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Especial Anamã - 31 de maio de 2015

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ANAMÃ

MANAUS, DOMINGO, 31 DE MAIO DE 2015

redacao@emtempo.com.br

(92) 3090-1017

Desde março, o Solimões sobe o volume de água todo dia, de três a quatro centímetros por dia, mas a vida em Anamã tem que seguir em frente

A cidade que o rio engoliu F CIDADE

LUTUAN

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MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

namã (AM) – A primeira imagem que se tem de Anamã – a 160 quilômetros de Manaus –, nos remete a uma “Veneza” perdida nos trópicos. Mas, contemplando sem romantismo as cenas curiosas da movimentação sobre as águas do Solimões, que há três meses engoliram a cidade, o quadro nos remete a uma outra lembrança: a do filme pós-apocalípto “Waterworld - o segredo das águas”, protagonizado e financiado por Kevin Costner, onde, num futuro indeterminado, a calota polar derreteu e toda a superfície terrestre foi coberta pela águas, formando um cenário ecologicamente devastado.

RICARDO OLIVEIRA

Caderno G

Especial


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Especial

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F CIDADE RICARDO OLIVEIRA

O garoto rema para chegar até a Igreja de São Francisco, o único prédio que, “milagrosamente”, a água não invadiu

LUTUAN

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Anamã é “Waterworld”, com a diferença de que, apesar de inundada pelo mundo de água do Solimões, não está devastada. A 32 centímetros da grande enchente de 2012, o município revive o trauma do avanço das águas do Solimões que se repete todos os anos, quebrando a rotina e a paz de seus habitantes. Apesar do furor do Solimões, que desde março sobe o volume de água todo dia, de três a quatro centímetros, a vida tem que seguir em frente. Anamã está 100% embaixo d’água, mas seus habitantes seguem a rotina, apenas substituindo motocicletas, bicicletas e os poucos carros por canoas. De manhã cedinho, o “trânsito” é intenso, eles vão à padaria, à farmácia, ao posto de saúde, ao banco eletrônico, ao mercado e até fazer uma fezinha na Loteria da Caixa remando, ou deslizando suas voadeiras pelas “ruas” que viraram rios há três meses. Homens, mulheres com bebês no colo, velhos, jovens e crianças cruzam as águas entre casas alagadas até a janela. Algumas seguram sombrinhas para se proteger do sol. Outros conduzem seus cachorros na proa, com medo que se afoguem ou que sejam atacados por cobras ou piranhas. No meio dos canais, que os caboclos de Anamã insistem em chamar de “rua”, crianças mergulham em algazarra, nadando ao lado de cachorros. Os menores são banhadas por suas mães. A cena é intrigante. Os cachorros não são colocados na canoa para evitar ataques de cobras?, questionamos. — Vocês não têm medo de cobras ou piranhas?

Meu amigo, com esse mundão de água, nem cobra quer ficar por aqui! RECEPCIONISTA DO SAMAÚMA

— Isso é onda. Nunca vi cobra comer cachorro por aqui! – responde rindo o garoto Francisco, 13, que da varanda de sua casa salta para o mergulho, dando pulos de rã. Por ter dois andares, o hotel Samaúma é o único que consegue atender à baixa temporada de visitantes que chegam à cidade. Na recepção, uma cena exótica assusta e ao mesmo tempo faz rir. Com a água no meio da canela, a recepcionista Ione Marinho Ladislau explica que tem apartamentos vagos, “mas só no andar de cima”; pois o térreo está alagado. Explica também que a diária vence ao meio-dia e que custa R$ 50. Em meio à recepção de boas-vindas, peixes, nadam por entre as pernas dos assustados hóspedes. — Se a gente contar isso fora da Amazônia ninguém vai acreditar – comenta o repórter fotográfico Ricardo Oliveira. As águas já cobriram a entrada do Samaúma, e o acesso à recepção é feito sobre marombas – assoalhos de tábuas erguidos acima do piso coberto de água –, com o cuidado de abaixar a cabeça antes de cruzar o portão. — À noite tem muito carapanã? –, pergunto, preocupado com o perigo de água empoçada e com o mosquito da dengue, um velho conhecido das regiões amazônicas. — Com isso podem ficar tranquilos. As águas que invadem a cidade são correntes. O Solimões é um rio de correnteza forte. Viu como as crianças tomam banho em frente de casa sem perigo algum? — garante Ione. — E cobra, tem? — Meu amigo, com esse mundão de água, nem cobra quer ficar por aqui! – tranquiliza a recepcionista.


