Operação Traíra Especial
MANAUS, DOMINGO, 17 DE ABRIL DE 2016
3090-1010
F1
redacao@emtempo.com.br
DIEGO JANATÃ
Tríplice Fronteira
Nome da operação foi escolhido pelo CMA porque, em fevereiro de 1991, um grupo de 40 guerrilheiros das Farc entrou no território brasileiro e fez uma emboscada
Exército combate tráfico de drogas entre países
P
01 - ESPECIAL.indd 1
ara inibir o tráfico de drogas nas fronteiras entre Brasil, Colômbia e Peru, os três países, liderados pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), realizaram a operação que reuniu militares dos países latino-americanos. Embora os resultados não possam ser mensurados pela quantidade de apreensões, os responsáveis pela operação ressaltam a importância da realização de manobras como esta, uma vez que mostram a força no combate às práticas ilícitas, bem como servem de base para outras ações de proteção da Amazônia.
15/04/2016 23:59:46
F2
Especial
Operação Traíra
O
crime está presente no dia a dia dos brasileiros. A falta de segurança é uma das principais reclamações da população. Esse sentimento cresce quando pensamos nos moradores da região de fronteira. Graças à vastidão da Floresta Amazônica, essas áreas se tornam mais vulneráveis para criminosos que aproveitam para praticar ilícitos transnacionais. Os mais comuns são o tráfico de animais silvestres, madeira e drogas. Em Tabatinga é possível sentir o clima de preocupação entre os comerciantes e moradores locais. Localizado no extremo oeste da Amazônia, distante mais de mil quilômetros de Manaus, o município participa da tríplice fronteira com Colômbia e Peru. Tal proximidade facilita a circulação desses criminosos que utilizam, muitas vezes, o rio Amazonas como rota para crimes. Uma comerciante local, que pediu para não ter o nome revelado por medo de re- Esperamos presálias, admitiu ao final da que, apesar dos operação dar esforços dos policias brasileiros, maior visibilia insegurança dade sobre a impera na cidade, presença da principalmente à Força Federal noite. Ela argumenta que é um na região de problema sério, fronteira da sendo comuns as- Amazônia saltos praticados Brasileira e dipor motoqueiros. minuir ilícitos “A segurança é ruim. Os crimes estão presentes Theóphilo Gaspar, general nas ruas. O tráfico de drogas é pesado. Vemos muito nas ruas da cidade É um problema muito sério. A noite as ruas ficam tomadas. Eles pegam e atravessam o material roubado para a Colômbia e vice-versa. É uma realidade da cidade. Muitas vezes eles entram pelo rio. Não conseguimos recuperar”, falou a comerciante. Separados apenas por uma barreira de monitoramento, Tabatinga e Letícia, capital do departamento de Amazonas (Colômbia) são cidades com trânsito intenso de veículos e pessoas. Um dos motivos é que brasileiros trabalham no país vizinho e o mesmo acontece com colombiano. Essa constante travessia dificulta a fiscalização. A comerciante explicou que, qualquer notícia de movimentação policial na área é rapidamente espalhada entre os moradores, o que modifica a tráfego nas cidades. “Qualquer fiscalização pega muita gente de surpresa. Percebemos a mudança na circulação de veículos na cidade. Isso faz bem para gente por causa da segurança”, enfatizou. Operação militar Buscando combater justamente essa circulação ilegal pelos países que, liderado pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), o Exército Brasileiro aliado as forças armadas da Colômbia e do Peru, organizou a operação Traíra. Realizada de 4 a 8 de abril, a manobra militar conduziu operações nas faixas de fronteira, realizando ações repressivas e preventivas no combate aos delitos transfronteiriços, com prioridade para a garimpagem ilegal e o tráfico em geral. A operação percorreu boa parte da fronteira da Amazônia, com início na Serra do Divisor, localizado no Acre, seguindo até a Serra do Traíra (Amazonas), o território foi patrulhado pelas quatro brigadas de fronteira da região. As Forças Especiais também estiveram na área. Segundo o comandante militar da Amazônia, general Guilherme Theóphilo Gaspar outro fator que pesou na decisão foram provas do reaparecimento da organização terrorista, Sendero Luminoso, no Peru. “Decidimos fazer essa operação, porque já temos notícia do ressurgimento do Sendero Luminoso. As nossas quatro brigadas de fronteira estão distribuídas no terreno. Vamos atuar de forma repressiva nas áreas de extração ilegal de minerais. Esperamos ao final da operação dar maior visibilidade de presença da Força Federal na região de fronteira da Amazônia Brasileira, ampliar os bancos de dados da inteligência e diminuir os ilícitos”, disse o general.
