A história viva de Pedrão — O sabor eterno de São Borja
João das Balas:
doce que virou lenda
A ternura que marcou gerações e ainda adoça a memória da cidade
Divino no Cais
Peixe, paisagem e pausa: o sabor das margens do Rio Uruguai
Onde São Borja
acorda cedo
A feira que transforma alimento em encontro e afeto
“Uma revista sobre a gastronomia e a memória: histórias, afetos e tradições”
07
Do charque ao sabor da história: A memória viva do Saladero Alto Uruguai em São Borja
09 O auge do Saladero Alto Uruguai
10 Trabalho, rio e estrutura
11
O charque na mesa contemporânea 12
Quando produção vira narrativa
13 As ruínas que ainda falam
14 Mapa da influência de São Borja
15
O Xis que virou legado: a história viva de Pedrão, o sabor eterno de São Borja
16 O início de uma tradição simples e poderosa
17 Quando o Fogo não apaga a história
18 O jeito Pedrão de fazer comida
20 Nunca deixar ninguém sair com fome
22 O lanche como memória coletiva
23 O dia em que o silêncio chegou ao balcão
24 Versos que eternizam
24 Um legado que já apontava para o futuro
25 Uma história escrita a dois
26 Os “filhos do balcão”: amizade, afeto e lealdade 27 O sabor que ficou
33
Onde São Borja acorda cedo: a feira que tem cheiro de casa
35 Uma feira que também conta sua própria história
36 Para quem chega e para quem fica
37 Quem foi Tio Bijuja?
38 Dica do Turista
38 Por que visitar a Feira do Produtor Tio Bijuja?
39 Sabores da Região: o arroz que une sabor, identidade e inovação
40 Quando o arroz deixa de ser acompanhamento
41 Aprender cozinhando com propósito
42 Criatividade, território e identidade
43 Uma aula de pertencimento
44 A celebração coletiva da Mostra Gastronômica
45 Gastronomia como elo entre educação, economia e turismo
46 Porque o arroz importa tanto aqui?
Expediente
Ana Gabriela
Barboza Vaz Ramos
Proponente, produtora, redatora e revisora da Revista Sabores de São Borja. Jornalista, servidora pública e acadêmica do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Indústria Criativa (PPGCIC).
Renata Corrêa
Coutinho
Orientadora do projeto Revista Sabores de São Borja. Publicitária e Doutora em Letras, com tese defendida na área de concentração em Estudos Linguísticos: análise de discurso. É professora adjunta da Universidade Federal do Pampa – Campus São Borja e integra o corpo docente do PPGCIC. Atualmente coordena o curso de graduação em Publicidade e Propaganda desta instituição.
Darlan
Martins Paz
Diagramador da Revista Sabores de São Borja. Designer de Produtos pela Uninter, com especialização pela escola Design Circuit, atua profissionalmente como designer de experiência do usuário e designer de marcas.
CCampeiro(a)
Relacionado ao campo, ao trabalho rural e às tradições gaúchas.
Carreteiro
Prato típico gaúcho feito com arroz e charque.
Charque
Carne salgada e seca ao sol; base da economia sul-rio-grandense no século XIX.
JJacaré (lanche)
Versão grande e muito recheada do cachorroquente da Lancheria do Pedrão.
LLata de azeite (lata quadrada)
Recipiente metálico usado por João das Balas para carregar e vender doces; objeto comum
na época.
MMantas (de carne)
Pedaços grandes e planos de carne bovina usados na produção do charque.
Matinê/Sessão da Tarde
Sessão de cinema realizada à tarde, geralmente frequentada por crianças.
Médio simples
Tamanho tradicional de cachorro-quente servido na Lancheria do Pedrão; opção mais barata e muito popular.
Missioneiro(a)
Morador da região das Missões; identidade cultural da Fronteira Oeste.
PPracinha
Termo afetivo para praça infantil com brinquedos.
Pecuária extensiva
Criação de gado solto em grandes áreas de campo — prática histórica da economia regional.
RReses
Termo rural para bois e vacas destinados ao abate.
SSaladero/Charqueada
Local histórico onde se produzia charque (abate, corte, salga e secagem).
Sesmaria/Quadra de sesmaria
Antiga unidade de terra concedida pelo governo colonial para exploração rural. Pode ser desconhecida do público atual.