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O GUARDIÃO DAS ÁGUAS RICARDO OLIVEIRA

Faltam 32 centímetros para o Solimões superar a enchente de 2012, avisa Wilson Soares, que mede a subida do rio todos os dias.

Wilson Soares da Silva mantém uma régua no local onde já foi o terreiro de sua casa. Todos os dias ele faz a medição e avisa a comunidade sobre a subida das águas MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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a última quarta–feira (21), a régua da cota d’água marcava 1,70 metro. O agricultor Wilson Soares da Silva e sua mulher, Alderi Coelho Bruno, que fazem a medição por conta própria numa régua artesanal fincada no terreiro (hoje lago) de sua casa, avisa, depois de conferir a última marca: — A cheia deste ano já superou a de

2013 e 2014. Faltam apenas 32 centímetros para superar a de 2012. A preocupação do guardião das águas tem razão de ser. A cheia histórica de 2012 foi a maior de todos os tempos, quando o velho Solimões atingiu a marca de 2,01 metros. A preocupação é que, pela subida diária do rio, a enchente de 2015 possa superar a de 2012, quando o nível do rio Solimões atingiu 1,5 metro acima do que os habitantes consideram uma cheia como a de

todos os anos. Aquele ano foi mesmo algo fora do comum. No total, 52 municípios do Estado do Amazonas foram inundados pela grande enchente no Amazonas. Mais de três decretaram estado de calamidade. Anamã foi um deles. — Dizem que lá em Tabatinga a água está baixando. Mas, eu não acredito, não. De ontem para hoje, por aqui, a água subiu 3 centímetros –, avalia o guardião das águas de Anamã. (MA)

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JOCHEN SCHONGART

O MESTRE DOS RIOS MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

As chuvas intensas nas cabeceiras do rio Solimoes e seus afluentes são a causa da grande cheia do rio Solimões que colocou 23 municípios, no Estado do Amazonas, em situação de emergência. A avaliação é do pesquisador Jochen Schongart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/ MCTI), que atua no desenvolvimento de modelos de previsão de níveis d’água (cheias) na Amazônia Central. Nesta entrevista ao EM TEMPO, o pesquisador garante que a evolução da enchente deste ano é muito similar às enchentes dos dois anos anteriores (2013 e 2014). — Isso indica que a cheia deste ano chegará em cotas máximas similares, isto é, abaixo daquela histórica observada no ano de 2012 –, analisa o pesquisador, descartando as previsões alarmantes. Schongart é graduado em ciências florestais na Universidade Albert Ludwig em Freiburg, Alemanha (1997); doutor em ciências florestais pela Universidade Georg August em Göttingen, Ale-

manha (2003), validado pela Universidade de São PauloUSP; e livre-docente (Venia Legendi) pela Universidade Albert Ludwig, em Freiburg (2014). Ele também realiza pesquisas em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisa e Tecnologia em Áreas Úmidas (Inau) e tem experiência na área de ecologia e manejo florestal. A entrevista: EM TEMPO – Na sua avaliação, o que vem causando o volume de água do Solimões, que já inundou cidades como Anamã e Tabatinga? Jochen Schongart – São as chuvas intensas nas cabeceiras do rio Solimões e seus afluentes. EM TEMPO – A enchente deste ano pode superar a de 2012, a maior da história? JS – A evolução da enchente deste ano é muito similar às enchentes dos dois anos anteriores (2013 e 2014), indicando que a cheia deste ano chegará em cotas máximas similares, ou seja, abaixo daquela histórica observada no ano de 2012.

LUCIETE PEDROSA/ASCOM INPA

EM TEMPO – O fenômeno El Niño está influenciando a subida das águas ? JS – Geralmente, eventos de El Niño (aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial Central e Leste) causam uma diminuição de chuvas nas cabeceiras, que resulta em cheias mais fracas. Porém, o El Niño de 2014/15 era um evento fraco-moderado que não influenciou muito no regime hidrológico. EM TEMPO – A tendência no futuro é que essas enchentes se agravem ou continuem como estão, porque sempre fizeram parte da natureza amazônica? JS – Não podemos prever isto. As previsões de cheias podem ser feitas para o ano corrente, mas não para períodos maiores. A hidrologia da maior hidrobacia do mundo é muito complexa, com vários fatores externos atuando, que são oscilações interanuais como as anomalias de temperaturas superficiais do Atlântico Tropical (principalmente a região norte do Atlântico Tropical) e o Paci-

