se de gentes que se acotovelavam como jogos nervosos a fugir de algo. O Sr. Poeta limitava-se a levantar o olhar pesado quando chocavam contra a sua mesa sem se desculparem. Ignoravam-no propositadamente, porque o julgavam insignificante. Quem poderia acreditar que uma Poesia era algo essencial (e regresso à querida palavra secreta)? Cegos, nem notavam o misto de desesperança, com uma pitada de desprezo, com que ele os encarava. A Poesia era um luxo dispensável, desprezível, contestável, lamentável. Uma trampa, como uma vez chegaram a afirmar. Também achas? Se agitares a cabeça num "não" é porque concordas comigo. Aposto em como a estás a agitar. Só havia uma altura em que alguns regressavam a procurar a mesa do Sr. Poeta. Sabes qual era? Quando ficavam de coração partido ou numa neura

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PER FICTA, RESISTERE | A RUA

melancólica de saudades. Nem mesmo assim ele vendia. Vinham lamentar-se, suspirar, bombardeá-lo com palavras da sua agonia e nada mais. Os seus 'Eus' como centro de tudo e não pela Poesia que os inspirasse a serem melhores pessoas, um instrumento para olhar para dentro de si mesmos. Oh, tanto que se descobre quando fazemos esse caminho, não é? Lá estou eu a desconversar. Confesso que tenho um terrível defeito: divago muito. Com o tempo, o Sr. Poeta foi-se acomodando. Limitava-se a observá-los. Já não vendia novos poemas. Agarrava-se aos que já criara. As Palavras fugiam de si. Curvado sob o peso da vida, tanto retratara (em tempos) com palavras que ninguém achava elogiável.

«Levantou devagar o olhar exausto de tanto pensar e exigir e encontrou uma jovem que o admirava junto a uma das arcadas. Um dia, ela (a jovem, é claro) perdeu a timidez e aproximou-se. Dia após dia, comprava-lhe um poema, levava-o para o centro da rua e, sentada no banco largo a que ninguém ligava, lia sossegada, desligando-se do burburinho geral.»

Isa Silva

Cada vez que levantava o olhar, parecia entender tanto e tudo, nada e pouco. Vivia de contradições, porque era também esse o âmago de um poeta. Nunca, mas nunca está satisfeito. Um dia que um poeta se achar satisfeito, deixa de ser poeta. Vai-se. Perde-se. Desfaz-se em nadas. E por aqueles dias, o Sr. Poeta estava prestes a entrar nessa fase. Nada o motivava, nada o inspirava. Permanecia seco, inóspito, grosseiro, despojado. Há tanto tempo que não escrevia. Nada de jeito lhe saía. Estava tão oco por o ignorarem que se deixou minar pelo óbito da criação. Levantou devagar o olhar exausto de tanto pensar e exigir e encontrou uma jovem que o admirava junto a uma das arcadas. Um dia, ela (a jovem, é claro) perdeu a timidez e aproximou-se. Dia após dia, comprava-lhe um poema, levava-o para o centro da rua e, sentada no banco largo a que ninguém ligava, lia sossegada, desligando-se do burburinho geral. Era como se cada uma daquelas criaturas perdidas ou distraídas ou egoístas ficassem paradas através de um comando celestial. Os sons da natureza estavam lá, cada um para o seu papel naquela banda sonora perfeita para cada poema que lia. O chilrear dos pássaros e o cantar da brisa acariciavam-na, encantando-a. Permanecia ali, bebendo cada pedaço da obra do Sr. Poeta. De início, ele não ligou. Estava tão indiferente a tudo que não atribuía atenção. Mas o que o fez despertar foi a regularidade e a gentileza com que a jovem se dirigia a si. Terminava sempre com um sorriso caloroso e entregava-lhe uma Palavra. Deu por si a ansiar cada visita dela. Lembrou-se de caminhar pela Rua como cliente. Esta (a Rua) não se alterava. Permanecia na mesma. O seu essencial parecia não estar a funcionar naquele lugar. Estranhava. Por mais que passeasse na rua, não obtinha respostas. Ela (a Rua) não se transfigurava para si. A única alteração era a visita da jovem. Um dia, bastaram cinco palavras para que a sua expressão mudasse radicalmente e o fizesse rejuvenescer num brilho há muito ausente. Encontrara a sua essência. — Olá. A tua Inspiração regressou — afirmei-lhe num enorme sorriso.

A pedido da Autora, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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Palavrar | Número 11


Fotografia de Isa Silva

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PER FICTA, RESISTERE A ARTE DE LARGAR

H

LARA

FERNANDES

avia um homem dedicado. Guardava tudo. Às vezes lembrava-se de uma voz antiga a dizer-lhe: «Um dia vais precisar disto». Talvez por isso guardasse. Ou talvez fosse apenas o hábito. Não nasceu de forma grandiosa, nem trágica. Começou como começam certas coisas: devagar, quase justificadas. Um papel dobrado aqui, uma lembrança ali, uma frase por dizer que decidiu conservar em si, como quem guarda pão para os dias de fome. Retinha cartas antigas, até as que já não lhe diziam nada. Algumas tinham palavras apagadas pelo tempo, outras falavam de pessoas impossíveis de situar no mapa da memória. Ainda assim, ficavam. Juntava roupas gastas, botões soltos, chaves de portas que não existiam. Acumulava objetos partidos com a esperança vaga de um dia os reparar; consertar peças era, para ele, recuperar o passado. Guardava palavras que nunca disse e outras que disse mal. Promessas, mágoas, planos que nunca começaram. A sua casa era pequena, mas parecia encolher a cada dia. Chamou-lhe prudência. Depois, lembranças. Por fim, vida. E foi aí que se perdeu. Mas a verdade é que já não sabia viver sem acumular. Havia dias em que tropeçava em restos que ele próprio tinha guardado. Pequenos obstáculos silenciosos. Marcas de um tempo que não queria passar. E, ainda assim, desviava-se, ajustava-se e continuava. Até que um dia, ao tentar fechar uma gaveta, ela recusou-se. Empurrou com força, com teimosia, com cansaço. Nada. A madeira rangeu, mas não cedeu. Ficou entreaberta, como um suspiro preso. Puxou-a de uma vez. Lá dentro, encontrou fragmentos que não se lembrava de ter guardado: um bilhete sem data, uma fotografia sem rosto nítido, um pedaço de papel com uma única palavra: «fica».

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Palavrar | Número 11

«Retinha cartas antigas, até as que já não lhe diziam nada. Algumas tinham palavras apagadas pelo tempo, outras falavam de pessoas impossíveis de situar no mapa da memória. Ainda assim, ficavam. Juntava roupas gastas, botões soltos, chaves de portas que não existiam. Acumulava objetos partidos com a esperança vaga de um dia os reparar; consertar peças era, para ele, recuperar o passado.»


Ficou a olhar para aquilo durante muito tempo. Depois, pela primeira vez, não guardou de volta. Colocou tudo sobre a mesa. E então aconteceu algo estranho: a casa pareceu respirar. Um fio de pó ergueu-se no ar, como se também ele tivesse esperado demasiado tempo por espaço. Não foi som nem movimento claro. Era apenas menos peso. O ar, antes comprimido, encontrara finalmente um caminho. Naquela noite, dormiu mal. Não por desconforto, mas por ausência. Faltava-lhe o hábito de guardar o dia antes de o deixar ir. No dia seguinte, abriu as gavetas todas. Em cada uma, pedaços de vida esquecida. Alguns reconhecia. Outros não. Peças carregadas de histórias esquecidas, fragmentos persistentes por nunca terem sido deixados desaparecer. Começou a separar. De um lado, o que ainda fazia sentido. Do outro, o que já não dizia nada. A pilha do «talvez» crescia mais depressa que as outras. Algumas lembranças doíam e não sabia largá-las. Palavras que nunca foram ditas, mas que já não precisavam de ser. Uma tarde, encontrou uma pequena caixa de madeira com uma fita desbotada. No interior, estavam cartas que tinha escrito e nunca enviou. Leu uma. Era para alguém que já não fazia parte da sua vida. Dobrou-a. E deixou-a partir. Dia após dia, o homem soltava o hábito de guardar. Houve momentos em que hesitou: um relógio parado que pertencera ao pai; um lenço que ainda trazia o perfume de alguém que já não estava; um caderno cheio de planos que nunca saíram do papel. Porque o essencial não aparece com estrondo. Chega com uma persistência que quase não se ouve. E começou a escutar. Descobriu que alguns bocados, quando largados, não desapareciam: transformavam-se. Tornavam-se leves, quase invisíveis, como se regressassem a um lugar onde não ocupavam espaço. A casa começou a mudar. As paredes devolviam a luz. O ar era fácil de respirar. O silêncio não era ausência, era alguém que se sentava com ele. Certo dia, encontrou algo inesperado. Por detrás de uma pilha de caixas, uma porta pequena que ele não abria há anos. Forçou-a com cuidado. O ranger foi

«Dia após dia, o homem soltava o hábito de guardar. Houve momentos em que hesitou: um relógio parado que pertencera ao pai; um lenço que ainda trazia o perfume de alguém que já não estava; um caderno cheio de planos que nunca saíram do papel.»

longo e a casa também parecia desaprender os seus vestígios. Lá dentro, estava vazio. O ar ali tinha um cheiro diferente, quase frio, como se aquele pequeno espaço tivesse guardado um tempo próprio. «Nem todo o espaço precisa de ser preenchido», pensou. Nesse mesmo dia, ao abrir um velho armário, encontrou uma embalagem pequena. Era simples. Sem decoração. Sem etiqueta. Mas havia nela algo que o fez hesitar. Abriu-a devagar. Lá dentro, quase nada: um pedaço de tecido, uma fotografia nítida de alguém a sorrir, uma folha em branco… e uma carta dobrada em quatro. Não tinha remetente. Nem data. Apenas um papel gasto, que esperara demasiado tempo para ser lido. Por um instante, teve a sensação de que a caixa pesava mais do que o que continha, como se carregasse um silêncio antigo. Sentou-se no chão. Respirou fundo. E abriu-a.

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PER FICTA, RESISTERE | A ARTE DE LARGAR

Dizia: Quando o peso te curva, não é o mundo — és tu. Guardas sombras que já não vivem e esqueces a luz que ainda te chama. O essencial não ocupa lugar. Permanece. É gesto que fica, nome que repousa, silêncio que te reconhece. Não te peço que guardes. Peço-te que largues. Não te peço que leves. Peço-te que fiques. Aqui, onde o pouco basta e o resto aprende a partir.

«Sentava-se perto da janela e observava a luz, a atravessar o espaço sem obstáculos. Esta percorria a casa como quem finalmente encontra espaço para revelar o que sempre soube. O tempo parecia lento, mas inteiro. Já não precisava de guardar dias; bastava vivê-los. Não carecia de segurar as palavras; dizia-as ou deixava-as ir.»

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Palavrar | Número 11

Lara Fernandes

Havia algo inquietante. Dobrou a carta com cuidado. Fechou a caixa. Desta vez, não para esconder, mas para preservar o pouco do que ainda precisava de existir. Nos dias seguintes, continuou a esvaziar a casa. Mas não era esforço. Era entendimento. Cada elemento que saía abria espaço para o que não necessitava de ser visto. Começou a sair mais. Sem levar nada consigo. Caminhava pelas ruas sem necessidade de recolher memórias. Observava as pessoas sem tentar fixá-las. Vivia os momentos como quem bebe água, sem guardar o copo. Aprendeu algo simples, mas difícil: nem tudo precisa de permanecer para ter valor. Até que chegou o dia em que não existia mais nada a retirar. A casa estava quase vazia. Um estranho que ali entrasse diria que faltava tudo. Mas o homem, ao caminhar pelos cómodos, sentia o contrário. Nunca houve tanto. Sentava-se perto da janela e observava a luz, a atravessar o espaço sem obstáculos. Esta percorria a casa como quem finalmente encontra espaço para revelar o que sempre soube. O tempo parecia lento, mas inteiro. Já não precisava de guardar dias; bastava vivê-los. Não carecia de segurar as palavras; dizia-as ou deixava-as ir. E, pela primeira vez, compreendeu: «O essencial não se acumula. Revela-se quando o resto parte.» Anos depois, alguém passou pela casa. Olhou para dentro e viu quase nada: uma mesa, uma cadeira, uma pequena caixa. O homem estava sentado, em silêncio. — Não tens medo de perder tudo? — perguntou o visitante. O homem sorriu, devagar. — Não — disse. — Agora, finalmente, não há nada a perder. O visitante não entendeu. Mas também não ficou. Seguiu caminho, levando consigo o peso das suas próprias gavetas cheias. O homem permaneceu. E na casa quase vazia, onde antes havia excesso, restava apenas um sopro. Sentou-se. Respirou. E deixou o dia entrar.


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PER FICTA, RESISTERE O VAZIO ONDE ELA SE ASSENTA

E

LAURA SUSETE VIEGAS

la já lá está quando chego; não se senta com o peso dos ossos, mas com o peso da luz. Trago ainda comigo o barulho dos corredores, que agora se calam, e o metal das horas cravado nos pulsos, mas Ela estende um dedo longo em direção ao chão onde a formiga carrega um grão de nada, e o que fica para trás é apenas um nome esquecido numa gaveta enquanto a textura do musgo se torna a única tese possível, a única infalibilidade. O verde sobe-me pelas narinas, entupindo-as, e já não sei onde termina o meu nariz e começa a sombra da árvore que Ela me oferece como único refúgio — esse estado que disseca a lentidão da seiva a escorrer da árvore até ao chão e é bebida pelos que se querem limpar; limpar as entranhas e o reto e os órgãos e o próprio sangue que circula nas artérias e oxigena o ar que Ela entrega, só a mim. Afundo-me na madeira do banco e o verniz é que nem areia movediça, e o silêncio, afinal, nunca chega; o som permanece, é constante e estonteante, vibra numa frequência que me espreme a medula, agora resina, e não tenho como não me deixar absorver. Fico quieta, parada, muito parada, para que esse fluido estranho produza os glóbulos que me permitem respirar, mas esqueço-me, esqueço-me de o fazer; respirar é um ato tão opulento que sinto o tórax a estilhaçar-se — estrutura que não aguenta a entrada do mundo; se não partir, morro, e então, o que fazer? Deixo o ar entrar paulatinamente, um fio de existência que me corta por dentro, para que, se for para se quebrar, me faça morrer devagar, para que possa sentir todas as fases do processo de deixar de ser, enquanto Ela observa a minha aniquilação, como quem olha o crescimento de um líquen. Embrenho-me num nada tão reentrante que é como dormir, mas estar acordada; entre mim e o mundo há uma membrana, uma película translúcida

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Palavrar | Número 11

«Afundo-me na madeira do banco e o verniz é que nem areia movediça, e o silêncio, afinal, nunca chega; o som permanece, é constante e estonteante, vibra numa frequência que me espreme a medula, agora resina, e não tenho como não me deixar absorver. Fico quieta, parada, muito parada, para que esse fluido estranho produza os glóbulos que me permitem respirar, mas esqueço-me, esqueçome de o fazer; respirar é um ato tão opulento que sinto o tórax a estilhaçar-se»


em tons arco-íris, feita de água das minhas lágrimas que teimam em não cair, e da luz do sol que agride os portadores dessa humidade. Que bom que é viver com a certeza de que se vai morrer, já que Ela me presenteia com a dor do fim e com o sabor do infinito na palma das minhas mãos riscadas, que a cigana quis ler e eu deixei, mas não ouvi; ouvi-La era predominante: ainda que a cigana dissesse a verdade, a mentira d'Ela era atestada, mais absoluta. O sabor da minha saliva — espessa, metálica, um caldo de ferro e cobre que inunda a boca — é o sabor da Terra regida por Virgem na altura do meu nascimento, e de todas as bocas que não beijei, mas imaginei. Passo a língua pelos dentes e a textura pede-me que os lave, mas só quando Ela me permitir abandonar a plenitude da relva e das muralhas. O infinito entra-me pelas unhas, curtas e largas como as do meu pai; o cheiro do sol a queimar a película entope-me os sentidos com o perfume a ozono e a açúcar queimado, e já não sei quem sou, mas o que me importa? Ela aponta agora para duas pedras sobrepostas e imagino-lhes rostos a fitarem-se como não consigo olhar seja quem for; envolvem-se e misturam-se, fazem-se lábios quase tocados, caso a gravidade não se suspendesse para as travar, mas o curioso é que elas não precisam de se tocar para se beijar, para se rasgar, como o tecido tricotado pela minha avó paterna antes de ela, como eu, se espalmar no sofá que a adormece, apoderando-se dela ao ponto de não mais a acordar. O vento rasga, então, o beijo daquelas duas pedras, que agora se afastam como quando se passa por um casal a desenlaçar os dedos para me deixar passar; eu preferia ter-me desviado à esquerda do que romper-lhes a conexão agarrada agora em mim, qual ranho, e quebrada neles. A fratura já está feita e desviar-me implicaria ter de os olhar, então encolho-me para que a fissura seja o mais diminuta possível, uma nesga de quase nada. Mas o «quase» já rasgou a linha que ligava aquelas mãos de suores, até à minha passagem, mesclados e o meu coração sangra. Preciso de me regular e, para isso, os dedos das mãos — médio e anelar — dançam apressadamente de encontro aos polegares e o vento chora o que eu não consigo, transportando em si o som das lágrimas da minha mãe: cortantes, dilacerantes, preenchendo os átomos de uma sala não longe

«O vento rasga, então, o beijo daquelas duas pedras, que agora se afastam como quando se passa por um casal a desenlaçar os dedos para me deixar passar; eu preferia ter-me desviado à esquerda do que romperlhes a conexão agarrada agora em mim, qual ranho, e quebrada neles. A fratura já está feita e desviar-me implicaria ter de os olhar, então encolho-me para que a fissura seja o mais diminuta possível, uma nesga de quase nada.»

o suficiente para que me não cheguem e o meu coração rasga também os beijos de todas as pedras, porque nunca sei o que dizer, nem sei como amar, nem sei gritar, nem tampouco falar. Engasgo-me e atropelo-me nas palavras que quero comunicar, e tenho sempre de pedir um compasso de espera para as conseguir articular — para que não sejam mal interpretadas, já que o Ser Humano é feito de jogos e eu não sei jogar. Esse vento traz-me também a brisa do mar que sei não existir a menos de trezentos quilómetros de casa, mas inspiro-o para que me limpe a expetoração provocada pelos plátanos que a cidade tenta usar para me afastar, só que teimei que era cá que queria viver e por isso sujeitei-me à zaragatoa e à luz do bloco operatório para que eles ensinassem o meu corpo a, com ela, saber estar.

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PER FICTA, RESISTERE | O VAZIO ONDE ELA SE ASSENTA

Lá, onde existe o mar, numa vida passada em que Ela vivia anestesiada e dissociada para me salvar, eu usava os fins de tarde do verão para correr os cinco quilómetros desde a casa dos meus avós maternos até aos tons de azul e verde, consoante a posição do sol e das nuvens, expelindo as emoções que não sabia processar nem verbalizar. Suava-as e limpava-as nos grãos de areia usados para me sujar, arranhar e odiar; e quando já comigo não conseguia lidar, deambulava até àquele manto molhado, trocando o ódio por amor e deixando-o abraçar-me, consolar-me e curar-me; deixava-me flutuar enquanto o tempo se deixava passar.

«Vagueio na neutralidade cega e evito o contacto frequente com o que vive sem falar, porque o que é puro despoja-me; a perfeição de um poema não precisa de mim para existir e desfaz-me a compostura. Mantenho-me perto de paredes e do asfalto, do cinzento que de mim não exige nada para que possa ser funcional e maquinal. Mas aqui, no meio do que cresce, floresce e vive, não há máscara que se sustente.»

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Palavrar | Número 11

Laura Susete Viegas

Uso um livro no colo e fones para A velar, mas a cera dos meus ouvidos começa a fazê-los cair e o aperto no peito diz-me que está na hora de os limpar. Ela torna-se mais evidente nesse momento, como quando levo os meus cães a passear e os vejo transportá-La nua e grandiosa; se não o fizessem, estranhavam-nos. Já eu, não posso, porque sou gente e é importante à Humanidade saber jogar. Imagino-os — e aos que vieram antes deles — perto de mim, usando-A e amando-A, cheirando-A e saboreando-A, enquanto espezinham a relva e as formigas e as pedras enquanto os desvio dos vidros partidos das garrafas de cerveja, para que as patas não lhes sangrem por causa dos jogos das gentes. Paro de dançar com os dedos e ocupo-os com a rigidez do livro, porque as gentes passam e os seus olhares são um alfinete a querer forjar a película translúcida. Perguntaram-me se estava bem e eu sorri — o reflexo automático da máscara que se ajusta à minha face como uma segunda pele — e disse que sim, mas insistem, porque para eles não é possível estar-se quieta, muito quieta, com Ela e ser-se feliz assim. Disse-lhes que estava a ouvir música e que a letra que tinha ouvido tinha-me deixado a pensar; lá os consolei com a mentira, já que com a verdade não se contentaram. Está na hora de A abandonar e voltar a mascarar; abro o livro, mas Ela obriga o jardim a gritar-me cada folha, cada inseto, cada variação da luz e então levanto-me para não me despedaçar. Vagueio na neutralidade cega e evito o contacto frequente com o que vive sem falar, porque o que é puro despoja-me; a perfeição de um poema não precisa de mim para existir e desfaz-me a compostura. Mantenho-me perto de paredes e do asfalto, do cinzento que de mim não exige nada para que possa ser funcional e maquinal. Mas aqui, no meio do que cresce, floresce e vive, não há máscara que se sustente. O meu interior transborda e sei que, se me deixasse ficar, morreria de exaltação, de uma intensidade que me partiria cada vértebra; uma tal felicidade tão violenta que me afogaria nas lágrimas que guardo e que só Ela reconhece quando me olha por dentro e vê o esforço que faço para que se não derrame por completo. Porque Ela — a Contemplação — persegue os rastos para a minha destruição.