02 e 03 - ESPECIAL.indd Todas as páginas
Brasil, Colômbia e Peru na rota d tráfico de droga Operação Traíra contou com a participação das Forças Armadas do Brasil, Colômbia e Peru, países que compõem a tríplice fronteira
Posto de comando móvel ajuda a planejar novas estratégias Devido às grandes distâncias que se percorrem nos rios da Amazônia, o Exército Brasileiro decidiu investir em ferry boats como solução para manter contato com os inúmeros destacamentos espalhados pela região de fronteira. Essas embarcações são mobilizadas para se tornarem um posto de comando Tático Fluvial. Para a operação Traíra, um ferry boat saiu de Tefé e se instalou em Tabatinga. O general Rosty explicou que apesar da viagem demorada, oito dias, essa estrutura é fundamental pela possibilidade de troca de dados. Ela é composta de telefonia fixa, móvel, rádio e GPS. Assim, eles conseguem manter a comunicação com a base do 8º Bis em Tabatinga. Em movimento, ele perde algumas capacidades, mas o rádio continua operando normalmente. Em algum lugar que necessite de comunicação urgente, eles param a embarcação e redirecionam a antena do terminal transportável que serve para captar base de dados móveis. As informações captadas na operação Traíra serão estudadas e ajudarão no planejamento da operação Ágata, que acontece em toda região de fronteira do país. “Toda vez que fazemos
qualquer tipo de operação, além do trabalho no local, temos um trabalho de inteligência. Fazemos a análise pós-ação. Toda análise que fizermos ficará guardada e, consequentemente, utilizaremos essas informações na Ágata”, explicou o comandante que, completou revelando que durante o deslocamento do ferry boat, foi encontrada ao longo do rio Pureté material de garimpo.
FERRY BOAT Um dos meios de locomoção e comunicação utilizados pelas Forças Armadas no patrulhamento dos rios da região e na proximidade com os destacamentos são aos ferry boats “Ao longo do rio Pureté encontramos material de garimpo abandonado. Provavelmente, foram informados da operação e fugiram. O material era recente. Logo no primeiro dia houve uma grande apreensão de pescado ilegal de pirarucu. Cerca de 1,2 mil quilo, além de alevinos. Por volta de 800 quilos. Esses crimes são detalhados e mapeamos a região para combater os ilícitos”, analisou o general.
FOTOS: DIEGO JANATÃ
MANAUS, DOMINGO, 17 DE ABRIL DE 2016
F3
Grandes apreensões devem ser realizadas após a operação A operação Traíra movimentou mais de mil soldados brasileiros que fizeram ações de revista terrestre e aquática com postos de controle. Os destacamentos verificavam os documentos e material de quem circulava no perímetro de fronteira. No total, foram mais de 31 mil quilômetros percorridos por meios fluviais, terrestres e aéreos. Foram feitas 571 inspeções de embarcações, sendo que nove foram notificadas; 740 vistorias em motos; 335 em veículos leves; 46 em caminhões; dez em ônibus e vans, 923 revistas de pedestres e bicicletas; e quatro inspeções do Ibama. Foram apreendidas: duas embarcações, 1,2 mil toneladas de alevinos; 2.240 litros de combustível; 140 quilos de pescado ilegal; 18 animais silvestres; 32 fiscalizações de pessoas jurídicas
e nove buscas e apreensões. Apesar dos números finais, o general Rosty explica que os grandes resultados desta operação só serão vistos no futuro, porque quando os bandidos descobrem que uma manobra está acontecendo, naturalmente se escondem e procuram novas rotas. Assim, acabam ficando expostos em futuras viagens. “Com o deslocamento de tropas e aeronaves sobrevoando naturalmente a movimentação dos criminosos diminui. Por isso que o segredo do sucesso está no trabalho interagências (Exército, Marinha, Força Aérea e outros órgãos), como parceiros. Até dizemos que não importa quem faça a apreensão, o importante é tirar aquele ilícito de circulação. Tanto faz. O importante é fazer diminuir a criminalidade”, argumentou.
