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Especial Médio Rio Negro - 3 de abril de 2016

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Médio Rio Negro

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Especial

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redacao@emtempo.com.br

Piabeiros

RICARDO OLIVEIRA

MANAUS, DOMINGO, 3 DE ABRIL DE 2016

Do mesmo modo que os piaçabeiros (edição anterior), os piabeiros, que também vivem às margens do rio Negro e das leis trabalhistas, tentam manter viva a atividade extrativista

A resistência da pesca ornamental

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vida dos piabeiros, que vivem da pesca do peixe ornamental, às margens do rio Negro e de seus afluentes no município de Barcelos (a 399 quilômetros de Manaus), é à margem das leis trabalhistas: sem vínculo empregatício, os piabeiros vivem abandonados pelo Estado. Nesse cenário, a pesca de peixe ornamental, que já foi a 8ª em volume de exportação do Amazonas e já garantiu trabalho para mais de 10 mil pessoas em Barcelos, nos anos 1990, vive hoje em declínio, com poucas famílias se mantendo na resistência da atividade.

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Para que os piabeiros consigam capturar os peixes, eles precisam fazer mergulhos noturnos, geralmente entre 19h e as 2h. Há dias, porém, em que esse trabalho se estende até as 5h, sob as águas negras

Pesca ornamental em Barcelos já foi a 8a economia do Estado e garantiu o sustento de mais de 10 mil famílias. Atividade já representou 60% da receita do município

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com uma maior frequência, durante as noites, que ele mergulha com máscara protetora sobre os seus olhos, das 19h às 2h ou até às 5h, em dias bons. Antes, ele tateia com os pés o fundo dos igarapés e lagos, a procura de troncos para pisar, pois, teme os monstros das águas como arraias, jacarés e bagres gigantes. A cada mergulho, a esperança de uma vida melhor, com comida no prato, vem nas mãos com pequenas obras da natureza, que encantam olhares nos aquários do mundo. Os piabeiros, como são conhecidos homens e mulheres que vivem da pesca artesanal de peixes ornamentais, resistem às dificuldades e ao tempo, numa atividade que em Barcelos (a 399 quilômetros de Manaus), no médio rio Negro, já foi a 8ª economia do Estado do Amazonas e já garantiu sustento a mais de 10 mil famílias. Chegou a representar até mesmo 60% da receita barcelense. Mas, do trabalho extrativista sobre as águas do rio Negro, que começaram em meados dos anos 1950, sem políticas públicas para incentivar o segmento, poucos são os piabeiros que se mantêm na atividade, vencendo as distâncias e as condições impostas por atravessadores e barreiras econômicas estabelecidas pelo governo brasileiro. Da comunidade de Bacabal, a um dia de viagem de motor rabeta, para a sede de Barcelos, o piabeiro Carlos Alberto da Paixão, 45, é um dos poucos que resistem ao tempo. Há mais de 30 anos na atividade, ele conta que nos últimos tempos vem

sentido, cada vez mais forte, a diminuição da quantidade de pescadores ornamentais na região. Segundo ele, o volume menor possivelmente se dá por conta do número de atravessadores e exportadores que compravam suas pescas, que também foi diminuindo com o tempo. Outro ponto que desestimula o trabalho - mas ele não desiste -, é o preço do peixe ornamental que pagam aos piabeiros. Paixão explica que, para cada milheiro de bodó jauari, mais conhecido como limpa vidro, por exemplo, ele recebe R$ 1 mil quando vende para um atravessador sério. Da última vez que chegou à sede de Barcelos, o piabeiro conseguiu trazer, aproximadamente, três milheiros de peixe ornamental de uma pesca que fez com o sogro, o cunhado, a esposa e o filho. O pagamento, no entanto, Já ouvi fanão veio na hora. lar que o O piabeiro questiona o preço mé- exportador dio de R$ 1 pela de Manaus unidade do bodó vende por um jauari, pago a ele valor até sete pelo atravessador, vezes mais porque já ouviu que o exportador caro. Se é de Manaus vende isso mesmo, por um valor até poderíamos sete vezes mais receber um caro. “Se é isso mesmo, a unidade pouco melhor poderia sair pelo menos a R$ 1,20 Alberto da Paixão, piabeiro ou R$ 1,50 para nós piabeiros. Nós