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PER FICTA, RESISTERE RECOMEÇOS

A

MARIA DA PAZ CAMACHO

casa transbordava de gente, embora nenhuma celebração o justificasse. Ainda assim, a família reunira-se ali, movendo-se de divisão em divisão como sombras inquietas. Observavam tudo com a atenção minuciosa dos avaliadores. Um ano decorrera desde a morte do avô, mas só agora se reuniam com o intuito de decidir o destino do que ficara para trás: móveis, loiças, livros, pequenos objetos acumulados ao longo de décadas. Não fora simples juntar todos os familiares. Espalhados por países distantes, tinham partido em busca de outros começos, erguendo existências longe dali. Aquele regresso era mais do que uma viagem, era um reencontro com a terra deixada para trás, com aquilo que, apesar do tempo, nunca os abandonara por completo. O ar exalava um cheiro a madeira velha e pó. A casa guardava de tudo um pouco, coisas de utilidade esquecida, objetos que atravessaram décadas, testemunhas mudas de existências longas. O avô nunca se desfazia de nada, dizia que móveis, livros e que cada objeto, por menor que fosse, era uma parte da história de alguém, um fio que os ligava aos que já tinham partido. As discussões dos avós eram frequentes. Ela, de espírito leve e desapegado, não compreendia aquela necessidade, quase obstinada, de guardar o que não tinha préstimo. Via apenas o excesso, o peso inútil das coisas acumuladas. Ele, porém, respondia, em tom de desafio, que a indiferença dela nascia do facto de, quando ali chegara, não ter trazido consigo recordações de família nem memórias palpáveis a que se pudesse agarrar. Ela preferia adquirir objetos modernos que enchiam os olhos e alegravam a casa, dando-lhe brilho e cor.

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Palavrar | Número 11

«O ar exalava um cheiro a madeira velha e pó. A casa guardava de tudo um pouco, coisas de utilidade esquecida, objetos que atravessaram décadas, testemunhas mudas de existências longas. O avô nunca se desfazia de nada, dizia que móveis, livros e que cada objeto, por menor que fosse, era uma parte da história de alguém, um fio que os ligava aos que já tinham partido.»


Não era ausência de afeto, mas uma diferença irreconciliável na forma de olhar o mundo: ela voltada para o presente, ele preso a tudo o que insistia em permanecer. Ainda assim, partilhavam a mesma casa, como se o tempo tivesse ensinado a coexistir sem resolver aquilo que os separava. Com a morte de ambos, recaía sobre filhos e netos a tarefa delicada de dividir as mobílias, as loiças, os cristais e os bibelôs valiosos espalhados pelos cantos da casa. Após longas e intensas altercações, acabaram por alcançar um entendimento. Tão absorvidos estavam nesse turbilhão de vontades e argumentos que nem deram pela presença silenciosa do neto mais novo, Pedro, desde o início à margem daquelas querelas, como se não lhe dissessem respeito. — Então, Pedro, estás tão calado, não queres ficar com nenhuma recordação dos avós? — perguntou o tio João, surpreendido com o silêncio do sobrinho. — Tu que aprecias obras de arte, não queres escolher um quadro ou outro objeto que te agrade? Pedro demorou algum tempo a responder. Por fim, disse, com voz baixa, mas firme: — Quero, sim, mas não isto. Todos se calaram e trocaram olhares sem compreender. — Sabem, enquanto discutiam, só conseguia lembrar-me do tempo em que passava as férias grandes com os avós e das conversas intermináveis que tinha, principalmente com o avô. Muitas horas passei com ele no velho sótão. Ali, entre pó e cheiro a madeira envelhecida, escutava histórias escondidas nos móveis e antigos apetrechos, memórias de quem os usara antes, de onde vinham, do que tinham presenciado. Para ele, nada era só um objeto. Cada marca, risco, imperfeição tinha um sentido, uma origem, uma continuidade. Pedro fez uma paragem breve e depois continuou: — Dizia sempre que o essencial estava naquelas recordações que contavam histórias para melhor conhecermos as nossas origens. Quando se referia aos objetos que a avó comprava, dizia que podiam ser muito bonitos e valiosos, mas não mostravam o passado dela, nem dos seus familiares. Escutava aquelas palavras, deixando que a imaginação povoasse o sótão. Via mãos de outros tempos a tocar naquelas peças, rostos esquecidos,

«Muitas horas passei com ele no velho sótão. Ali, entre pó e cheiro a madeira envelhecida, escutava histórias escondidas nos móveis e antigos apetrechos, memórias de quem os usara antes, de onde vinham, do que tinham presenciado. Para ele, nada era só um objeto. Cada marca, risco, imperfeição tinha um sentido, uma origem, uma continuidade.»

vidas inteiras a passar por entre as cicatrizes que o tempo ali gravara. Fascinava-me olhar as mãos calejadas do avô, as veias salientes, enquanto martelava um prego ou lixava cuidadosamente uma cadeira, dando-lhe nova vida. Só regressava ao presente quando a voz da avó ecoava pela casa, a chamar para o almoço. Vinha sempre acompanhada de uma leve reprimenda, por o avô me meter naquele lugar poeirento e cheio de “cacos”, como ela costumava dizer, em vez de brincar comigo no jardim, à bola ou a outro jogo

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PER FICTA, RESISTERE | RECOMEÇOS

qualquer. Eu, ainda preso às histórias e aos gestos do avô, descia a custo, trazendo comigo o pó do sótão, agarrado à roupa. A avó reclamava que cheirávamos a mofo, que mudássemos de vestuário para nos sentarmos à mesa. Ríamos da exigência dela, mas fazíamos-lhe a vontade.

«Mostrava-me a cadeira onde a mãe dele se sentava a fazer malha, em serões longos e pacientes junto à lareira; a velha escrivaninha herdada de um avô que nunca conhecera; o piano todo desconjuntado, que uma tia-avó costumava tocar ao serão, quando a casa se enchia de visitas e as noites se prolongavam pela madrugada, com declamações de poemas e danças em que todos participavam com gosto.»

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Palavrar | Número 11

Maria da Paz Camacho

Ninguém respondeu. Não conheciam este segredo do neto. — Depois do falecimento dele, fiquei a refletir nas suas palavras, por isso, não tenho nenhum interesse nesses objetos a que dão tanto valor. — Vou ficar com o que está lá em cima — disse. — Não me interessa que tenham passado de moda, porque a história deles é que os torna vivos e atuais. — Mas achas que no sótão há alguma coisa de valor? — perguntou o tio, admirado com aquela reação. — Só me interessa o que lá está, as coisas simples que foram abandonadas: as cadeiras partidas, o sofá gasto, os pratos lascados, os livros amarelecidos, que ele me estimulava a ler, dizendo a quem pertenceram e o gosto que devia ter dado aos que os leram. Mostrava-me a cadeira onde a mãe dele se sentava a fazer malha, em serões longos e pacientes junto à lareira; a velha escrivaninha herdada de um avô que nunca conhecera; o piano todo desconjuntado, que uma tia-avó costumava tocar ao serão, quando a casa se enchia de visitas e as noites se prolongavam pela madrugada, com declamações de poemas e danças em que todos participavam com gosto. Que pena estarem ali escondidas, pois deviam continuar entre nós, a servir-nos, como testemunhas discretas do que fomos, para que não caíssem no esquecimento e pudéssemos honrar aqueles que vieram antes de nós. Aquilo, sim, era o essencial da vida, repetia ele. A passagem de uma geração para outra, não feita de discursos ou de grandes gestos, mas de objetos aparentemente sem valor, que, no entanto, guardavam em si a memória silenciosa de quem os tivera antes. — Após refletir muito sobre este assunto, decidi continuar a restaurar tudo o que ele não teve tempo de terminar. Quero mudar-me para cá e, por uns tempos, vou dedicar-me a essa tarefa. Naquele silêncio denso, os familiares compreenderam, ainda que tarde, que a verdadeira herança não era a que brilhava na sala nem a que alimentava disputas, mas sim as coisas supostamente sem valor. No futuro tudo mudaria, cada objeto danificado, por mais simples que fosse, poupado ao lixo durante anos, teria nova existência nas mãos daquele neto. Era aí, afinal, que tudo continuava.


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PER FICTA, RESISTERE VIDE VERSO

O

MARIA GAIO

dia empurrava a casa para fora. Espreitei-o, tocando o vidro da janela, como quem testa o que há de vir. A casa vazia respirava comigo e esperava que a preenchesse com pequenos gestos de todos os dias. Executava-os como se escrevesse num diário. Mantinha-nos a ambas no lugar certo. Antes de tudo, a oração da manhã. Um agradecimento simples por estar viva. Tornara-se essencial, como um ensaio do dia que ainda não era, mas que me dizia que enquanto há luz, há caminho. Construir uma espécie de felicidade só minha era o bastante. Com a escova de dentes num rasto de espuma branca, apaguei restos, que não eram apenas do sono, mas também do sonho. Uma pequena purificação, preparando a boca para palavras mais dóceis. O café. A chávena quente entre as mãos era o meu compasso, mas ninguém para dançar na roda. Sentei-me. A mesa posta — intacta. Cada golo era uma página virada, o aroma, um poema que se desprendia em volutas até ao céu sonhado, preparando o espírito para o caos organizado que viria a seguir. Nenhuma ausência fazia ruído, mas estava lá e ocupava espaço. O primeiro golo alinhava o que dentro de mim ainda não tinha forma. Sentada, saboreei o momento como se fosse único. Veio-me à memória «uma frase batida», como cantava Sérgio Godinho, qual mantra da vida: «hoje é o primeiro dia do resto da tua vida…». Repeti-a, não por acreditar sempre, mas porque precisava, e porque dizer é, às vezes, começar. Todos os dias repetia este ritual, que me dizia que a intensidade do momento era pensá-lo como o primeiro de todos os outros que viriam ou não. Mas que importava isso? Importava, sim, agarrar a hora. A rotina ajudava-me a libertar a mente criativa, nem que fosse mudar um objeto de posição, dobrar uma roupa que ficara negligenciada na cadeira ou

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Palavrar | Número 11

«Na rua, os peões cruzavam-se em pressa, roçando uns nos outros. Avancei entre eles como quem escreve devagar. Cada desvio, um ponto; cada paragem, uma pausa; cada saudação, uma ponte para o outro. Caminhar era também registar o que em mim ainda se organizava.»

mesmo mirar-me ao espelho para que me devolvesse quem eu era. Arrumei o que havia a arrumar. Cuidar do espaço, da roupa, de mim — tudo na mesma cadência, como uma rima silenciosa. Nada disso era monótono. Era o gesto mínimo que sustenta, antes mesmo de qualquer vontade. Na sala, almofadas caídas, vincos no sofá, um corpo que já não estava — ou quem sabe nunca estivera ali como o recordava. Vestígios de um serão em que a televisão fazia companhia ao cansaço ou talvez ao que dele sobrava. Na varanda, as plantas pediram-me atenção. Toquei-lhes com cuidado, falei-lhes baixo, despertando a voz. O arbusto em flor devolveu-me um aroma leve


a jasmim. Os raios solares, ainda meio titubeantes, tentavam fixar-se em cada folha e flor em pétalas, como se também ali começasse algo. Acendiam cores e aromas só para mim. Pequenas coisas e, no entanto, suficientes para me fazerem sentir num estado de graça e de gratidão por um novo dia. Foi então que pensei no passado — sem mágoa, mas com uma espécie de espanto. Como se o essencial tivesse mudado de lugar sem que eu desse por isso. Durante tanto tempo, o gesto fora cuidar dos outros. Agora, a casa devolvia-me ao centro, e isso exigia aprendizagem, encontrar um ponto de equilíbrio que não me deixasse cair. Procurei-o nas formas mais simples: numa prece, numa frase solta, numa canção murmurada, num poema, num cheiro bom que insistia em ficar ou mesmo numa foto que já não tinha idade, mas espessura. Qualquer coisa que dissesse, ou apenas sugerisse que a vida não fora em vão. Voltei ao quarto. Os lençóis ainda guardavam o calor da noite, mas não havia corpo que o justificasse. Apenas um livro abandonado ao lado do travesseiro, preso na última página, e um peluche antigo, fiel como uma sombra. Fiz a cama com cuidado, não por necessidade, mas porque o gesto traçava uma linha entre o abandono e o zelo. Diante do espelho, observei o rascunho de mim. Lavei o rosto e apaguei o peso dos olhos refrescando-os com água. A versão final de mim neste dia parecia suficiente para sair. Na rua, os peões cruzavam-se em pressa, roçando uns nos outros. Avancei entre eles como quem escreve devagar. Cada desvio, um ponto; cada paragem, uma pausa; cada saudação, uma ponte para o outro. Caminhar era também registar o que em mim ainda se organizava. Lembrei-me de outros tempos, em que tudo ficava para depois. Corria para sobreviver e, no fim, sobrava tão pouco para viver. Agora ao regressar, havia sempre um tempo reservado para um livro aberto, o corpo entregue ao sofá, ou a televisão num ruído manso. E, por fim, a palavra escrita — aquela que dizia o que nunca chegava a ser dito em voz alta. Apaguei as luzes. O último clique do interruptor não fechou o dia, apenas o suspendeu. Amanhã, inevitavelmente, recomeçarei.

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PER FICTA, RESISTERE A GEOMETRIA DOS CACOS

A

MARIA JOÃO FAÍSCA DA SILVA

minha missão nesta casa começou há muitos anos. Nunca me mudaram de lugar. Sou o vigia da entrada. No dia em que fui encostado à parede, fiquei imóvel. A minha função era observar quem passava e chamar a atenção para os detalhes impercetíveis aos seus olhos. Bastava um defeito para que regressassem a corrigi-lo. Por exemplo, se faltasse um brilho, ou se sobrasse um complemento, o processo repetir-se-ia até que lhes desse a minha aprovação. Às vezes apetecia-me que me limpassem o pó. Era uma película fina que piorava a minha visibilidade. Quando a Eugénia passava o pano macio, sentia um alívio frio. Como se me devolvesse a visão, retirando a catarata cinzenta que o tempo depositara sobre mim. Nesses momentos, os nossos olhares cruzavam-se sem filtros, via as pupilas dos seus olhos e ela via a honestidade do meu brilho. O cheiro do produto de amoníaco, que vertera no pano, era o meu perfume. A minha visão ficava tão clara que decidia em dois segundos se alguém podia sair de casa tal como estava. Todos confiavam na minha sensatez. No passado, Eugénia era igual à outra mulher que morava aqui: antes de sair lançava-me um olhar rápido, de cima a baixo, e eu conseguia detalhar não só a roupa sóbria e de bom gosto que vestia, mas também se estava triste, alegre ou dormente. Quando chegou a casa o membro mais novo, a camisa dançava no seu corpo e ocultava o que não queria mostrar, mas eu detetava tudo. Ela levava sempre uma mochila pesada às costas. Passava por mim sem se deter, não me prestava atenção. Carregava muitas coisas, nas mãos mostrava a chave apontada em direção à porta para não se esquecer de a fechar. Não perdia nem um minuto. De segunda a sexta-feira, depois da azáfama matinal, o silêncio fazia-me companhia durante oito horas. Descansava os olhos e esperava que o vento levasse

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Palavrar | Número 11

«No passado, Eugénia era igual à outra mulher que morava aqui: antes de sair lançava-me um olhar rápido, de cima a baixo, e eu conseguia detalhar não só a roupa sóbria e de bom gosto que vestia, mas também se estava triste, alegre ou dormente.»

o cheiro a desinfetante que a esfregona espalhava pela casa. Eugénia não percebia de produtos tóxicos, pensa que assim é que cheirava a limpo. Ao meio-dia, a luz deslizava pelo corredor e parava no meu canto. Era a hora em que a casa parecia suspensa. O frigorífico respirava sozinho. Por vezes, ouvia o vizinho arrastar cadeiras; outras, era o cano da cozinha a gemer nas paredes. Nos dias de chuva, o guarda-chuva pingava no mosaico e via


pequenas poças crescerem junto aos sapatos. No verão, o suor deixava marcas nas camisas antes de saírem de casa. Havia dias em que ninguém me olhava antes de sair. Nessas manhãs, sentia um incómodo no vidro, como se deixassem a porta entreaberta. Passava horas à espera do regresso, imaginando golas tortas, rostos cansados, manchas esquecidas. Ainda me lembro do dia em que o carpinteiro veio tirar as medidas para o armário dos sapatos. Sem querer, bateu com a régua no meu pé. Partiu-me a unha. Senti a minha cabeça rachar, mas olhei para o teto e nem ouvi estalar quando ele cortou o canto e colocou um metal nesse lugar e outro no topo. Foi elogiado pela estética. Fiquei triste. Mas pior teria sido se os golpes me tivessem feito em cacos, nunca mais poderia zelar por ninguém. Era feliz com a vida que levava. Era bom vigiar, proteger o bom nome das pessoas que moravam comigo. Um descuido poderia fechar portas. Evitava pequenas tragédias. Lembro-me do dia em que a Eugénia quase saiu com batom espalhado pela cara. Denunciei a imagem; mesmo assim saiu. Ouvi a chave fechar a porta e, segundos depois, o mesmo som a abri-la. Voltou para esbater o batom. O que pensariam os colegas se ela se apresentasse assim no escritório? O Joaquim passava por mim como se eu fosse uma parede nua. Evitava o encontro, temia que lhe devolvesse a imagem do homem que ele não queria aceitar. O seu silêncio era sinal de quem desistira de se ajustar ao mundo. Nunca me reconheceu como vigia imprescindível. Certa vez vestiu o casaco com o cabide — tal era a pressa. Caminhou mais de um quilómetro com o cabide nas costas e as pontas apontadas para os lados. Eu reparara, mas ele não entendeu o que viu. As pessoas desviavam-se no passeio para lhe dar passagem. Todos o cumprimentaram com sorrisos marotos. Só reparou no cabide ao sentar-se. Não regressou mais àquele posto de trabalho. Desde que o carpinteiro terminou a encomenda, passei a ter todos os membros desta casa aos meus pés. Os sapatos ganharam vida e as prateleiras, cheiro próprio. Ficava sempre atento: ténis, sapatos de sair, chinelos. Já não conseguia ver os seus corpos por inteiro porque se inclinavam em primeiro lugar para escolher o calçado. Só depois levantavam a cabeça. Não podia fazer uma avaliação correta.

«Nunca me reconheceu como vigia imprescindível. Certa vez vestiu o casaco com o cabide — tal era a pressa. Caminhou mais de um quilómetro com o cabide nas costas e as pontas apontadas para os lados.»

Tinha de conformar-me, pior seria se me mudassem de lugar. Eugénia já não era a mesma mulher que passava apressada de mochila às costas e chave na mão. Curvava-se à minha frente, procurava os chinelos. Nos primeiros dias, aproximava-se devagar, como quem teme acordar alguém. Depois começou a deter-se mais tempo. Tocava os lábios. Experimentava brincos esquecidos no fundo das gavetas. Uma tarde apareceu com perfume atrás das orelhas. Já não fazia isso há muitos anos. Os dois estávamos frente a frente, em modo contemplação. Ela passou as mãos pelas pálpebras, pelo cabelo cinzento. Subiu os braços e sorriu como a primeira vez que me vira. Queria dar-lhe um abraço, mas ela calçou os chinelos. O cheiro dos sapatos deixara de ser intenso. Havia menos corpos para observar. A casa respirava um silêncio pesado. Eugénia caminhava pelo corredor, ocasionalmente piscava-me um olho e eu a ela. Assim passavam os dias. O Joaquim entrou. Num gesto rápido, descalçou os sapatos molhados. A mulher gesticulou, mas conteve a fala. O tempo em que era a “generala” passara. Queria viver em paz. Os seus rostos mudaram, a pele renascera sulcada, os olhos precisavam de óculos. Nele o cabelo rareava; nela o cabelo era abundante e cinzento. Ele era indiferente à minha presença. Não sabia como era a sua voz, nem a Eugénia. O som da televisão preenchia a casa e ele dirigia-se ao sofá. À noite, quando

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PER FICTA, RESISTERE | A GEOMETRIA DOS CACOS

Maria João Faísca da Silva

a televisão se apagava, ficava algum tempo sentado no escuro. Mesmo assim, nunca levantava os olhos na minha direção. Estava habituado a esta rotina, mas… A casa tornara-se um casarão para os dois. Pressentia o meu fim. Não sabia quem cuidaria do aspeto deles. E isso preocupava-me. Ela queria mudar-se para uma casa mais pequena, onde pudesse andar a pé e não se sentir só. Encontrou um apartamento pequeno no centro da cidade. Convenceu o marido. No dia da mudança desci às trevas. Fui envolto em camadas de papel pardo e plástico de bolhas, sufocado na obscuridade. Pela primeira vez em décadas, deixei de ser vigia para ser apenas um fardo. Ouvi o ranger dos móveis, o eco vazio da casa que deixávamos. Cada solavanco da carrinha era uma ameaça à minha integridade. Ali, no escuro, não havia detalhes. Não havia nada. Eu não existia porque não refletia. O meu lugar passou a ser outro. Tive sorte, fui tratado como um príncipe, até me encostaram à parede de uma nova entrada. Estava cansado, mas feliz porque ia continuar em funções. Todos os dias contemplava a imagem da Eugénia. Perguntava-me o que lhe assentava melhor no corpo curvado e qual era o penteado que a favorecia. Mas não aceitava com agrado ver a sua cara desenhada como um quebra-cabeças. — Joaquim, vem cá! — Qual é o problema? É a tua figura!