Jochen Schongart, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, adverte que as agressões dos seres humanos nas cabeceiras dos rios estão mudando os regimes hidrológicos

fico Equatorial. Além disso, temos oscilações multidecadais, como a Oscilação Decadal do Pacífico, que tem fases quentes e fases frias que duram 20-30 anos, influenciando os regimes de chuvas e, consequentemente, a hidrologia. Não temos dados instrumentais em escalas espaciais e temporais suficientes na Amazônia para avaliar se as tendências recentes de aumento de intensidades e frequência de cheias severas podem ser explicadas pela variabilidade natural do regime hidrológico e se isso já

é uma manifestação de mudanças climáticas causadas pelo ser humano. Além disso, temos impactos antropogênicos como mudanças no uso de terra (desmatamento) e grande projetos de infraestrutura (pro exemplo usinas hidreléctricas) que podem causar mudanças nos regimes de cheias. EM TEMPO – Que efeitos o aquecimento global pode causar sobre o comportamento dos rios na Amazônia? JS – Ainda não temos dados

e estudos suficientes para prognosticar isso. Além das mudanças climáticas, temos a atuação do ser humano na bacia amazônica, estabelecendo usinas hidrelétricas e causando desmatamento em muitas cabeceiras de grandes rios que também podem causar mudanças nos regimes hidrológicos. Isso torna a previsão do impacto de mudanças climáticas (regionais e globais) e uso de terra (desmatamento, usinas, destruição de áreas úmidas, etc.) no regime hidrológico muito difícil.


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PREFEITO QUER SER O JK DA AMAZÔNIA RICARDO OLIVEIRA

E construir uma nova cidade em área de terra firme para fugir da fúria das águas do Solimões.

A Prefeitura de Anamã foi invadida pelas águas do rio, mas o trabalho continua sobre marombas, enquanto o prefeito Jecimar Pinheiro Matos (no destaque) trabalha para construir uma nova cidade

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ESCOLAS INUNDADAS As aulas na rede municipal de educação tiveram que ser interrompidas. Vinte e seis escolas estão alagadas, deixando 2.640 crianças sem estudar

a terça-feira (26), o prefeito de Anamã, Jecimar Pinheiro Matos (PSD), iria convidar os vereadores, empresários e líderes comunitários da cidade para visitar uma área de terra firme a 3 quilômetros do município. Esta ação, coberta de boas intenções, pode ter agradado a alguns segmentos, mas boa parte dos habitantes da cidade, com certeza, vai resistir ao ousado plano do prefeito para fugir das enchentes que durante seis meses deixam o município debaixo da d’água. — Quero mudar a cidade para outro local, uma área de terra firme, alta, onde as águas não chegam –, sonha Jecimar, que chegou ao cargo por obra do destino. Nas eleições de 2008, o então prefeito eleito, Raimundo Pinheiro, e o vice, Antônio Araújo Coelho, foram cassados por compra de votos e uso de caixa dois. Em dezembro de 2010, aconteceu uma nova eleição em Anamã e Jecimar Pinheiro Matos (PHS) venceu a disputa. Ele foi reeleito em 2012. Em entrevista ao EM TEMPO, Jecimar disse que está cansado de lutar contra a força das água do Solimões. Em quatro anos e cinco meses, ele enfrentou quatro enchentes violentas, entre elas a poderosa de 2012. — Quer dizer, consegui trabalhar somente seis meses por ano –, lamenta, reafirmando

que é por isso que pretende ser o “JK da Amazônia” e erguer uma nova cidade em área de terra firme para resolver de vez as mazelas da cheia e acabar com o sofrimento de seu povo. Para mostrar que sua decisão é séria, Jecimar Matos avisa que já tem o projeto da nova Anamã e até já o apresentou ao Ministério das Cidades. Hoje, Anamã tem 10 mil habitantes. De acordo com o cadastro da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil, 8.323 peas foram atingidas diretamente pela enchente e estão vivendo sobre marombas e canoas. — Não temos desabrigados porque alguns vão para casas de parentes construídas com dois pisos ou então migram para municípios onde a subida das águas não alcançou totalmehte a ciadade –, informa o prefeito Jecimar. Mesmo assim, 72 pessoas estão alojadas em quatro barcos. — Vamos ajudando o povo da forma que podemos. Com distribuição de tábuas de assoalho para erguer marombas, doação de gasolina para as voadeiras e com cestas básicas –, diz Jecimar Pinheiro Matos. Castigada tantas vezes pelo Solimões, Anamã teve que se adaptar ao ciclo das águas. A coleta de lixo, por exemplo, vem sendo feita em canoas, que recolhem diariamente mais de 600 quilos de resíduos, isolados em sacos plástico. A ronda policial, a cargo de 13 soldados da PM, é feita em duas