VVarais (de charque)
Estruturas de madeira usadas para secar mantas de carne ao sol.
X Xis
Lanche típico do Rio Grande do Sul, grande e bem recheado; símbolo da culinária urbana gaúcha.
Cultura Alimentar
Do charque ao sabor da história:
A memória viva do Saladero Alto Uruguai em São Borja
O Rio Uruguai ao entardecer — caminho do charque e guardião da memória.
Foto: Divulgação.
Ruínas do saladero: memória que resiste ao tempo. Foto: Isaac do Carmo.
empregar centenas de trabalhadores e abastecer mercados nacionais e internacionais. A produção era baseada no trabalho intensivo, com gado oriundo da pecuária extensiva da região.
Trabalho, rio e estrutura
Oestudo destaca que o saladero ajudou a consolidar São Borja como polo agroindustrial. Os trabalhadores — conhecidos como saladeiros — enfrentavam uma rotina intensa e sazonal, especialmente nos períodos de abate, movimentando a economia da cidade.
Quando produção
vira narrativa
As autoras Camila Nemitz e Flávia Pedron reforçam, no livro citado, que valorizar o legado do charque e do Saladero Alto Uruguai significa fortalecer a cultura alimentar regional e o turismo cultural. O que antes era produção em escala transforma-se hoje em narrativa; o que era fábrica, em símbolo de resistência e sabor; o que era rotina de trabalho, em memória coletiva.
Hoje, ao saborear um prato de charque em São Borja, não se consome apenas carne salgada. Participa-se de uma história que atravessa campos, rios, fábricas e gerações. E no caso do Saladero Alto Uruguai, a fábrica que ontem fervilhava de máquinas e trabalhadores se tornou símbolo de memória viva, pronta para ser degustada.
Carreteiro — símbolo da identidade alimentar gaúcha. Foto: Divulgação.
As ruínas que ainda falam
A busca por esse resgate aparece também no relato do jornalista Isaac do Carmo, publicado no site SB News em 18 de julho de 2025. Ele descreve uma expedição ao local onde teria funcionado o antigo saladero:
A vegetação avançou sobre muros e vestígios, a terra trazida pelas enchentes se acumulou. A natureza reconquistou o espaço. Ainda assim, o local permanece como testemunha silenciosa de uma era que moldou o território e a cultura alimentar de São Borja.
Ruínas do Saladero Alto Uruguai — memórias de um ciclo que marcou São Borja. Foto: Isaac do Carmo.
Mapa da influência de São Borja
Campos de criação
Abate e salga nos tanques
Varais de secagem à beira do rio
Transporte fluvial pelo Rio Uruguai
Destino nacional e exportação
O médio simples de Pedrão — preço justo e símbolo de recomeço. Foto: Acervo da família.
O Xis que virou legado:
A história viva de Pedrão, o sabor eterno de São Borja
Na esquina das ruas João Manoel e Presidente Vargas, durante décadas, o cheiro da chapa quente misturava-se ao som dos risos na calçada e ao acolhimento de um homem só: Pedrão. Muito antes de São Borja viver a era do delivery, dos QR Codes e dos lanches gourmetizados, era ali que o povo se encontrava — independentemente da classe social, do horário ou da fome.
O início de uma tradição simples
e poderosa
Nascido em 14 de julho de 1949, Pedrão fundou sua lancheria em 1988, em um pequeno trailer ao lado do Hospital Ivan Goulart, em frente ao Colégio Getúlio Vargas. Era o tempo do copo de Coca, da bala ou chiclete de troco e dos xis prensados que transbordavam recheio — e carinho.
Quando o Fogo não apaga a história
Nos anos 90, um incêndio destruiu o trailer original. O que poderia ter sido um fim, virou recomeço. Não apagou o sonho. Em 1996, Pedrão reergueu seu negócio em novo endereço, na Rua João Manoel, na mesma região onde tudo havia começado.
Pedrão precisou recomeçar quase do zero. Sem dinheiro para estocar mantimentos ou investir em grandes quantidades, encontrou soluções simples — como sempre foi seu jeito. Ia ao mercado, comprava poucas garrafas de Coca-Cola de dois litros, voltava para a lancheria e vendia a bebida em copos. Quando juntava o dinheiro das vendas, ia novamente ao mercado e comprava mais garrafas.
