Médio Rio Negro
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MANAUS, DOMINGO, 27 DE MARÇO DE 2016
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RICARDO OLIVEIRA
Piaçabeiros
À margem das leis trabalhistas, os piaçabeiros lutam para manter seu ganha-pão mesmo em meio à exploração a que são submetidos diariamente
Reféns do isolamento e da escravidão
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pesar da beleza poética do extrativismo de fibras na Amazônia, homens e mulheres da região do Médio Rio Negro, ao norte Estado do Amazonas, vivem reféns das suas limitações socioeconômicas. E mesmo com as intervenções do Ministério Público do Trabalho (MPT) e sentenças da Justiça do Trabalho, ainda há muita estrada, ou melhor, há muito leito de rio a se percorrer pelas instituições de defesa dos trabalhadores, a fim de livrar os piaçabeiros das correntes da escravidão contemporânea impostas pelos “patrõezinhos” e pela mentalidade do próprio “freguês”, extrativista que se vê dependente do rancho que chega a eles pelas mãos dos atravessadores.
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e dois a seis meses no meio da mata é o tempo médio que homens e mulheres da região do Médio Rio Negro, extrativistas de piaçava, vivem em cabanas improvisadas, com mantimentos calculados para seguir adiante sob os riscos da selva. Uma regra básica de sobrevivência que não para por aí, na vida dos piaçabeiros de Barcelos (a 399 quilômetros de Manaus), na busca pelas palmeiras de onde extraem seus sustentos. Sob as sombras do verde amazônico e as águas dos afluentes do rio Negro, fica a beleza poética do extrativismo. Contudo, apesar das intervenções do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Justiça do Trabalho, no isolamento em que eles vivem, além das condições análogas à de escravo que ainda se submetem, os piaçabeiros – também autodenominados como “fregueses” - encaram nos dias de hoje um dos piores momentos para atividade dos últimos anos. Além da estiagem que castiga o Médio Rio Negro, há relatos sobre a escassez das palmeiras na região. Segun- O piaçabeiro do a piaçabeira Maria Izabel da Silva Pinto, 42, os gran- de verdades volumes de palmeiras de é aquele de piaçavas estão cada vez que vai lá mais afastados da sede do no meio do município, em áreas isolamato e passa das. Ela observa que não há reposição programada onde meses corocorrem as extrações e a dis- tando a fibra tância de onde as palmeiras da piaçava, são encontradas, para onde amarra os as toras amarradas são vendidas, torna ainda mais difícil toros e vende a vida dos extrativistas, que para o patrão vivem reféns dos atravessadores, mais conhecidos Maria Izabel da Silva, como “patrões”. piaçabeira Moradora da comunidade do Tapera, há 12 horas da sede do município em barco de pequeno porte, Maria, que é descendente da etnia baré, explica que na localidade onde vive são poucas as palmeiras que sobraram após muitos anos de extração, o que não rende bons volumes para a venda. De acordo com ela, para conseguir grandes quantidades da fibra o piaçabeiro precisa deixar a comunidade e subir o rio Negro, de cinco a seis dias, rumo à região dos rios Preto e Padauiri, próximo à divisa de Barcelos com o município de Santa Isabel do Rio Negro. “Já foi cortada muita piaçava nas nossas comunidades. Agora, para extrair boas quantidades, só subindo rio acima. E para chegar num lugar bom, em tempos de rio baixo, temos que passar por três cachoeiras. E como a fibra está muito difícil de achar, depois que descemos do barco nós saímos cortando caminho por pelo menos duas horas de varadouro até encontrar. Se acertamos um lugar bom nós ficamos pelo menos dois meses acampados, próximos de igarapés”, relata a piaçabeira.
