

TATIANA BLASS
TORNADO SUBTERRÂNEO



O teatro do silêncio
Nem toda presença implica um som, um ruído, um por quê, um objetivo definido, um destino final. Interpretada à risca, tal constatação soa ao menos, óbvia – ou mesmo até pleonástica. Em meio ao caos contemporâneo – um tempo marcado pela eficácia, pela cacofonia e pela inquietação de tantas e distintas ordens – é fácil, no entanto, deixarmos de compreender ou elaborar acerca de todo ruído que nos cerca. Através de uma produção artística que atravessa múltiplos suportes e práticas, a artista Tatiana Blass (São Paulo, 1979) constrói, há mais de duas décadas, o corpo de uma obra que se revela tão coeso quanto – metaforicamente – volátil. Tão potente quanto falível, tão belo quanto frágil. Edificado e derretido. Invariavelmente, no entanto, exuberante em sua riqueza imaginativa.
O trânsito entre meios como a pintura, a escultura, o vídeo, a performance e a instalação é, sem dúvida, uma das marcas indeléveis que sua produção inscreve na história recente da arte contemporânea brasileira. Seja no âmbito institucional, comercial, independente, no cubo branco ou na rotina de seu ateliê, Blass edifica a espinha dorsal de uma obra altamente relevante não apenas por estes cruzamentos entre distintos campos de realização artística como pelo ímpeto em desafiar (contrariar, interromper) o curso original da função das coisas. Coisas estas que estão pelo mundo, que nos rodeiam e nos são familiares.
Se ao longo de sua trajetória a artista deixou-se atravessar e empregou em suas obras referências de campos que vão da literatura à música e além, sua atual exposição na Albuquerque Contemporânea, aponta – ainda que nunca em uma direção exata, certeira, como em sua obra, de um modo geral – para o interesse da artista pelo teatro e pelo cinema, aqui apresentado em um conjunto de trabalhos inéditos.
Na série de pinturas “Meia-luz” – cujo título é inspirado no filme “Gaslight”, dirigido por George Cukor, em 1944 – somos apresentados a composições que evocam a plasticidade cênica da obra de Pina Bausch, assim como referenciam a produção cinematográfica do diretor sueco Roy Andersson. O peculiar uso da tinta à óleo, nestes trabalhos, se dá através de uma fatura em que a tinta dilui-se pela superfície da tela, em camadas sobrepostas, que acabam por fundirem-se, tornando frente e fundo membros de uma mesma composição.
Instâncias quase indistinguíveis. São seres que observamos (voilà!) à meia-luz – ainda que frequentemente pintados em tons vibrantes e cores saturadas. Melancolia e pulsão de vida caminham juntos nas cenas criadas por Blass. Figuras mezzo humanas, mezzo abstratas; seres a desintegrarem-se em matéria pictórica, corpos que se encontram, flutuam, transitam livremente pela tela como atores sobre um palco. Cai o pano, quebra-se a quarta parede.
Já na série “Teatro de Arena _ Tornado subterrâneo”, Blass realiza composições figurativas com materiais como a cera sobre superfícies de bronze fundido, teatros quase tridimensionais a buscarem aumentar, de alguma forma, tal volume antes silenciado pelo grupo de pinturas anteriormente citadas. Pinturas estas que aparecem, também, realizadas sobre placas de vidro de grande escala, evidenciando a habilidade da artista em trabalhar em distintas e diversas superfícies pictóricas. Estas últimas, são pinturas realizadas no lado oposto daquele ao qual nos posicionamos como observadores atentos, criando recortes e intervalos entre os campos de cor na superfície do vidro e fazendo o mundo aparecer por meio de vestígios, em uma construção rigorosa e, ao mesmo tempo, sublime de cor e forma.
É este silêncio abafado – volume de som compulsoriamente interrompido pelas ações criativas de Blass – que alcança voltagem máxima na instalação “Metade da fala no chão – Bateria Preta”. Neste trabalho, somos confrontados com os fragmentos desconstruídos de uma bateria musical, em todo o seu conjunto de peças. Blass, no entanto, aperta o botão “mute” (digamos assim), ao passo em que a cera micro cristalina espalha-se pelo chão do espaço expositivo como uma matéria disforme que não apenas impossibilita o som como arquiteta um silêncio descomunal.
Estamos diante de trabalhos de uma artista cujo corpo de sua obra é sempre revelado como um organismo frankensteiniano, um bicho em peças, tramas que perdem sua função original, enfim. Silêncios que são revelados após o excesso do barulho do mundo que nos cerca nos conduzir ao desejo de assistir a um teatro do silêncio em si. Nada a ser ouvido, muito a ser dito. Estamos a ver o som e a escutar as imagens, enfim.
Victor Gorgulho