O mergulho da renovaçã da esperanç Mercado de peixes ornamentais, que já foi a oitava economia de exportação do Amazonas, se mantém nas águas do rio Negro com homens de coragem, que enfrentam os “monstros”, fenômenos da Amazônia e os atravessadores que passamos dias e noites pescando poderíamos receber pelo menos um pouco melhor”, reclama Paixão. Depois de quase 12 horas de viagem numa embarcação de, aproximadamente, 10 metros de cumprimento, por 1,5 metro de largura, empurrado por motor rabeta, o piabeiro conta que faz a entrega da carga ao atravessador. Quando dá tudo certo, ele e a família, formada pela esposa e três filhos, passam de dois a três dias hospedados na orla da cidade, na própria canoa coberta por palha de ubim e dormindo sobre redes. A alimentação é preparada no próprio bote. A fumaça do forno improvisado ajuda a espantar os mosquitos. Para Paixão, a maior dificuldade da atividade de piabeiro, aos que moram mais longe, é a viagem da comunidade à sede de Barcelos. Em dias de águas muito agitadas, a família corre o risco de naufrágio. Além dos devidos cuidados para não perder a carga, o piabeiro diz que as tempestades também influenciam no tempo de chegada à área urbana para entregar os peixes ornamentais ao recreio que leva a pesca para Manaus. Caso ocorram chuvas, a viagem demora tempo muito maior. E perdida a hora do recreio, ao invés de passar três dias na orla da cidade, a família terá que esperar o comprador voltar na próxima semana.

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FOTOS: RICARDO OLIVEIRA

Carlos da Paixão se hospeda com a sua família, na orla de Barcelos, sobre a sua embarcação, para entregar a pesca ao atravessador

Normas que levaram à falência A queda no volume de venda dos peixes ornamentais, em Barcelos, entre outros problemas políticos e sociais, rendeu à cidade, em novembro do ano passado, o título de cidade com o segundo pior nível de desenvolvimento socioeconômico da Região do Norte do país. O resultado foi divulgado pelo Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) 2015,

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Eudes Soares, rapiché na mão, sobre a sua canoa, é piabeiro desde menino, mas também faz o papel de atravessador e reclama da ausência do Estado

‘Como seria o mercado sem atravessador?’ Piabeiro desde menino, quando acompanhava o pai, Eudes Soares Souza, 45, não nega que hoje também atua no papel de atravessador. Dos poucos barcelenses que mantêm aquários em casa, ele diz que sem alguém que faça esse papel de intermediador na cadeia produtiva entre os pescadores e os exportadores, a atividade já teria acabado de uma vez por todas na cidade. Eudes, que também sentiu a queda no volume da venda dos peixes ornamentais, aponta que um dos motivos foi o fechamento da empresa do exportador Raimundo Ribeiro, que tinha contrato com mais de 40 piabeiros. “Caiu muito a venda depois que o seu Ribeiro teve uns problemas com a Polícia Federal. Não sei exatamente o que, mas que forçou ele a fechar a empresa dele de exportação de peixes ornamentais. Depois que o seu Ribeiro fechou o negócio, o nosso mercado enfraqueceu muito”, avalia. Mas, o que pesa mesmo para o negócio, segundo Eudes, são os impostos que o Brasil criou para

a atividade. “Os compradores reclamam muito dos impostos, que estão muito caros, além da dificuldade de transporte. Por conta disso, fiquei sabendo que muitos compradores internacionais passaram a reproduzir espécies de peixes ornamentais da nossa região em viveiros. Claro que alguns já perceberam que o natural, do nosso rio, é melhor. O cardinal deles não é o mesmo cardinal das águas dos lagos e igarapés da região do nosso rio Negro”, afirma. Atualmente, como atravessador, Eudes que conta com apoio da esposa Mara Castro Pinheiro, 36, afirma que paga aos oito piabeiros que o acompanham na atividade valores razoáveis por unidades de espécies como o acará-discu, a R$ 3, o bodó-cutia, a R$ 2, o bodójauari, a R$ 1,20 e o ituí-cavalo, a R$ 0,50. Mas, o carro-chefe do seu negócio ainda é a espécie cardinal neon, que apesar de um preço bem menor por unidade em relação as demais, ganha força por conta do volume disponível na região e do interesse internacional sobre suas cores e a sua beleza nos aquários