Depois de amarrada, a piaçava é guardada sob as águas de lagos e igarapés, para que a fibra não perca a sua qualidade com o calor
Piaçabeiros transportam a piaçava sobre suas canoas com motor rabeta, geralmente vendidas a eles pelos “patrões” em troca do produto
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Maria Izabel conta que, desde setembro do ano passado, o problema mais grave não era apenas chegar aos pontos da extração. Segundo ela, a venda da fibra ficou praticamente zerada porque, com o nível baixo do rio Negro, lagos e igarapés que facilitavam a chegada dos piaçabeiros ficaram muito rasos ou mesmo sem água por mais tempo que o comum. “Quando o rio está seco é muito ruim trazer a piaçava. E nesse ano seco mais do que o normal as condições ficaram piores para transportar e vender na sede do município”, observa. Agora, com a volta das chuvas, os piaçabeiros estão retomando as atividades, para alívio dos fabricantes de vassoura da sede de Barcelos que passaram pelo menos cinco meses sem conseguir comprar a fibra para beneficiar a piaçava. O operário Marcelo do Carmo de Souza, 38, que trabalhava numa pequena fábrica localizada na orla de Barcelos, conta que nunca tinha passado tanto tempo sem beneficiar a fibra e espera que as canoas não demorem mais tanto tempo para descer o rio Negro carregadas de piaçava. “Já tivemos muitas secas no município, mas agora parece que está muito mais difícil para os extrativistas conseguirem a piaçava para vender aqui na cidade. Espero que eles voltem a descer o rio com as canoas e barcos cheios de piaçava para que a gente possa trabalhar”, comenta o operário.
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‘O piaçabeiro só trabalha quando quer’
A poesia e a escravidão do extrativismo Piaçabeiros do município de Barcelos, na região do Médio Rio Negro, ainda vivem reféns do isolamento e da ausência do Estado sobre a cadeia produtiva da fibra de piaçava, além de enfrentar um dos piores momentos da atividade por conta da estiagem
O pastor Gilmar Bento da Silva, 53, acostumado a trazer de duas a três toneladas de toros de piaçava à sede de Barcelos, em seu barco de pequeno porte, não nega que atua como atravessador. Neste ponto, ele critica a ausência do Estado sobre a atividade econômica no município. Na sua visão, “não existe essa de escravidão” na atividade extrativista da piaçava, uma vez que, segundo ele, “o piaçabeiro trabalha quando ele quer e amarra piaçava quando quer”. Seguindo essa premissa, Gilmar, que também é presidente da associação comunitária do Tapera e Padauiri, avalia que não tem condições de atender o que o MPT pediu na sua intervenção sobre a relação entre “patrões” e “fregueses” da região. Ele argumenta que a distância das localidades de extração da fibra é o maior problema para investir em estruturas. O pastor alega que os lucros com a piaçava não dão condições para esses investimentos, uma vez que ele paga ao piaçabeiro R$ 2 pelo quilo da fibra e vende na sede de Barcelos aos fabricantes de vassouras por R$ 2,40. Observa ainda que perde muito com os custos de transporte no seu barco que consome, aproximadamente, 120 litros de gasolina no trecho entre a região do Padauiri à sede do município. O litro da gasolina, no pontão em frente à cidade, custa R$ 4,35. “O Ministério Público do Trabalho quer que nós montemos acampamentos com banheiros, mas não temos condições de fazer isso. O que não podemos é deixá-los morrer de fome em lugares distantes. Por isso levamos ranchos para vender para eles em troca da piaçava amarrada”, diz. “Não dá para enricar com a piaçava por aqui. Sem o atravessador não tem governo para fazer o transporte do produto para os piaçabeiros”, finaliza. Em estudo sobre a dinâmica e os conflitos territoriais dos piaçabeiros do Médio Rio Negro, a antropóloga Elieyd Souza de Menezes observa que o trabalho de homens e mulheres se dá sob o sistema de aviamento entre patrões e fregueses, que são os próprios piaçabeiros, os quais já seguem para atividade extrativista endividados. “O patrão patrocina a viagem que o piaçabeiro tem que pagar com juros, o que faz a dívida sempre permanecer”, explica. Na comunidade do rio Araçá, onde a antropóloga realizou o estudo, Elieyd observa que há um conflito territorial, uma vez que as comunidades indígenas que nela vivem estão requerendo a área como terra indígena (TI). “A reivindicação territorial é para o uso dos recursos naturais que até então estavam fechados pelos patrões, que se diziam donos da área”, observa. FOTOS: RICARDO OLIVEIRA