Assim nasceu, quase sem intenção, uma das combinações mais lembradas da cidade: o médio simples com um copo de Coca. Mais do que uma refeição acessível, aquele lanche passou a simbolizar resistência, recomeço e dignidade. O preço cabia no bolso, o sabor reconfortava — e, a cada copo servido, Pedrão lentamente reconquistava o que o fogo havia devastado.
O jeito Pedrão de fazer comida
Naquele tempo, a batata vinha escondida por dentro do pão. Pedrão ousou virar o lanche do avesso — transformou aquilo que era complemento em marca registrada.
E não era qualquer batata palha. Toda ela era feita em casa, por Dona Maria. A batata era ralada à mão, deixada para secar e depois frita com paciência e cuidado. Trabalho artesanal, repetido todos os dias, que carregava mais do que sabor: carregava fé, esforço e
Quem cresceu em São Borja nos anos 90 e 2000 tem pelo menos uma história com o xis do Pedrão. Teve quem matasse aula, quem fizesse lanche antes do cursinho, quem passasse por ali depois do baile ou do treino. Era ponto de encontro, de risadas, de namoro e de despedidas.
Lanche com batata palha: sabor marcante que virou tradição. Foto: Facebook.
Depoimento do funcionário
Willian Corrêa
“Saudades, boas lembranças das histórias que ele contava, uma amizade fiel, um ótimo chefe e líder, aprendi muito com um cara extremamente honesto e do bem, vou levar ele comigo pro resto da vida.”
Amizade de Pedrão e Willian: trabalho e afeto. Foto: Acervo da família.
Um legado que já apontava para o futuro
Mesmo antes de sua partida, Pedrão já deixava marcas de permanência. Em outubro de 2023, a lancheria ganhou uma nova identidade visual, com o rosto do fundador estampado no logotipo — símbolo de autenticidade e continuidade.
A renovação foi idealizada por sua filha, Marla da Silva, que trouxe novos ares ao negócio da família sem perder o tempero afetivo que sempre definiu o lugar. Durante esse processo de modernização, a lancheria chegou a contar com duas unidades na cidade. Hoje, segue firme em uma única casa, mantendo viva a essência que sempre a definiu: preços acessíveis, sabor de verdade e um atendimento que acolhe.
Pedrão e Tia Maria: amor e trabalho lado a lado.
Foto: Acervo da família.
Um legado que já apontava para o futuro
Mais do que herdar um negócio, a família herdou uma responsabilidade afetiva: manter viva uma história que pertence à cidade inteira. São seus filhos Marla — que hoje conduz a lancheria — e Rafael, além de três netos, filhos de Marla, que permanecem rodeados pelas memórias, pelos sabores e pelo amor construído naquele balcão.
Uma história escrita a dois
Ao lado de Pedrão, sempre esteve
Entre sangue e carinho: Marla, Dona Maria, Pedrão e Andreia.
Homenagem
da funcionária
Andreia – a Madrinha
“Pedrão meu exemplo de ser humano, um coração gigante, inspiração, caráter, respeito e motivação. Que aprendi convivendo com ele. Ele se recuperava e já estava aqui trabalhando. Tudo com carinho no capricho.”
Os “filhos do balcão”:
amizade, afeto e lealdade
Ao redor de Pedrão, formou-se também uma família construída no trabalho cotidiano. Entre elas estava Andreia Leão, funcionária a quem Pedrão chamava carinhosamente de madrinha — embora, na prática, fosse ele o padrinho de vida dela. Andreia esteve ao seu lado por muitos anos, sendo presença constante, querida pela família e reconhecida como filha do coração, dessas que a vida escolhe e o afeto confirma.
Entre esses laços construídos no cotidiano da lancheria está também a história de Willian Corrêa, que começou como funcionário, tornou-se amigo pró-
Homenagem da filha Marla
“Falar do meu pai é falar de trabalho, dedicação e amor pelo que fazia. Um ser humano simples e de uma generosidade incrível, lembro de uma frase que ele muito repetiu quando alguém vinha comentar sobre outras lancherias que tinham aberto próximo e talvez uma possível concorrente: o sol nasceu pra todos . Muito orgulho desse homem chamado Pedrão.
Bala puxa e memória doce:
A história de
João das Balas
João das Balas em versão ilustrada: memória que permanece.
Foto: Kátia Alexandre.