— Não estás a ver? — arrastou os pés. Afastou-se. Aproximou-se da imagem. Abria os olhos; a imagem fechava-os. Abria a boca; a imagem fechava-a. Passava as mãos pelo cabelo e soltava-o; a imagem recolhia-o. Uma manhã jurou que o sorriso apareceu antes de abrir os lábios. Não sei se era ela que mudava ou se era eu que já não refletia como antes. Quis saber se o Joaquim via o mesmo, mas ele negou-se a olhar. Desde que se mudaram, Eugénia passou a ver-se noutra imagem. A cada dia o cabelo retomava, gradualmente, a cor original; os olhos recuperavam o brilho perdido; a pele alisava-se; os lábios tornavam-se vermelhos; a roupa parecia feita com as medidas de uma rainha de beleza. As rugas desapareceram primeiro no reflexo. Sentia a sua pele suave e lisa ao passar o creme pelo rosto. Ela gostou da imagem que viu. No roupeiro ainda guardava roupa da época hippie. Queria revivê-la e comemorar a imagem renovada. Demorou a vestir-se; não se importou que a cremalheira não fechasse. Com a minissaia e a camisa de renda, justas ao corpo, sentia-se linda. Pegou nos pincéis de maquilhagem, via o seu rosto cada vez mais bonito. A cada pincelada de rouge desaparecia-lhe um ano. Acabou de arranjar-se. Palpitava de alegria. Chamou o Joaquim. — Aonde vais nessa figura? A mulher não acreditou no que ouviu. Pegou na carteira de mão para sair. Joaquim puxou-lhe o braço. — Solta-me! — Não sais assim. As palavras retumbaram nas paredes, a imagem retorceu-se. Pela primeira vez, ele subia de tom com ela. Era áspero. A imagem do Joaquim abriu-se como uma ferida. Eugénia levantou o braço e, por instantes, a imagem hesitou. A mala de mão rígida, com asa dourada, girou à volta do seu corpo e bateu com força na minha superfície. Estilhacei-me. Na parede branca, era visível a cara do Joaquim nos pedaços entrecortados que ainda se sustiveram na parede, salpicados com pingos vermelhos. As duas imagens desmoronaram-se. Eugénia e Joaquim abraçaram-se. Abafaram as palavras que lhes saíam das bocas. O silêncio voltou a reinar. O meu lugar de vigia ficou vacante.

«Desde que se mudaram, Eugénia passou a verse noutra imagem. A cada dia o cabelo retomava, gradualmente, a cor original; os olhos recuperavam o brilho perdido»

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PER FICTA, RESISTERE O CORPO SABE

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SÓNIA

PEDROSO

arisa sentia-se a flutuar. Os braços abriam-se no ar, as pernas traçavam o chão com firmeza e leveza e o corpo seguia a música como se a conhecesse desde sempre. Não pensava em horários, contas ou medos. O seu foco, ali, era apenas o compasso, que lhe entrava pelos ouvidos e acordava cada músculo. O espelho, à sua frente, devolvia-lhe uma mulher inteira. Via as coxas fortes susterem-na enquanto fazia voltas, a linha dos braços a prolongar os gestos, o cabelo preso a soltar fios junto ao rosto suado. Havia algo de milagroso naquela imagem. Durante meses julgara-se partida. Sorriu sem dar por isso. Custava-lhe a acreditar que, ainda há pouco tempo, mal reconhecia a sua vida. A doença da mãe surgiu sem aviso, como chegam as más noticias, num telefonema a meio da tarde, numa voz séria. Uma frase a dividir tudo entre antes e depois. Nos primeiros dias, ninguém sabia bem o que fazer. A mãe ficara internada para exames e tratamentos. Diziam para aguardar os resultados. Diziam que era preciso calma. Diziam muitas coisas que não serviam para nada. Marisa começou a viver entre corredores. Aprendeu o cheiro do hospital — mistura de éter, lixívia e cansaço. Percebeu o ruído das rodas das macas, o apito das máquinas, a luz branca que nunca se apagava. Sabia esperar por médicos. Por resultados. Por melhoras. As notícias que raramente chegavam à hora prometida. Sentava-se em cadeiras duras e olhava portas fechadas. Às vezes, a mãe sorria quando a via entrar. Outras vezes, estava demasiado cansada para falar. Marisa aproximava-se da cama, ajeitava-lhe os cobertores,

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«Nos primeiros dias, ninguém sabia bem o que fazer. A mãe ficara internada para exames e tratamentos. Diziam para aguardar os resultados. Diziam que era preciso calma. Diziam muitas coisas que não serviam para nada. Marisa começou a viver entre corredores.»

humedecia-lhe os lábios, perguntava se precisava de alguma coisa, mesmo sabendo que não havia nada suficiente para precisar. O pai reagira de outra maneira. Levantava-se cedo, fazia café, lia as notícias no telemóvel, perguntava se alguém queria pão. Dizia que tudo se havia de resolver. Dizia-o com a voz neutra de quem comenta o tempo.


Ela observava-o sem o compreender. Como podia continuar a endireitar almofadas, a discutir o preço dos combustíveis, a ralhar com a torneira da cozinha, enquanto a mulher estava a soro num quarto de hospital? Só mais tarde percebeu que cada um se desfaz à sua maneira. Ele escolhera o silêncio. Ela escolhera as lágrimas. Marisa chorava muito no carro, antes de entrar no trabalho. As lágrimas vinham aos olhos, quando se via no espelho da casa de banho. Chorava à noite, contra a almofada, para não acordar ninguém. Quando visitava a mãe, as lágrimas subiam-lhe às pálpebras como água a uma margem, mas segurava-as até sair do quarto e dobrar o corredor. Não queria que a mãe a visse desabar. Depois havia tudo o resto, porque a vida tem o péssimo hábito de continuar. As máquinas de roupa não se faziam sozinhas. A louça acumulava-se para lavar. O frigorífico esvaziava-se. As contas venciam. O trabalho exigia pontualidade, simpatia e produtividade, como se não houvesse pessoas a adoecer no mundo. Andava de um lado para o outro com listas mentais intermináveis. Comprar pão. Ir à farmácia. Levar documentos ao hospital. Responder ao e-mail. Fazer sopa. Ligar à tia. Dormir, se desse. Dormir, raramente dava. Sentia-se oca, como uma casa depois da mudança. A dança, sempre o lugar onde respirava melhor, ficou esquecida num canto da vida. As sapatilhas paradas, a mochila fechada, as aulas a acontecer sem ela, algures na cidade. Às vezes, quando a casa adormecia, punha os auscultadores. Escolhia uma música e fechava os olhos. Bastavam poucos segundos para algo dentro dela regressar. O peito alargava-se. Os dedos mexiam-se primeiro. Depois os ombros. Depois a cabeça marcava o ritmo em silêncio. Via-se a dançar numa sala ampla, janelas abertas. A dor transformava-se em movimento, a raiva em salto, o medo em rotação. Via-se suada e viva. Quando a música acabava, o quarto parecia mais pequeno. — Por vezes, sinto culpa por estar alegre — disse à amiga Rute, numa tarde em que beberam café, junto ao trabalho. A amiga pousou a chávena. — Culpa, porquê?

«Às vezes, quando a casa adormecia, punha os auscultadores. Escolhia uma música e fechava os olhos. Bastavam poucos segundos para algo dentro dela regressar. O peito alargava-se. Os dedos mexiam-se primeiro. Depois os ombros. Depois a cabeça marcava o ritmo em silêncio. Via-se a dançar numa sala ampla, janelas abertas. A dor transformava-se em movimento, a raiva em salto, o medo em rotação. Via-se suada e viva.»

— Pela minha mãe estar doente... e eu querer coisas normais. Querer dançar. Rir-me. Esquecer-me, mesmo que por uns momentos, do que está a acontecer. A amiga inclinou-se para a frente. — Ouve-me bem. A tua mãe está doente. Tu não tens de adoecer com ela. Marisa ficou calada.

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PER FICTA, RESISTERE | O CORPO SABE

— Ajudas no que podes, estás presente, fazes mais do que muita gente faria, mas também tens a tua vida. Se te apagas, ninguém ganha com isso. As palavras ficaram presas ao pensamento durante dias. Na semana seguinte, saiu do trabalho e foi à academia. Ficou alguns minutos parada à porta. Lá dentro ouvia-se a batida grave da música e o arrastar de pés no chão de madeira. Reconheceu vozes, gargalhadas, a contagem ritmada da professora. O coração acelerou, como se fosse entrar para um exame. Empurrou a porta. O cheiro a suor e verniz recebeu-a como uma memória antiga. Algumas pessoas sorriram ao vê-la. A professora abriu os braços sem dramatismos. — Ainda bem que voltaste. Mete-te ali daquele lado e acompanha o que conseguires. Marisa riu-se, nervosa.

«Aos poucos, a vida deixou de ser apenas obrigação. Havia agora uma hora ou duas onde nada lhe era pedido senão presença. Quando dançava, não era filha aflita, empregada eficiente, gestora de crises domésticas. Era apenas ela.»

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Sónia Pedroso

Nos primeiros minutos sentiu-se pesada. Os músculos esquecidos protestavam. O equilíbrio faltava-lhe, o fôlego quebrava cedo, os passos chegavam atrasados à música. Quase desistiu. Depois começou uma canção que conhecia de cor. O pé bateu no chão sozinho. O corpo lembrou-se antes da cabeça. Uma volta saiu bem. Depois outra. O braço levantou no tempo certo. O peito respirou fundo. O suor escorreu-lhe pelas costas como se lavasse semanas inteiras. No fim da aula, ficou sentada no chão, ofegante, a rir-se sem motivo. Naquela noite dormiu seis horas seguidas. Voltou na semana seguinte. E na outra. Aos poucos, a vida deixou de ser apenas obrigação. Havia agora uma hora ou duas onde nada lhe era pedido senão presença. Quando dançava, não era filha aflita, empregada eficiente, gestora de crises domésticas. Era apenas ela. Passou a visitar a mãe com o rosto mais leve. Levava histórias de passos falhados, músicas novas, colegas excêntricos, pequenas vitórias. A mãe escutava-a com um sorriso cansado. — Mostra-me esse movimento de braços — pedia, com esforço. Marisa fazia uma versão ridícula ao lado da cama, e as duas riam-se baixo para não incomodar quem estava na cama ao lado. Naqueles minutos, a mãe deixava de ser doente. Voltava a ser mãe. Ao fim de um mês recebeu alta. Saíram devagar do hospital, a mãe mais magra, mais lenta, mas de pé. O pai carregava sacos e documentos com a solenidade de quem transporta um tesouro. A filha caminhava ao lado dela, segurando-lhe o braço. Quando atravessaram a porta principal e sentiram o ar da rua, Marisa chorou. Não de medo. Não de exaustão, mas de alívio. Nessa noite, depois de todos dormirem, ligou uma música baixa no meio da sala. Dançou descalça, devagar, sem espetáculo nenhum. Cada gesto simples parecia agradecer qualquer coisa invisível.


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IN METU, VERITAS CARÊNCIAS

M

DÁLIA

RODRIGUES

arlene chegava sempre cansada, depois do trabalho. Só queria tomar um banho e jantar. Queria silêncio, os pés esticados no sofá e talvez um qualquer episódio de uma série televisiva leve. Dias pesados, de gritaria, de colos, de ralhetes, de castigos, de zangas, de choros, de… crianças e respetivas criancices. Fartinha de putos! Hugo recebia-a em casa, no sofá, de pijama polar e cabelo desgrenhado. Levantava-se, normalmente de comando da televisão ou da consola na mão, e abraçava Marlene ainda antes de ela pousar a mala ou despir o casaco. Era um abraço apertado, longo, de quebrar costelas, sempre acompanhado de: — Meu amorzinho lindo, tive tantas saudadinhas tuas o dia todo! Seguia-se um beijo nos lábios, nas bochechas, no nariz, na testa, no cocuruto. A barba sempre a raspar a pele cansada de Marlene. — Estou cansada, Hugo. Tive um dia de merda. Vou só tomar banho. Podes fazer o jantar? — Oh, mas tu ontem disseste que hoje cozinhavas aquele teu guisado. Estive o dia todo a desejar o guisadinho… Marlene revirou os olhos. — Não estou mesmo com paciência. Faz qualquer coisa congelada… Sei lá. Ele baixou os olhos, fez beicinho e rastejou os pés até à sala. Marlene voltou a revirar os olhos e suspirou. Seguiu para o quarto, onde se despiu e agarrou num pijama lavado. Quando se virou para seguir para a casa de banho, Hugo estava à porta do quarto. — És tão bonita. — Obrigada. E abraçou-a novamente, as mãos a percorrem-lhe o corpo inteiro. Apalpou aqui, ali, acolá. Deu festinhas aqui, ali, acolá. Tocou em cada centímetro do seu corpo.

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em colaboração com

— Hugo, tenho mesmo de ir tomar banho. Estou toda suada e nojenta. Vá. — Só mais um beijinho… — Hugo agarrou-lhe o rosto e beijou-a com força, demoradamente. Depois, com os lábios ainda a sobrevoar os dela, lembrou-se: — Posso tomar banho contigo? — Não, desculpa. Quero só mesmo ter um momento de paz. — Oh, sabes que eu gosto… — Os olhos de carneirinho mal morto estamparam-se-lhe no rosto. — E tu sabes que eu não gosto. Hugo retornou cabisbaixo ao sofá, onde se deitou. Marlene soltou mais um suspiro, trancou-se na casa de banho e ligou a água. A paz. O silêncio. A solidão necessária. Com a tensão mais baixa, Marlene saiu para a cozinha e aqueceu uma lasanha diretamente tirada do congelador para o micro-ondas. Sentou-se à mesa da cozinha e engoliu o combustível alimentício em movimentos mecânicos. — Amor… — surgiu a voz de Hugo. — Hum? — Vens aqui para o sofá, para ao pé de mim? — Estou a comer, Hugo. — Eu sei… Comes aqui, comigo. Marlene expirou todo o ar que tinha guardado nos pulmões, enquanto esfregava os olhos e a testa. Massajou o pescoço e limpou a voz. Pegou no recipiente da lasanha e no garfo e sentou-se no sofá, ao lado do namorado. De imediato, Hugo aproximou-se, colocando os corpos em contacto direto, grudado: perna com perna, joelho com joelho, cotovelo com cotovelo, ombro com ombro, e uma mão na coxa dela. A perna de Marlene começou a saltitar. Terminou a refeição rapidamente. — Agora, fazes conchinha comigo? — Acabei de jantar… — E viu os olhos de carneirinho

Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins

mal morto. — OK. Mas quando nos formos deitar, pode ser? Hugo mordeu a bochecha e limpou a garganta, sem resposta. Mesmo assim, colocou um braço sobre os ombros dela, com a respiração mesmo ali, aos ouvidos de Marlene, a exercer pressão. — Pronto, está bem! — Marlene bufou. O sorriso de Hugo rasgou-se de orelha a orelha. Deitou-se, e Marlene seguiu-lhe o movimento, encaixando o seu corpo no do namorado. Suspirou pela enésima vez. Pouco a pouco, Marlene começou a sentir a réstia de energia que tinha a sumir-se. O corpo ficava mole, pesado, dormente. Seria do cansaço e da posição, certamente. Tentou ajustar-se, mexer-se dentro daquele sufoco apertado da conchinha. Mas os braços não mexeram, nem as pernas, nem o pescoço. Sentia os músculos presos, a pele quase fundida com a de Hugo, que a prendia cada vez mais na sua demonstração de carinho. Baixou o olhar: os calcanhares e a barriga das pernas desapareciam nas pernas de Hugo, já só se conseguia distinguir o seu corpo pelas unhas dos dedos dos pés pintadas. Marlene gritou, piscou os olhos várias vezes para acordar do pesadelo. Esperneou, remexeu-se, mas também os seus braços se fundiam com os do namorado. — Está tudo bem, amor. Tenho tantos miminhos para te dar e tu nunca queres… Até parece que não gostas de mim. É só mais esta conchinha. Shh. Está tudo bem. Anulada pelo buraco negro humano, o último pensamento de Marlene nem lhe pareceu seu. Em segundos, as carências de Hugo engoliram-na por completo.

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IN METU, VERITAS AMOR DE MÃE

T

LEWIS

MEDEIROS CUSTÓDIO

er um filho é uma das experiências mais inefáveis da vida. Apenas quem já teve filhos compreende o que é realmente abdicar de si e viver holisticamente para outra pessoa. Uma espécie de escravidão voluntária, uma dedicação a tempo inteiro. É o fim consentido da nossa liberdade. Agora, fazíamos parte desse grupo que passou os sonhos e ambições para a geração seguinte – éramos pais. Cuidadosa como ninguém, a minha mulher tinha-me ditado, com a mais extrema minúcia, tudo o que era preciso para o bebé. E pediu que lhe repetisse. Não podia faltar nada. Vesti o casaco de ganga, despedi-me com um beijo e saí de casa. Caminhei exausto e pesado, debaixo da chuva miudinha, até à farmácia. Era tarde, mas não tarde o suficiente para estar fechada. Ainda assim, não fossem os antigos e já cansados postes de luz, a rua estaria escura como breu. As poucas pessoas que encontrei cumprimentaram-me todas com um largo sorriso e a inevitável pergunta — como está o bebé? Desde que me tornara pai que tinha ganhado a simpatia de toda a vila. Dentro da farmácia, estava apenas o Sr. Coutinho, um farmacêutico que se recusava a admitir que tinha chegado a idade da reforma. O auxiliar de farmácia que o ajudava já tinha ido para casa. — Boa tarde, Sr. Coutinho — iniciei eu a conversa como exige a cortesia, com voz raquítica. — Boa noite! Já é noite. Então, o bebé? — indagou sorrindo. — Ficou em casa com a mãe. — Claro! Com este frio de Inverno, é preciso ter cuidado. Já vi que o amigo não dorme bem há algum tempo, não é verdade? — Sim, não tenho conseguido. — É normal nesta fase. Está com que idade o bebé? — Dois meses.

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— Já? Como o tempo passa. Aproveite, que o tempo não volta! Olhe, o meu já é pai, e o meu neto vai agora para a faculdade, já viu? Piscamos os olhos e já eles estão longe! Estremeci por um momento, olhando para ele. Enfiei a mão no por demais pequeno bolso das calças que agora me ficavam largas. Com esforço, retirei a lista enrugada que tinha teimado em afundar-se no bolso irritante. Pus os cotovelos no balcão para conseguir aguentar-me. — Mas olhe que parece um bocado em baixo. Se quiser, tenho aqui suplementos que lhe vão dar força. — Não, obrigado, é só o que preciso para o bebé. — Muito bem, e o que é que vai ser hoje? Não me diga que já gastou as fraldas todas que levou ontem! Olhei para a lista e desejei ter decorado tudo o que ela me tinha dito. Ou então que tivesse sido ela a escrever. A minha caligrafia estava tão torta que parecia ter sido impingida ao papel. As letras começaram a ganhar vida própria e a desaparecer com o cansaço dos olhos. — Deixe cá ver — ofereceu-se o farmacêutico. — Ora, comida para o bebé, pó de talco, fraldas, perfume para o bebé, mais comida… Bem, tem aqui uma lista… E ainda ontem, levou. Mas descanse, descanse. Sente-se um bocadinho naquela cadeira enquanto eu vou buscar tudo e ponho num saco. Sentei-me na cadeira e, imediatamente, todo o meu corpo relaxou. É uma das coisas que as farmácias modernas nunca conseguem ter — esta atenção pelo cliente… pelo vizinho. Mal tinha eu descansado e já ali estava o Sr. Coutinho com dois sacos cheios. Levantei-me e peguei neles. Tirei a carteira do casaco, paguei e despedimo-nos. Mal me lembro de como cheguei até casa. Lembro-me de estar à porta e de olhar para a fechadura até me lembrar onde tinha a chave.


em colaboração com

Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins

Entrei em casa e fechei a porta. O cheiro invadiu-me as narinas. Não havia uma única divisão imune ao odor. — Trouxeste tudo? — Sim, querida, tenho tudo aqui. Ela sentou-se no sofá com o bebé ao colo, cuidadosamente enrolado na mantinha azul. Aproximei-me dos dois e pus a mão no ombro direito dela, enquanto espreitei o bebé sobre o ombro oposto. — Olha como dorme sossegado. Não o acordes — disse ela, enquanto embalava o menino. Passei a mão pela cabeça dela, fitando o corpo do bebé que parara de respirar há mais de três semanas, por se ter virado de barriga para baixo num piscar de olhos na banheira. Sorri para ela, escondendo as lágrimas. Ela acariciou o menino, gentilmente. — Não é lindo o nosso filho? — Sim, querida. É lindo.