Tímidos, são poucos os piaçabeiros que conseguem falar sobre as suas condições e a maioria prefere o anonimato para não se complicar com o atravessador
Dívidas impagáveis aos “patrõezinhos” Depois que a fiscalização do MPT chegou em Barcelos, em 2014, para combater o que o órgão classificou como escravidão contemporânea, muitos atravessadores chamados de “patrões” deixaram o negócio. O ministério cobrou deles, a favor dos piaçabeiros, a aplicação das regras trabalhistas a fim de garantir a segurança alimentar e de vida com a construção de acampamentos dignos, com iluminação e banheiros, bem como a Carteira de Trabalho assinada (leia mais na página 4). A piaçabeira Maria Izabel afirma não ter o documento da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ela, que hoje é uma das diretoras da Associação Indígena de Floresta e Padauiri (AIFP), relata que antes da ação do MPT no município era possível encontrar na região mui-
tos “patrõezinhos ruins” com os piaçabeiros, que pagavam mal pela piaçava amarrada. Segundo ela, além disso, um número grande de homens e mulheres ficavam muito mais reféns dos “patrões” porque, além do alto preço dos ranchos que eles entregavam em troca das toneladas de toros de piaçava amarrados, a dívida dos “fregueses” aumentava ainda mais por conta de bebidas alcoólicas, como principalmente a cachaça. “Agora mesmo tem uns patrõezinhos com fregueses que devem mais de R$ 2 mil porque esses se perdem na cachaça e não conseguem pagar a dívida com a piaçava”, aponta. Em tese de mestrado defendida em 2007, na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a pesquisa-
dora Lilia Maria de Oliveira Reis observa que homens e mulheres da região do Aracá, no Médio Rio Negro, já viviam reféns das condições impostas pelos “patrões” e não encontravam caminhos como associações ou cooperativas para se libertarem do sistema de aviamento. Ela relatou casos de um piaçabeiro que comprou do patrão um motor rabeta e já fazia seis anos que ele não conseguia saldar a dívida, que já chegava a R$ 16 mil. A pesquisadora relata que muitos dos piaçabeiros preferiam viver dos ranchos dos patrões a viver do plantio de agricultura familiar para a própria alimentação. “Acostumouse à sua própria condição de vida e não encontra forças para mudar, preferindo continuar atolado em dívidas”, afirma.
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Rolos de piaçava amarrados descem de localidades isoladas pelo rio Negro rumo a Barcelos e Manaus para fabricação de vassouras ou criação de peças de artesanato
O peso da Justiça sobre os patrões A
Justiça do Trabalho amazonense condenou o empresário Luiz Cláudio Morais Rocha, mais conhecido como “Carioca”, e a sua empresa Irajá Fibras Naturais Amazônia, a desembolsarem o valor global de R$ 555.472,94 para 13 trabalhadores extrativistas de piaçava dos municípios de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. A Ação Civil Pública, movida pelo Ministério Público do Trabalho no Amazonas (MPT-AM), o acusava de prática de exploração dos piaçabeiros, que foram resgatados em 2014, sob condições análogas à de escravo. O órgão foi notificado da sentença no começo de março. A decisão, assinada pela juíza do Trabalho, titular da Vara de Presidente Figueiredo reclamatória da itinerância em Barcelos, Joicilene Jerônimo Portela Freire, rejeitou ação do empresário que alegava a ilegitimidade das acusações que caíram sobre ele e sua empresa, localizada na orla de Barcelos (a 399 quilômetros de Manaus). Nesse sentido, a juíza condenou os réus a pagarem aos trabalhadores resgatados R$ 125,4 mil, a título de verbas rescisórias decorrentes do vínculo empregatício, reconhecido na decisão da magistrada, com valores individuais que variam de R$ 2 mil a R$ 20 mil por piaçabeiro. O empresário também fica obrigado a pagar para cada um dos 13 piaçabeiros resgatados em condições análogas à de escravo o valor de R$ 10 mil, como indenização por danos morais individuais. O empresário Carioca e a sua empresa deverão desembolsar ainda R$