canoas com motores de rabeta. Com raras exceções, tudo está funcionando. O cartório, os bancos, a cadeia – onde foram erguidas marombas dentro das celas para tirar os detentos da água –, o comércio e até a própria prefeitura continuam funcionando. Ou em canoas ou sobre marombas, o serviço público tem que continuar. — Para resolver o problema de atendimentos médicos, transferimos o serviço para uma unidade flutuante. Mas, no posto de saúde, três médicos estão atendendo os casos mais corriqueiros sobre marombas – , informa o prefeito, observando que apenas um desses serviços, considerado essencial para a vida de Anamã, não pode ser continuado: as aulas na rede municipal de educação, onde 26 escolas estão no alagada, deixando 2.640 crianças sem aula.

RICARDO OLIVEIRA

MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

Governo do Estado decreta situação de emergência O prefeito Jecimar Pinheiro Matos, de Anamã, já tinha cobrado uma posição mais firme do governo para a situação do município, 100% debaixo d’água. Há um mês, ele relatou a situação em que a população está vivando, mas só nesta sexta-feira (29) a Defesa Civil do Estado decretou de situação de emergência em Anamã. No total, a Defesa Civil do Amazonas reconheceu o decreto de situação de emergência em mais seis municípios do Amazonas – Anori, Anamã, Manacapuru, Careiro da Várzea, no Baixo Solimões, Uarini, no Médio Solimões, e

Jutaí, na calha do Alto Solimões. Assim, sobe para 30 o número de cidades em situação extrema por conta da enchente. Nos seis municípios, 78.458 mil pessoas estão afetadas pela enchente. Por meio da Secretaria de Comunicação do Amazonas, a Defesa Civil divulgou que foram enviados kits de madeira (tábuas para assoalho, caibros e ripões), utilizados para a construção de pontes e marombas, aos municípios de Careiro da Várzea, Anamã e Anori. Já para Uarini e Jutaí, foram enviados alimentos, kits me-

dicamentos, kits dormitórios, kits higiene e hipoclorito de sódio. — Com o decreto aprovado, novas remessas de mantimentos deverão ser enviadas às cidades nos próximos dias –, anunciou o secretário da Defesa Civil do Estado, coronel Roberto Rocha. De acordo com o secretário, o governo do Estado já está atendendo esses municípios com ajuda humanitária e apoio técnico. — Com o decreto aprovado, novas remessas de mantimentos deverão ser enviadas às cidades nos próximos dias –, garantiu Rocha.

O posto de saúde continua atendendo casos de desidratação, gripe, febre, mordidas de animais peçonhentos e choques elétricos. Os casos mais graves estão sendo atendidos em uma unidade flutuante


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Uma Veneza tropical no meio da floresta FOTOS: RICARDO OLIVEIRA

Não existe uma faixa de terra sequer em Anamã. O município virou uma cidade flutuante.

Com 100% debaixo d’água, Anamã se transformou numa “Veneza tropical”, mas a vida segue sobre canoas e marombas MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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namã (AM) – Quarta-feira, 20 de maio, de uma manhã quente. A chuva deu uma trégua no melancólico inverno amazônico. O céu de brigadeiro exibe seu melhor azul e o contraste de várias tonalidades de verde fazem da floresta o maior exemplo de que a vida se renova a cada dia, sejam quais forem as condições climáticas. O início é de encher os olhos, mas, aos poucos, a visão de água, mata, céu e sol vai se tornando uma passagem monótona, quase sonolenta. O expresso “Sílvia Lopes”, que largou de Manacapuru pontualmente às 11h, corta as águas do Solimões velozmente. O rio está transbordando e, em alguns casos, alcança até a copa de árvores de menor porte. Nas maiores, sobe até ao meio. A mancha deixada pelas águas serve de régua para medir a altura de outras grandes enchentes no passado. — Aquela última marca ali é a de 2012. Viu como o rio subiu? –, observa o comerciante Adalberto Oliveira, que retor-