A pedido do Autor, este texto não segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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IN METU, VERITAS FELIZES OS MORTOS

NUNO

ROSALINO

e

o cinto de couro coçado do pai, pendendo frouxo das costas da cadeira torta, e a caçadeira encostada, e a garrafa de aguardente, verde, baça, a meio e os madeiros da entrada, e o caminho de ferro que se embrenha nas entranhas da terra e a tosse que teima, e o querer encher os pulmões em pleno, e a aflição de não conseguir, de ficar sempre aquém mas os filhinhos e o sermão de domingo, e o Céu, a salvação, e os cânticos, e o dar de mãos, e o trabalho e a paz e o sacrifício e o mal da terra e a mãe, chorando baixinho debruçada sobre o fogão, a secar as mãos ao avental de pano e o bruxulear do lume na lanterna, e as traves que rangem queixumes e arcam com o peso da montanha, e o medo mas os filhinhos e as costas vergadas, doridas, e os dedos que incham, agora grossos como estacas e o sermão de domingo, e o Céu, a salvação, e a voz do pastor, estentórea, impoluta de dúvida, a sotaina limpa, mas negra como carvão, e o sacrifício e o que cumpre fazer, e os demónios e a salvação, sim, a salvação, e a paz e o mal da terra e as duas cruzes de pau no quintal, toscas, e as lágrimas e o alívio e a culpa e o canário hirto no fundo da gaiola, e os escombros, e neles o silêncio e o nada e um perfeito contentamento quebrado pela luz e a água que corre negra ao lavar as mãos calejadas, e o cuspo preto, os pulmões expulsando o malsão o destino dos filhinhos e o sermão de domingo, e o Céu, a salvação, e a voz

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do pastor, cheia de certezas, e o que cumpre fazer, e a solução, sim, a solução e o sacrifício e a caçadeira, e a solução, e o Céu, não mais a terra e a montanha, e o sacrifício e o cuspo preto e a aguardente e o cinto e as lágrimas e os disparos, sim a salvação, os gritos, sim mas os filhinhos no Céu, salvos agora do mal da terra seis anjinhos, sim, por um sacrifício de seis balas e do seu lugar ao lado deles pendurado de um cinto de couro coçado, sim, entre cruzes toscas de pau


em colaboração com

DE NOVO

Edição e curadoria: Pedro Lucas Martins

REMI

GONÇALVES

S

enti um pequeno toque na traseira do carro. Não de metal, mas como se uma mão o desviasse. Perdi o controlo. Guinei o volante, sem efeito. O carro já não me pertencia. Empurrou-nos o destino para a montra da sua loja favorita, depois de abalroarmos o semáforo do sentido contrário. No instante antes do embate, suspensos no ar e na respiração, os nossos olhos encontraram-se. O silêncio foi o único pedido de desculpas que consegui oferecer. Estilhaços voaram à nossa volta. Em câmara lenta. Apenas o som do airbag dela devolveu o tempo à normalidade. Tudo negro. Despertei em cima do capô. Com dores no corpo e em ângulos que desconhecia serem possíveis. Cada respiração dela era em esforço, agravada pelos dois fios vermelhos que lhe escorriam das narinas. E depois, o puxão. Tudo negro outra vez. Chega a ambulância. Já nos encontramos na rua e fora do carro. Estamos no passeio a ver os paramédicos extraírem sacos de carne ensanguentada do acordeão metálico que fumega na vitrine da loja. Levam os nossos corpos. E nós ficamos. Damos as mãos. E os nossos dedos atravessam-se como duas sombras que se sobrepõem. «Novo» é quando fazemos uma coisa que nunca fizemos. «De novo» é quando a fazemos pela segunda vez. De facto, nunca o fizemos na morte, mas já passeámos em vida. Isto somos nós, na rua, a caminhar de novo.

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PÉS DE PETIZ O DISCO VOADOR

N

ANA MARIA COSTA

um planeta muito, muito distante, vivia o povo mais desenvolvido de todos os tempos. Aparentemente, eram pessoas como nós, mas havia algo que lhes faltava. Ali, cada recém-nascido recebia um número que lhe servia de nome. Consegues imaginar? “Ó 11156768, viste o 12455667?” Para mim, seria muito estranho. Naquele planeta não havia escola. “Que fixe!”, poderás pensar, mas não era bem assim… Os pais das crianças escolhiam a vida que desejavam que elas tivessem e implementavam-lhes o respetivo chip. Era como escolher um jogo e instalá-lo no computador.

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Palavrar | Número 11

As pessoas deslocavam-se em naves que funcionavam por comando de voz. Não havia natureza, tudo era feito de metal e cimento e, por isso, havia máquinas que produziam oxigénio para as pessoas respirarem. Os habitantes daquele planeta faziam todos os dias as mesmas coisas, orientados pelas muitas máquinas que por lá havia. Não falavam uns com os outros, porque os superdesenvolvidos telemóveis conseguiam ler os pensamentos e enviavam mensagens sozinhos. Por isso, também não sabiam o que era dar um abraço, uma boa gargalhada ou ficar triste.


Ora, certo dia, um menino, chamado 55555555, entrou no disco voador privado do pai. Gostava de ir para lá e pesquisar trajetos interplanetários, às escondidas de todos, porque naquele planeta, apesar de ser tudo programado e mecanizado, havia uma ou outra criança que desenvolvia uma curiosidade natural, o que era tão raro, tão raro, que não a podia mostrar. Ali, estava guardado um objeto estranho, um livro com o título “Viagem ao centro da Terra”. O pai não lhe contava nada, mas ele sabia que o tinha trazido de uma das suas explorações intergalácticas. Queria muito conhecer aquele planeta e estava tão entretido a pesquisar que quando a mãe o chamou, assustou-se e carregou no botão “Iniciar viagem”. Sem que pudesse fazer fosse o que fosse, depois de uma viagem super-rápida, aterrou num parque com um relvado enorme, onde crianças brincavam. Ninguém se apercebeu, porque a nave era invisível. O menino arregalou os olhos para absorver tudo o que via: relva, árvores, sol, poças de água, flores, passarinhos, um lago, patos, e pessoas muito parecidas com as pessoas do seu planeta, mas estranhas na forma de se mexerem e nas expressões do rosto. Ele nunca tinha visto nada assim e era um mecanismo automático da nave que ia identificando tudo quanto aparecia. Teve vontade de sair do disco voador e ficou surpreendido com isso. Então, entrou na “Máquina de adaptação à nova realidade”: o seu fato cinzento desapareceu e ele viu-se dentro de uns calções, uma t-shirt e umas sapatilhas. Tudo aquilo despertou sensações que nunca tivera antes. Saiu e, como a nave estava encostada a uma árvore, foi atrás dela que se escondeu. Com as mãos acariciou o tronco e olhou para o céu. A luz obrigava-o a cerrar os olhos e os ouvidos tentavam adaptar-se à quantidade e variedade de sons que o circundavam. De repente, uma bola acertou-lhe na cabeça. Pela primeira vez soube o que era a dor, mas não se importou. Agarrou naquele objeto e mirou-o. — Desculpa! — disse uma menina do tamanho dele, com olhos grandes, duas tranças e a cara vermelha e transpirada. — Magoei-te? — perguntou ela. Inicialmente, ele não percebeu nada, porque nunca tinha ouvido falar em português, mas o chip que lhe tinham implementado incluía um milhão de línguas e ativou-o automaticamente para que pudesse comunicar. Conseguiu dizer um tímido “Não”. — Vem jogar connosco! — convidou ela e, pegando-lhe na mão, levou-o para junto do grupo.

Apesar de nunca ter jogado à bola, observava as crianças e imitava-as. Saltou, correu, pulou nas poças de lama, tropeçou, caiu e levantou-se. O corpo transpirava pela primeira vez e o coração batia acelerado. Depois, rebolaram na relva. Que sensação! O 55555555 sentia os lábios abrirem num sorriso e soltava gargalhadas com as outras crianças que, de repente, começaram a dançar e a cantar: Sou criança, dou risadas, Salto poças, sujo a cara, Canto e dou caneladas Ao meu lado tu não paras. Acredito em magia, Gosto muito de sonhar Em tudo vejo alegria Vem comigo, vem brincar. Tudo era novo para o 55555555. Devia estar com um ar tão surpreendido, que a Lara lhe deu uma palmadinha no braço e perguntou: — O que foi? — O que é isso que acabaram de fazer? — É música! O que havia de ser?! Ele encolheu os ombros e disse: — Nunca tinha ouvido… — Pois não, esta é uma música que a minha tia escreveu para mim e para os meus irmãos, mas ainda não é muito conhecida! — disse a Lara com um sorriso que lhe fazia uma covinha no rosto. — Olha, vamos lanchar a casa dos nossos avós, queres vir? — Achas que a avó não se importa? — quis saber o Pedro. — Acho que não. Ela gosta de conhecer os nossos amigos. Anda, Miguel! Vamos lanchar. O 55555555 estava cada vez mais curioso, por isso, seguiu-a, enquanto dava uns toques na bola com os dois rapazes. O que seria lanchar? Tantas coisas desconhecidas, mas que lhe davam sensações muito boas. A casa dos avós daqueles três irmãos, ficava ao lado parque. Quando entraram, cheirava a bolo de chocolate. — Ó vó, eu queria pão de ló! — reclamou o Miguel. — Andas sempre ao contrário, rapaz! Hoje, é bolo de chocolate! Quem é este menino? — É nosso amigo! Pode lanchar connosco? — Claro que sim! Como te chamas?

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PÉS DE PETIZ | O DISCO VOADOR

— Sou o 55555555. Desataram todos a rir. — Isso lá é nome de gente? — comentou o Pedro. — Cala-te, cromo! — reclamou a Lara, dando-lhe um encontrão. —Claro que o chamam assim! Ele é cinco estrelas a jogar! O 55555555 já tinha percebido que ali não havia números, cada um tinha uma palavra para ser chamado, por isso, tentou corrigir-se: — Na verdade, chamo-me Estrela. As caras dos pequenos esboçaram uma careta, mas a Lara comentou com um sorriso: — Tens um nome lindo, só podias chamar-te assim. — Tens um nome lindo! — repetiu o Pedro a imitar a irmã. — Ai que até estou apaixonada! — concluiu a rir-se.

«Queria muito conhecer aquele planeta e estava tão entretido a pesquisar que quando a mãe o chamou, assustou-se e carregou no botão “Iniciar viagem”. Sem que pudesse fazer fosse o que fosse, depois de uma viagem super-rápida, aterrou num parque com um relvado enorme, onde crianças brincavam.»

Ana Maria Costa

— És mesmo parvalhão! — reclamou ela, dando-lhe um pontapé. Já se preparavam para uma luta, mas a avó travou-os: — Pronto, vamos lá parar com isso! Vão todos lavar as mãos. A custo, obedeceram. O Estrela seguiu-os e imitou-os, enquanto observava tudo. Também tinha uma casa, lá no seu planeta, mas era tão diferente… lavar as mãos com água… Na casa dele, metia-as numa máquina para as desinfetar! Na mesa, havia bolo de chocolate, pão, queijo, sumo de laranja e morangos. Os cheiros misturavam-se e o Estrela observava as crianças a comerem. — Ó pá, come! — disse-lhe o Pedro, dando-lhe uma cotovelada. — Não tenhas vergonha. Ele nunca tinha comido algo assim. Os comprimidos-refeição do seu planeta não sabiam a nada, mas tudo aquilo era tão bom! A barriga dele fez barulhos estranhos e todos se riram. — Eu queria pão de ló, não gosto de bolo de chocolate — insistia o Miguel. — Ai, Miguel, amanhã queres bolo de chocolate e dizes que não gostas de pão de ló! — reclamou a avó. — Haja paciência contigo! — Quero fazer um pão de ló — teimava o pequeno. — Ó vó, podemos fazer? — perguntou o Pedro. Para satisfação do Miguel, a avó deixou. O Estrela arregalava os olhos. Rapidamente, os irmãos arranjaram espaço na mesa para colocar tudo o que precisavam para o bolo. A avó ligou o forno e apenas os orientava, porque os três irmãos sabiam o que fazer. Enquanto isso, cantavam: Na cozinha da minha avó De colher de pau na mão Sei fazer um pão de ló Oh que grande diversão! Até o Estrela cantava e admirava-se com tudo aquilo. O bolo crescia. De repente, o Pedro gritou da casa de banho: — Abram a porta! A Lara desatou a rir. Já não era a primeira vez que o Miguel o trancava, por isso cantou com ele: Abro porta, fecho porta Oh que grande diversão!

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Palavrar | Número 11


Mas será que alguém se importa Se eu trancar o meu irmão? E depois foram abrir a porta da casa de banho, para alívio do Pedro. Quando o bolo ficou cozido, a avó desenformou-o. O Miguel tirou logo um bocadinho com a mão, soprou para arrefecer e comeu. Os irmãos fizeram o mesmo, para desespero da senhora, que dizia: — Ainda ficam com dor de barriga! — e até deixou cair um testo de panela. A Lara apanhou-o e tirou outro do armário. Começou a bater com eles, enquanto cantava: Com os testos das panelas Faço música a valer Bato, bato sem cautela Ponho todos a tremer. — Ó vó, lembras-te de quando aprendi a bater com os testos? — Claro que lembro, o teu avô queria dormir e tu não o deixaste! E riram-se todos. O Estrela estava encantado com tudo aquilo, mas no seu pulso esquerdo, apareceram uns pontinhos luminosos a piscar. Meteu imediatamente a mão no bolso e disse: — Tenho de ir embora. Obrigado pelo lanche. — Eu vou contigo — disse a Lara. — A Lara tem um namorado! — brincou o Pedro. — Estúpido! — repreendeu-o ela e empurrou-o para o sofá, onde estava o telemóvel da avó. — Avó, posso jogar? — perguntou o Pedro. — Podes, só um bocadinho. — Enquanto a Lara vai dar um beijinho no Estrela — riu-se o Miguel. — Ó vó! São uns parvalhões! Eu já volto. Os dois saíram e o Estrela não sabia o que dizer, quando os sinais do pulso se tornaram sonoros. A Lara estava muito curiosa. Nunca tinha visto uma pulseira assim, com luzes e som. O Estrela gostava de ali estar e não sabia como lhe dizer que tinha de ir embora. — Os meus pais estão à minha espera. — Onde? — Ali. — E apontou para o sítio onde ficara a nave. — Não os vejo.

«Teve vontade de sair do disco voador e ficou surpreendido com isso. Então, entrou na “Máquina de adaptação à nova realidade”: o seu fato cinzento desapareceu e ele viu-se dentro de uns calções, uma t-shirt e umas sapatilhas.»

— Pois não, eles estão muito longe. Havia algo de estranho no rapaz e a Lara queria saber mais sobre ele, mas o Estrela despediu-se e afastou-se para depois, de repente, desaparecer. A Lara deixou de o ver, mas ele viu-a a caminhar em direção à nave, onde todos os mecanismos se ligaram e a voz do pai se fez ouvir. Claro que ele já sabia o que tinha acontecido. — Tens de voltar. O disco voador está programado para regressar, mas precisas de colocar no detetor de origem algum objeto desse planeta. Só assim é acionado o mecanismo. O Estrela voltou a sair e, instantaneamente, apareceu mesmo em frente à Lara que esbugalhou os olhos. — Preciso da tua ajuda. Preciso de um objeto daqui para poder ir para casa. Quero a bola. Podemos ir buscar? A Lara não estava a perceber. O rapaz era mesmo estranho. Desaparecia e aparecia como por magia e agora queria a bola, assim, sem mais nem menos? — Estás a gozar comigo? — perguntou desconfiada. — Quem és tu? — Sou o 55555555. — Esse é mesmo o teu nome? — É o meu número. Não tenho nome.

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PÉS DE PETIZ | O DISCO VOADOR

— De onde vens tu? — O meu planeta chama-se Metal. É de lá que eu vim no disco voador do meu pai e agora preciso da bola para regressar. A Lara primeiro abriu muito os olhos, depois, começou a rir. Riu tanto que até chorou. O 55555555 começou a sentir uma coisa estranha no peito. De olhos no chão, insistiu: — É verdade. A Lara parou de rir. Será que vinha mesmo de outro planeta? Ele pegou-lhe na mão e levou-a para dentro da nave. Admirada com tudo o que via, começou a beliscar o braço para ter a certeza de que não estava a sonhar e tropeçou nos próprios pés, ficando sentada no detetor. De imediato, ouviu-se uma voz: — Identificação efetuada. Reconhecimento acionado. Iniciar regresso.

«De volta ao parque, a Lara correu o mais que pôde até casa e agarrou-se à tia que, entretanto, tinha chegado. Ela quis saber o que tinha acontecido e esperou que a menina lhe contasse. Realmente, só a tia poderia acreditar nela.»

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Ana Maria Costa

A Lara olhou assustada para o 55555555, que não sabia o que estava a acontecer no seu peito, mas estava apertado e quase doía. — Para isto! Para onde me levas? — gritou a Lara com as lágrimas nos olhos. Ele assim fez e o voo foi interrompido. Sem saber explicar o que sentia, abraçou-a, mas ela rejeitou-o e fugiu. De volta ao parque, a Lara correu o mais que pôde até casa e agarrou-se à tia que, entretanto, tinha chegado. Ela quis saber o que tinha acontecido e esperou que a menina lhe contasse. Realmente, só a tia poderia acreditar nela. A tia, à medida que a ouvia, sorria, como se aquilo fosse tudo muito normal. Depois, pegou na bola, sem que os rapazes vissem, e disse: — Vamos lá procurar o teu amigo. A Lara, apesar de ainda estar um pouco assustada, levou a tia ao sítio onde estava o disco voador. O 55555555 viu-as aproximarem-se e saiu. Estavam os três bem junto da árvore que ocultava as entradas e saídas do disco voador. A tia da Lara entregou-lhe a bola e disse: — Eu sei de onde vens — tirou da mochila uma folha e perguntou — Podes dar isto ao teu pai? Ele acenou afirmativamente com a cabeça e deu-lhe um abraço. Depois virou-se para a Lara: — Gostei de aqui vir e gostei de ti. Obrigado por me ensinares a gostar — abraçou-a e desapareceu. — O que estava no papel? — perguntou a Lara. — A poesia do que é essencial: a música que fiz para vocês. De onde ele vem, não há poesia, não há música, nem livros… ao pai dei um livro, quando o conheci exatamente neste sítio há muitos anos. Agora, ele leva um bocadinho do que nós somos, um bocadinho do que nos torna diferentes deles. — Sabes que cantámos algumas das partes das músicas com ele? — A sério? Parece que adivinhei. — Ó valha-me Deus, tia Ana, tu às vezes, também parece que vieste de outro planeta! — Sabes que mais? Para mim tudo é possível, Não há nada a temer, Acredito no invisível P´ra magia acontecer.


PÉS DE PETIZ NÃO ESTÁ TUDO BEM, MAS...