Após ação do MPT-AM, empresário do segmento de beneficiamento de piaçava foi sentenciado a pagar mais de meio milhão por conta da exploração de piaçabeiros em condições análogas às de escravo 300 mil por danos morais coletivos. Este valor será destinado a programas ou ações sociais de entidades públicas ou privadas, sem fins lucrativos, realizadoras de atividades de interesse público ou social que atuem nos municípios de Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. Sem entidades aptas, a sentença indica o depósito no Fundo de Amparo ao Trabalhador. Na sentença, Joicilene obriga aos réus disponibilizar alojamentos aos seus trabalhadores extrativistas de piaçava. E que neles tenha instalações sanitárias, lavanderia e local adequado para o preparo do alimento, além de área própria para a refeição. A magistrada cobra também a disponibilização de água potável, fresca e em quantidade suficiente para a temporada de trabalho, além de equipamentos de primeiros-socorros. A lista de itens obrigatórios cobrados pela magistrada segue com obrigatoriedade do fornecimento, de forma gratuita, de ferramentas adequadas aos trabalhadores bem como às características físicas deles e que a substituição seja feita sempre que necessário. Cobra ainda que o empresário submeta os trabalhadores ao exame admissional antes que assuma as atividades, bem como a realização de avalia-
ções de riscos para a segurança e saúde dos piaçabeiros. A cobrança da magistrada segue com a admissão de empregados que possuam Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) e cumprir com as devidas anotações, no prazo de 48 horas contado do início da admissão da prestação laboral. Entre outras obrigatoriedades, a sentença cobra a garantia da remuneração diária não inferior ao salário mínimo/dia ao empregado que trabalha por empreitada, tarefa ou peça, a concessão do descanso semanal de 24 horas consecutivas, além do 13º salário. A procuradora do Trabalho, Geisekelly Santana, explica que a decisão da Justiça do Trabalho levou em consideração a totalidade das obrigações trabalhistas, de forma difusa, o que impõe ao empresário a assegurar os direitos de todo e qualquer trabalhador que recrutar para a sua atividade. O único ponto que a magistrada indeferiu, segundo a procuradora, foi a totalidade do valor requerido por danos morais coletivos. O MPT-AM pediu que Carioca fosse condenado a pagar R$ 5 milhões, a título de indenização coletiva. Contudo, a juíza argumentou que a
instituição não recolheu provas suficientes da capacidade econômica do réu. “Mas nós recorremos, porque justamente pela informalidade da cadeia, por conta do aviamento, não tem como medir essa capacidade econômica do réu. A juíza deu uma sentença bem fundamentada. Ela reconheceu a gravidade do ilícito, mas entendeu que não tínhamos provas da carga econômica”, explica. Medo Segundo Geisekelly, durante os trabalhos na selva, o número de resgatados poderia ter sido maior, na época, mas muitos se esconderam na mata. “É muito trabalhoso efetivamente conseguir abraçar todo mundo da causa. Alguns trabalhadores, na época do resgate, ficaram com medo de ser responsabilizados pelo patrão de alguma forma e acabaram se escondendo das operações”, conta. A ação, que resultou no resgate dos trabalhadores extrativistas, em 2014, partiu do Grupo Especial de Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego, formado por auditores fiscais, procuradores do Trabalho, procuradores da República, agentes da Polícia Rodoviária Federal e o apoio do 3º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Brasileiro.
EXPEDIENTE EDIÇÃO/REPORTAGEM Emerson Quaresma
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FOTOGRAFIAS Ricardo Oliveira
DIAGRAMAÇÃO Mario Henrique Silva
TRATAMENTO DE IMAGENS Kleuton Silva
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