nava de Manacapuru, aonde foi comprar ração para os frangos que estão sendo criados praticamente na varanda de sua casa. Não existe terra em Anamã, o município virou uma cidade flutuante. Desembarcamos na cidade às 14h. Geralmente, uma voadeira faz esse percurso em até uma hora e 30 minutos. Mas o expresso é mais lento. Além disso, estávamos subindo o Solimões. No lugar das costumeiras motocicletas, bicicletas e caminhonetes de frete, que estamos acostumados a encontrar nos péssimos portos do Amazonas, dezenas de canoeiros disputando o direito de transportar os recém-chegados visitantes. O “táxi aquático” tem preços tabelados a R$ 2,00. “Mas eu posso percorrer a cidade por R$ 4,00”, oferece um barqueiro. E é com ele mesmo que iniciamos o tour pelas ruas – digo, canais – de Anamã. Luizinho Lopes das Chagas, 27, o barqueiro, entra pelo canal que antes da enchente era a rua principal do município. Mostra o posto de saúde funcionando sobre maromba, onde as pessoas

amarram a canoa e caminham sobre passarelas de madeira em busca de medicamentos para enfermidades corriqueiras em época de enchente – virose , gripe, diarreia, desidratação e, não raro, pessoas que receberam choques elétricos de fios soltos na água. Em casos de problemas mais grave, eles são encaminhados para o hospital, que agora passou a funcionar sobre uma balsa.

CIDADE FLUTUANTE O movimento da cidade Segue seu curso normal. Só que agora a vida caminha Sobre marombas e canoas Enquanto a voadeira desliza vagarosamente, observamos que o movimento da cidade continua intenso. O vaivém de pessoas segue seu curso normal. É como se os seus habitantes transitassem em ruas normais. Só que agora a vida caminha sobre marombas e barcos. No meio

As ruas se transformaram em canais, onde é possível fazer ligações do orelhão sem sair da canoa ou ir ao banco 24 horas, cujo caixa eletrônico está suspenso em jiraus de madeira, além de poder fazer uma fezinha na loteria da Caixa

do roteiro, uma cena inédita. O barqueiro Luizinho avisa que vai parar no orelhão para dar um telefonema. Isso mesmo, em Anamã, orelhões ainda são úteis. Só que o aparelho da “avenida” Álvaro Maia está praticamente submerso. Sem descer da canoa, ele tira o telefone do gancho, coloca a ficha e jura que está funcionando. É claro que desconfiamos, mas achamos por bem dar um crédito à afirmativa do canoeiro. À medida que a voadeira avança, cenas inusitadas vão surgindo. Um homem que encosta sua canoa para sacar dinheiro no caixa eletrônico onde a água já cobre metade da porta e a máquina está suspensa em maromba; filas de canoa em frete à loteria da Caixa Econômica; crianças em algazarras tomando banho de rio na frente de casa; mães dando banho em bebês; cachorros nadando de um lado para o outro da rua inundada e roupas secando em varandas e telhados, já que não existe terra para erguer o varal. Um som de autofalante chama a atenção. Descobrimos que vem de uma canoa

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que transporta pesadas caixas de som. E aí deduzimos que, em Anamã, até a propaganda volante é feita de canoa. No restaurante Regional, onde tomamos o café da manhã e almoçamos, o casal Kátia Dantas e Waldemar Souza, proprietários, conduzem a bandeja das refeições com a água batendo no meio da canela. É a primeira vez que tomamos um café quente com os pés mergulhados na água gelada. E olha que Waldemar já havia erguido uma maromba de 1 metro. O jeito agora é subir mais alguns centímetros. — Essa luta vem sendo travada desde abril e deve perdurar até o final de julho –, lamenta Waldemar, enquanto começo o trabalho para subir a maromba.


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Vida de gado sobre marombas

RICARDO OLIVEIRA

A tarefa mais difícil não é proteger o gado sobre as marombas, mas ir buscar diariamente capim para alimentá-lo, pilotando uma voadeira horas a fio, até encontrar terra firme onde a vegetação ainda não foi tragada pelo rio.