S

TERESA

DANGERFIELD

ou a Yana. Quando cheguei aqui, fiquei triste, porque deixei para trás a minha casa, os meus amigos, os meus primos e a minha avó. O meu pai disse que íamos para uma terra distante, que seria melhor para nós. Não achei, porque não pude levar nem a avó nem os meus brinquedos. Mas as casas perto de nós estavam a ficar todas partidas. E a avó foi morar com os meus primos, para mais longe. A avó ficou a chorar quando nos despedimos. Como é que poderia ser melhor? Deu-me um grande abraço e disse: — Minha querida, vai ficar tudo bem. A avó nunca te vai esquecer. Ela não sabe que eu a vi chorar. Eu também tinha umas lágrimas pequeninas a descer pela minha cara, mas disfarcei. Não queria que ela ficasse triste. Disse-lhe que era forte, que estava tudo bem. Que éramos as duas fortes. Mas eu sabia que, às vezes, as pessoas dizem essas coisas e não é verdade. Como é que poderia ficar tudo bem? Viemos num barco com muita gente. À minha volta, ouvia falar línguas que não compreendia. A mãe e o pai abraçavam-me para me proteger do frio. Passaram-se dias e noites até chegarmos a esta terra. Não percebia o que as pessoas diziam, mas uma senhora simpática falava a nossa língua e explicava tudo. Mostravam-me desenhos com arcos--íris e bonecos a sorrir. Tinha vontade de chorar. Só que disfarçava. Ficámos alguns dias num hotel. Nunca tinha estado num hotel. Havia uma televisão no quarto. Ficar ali todo o dia era aborrecido. Comíamos num restaurante com outras pessoas. Algumas falavam a nossa língua, mas outras não. Cada vez sentia mais saudades dos meus amigos e da minha escola. Passaram-se semanas até que nos mudámos para uma casa. Fiquei contente por sair do hotel e, ao

mesmo tempo, preocupada, pois não sabia o que vinha a seguir. O meu pai disse que ia ficar tudo bem, pois já tinha um emprego. A minha mãe também arranjou trabalho. Ela sorria, mas à noite eu ouvia-a a chorar baixinho. Tinha um quarto só para mim. Deram-me alguns brinquedos. Fiquei a saber que iria para uma escola dali a alguns dias. A escola era bonita, só que eu não queria ir. Fui obrigada. Como é que eu iria compreender o que me diziam? No meu país, era uma das melhores da minha turma; agora, nem queria pensar! O primeiro dia até nem custou muito. Ofereceram-me uma mochila. Gostei. A diretora foi muito simpática. Apresentou-me a todas as crianças da escola. Deram-me prendas: flores de papel, um cesto com doces e alguns livros ilustrados. Até cantaram uma canção na minha língua, que aprenderam só para mim. Senti-me especial, como se fosse o dia do meu aniversário. Afinal, é capaz de não ser assim tão mau como imaginava, pensei. E sorri. Continuavam a dizer-me: ‘Vai ficar tudo bem’. Já não queria ouvir aquilo. Um dia, amarrotei um desenho de um arco-íris que alguém me tinha oferecido. Apetecia-me mesmo era rasgá-lo. Sentia-me zangada e não sabia bem com quem. Meti-o no bolso do casaco. Além da professora da turma, havia outra que ensinava as crianças que precisavam de apoio na língua, como eu. Éramos cinco na escola toda, de países diferentes. Eu mal falava e só queria estar sentada num canto, sozinha. Achava que ali não havia ninguém capaz de entender exatamente o que eu sentia. Queria voltar à minha antiga escola. Um dia, os meus pais foram falar com a diretora. Não sei o que disseram. Fiquei tão preocupada que me fiz de doente.

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PÉS DE PETIZ | NÃO ESTÁ TUDO BEM, MAS...

A mãe teve de ficar em casa. Não podia trabalhar, porque eu tinha dores de cabeça e dores de barriga. Quero dizer, foi o que inventei. Gostava de estar com ela e era bom não ter de ir à escola. Ela não dizia nada, mas eu pensava: E se ela perdesse o trabalho? Por minha causa! Parecia preocupada. Senti-me egoísta. O problema era que, sempre que pensava na escola, a minha barriga doía mesmo. Até perdi o apetite e mãe queria levar-me ao médico. Eu só dizia: — Vai passar, mãezinha. Talvez amanhã já esteja melhor. Ao terceiro dia, acordei e fiquei a olhar para a mochila nova. Lembrei-me de como fiquei feliz quando

«A Anya sentou-se ao pé de mim, mostrou-me um livro, que a professora estava a ler e foi-me explicando algumas coisas da aula. Primeiro, fingi não prestar atenção, depois, senti um grande alívio quando finalmente compreendi o que a professora queria dizer.»

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Teresa Dangerfield

a mostrei à minha mãe e ao meu pai, e de como eles sorriram. Depois, pensei nas pequenas coisas que eu tinha e que me faziam sorrir. Senti que talvez conseguisse tentar outra vez. A minha mãe entrou no quarto. Parecia triste. Antes que ela falasse, eu disse: — Mãe, estou melhor. Quero ir para a escola. A minha mãe, claro, ficou feliz. Aprontámo-nos e fomos. A caminho da escola, sentia a barriga às voltas, mas não me queixei. Quando cheguei à sala de aula, havia uma menina nova, a Anya. Fiquei surpreendida, e, ao mesmo tempo, aliviada, quando ela falou comigo na minha língua. — Parece-me que precisas de uma amiga — disse-me a Anya, estendendo-me a mão. — Estou bem, não te preocupes — respondi-lhe, quase sem olhar para ela. A menina ficou calada e deixou cair a mão devagarinho. Eu sabia que estava a ser como as pessoas que dizem que está tudo bem, mesmo quando não está, só que tinha decidido ser forte. Por isso... A Anya sentou-se ao pé de mim, mostrou-me um livro, que a professora estava a ler e foi-me explicando algumas coisas da aula. Primeiro, fingi não prestar atenção, depois, senti um grande alívio quando finalmente compreendi o que a professora queria dizer. O tempo passou tão depressa que nem dei por isso. Quando a minha mãe me foi buscar, perguntou-me como tinha corrido o dia. Encolhi os ombros e disse: — Foi diferente. Há uma menina nova na minha classe e ela fala a nossa língua, mãe! Ainda não gosto da escola, mas estou a tentar ser forte. Eu não disse à avó que sou forte? A minha mãe sorriu como já não acontecia há muito tempo. — Claro, Yana! Que bom! Os dias iam passando e já não me custava ir à escola. Com a ajuda da Anya, até conseguia responder a algumas perguntas da professora. Fiquei a saber que a Anya tinha vindo de barco, tal como eu. Tinha chegado há alguns meses, morava noutra cidade e estudava noutra escola. Os pais mudaram de casa e ela veio para a minha escola. Já falava um bocadinho a língua daqui.


Estou tão feliz! Até tirei do bolso o desenho amarrotado do arco-íris e pedi à minha mãe para passá-lo a ferro. Ela não disse nada. Só olhou para mim com os olhos a brilhar. Agora, a Anya é a minha melhor amiga. Também já fiz mais amigos, que querem saber muitas histórias sobre mim e, claro, sobre a Anya. Brincamos bastante. O pai e a mãe estão a trabalhar e parecem mais felizes. A mãe diz que um dia voltaremos à nossa terra. De vez em quando, fazemos biscoitos de gengibre e mel, como fazíamos quando eu era mais pequenina. Sinto a falta da minha avó. Muitas vezes, à noite, penso nos abraços dela e nos docinhos que fazia

especialmente para mim. Ainda choro quando me lembro disso. Também tenho saudades da minha casa, da minha escola antiga, dos meus primos e dos meus amigos. Mas agora já me sinto menos sozinha aqui. Estou a descobrir coisas novas e interessantes. A Anya está sempre pronta a ajudar-me. Já aprendi muitas palavras novas. Não está tudo bem. Ainda não, mas já consigo sorrir e, quando arrumo os livros na mochila, já não sinto o coração apertado. Um dia, quando chegar outra menina como eu, vou ajudá-la também.

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RESISTENTIA POETICA ANA PAULA TAVARES

Fotografia de Ozias Filho

DOS MANGUES E DAS MARÉS

Ana Paula Tavares - Doutorada em Antropologia da História pela Universidade Nova de Lisboa (2010), Mestre em Literatura Brasileira e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Lisboa (1996), Bacharel e Licenciada em História pela Universidade de Lisboa (1982). Investigadora Integrada do CLEPUL, Colaboradora do AHNA (Arquivo Histórico Nacional de Angola, Professora Convidada da Universidade Agostinho Neto (Luanda), Colaboradora da RDP-África, Escritora. São suas principais áreas de Investigação a História e a Literatura do Continente Africano e de Angola. Possui livros, capítulos de livros publicados. Tem várias publicações no domínio da ficção e poesia. Recebeu o Prémio Camões 2025.

“Na paisagem do rio difícil é saber onde começa o rio; onde a lama começa do rio; onde a terra começa da lama." João Cabral de Mello Netto, O Cão Sem Plumas

Primeira maré As raízes da terra aparecem Quando o mar levanta a saia da manhã E os bichos acordam Para os espaços da água e do capim Os homens estendem redes na solidão das dunas E olham o céu de azul e lume O segundo fogo no casario longe Desfaz-se em fumo e Alonga-se pelo lugar. Esse não é o mar primeiro Mas o que se afasta e mostra Bichos de casa alugada Que arrastam mil patas Na desordem do sal

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POETISA CONVIDADA A segunda hora da manhã É a da terra Com as suas raízes expostas E as folhas dobradas Para esconder mil seres pequenos De pouca espessura e Peso leve. Maré viva maré morta O sol e a lua E o sabor do mar

2ª maré Ainda quentes na areia. A meio da tarde

Os tempos estão cruzados

Quando a água volta

Com a eficácia das fibras

A floresta do mangue ensaia as vésperas

Há choro sangue e lágrimas

Com pequenas orações de chamar bichos

Falas para os peixes

E começo

E a desmesura do silêncio

Movimento perpétuo das águas

Para quem sofre

No vaivém do vento e da bruma

Os pássaros puseram o canto em espera

As flores floriram entre o meio da manhã e

Era a hora de ouvir a água

O meio da tarde

Maré morta

Recolhem-se agora

Histórias depositadas nos ninhos dos répteis.

Para engolir a nova vida A natureza da água

Uma tartaruga lenta e velha

Marcada em cada veio de cor

Deixou a praia prenhe de ovos e esperança

Como os passos de antigos escravos

Hão-de rebentar no sonho da nova maré.

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RESISTENTIA POETICA VEIAS DE LUZ

ANA PAULA MIRANDA

É então que me aconchego a mim, No meu canto aguardando o fim Do caminho que tracei no tempo. Do caos à harmonia com dor e alento.

Iuminada pelos teus braços, Envolvendo-me de pé ou de bruços Não me deixaste nem foste embora. Nas tuas asas e capa voo antes e agora.

Meu refúgio na doçura e adversidade, Amor limpo sem outra metade Colo quente onde aprendo a crescer. Sou tua, de mais ninguém posso ser.

És minha, código e sangue, Veia do meu azul resoluto e exangue. Corpo, carne e alma de bem querer. Mente voraz sedenta de viver.

Enquanto o mundo se desfaz lá fora, Em ti o silêncio denso se demora. Sei que a vida não pode esperar no gesto lento de me embalar.

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ARREPIO

ANABELA MENDES

Inclino a cabeça À luz rosada oblíqua sobre o tule Roçagando os lábios frios atolados

Santificado seja este dia Em que me deito nua sobre o lajedo Apartando as dores singelas Em voláteis queixumes Que se elevam Aglomerando gritos como estrelas No firmamento ripado do velho teto

A fulva pele serena Fendida por rubras raízes Descansa As fases lunares retornam Acariciando Breves O deserto de suor gotejando lento

Santificado seja o arrepio Desenfreando linhas ascendentes Do prazer último e vivo No côncavo da minha pele

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RESISTENTIA POETICA PERDIDO E ACHADO

ANDREIA ALBERNAZ

está um boné caído no átrio da biblioteca e há um andar grisalho que se afasta chamo-o e outra vez desculpe mantém o compasso vagaroso da solidão acelero para o alcançar o objecto amarfanhado estendido desculpe é alto, usa óculos as orelhas exageradas pelo tempo cores alegres a contrapor rugas é seu? olha-me com lentidão reagindo a algo maior, fora de cena um cumprimento breve então adeus talvez o ponto alto do nosso dia

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FAZES COLEÇÃO DE QUÊ

ANDREIA RODRIGUES

conheço uma menina que coleciona cheiros, guarda-os em frascos:

a

avó

a

que

o

bicicleta

ri

verão

nova

devagar

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RESISTENTIA POETICA DO AMOR REAL

ANDRIELE MENDONÇA

Amo-te, mas não como o vento leste, que voa de cá e sopra distante, mas amo, sim, como o efeito deste sobre um moinho, em giro constante.

Amo-te, mas não como raio prestes a rasgar, seco, o dia chuvoso, mas como o efeito que produz este sobre um menino assaz curioso.

Amo-te, não como as águas inquietas, mas antes, sim, como o efeito destas num belo povoado do caminho;

Onde vive e se assenta o menino, a fitar, com olhar puro e ladino, o fascinante girar do moinho.

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VIDA

CIDÁLIA SANTOS

A vida, viagem, rosa, ave descalça na erva molhada, chuva, criança viva.

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RESISTENTIA POETICA DIAS-MUDOS

DAVID VAIA

Lá longe, onde a manhã é soalheira, e os campos se mesclam com o horizonte, entre os baldios, num pequeno monte, levanta-se sozinha uma oliveira.

E ela é alta, soberba, mas corcunda, é uma silhueta delgada e ebânica, onde se exerce uma força tirânica, que a faz cativa da terra infecunda.

Talvez, lá do fundo, esteja a gritar, se esperneie freneticamente, mas nada se ouve com o distar.

Pudesse o mundo saber que existe, que uma folha é um sonho diferente, e cada ramo um pensamento triste…

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PEDIDO AO TEMPO

FILIPE ARAÚJO

Querido tempo, fica aí, parado, não te aproximes Pelo menos neste momento, para que o possa demoradamente apreciar Afinal, o instante é tão rápido, que tu, o tempo, como um sopro num castelo de cartas, o desfazes e apagas, e, nos interstícios da memória, não o consigo guardar Por isso, por uma vez (apenas uma, te peço), faz uma pausa, para um bocadinho, e deixa o relógio respirar

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RESISTENTIA POETICA DE MÃOS DADAS

GISELA PIRES

Fez-me companhia na estrada a flor que não foi plantada, a árvore que não se vestiu um e outro buraco que o meu corpo sentiu. Fez-me companhia na estrada o horizonte, a planície, o monte. Abri o vidro, senti o vento e a gota molhada. Tomei-lhe o gosto. Não tinha pressa, não disse nada. Não vi o sol, mas senti-me acompanhada.

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MANEIRAS DE MORRER

ISABEL PRAIA

Matar uma parte da alma de alguém é considerado assassinato? Se não é, talvez devesse ser. Nunca levei um tiro, felizmente; deve doer. Mas arrancarem-te uma parte da alma é doloroso. Andas no meio das pessoas como um fantasma penoso. Sentes o vazio no peito como um buraco na parede do teu quarto. Sentes o frio a entrar por ele. Tentas tapá-lo, mas nada é suficiente. Nada previne o gelo de inverno de passar e te congelar. Frio que te deixa doente. Debilitado. Tal como uma gripe, deixa-te os olhos a chorar e o nariz a pingar; dá-te febre, um calor de raiva; dá-te dores de cabeça, de tanto pensar; faz-te doer o peito, uma congestão que não te passa. E podes tomar os medicamentos que quiseres, distrações, que nada vai curar a puta da gripe que tens dentro do teu coração. Nada cura a desilusão. Nunca levei uma facada, mas já me cortaram as asas. Nunca me estrangularam, mas as memórias já me sufocaram. Nunca me afogaram, mas eu já me afoguei em ilusões. Nunca me atropelaram, mas já levei com camiões, carregados de emoções, que me passaram por cima. Nunca fui envenenada, mas já fui enganada. Já fui venerada e, a seguir, deixada. Já fui tudo e já fui nada. Mergulhei na dor, até sair do meu corpo… Fui para dentro do poço, sem corda para subir. Tive de encontrar motivos para sorrir, continuei a minha vida. Mas não te posso mentir: mesmo assim, estou perdida. Afinal, parece que a dor emocional pode ser tão intensa quanto a física. E agora, algumas vezes sinto alívio; outras, só sinto dor. Mas, sinta o que sentir, sempre me pergunto: para onde foi o nosso amor?

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RESISTENTIA POETICA ANTES DA PALAVRA

MARIA LEONILDA PEREIRA

Apoiaste-te em mim, discretamente. Tentei ler sinais. Sorriste.

— Tudo bem. Só preciso do teu braço.

Os sentidos em alerta — o corpo sabe antes da palavra.

Levaste a minha mão aos teus lábios. Calor. União.

Não se vê — sente quem está desperto, em sintonia.

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O MAR. O MAR. O MAR.

LUÍS

AGUIAR

Neste sítio, o amor singra perante o peso de um fruto de água. A escuridão atravessa a roupa molhada, incendiada pela luz e pela cidade que se alastra na sombra.

O mar. O mar. O mar.

Dentro do mar há: o incêndio da espuma, o suicídio dos barcos, os fantasmas de neblina que nos cercam, a cicatriz contida na água, o sol corrompido pela beleza do outono, a brisa que se espraia no voo das gaivotas, o sangue das ondas, cujo rumor é o de um barco, em repouso no peito raso de um novo oceano.

Fotografia de Luís Aguiar

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RESISTENTIA POETICA DO MEU TAMANHO

MARIA BRUNO ESTEVES

Quando fecho os olhos, vejo-a regar as flores na varanda da nossa casa. A água cai devagar, como se soubesse que também as raízes precisam de silêncio.

Quando fecho os olhos, ouço a sua voz na janela. Chama-me pelo nome e a tarde fica menos escura.

Ainda sinto as suas mãos a pentear o meu cabelo. E há nesse gesto uma paciência antiga, um modo de dizer amor sem gastar palavras.

Chega-me o cheiro do arroz-doce. Canela sobre o branco, leite a subir no lume, a casa inteira a baixar a voz.

Chamavam-me louca. Louca por querer ser inteira. Louca por não caber no tamanho que me davam.

Mas há palavras que voltam. Mas antes delas havia a água nas flores. A voz na janela. As mãos no meu cabelo. Canela sobre o branco.

E eu, enfim, do meu tamanho.

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ANÁLISE POÉTICA

MÁRIO RIBEIRO

Li e analisei-o Busquei interpretá-lo por toda a parte: as redondilhas, as métricas livremente regulares, as barbarás, os alexandrinos, dos agudos aos esdrúxulos. As palavras erguiam-se diante de mim, na sua irregularidade literário-matemática, descontroladas como casa do chão acabada de brotar. Nunca delas duvidei, Já tudo estava premeditado Criado antes do papel ter sido sequer rasurado, o ato nele imposto fora consumado. Nada mais de mim restou, somente o sinal da criação: Um verso que nada, Sem dono nem descanso. Livre para ser um inteiro, como que por extenso.

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RESISTENTIA POETICA ENTRE-LINHAS

a melodia é breve chega a ser semibreve

mas estás a salvo neste poema

cercado pelos meus versos

guarda-me também tu

nos espaços dos teus compassos

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MARTA LU DONATO


O ÚLTIMO POEMA

OLINDA GIL

O poema abaladiço não será antes da morte, mas aquele do último pesar pela vida humana em algoritmos. Depois faremos duelos com agulhas de tricot e crochet, encontros secretos de poetas resistentes, fanzines fotocopiadas, e bebidas fermentadas.

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RESISTENTIA POETICA O QUE FICA DA MÚSICA

RÚBEN

MARQUES

Abro a caixa resgatando um nome antigo Aprisionado nas engrenagens. O mecanismo move-se com uma fidelidade inútil, Pequenas rodas dentadas a cumprirem o dever De uma melodia ausente.

Essa ausência Instala-se na bailarina de piruetas olvidadas, Como uma palavra que falta Num verso que continua a fazer sentido. A música não desapareceu, Retirou-se para o intervalo entre o gesto e a espera, Esse lugar onde o som já não é necessário:

– A memória

Um quarto branco, uma tarde cálida E duas mãos já trémulas.

Um presente que não funciona, Mas serve perfeitamente no seu propósito.

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O RELÓGIO

SARA

DA COSTA SHEPPARD

Não me podes consertar o tempo a mim já não me diz nada

As badaladas das vidas de cada um que todas escutei…

Sabendo que apenas o tempo poderia curar

Por momentos os segundos abrandam

O meu passo incerto

sem saber o que dizer o momento passou

Fotografia de Sara da Costa Sheppard

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SALTANDO DO PARÊNTESIS O QUE MAIS PRECISO

E

ANA

CANDEIAS

screvo estas linhas, no meu mundo, a minha casa, a minha sala, a minha mesa. Este sentimento de posse e pertença dá-me conforto. Acrescido do sentimento de liberdade. Escrevo o que quero, como quero e porque quero. Sim, é uma liberdade momentânea, por isso mesmo parece gulodice, a ser saboreada em consciência e prazer. Uma presença enrolada sobre a mesa, à distância de um toque, fixa em mim um par de olhos grandes e amarelos, como a gema de um ovo caseiro, a sobressair num pelo cinzento. Vejo-os a piscar com suavidade e, de volta, também semicerro os meus. Conexão. Construída e acarinhada. Quando não existe, nada feito, é vazio que nos tolda ou azedume que nos desfaz. A conexão dá significado. E o significado dá relevância. Mas será que a conexão é o início de tudo? É possível haver conexão se não estiverem cumpridos aspetos elementares e pragmáticos, como a alimentação que nos nutre e acarinha, o sono que nos faz recuperar e progredir, a casa que nos alberga e onde podemos sentir que estamos seguros. Afinal, saco vazio não se aguenta em pé, dormir é meio sustento e onde há fogo aceso, há alma viva. A partir do elementar, avançamos para outras satisfações. Isto é muito bem observado no filme “O náufrago”, com o Tom Hanks, de quem tanto gosto e que raramente (ou nunca) me defrauda. Um filme antigo, mas que ilustra o nosso sentir através da personagem Chuck, que deu à costa numa ilha deserta e começou por organizar a sua sobrevivência. Construiu abrigo, arranjou comida, descansou para poder labutar. Depois, conectou-se ao Wilson, para preencher o vazio e a mudez da solidão. O Chuck teve dificuldades, sozinho numa ilha; nós também temos as nossas, nas condições dos dias atuais. A alimentação enfrenta os desafios da pobreza de dinheiro e de literacia, à mistura com o não-quero saber, quando morrer vou deitado, ainda a

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«O que me leva a adiantar que, por estes dias, com tanta e tão variada complicação, almejo sobretudo ter paz e sossego. Ora cá está uma redundância, mas há momentos em que também uma redundância se torna essencial.»

abundância da gula e das novidades da indústria e, é inevitável referir, as oscilações decorrentes da guerra e das desigualdades. O sono anda comprometido pelos écrans, os turnos de trabalho e as preocupações, as nossas, as da família, as do mundo, os vírus que atacam, os muros que se levantam, os estreitos que se bloqueiam, os direitos que arriscam regredir. A casa, que permite construir o lar, parece ser obra de muita sorte, entre a aventura da procura, qual caça ao tesouro, a coragem da partilha com estranhos, e o pesadelo da renda ou do empréstimo bancário, qualquer deles a sorver uma significativa fração dos ganhos mensais. Se, por uns instantes, tivermos a ousadia de pensar que o que é básico é simples, afinal, está visto não ser bem assim. Por nossa conta, que complicamos, ou por conta dos outros e dos contextos, que nos complicam, também.