Not every presence implies a sound, a noise, a reason, a defined objective, or a final destination. Taken literally, such a statement may seem obvious—or even redundant. Amidst the contemporary chaos—a time marked by efficiency, cacophony, and a restlessness of many and varied kinds—it becomes easy to lose the ability to understand or reflect upon all the noise that surrounds us. Through an artistic production that spans multiple mediums and practices, artist Tatiana Blass (São Paulo, 1979) has, for over two decades, constructed a body of work that reveals itself as cohesive as it is—metaphorically—volatile. As powerful as it is fallible, as beautiful as it is fragile. Built and melted down. Invariably, however, exuberant in its imaginative richness.
Her fluid transition between media such as painting, sculpture, video, performance, and installation is undoubtedly one of the indelible marks her work inscribes in the recent history of contemporary Brazilian art. Whether in institutional, commercial, or independent contexts—in the white cube or the routine of her studio—Blass builds the backbone of an oeuvre that is highly relevant not only because of its crossings between distinct fields of artistic expression but also because of her drive to challenge (contradict, interrupt) the original function of things. Things that exist in the world, that surround us, that are familiar to us.
Throughout her trajectory, the artist has allowed herself to be influenced by and to employ references from fields ranging from literature to music and beyond. Her current exhibition at Albuquerque Contemporânea—though never pointing in a precise, definitive direction, as is often the case with her work—signals her interest in theater and cinema, here presented through a set of new, previously unseen works.
In the Meia-luz painting series—whose title is inspired by the 1944 film Gaslight, directed by George Cukor—we are introduced to compositions that evoke the scenic plasticity of Pina Bausch’s work, while also referencing the cinematic production of Swedish director Roy Andersson. The peculiar use of oil paint in these works manifests through a technique in which the pigment dilutes across the canvas surface in overlapping layers that ultimately fuse, making foreground and background members of a single composition.
Nearly indistinguishable instances. These are figures we observe (voilà!) in half-light, even though they are often painted in vibrant tones and saturated colors. Melancholy and life force walk hand in hand in Blass’s scenes. Figures that are half-human, half-abstract; beings disintegrating into pictorial matter, bodies that meet, float, move freely across the canvas like actors on a stage. The curtain falls; the fourth wall is broken.
In the Teatro de Arena – Tornado Subterrâneo series, Blass creates figurative compositions using materials such as wax on cast bronze surfaces—almost three-dimensional theaters that seek to amplify, in some way, the volume previously muted by the aforementioned paintings. These paintings also appear rendered on large-scale glass panels, highlighting the artist’s skill in working across different and diverse pictorial surfaces. These last pieces are painted on the reverse side from which we observe them, creating cuts and intervals between the fields of color on the glass surface and making the world appear through traces, in a rigorous and, at the same time, sublime construction of color and form.
It is this muffled silence—the volume of sound compulsorily interrupted by Blass’s creative actions—that reaches its highest voltage in the installation Metade da fala no chão – Bateria Preta. In this work, we are confronted with the deconstructed fragments of a drum set, in its entirety. Blass, however, presses the “mute” button (so to speak), as microcrystalline wax spreads across the floor of the exhibition space as a shapeless matter that not only renders sound impossible but also constructs an overwhelming silence.
We are faced with works by an artist whose oeuvre is always revealed as a Frankensteinian organism—a creature in pieces, plots that lose their original function, ultimately. Silences that emerge after the excess of the world’s noise has led us to desire witnessing a theater of silence itself. Nothing to be heard, much to be said. We are seeing sound and hearing images, at last.
Victor Gorgulho











