Sem largar seu cajado, Edilson Bruno monta guarda sobre a maromba para alimentar seu pequeno rebanho e defendê-lo contra os ataques de piranhas

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ntes da voadeira entrar no “lago” que um dia já foi o sítio do agricultor Edilson da Silva, 48, é possível ouvir o mugido de um boi, preso sobre uma maromba coberta de capim membeca – utilizado na alimentação de gado –, que é agora o único espaço para que os animais possam comer e se movimentar de forma limitada, quase colados entre si. Edilson é dono de um modesto rebanho de 23 cabeças de gado que foi se formando com muito sacrifício. Segurando uma vara tipo cajado, ele passa boa parte do dia em pé, sobre a maromba, ao lado de sua criação, vigiando cada movimento dos animais. É assim que ele recebe a equipe do EM TEMPO, como o guardião de sua boiada. É daquilo que produz no sítio

que Edilson tira o seu sustento, vendendo leite, banana, malva, mandioca, algo difícil nestes tempos de cheia. Com a subida do Solimões, a safra está toda perdida debaixo da água. Por isso, é preciso ficar vigilante, para ao menos salvar o gado. — A cada safra, eu chego a tirar até 600 cachos de banana. Se cada um deles está sendo vendido a R$ 30,00 isto significa dizer que nessa enchente, só com a banana, eu vou ter um prejuízo de R$ 18.000,00. Para a gente, que já luta com dificuldade, isso é um duro golpe –, lamenta Edilson. Ilhado sobre a maromba e comendo capim uma vez por dia, o gado está magro e é muito maltratado. Nos dias de sol – e o sol da Amazônia é inclemente –, algumas reses não resistem e descem o jirau de madeira para mergulhar na água do rio. E aí enfrentam outro risco: a voracidade das

piranhas. — Quando eles começam a mugir e a gente puxa para cima da maromba eles já vêm sangrando –, conta Edilson que, com o cajado mostra o peito de uma vaca sangrando, depois de ser abocanhado por piranhas. — É que o bico do peito da vaca solta um óleo que atrai as piranhas. É preciso ficar atento para evitar o pior. A correnteza forte do Solimões avança arrastando tudo pela frente. Leva também na fúria das águas a esperança e a capacidade de resistir do caboclo Edilson. São quase três meses lutando contra o flagelo da cheia. “Às vezes, sinto vontade de vender tudo e ir embora”, desespera-se, lembrando que tudo que sabe sobre o segredo do rio, da floresta e dos bichos aprendeu com o pai, Brás Bruno da Silva, um agricultor de 81 anos. — O problema é que o pai não entende essa dificuldade

e na última semana comprou novas cabeças de gado. Vamos criar onde, se todo ano passamos quase seis meses debaixo d’água? –, pergunta. Edilson está cansado. Mas a sua tarefa mais difícil não é vigiar o gado, é alimentá-lo numa área inundada. Não há terra e, consequentemente, não há pasto. Diariamente, o produtor rural tem que pegar a voadeira e pilotar horas para chegar a uma outra localidade onde ainda resta uma faixa de terra firme, onde o capim ainda não foi para o fundo. — Mas aí tem o custo da gasolina, o custo da vacina que eu tenho que ir comprar no Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas), no município de Manacapuru, a duas horas de voadeira saindo de Anamã. O capim é cortado durante horas e depois colocado na voadeira. O trabalho é árduo e, para suportá–lo dia-

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riamente, o caboclo tem que ter muita bravura, coragem e resistência. E ainda tem gente sem escrúpulos que anda por aí dizendo que o homem da Amazônia é “preguiçoso” e indolente. Eles não sabem da missa um terço. — O governo não ajuda, os políticos só aparecem por aqui em época de eleição. Não temos a quem recorrer, estamos sozinhos brigando contra uma força impossível de ser vencida, a força da natureza. Alguém pode vencer a vontade de Deus?

RICARDO OLIVEIRA

MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

Uma casa de farinha flutuante O irmãos Giliadson Souza de Abreu, 25, e Salustino Souza de Abreu, 24, passam duas horas e meia com a barriga colada no forno, revolvendo a farinha com o remo para que ela torre sem queimar. A jornada começa às 5h. Nem bem o galo cantou e eles já estão na lida, conduzindo a canoa no remo, rumo ao igarapé do Galo, onde as mulheres já esperam descascando a mandioca, colocando de molho para, em seguida, levar para a prensa e depois para a peneira. Mas uma casa de farinha não tem que estar em terra firme? É isso mesmo, só que, para fugir das águas que alagam a cidade e a zona rural, os produtores montam o forno e demais equipamentos sobre marombas. Aliás, tudo