O que me leva a adiantar que, por estes dias, com tanta e tão variada complicação, almejo sobretudo ter paz e sossego. Ora cá está uma redundância, mas há momentos em que também uma redundância se torna essencial. Paz e sossego, expressão que cada vez mais utilizo, exatamente por esta ordem e desta forma, as duas expressões juntas, inseparáveis. Deveria ser-lhes acoplado um hífen, neste caso dois, como se faz com apelidos que queremos obrigar ao uso conjunto. Para ter paz preciso de ter sossego. E se tenho sossego, acabo por ter paz. É um caso de pescadinha de rabo na boca. Paz na consciência e sossego na alma. Paz na consciência, pela perceção do dever superado ou mesmo que apenas cumprido (estou a divorciar-me da perfeição, já me atormentou por demasiados anos), na certeza de fazer o que sei e na medida do que posso, de entre os meus desalinhamentos, desafetos e irritações de estimação. Sossego na alma, se conseguir dar a mim própria esse bálsamo, o que é contrariado pela tendência em antecipar dores pessoais e viver as dores alheias; e se conseguir afastar-me ou tornar-me razoavelmente blindada em relação a pessoas que, de forma intencional ou não intencional (faço a gentileza de dar algum benefício da dúvida), tendem a inquietar os meus pensamentos e sentimentos ou (mais um benefício da dúvida e chamo a mim a responsabilidade), a quem eu reajo de forma visceral por eventual irritação de estimação. Passei do pragmático, os 3C’s — comida, cama e casa, ao contemplativo — paz e sossego, o que me conduz novamente à conexão, comigo própria e com os outros, familiares, amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos. Um sorriso. Um qualquer sinal de que sou avistada, quem sabe, escutada e reconhecida. Os olhos do amarelo de um ovo caseiro já se cerraram e ouço um ressonar, que me faz sorrir. A nova companhia no ninho, que fica grande, à medida que vai esvaziando. Pouco antes de me sentar a escrever estas palavras, vi uma publicação em rede social de uma mulher fantástica que abriga animais abandonados. Mostrava três gatinhos bebés encontrados dentro de um saco de plástico, com as asas atadas num nó, atirados para um contentor de lixo. Isto é um outro desnível! Humanidade, é absolutamente essencial!

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SALTANDO DO PARÊNTESIS POESIA PARA TOTÓS

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CLÁUDIA

PASSARINHO

urante demasiado tempo, a poesia foi remetida para uma prateleira elevada, reservada a eruditos e iniciados. Desenganem-se os mais resistentes. A lira não pede currículo nem manual de instruções. É uma arte tão imediata como uma canção que nos prende ou uma imagem que nos inquieta. É pintura de emoções, não requer tinta ou pincel. Num tempo de excesso, rapidez e distração, é precisamente disso que precisamos: de linguagem essencial. A musa depura, desacelera e devolve-nos a nós próprios. Existem muitos apreciadores de lirismo, mas este beneficiaria de maior divulgação, através de encontros literários, tertúlias ou atividades culturais diretamente ligadas ao nosso quotidiano. Alentada, considero os últimos anos propagadores da poesia, reconhecendo-se o poder de metamorfose que poderá ocasionar no leitor. O leitor pense na harmonia dos versos como uma depuração para chegarmos a nós. Uma espécie de tábua de salvação ou instrumento para nos relembrar o quão humanos somos. Porque não gostar de poesia, mesmo que não compreenda? A resposta é (aparentemente) simples: porque na base da compreensão encontra-se o sentimento. E todos sabemos que com sentimentos à parte a vida faz-se melhor. Porém, a poética ao contrário do romance, tem a vertente de agradar através da sonoridade, da apreensão da realidade por entre frases descomplexas ou de estímulos sensoriais. Vejamos poetas contemporâneos; a poeta Márcia leva-nos aos píncaros com voz melodiosa e canções viscerais; o mesmo com Carolina Deslandes. Assim sendo, se compreendemos a canção, porque nos remetemos a não interpretar a letra?

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«Porém, a poética ao contrário do romance, tem a vertente de agradar através da sonoridade, da apreensão da realidade por entre frases descomplexas ou de estímulos sensoriais.»

Em outros casos, Ana Luísa Amaral e Nuno Júdice, tornam a composição poética um desafio romanceado na sua leitura. Mesmo que o poema não identifique parte da nossa alma, mesmo que, temporariamente, não liberte o leitor, este pode ver o mundo pelos olhos do poeta. Ana Luísa Amaral defende que todo o poema é sobre aquele que sobre ele escreve. E é num universo tridimensional, composto de palavras, que milhares de poetas procuram anteceder o sentimento. Imprimindo um núcleo emocional na obra, num emaranhado de imagens que retratam a humanidade. Não necessita estudar literatura ou conhecer cânones para ter uma relação livre e despreocupada com a poesia, basta intuir as palavras. É um processo intrínseco; tal como sabemos que o fogo nos pode magoar ou se nos atirarmos de um penhasco morreremos. Em tempos de mudanças constantes, em que parece vivermos num planeta com rotação duplicada, usufruímos da vida pela metade, mantendo uma fugaz relação com o tempo.


Por isso, a poesia regressa sempre: quando tudo acelera, ela obriga-nos a ficar. No excesso do mundo, a composição devolve-nos ao essencial: nomear o que sentimos. Aprender a ler poemas é atravessar a distância entre aquilo que sabemos e aquilo que sentimos, mas que nem sempre conseguimos nomear. Defendo o seu poder catártico: a possibilidade de reconhecer num verso emoções que julgávamos exclusivamente nossas. Enquanto leitor, pode encontrar no lirismo o espelho inesperado, vendo as suas emoções reveladas e, por vezes, compreendidas. O poeta escreve a partir da experiência; o leitor confessa-se nela. Nesse encontro, ambos habitam a mesma esfera, a da compreensão.

Passemos a recitar poesia com a mesma frequência com que cantarolamos um anúncio televisivo. Ofereçamos poemas aos vizinhos, nos vidros dos carros, nas caixas do correio, nas portas dos prédios, nos elevadores. Tornar os versos uma forma de comunicar com o mundo e connosco depende apenas de nós. Deixo-lhe três considerações para incluir a poesia na vida: Ajuda a construir identidade. É preferível ler versos sem os compreender totalmente do que não os ler. Raramente há respostas certas ou erradas; há escuta, atenção e diálogo entre o eu e aquilo que se sente. «A poesia é para comer», dizia Natália Correia. E um poema por dia não sabe o leitor o bem que lhe fazia.

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SALTANDO DO PARÊNTESIS AQUILO QUE PERMANECE

FILOMENA FONSECA

ENSAIO POÉTICO “Agora, conforme entras, estás vazio.” Mooji, 2025

E

ntrar vazio é não trazer consigo aquilo que aprendeu a ser. É não se apoiar em nomes, em histórias, em formas já conhecidas de existir. Nesse estado, não há distância entre aquilo que é e aquilo que tu és, porque a separação não se realce sem a ideia que a cria. O que permanece não se apresenta, revela-se quando tudo o resto cessa. Não é visível no excesso, mas no intervalo. Não se afirma; deixa-se reconhecer. E é nesse espaço que se torna percetível a diferença subtil entre aquilo que és e aquilo que aprendeste a ser, uma diferença que não se explica, mas que se sente quando as estruturas colapsam. A pessoa constrói-se. Organiza-se em gestos, respostas, narrativas. É necessário para habitar o mundo, mas não a esgota. Porque há algo que não participa dessa construção, algo que não depende do tempo nem do olhar do outro. Não evolui, não melhora, não se transforma. Permanece. E, ainda assim, insiste em emergir. Num silêncio que interrompe, numa palavra que escapa, num verso que se impõe. A poesia nasce nesse limiar, não como escolha, mas como consequência de algo que já não pode ser contido. Escrevemos, talvez, para dar passagem a esse excesso. Não para construir sentido, mas para expor o que o antecede. Nesse gesto, algo se reconhece não como ideia, mas como presença. O que é autêntico não precisa de afirmação. Não se adapta para permanecer. Não depende. É. Por isso o que verdadeiramente importa não se altera com o tempo. Pode ser esquecido, encoberto, adiado, mas nunca modificado.

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«O que permanece não se apresenta, revela-se quando tudo o resto cessa. Não é visível no excesso, mas no intervalo. Não se afirma; deixa-se reconhecer. E é nesse espaço que se torna percetível a diferença subtil entre aquilo que és e aquilo que aprendeste a ser, uma diferença que não se explica, mas que se sente quando as estruturas colapsam.»


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SALTANDO DO PARÊNTESIS CRÓNICA CONTRA OS DIAS ÚTEIS

H

GABRIELA PACHECO

á coisas que não servem para nada. Dizê-lo é, muitas vezes, o preâmbulo de uma descoberta. O inútil, esse território desarrumado, indisciplinado, sem préstimo visível, carrega uma utilidade que escapa às métricas de desempenho com que o mundo moderno tenta justificar a pressa. “Menina, o prazo é de 10 dias úteis.” A expressão é um açoite. Dias úteis. A língua é sempre mais honesta do que quem a usa. Dias úteis transforma a vida num expediente, referindo-se aos dias em que o sistema contabiliza a nossa existência. O calendário torna-se então um livro de ponto metafísico, validando apenas o tempo que rende e exilando, para a periferia do supérfluo, todos os dias etiquetados como dispensáveis. Ao dizer que só alguns dias são úteis, decretamos que os restantes são inúteis: dias que não contam, dias de pouca valia, dias de importância menor, desconsiderando a construção de pensamento, o laboratório interior, o sustento da nossa engrenagem. Recordo, a filosofia não é improdutiva, apenas não produz mercadoria. Produz consciência. A neurociência deu nomes ao que já era filosoficamente sabido, avançando no conhecimento: a default mode network, a rede cerebral da introspeção, da imaginação, da memória autobiográfica, é a parte da mente que se ilumina quando deixamos de executar tarefas, consolidando quem somos. É também o território da criação, do incómodo, da pausa, da distração, da curiosidade, da pergunta solta. Nuccio Ordine, no livro A Utilidade do Inútil, relembra que o valor do saber gratuito, das artes, da literatura e da cultura reside justamente na ausência de uma utilidade imediata ou pragmática. Aquilo a que chamam de inútil, afinal, organiza-nos, desempenhando funções essenciais para o desenvolvimento humano, intelectual e ético.

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Por isso, a meu ver, dias úteis não é apenas uma expressão absurda (embaraçosa, até); é um sintoma. O inútil apresenta-se, assim, de certo modo, como um lugar de resistência. Não porque se oponha ao útil, mas porque o antecede. O inútil abre fendas na rigidez produtiva. Desvia-nos do trilho único. Devolve-nos ao que somos antes das metas, antes da eficácia, antes da aceleração. É no tempo que não produz que tudo se organiza: a sanidade, a criatividade, a coragem, a ética. Psicólogos e neurocientistas defendem cada vez mais o valor das pausas, do “ócio criativo”. António Damásio, neurocientista português de renome internacional, sublinha também que a consciência e a identidade florescem, precisamente, quando escapamos ao circuito fechado da produtividade. Enquanto diretor do Brain and Creativity Institute, Damásio demonstra que momentos de deriva mental, aqueles em que nos permitimos “não servir para nada”, são laboratórios invisíveis para o nosso pensamento. O útil pode construir máquinas, mas só o inútil inventa novas formas de sentir, pensar, existir. Talvez devêssemos admitir: o inútil é fértil. Num dos dias da minha inutilidade, li algures: “a prostituição da sapiência”. Ri-me. Tendo a considerar a gargalhada espontânea como a revolução silenciosa dos inúteis. Foi precisamente nesse dia, não noutro, que passei a pensar melhor.

Nota adicional: Este texto foi escrito num domingo, neste meu jardim mal cuidado, entre um bocejo e um devaneio, onde brotam ervas loucas e formigas sem método. Há dias que servem para tudo.


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SALTANDO DO PARÊNTESIS ESCREVER OU NÃO? EIS A MINHA VERSÃO!

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INÊS PINTO

ncontro-me na encruzilhada de terça-feira à noite! A vida faz-nos tropeçar em caminhos tão divertidos que me recuso a rir. Não porque o evento em si não fosse cómico, mas porque se trata da minha escrita. E com esta há uma parcimónia que exijo presente em tudo o que escrevo. Ou alguém ma impôs? Queres dizer simplicidade ou sobriedade na tua escrita? Segundo as notícias que consomes, a criatividade vive algemada à disposição de cada um e não tanto pelas convenções literárias que decides verter para o que escreves. Honestidade! Tu consideras natural a escassez de inspiração em dias emprenhados de ruído. Semicerro os olhos e não descortino de onde veio este… pensamento, talvez? Pergunto: quem está aí? Silêncio. Insisto: podes revelar-te; afinal sou criativa e dar-te-ei algum préstimo. Não faças cócegas ao ego. Olha que ele é escorregadio e, quando te apercebes, infiltrou-se na tua vida como areia da praia entre os dedos dos pés. É terça-feira, por favor. Tens mais é que agarrar as rédeas da luz das letras. Desengaiola-te das regras e voa somente pelas palavras que te chegam. Sem tempo para analisar que voz é esta, atento no desafio desta noite. Esfrego as mãos e respiro três vezes, esforço último de enfrentar o medo da (des) inspiração. Texto com trezentas palavras; cinco letras para os vocábulos que iniciam os parágrafos; deve ser coerente… Descanso a testa na palma da mão. Não tens febre, posso garantir. Restam-te mil e oitocentos segundos para desnudares a alma em palavras. Descomplicando, escreve o básico em trinta minutos com palavras a começar com as tais letras. Ah! Países, cidades, objetos, plantas e animais. Não confundas com o Jogo do Stop. Apetece-me chorar. De onde vem este azucrino? Estará este ruído a silenciar algo em mim, obrigan-

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«Posso começar com originalidade! Um adjetivo. Deixa-me continuar. Galopante, escrevo eu. Esta febre literária de terças à noite deixa-me ciosa de personagens, intrigas, mórbidos desejos em cenários improváveis.»

do-me a despertar para o fundamental? Escrever é transparência oculta em palavras, encriptada por emoções… Aviso-te que já passaram cinco minutos e tu a perderes linhas de uma história, porque tens receio do falhanço. Cala-te! Vou começar. Galopante. Isso não é um país! Posso começar com originalidade! Um adjetivo. Deixa-me continuar. Galopante, escrevo eu. Esta febre literária de terças à noite deixa-me ciosa de personagens, intrigas, mórbidos desejos em cenários improváveis. O lápis desassossega-se e os meus dedos seguram o ritmo. Escreve-te, palavra primeira! Gales. Gales ou galos? Não! É em Gales que as personagens se encontram. E que história será essa, Inês? Finjo que não ouvi. Escrevinho palavras livres, frases ao vento, parágrafos desalinhados…


Vá, concentra-te! Já tens o país de Gales. Define as personagens e mergulha nesse mundo da escrita que tanto temes. Llanelli! Defino a cidade onde vivem as personagens. A inspiração toca-me à porta! Llanelli? Isso não será em Itália? Atenta às incongruências. A Claúdia vai rever o texto, o David, a Paula, algumas besties…. E recorda-te da tua responsabilidade na Palavrar. Llanelli? Sim, uma cidade gigante e industrial em Gales. É aqui que as duas personagens se apaixonam… Para, Inês! Olha os lugares-comuns! Duas personagens que se apaixonam? Isso é criativo? Depende da perspetiva, respondo para mim. Estas personagens apaixonam-se pelo sonho de criar um mundo alternativo onde só precisas de saber viajar. Não me parece uma ideia genial! Inês, estarás a vivenciar algum bloqueio criativo? Talvez a temida página em branco? Vou ajudar-te. Muda de foco. Agora precisas de um objeto com uma nova letra. E sabes qual! Papel! Uauuu! Que notícia extraterrestre! Paper. Papier! Sou Velha do Restelo no que diz respeito às modernices com botões, fios, bluetooth e internet instável. Vês? Obrigaste-me a usar mais um adjetivo. Instável estou a ficar com as tuas intromissões. Pretendo somente deixar a escrita dançar, do coração

para a ponta dos dedos, sentir este tango no calo do dedo médio que se amarfanha na dureza do lápis. Breaking news! Tens um calo no dedo por causa da escrita? Só mesmo tu! Atualmente, com a inteligência artificial… Sshhhh! O tempo encurta-se e não tenho a história. Bem, duas personagens que criam um mundo alternativo onde uma planta, quando macerada e diluída em água com gás, se transforma no soro da verdade. Papoila! Usa a papoila, Inês. Corres o risco de algum editor não aceitar o teu draft por conteúdo impróprio, mas abre a possibilidade da edição de autora (aqui as repetições não serão entraves!). Em última hipótese, as tuas palavras ficarão sepultadas numa gaveta, que só voltas a encontrar quando mudares de casa. Imagino-te a gritar eureka ao reveres os papéis e dizeres, de ti para ti, o meu primeiro draft. Ah, ah! Percebes que essas folhas buriladas em minúsculas partículas nada provam da tua escrita. Traças, apetece-te apontar, sabotador interno. Sei quem és! Castrador, sempre pronto a desarmar qualquer vontade. Provarás do soro da verdade. Glub! Glub! Cof! Cof! Engole; se lutas, afogo-te nele! Julgas, reprimes, criticas, comparas. Pouco me importa a enumeração. Acelera o ritmo, sabes? Só dás silêncio? Usa o altifalante; não sejas medroso! Qual é a verdade? A que sempre será tua. ESCREVE SIMPLESMENTE!

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SALTANDO DO PARÊNTESIS FUNDAMENTAL É MESMO O AMOR

LUCIANA MORAIS

“O amor é a única flor que brota e cresce sem a ajuda das estações” Khalil Gibran

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unto à expansão de energia que deu origem ao Universo, expandia-se também a invisível força do deslumbramento. Da matéria bruta a arrefecer às estrelas que incandescem, o poder sublime e avassalador passeou pela cosmologia e sorriu para o seu conhecimento, e, sendo tão subtil, brincou de cosmomagia, a mesma arte que parece ter feito Rumi inspirar: “Que a beleza do que amas, seja o que fazes.” A sua subjetividade abraçou o essencial. A poesia será bálsamo para a aridez da vida, para as tormentas desenfreadas e a crueldade da dominação — soprou a voz mágica, que presenciou todo o espetáculo. A poesia é partícula fundamental desde o início do espaço-tempo, e, como essencial, decidiu que o amor seria a sua ubiquidade. O amor pulsaria desde as raízes da terra até às plantas, até ao bater do tambor no peito da humanidade. Desde o céu colorido até aos rios e mares. Estaria em harmonia com o todo. Mais tarde, Tagore escreveria: o “amor que penetre até ao centro da vida, e dali se estenda como seiva invisível até aos ramos da árvore da existência e faça nascer as flores e os frutos”. Muitos outros sentimentos, virtudes e mesmo a ética e a moral desejaram ser parte da essência, mas a poesia foi docemente inalterável: o amor é imprescindível. Fiquem tranquilos, onde ele estiver, estaremos todos bem. A poesia sopraria a Sri Ram para que a humanidade compreendesse ainda melhor: “Deves perder o teu coração e buscá-lo em todos os lugares. Quando o encontrares, o descobrirás como o coração de todas as coisas.” Ao procurar esse coração, cada ser humano descobre a unicidade com o Universo, reconhecendo-se no outro e no mundo ao redor. É o amor em ação, a poesia a polinizar.

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«Muitos outros sentimentos, virtudes e mesmo a ética e a moral desejaram ser parte da essência, mas a poesia foi docemente inalterável: o amor é imprescindível. Fiquem tranquilos, onde ele estiver, estaremos todos bem. »

Numa visão poética da cosmomagia, a compreensão do Universo é como um grande jardim, que tem na sua estrutura a poesia do magnânimo. Tudo o que ele toca é surpreendido com generosidade e nobreza, leveza e compaixão. Está no ADN de tudo o que existe. Rumi soube explicar facilmente: “O Universo apenas finge que é feito de matéria. Secretamente, é feito de amor”.