a do as Pesquisadores ajudam Forças Armadas brasileira e colombiana Durante a operação Traíra, os militares da tríplice fronteira se reuniram na Universidade Nacional da Colômbia. Em um auditório da instituição, brasileiros e colombianos participaram de uma palestra comandada por professores locais. “Visitar centros de estudos na Colômbia é agregar conhecimento. Isso ajuda a nossa força militar e a da Colômbia também. Em um simples panfleto que recebi do general Cruz, descobri onde temos telefone, combustível, suprimentos e outro material na fronteira colombiana. Se não procuramos, nunca saberemos essas informações. Falta integração entre os países e estamos procurando justamente isso. Podemos utilizar combustíveis e as bases para combater os ilícitos. Estamos procurando essa aproximação. Na Amazônia isso é tudo”, enfatizou Theóphilo. Investindo em tecnologia, o exército criou o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron) que visa instalar novos radares no território brasileiro. Até o final de 2019, o programa Amazônia Conectada será finalizado. Com a instalação de cabos subfluviais de fibra óptica, o problema de internet será resolvido na região. As instalações já chegaram em Tefé e está planejado que chegue a Tabatinga até o final deste ano. “Não conseguimos transmitir dados e nem foto das áreas remotas da Amazônia. São 7,5 mil quilômetros de fibra óptica. A previsão é que
até 2019 tenhamos terminando as cinco calhas dos rios Negro, Solimões, Madeira, Purus e Juruá. Teremos esse problema resolvido”, disse o militar. Participando da comitiva, o biofísico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), João Paulo Machado Torres ressalta o quanto é importante aproveitar a parceria com os países vizinhos para detalhar as riquezas da área e assim, conseguir monitorar a extração ilegal que acontece na região. “Tudo passa pela criação de parcerias onde a base seja a confiança mútua. Nós, que estamos lá no Sul, não olhamos para a Amazônia com os devidos olhos. O fato da floresta ter que se manter necessária é um compromisso do país, mas como preservar se não conhece? Aí que entram os professores, cientistas e pesquisadores. Agora é a hora de começar uma nova etapa nas pesquisas da Amazônia feita por brasileiros”, ressaltou João. Para facilitar nesta interação entre os países, o governo colombiano sancionou uma lei no início do ano que introduz a língua portuguesa nas escolas. O general Cruz afirma que essa é apenas a primeira medida tomada neste sentido. “Para qualificar o combate aos ilícitos transnacionais, devemos agir de maneira conjunta com o exército brasileiro. Por isso, colocamos no português nas nossas escolas. Assim, melhoramos a comunicação. Esse é o primeiro passo”, analisou Cruz.