Numa cidade que guarda seus afetos em praças, entre árvores antigas e bancos de cimento, risos e histórias sussurradas nas esquinas, há nomes que viram lenda. E há lendas que têm gosto. Em São Borja, esse gosto tem nome: bala puxa. E quem deu rosto, alma e passos a essa memória foi João das Balas — ou João Adão Batista Antunes, para os registros, mas João das Balas para sempre, no coração do povo.
Símbolo de ternura e infância para gerações de são-borjenses, seu chamado alegre ainda parece ecoar entre as árvores, como se convidasse as crianças para uma pausa na correria da vida.
Era fácil reconhecê-lo. João caminhava pelas ruas com uma grande lata quadrada de alumínio — daquelas em que vinha azeite — ou um saco branco no braço e um sorriso sempre pronto. Distribuía mais do que doces: distribuía alegria. Bastava ouvir o chamado que virou jingle involuntário da infância sãoborjense:
E logo vinham os passos apressados das crianças, o tilintar das moedinhas no bolso e o encantamento. A doçura vinha embrulhada em papel de seda colorido, mas o que ninguém conseguia embrulhar era o gesto. João não fixava preço: quem podia dava, quem não podia recebia igual. Muitas vezes, o que não era vendido não voltava para casa — João sacudia a lata e jogava as balas para o alto, espalhando-as pelo chão para que as crianças corressem e pegassem de graça. A alegria estava menos no doce e mais na festa improvisada que se formava ao redor dele.
A bala era puxa —
mas o coração era frouxo de generosidade.
Um
reinado sem trono — mas com muitos súditos
A casa de Chininha ficava no centro da cidade, e foi ali, entre amor, simplicidade e panelas borbulhando açúcar, que nasceu a tradição das balas puxa. Chininha fazia, João vendia — ou melhor, entregava. E assim os dois adoçaram a cidade inteira por décadas, dia após dia. Não havia preço fixo — bastava o que a criança pudesse dar: um centavo, um sorriso, uma flor de papel. Em troca, recebia uma bala… e uma pitada de magia.
Não importava o calor ou o frio. João andava com seu saco branco pelas praças e calçadas como uma espécie de jornal ambulante de afeto, arrancando sorrisos, distribuindo atenção. Era conhecido por todos. E querido por todos. Um tipo de fama que só a bondade verdadeira constrói.
Durante anos, João circulou pelas esquinas, praças e campinhos. Era figura certa nas partidas de futebol do São Vicente, nas caminhadas diárias e, claro, na beira da Praça XV.
Ele ficava em seu trono invisível de rei sem coroa, mas com um império feito de ternura. Suas balas não eram apenas guloseimas — eram pretexto para encontros, causos e risadas. As crianças o adoravam; os adultos, o respeitavam.
Aos domingos, também fazia parte do ritual das matinês. Entre uma sessão e outra, cruzava o caminho entre o Cine Variedades e o Cine Municipal, com seu passo ligeiro, quase sorrateiro, mas sempre atento à criançada que o aguar-
ponto era aprendido no corpo, no tempo da cozinha e na repetição diária. As balas eram feitas para vender, sim — mas também para alegrar, acolher e marcar a infância de uma cidade
Da praça ao coração de São Borja
oão das Balas faleceu tragicamente em 2 de junho de 1969, aos 55 anos, afogado nas águas do Rio Uruguai. Sua morte entristeceu a cidade inteira. Um silêncio especial se instalou na Praça XV — aquele silêncio que só surge quando alguém insubstituível se vai.
Mas João não partiu sozinho. Deixou herança. Um legado feito de açúcar, riso
Em 1971, dois anos após sua morte, foi inaugurada a Praça de Recreação Infantil João das Balas, em uma cerimônia marcada pela emoção - uma justa homenagem a esse personagem que representou a São Borja mais terna e mais verdadeira. Dona Chininha esteve lá, segurando a tesoura e sorrindo serena. Uma placa eterniza o gesto da cidade para um de seus filhos mais
história que resiste ao tempo como bala puxa: difícil de soltar do dente e do coração.
Ficou a certeza de que existem pessoas que vivem para fazer o bem — e fazem isso sem precisar de diploma, rede social ou manchete. Basta sentar num banco, olhar com carinho e ouvir. Com sorte, ainda se escuta ao longe um eco suave: “Olha a bala puxa!”