em Anamã funciona sobre marombas. Por onde passa, a enchente vai fazendo estragos. Este ano, além da plantação de mandioca – que jogou para baixo a produção de farinha –, as águas já devastaram as culturas da laranja, mamão, banana, malva, juta e leite, cuja produção desaparece quando o gado emagrece pela escassez de capim e pelo sofrimento sobre as marombas. Depois da safra, os irmãos Souza Abreu trabalham três meses por ano para produzir, em média, de 200 a 300 sacos de farinha. Mas, com a perda de parte da safra de mandioca devido à enchente, eles produzem no máximo 80 sacos. — A água mata o plantio

verde. Às vezes, somos obrigado a colher a mandioca fora de época para salvar a safra antes que as águas inundem as plantações. Lamentavelmente, a mandioca não está nem boa para ser colhida. De acordo com o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), os prejuízos com a enchente de 2012 ultrapassaram os R$ 50 milhões. Naquele ano, com a escassez da farinha, o preço do quilo do produto no mercado municipal Adolpho Lisboa chegou a R$ 12,00. E a farinha, lógico, foi apontada como a vilã da inflação. Para se ter uma ideia, hoje o preço caiu para R$ 6,00. Mas, se as águas continuarem subindo até junho..

Salustino de Abreu e seu irmão Giliadson trabalham no forno por mais de duas horas para tentar salvar a produção de farinha, prejudicada pela cheia do Solimões


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FOTOS: RICARDO OLIVEIRA

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Josué Matos Corrêa mostra o que restou de sua safra de malva, um trabalho de seis meses que acabou no fundo do rio

A produção da malva perdida A luta sem trégua dos agricultores rurais contra a grande cheia do rio Solimões. MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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o Amazonas, a produção de malva às vezes chega ser a mais segura forma de tirar o sustento da família. De acordo com as estatísticas, no Brasil, a produção de malva e juta nos Estados do Amazonas e do Pará é responsável por mais de 70% da matériaprima da indústria de fios e de embalagens de fibras naturais. Os outros 30% demandados pelo país são atendidos por embalagens de fibras naturais importadas da Índia e de Bangladesh, cujos preços de venda no Brasil apresentam-se mais baratos do que os preços de venda dos mesmos produtos fabricados no Brasil. Como se vê, o produtor de malva da Amazônia já entra na luta em desvantagem. Agora some-se a isso a luta sem trégua contra a cheia do rio Solimões que, este ano, causou a perda de toda a safra de Anamã. Josué Matos Corrêa, 39, é um desses produtores rurais que viu toda a plantação de malva ir por águas abaixo. — É lamentável, mas 1.500 quilos de malva estão debaixo da água – , diz, apontando para o local da plantação onde apenas algumas folhas das árvores de malva ainda aparecem sobre as águas. Junto com a malva estão submersos 500 pés de bananas pacovã que, de acordo com os cálculos de Josué, dariam uma 500 cachos que seriam vendidos a R$ 25 cada. — Isso me daria um lucro de R$ 12.500. Não deu para salvar nada, porque depois que entra na água, a bananeira não se desenvolve mais –, lamenta o agricultor, que também perdeu as safras de mandioca, laranja e mamão. No Amazonas, o governo estadual incentiva a cultura de malva e juta por meio da aquisi-

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ção de sementes para apoiar malvicultores e juticultores. Os municípios produtores de malva e juta no Estado do Amazonas são Anamã, Anori, Beruri, Codajés, Coari, Careiro da Várzea, Caapiranga, Itacoatiara, Iranduba, Manaquiri, Manacapuru e Parintins. Em companhia de seus fiéis companheiros, os cães Lampião, Amália e Tigrão, ele deixa a maromba para mostrar o que ainda conseguiu salvar da malva, um pequeno lote da fibra entendido em um varal

NATUREZA AMAZÔNICA Para os produtores de Anamã, o ano tem apenas seis meses

para secar. — Vamos esperar o barco do pessoal da cooperativa e tentar conseguir algum dinheirinho com o que restou –, diz, esperançoso. Agora, é esperar a vazante para iniciar nova semeadura. Mas primeiro é preciso pisar na terra firme e só aí voltar a trabalhar a nova safra, começando do zero. E torcendo para que as águas não avancem antes da colheita. É como se em Anamã o ano tivesse apenas seis meses. Coisas da exótica natureza amazônica.