do mundo. Eudes diz que paga de R$ 16 a R$ 18 pelo milheiro da espécie, dependendo do tamanho. Ocorre que, com a estiagem que atinge a região Norte do Amazonas e causou seca prolongada nas águas de lagos e igarapés banhados pelo rio Negro, a pesca do cardinal ficou prejudicada desde setembro do ano passado até os dias de hoje. “Com a seca que começou em setembro (de 2015), nós já estamos há mais de cinco meses sem vender cardinais por conta da estiagem. Ficamos um pouco no prejuízo porque esse peixe é o nosso carro-chefe”, explica. Espécie

Num mundo de beleza e dificuldades, crianças seguem seus pais, em Barcelos, na atividade extrativista

Preço Milheiro

Bodó Cutia

R$ 2 mil

Bodó Jauari

R$ 1,2 mil

Ituí-cavalo

R$ 500

Acará-disco

R$ 3 mil

Cardinal

produzido pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). De acordo com a ex-chefe de gabinete da prefeitura de Barcelos, Joseli de Macedo Bezerra, a perda de mercado da exportação de peixes ornamentais se deu, nos últimos anos, porque o Governo Federal estabeleceu normas e critérios para a exploração desse mercado, que levaram muitos exportadores de Barcelos à falência. “O próprio Governo Federal não conseguiu fazer o reordenamento pesqueiro da cadeia produtiva e de valor desse segmento extrativista. Cerca de 80% da população de Barcelos e dos municípios da calha do rio Negro vivia da exportação de peixes ornamentais. O governo criou o Ministério da Pesca, mas, depois se desfez dele. Antes, o Ibama até fazia alguma coisa por nós, mas agora não fazem nada”, observa Joseli. Outro problema que agravou a exploração de peixes ornamentais em Barcelos, segundo ela, foi a informação de que alguns peixes da região estariam levando doenças, o que na sua avaliação é resultado negativo da guerra de mercado com os exportadores do Estado do Pará, que é o segundo maior produtor do segmento. “Nós até tínhamos conhecimento técnico para o tratamento, mas os empresários não conseguiram reverter a propaganda negativa. O Governo Federal precisa nos ajudar, porque, até mesmo o turismo da pesca esportiva, que poderia ajudar muito não consegue se desenvolver porque ainda está muito desorganizado na região”, avalia.

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Peixes como o acarádisco do rio Negro passaram por melhoramento genético na Ásia, gerando mais de 200 novas espécies. Enquanto isso, no Amazonas, falta fomento à pesquisa e incentivos fiscais

Entre a ausência do Estado e a pirataria I

nstituições de pesquisa e de controle federal, no Amazonas, dão conta de que a pesca ornamental de Barcelos, que já alcançou índices econômicos incríveis no Estado entre os anos 1980 e 1990, hoje sofre uma queda no volume de exportação, principalmente por conta da concorrência com o mercado asiático. Das 25 exportadoras, que atuavam em Manaus, nos 1990, atualmente, segundo a coordenadora do curso de Pós-Graduação em Ciências Pesqueiras nos Trópicos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Kedma Yamamoto apenas cinco se mantém em atividade. A atividade extrativista de Barcelos, que ganhou o mercado internacional após a descoberta do peixe cardinal pelo explorador norte-americano, doutor Herbert Axelrold, de acordo com a pesquisadora, entre as décadas de 1980 e 1990, chegou a ser responsável por 60% da econômica de Bacelos e empregava mais de 10 mil pessoas. Conforme estimativa da Cooperativa de Pescadores de Peixes Ornamentais de Barcelos, esse número está reduzido a pouco mais de um mil piabeiros em atividade. Segundo, a professora Kedma, a concorrência com os países asiáticos é responsável pelo declínio da atividade no Amazonas, principalmente para Singapura e Japão, que hoje são os líderes em piscicultura ornamental, com produção em cativeiro. “O extrativismo do Amazonas enfraqueceu muito, primeiro pelo fechamento de grandes empresas exportadoras como a Turkys Aquários. Lá na Ásia, eles têm o melhoramento genético que garante um número expressivo de peixes mais coloridos e diversificados, que é o que desejam os aquaristas do mundo. Hoje para exemplificar, existem mais de 200 variações de acarásdiscus”, explica. Apesar do avanço genético dos