Dicas do Turista
Onde
São Borja
acorda cedo:
A feira que tem cheiro de casa
Feira do Produtor Tio Bijuja — alimento, encontro e São Borja que acorda cedo.
Foto: Decom Prefeitura
Quem visita São Borja e quer conhecer a cidade para além dos roteiros tradicionais precisa acordar cedo em pelo menos um dia da semana. Não para ver monumentos — mas para sentir o cheiro do pão recém-saído do forno, ouvir o sotaque manso de quem vive da terra e descobrir que a cultura alimentar local também se revela em bancas simples, montadas ao ar livre.
Às quartas-feiras e aos sábados, das primeiras horas da manhã até o início da tarde, a Feira do Produtor Tio Bijuja transforma uma quadra da Rua Barão do Rio Branco, na esquina com a Vereador Eurico Batista da Silva, em um espaço de encontros. Ali, São Borja se mostra como ela é: generosa, calma, orgulhosa do que produz.
Cestas de hortaliças ainda úmidas da geada, frutas da estação, ovos caipiras, pães, bolos, doces caseiros, queijos, mel, cucas e bolachas dividem espaço com conversas baixas, risadas conhecidas e histórias que se repetem de banca em banca. Cada produtor leva mais do que mercadoria: leva o trabalho da família, a memória da colheita e o conhecimento passado de geração em geração.
Uma feira que também conta sua própria história
Em setembro, a feira celebrou um ano de sua remodelação. O espaço ganhou novo visual, com estilo colonial, coberto por telhas de barro e estrutura em madeira. Os boxes foram ampliados, a circulação dos clientes melhorou e o lugar passou a oferecer mais conforto — sem perder o clima simples e acolhedor que sempre o definiu.
Para quem visita, isso se traduz em uma experiência ainda mais agradável. Para quem produz, é dignidade, visibilidade e reconhecimento.
Agricultura familiar e histórias da terra.
Foto: Decom Prefeitura
Quem foi Tio Bijuja?
Onome da feira não é acaso. Tio
Bijuja, cujo nome era Deoclécio Barros Motta, foi um antigo morador e vizinho da feirinha. Falecido em 2007, ele ficou na memória da cidade como a figura
contro e gesto de cuidado com o futuro — porque valorizar a agricultura familiar é também preservar as tradições produtivas e afetivas de São Borja.
Leve dinheiro em espécie
Chegue cedo (principalmente no sábado)
Observe: a feira também é paisagem cultural
Eventos & Festas
Sabores da Região:
o arroz que une sabor, identidade e inovação
Equipes no concurso do arroz: criatividade e identidade à mesa.
Foto: Instagram
Na terceira edição do evento Sabores da Região, realizada em São Borja, o grão volta a ocupar o centro da cena — não apenas como ingrediente base, mas como elemento simbólico capaz de conectar tradição alimentar, formação técnica e inovação gastronômica. Presente no cotidiano das mesas missioneiras, o arroz ganha novos sentidos ao ser transformado em narrativa culinária.
Mais do que um evento gastronômico, o Sabores da Região se consolida como espaço de encontro entre produtores, estudantes, docentes, empreendedores e comunidade. A cada edição, o ingrediente deixa de ser simples acompanhamento para se afirmar como fio condutor de criações que dialogam com o território, a memória e a criatividade contemporânea.
Quando o arroz deixa de ser acompanhamento
A primeira etapa do evento é marcada pelo Concurso de Pratos à Base de Arroz — momento em que técnica, imaginação e identidade caminham juntas. O ingrediente cotidiano se reinventa: entra em preparos autorais, assume protagonismo no prato e carrega referências afetivas ligadas ao território.
Nesse contexto, cada prato apresentado traduz uma escolha consciente: valorizar o que é local, respeitar a tradição e experimentar novos caminhos à mesa, reafirmando o arroz como ponto de partida para releituras contemporâneas da culinária regional.
Aprender cozinhando com propósito
A competição ocorre no restauranteescola do Instituto Federal Farroupilha –Campus São Borja, reunindo equipes formadas por estudantes do curso de Gastronomia, orientados por docentes. A experiência reforça a integração entre ensino técnico, prática culinária e diálogo com a comunidade.
Para os professores que acompanham as equipes, o Sabores da Região se afirma como espaço pedagógico diferenciado, aproximando o ensino da realidade local e permitindo que os alunos reconheçam a gastronomia como linguagem cultural conectada à memória, à economia e às práticas alimentares do território.