p.1: Longilonge #3, 2024
Esmalte sintético sobre vidro, 80 X 100 cm
p.3, 4 ,7 e 52: Metade da fala no chão_ Bateria preta, 2025
Quatro baterias e cera microcristalina com pigmento preto,
150 X 500 X 500 cm
p.9: Metade da fala no chão_ Flautim, 2025
Flautim e resina com pó de ferro, 8 X 10 X 50 cm
p.13-15: Pela janela lateral #1, #2 e #3, 2025
Esmalte sintético sobre vidro
p.17: Longilonge #4, 2025
Esmalte sintético sobre vidro, 80 X 100 cm
p.18: Longilonge #5 e #6, 2024
Esmalte sintético sobre vidro, 30 X 40 cm
p.19: Brasília #1 e #2, 2023
Esmalte sobre vidro, 30 X 40 cm
p.21-23: Teatro de Arena_Tornado Subterrâneo #1, 2025
Óleo e cera sobre bronze fundido e vídeo, 100 X 150 cm, 00:02:06
p.24-27: Teatro de Arena_Tornado Subterrâneo #2, 2025
Óleo e cera sobre bronze fundido e vídeo, 100 X 150 cm, 00:01:35
p.29-33: Teatro de Arena_Tornado Subterrâneo #3 a #7, 2025
Encáustica sobre resina com pó de ferro
p.34-35: Longilonge #2, 2025
Esmalte sintético sobre vidro, 200 X 300 cm
p.36-37: Longilonge #1, 2025
Esmalte sintético sobre vidro, 200 X 300 cm
p.39: Meia Luz #3, 2024
Óleo sobre tela, 190 X 250 cm
p.41: Meia Luz #1, 2024
Óleo sobre tela, 80 X 120 cm
p.42: Meia Luz #7, 2025
Óleo sobre tela, 150 X 200 cm
p.44: Meia Luz #5, 2025
Óleo sobre tela, 250 X 190 cm
p.45: Meia Luz #4, 2025
Óleo sobre tela, 250 X 190 cm
p.46: Meia Luz #6, 2025
Óleo sobre tela, 200 X 300 cm
p.48: Corda bamba #1, 2024
Óleo sobre tela, 30 X 40 cm
p.49: Meia Luz #2, 2025
Óleo sobre tela, 100 X 120 cm
Tornado Subterrâneo
Tatiana Blass
24 de Junho a 30 de Agosto de 2025
June 24th to August 30th, 2025
Albuquerque Contemporânea
Rua Antônio de Albuquerque 885 - Savassi 30112-011, Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil albuquerquecontemporanea.com
ISBN: 978-65-981908-8-0

Ficha técnica da exposição:
Assistência artística e produção geral: Mariana Zani
Produção da bateria: Henrique Fonseca
Fundição, resina e moldes: Fundição Ana Vladia
Serralheria: Ocri Design e JL Serralheria
Molduras e telas: Atelier Baumecker
Fotografia e edição dos vídeos: Lucas Barbi
Agradecimentos: Flávia Albuquerque, Lucas Albuquerque, Bernardo Paz, Paulo Soares, Mariana Zani, Antonio Blass, Sofia Blass, Adrielle Gualberto, Manuel Carvalho, Sarah James, Henrique Fonseca e toda equipe da Albuquerque Contemporânea
Equipe / Team:
Flavia Albuquerque
Lucas Albuquerque
Angelita Bauer
Carlos Donato
Jade Liz
Jackson Cardoso
Julia Zanon
Maria Silva
Raphaella Bauer
Sarah James
Texto / Text: Victor Gorgulho
Fotografias / Photographs: Jaime Acioli