A safra de banana pacovã também foi perdida


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MÁRIO ADOLFO Equipe EM TEMPO

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omo na obra do escritor Leandro Tocantins, lançada em 1952, o rio comanda a vida em Anamã. Mas também comanda a morte, quando suas águas inundam toda uma cidade, matando a produção rural, rebanhos de gados, plantações de malva e deixando fora da escola mais de 2.640 crianças. O rio comanda a morte quando expulsa para outros municípios vizinhos ou para barcos ancorados no meio das aguas famílias inteiras de desabrigados. “O rio, sempre o rio”, escreveu Leandro Tocantins, narrando a importância do regime das águas dos rios amazônicos sobre o modo de vida dos povos da floresta e sintetizando o domínio das águas sobre os modos de vida na Amazônia. “A vida chega a ser, até certo ponto, uma dádiva do rio, e a água uma espécie de fiador dos destinos humanos”. De fato, a subida do Solimões, provocada pelo excesso de chuvas nas cabeceiras do rio e de seus afluentes, transformou a cidade em uma “Veneza tropical”. De acordo com o coordenador adjunto da Defesa Civil, Lindolfo Cardoso Filho, o nível do rio Solimões sobe uma média de 3 centímetros por dia e é quase impossível fazer uma previsão de quando a vazante vai começar. “Isso é muito relativo. Na grande cheia de 2012, as águas começaram a baixar no final de maio. Acredito que essa de 2015 pode ir de 15 a 20 de junho”.

RICARDO OLIVEIRA

O RIO COMANDA A VIDA E A MORTE O coordenador da Defesa Civil nos leva à prefeitura, onde o gabinete do prefeito e as secretarias de Educação, Administração, Finanças e Assistência Social trabalham sobre marombas. Randolfo acredita que a prefeitura já investiu mais de R$ 3 milhões na compra de madeiras, cesta básica, combustível e remédios distribuídos às famílias atingidas pela enchente, um total de 8.323 pessoas. — Só para se ter uma ideia, aqui a gasolina custa R$ 4,10. Mas a situação está sob controle. De vez em quando falta a madeira para erguer as marombas, mas aí a gente manda

A vida chega a ser, até certo ponto, uma dádiva do rio, e a água uma espécie de fiador dos destinos humanos LEANDRO TOCANTINS

buscar em Manaus. Sobre a decisão do prefeito de mudar a cidade para uma área de terra firma, Randolfo responde que no sofrimento momento da enchente, uma boa parte da população concorda. — Mas depois agem como mulher depois da gravidez. Diz que não quer mais, mas depois esquece e engravida de novo.

Como enterrar um morto numa cidade sem terra? A pergunta é inevitável: numa cidade em que não existe um pedaço de terra sequer, onde enterrar quem morre? A pergunta é pertinente, porque o cemitério São João Batista – fincado na margem esquerda do Solimões – também desapareceu sob as águas do rio. Apenas a ponta de algumas cruzes ficaram de fora. Quando isso acontece, explica

o coordenador da Defesa Civil, a prefeitura manda buscar o caixão no município vizinho de Manacapuru, o corpo é levado de canoa – seguido por um cortejo também de canoas e enterrado em uma localidade conhecida como Terra Vermelha. Localizada na zona rural, é a única área onde ainda existe uma faixa de terra firma em que um filho de Anamã pode descansar em paz.

De canoa, José Vidal rema por mais de meia hora para ir visitar seus mortos no cemitério São João, mas encontra as sepulturas debaixo d’água

RICARDO OLIVEIRA

G8

Dança sobre as águas O tradicional Festival de Cirandas de Manacapuru acontece todos os anos no mês de agosto. O desafio está próximo e a dança portuguesa “Estrela do Anamã” quer representar bem o nome de seu município. É por isso que todas as noites dezenas de canoas aportam no palco externo do Centro Cultural São Francisco, na praça da igreja, trazendo os 29 componentes da dança – entre crianças e adolescentes –, para ensaiar, incansavelmente, por mais de três horas. Com a água do rio Solimões atingindo a borda do tablado, garotas e garotos dançam freneticamente ao som de toadas e forró, com suas imagens refletindo no espelho d’água. A dança portuguesa “Estrela de Anamã” foi fundada no ano de 2010, mas só começou a brilhar em 2013. Seus componentes são alunos da rede municipal de Educação do município. Como as aulas estão suspensas, os garotos estão se dedicando aos ensaios da dança. Eles se dirigem para o Centro Cultural São Francisco por volta das 17h30 e ensaiam novos passos até as 21 h.

A dança portuguesa “Flor de Anamã” ensaia no palco sobre as águas, sonhando em brilhar no Festival de Cirandas de Manacapuru


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Especial Anamã - 31 de maio de 2015 by Amazonas Em Tempo - Issuu