O público também ocupa papel central nessa dinâmica. Ao saborear os pratos e participar da avaliação, transforma a noite em um exercício coletivo de escuta, troca e reconhecimento, ampliando o sentido educativo e cultural da proposta.
Na avaliação dos docentes, o diálogo com a comunidade é um dos pontos centrais da proposta. O envolvimento do público na degustação e na escolha dos pratos amplia o sentido educativo do evento e mostra aos alunos que a cozinha também pode ser espaço de escuta, encontro e troca.
Em 2025, a etapa do concurso ocor-
reu no dia 27 de junho, com seis
equipes participantes, eviden-
ciando o amadurecimento do
evento e o crescente envolvi-
mento da comunidade local.
Para os alunos, a experiência vai além da competição. Eles reconhecem que o desafio de criar pratos à base de arroz os levou a refletir sobre suas próprias histórias, ingredientes ligados à memória familiar e a importância de cozinhar com identidade. Transformar um item cotidiano em prato principal tornouse, para muitos, exercício de pertencimento e autoestima profissional.
Os estudantes também avaliam o concurso como momento de síntese da formação. Técnica, criatividade e emoção se encontram no contato com o público, na responsabilidade de apre-
sentar um prato e na troca
comcolegas e profes-
sores. Cozinhar, nesse
contexto, passa a ser
também comunicação.
Criatividade, território e identidade
Os critérios de avaliação priorizam sabor, criatividade, apresentação e vínculo com o território. O uso de insumos locais, inclusive os oriundos da agricultura familiar, reforça o compromisso com a sustentabilidade e a economia regional.
As propostas surpreendem pela diversidade: arroz carnaroli com carnes defumadas, combinações com legumes locais, releituras que incorporam frutos nativos e sobremesas que ressignificam o arroz com delicadeza e sofisticação são exemplos das edições passadas. Cada criação funciona como narrativa visual e sensorial sobre o território missioneiro.
Mais do que receitas, os pratos revelam processos de aprendizagem, ancestralidade e identidade cultural — indicando que cozinhar também é um ato de pertencimento.
Arroz em forma de sobremesa, leve e surpreendente.
Arroz em versão salgada que valoriza o território. Foto: Instagram
Uma aula de pertencimento
Ao longo do evento, o Sabores da Região se afirma como experiência formativa. A cozinha se transforma em espaço de escuta, memória e expressão. Trabalhar o arroz como elemento central é reconhecer sua importância histórica, econômica e afetiva na região.
Mais do que premiar, o concurso emociona, cria vínculos e transforma a prática culinária em vivência coletiva, reafirmando a gastronomia como território, linguagem e cultura em movimento.
Sabores regionais transformados em criação autoral.
Foto: Instagram
Doce à base de arroz: simplicidade reinventada. Foto: Instagram
A
A celebração coletiva da Mostra Gastronômica
segunda etapa do evento, a Mostra Gastronômica, ocorreu no dia 9 de agosto. Realizada no Centro de Eventos da Associação Comercial e Industrial de São Borja, no Parque Serafim Dornelles Vargas, o almoço reuniu doze pratos típicos da região, apresentados como celebração da cultura alimentar local.
O espaço se transformou em um verdadeiro banquete cultural: cores, aromas e sabores se misturam ao orgulho de pertencimento, reforçando a gastronomia como expressão simbólica de um legado vivo na cidade reconhecida como a “Capital Gaúcha do Fandango”.
Fogo de chão: tradição que atravessa gerações. Foto: Instagram
Criações à base de arroz_ tradição e inovação.
Foto_ Instagram
Porque o arroz importa tanto aqui?
Presente diariamente nas mesas missioneiras, o arroz é mais do que alimento básico: é símbolo de convivência, herança cultural e base da gastronomia regional. Do prato feito ao risoto contemporâneo, ele atravessa gerações, adapta-se ao tempo e segue conectando campo, cidade e memória alimentar.
O arroz também sustenta a economia local. A cultura do grão é uma das principais fontes de renda de São Borja, que abriga diversas empresas ligadas à produção e ao beneficiamento do arroz, movimentando o setor agrícola, gerando empregos e fortalecendo o desenvolvimento regional. Assim, o que chega ao prato cotidiano é resultado de um ciclo que começa no campo, passa pelas indústrias locais e se completa à mesa.