Para acompanhar os mais de 13 mil milhões de anos — a criar, manter, morrer, renascer e novamente adaptar —, é preciso base sólida: forte e delicada, intensa e sensível. A poesia que viaja nessa evolução é indelével. A inteligência do Universo consiste em se lembrar, quando o planeta entra em guerra, polariza, segrega, discrimina, marginaliza e exclui, que a essência humana não é atroz. É amorosa. Sri Sri

Ravi Shankar conclui: “Amor é existência, é a própria essência da existência, é a substância que mantém o Universo unido”. E a humanidade segue a respirar e a sentir — essencial. Precisa olhar para as estrelas e (re)conectar-se com a poesia primordial: os sonhos movem a vida. “Fundamental é mesmo o amor”, cantou um dia Tom Jobim.

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SALTANDO DO PARÊNTESIS O QUE RESISTE - RITMO NOLT

MENA GALVÃO

“Envelhecer é isto: ir ficando.” Vergílio Ferreira

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a passagem do ano, enquanto uns contam segundos, outros fazem pedidos em silêncio. O mais repetido é sempre o mesmo: saúde. De facto, sem saúde nada se faz. Só quem nunca esteve doente é que não lhe sabe dar valor. Há algo de frágil e precioso nela, tão discreto que só percebemos quando falta. É a base de tudo o que realmente importa. Estamos de acordo em que a saúde é essencial. Com o avançar da idade, é o bem que mais prevalece. Não por medo, mas por reconhecimento. O corpo começa a falar numa língua mais lenta, mais exigente, e obriga-nos a escutar o que antes ignorávamos. Contudo, há quem se entregue ao imobilismo, à inatividade, e não viva em pleno. Como se envelhecer fosse um recuo inevitável. Uma desistência disfarçada. É contra essa desistência silenciosa que quero reagir. Pretendo contrariar essa inércia. Quero aderir ao NOLT (New Older Living Trend), uma nova forma de viver o envelhecimento de modo ativo. Parar é morrer, como diz o ditado. E parar por dentro é desaparecer antes do tempo. Gosto muito de ler, escrever, fazer tricô e croché, mas também adoro viajar. Há algo de profundamente vital no movimento, mesmo quando é pequeno. Uma viagem pode ser a um país distante ou a uma página bem escrita. Aprender, observar, experimentar — é assim que me sinto viva. Sou curiosa por natureza. Sempre disse que se me pagassem não trabalhava, só estudava. Por fascínio. Espero ser eterna estudante. Sempre haverá algo que desconheço, uma nuance, uma história que me desafia e que me faz querer voltar a aprender. NOLT é ficar depois de tudo.

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«O que é fundamental não cresce com o ruído. Afunda-se, cria raiz e, sem aviso, sustém-nos. Segura-nos quando tudo o mais parece escorregar. Dá-nos chão. Um chão que não depende do exterior, não se altera com o tempo ou com o julgamento alheio.»

Não o que resta, mas o que resiste. É permanecer quando o ruído abranda e as expectativas dos outros já não têm peso. É quando já não há pressa em ser visto, nem vontade de caber nos outros. Há uma libertação silenciosa nisso, impercetível. Como desapertar roupa demasiado justa. É descobrir que os gestos simples têm mais significado do que qualquer gesto grandioso. Ler uma página num livro antigo ou sentir o vento numa rua vazia pode ser mais intenso do que qualquer viagem apressada. Quando o mundo perde volume, sobra apenas o que pulsa. Como um calor mínimo que persiste, mesmo quando tudo arrefece. É uma luz discreta que não se vê de fora, mas ilumina tudo por dentro. Como a lembrança de um abraço que não se repetirá, ou o sabor de uma fruta no pico da sua estação, ou a maneira como a chuva toca as folhas sem pedir nada.


Detalhes silenciosos, porém inteiros. NOLT é não disputar lugar. É não adornar o silêncio. É aceitar verdades que só se dizem por dentro. Há muitas delas. Mais do que aquelas que ousámos pronunciar ao longo da vida. Verdades que amadurecem devagar, como frutos tardios, e que só fazem sentido quando já não há necessidade de as explicar. Há uma espécie de claridade nisso — não a que ilumina, mas a que acalma. Não ofusca, não revela tudo de uma vez. Antes, envolve como a luz de fim de tarde, que não mostra mais, mas mostra melhor. Como se o essencial deixasse de ser procura. Passasse a ser permanência. Já não se trata de encontrar. De reconhecer. E, nessa perceção, o mundo torna-se mais leve. Cada gesto, cada memória, cada silêncio tem um peso que não se mede, mas que sustenta. O que é fundamental não cresce com o ruído. Afunda-se, cria raiz e, sem aviso, sustém-nos. Segura-nos quando tudo o mais parece escorregar. Dá-nos chão. Um chão que não depende do exterior, não se altera com o tempo ou com o julgamento alheio. Um chão que está dentro de nós, feito de pequenas certezas, de hábitos simples, de afeição silenciosa, de histórias que aprendemos a guardar sem pronunciar. Talvez seja isso que muda verdadeiramente com o tempo: deixamos de procurar fora aquilo que sempre pediu silêncio para existir dentro. Sempre esteve ali, mas que só podemos ver quando paramos. Quando escutamos. Quando deixamos de correr atrás de tudo e começamos a permanecer.

NOLT é também reconciliar-se com o ritmo próprio. Não o que nos ensinaram, nem o que nos exigiram, mas o que finalmente conseguimos escutar. Há um tempo para correr e outro para permanecer. E permanecer não é estagnar — é aprofundar. É deixar que a vida se revele nos gestos pequenos e aparentemente insignificantes. Como cozinhar uma refeição simples, mas com atenção. Como percorrer uma rua conhecida e notar um detalhe nunca visto. É olhar para trás sem peso. Não porque tudo tenha sido leve, mas porque já não é preciso carregar. A memória deixa de ser uma prisão e passa a ser um lugar onde se entra descalço. Onde podemos revisitar antigos fracassos e alegrias com neutralidade, sem reclamar nem enaltecer. Apenas reconhecendo que fizeram de nós quem somos. Talvez NOLT seja isto: um estado onde nada precisa de provar o seu valor. Onde o gesto mais simples contém o suficiente. Onde um dia comum não pede justificações para ser pleno. Onde a ausência de pressa não é falta, mas escolha. Onde aprender, ler, viajar ou tricotar não são ocupações, mas sinais de existência. Não precisar de mais nada para continuar. E, ainda assim, ficar. Como quem guarda, dentro de si, uma estação que não passa, ou, como diz Saramago, no Poema sobre a Velhice:” não são os números que definem a minha vida,/…/mas sim o que o meu coração sente/ e o que a minha mente dita.”

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DA PALAVRA À FORÇA O QUE CABE NA MALA?

U

ANALITA

ALVES DOS SANTOS

ma mudança de casa obriga a decidir o que cabe nas caixas. A mala só leva o que couber dentro. Nesses momentos, raros e desconfortáveis, algo ou alguém nos obriga a escolher e o essencial revela-se sem disfarce. Antoine de Saint-Exupéry escreveu, pela voz da raposa de O Principezinho, que o essencial é invisível aos olhos. A frase tornou-se tão repetida que já poucos lhe sentem a força original. Na história, é o tempo dedicado à rosa que a torna diferente de todas as outras rosas do mundo. O essencial nasce desse vínculo, do tempo investido a olhar, a regar, a protegê-la do vento. Passamos grande parte da vida a acumular. Aceitamos compromissos por educação. Guardamos objetos por hábito, sem lhes perguntarmos se ainda fazem falta. As opiniões chegam-nos formadas, sem que as examinemos antes de as repetir. Nada disto pede para ser reconhecido enquanto a rotina continua a funcionar. O problema surge quando a rotina para, por doença ou mudança de vida. Percebemos então que grande parte do que carregávamos teve valor um dia, e foi perdendo sentido sem que déssemos por isso. Repare como funciona a memória: de uma viagem longa, o que fica não costuma ser o roteiro cumprido. Fica o cheiro do pão numa padaria de rua estreita, ou uma frase dita por um estranho, sem qualquer intenção de ser lembrada, e recordada anos depois. A escrita ensina isto com uma clareza que poucas outras artes oferecem. O escritor experiente sabe que uma cena ganha força quando se retira o que sobra. Corta-se o adjetivo desnecessário, sai também a explicação a mais, a frase dita de outra forma três parágrafos antes. O texto fica magro e mais capaz de segurar quem o lê. Raymond Carver defendia a precisão acima da abundância, e construiu sobre essa convicção toda uma obra.

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«Vale a pena fazer o exercício que se faz com um manuscrito antes de o entregar a um editor: reler cada parte da rotina e perguntar se ainda serve para alguma coisa ou está apenas ali.»

Ernest Hemingway chamava-lhe teoria do iceberg: aquilo que o escritor omite, desde que o conheça bem, continua a alicerçar o texto por baixo da superfície visível. O mesmo princípio funciona fora das páginas. Uma vida também ganha quando se retira o supérfluo. Reconhecer o que fica quando o resto cai conta mais do que reduzir por reduzir. Fica uma pessoa a quem continuamos a telefonar sem motivo aparente. Fica também a mesa onde, apesar de tudo, ainda se janta em família. Vale a pena fazer o exercício que se faz com um manuscrito antes de o entregar a um editor: reler cada parte da rotina e perguntar se ainda serve para alguma coisa ou está apenas ali. O armário cheio de roupa que não se veste? A agenda ocupada por reuniões que ninguém lembraria se deixassem de existir? No fim, fecha-se a mala e percebe-se que ainda sobra espaço.


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GAVETA CRIATIVA ALQUIMIA EFABULADORA

D

DAVID ROQUE

epois de constatarmos os limites e equívocos a que a escrita do EU se presta, podemos considerar que a ficção deve descolar-se do jornalismo e da biografia para assumir foros de maioridade, através da efabulação. A efabulação, naturalmente, tem diversos níveis, desde os mais subtis até aos completamente extravagantes. Portanto, quando remetemos a ficção para a efabulação, não significa que a escrita tenha de atingir píncaros de fantasia ou delírio, apenas indica que para compreender a escrita como arte, ela deve ultrapassar a mera descrição do real, pelo menos uma descrição que consideraríamos direta e material. Se imaginarmos uma folha dividida ao meio por uma linha, e num lado estiver o real e no outro o irreal, consideremos que essa linha não é um muro de betão, mas antes uma rede de malha larga, que permite passagem de ideias de um lado para o outro, do real para o irreal e vice-versa. O escritor é o Humpty Dumpty equilibrista, que oscila para um lado e para o outro. Se cai mais para o irreal, temos o conto tradicional ou a lenda, ou no espectro atual, a fantasia, a ficção-científica e outras modalidades. Se desliza para o real, surge-nos a novela e o romance. O conto tradicional é do tempo sem tempo e um lugar que não é aqui nem ali, para além das personagens e criaturas que podem o impossível. Podemos situar Tolkien e Joanne Kathleen Rowling neste campo, considerando que ambos utilizam as suas premissas e as elevam a um estágio de complexidade novelística. No plano seguinte, mais próximo do real, temos a lenda, que é uma explicação fantasiosa para factos históricos. Existe lugar, tempo e pessoas concretas, mas funde-se neles o maravilhoso, para dar brilho à história, como no caso da vida dos santos. Uma mistura equilibrada de real com irreal. Por fim, entremos na vida mais concreta. A novela, ficção de porte, que se concentra sobre a experiência

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humana, relacional ou outra. A verosimilhança acresce muito em relação aos modelos anteriores, porque se propõe um cenário de realidade, uma possibilidade de ser que qualquer leitor aceitará como cingido ao campo de experiência humana. O mesmo acontece com o romance, onde o autor amplifica ainda mais a sensação de verdade através da explosão de cenas da vida, personagens secundárias, quadros diversos, tramas complexas, inserções históricas e filosóficas. O que a ficção de fantasia tem em comum com aquela que adere completamente à realidade é a mesma necessidade de efabulação, que se distingue apenas pela quantidade, ou seja, em grau. O que separa Eça de Queirós de Tolkien é somente o grau de efabulação que cada um se permite. Também Eça sabe que está a realizar um constructo que não é representação exata do mundo. Além disso, somos obrigados a reconhecer que a fábula, a lenda, o conto e o mito transportam uma bagagem simbólica que é figurativa da realidade, operando por camadas indiretas de interpretação. Em suma, a criatividade (sinónimo de criação de mundo) é a trave-mestra da escrita enquanto arte, demarcando-se com liberdade absoluta do jornalismo ou do registo científico.

«Se imaginarmos uma folha dividida ao meio por uma linha, e num lado estiver o real e no outro o irreal»


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CRÓNICA DO VIAJANTE AS PORTAS DA LITERATURA

V

JOÃO

VENTURA

olto a abrir as portas d' Os Quatro Quartos do artista dinamarquês Vilhelm Hammershøi, que Enrique Vila-Matas escolheu para a capa de Montevideu, e, ao cruzar-lhes o limiar, confirmo uma vez mais que a verdadeira literatura é uma arte de abrir portas. Não apenas portas que conduzem de um quarto para outro, mas portas que dão para mundos, épocas e geografias, permitindo viajar sem sair do quarto. Cada livro é uma soleira; cada página, um limiar; cada frase, uma chave que abre uma divisão secreta da realidade. De porta em porta, percorro os sucessivos quartos desta habitação de papel e, como Pessoa, vou perdendo cidades para ser outro constantemente: Montevideu, Bogotá, Paris… A primeira porta que franqueio dá para Santa Maria, a cidade ficcional, decadente e prostibularia - inventada pelo escritor uruguaio Juan Carlos Onetti, no romance A Vida Breve -, onde numa noite em que, tendo eu chegado no “vapor da noite” vindo de Buenos Aires, enquanto caminhava vagarosamente no Boulevard Sarandi, me pareceu ver o poeta maldito Eugène Ducasse, transformado no Conde de Lautréamont, declamando Os Cantos de Maldoror. Outra porta dá para Bogotá, onde, ao contrário de Vila-Matas, que uma vez lá foi e não ousou abrir a porta do quarto temendo sem ser apanhado por uma bala perdida disparada por um qualquer narco, me afoitei fora de portas do hotel e, guiado por Juan Gabriel Vasquez, andei à deriva pelo bairro da Candelária, “um lugar fora do tempo” cujas portas abriam para a vida um século antes Outra porta, ainda, dá para Paris, onde, num entardecer em que eu andava em flânerie levado pelo “vento do acaso”, avistei Rimbaud, de pé, à entrada da Ponts des Arts, com ar de estar fora deste mundo, contemplando ensimesmado a Ile de la

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«Também eu, agora, pareço estar fora deste mundo, de tal maneira que transponho uma outra porta entreaberta por Hammershøi no seu quarto de Copenhaga, e me vejo ainda mais fora deste mundo»

Cité, na esperança de ver passar por ali, anos mais tarde, a Maga ao encontro de Cortázar. Também eu, agora, pareço estar fora deste mundo, de tal maneira que transponho uma outra porta entreaberta por Hammershøi no seu quarto de Copenhaga, e me vejo ainda mais fora deste mundo, na Perspectiva Nevski, a uns quantos metros da casa da família Nabokov, em São Petersburgo, que revejo descrita por André Biely, no seu romance publicado em 1916, Petersburgo, cuja avenida infernal atravesso para regressar uma página adiante à realidade desta manhã de papel.


Vilhelm Hammershøi - Interior from the Home of the Artist. Finnish National Gallery Fotografia de João Ventura

E a realidade é tanta, aqui, agora, palpitando no “azul eléctrico” do monitor do meu computador, que, tendo eu há instantes afixado uma nota breve na minha página de Facebook, recebi no instante seguinte uma mensagem de Aleksandra Zińczuk, uma escritora e ativista polaca que um dia me abriu as portas de Lublin, na Polónia, pedindo-me autorização para traduzi-la, a fim de a publicar numa revista polaca. Respondi-lhe que o que gostaria mesmo seria abrir em Drohobycz, nos confins da Galícia polaca, hoje na Ucrânia, todas as portas d' As Lojas de Canela, do “dandy metafísico” Bruno Schulz, como lhe chamou o escritor Witold Gombrowicz, autor de fulgurantes “retratos de momento” escritos durante o seu exílio argentino. Isto porque as portas de Schulz não

conduzem às lojas de canela: abrem-se para a infância, para a memória, para o sonho e para a metamorfose incessante das coisas, permanecendo abertas numa hora indefinida da noite, quando o quotidiano começa a dissolver-se e o maravilhoso se torna a mais concreta das realidades. Terminada esta crónica viageira sem sair do meu quarto, à maneira de Xavier de Maistre, abro a porta da nuvem onde guardo os meus escritos shandianos e envio à Aleksandra uma crónica schulziana, na esperança de que, nesta época de barbárie russa sobre a Ucrânia, as lojas de canela continuem de portas abertas, não apenas como evocação do escritor assassinado pela violência nazi, mas como sinal de que a literatura permanece um dos últimos redutos onde nenhuma guerra consegue fechar as portas.

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LUSOFONIAS SAMIR E AISHA

OSWALDO MARTINS

as rosas árabes os corpos à fragrância doce as narinas fremem

ali estão os dois

ora descansam ora arfam sob a tensão afrodisíaca das ruínas nos escombros dos homens buscam ainda

ali os dois

no extremo instante do grito uma rosa fura a parede e os despedaça

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PALAVRA DE LEITOR NO BRASIL NÃO HÁ LEÕES

L

PAULA CAMPOS

i este livro como quem, aprisionado num pesadelo, sufoca e não encontra saída de um quarto mergulhado no breu. Comecemos pelo título, que parece abrir uma porta de luz, exotismo e imaginação infantil, mas já enuncia um desmentido, uma metáfora de ausência — «não». Depressa percebemos que, afinal, a porta abre o espaço escuro de uma infância marcada pela violência, tanto no quotidiano doméstico como no exterior. O acontecimento narrativo que inicia o livro é a queda de um elevador, na qual morrem os avós do narrador. Este é o grande momento de desestruturação do resto da família. É a partir dele que, quinze anos depois, o narrador nos revela fragmentos que na altura não compreendia, porque não conhecia linguagem para nomear o terror. Aliás, um dos aspetos que diferencia este livro de outros do mesmo género é a dificuldade da revelação, tanto na infância como no presente. Os vestígios não surgem com linearidade, antes aos solavancos, em detalhes aparentemente insignificantes que ganham peso na idade adulta. Há quase um jogo de toca-e-foge: algumas frases parecem prestes a atingir o núcleo da brutalidade, mas recuam logo a seguir, como se a palavra carregasse o mesmo medo do narrador. Poderemos ver essa oscilação como autenticidade emocional, já que o protagonista fala a partir das suas ruínas e não do seu domínio do passado. Apesar disso, o romance não transforma o sofrimento em espetáculo. Não há excesso nem explicação psicológica permanente. A agressão — tanto a física como a emocional — aparece muitas vezes nos gestos periféricos, nas atmosferas, no que não chega a ser dito. Antes de compreender o dano, uma criança sente-o, teme-o. Nem sempre o expressa. Ainda assim, o autor deixa-nos respirar um pouco ao introduzir presenças luminosas que, mesmo por

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pouco tempo, abrem espaço para a ternura e uma alegria refletida na capa, que, enquanto leitores, desejamos eterna para este menino. «E pela minha lei / A gente era obrigado a ser feliz.», como canta Chico Buarque na canção que o narrador aprendeu com um desses seres-bálsamo. Há livros que acontecem na linguagem; outros, na ação. Este inscreve-se em ambos. A voz é um fator importantíssimo da memória. É a falta dela que inibe o narrador de nomear a ameaça na infância, é o seu domínio que lhe permite compreender o passado na vida adulta. Há necessidade de dizer o que aconteceu, sem que, no entanto, o livro se transforme numa abstração literária elegante. Dar nome é retirar o acontecimento do domínio nebuloso do medo. O autor escreve com uma contenção pouco comum. É certo que, por vezes, tal neutraliza o impacto dramático. Nem sempre chegamos à verdade completa, o que pode ser pouco eficaz para um leitor apressado. No entanto, frequentemente, o texto aproxima-se do lirismo, mas não chega ao adorno vago. Apesar do ritmo e da densidade imagética, das escolhas sintáticas, da consciência sonora da frase — «(não, não é assim que eu te quero narrar. conta-me antes tu o que quiseres, parte de algum ponto para que te dê voz. ah, como esta hora é velha)» —, o autor não parece querer sobrepor a escrita àquilo que narra. A estrutura da narrativa em fragmentos espelha a desordem da recordação — «Há pouco de tangível que reste, hoje, desses meus dez anos.» Há imagens repetidas obsessivamente; outras, incompletas. Cabe ao leitor participar do esforço de reconstrução. É muito difícil não nos sentirmos parte da experiência do narrador, mesmo sem a partilhar diretamente. Aqui, como em tantas vidas reais, a infância não é inocente. A criança vive num estado permanente de vigilância emocional: a crueldade dos colegas,


o desprezo da avó, as insinuações sexuais do tio, o abandono da mãe. Um menino que é diferente por ser sensível e ver beleza em tudo na vida. Crescer não significa perder a inocência, mas descobrir a extensão do trauma. Por isso, o livro se aproxima de uma tradição contemporânea que mostra a família como um espaço ambíguo, ao contrário do expectável lugar de proteção. O romance de Álvaro Curia cruza três tradições diferentes: a literatura da infância ferida, a escrita do passado traumático e a narrativa lírica contemporânea centrada na intimidade. No Brasil não há leões é um romance literariamente ambicioso sem sacrificar a densidade emocional. A sua complexidade nasce da coragem de se manter dentro da ambiguidade afetiva. Em Álvaro Curia cruzam-se a memória ferida de Annie Ernaux, a infância ameaçada de Dulce Maria Cardoso e a intensidade lírica de Valter Hugo Mãe. No entanto, o autor encontra uma voz própria na contenção e na maneira como transforma a ferida em expressão verbal. Depois da leitura, continuamos, tal como o narrador, sem encontrar a saída do quarto mergulhado no breu. Permanece a sensação de que certas dores não desaparecem quando são compreendidas, apenas mudam de forma. Nenhuma narrativa restitui aquilo que foi perdido. Ainda assim, há dores que se escrevem.