16/04/2016 00:06:44
Especial
Operação Traíra
MANAUS, DOMINGO, 17 DE ABRIL DE 2016
DIEGO JANATÃ
F4
Mais de mil soldados colombianos já tiveram pernas amputadas por pisar em minas escondidas nos campos de coca e terem que arrancar pés por pés
Força colombiana ‘venceu’ Farc P
or mais de 50 anos, as Forças Armadas da Colômbia tiveram que guerrear dentro de seu próprio território contra um inimigo colombiano. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC) lutavam pelo comando das fronteiras e eram responsáveis pelo contrabando e narcotráfico entre os países da América Latina. Batendo de frente por grande parte desse período, o exército decidiu em 2008 mudar sua estratégia de combate, e foi assim que desmontou 73% da organização, obrigando os revolucionários a assinarem um acordo de paz em 2013. Querendo preparar um futuro certo, confiável e seguro para a América do Sul, o Exército colombiano fechou acordo militar com os Estados Unidos no começo dos anos 2000. Essa parceria foi fundamental para a mudança de pensamento. Segundo o general Cruz, por mais de 40 anos, eles lutaram apenas contra um subsistema, ao invés de pensar no problema como um todo. “Temos que identificar o problema e pensar: qual é a solução? Devemos organizar, estudar e decodificar o inimigo. Para combater as Farc, tivemos que analisar a organização como um sistema com braços, pernas, corpo e cabeça. Passamos 40 anos lutando contra um subsistema, o sistema armado. Quando começamos a pensar no todo e dividimos percebemos que deveríamos atacar cada parte. Financeiro, organização, armas e o que financiava. Em 4 anos, destruímos 73% da organização, o que levou a Farc a pedir para negociar a paz”, explicou o comandante. Para esse processo, 250 mil militares fizeram cursos estratégicos como operações especiais, curso de selva e estratégia. Além disso, idiomas como inglês, espanhol e português foram ensinados nos quartéis. Eles dividiram o país em 12 áreas que já era de conhecimento a atuação da FARC. Da fronteira do Brasil, a
Militares colombianos enfrentam dificuldades quando encontram plantações ilegais porque as áreas são protegidas por traficantes, o que acaba gerando conflito armado em algumas localidades fronteira com o Uruguai, todos com realidades diferentes, estratégias diferentes, que só com homens preparados, seriam capazes de combate o inimigo e iniciar o processo de paz. Durante esse processo de modernização, o general revela que o sistema de informática do comando militar colombiano sofria por dia, mais de cinco mil ataques diários, fato que comprovava o nível de organização da Farc. Com essa nova maneira de planejar suas ações, o exército adotou o mesmo sistema para combater o
novo inimigo da região: as organizações organizadas. “Combater esses crimes é o começo para o processo de transformação da área. Grupos de crime organizado, terroristas e narcotraficantes. Preparar o Exército da Colômbia para combater o terrorista mesmo sem ter motivo. Combater os grupos organizados que atuam em toda América Latina. Evitar os ataques ao meio ambiente com um exército que se importa, preserva e luta para combater o desmatamento”, concluiu Cruz.
Durante a operação, foram realizadas fiscalizações de orientação e de repressão nas cidades
Tráfico aumentou após decisão presidencial A Organização das Nações Unidas (ONU) informou que desde 2014, a produção de coca, matéria-prima da cocaína e do crack, cresceu cerca de 50%. Segundo o Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC), o acréscimo foi de mais de 130 toneladas. Para o general Francisco Cruz, o motivo é a dificuldade de combater as plantações após o presidente, Juan Manuel Santos, proibir a fumigação aérea. Alegando que o herbicida utilizado pelo exército causava câncer, má-formação e danos na vegetação, o presidente sancionou uma medida que proíbe seu uso pelas forças armadas. Agora, para erradicar uma área plantação ilegal, o processo utilizado é o manual. “Uma das maiores dificuldades encontrada é não poder aspersar as áreas. Usamos a inteligência para localizar, mapeamos, e temos que fazer a retirada manual dos pés de coca. Isso está contribuindo para o crescimento da produção. Fica impossível combater desse jeito. Estou convicto de que a única solução é destruir os locais onde produzem a pasta”, analisou Cruz.
EXPEDIENTE EDIÇÃO Michele Gouvêa
04 - ESPECIAL.indd 4
REPORTAGEM Thiago Fernandes
FOTOGRAFIAS Diego Janatã
DIAGRAMAÇÃO Mario Henrique Silva
TRATAMENTO DE IMAGENS Kleuton Silva
16/04/2016 00:04:50