Valorizar o arroz, portanto, é reconhecer um ingrediente que alimenta não apenas corpos, mas também histórias, trabalho e futuro.
Roteiros Gastronômicos
Sabores do Rio:
O Divino como
porta de entrada
da gastronomia ribeirinha
Divino: onde o rio encontra o prato. Foto: Marlon Bueno.
Às margens do Rio Uruguai, o Divino transforma o ato de comer em pausa: peixe no prato, paisagem à frente e o tempo seguindo outro ritmo.
Há lugares em São Borja onde o olhar chega antes do garfo. Onde a refeição começa não pelo cardápio, mas pela paisagem. O Cais do Porto, às margens do Rio Uruguai, é um desses cenários: tradicional ponto turístico e cultural da cidade, conhecido pela presença de diversos estabelecimentos que servem comida, bebida, vista e calmaria. Um dos cenários mais generosos da cidade — e é justamente ali que o comer ganha outro sentido.
Entre esses restaurantes, está o Divino Bar e Restaurante, que se tornou uma
Onde a gastronomia encontra a paisagem
Instalado no coração do Cais do Porto, bem de frente para o rio, o Divino convida moradores e visitantes a viver uma experiência em que sabor e contemplação caminham juntos. Sentar-se ali é aceitar um ritmo diferente: observar o rio, o movimento das lanchas, o vento constante e o silêncio bom que o Uruguai inspira.
Mas não se trata apenas de vista bonita. Trata-se de pertencimento. O Divino, as-
À beira do Rio Uruguai — encanto do Cais do Porto. Foto: Facebook
O rio no prato
Agastronomia do Divino conversa diretamente com a cultura alimentar de São Borja. Entre os destaques do cardápio, estão os pratos à base de peixe — carro-chefe do Porto como um todo e símbolo da relação histórica do município com o rio.
Outros clássicos dos restaurantes do Cais, como peixes fritos, grelhados, porções e combinações simples com saladas e arroz, fazem parte do imaginário local. O Divino contribui com sua própria interpretação desse repertório, mantendo a tradição sem abrir mão da técnica.
Formação, afeto e cozinha compartilhada
Àfrente do Divino Bar e Restaurante está Charles André Westphal, chef formado em Gastronomia pelo Instituto Federal Farroupilha – Campus São Borja, cuja trajetória reúne conhecimento acadêmico e vivência local. A cozinha do Divino nasce desse encontro: entre a técnica aprendida e a comida que se aprende em casa, entre a tradição e o desejo de inovar sem perder identidade.
Essa combinação aparece no resultado final: pratos que preservam sabores reconhecíveis, mas chegam à mesa com atenção estética, respeito ao produto e técnica apurada.
Roteiros Gastronômicos - Pág. 49 - 50
Piava frita e batatas: sabor ribeirinho. Foto: Marlon Bueno.
Peixe grelhado com camarão — simplicidade bem-feita.
Foto: Facebook
Formação, afeto e cozinha compartilhada
O restaurante é também um empreendimento familiar, conduzido por Charles e sua esposa, Tatiane Pedebos. Esse caráter íntimo é perceptível no atendimento próximo, no cuidado com os detalhes e no clima acolhedor — marca registrada dos estabelecimentos do cais.
É o tipo de lugar onde o visitante não se
sente apenas cliente. Sente-se convidado.
Uma experiência que começa antes do prato
Nas redes sociais, especialmente no Instagram, o Divino exibe um cotidiano simples e verdadeiro: fotos do rio, registros dos pratos, cenas do movimento do restaurante. Nas avaliações públicas, reforça-se um trio de qualidades que fideliza os clientes: boa comida, vista privilegiada e sensação de bem-estar.
Ao entardecer, o restaurante se transforma num mirante gastronômico. A luz baixa tocando o rio, o céu mudando de cor e o som suave da água criam
Salmão grelhado — elegância à beira do rio.
Foto: Instagram
Camarões dourados e irresistíveis. Foto: Instagram
Para quem é Divino?
O Divino Bar e Restaurante reúne, em um só endereço, elementos que definem um bom roteiro gastronômico: comida com identidade, vista marcante, acolhimento e sentido de lugar.
Porque algumas experiências não se resumem ao sabor.
Algumas ficam na memória — como o som da água,
o silêncio confortável e o gosto
de peixe servido à
beira do rio.