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BESTIÁRIO ARDILOSO O CAVALEIRO VERDE

A

DAVID ROQUE

nieska ausente três dias em reportagem no exterior. Acorri sem demora à convocação dos Altos, aceitando como verdadeira a missiva recebida. Sagres era o local demandado. Parti de Lisboa e logo tomei a estrada nacional, para evitar a monotonia da autoestrada. Atravessei a Ponte 25 de Abril e conduzi pela Quinta do Conde até Setúbal e, depois, por ali abaixo. Por alturas do Zambujal, a seguir a Setúbal, admirei um cavaleiro trajado à portuguesa, montado em corcel lustroso, no campo sobranceiro à estrada. O homem vestia um conjunto verde, do chapéu à calça, com jaqueta de corte exato. Rodeava-o o que parecia ser um grupo de cães da Serra da Estrela, facto estranho naquele lugar. Também pressenti um olhar demorado do indivíduo na minha direção. Passada Grândola, cumpri a tradição de parar em Canal Caveira, para almoçar num restaurante da beira da estrada. Uma rajada de ar poeirento e quente acolheu-me quando saí do carro, lembrando-me que pisara no Alentejo estival. Sempre me fascinara o nome do local e, apesar da curiosidade jornalística, nunca quis desmistificar tal denominação. Prefiro evocações de pirataria e novelas góticas. Sentei-me junto à janela e o coração oscilou num baque. Do outro lado da estrada, o mesmo cavaleiro de verde, com o cavalo lustroso e a trupe de sete cães. Como? Eu chegara há cinco minutos e ele impávido, como se não tivesse cavalgado noventa quilómetros no mesmo tempo que um automóvel. Olhava diretamente para mim. Atabalhoadamente, alcancei os óculos de narval e, hélas, o fenómeno comprovava-se como não humano. Inicialmente, ponderei ver um lobisomem, mas o olhar mais fino identificou o recorte distinto e régio de Quangeio, o deus. O Supremo dos Altos, dizem. Eu nunca vira nenhum deles, mas no mundo não humano eram abundantes gravuras, pinturas e descrições. Os deuses

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«Nos ares, sete cães Serra da Estrela alados perseguiam uma coca, que volteava em contracurvas.»

vivem num terceiro mundo, não acessível a nós, seres do Mundo Obscuro, nem a pessoas comuns. O criado de mesa acercou-se, pedi a açorda de espinafres e bacalhau, regada a branco alentejano. Quando retornei o olhar para a janela, nem deus canídeo a segurar a lança com ponta de esmeralda, nem cavalo, nem cães. Desviei a atenção para o burburinho do restaurante e… o cavaleiro verde surgiu sentado na cadeira à minha frente, na mesma mesa onde permaneci atónico. Retirou o chapéu redondo, de abas rijas, e descansou-o no colo. – Coloque os seus óculos especiais – sugeriu, tranquilo. – Agora, olhe lá para fora. Nos ares, sete cães Serra da Estrela alados perseguiam uma coca, que volteava em contracurvas. Até ficarem longe da vista e, depois, os leais guardas retornarem para junto do seu senhor, deitando-se no exterior, debaixo da janela onde estávamos. – Vamos dizer que estou aqui para o proteger, mesmo que a contragosto – rematou, para logo a seguir levantar-se com firmeza de cavaleiro e seguir caminho até ao corcel, do outro lado da estrada.


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SENTENTIA A POESIA DO ESSENCIAL

JAMES MCSILL

Trabalho escolar escrito em 1979 (…que em 2026 permanece contemporâneo!)

A

folha cai. Não porque o outono a arranca da árvore, mas porque aquilo que nela existe de raiz já se dispersou há meses, nas manhãs de chuva, nas tardes sem testemunhas. Durante um instante, feroz e irrepetível, a folha torna-se aquilo que sempre foi: um vazio que respira. Há milénios que os homens perseguem esta pergunta invisível, que as palavras chegam sempre tarde a formular. Mas ela existe no modo como um grego observava a curva de um vaso, como um monge medieval permanecia em silêncio diante de uma vela, na obstinação de um navegador que procurava, através dos mares, não uma terra, mas uma verdade que o seu corpo desconhecia. Na Grécia, essa pergunta enraizava-se na harmonia. Homero não descrevia a tempestade, mas o modo como a luz repousa sobre as velas rasgadas: a verdade não habitava no extraordinário, mas na medida, naquela proporção invisível que faz uma coluna parecer leve apesar de sustentar um templo inteiro. Safo escrevia sobre o desejo, mas nunca a sua expressão — antes o vazio anterior a ele. Os seus fragmentos chegaram incompletos, como se a incompletude fosse a única forma verdadeira de contar uma verdade. Na Idade Média, o monge no seu claustro fazia a mesma pergunta, com outra língua. Copia um manuscrito, século XIII, mosteiro na Baviera; não para multidões, mas porque cada letra é uma oração, porque o essencial vive no detalhe que ninguém verá. Essa espiritualidade residia na capacidade de ver o infinito numa fatia de pão, num cálice de água. O peregrino compreende o que o teólogo, na sua biblioteca, ainda procura: o essencial não se aprende, vive-se.

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O Renascimento trouxe a sua exuberância. Camões navegava pelos oceanos e o essencial transformava-se em descoberta — não a que se encontra fora, mas a que viaja consigo, porque toda a viagem é interior. Os Lusíadas parecem falar de conquistas exteriores, mas o verdadeiro Índico que Camões procura existe entre as costelas, no pulmão onde a possibilidade respira antes de se tornar ação. O Barroco chegou com o excesso: a folha tornou-se ouro, seda, arabescos enroscados sobre si mesmos. Mas o excesso, no seu limite, revela a própria futilidade. O essencial não aumenta de volume: comprime-se até se tornar diamante. O Romantismo chegou como solitude — uma figura numa montanha, contemplando um vale envolto em neblina. A natureza tornou-se espelho da alma. Gritam os poetas: "A minha dor é infinita!" Mas nesse grito existe um silêncio: a consciência de que a solidão é universal, de que quanto mais pessoal, mais universal. Depois entra a modernidade, silenciosamente, como quem abre uma porta e descobre que a sala interior é infinita. Virginia Woolf escreve e o tempo desacelera: a verdade não habita nas grandes ações, mas no modo como a luz cai sobre um rosto. Woolf observa Mrs. Dalloway a comprar flores, e nesse ato simples contém-se a totalidade de uma vida. Essa tradição atravessa Baudelaire nas ruas de Paris, Rilke conversando com anjos, Pessoa multiplicando-se em heterónimos para compreender que o essencial é a consciência dessa multiplicidade: "Tudo isto é verdade e mentira", escreve. Sophia de Mello Breyner via a plenitude no mínimo: uma casa, um rio, uma pedra no chão. Em Clarice Lispector, o essencial não é bonito, é nu. Mia Couto escreve como se a linguagem se descobrisse a si mesma no momento em que nomeia as coisas.


Toda esta tradição respirou dentro da modernidade e continua a respirar, porque o essencial não é relativo às épocas. É trans-histórico. Mas como nomeá-lo? Considera o silêncio — não a ausência de som, mas a única linguagem adequada à verdade. Quando uma criança vê pela primeira vez o mar, o silêncio toma conta dela, porque toda a linguagem parece insuficiente: naquele momento, ela toca o essencial. Ou considera o gesto de caminhar: pôr um pé adiante do outro é, nas tradições contemplativas, suficiente — a existência inteira cabe no movimento simples. O essencial não é um conceito. É um estado, o repouso onde a mente deixa de procurar porque compreende que não há nada a encontrar — que a verdade sempre esteve ali, nos pulmões que respiram, na luz que entra pela janela. Um vaso vazio em Zen é mais completo do que um vaso cheio. Os séculos passaram. Impérios caíram. Mas a folha continua a cair. O monge continua a escrever. A mulher continua a comprar flores. O navegante continua a procurar. O silêncio persiste. Quando se envelhece, descobre-se que o essencial nunca foi complexo. Era apenas pequeno — tão pequeno que só se vê quando se renuncia ao desejo de ver. Uma respiração. O bater do coração. A consciência de estar vivo neste instante, neste corpo, nesta encarnação irrepetível. Isto é tudo quanto existe, tudo quanto alguma vez existiu. Nada pode ser adicionado, nada pode ser retirado. Já está completo. Sempre esteve. A folha cai. Não para uma árvore, mas para um mundo que existe apenas porque a folha cai, porque algo morre para que algo nasça. A verdade está aqui. Sempre esteve. Não há viagem, não há procura. Há apenas isto: o ar que entra, o ar que sai. E a impossibilidade radiante de o nomear.

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SENTENTIA OS INDIFERENTES

E

PAULO PEREIRA

screvo após a morte de um dos grandes pensadores do século XX, Edgar Morin, e não deixo de pensar em como, em tempos de enorme incerteza e de muitas sombras para a Humanidade, o desaparecimento de uma das principais vozes contra as injustiças e desigualdades assume uma carga simbólica ainda mais marcante. Morin bateu-se contra tudo o que há de negativo na espécie humana e que está bem explícito na realidade quotidiana. Guerra, fome, miséria, tráfico humano e de estupefacientes, violação diária dos Direitos Humanos, ditaduras e discriminações. Mas aquilo que mais vemos a triunfar à nossa volta é essa extensa lista de protagonistas que alimentam os próprios egos com base na mentira, ignorância e ausência de escrúpulos. Seria de esperar que personalidades, como o humanista francês, servissem de exemplo para que percebêssemos o que está em causa – nem mais, nem menos que o futuro do planeta e da espécie. Porém, por todo o lado, o caminho é o oposto. Do lado de lá do Atlântico, como se a primeira experiência não tivesse sido elucidativa o suficiente, optar por devolver à Casa Branca um ocupante que não passa de um aspirante a fascista foi a decisão de parte substancial do eleitorado. No Médio Oriente, o genocídio prossegue, como se quem o pratica não se autointitulasse representante do povo que sofreu na pele o Holocausto. A leste, outro simpatizante de autocracias promove a guerra sob falsos argumentos, sem ser travado. Mas a lista é interminável: na Alemanha, a extrema-direita floresce, como se não fosse responsável pela maior barbárie de sempre; em França, a mesma extrema-direita ganha força para chegar ao poder; no Reino Unido, todos os estragos causados pelo Brexit são, afinal, de menos, e a criatura que o causou por lá se passeia, com renovados

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poderes vindos das urnas; África sobrevive vergada pelos conflitos e pela fome; na Ásia, pululam tiranetes, tal como nas Américas. Portugal também não escapa. Como se 48 anos de ditadura nada nos tivessem ensinado. A incapacidade de perceber o que significa o exercício de cidadania, democracia, direitos, liberdade e garantias fica bem expressa na votação entregue à extrema-direita. Como se uma parte do país desistisse de usar o cérebro e de se informar antes de tomar decisões. O importante é agir pelas redes sociais; identificar-se com quem grita mais alto, insulta e faz da política um esgoto a céu aberto; não pensar, aceitar todas as mentiras como verdades indesmentíveis e seguir um catavento como mero rebanho de carneiros. Ao mesmo tempo, quem governa concentra-se em atacar mães e trabalhadores; promove um Serviço Nacional de Saúde em que o não atendimento a grávidas ou de quem precisa de assistência urgente é uma prática corrente; legisla com a xenofobia e o racismo no epicentro das escolhas, ou não fossem estas ditadas pela aliança constante com a extrema-direita; desvaloriza a emergência do apoio a populações atingidas por catástrofes; insiste em respostas incapazes perante a extrema crise habitacional; não soluciona, adia; defende reformas que agravam injustiças e finge estupefação quando lhe respondem que reformar a qualquer preço é inaceitável; age como se tivesse o rei na barriga, mesmo exercendo o poder sob configuração minoritária e ao reboque de inimigos da democracia. E estes são recebidos numa cimeira em solo português como se estivéssemos obrigados a acolher neonazis. A ausência de princípios e de valores já foi moda na História do mundo e as consequências funestas são bem conhecidas. Ser indiferente não


conduzirá os países a qualquer solução que valorize o bem comum. A política como arte do efémero, da espuma dos dias, da crítica sem substância, da ausência de propostas toleráveis: nada disto é um caminho que valha a pena ser feito. Quanto mais tempo demorarmos a perceber isto, mais próximos estaremos do abismo.

«Do lado de lá do Atlântico, como se a primeira experiência não tivesse sido elucidativa o suficiente, optar por devolver à Casa Branca um ocupante que não passa de um aspirante a fascista foi a decisão de parte substancial do eleitorado.»

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A BIBLIOTERAPEUTA SUGERE DA POESIA DO ESSENCIAL AO ESSENCIAL DA BIBLIOTERAPIA

SANDRA

BARÃO NOBRE

U

ma das experiências estéticas mais fortes que vivi no último ano e meio aconteceu com a leitura de um pequeno poema, um haiku, escrito por José Tolentino de Mendonça: Existo sem pressa Maturo em lides e demoras Aprendo a incompletude 1

Este punhado de palavras precisas e desafetadas, em três versos límpidos e fluídos, desata-me um nó que trago não sei onde, lava-me como o primeiro banho de mar no Verão, permite-me expandir os pulmões com uma longa golfada de ar com cheiro a floresta, relaxar os músculos tensos dos maxilares, da cervical e dos ombros, e libertar-me das angústias que arrasto há muito — a voragem do tempo, o frenesi inescapável, a glorificação do cansaço, a impossibilidade de ser tudo e de tudo fazer. A cada releitura apaziguo-me e reajusto o meu caminho. Murmuro este poema como um mantra. Escrevo-o no início de cada entrada do meu diário intermitente. Ofereço-o a quem participa nas minhas actividades de biblioterapia e, depois de dito em voz alta, remeto-me ao silêncio à espera de reacções — sem orientações taxativas, sobretudo sem propostas de interpretação, revisão ou análise, porque a biblioterapia não é isso, a biblioterapia não é um exercício de exegese literária. A biblioterapia acontece no domínio da experiência estética (das perceções, das sensações, das emoções e dos sentimentos), da receção existencial e subjetiva, da reação visceral, da total liberdade de relação e expressão, e, apenas se

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Em A papoila e o monge, Assírio e Alvim, 2013 Palavrar | Número 11

necessário, com perguntas simples para instigar o diálogo: onde, no corpo, sentiste este poema? Que memória suscitou? Que imagens espoletou na tua mente? Como dialoga ele com a tua experiência de vida? Em quem te faz pensar? Talvez para o poeta a escrita destes versos tenha sido catártica e se sinta orgulhoso do resultado alcançado. Talvez tenha impregnado o poema de uma intenção, para orientar os possíveis leitores num certo caminho. Ou talvez não. Talvez os versos resultem apenas de um rasgo de inspiração ou, pelo contrário, de muitas horas de trabalho para eliminar o supérfluo e expor o indispensável acerca de um estado de alma, pondo no mundo a poesia do essencial, sem outros planos ou agendas. Quem sabe? Uma coisa é certa, à prática biblioterapêutica e ao biblioterapeuta, deontologicamente comprometido, isso pouco ou nada deve importar — a poesia, aliás todas as histórias que, independentemente da sua forma e do seu suporte, constituem um bom material terapêutico são aquelas que vêm livres das amarras da análise, são aquelas que nos atravessam e transformam, tanto ao biblioterapeuta como a qualquer leitor, sem que seja preciso seguir um manual de instruções que as explique. Em biblioterapia, as histórias são objetos de receção, não de autoridade. Esta distinção é tão fundamental para a prática quanto a necessidade, creio, de se distinguir a mediação da história pelo biblioterapeuta da autoria da história, particularmente quando o biblioterapeuta também é autor. A ética da prática biblioterapêutica em Portugal está por fazer, mas quando for definida seria bom que este ponto a


integrasse e deixasse o alerta: quando o biblioterapeuta recomenda os seus próprios textos como terapêuticos, é necessária toda a prudência. E seria recomendável que essa prudência abrangesse a tentação de agregar a esses textos linhas de análise que condicionem a experiência do leitor. Em biblioterapia não analisamos: escutamos, questionamos, acolhemos e dialogamos. Talvez não caiba ao biblioterapeuta, que também é autor, definir de forma explícita o tipo de experiência de leitura que as suas próprias histórias proporcionam, nem dissecar a sua própria imagética ou antecipar as emoções que pretende induzir no leitor. Do mesmo modo, poderá ser mais fecundo evitar a explicitação dos temas, bem como a justificação do narrador, sobretudo quando este se aproxima da própria figura do biblioterapeuta. Uma presença autorreferencial mais marcada pode deslocar o foco para o biblioterapeuta, quando, idealmente, esse foco pertence ao leitor, às histórias e às relações entre ambos. Poderá também interferir com o espaço transacional entre leitor e história — o espaço que o biblioterapeuta é chamado a sustentar com abertura e neutralidade —, assim como com a distância estética, que favorece a possibilidade de as palavras comoverem e transformarem o leitor. Não se trata de interditar em absoluto que o biblioterapeuta recomende os seus próprios textos como terapêuticos (embora apele, de novo, à máxima cautela se se enveredar por este caminho), mas sim de evitar colonizar a experiência do leitor e de outros biblioterapeutas, de condicionar a abertura da sua leitura e da sua experiência subjetiva à autoridade interpretativa de quem o escreveu. É preferível que o biblioterapeuta constitua a sua farmácia literária a partir das histórias dos outros, das histórias feitas das palavras dos outros, feitas da matéria que é própria dos outros porque só assim sairá de si mesmo, transcender-se-á, abrir-se-á ao novo, ao diferente, ao inusitado, às perspectivas nunca antes ponderadas. E através desse exercício de alteridade, voltar a si mesmo sendo já outro. Um biblioterapeuta que não vive esta experiência extraordinária não saberá proporcioná-la aos demais. De que serve, a quem precisa de cuidado, que um biblioterapeuta gire em torno das suas próprias palavras? E entrarão para a farmácia literária do biblioterapeuta, sensível a estas questões éticas e deontológicas, aquelas histórias que — intencionalmente pesquisadas ou encontradas por acaso —, antes de tudo o mais (antes da teoria da literatura, da crítica literária, do ensaio académico ou da análise), o tocaram e comoveram profundamente, mesmo que às vezes não saiba explicar exactamente porquê. É aí, nessa inexplicabilidade que o essencial da biblioterapia começa.

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CLUBE DE LEITURA

O clube de leitura «O Prazer da Escrita» tem como principal objetivo fomentar o convívio entre os amantes de livros, a democratização da cultura e o incentivo à leitura. O encontro literário para discussão do livro escolhido acontece no último sábado de cada mês (ou no primeiro sábado, em função de eventuais festividades ou disponibilidade dos escritores convidados), das 21h30 às 22h30 (horário de Portugal Continental e Madeira). Seguindo a dinâmica dos clubes de leitura das bibliotecas municipais, o acesso ao clube e a participação nos encontros através da plataforma Zoom é gratuita.

Se desejar aderir a este clube de leitura online, basta solicitar adesão em www.facebook.com/groups/clubedeleituraoprazerdaescrita

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PODCAST Disponível nos principais agregadores de podcast

AS - MARKETING E COMUNICAÇÃO PARA AUTORES Na AS – Agência de Marketing e Comunicação para Autores, acreditamos no poder das palavras para transformar vidas e conectar pessoas. Estamos aqui para ajudar a dar vida e visibilidade às suas palavras, seja um aspirante a escritor que quer construir uma carreira literária, um profissional que deseja promover o seu negócio através de um livro, uma editora, ou alguém que quer partilhar a sua história pessoal para inspirar outros. Somos apaixonados por literatura e estamos comprometidos em dinamizar ainda mais o cenário literário em Portugal. A nossa agência é pioneira no país, oferecendo serviços especializados a escritores e profissionais que desejam destacar as suas obras e mensagens. A nossa equipa é composta por profissionais experientes e apaixonados pelo mundo das letras. Com uma vasta experiência em edição, revisão, design editorial, marketing e comunicação, estamos preparados para ajudar os nossos clientes a atingir os seus objetivos literários e a promover as suas obras de forma rápida e eficaz.

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PALAVRAR Ler e escrever é resistir


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Revista PALAVRAR - Ler e escrever é resistir - Edição 11 - Julho 2026 by Revista Palavrar — Ler e escrever é resistir - Issuu