Apesar da concorrência com países asiáticos como os líderes, o cardinal da Amazônia se mantém como o mais querido dos amantes de aquários do mundo

Com a burocracia do governo brasileiro, a pesca de peixes ornamentais de Barcelos perdeu espaço para o mercado asiático e ainda sofre com o sequestro de espécies por piratas colombianos e bolivianos

asiáticos, a pesquisadora afirma que eles ainda, não conseguiram copiar o cardinal do rio Negro, que ainda é o líder das exportações no Amazonas para os Estados Unidos da América (EUA) e a Europa, em países como Alemanha, Holanda e Itália. Ela alerta que, para enfrentar a concorrência asiática, os governos federal e estadual precisam fomentar mais pesquisas sobre a atividade extrativista e gerar incentivos fiscais para facilitar a retomada do mercado pelos exportadores, que vem abandonando o negócio, por conta da burocracia brasileira com seus protocolos, taxas de exportação e o aumento do dólar e do frete.

“Os exportadores não são os vilões da cadeia produtiva da pesca ornamental, como muitos acham. Sem eles, a pesca ornamental também não existiria. Eles fazem parte da cadeia produtiva. O que precisa é de uma distribuição mais equitativa dos lucros desta atividade e, no caso um preço melhor de venda para os piabeiros onde o negócio seja lucrativo para todos”, avalia Kedma Yamamoto. Na cadeia produtiva, a especialista explica que o piabeiro, a base da atividade, passa a produção para o atravessador - que eles chamam de patrão - que leva para o exportador. “Por isso, um

outro ganho seria que os piabeiros se reunissem em associações e cooperativas para agregar mais valor ao produto. São pessoas bem simples. Existem famílias que não são exclusivamente piabeiros e que vivem de outras atividades quando o rio está muito seco e durante a cheia”, diz. Em artigo publicado em revista científica com o título ,“Exportação de peixes ornamentais do Estado do Amazonas”, pesquisadores amazonenses apontavam a atividade como o terceiro principal produto amazonense extrativista exportado sem o devido monitoramento do comércio. O levanta-

mento identificou que, entre 2002 e 2005, aproximadamente 100 milhões de peixes ornamentais foram exportados da região, o que correspondeu, à época, a U$S 9,6 milhões para o mercado internacional e R$ 1,5 milhão para o mercado nacional. De acordo com Kedma Yamamoto, somente em 2005, foram exportados mais de 25 milhões de peixes ornamentais, o que revela que a contribuição de Barcelos para as exportações brasileiras era de 90% por conta da pesca extrativista. O restante da exportação é proveninte do Pará e de localidades do interior de São Paulo. Biopirataria O presidente da Cooperativa de Pescadores de Peixes Ornamentais de Barcelos, piabeiro João de Souza Freitas, lembra que viveu grandes momentos na atividade, mas que hoje a realidade é totalmente diferente, por conta da burocracia imposta pelo governo brasileiro, a qual, segundo ele, abriu precedentes para a biopirataria e o sequestro de espécies por piratas bolivianos e colombianos. “Muitos compradores internacionais deixaram de comprar o peixe ornamental da gente e passaram a compra na Colômbia e na Bolívia de gente que vem pegar os nossos peixes no rio Negro”, denuncia. Para tentar manter a atividade em pé no município de Barcelos, o presidente da cooperativa diz que busca com a entidade organizar o segmento. Mas, ele observa que falta estrutura e a presença do Estado para incentivar a pesquisa e a organização da cadeia produtiva, casada com a atividade da pesca esportiva, que ainda de forma desorganizada atrai muitos turistas estrangeiros, os quais poderiam ser compradores ou elos para exportação das espécies ornamentais da bacia do rio Negro.

EXPEDIENTE EDIÇÃO/REPORTAGEM Emerson Quaresma

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FOTOGRAFIAS Ricardo Oliveira

DIAGRAMAÇÃO Mario Henrique Silva

TRATAMENTO DE IMAGENS Kleuton Silva

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